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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Católicos por Cristo

 


Vi os católicos por Seguro e não gostei. Acredito nas boas intenções, mas ser católico não é uma bandeira política. Não se pode reduzir a Fé a uma identidade: há os não socialistas por Seguro, os trabalhadores por Seguro, os que bebem café por Seguro, os católicos por Seguro.

Vi os católicos por Ventura e gostei ainda menos. Mais uma vez, estarão cheios de boas intenções, mas a verdade é que pegam em citações do Magistério que confirmam a sua opinião, ignoram várias outras, e transformam o voto em Ventura numa obrigação de um católico.

Repare-se: acho muito bem que os católicos se empenhem na política. É essencial que tenham consciência de que também a Fé está relacionada com a política. E é bom que, na hora de votar, a Fé seja o factor essencial no seu discernimento. E sejamos claros: quando falamos de Fé, falamos daquilo que a Igreja ensina, a sua doutrina, o seu magistério, não de uma opinião difusa.

Mas o trabalho que é preciso fazer é, partindo daquilo que a Igreja ensina, olhar para as opções disponíveis e decidir em consciência à luz da Fé. Ora, ambos os manifestos fazem o percurso contrário: partem da sua opinião sobre os políticos em causa e colam pedaços da Doutrina da Igreja para confirmar o que já tinham decidido. Ou seja, reduzem a Fé à sua ideologia.

A escolha de dia 8 não é fácil. Infelizmente, não só nenhum dos candidatos defende aquilo que a Igreja ensina sobre o poder político, como, pelo contrário, ambos defendem coisas gravemente contrárias aos ensinamentos da Igreja. Desde a defesa da eutanásia por António José Seguro aos constantes ataques a emigrantes e ciganos por Ventura, os dois candidatos oferecem razões suficientes para um católico, em abstracto, não votar em nenhum.

Mas não somos chamados a escolher a pessoa que gostaríamos de ter como Presidente da República, e sim a escolher entre duas pessoas concretas. A Fé deve ajudar nesse discernimento, mas isso dá trabalho. É preciso estudar, é preciso ler e ouvir os candidatos, ajuizar a situação política e tentar discernir qual dos dois poderá ser mais útil ao Bem Comum, como a Igreja o propõe.

Reduzir a Fé a uma bandeira ideológica, tentando que esta encaixe na nossa opinião pessoal, é mais fácil, mas é, de facto, ser “católico por Ventura” ou “católico por Seguro”. O que a Igreja nos propõe é sermos de Cristo. Não se pode servir a dois senhores.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

ANTES DE TUDO, VIVA O PAPA

Que bom que é voltar a ter Papa, seja ele quem for.
Não sei mais sobre Leão XIV do que aquilo que ontem se foi dizendo nas televisões e na internet, mas estou muito feliz por voltarmos a ter um Papa. Acho imensa graça a esta necessidade moderna de tentar adivinhar todo um pontificado com base em pouco mais do que uma página da Wikipédia e alguns tweets. Felizmente, como não tenho qualquer obrigação de ocupar um espaço de comentário, abstenho-me dessa triste figura de fingir ser especialista sobre um homem de quem, até ontem, só sabia o nome.
Mas gostei muito do nome que escolheu. Gostei porque, nestes tempos tão ideologicamente marcados, a evocação de Leão XIII — o Papa que, às ideologias liberais e marxistas, opôs uma doutrina baseada na Fé — me parece muito feliz. Também hoje, recordar a dignidade humana perante ideologias desumanizantes, tanto à esquerda como à direita, é essencial. Gosto também porque, como ontem me lembrava um caro amigo, remete para São Leão Magno, o Papa que enfrentou o flagelo de Deus, Átila, o Huno, e o fez retirar-se de Itália. Também hoje os bárbaros, vindos de várias origens, estão às portas de Roma, e esperamos que Leão XIV tenha o mesmo sucesso que o seu santo predecessor.
Gostei muito também das palavras do Santo Padre. A forma clara como anunciou Cristo Ressuscitado como fonte da verdadeira paz, a devoção que demonstrou a Nossa Senhora, o apelo claro à paz e à missão. Depois destes dias de Sede Vacante, foi um conforto para o coração voltar a ouvir Pedro.
Amei o Papa assim que saiu fumo branco, mesmo antes de saber quem era. Como ensinava São João Bosco aos seus alunos: gritamos "viva o Papa", seja quem for o Papa. Mas o que vi e ouvi da varanda de São Pedro confortou-me e animou-me.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Fátima: uma história inverosímil

 

Fotografia Arlindo Homem no site da Agência Ecclesia.

Fátima é uma história muito inverosímil. Por que razão Nossa Senhora, estando no Céu, podendo aparecer a quem quisesse, haveria de escolher três crianças analfabetas, de um ermo esquecido, no país mais atrasado da Europa? Não faria mais sentido aparecer a uma multidão ateia de Paris ou ao Rei protestante de Inglaterra? Não seria mais eficaz?

Mas se olharmos com atenção, este é o método de Deus desde a Sua Encarnação. Porque se parece pouco razoável aparecer a três crianças na Cova da Iria, não parece mais compreensível encarnar num pedaço esquecido do Império Romano (nem para província tinha estatuto) e escolher uma dúzia de populares, entre os quais o mais letrado era o cobrador de impostos!

Mas este é o método que Deus usou para se revelar. De forma misteriosa demonstra a Sua preferência revelando-se a um homem. Já assim era desde o tempo em que escolheu Abrão em Ur ou Moisés no Egipto e escolheu David, e Elias e todos outros profetas.

Por isso que Nossa Senhora tenha escolhido três crianças na Cova da Iria para entregar a sua mensagem pode parecer pouco eficiente a alguns, mas é simplesmente continuar a usar o método do Seu Filho.

E este método é um convite à liberdade de cada um. E é comovente que o amor maternal da Virgem Maria seja tal, que mesmo tendo o Seu Filho completado a revelação, a Sua Mãe se dê ao trabalho de vir até a um canto remoto de Portugal para nos convidar a converter.

Leio por estes dias, diante do espetáculo de beleza que é o povo na Cova da Iria no 13 de Maio, o habitual desfiar de disparates sobre Fátima. E comove-me ainda mais pensar que Nossa Senhora, que conhece o coração dos homens e por isso bem sabia que assim seria, mesmo assim amar de tal maneira o mundo que se sujeitou a ser alvo de tantas blasfémias só para nos salvar.

Fátima é sem dúvida inverosímil. Como Deus fazer-se carne no estábulo é. A nós resta-nos agradecer este estrondoso mistério e fazer como Nossa Senhora nos pediu.

domingo, 24 de março de 2024

Crianças na Missa: não há nada a fazer

 



Um dos temas recorrentes para os pais católicos é as crianças na missa. Mais especificamente, como conseguir que as crianças se interessem pela missa, que no fundo expressa a preocupação de como conseguir que os nossos filhos se interessem pela Fé.

Conforme os meus filhos vão crescendo e me vão surpreendendo com a sua piedade, convenço-me que esta minha preocupação é uma pretensão. No fundo, eu acho que tenho alguma coisa a acrescentar à missa e será essa minha ideia que há de a tornar atrativa para os meus filhos.

A experiência mostra-me que não há nada que eu, ou outra pessoa já agora, possa acrescentar que torne a missa mais interessante para os miúdos. As músicas irão sempre ser menos divertidas que as do Pando, os teatros menos interessantes que os da escola e dá muito mais jeito desenhar em casa que no banco da Igreja.

Se há uma coisa que a experiência me ensinou é que a única coisa interessante na missa é Cristo. A única coisa que realmente atrai na missa, que de resto é a única coisa que interessa na Fé, é que Deus se fez homem, nasceu nas palhinhas, pregou, fez milagres, foi preso, torturado e humilhado, morreu na Cruz, ressuscitou e faz-se presente misteriosamente nesta companhia que é a Igreja e carnalmente na Eucaristia. E este facto, que é aquilo que a mim me atrai na Igreja, é o mesmo facto que atrai os meus filhos. E até os atrai mais, porque têm um coração mais puro do que o meu.

Por isso a única coisa que preciso de fazer é ajudar os meus filhos a estarem atentos na missa, ensinar-lhe as orações com que eu mesmo fui educado, falar-lhes das Escrituras. Sobretudo, preciso eu próprio de viver a sério a Fé. E assim, pela graça de Deus, eles vão crescendo em Fé e Piedade. Repetindo os gestos que nos vêm fazer, repetindo as orações que rezam connosco, vivendo a Fé que nós vivemos. E como em todas as relações de amor, também a relação entre eles e Jesus irá crescendo e amadurecendo, tal como nos aconteceu a nós.

sábado, 23 de dezembro de 2023

Testemunhas de um facto


 

Excerto da homília do Padre João Seabra de dia 18 de Dezembro de 2016, IVº Domingo do Advento.

O Natal não é uma recordação piedosa de algo do passado; não nos voltamos para trás porque, se assim fosse, cada ano que passasse o Natal estava cada vez mais longínquo, seria uma recordação vaga, e celebrávamo-lo com menos intensidade do que o celebraram os nossos avós. Portanto, estaria cada vez mais distante e nós, pelo contrário, celebramo-lo como um acontecimento presente. O que é que significa a palavra “tradição”? Significa que fazemos hoje de novo aquilo que aconteceu no princípio. O que é que significa aproximarmo-nos do presépio e venerámos o Menino Jesus? É vivermos de novo, sobrenaturalmente, na ordem do Sacramento, aquilo que aconteceu na história. E por isso eu, hoje, no século XXI não sou menos beneficiado, nem menos feliz, do que o foram os pastores e os magos que adoraram o Menino em Belém.

Como acontecimento humano, o Natal pertence a um tempo determinado; mas como acontecimento sobrenatural é meu contemporâneo. Jesus entrou na história não para ficar delimitado aos 33 anos da Sua vida entre nós, mas para ser contemporâneo de todos os homens. Jesus é contemporâneo de todos o que o precederam, de todos os que viveram no Seu tempo e de todos os que nascera depois d’Ele. É também nosso contemporâneo, nasce hoje, nasce dentro de uma semana, para podermos, como os pastores e os magos, ir ao presépio vê-Lo com os olhos da Fé.

É o que acontece na Eucaristia. O corpo de Cristo que nasceu da Virgem Maria, que foi crucificado e morto, que ressuscitou, que está glorioso no Céu, encontra-se na Eucaristia para me amparar, mas para me fazer companhia, para ser meu amigo. E eu posso caminhar com Ele na margem do Lago de Tiberíades; posso pedir-Lhe como os discípulos: Senhor ensina-me a rezar (Lc 11,1); posso contempla-Lo pregado na Cruz; posso ir com Ele a caminho do Emaús, escutando-O a ensinar-me as Escrituras. Posso fazer tudo isto porque Ele é meu contemporâneo e está presente na minha vida. A nossa fé não é nada menos do que isto! Não somos visionários de um sonho, somos testemunhas de um facto. Vivemos de um facto que aconteceu há dois mil anos e que acontece hoje. Deus que se fez homem para fazer companhia à minha vida é um Mistério presente, aqui e agora.

Pedimos ao Senhor para não descermos a fasquia da nossa expectativa do Natal. Reconheçamo-lo presente com fé verdadeira, confiemos Nele para mudar a nossa vida, para mudar aquilo de que já desistimos ou não somos capazes de mudar, para fazer de nós gente nova pelo poder da Sua Graça. Faltam sete dias para o Natal. Quanta conversão se pode fazer em sete dias! Quanto regresso a Deus, quanto perdão das ofensas, quanta graça acolhida, quanta oração sincera, quantas coisas boas podemos fazer em sete dias para chegar ao Natal com um coração novo, para recebermos o Senhor com a nossa casa preparada e as portas escancaradas.

Que o meu coração não seja a hospedaria onde não há lugar para o receber, mas a gruta, ainda que pobre e tosca, onde Ele se pode reclinar e recebe a adoração dos pastores e dos magos que somos todos nós. Que o Senhor nos dê um Natal Santo, um Natal de conversão e de esperança.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Na Exaltação da Santa Cruz.


Hoje é dia da exaltação da Santa Cruz, uma das mais misteriosas festas do cristianismo. O normal é festejar as grandes vitórias, como o nascimento ou a ressurreição. Mesmo o sacrifício, mesmo sendo um momento de derrota, é razoável celebrar: o amor e a coragem de quem se oferece pelos outros. Mas hoje celebramos a próprias Cruz. Celebramos o instrumento da tortura do Nosso Salvador.

Exaltamos a cruz, porque foi o sofrimento que Jesus nela sofreu que redimiu os nossos pecados. A cruz lembra-nos que a morte, a dor, o sofrimento, não têm a última palavra. Nem o mais atroz sofrimento, nem a mais flagrante injustiça, nem o drama mais esmagador têm a palavra definitiva. O sofrimento, a dor, a injustiça, a morte, entregues a Deus são possibilidade de redenção. É no maior sofrimento, totalmente despojados de todos os confortos do mundo, que podemos imitar verdadeiramente a Cristo e entregarmo-nos totalmente nas mãos de Deus.

Nada disto é fácil, nem imediato. O Padre João Seabra, que hoje faria 74 anos, explicava na última homilia que fez no dia dos seus anos: “A vida toda não chega para perceber isto, para começar a perceber isto: começar a perceber o bem que há para nós na derrota, no fracasso, no insucesso, nos tormentos, na morte. É este o significado desta festa: aprendermos a amar as circunstâncias em que Deus nos ama, e deixarmo-nos amar por Deus como Deus nos ama.”

O Padre João foi para nós, foi para mim, um claro testemunho da liberdade que só é possível na Cruz. Na liberdade a quem mais nada resta do que o Senhor. Por isso esta festa é tão importante: para vivermos com os olhos na Cruz na qual fomos, e continuamente somos, redimidos.


domingo, 9 de julho de 2023

JMJ: uma oportunidade de conversão

 


A Jornada Mundial da Juventude é um acontecimento extraordinário. Participei em duas (em Colónia e em Madrid) e não conheço nada que se pareça. São ruas e ruas cheias de jovens em festa, de todas as partes do mundo. Miúdos de todo o mundo, com uma enorme diversidade de gostos, de dons, de carismas. E essa diversidade expressa-se nas catequeses, nas exposições, nos concertos, nos milhares de eventos que acontecem durante a semana que culmina com a Vigília e a Missa de Encerramento com o Papa.

Toda esta multidão de jovens na rua são um espetáculo extraordinário. E tudo isto se passa numa serenidade, numa alegria, numa paz que não é habitual numa multidão tão grande.

Mas para que se faz a JMJ? É que organizar um evento assim dá uma enorme trabalheira a milhares de pessoas. Já não falo do dinheiro gasto, mas dos milhares de pessoas que dão o seu tempo pela JMJ. Tudo isto para quê?

A resposta é dada por São João Paulo II logo na primeira JMJ - “A Jornada Mundial da Juventude significa precisamente isto: sair ao encontro de Deus, que entrou na história do Homem através do Mistério Pascal de Jesus Cristo. E Ele quer encontrar-vos primeiro a vocês, jovens. E a cada um quer dizer: segue-me!”

A JMJ não é apenas um belo encontro de jovens, um mega-acampamento de Verão, um festival para meninos bem-comportados. Nem sequer um encontro de jovens bem-intencionados que quer mudar o mundo. Isso, a acontecer, é tudo consequência. A JMJ, como tudo aquilo que a Igreja faz, existe para testemunhar Cristo presente.

Por isso, a grande beleza da JMJ é a oportunidade de conversão que oferece a cada um. Ou seja, a oportunidade de responder ao convite de Cristo: segue-Me!

Tudo o resto é manifestação da conversão a Jesus. Toda a beleza, toda a alegria, toda a felicidade que se vive na JMJ são manifestação do encontro de Cristo. E existem para que cada um que peregrina até à JMJ tenha a oportunidade de converter o seu coração Àquele que é fonte de toda a Beleza, de toda a Alegria e da Felicidade Eterna.

Eu sei que atualmente as pessoas não gostam de falar de conversão. Vivemos no tempo do relativismo, onde dizemos que tudo é igual. Mas eu não posso acreditar que Jesus é Deus feito carne e depois não desejar que os outros o conheçam. Se eu encontrei Aquele que responde a todas as exigências do meu coração, como posso querer que os outros não o conheçam? Para um cristão não desejar a conversão dos outros só pode ser uma de duas coisas: ou falta de caridade ou falta de fé! Ou não desejo o bem do outro, ou não acredito que Jesus é quem diz que É.

A JMJ, em toda a sua grandeza, é assim uma oportunidade única de obedecer ao mandato evangélico que Jesus nos deixou “ide por tudo o mundo e anunciai o Evangelho”. É evidente que daqui até à JMJ, e durante a própria Jornada, haverá coisas que nos incomodam, com as quais não concordamos. Iremos ouvir os maiores disparates, e uma tentativa de reduzir este ímpeto de São João Paulo II a uma experiência mundana, tornando a Igreja numa ONG. Mas não desperdicemos esta oportunidade. Esta oportunidade ante de mais para nós, que vivemos em Portugal. Oportunidade de conversão do nosso coração a Jesus, que se manifesta neste povo imenso que vai encher Lisboa. Mas também a oportunidade de anunciar Jesus a centenas de milhares de jovens.

A Igreja é uma realidade divina, que vive numa realidade humana. Uma realidade humana cheia de limites e imperfeições. Não nos deixemos por isso chocar com os limites alheios, venham de onde vierem, e coloquemos o olhar em Cristo.

Como nos ensinou São João Paulo II, não tenhamos medo de escancarar as portas a Cristo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Bento XVI: Um Papa amado pelo povo de Deus


 


Durante todo o seu pontificado foi igual. Onde quer que Bento XVI fosse o povo de Deus acorria em massa para o encontrar, perante o contínuo espanto da comunicação social que previa sempre que era naquela viagem que o Papa não ia ser bem recebido.
Porque o diagnóstico estava feito desde o primeiro instante. Os opinadores já tinham decretado que a Igreja precisava de um Papa jovem, progressista, de um país pobre e o Espírito Santo tinha-se enganado e escolhido um cardeal velho, pilar doutrinal do pontificado de João Paulo II e o país mais rico da Europa. Por isso o sucesso de Bento XVI foi sempre um mistério para aqueles que observam a Igreja pelo olhar do mundo.
O mito de um Papa impopular, que ainda hoje perdura em alguns círculos, foi desmentido pelas multidões de todo o mundo: daqueles que enchiam todas as semanas São Pedro, dos jovens de Colónia, de Sidney, de Madrid, das famílias em Valença, na Cidade do México, de Milão, e do povo de Deus em todo o mundo: do Brasil à sua Alemanha, de Inglaterra a Portugal, dos Estados Unidos aos Camarões. Para quem se interessa mais pela realidade do que por narrativas, era evidente que Bento XVI era um Papa muito amado. O Papa alemão não teve apenas um enorme sucesso juntos dos intelectuais (que o reconheciam como um os seus maiores), teve sempre um enorme sucesso junto do povo cristão.
E por isso só quem durante todos estes anos esteve cego pelo seu preconceito se pode espantar com o espetáculo dos últimos dias em São Pedro. São milhares os peregrinos que fazem fila para se ir despedir daquele homem humilde trabalhador da vinha do Senhor.
Olhando para estas multidões não podemos deixar de perguntar como Jesus “O que é que foram ver no deserto? “. E a resposta é a mesma: um profeta! Uma voz que neste deserto espiritual e carnal, clama “preparai o caminho do Senhor”. Bento XVI, tal como João Baptista, nunca se pregou a si mesmo, mas apontou sempre o Senhor. Aquele homem genial, tímido, que só queria regressa à sua Baviera, ofereceu-se como cordeiro sacrificial para cumprir a vontade de Deus.
E depois aquele momento, aquele momento onde silenciou um mundo que não se cala, ao anunciar a sua renúncia. Uma decisão que não compreendi, mas na qual confiei, porque diante de um santo como Bento XVI, que conhecia a Deus como eu nunca poderei conhecer, mesmo quando não se compreende, confia-se.
Neste deserto de egoísmo e de individualismo, onde cada vez mais se afirma o próprio eu, Bento XVI afirmou sempre um outro, testemunhou sempre o próprio Deus, ofereceu-se continuamente ao Seu Senhor, para nos confirmar a nós na Fé. E foi isto que as multidões foram ver, uma fonte de água pura no meio o deserto.
Dizia o então Cardeal Ratzinger, na missa «PRO ELIGENDO ROMANO PONTIFICE»: “Por fim, voltemos mais uma vez à carta aos Efésios. A carta diz com as palavras do Salmo 68 que Cristo, subindo ao céu, "deu dádivas aos homens" (Ef 4, 8) O vencedor distribui dons. E estes dons são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. O nosso ministério é um dom de Cristo aos homens, para construir o seu corpo o mundo novo. Vivamos o nosso ministério assim, como dom de Cristo aos homens! Mas nesta hora, sobretudo, peçamos com insistência ao Senhor, para que depois do grande dom do Papa João Paulo II, nos ofereça um pastor segundo o seu coração, um pastor que nos guie ao conhecimento de Cristo, ao seu amor, à verdadeira alegria.” Demos graças a Deus por nos ter dado um Pastor assim.
SANTO SUBITO!

terça-feira, 30 de agosto de 2022

“Se não fosses tu meu Cristo sentir-me-ia criatura finita” São Gregório Nazianzeno



No último Domingo fui à missa a uma Igreja que nunca tinha ido. O motivo era o baptismo de uma aluna da minha mulher. Fui um pouco a contragosto: era fora de Lisboa, tínhamos chegado de uma viagem grande no dia anterior e a hora era pouco convidativa para ir com os miúdos. Para piorar o meu humor, a criança mais nova decidiu passar boa parte da missa fazer barulho e por isso estive a todo o tempo no corta vento, sem conseguir prestar grande atenção.

Chegado à altura da comunhão tinha decidido não ir comungar: tinha estado distraído, estava um pouco irritado com as crianças, e estavam pessoas à porta do corredor central. Quando estava nestes pensamentos, percebi que o padre estava a distribuir a comunhão pela Igreja: de repente estava à minha frente, com o Corpo de Cristo nas mãos. A mim restou-me pouco mais do que aceitar esta misericórdia, de um Senhor que passa por cima da minha pequenez para vir ao meu encontro. Comovi-me como há algum tempo não me comovia na missa.

Mas se me comovi, não me espantei, porque felizmente foi assim toda a minha vida. A minha vida é marcada por este Deus encarnado que constantemente vem até a mim. Não uma ideia, não uma moral, mas uma Pessoa, que se torna presente nesta companhia concreta que é a Igreja: na minha família, nos meus amigos, no testemunho dos santos, na graça dos sacramentos, na beleza da liturgia, na caridade da Doutrina!

E o encontro com Cristo dá à minha vida todo um novo horizonte. Tenho experimentado o cem vezes mais aqui na terra e isso fortalece a minha certeza na vida eterna.

Mas é impossível compreender aquilo que a Igreja propõe sem Cristo. A castidade, a fidelidade, a doação de si, a obediência, só são compreensíveis na relação com Jesus. Sem Ele, não passam de regras e preceitos ocos.

Por isso é natural que num tempo onde se esqueceu Jesus, onde a Fé é reduzido a uma moral ou a uma ideologia, a proposta da Igreja pareça desadequada e ultrapassada. Também se compreende que, quem olha para a Igreja como mais uma organização, como um mero conjunto de pessoas ligada por uns rituais, as preocupações principais sejam as do mundo: quem manda, quem gere, se todos são “iguais”. De facto, a Igreja sem Cristo, tem os mesmos defeitos que qualquer outra instituição humana.

É Cristo que abre um novo horizonte, é Cristo que torna uma realidade completamente humana como a Igreja, numa realidade sobrenatural e eterna.

O relatório português do Sínodo foi por isso para mim uma experiência muito útil, porque me ajudou a identificar com clareza o grande problema da Igreja no nosso tempo. A mistura de ideologia com sindicalismo, tudo misturado com a linguagem inclusiva e as preocupações mundanas que hoje tanto ocupam alguns activistas, deixou claro a ausência de Jesus. De facto Cristo é o grande ausente deste relatório, porque é também o grande ausente da pastoral da Igreja. E este é o maior drama: é que ignorando Cristo, fica apenas o que é humano, ou seja ignora-se o eterno.

Para mim a Igreja é a presença de Cristo. E é essa presença que constantemente redime a minha pequena humanidade. A única urgência da Igreja devia ser levar essa presença a cada pessoa. O resto vem por acréscimo.




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segunda-feira, 18 de abril de 2022

Aqui o prior educa-nos na Fé.




A história conta-se rapidamente. No fim dos anos 90, um dos bispos auxiliares do Patriarcado de Lisboa fez uma visita pastoral à paróquia de Santos-o-Velho. Durante a visita teve um encontro com os paroquianos onde perguntou qualquer coisa sobre o haver realidades muito distintas na paróquia e se isso causava algum problema. Respondeu um homem bom e caridoso da paróquia, mas conhecido pela falta de simpatia: “isso não é um problema, aqui o prior educa-nos na Fé”.

Lembro-me muitas vezes desta história, sobretudo quando regressam ao debate público as posições da Igreja sobre a sexualidade.

Eu, como centenas (talvez milhares) tive a graça de ter sido educado na Fé por aquele prior. Ou seja, fui educado no amor a Cristo e à Sua Igreja. E isto passa também, como é evidente, pela visão cristã do corpo, do amor e da sexualidade. Mas nunca me dei conta de que a moral sexual fosse central, ou sequer especialmente importante naquilo que pregava. O essencial foi sempre o encontro com a presença de Cristo, aqui e agora. O resto veio por acréscimo.

Porque a moral da Igreja não é apenas conjunto de normas para regular a vida dos católicos. A moral da Igreja brota do próprio Senhor e é a forma mais adequada, mais humana, de viver esta vida e conquistar a próxima. 

Mas é impossível compreender a moral da Igreja sem ser à luz da Fé. Só o encontro com Cristo é capaz de mudar o coração do Homem. A beleza daquilo que a Igreja propõe, incluindo a sexualidade, só é compreensível nesta relação com Jesus.

Vivo por isso muito agradecido por ter um mestre que me educa na Fé. Para mim nunca foi difícil aceitar a moral sexual da Igreja. Pelo contrário, sempre achei a visão do corpo como morada do espírito, o acto sexual como oferta de si mesmo, a imagem do outro como dom e não como objecto, das coisas mais belas que conheço.

Não quer dizer que seja fácil, nem a Igreja diz que é. Como diz São Paulo aos Romanos: Nem me compreendo, pois não faço aquilo que queria fazer e faço o mal que detesto.

Neste tempo de hipersexualização, onde os corpos são exibidos e vendidos como objectos, neste tempo de egoísmo, da ditadura das sensações, propor e viver a pureza e a virgindade não é fácil, mas não deixa de ser verdade.

Por isso a Fé é essencial. Porque a relação com Cristo é a única coisa de realmente interessante que a Igreja tem para oferecer. É Ele que ilumina toda a realidade, é Ele que nos permite irromper da escravidão do pecado e viver de forma humana. Sobretudo, só com Ele nos podemos levantar após cada queda.

Concordo com os que dizem que se fala demasiado da moral sexual da Igreja. Sobretudo, aqueles que a querem mudar e que reduzem todo o drama humano, sobretudo o dos jovens, a saber com quem se pode ir para cama. É uma visão redutora da humanidade. Aquilo que faz falta à Igreja não é mudar o que é eterno mas dar testemunho da presença viva de Cristo. D’Aquele que estava morto, mas ressuscitou. Tudo o resto vem por acréscimo.

Resumindo, está tudo naquela resposta do homem maldisposto: aqui o prior educa-nos na Fé!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

É Natal, festejemos!



Gosto muito do Natal! Gosto das músicas, da árvores de Natal, dos enfeites, dos presentes, de tudo. Até começo a gostar um pouco do Pai Natal! A única coisa com que embirro no Natal é os típicos ralhetes sobre os excessos que se cometem nesta altura e o discurso moralista, sempre com um certo azedo, sobre o “verdadeiro sentido do Natal”.

Claro que reconheço que nesta altura se cometem muitos excessos: muita comida, muitas festas, muitos presentes. Mas a verdade é que o Natal é em si mesmo um excesso, talvez o maior de todos os excessos: Deus encarnou! Deus fez-se um bebé. Usou fraldas, teve cólicas, bolsou! E fez tudo isto para me poder salvar a mim. Haverá excesso maior do que este? E será possível conter a alegria, evitar levá-la ao excesso, quando celebramos o nascimento do Deus Menino?

Bem sei que muitos festejam o Natal sem pensarem em Jesus. Falam da magia do Natal, da festa da família, de um tempo de partilha. Mas essa é a beleza do Natal: é um facto, quer as pessoas se lembrem ou não do nascimento do Deus Menino. É um acontecimento de tal maneira portentoso, que marca de tal maneira a história, que até aqueles que não conhecem Jesus, ou que não o querem conhecer, festejam o seu nascimento. A luz de Belém irrompe as trevas e ilumina toda a terra. Não me espanta ou preocupa que todos a festejem, mesmo os que não conhecem a origem da luz.

E o Natal é daqueles mistérios que quanto mais nos debruçamos a contemplar maior é o espanto pela infinita ternura de Deus. Um Deus feito carne. O Todo o Poderoso que se fez completamente dependente. O Omnipresente que não tinha lugar na hospedaria. O Rei dos Reis numa corte de pastores. Aquele que criou todas as coisas, que se faz filho de uma rapariga de Nazaré e assim a torna Mãe de Deus! Como é possível que o Mistério de Natal não nos deixe a transbordar de alegria e de gratidão?

Por isso a mim incomoda-me apenas os ralhetes moralistas sobre o Natal. Daqueles que vivem o Natal amargurados com o consumismo, com o Pai Natal ou com as Boas-festas. Deixem-me dizer que se o verdadeiro Natal é passar todo o tempo a ralhar porque se fala pouco do Menino Jesus, então não estou interessado! E é pouco provável que alguém acredite quando dizemos que Deus se fez homem se isso se traduz numa amargura e não numa alegria inebriante. Porque se é verdade que aquele Menino no Presépio é Deus, então como é possível não estar alegre? Se o próprio Deus irrompe na escuridão e vem ao nosso encontro, como é possível não exultar?

Há muito tempo para a tristeza, para o sacrifício e para a ascese. O Natal é tempo de alegria e de felicidade. Porque o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, um menino nos foi dado, um filho nasceu para nós. Será chamado Deus grande, Pai eterno, Conselheiro admirável, Príncipe da Paz! Por isso festejemos!

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O Natal não é quando o homem quer.



Tenho lido por aí repetidamente que o Natal este ano pode ser cancelado. Não querendo chatear ninguém, mas seria bom que não nos déssemos assim tanta importância. Se é verdade que o Governo chamou a si o poder de tolher de maneira idiota e desproporcional os nossos direitos, a verdade é que o Natal ainda não está à disposição dos homens.

Relembro aos mais distraídos que o Natal é um acontecimento histórico preciso: Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. (...) José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

Como se pode perceber, é pouco provável que este facto possa ser simplesmente “cancelado” por conta de uma pandemia. Sobretudo, porque sendo um facto histórico concreto (também me parecia difícil cancelar o cerco de Alésia!), é ao mesmo um acontecimento sobrenatural: Deus fez-se carne e habitou entre os homens. E por isso não nos limitamos a recordar um acontecimento histórico, mas fazemos memória da Encarnação Divina. Pela Sua Misericórdia, Jesus volta a nascer no coração de cada homem de boa vontade, que esteja disposto a fazer do seu coração uma manjedoura.

Evidentemente que se podem cancelar todas as festividades: as luzes, os concertos, os jantares de amigos, as festas das escolas e os encontros familiares. Num acesso de loucura o Primeiro-Ministro pode proibir a venda de bacalhau e a Dra. Graça Freitas pode declarar que o Bolo Rei ajuda na propagação do vírus. Em última instância até podem fechar as Igrejas e guardar todos os presépios do país em caixas. Nada disso impedirá o nascimento do Deus Menino, nem impedirá os cristãos de o acolher no seu coração! O Natal acontece, celebrado nas catacumbas ou nas basilicas papais, nas trincheiras geladas ou em casa junto à lareira, nos pequenos casebres ou nos palácios reais. A verdade é que celebramos o Natal há dois mil anos, com perseguições, guerras e pandemias. E nunca ninguém conseguiu esse belo feito de cancelar o Natal. E se por ventura, em algum momento, a Igreja peregrina desaparecer e ninguém na terra celebrar o Natal, este será para sempre celebrado pela multidão dos Santos que nos antecederam.

O Governo pode cancelar todos os festejos de Natal (ou pelo menos tentar). Mas esses festejos, por muito bons que sejam, são apenas uma consequência do Natal. Gostava que não acontecesse, porque gosto muitos das tradições natalícias: gostos dos cantos, dos presentes, de reunir a família. Até começo a gostar do Pai Natal. Mas se tal vier a acontecer, não muda em nada o Natal. Com ou sem luzes, com sem árvores de Natal, um facto permanece até ao fim dos tempos (e até para a eternidade): O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. (...) Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz».

Por isso não nos apoquentemos com o que há de vir, assunto sobre o qual pouco ou nada podemos fazer. Preparemos-nos antes para este extraordinário mistério do Nascimento do Deus Menino.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Covid-19: Cristo ou o nada.




Nada é mais insuportável ao homem contemporâneo do que descobrir que não é completamente autónomo, independente. Vivemos num tempo em que o homem tem a pretensão de ser senhor de si mesmo, de controlar tudo. Sou eu que me faço: decido o meu sexo, afasto a velhice, escolho quando morro, quantos filhos tenho. Rejeito toda a autoridade moral ou filosófica, sendo eu único árbitro do certo e do errado. A pretensão humana de autonomia chega ao cúmulo de querer controlar o clima!

Evidentemente esta pretensão é ridícula. O homem contemporâneo é como a criança pequena que veste a roupa de adulto e brinca aos crescidos. Por muito bem que imite a mãe ou o pai, a verdade é que não deixa de ser uma criança que corre para os pais quando esfola o joelho! O Homem por muito que faça de Criador continua a ser sua criatura.

A pandemia da Covid-19 veio por a nu a fragilidade desta pretensão. De repente o homem contemporâneo viu todo o seu mundo suspenso. E não foi algo que aconteceu nos países pobres e subdesenvolvidos, mas que paralisou as nações mais poderosas do mundo. De repentes os senhores do mundo viram-se desarmados diante de algo tão velho como o mundo: uma praga. E a verdade é que todo a ciência, todo o desenvolvimento, toda a riqueza foram incapazes de derrotar a praga. A única coisa que pareceu resultar foi ceder: fechar-nos em casa e esperar que passe! O homem omnipotente viu-se reduzido a cativo de um simples vírus.

E é este facto que aterrorizou o mundo. Não o vírus em si: tantas doenças que matam muito mais que a Covida-19! O que realmente assustou a nossa sociedade foi defrontar-se com a ideia que não depende apenas de si. Que é impotente. Que a realidade está acima da nossa capacidade.

Há uma tentativa de responder como se tivéssemos controlo da situação. O patético #vaitudoficarbem é disso sinal: claro que não vai tudo ficar bem e que ninguém ainda sabe como isto vai acabar. Há pessoas a morrer, a economia mundial está arrasada, não sabemos que acontecerá se isto chegar a países pobres. Dizer que vai tudo ficar bem não passa de uma mentira piedosa, como dizemos tantas vezes às crianças para que não se assustem quando há um perigo. Depois temos também o zelo pelo confinamento, a tentativa desesperada de nos convencermos que de facto há algo que podemos fazer para derrotar a praga. Claro que a prudência é uma coisa boa, mas também é claro que o confinamento quanto muito atrasa o ritmo de contágio, mas não vai resolver o problema.

Estas respostas procuram apenas esconder o problema central desta pandemia, que é também o problema central do Homem, e que procuramos ignorar: nós não controlámos a realidade, nós não somos senhores do destino, nós somos apenas criaturas dependentes.
E é essa dependência que tanto assusta. Porque o Homem contemporâneo, que enterrou Deus, ao descobrir-se dependente, crê estar dependente da natureza, das circunstâncias, do destino. É dependente do nada. Isso aterroriza. É voltar aos tempos do paganismo, que adorava a natureza caprichosa que não compreendia e que temia. Aos pagãos que ofereciam sacrifícios para aplacar os deuses e ter boas colheitas ou vitórias na guerra. Esta ideia é de facto sufocante.

Há contudo uma alternativa: «Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?» A Fé é a resposta a esta dependência. Ao contrário do que hoje se costuma dizer, a fé não é um sentimento, nem algo irrazoável. A Fé é a resposta mais razoável ao drama humano. Porque só há duas alternativas Deus ou o nada. E quem olhando para o mundo, quem olhando para tanto de extraordinário no mundo, pode razoavelmente dizer que somos fruto do nada?

Cristo não é uma mera figura histórica, não é um mestre. Cristo oferece-se como resposta ao drama humano. O cristianismo não é um estilo de vida, não é um método de coaching, não é uma forma de superação, mas o encontro com Aquele que responde plenamente ao Homem.

Evidentemente a Fé não resolve o problema do coronavirus. Não nos livra da doença, nem da morte. Como aliás, não cancela nada do drama humano. Mas torna-nos livres. Livres do medo que paralisa. Por isso cuidamos da saúde, cuidamos dos nossos, mas não tememos a vida, nem sequer a morte. Porque sabemos que não estamos entregues ao acaso, mas nas mãos Daquele que nos amou desde o momento da Criação.

Bem sei que para o nosso tempo as coisas que digo são estranhas. Parecem loucura. Mas há dois mil anos de santos que me acompanham. E parece-me que é mais razoável seguir os seus passos, do que a pretensão moderna de ser senhor do seu destino. Quanto mais não seja, por verificar quão rapidamente essa pretensão ruiu no ultimo mês.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Sem histerismo nem facilitismo: a serenidade da Fé.








Confesso que tenho estado perante este surto do Covid-19 com uma sensação mista de incredulidade e algum desânimo. Ao contrário de tanta gente que leio nas redes sociais, não consigo ter grandes certezas sobre o tema. Não sei se as escolas deviam ou não fechar, se o país devia ser posto em quarentena. Não alinho no histerismo, mas também não partilho da opinião de que isto é tudo culpa da comunicação social.

É evidente que estamos diante de algo grave, quanto mais não seja pelo pouco que se sabe sobre este vírus. E se o histerismo não nos leva a lado algum, é importante a prudência. Se de facto não for assim tão grave, só teremos perdido alguns dias com constrangimentos. Se o caso for realmente grave, então provavelmente daremos esses constrangimentos por bem empregues.

Também tenho assistido a muita zanga com este tema. Zanga com o Governo, com a DGS, com as pessoas que vão à praia, com as pessoas que compram demasiado papel higiénico. Também não consigo partilhar dessa zanga. Toda esta situação é demasiado nova, demasiado desconhecida, tem demasiadas variáveis. É normal que haja desorientação nos governantes. É normal que as pessoas não saibam reagir. E se este vírus vai sem dúvida afectar a vida social (já ninguém se atreve a abraçar amigos, quanto mais um desconhecido), acrescentar a esse afastamento zangas e acusações não me parece útil. Sim, também vi as fotografias das praias cheias. E sim, também acho inconsciência. Mas sejamos honestos: quantos de nós temos levado completamente a sério todas as indicações médicas contra a propagação do Convid19? Eu confesso que só há dois dias é que comecei a lavar as mãos mais vezes do que o costume.

Sobre este tema não tenho qualquer opinião ou conselho para dar que seja útil. E a verdade é que a maior parte das pessoas que dá opiniões sobre o tema também não. Há esta necessidade de ter e exprimir opinião sobre todos os assuntos. Parece-me que nesta crise tal necessidade só tem trazido confusão. A opinião que conta, e que devemos seguir, é a dos especialistas.

A verdade é que estamos impotentes diante desta ameaça. Pouco ou nada podemos fazer para a travar. Resta-nos por isso o supremo acto de humildade que é pedir. Pedir Àquele que tudo pode. Pedir para que ilumine os nossos Governantes. Para que dê forças aos nossos médicos e enfermeiros que estão à beira de uma batalha imprevisível. Pedir pelo nosso país. Pedir pelos que estão doentes e pela alma dos que já morreram.  E virar o olhar para Maria Santíssima, Consoladora dos Aflitos, Saúde dos Enfermos, Auxílio do Povo Cristão.

Poucas orações me consolam tanto como a oração de São Bernardo de Claraval a Nossa Senhora. Que a certeza da Fé nos ajude e sustente neste tempo de tribulação a não ceder ao medo e ao desespero.

Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria,
que nunca se ouviu dizer
que algum daqueles
que têm recorrido à vossa protecção,
implorado a vossa assistência,
e reclamado o vosso socorro,
fosse por Vós desamparado.
Animado eu, pois, de igual confiança,
a Vós, Virgem entre todas singular,
como a Mãe recorro,
de Vós me valho e,
gemendo sob o peso dos meus pecados,
me prostro aos Vossos pés.
Não desprezeis as minhas súplicas,
ó Mãe do Filho de Deus humanado,
mas dignai-Vos
de as ouvir propícia
e de me alcançar o que Vos rogo.