We few, we happy few, we band of brothers; For he today that sheds his blood with me Shall be my brother
sexta-feira, 9 de maio de 2025
ANTES DE TUDO, VIVA O PAPA
segunda-feira, 13 de maio de 2024
Fátima: uma história inverosímil
Fotografia Arlindo Homem no site da Agência Ecclesia.
Fátima é uma história muito inverosímil. Por que razão Nossa
Senhora, estando no Céu, podendo aparecer a quem quisesse, haveria de escolher
três crianças analfabetas, de um ermo esquecido, no país mais atrasado da Europa?
Não faria mais sentido aparecer a uma multidão ateia de Paris ou ao Rei protestante
de Inglaterra? Não seria mais eficaz?
Mas se olharmos com atenção, este é o método de Deus desde a
Sua Encarnação. Porque se parece pouco razoável aparecer a três crianças na Cova
da Iria, não parece mais compreensível encarnar num pedaço esquecido do Império
Romano (nem para província tinha estatuto) e escolher uma dúzia de populares, entre
os quais o mais letrado era o cobrador de impostos!
Mas este é o método que Deus usou para se revelar. De forma misteriosa
demonstra a Sua preferência revelando-se a um homem. Já assim era desde o tempo
em que escolheu Abrão em Ur ou Moisés no Egipto e escolheu David, e Elias e
todos outros profetas.
Por isso que Nossa Senhora tenha escolhido três crianças na
Cova da Iria para entregar a sua mensagem pode parecer pouco eficiente a
alguns, mas é simplesmente continuar a usar o método do Seu Filho.
E este método é um convite à liberdade de cada um. E é
comovente que o amor maternal da Virgem Maria seja tal, que mesmo tendo o Seu
Filho completado a revelação, a Sua Mãe se dê ao trabalho de vir até a um canto
remoto de Portugal para nos convidar a converter.
Leio por estes dias, diante do espetáculo de beleza que é o
povo na Cova da Iria no 13 de Maio, o habitual desfiar de disparates sobre
Fátima. E comove-me ainda mais pensar que Nossa Senhora, que conhece o coração
dos homens e por isso bem sabia que assim seria, mesmo assim amar de tal
maneira o mundo que se sujeitou a ser alvo de tantas blasfémias só para nos
salvar.
Fátima é sem dúvida inverosímil. Como Deus fazer-se carne no
estábulo é. A nós resta-nos agradecer este estrondoso mistério e fazer como
Nossa Senhora nos pediu.
domingo, 24 de março de 2024
Crianças na Missa: não há nada a fazer
Um dos temas
recorrentes para os pais católicos é as crianças na missa. Mais especificamente,
como conseguir que as crianças se interessem pela missa, que no fundo expressa
a preocupação de como conseguir que os nossos filhos se interessem pela Fé.
Conforme os
meus filhos vão crescendo e me vão surpreendendo com a sua piedade, convenço-me
que esta minha preocupação é uma pretensão. No fundo, eu acho que tenho alguma
coisa a acrescentar à missa e será essa minha ideia que há de a tornar atrativa
para os meus filhos.
A experiência
mostra-me que não há nada que eu, ou outra pessoa já agora, possa acrescentar
que torne a missa mais interessante para os miúdos. As músicas irão sempre ser
menos divertidas que as do Pando, os teatros menos interessantes que os da
escola e dá muito mais jeito desenhar em casa que no banco da Igreja.
Se há uma coisa
que a experiência me ensinou é que a única coisa interessante na missa é
Cristo. A única coisa que realmente atrai na missa, que de resto é a única
coisa que interessa na Fé, é que Deus se fez homem, nasceu nas palhinhas, pregou,
fez milagres, foi preso, torturado e humilhado, morreu na Cruz, ressuscitou e faz-se
presente misteriosamente nesta companhia que é a Igreja e carnalmente na Eucaristia.
E este facto, que é aquilo que a mim me atrai na Igreja, é o mesmo facto que
atrai os meus filhos. E até os atrai mais, porque têm um coração mais puro do
que o meu.
Por isso a
única coisa que preciso de fazer é ajudar os meus filhos a estarem atentos na
missa, ensinar-lhe as orações com que eu mesmo fui educado, falar-lhes das Escrituras.
Sobretudo, preciso eu próprio de viver a sério a Fé. E assim, pela graça de
Deus, eles vão crescendo em Fé e Piedade. Repetindo os gestos que nos vêm fazer,
repetindo as orações que rezam connosco, vivendo a Fé que nós vivemos. E como
em todas as relações de amor, também a relação entre eles e Jesus irá crescendo
e amadurecendo, tal como nos aconteceu a nós.
domingo, 9 de julho de 2023
JMJ: uma oportunidade de conversão
A Jornada Mundial da Juventude é um acontecimento extraordinário. Participei em duas (em Colónia e em Madrid) e não conheço nada que se pareça. São ruas e ruas cheias de jovens em festa, de todas as partes do mundo. Miúdos de todo o mundo, com uma enorme diversidade de gostos, de dons, de carismas. E essa diversidade expressa-se nas catequeses, nas exposições, nos concertos, nos milhares de eventos que acontecem durante a semana que culmina com a Vigília e a Missa de Encerramento com o Papa.
Toda esta multidão de jovens na
rua são um espetáculo extraordinário. E tudo isto se passa numa serenidade, numa
alegria, numa paz que não é habitual numa multidão tão grande.
Mas para que se faz a JMJ? É que
organizar um evento assim dá uma enorme trabalheira a milhares de pessoas. Já
não falo do dinheiro gasto, mas dos milhares de pessoas que dão o seu tempo pela
JMJ. Tudo isto para quê?
A resposta é dada por São João
Paulo II logo na primeira JMJ - “A Jornada Mundial da Juventude significa precisamente
isto: sair ao encontro de Deus, que entrou na história do Homem através do Mistério
Pascal de Jesus Cristo. E Ele quer encontrar-vos primeiro a vocês, jovens. E a
cada um quer dizer: segue-me!”
A JMJ não é apenas um belo encontro
de jovens, um mega-acampamento de Verão, um festival para meninos bem-comportados.
Nem sequer um encontro de jovens bem-intencionados que quer mudar o mundo.
Isso, a acontecer, é tudo consequência. A JMJ, como tudo aquilo que a Igreja
faz, existe para testemunhar Cristo presente.
Por isso, a grande beleza da JMJ
é a oportunidade de conversão que oferece a cada um. Ou seja, a oportunidade de
responder ao convite de Cristo: segue-Me!
Tudo o resto é manifestação da
conversão a Jesus. Toda a beleza, toda a alegria, toda a felicidade que se vive
na JMJ são manifestação do encontro de Cristo. E existem para que cada um que peregrina
até à JMJ tenha a oportunidade de converter o seu coração Àquele que é fonte de
toda a Beleza, de toda a Alegria e da Felicidade Eterna.
Eu sei que atualmente as pessoas
não gostam de falar de conversão. Vivemos no tempo do relativismo, onde dizemos
que tudo é igual. Mas eu não posso acreditar que Jesus é Deus feito carne e
depois não desejar que os outros o conheçam. Se eu encontrei Aquele que
responde a todas as exigências do meu coração, como posso querer que os outros
não o conheçam? Para um cristão não desejar a conversão dos outros só pode ser uma
de duas coisas: ou falta de caridade ou falta de fé! Ou não desejo o bem do outro,
ou não acredito que Jesus é quem diz que É.
A JMJ, em toda a sua grandeza, é assim uma oportunidade única de obedecer ao mandato evangélico que Jesus nos deixou “ide por tudo o mundo e anunciai o Evangelho”. É evidente que daqui até à JMJ, e durante a própria Jornada, haverá coisas que nos incomodam, com as quais não concordamos. Iremos ouvir os maiores disparates, e uma tentativa de reduzir este ímpeto de São João Paulo II a uma experiência mundana, tornando a Igreja numa ONG. Mas não desperdicemos esta oportunidade. Esta oportunidade ante de mais para nós, que vivemos em Portugal. Oportunidade de conversão do nosso coração a Jesus, que se manifesta neste povo imenso que vai encher Lisboa. Mas também a oportunidade de anunciar Jesus a centenas de milhares de jovens.
segunda-feira, 26 de junho de 2023
A escravatura do Orgulho
A direita-conservadora vive fixada nesse espantalho que é o
marxismo-cultural. Ou seja, vive fixa na ideia de que uma filosofia falhada e
derrotada no século XX é a principal ameaça cultural do nosso tempo.
Não digo que partes da teoria marxista, sobretudo a adaptação
da luta de classes à luta interseccional, não influencie os grandes debates culturais
do nosso tempo. Mas o problema mais dramático da cultura contemporânea não é o
marxismo, mas o liberalismo individualista.
Vivemos hoje no primado do individualismo, onde o Homem é
aquilo que diz sobre si mesmo, onde a realidade não interessa, apenas interessa
aquilo que eu digo. Um tempo onde toda a sociedade tem de aceitar aquilo que eu
digo sobre mim e tudo aquilo que se opõe à minha ideia sobre mim mesmo é uma
agressão.
Isto é especialmente vivível na causa LGBT, que vai
acrescentando sempre mais letras, de forma a acomodar cada vez mais “identidades”.
O Homem passou a ser definido pelas suas atracões e pela sua sexualidade,
deixando de ser filhos de Deus para ser filhos da moda, da sociedade, filhos de
si mesmos.
E esta maneira de olhar para a sexualidade, centrado em si
mesmo, afirmando que tudo o que me sacia sexualmente é válido (excepto o que
for crime, então aí é preciso mudar a lei) e que qualquer opinião que diga o
contrário é repressiva, é profundamente anti-humano. Esta visão da sexualidade,
centrado apenas nos meus gostos e necessidades, significa reduzir o outro a um
mero objecto de prazer. O individualismo reduz o próprio a uma criança mimada e
o resto da humanidade a objectos que existem para o meu desfrute.
O resultado está à vista, apesar de toda as promessas de
libertação sexual que há de trazer a felicidade à humanidade, finalmente livre
de barreiras da moral, temos uma sociedade cada vez mais infeliz, cada vez mais
incapaz de se relacionar, cada vez mais violenta, cada vez mais depressiva.
Por isso é especialmente preocupante ver a Igreja alinhar
nesta mentalidade. A Igreja sempre afirmou com clareza que o Homem não é
definido pelo seu pecado. O Homem foi criado para Deus, e é definido pela Graça
de Deus. E por isso a Igreja a todos acolhe como Mãe, no convite contínuo a aderir
a Cristo. Por isso a Igreja sempre falou com pessoas com tendências homossexuais,
não permitindo que a sexualidade de uma pessoa a definisse.
Infelizmente, são cada vez mais os documentos que falam de
pessoas LGBT (com mais ou menos letras), como se a sexualidade de uma pessoa definisse
quem ela é. Como se de repente, houvesse uma classe à parte, diferente de
pessoas, a quem o convite de Cristo a segui-lo não se aplicasse completamente,
por causa da sua sexualidade.
Esta falsa misericórdia não é acolher ninguém, não é
respeitar ninguém, pelo contrário, é reduzir pessoas iguais a mim a uma única
dimensão da sua vida. No fundo, mesmo que não seja essa a intenção, é dizer que
às pessoas com tendências homossexuais, ou que não se identifiquem com o seu sexo,
de alguma forma, não lhes é oferecido o mesmo que é oferecido a mim.
Isto porque a moral sexual da Igreja não é um menos, não é
uma obrigação, é uma graça. É uma forma mais Humana, mais bela, mais plena de
se viver. Tratar uma pessoa apenas de acordo com o que diz sobre si, e não de
acordo com aquilo que Deus diz sobre ela, é recusar a essa pessoa a dignidade
de criatura de Deus. E isso não é dramático apenas para a sociedade, é dramático
sobre para essas pessoas, a quem a Igreja recusa a Graça de Deus em troca de
uma ideologia mundana.
O mês de Junho, mês
do Sagrado Coração de Jesus, mês dos Santos Populares, transformou-se no mês do
Orgulho. E orgulho é o que mais define esta sociedade, onde o Homem recusa a
paternidade Divina, e prefere-se criar à sua própria imagem e semelhança. O
movimento LGBT não defende ninguém, nem promove qualquer igualdade, apenas ajuda
a impor a escravatura do individualismo egoísta. Que o poder do mundo, vergado
por esse individualismo, alinhe sem reserva nesse discurso não me espanta
(embora me dê pena). Mas a Igreja tem o dever de ser Luz do Mundo, e de
continuar a afirmar a Liberdade dos filhos de Deus num mundo de escravos do
orgulho.
quarta-feira, 22 de março de 2023
Os padres aos leões!
Quando no dia 18 de Julho do ano 64 começou o grande incêndio de Roma, logo se espalharam os rumores de que os culpados seriam os cristãos. A juntar a esta terrível acusação, logo outras surgiram: que envenenavam poços, que fariam sacrifícios rituais de crianças bebendo o seu sangue, que fariam orgias, etc. A revolta popular foi tanta que o povo de Roma gritava “os cristãos aos leões”. Claro que os boatos eram falsos e tinham por finalidade ocultar o verdadeiro culpado do incêndio de Roma (e de várias outras acusações dirigidas aos cristãos), o Imperador Nero, que assim encontrou alvos perfeitos para satisfazer a turba.
O método de exaltar a turba com denúncias anónimas foi usado repetidas vezes ao longo da história, muitas vezes resultando em enormíssimas mortandades. Quantas vezes ao longo da história minorias foram perseguidas com bases em rumores falsos, espalhados por quem os queria destruir?
A denúncia anónima sempre foi o método preferido dos tiranos, desde o tempo dos césares, até às ditaduras actuais. A denúncia anónima sempre foi um método extramente eficaz de eliminar adversários, praticar vinganças mesquinhas e manchar inocentes.
Por isso, o Direito tem um enorme cuidado no que toca a denúncias anónimas. Em Portugal, para que uma denúncia anónima seja sequer investigada, é preciso que existam indícios de um crime. Não basta dizer às autoridades informações vagas, sem sequer nomear a vítima. Uma denúncia que se limite a dizer que a pessoa x fez o crime y há z anos terá como destino o lixo.
Isto é um princípio básico de qualquer Estado de Direito. Qualquer pessoa tem o direito de não ver a sua vida investigada e revirada só porque um qualquer adversário decidiu fazer uma denúncia falsa às autoridades.
Este princípio era bastante unanime até há poucas semanas. Infelizmente agora parece aplicar-se a todos, excepto aos padres. Desde a publicação do Relatório da Comissão Independente, e da afirmação de Pedro Strech (que afinal era falsa) de que haveria cem abusadores vivos, gerou-se um movimento, capitaneado por Daniel Sampaio e Laborinho Lúcio, a exigir a suspensão sem mais, de qualquer sacerdote indicado no dito relatório.
O problema é que o relatório é baseado em denúncias anónimas que a Comissão não validou, como já veio admitir. O trabalho da Comissão foi ouvir as denúncias e compilar a informação. Não houve qualquer tipo de investigação. Daí o número de mortos, desconhecidos ou já investigados que constavam na famosa lista entregue às dioceses. Contudo, isso não impediu deputados, colunistas, e membros da própria Comissão, ao arrepio de todo o Direito, de exigir que qualquer padre referido, independentemente de provas ou indícios, fosse suspenso.
Há neste momento sacerdotes suspensos por conta de denúncias que nem sequer dariam para abrir um inquérito no Ministério Público. Uma denúncia anónima, enviada digitalmente, sem se saber quem é a vítima, ou que crime foi cometido, ou onde, é suficiente para suspender a vida de um sacerdote. Pouco importa que não haja qualquer prova ou indício, pouco importa uma vida inteira ao serviço dos outros sem qualquer suspeita, pouco importa o testemunho de milhares de pessoas, uma única denúncia anónima (que não servia sequer para abrir um inquérito na polícia) basta. Tudo para satisfazer a sede de sangue popular.
Isto não é justiça, isto não é colocar as vítimas em primeiro lugar, isto é simplesmente a barbárie. No Twitter clama-se “os padres aos leões” e assim é. As vítimas merecem justiça, não ver a sua dor ser usada com arma de arremesso.
Que aqueles que de forma publica, ou por secretas obediências, odeiem a Igreja, não se importem de subverter a justiça, é normal. É assim desde Nero.
Ver pessoas de bom senso que para aplacar a revolta pelos tenebrosos crimes de alguns sacerdotes estarem dispostos a fazer o mesmo, é assustador.
A Comissão fez o seu trabalho recolhendo denúncias. O Relatório não é sobre eles, nem sobre as suas agendas, mas sobre as vítimas. Agora é a hora de se remeterem ao silêncio e permitirem à justiça trabalhar.
Quanto ao Padre Mário Rui Pedras, afastado do seu extraordiário trabalho pastoral por uma vil denúncia anónima, fico-me pelas palavras de Nosso Senhor: “Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal de vós. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos céus a vossa recompensa”.
domingo, 12 de março de 2023
Sobre a confusão dos números recebidos pela CEP
sexta-feira, 10 de março de 2023
Liberdade da Igreja
Ontem no Parlamento vários partidos decidiram não apenas criticar a Igreja, mas explicar aquilo que a Igreja deveria fazer na questão dos abusos de menores. Também o Presidente da República decidiu criticar a Conferência Episcopal Portuguesa sobre este assunto e fazer sugestões sobre o comportamento da Igreja, como aliás já tinha feito André Ventura. Estamos perante dois enormes equívocos que não podemos deixar passar.
terça-feira, 7 de março de 2023
A hipocrisia habitual de Isabel Moreira
Isabel Moreira assina um artigo no Expresso que é um tratado de jacobinagem. A senhora deputada vem clamar que é preciso o Estado intervir na Igreja, proibir a doutrina sexual nas Igrejas, acabar com a confissão e várias outras coisas.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023
No país esquecido, sobra a igreja
Portugal é um país cada
vez mais deserto. Por todo o país existem vilas e aldeias onde já quase nada
há, a não ser um conjunto de pessoas que vão envelhecendo. Os centros de saúde
e os hospitais, as esquadras, os tribunais, as escolas, os correios, os bancos,
os serviços públicos em geral, vão se tornando cada vez mais distantes, deixando,
para quem vive fora das cidades, uma qualquer máquina automática e uma suposta
digitalização, que a população envelhecida dessas terras não compreende.
A única realidade que
se mantém presente em todo o país, muitas vezes com dificuldades e recorrendo a
alguma originalidade, é a Igreja. Em quase todas as aldeias de Portugal, por
muito longínquas e desertas que estejam, lá está a Paróquia. E sabe Deus quantas
vezes essa paróquia é acompanhada pelos únicos serviços sociais que a população
têm acesso: um centro de dia, um agrupamento de escuteiros, os Vicentinos, e
tantas outras realidades que se tornam a única vida social no país profundo.
Uma vez visitei um
sacerdote amigo meu, de Trás-os-Montes, que tinha ao seu cuidado nada menos do
que catorze paróquias. Lembro-me bem de o acompanhar a uma missa que celebrava semanalmente
ás 7h ou às 8h da manhã: uma Igreja escura, gelada, mas lá estava ele a
celebrar para meia dúzia de velhotes.
Mas não é apenas nesse
Portugal esquecido que a Igreja é a única presença social. Em quantos bairros
das grandes cidades, esquecidos pelo poder (assim como assim é quase tudo
pessoas sem direito a voto), a Igreja está presente? Penso nas Missionárias da
Caridade em Chela, nos meus amigos de Comunhão e Libertação no Casalinho da
Ajuda, nos Franciscanos do Bairro Padre Cruz, e tantos outras realidade em
tantos outros bairros.
A obra educativa e
social da Igreja em Portugal não tem qualquer paralelo. São milhares de escolas,
de lares, de centros sociais, de obras de caridade, que diariamente acolhem,
educam, alimentam, vestem, cuidam daqueles a quem o Estado a e sociedade não chegam.
Obras que vivem da vida oferecida de consagrados e leigos, e também da generosidade
do Povo de Deus. Porque mesmo aquelas obras que são IPSS só conseguem sobreviver
com a generosidade desse povo.
A Igreja permanece
hoje, como desde o princípio da nacionalidade, como a única realidade social
presente em todos os recantos do país. Também por isso é tantas vezes guardiã
da cultura e da arte do nosso povo. As nossas festas populares estão sempre
ligadas à devoção. E por isso de norte a sul a fé do povo vai mantendo vivas as
nossas tradições.
E o fruto dessa devoção,
das tradições seculares, vê-se no património religioso. Desde as catedrais às
humildes capelas perdidas no meio do nada, são milhares de obras de arte que espelham
uma vida de fé milenar. Num país onde o património do Estado vai ruindo, a fé
do povo vai mantendo vivo um património de valor incalculável.
Todo este esforço da
Igreja, se fazer presente, de servir o próximo, de conservar as tradições, de
cuidar do património, tem como fim a salvação das almas. A missão da Igreja não
é ser uma ONG, ou animador cultural, nem restauradora de património, mas
anunciar Cristo. Mas o fruto deste trabalho é que a Igreja tem em Portugal um
papel social incomparável.
Imagine-se o que seria
o nosso país sem as obras sociais da Igreja, sem a suas escolas, sem as festas
religiosas, sem os cruzeiros, as capelas, os santuários, as igrejas, as
basílicas e as catedrais. Quantos ficariam sem tecto? Quando passariam fome?
Quantos ficariam sozinhos na sua doença? Quantas famílias não teriam quem cuidasse das
suas crianças, dos seus deficientes, dos seus idosos? Quantas terras ficariam
sem as suas festas? Quantas cidades perderiam o seu património mais valioso?
Muitas vezes se fala do
suposto apoio do Estado à Igreja, tantas vezes mentido e deturpando. Mas era
bom termos a consciência de que o Estado precisa bastante mais da Igreja, do
que a Igreja do Estado. A Igreja existe há dois mil anos, e viveu nas
catacumbas de Roma e nas Catedrais de França, na Polónia comunista e na Europa medieval,
sempre sem perder a Fé. O Estado é que,
incapaz de socorrer os mais desvalidos, incapaz de se fazer presente no país
profundo, incapaz de manter o seu património cultural, depende da Igreja e do
seu povo.
Eu também espero que
não se gaste mal dinheiro na Jornada Mundial da Juventude. E também acredito na
separação entre a Igreja e o Estado. (sobretudo porque acredito na liberdade da
Igreja em relação ao poder). Mas não esqueço que existe um país real, para lá
da bolha das redes sociais, um país pobre e abandonado pelo poder. E nesse país
esquecido não estão os opinadores, os políticos, os “comediantes”, nem sequer o
Estado. Nesse país só está a Igreja.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2023
Bento XVI: Um Papa amado pelo povo de Deus
terça-feira, 30 de agosto de 2022
“Se não fosses tu meu Cristo sentir-me-ia criatura finita” São Gregório Nazianzeno
No último Domingo fui à missa a uma Igreja que nunca tinha ido. O motivo era o baptismo de uma aluna da minha mulher. Fui um pouco a contragosto: era fora de Lisboa, tínhamos chegado de uma viagem grande no dia anterior e a hora era pouco convidativa para ir com os miúdos. Para piorar o meu humor, a criança mais nova decidiu passar boa parte da missa fazer barulho e por isso estive a todo o tempo no corta vento, sem conseguir prestar grande atenção.
Chegado à altura da comunhão tinha decidido não ir comungar: tinha estado distraído, estava um pouco irritado com as crianças, e estavam pessoas à porta do corredor central. Quando estava nestes pensamentos, percebi que o padre estava a distribuir a comunhão pela Igreja: de repente estava à minha frente, com o Corpo de Cristo nas mãos. A mim restou-me pouco mais do que aceitar esta misericórdia, de um Senhor que passa por cima da minha pequenez para vir ao meu encontro. Comovi-me como há algum tempo não me comovia na missa.
Mas se me comovi, não me espantei, porque felizmente foi assim toda a minha vida. A minha vida é marcada por este Deus encarnado que constantemente vem até a mim. Não uma ideia, não uma moral, mas uma Pessoa, que se torna presente nesta companhia concreta que é a Igreja: na minha família, nos meus amigos, no testemunho dos santos, na graça dos sacramentos, na beleza da liturgia, na caridade da Doutrina!
E o encontro com Cristo dá à minha vida todo um novo horizonte. Tenho experimentado o cem vezes mais aqui na terra e isso fortalece a minha certeza na vida eterna.
Mas é impossível compreender aquilo que a Igreja propõe sem Cristo. A castidade, a fidelidade, a doação de si, a obediência, só são compreensíveis na relação com Jesus. Sem Ele, não passam de regras e preceitos ocos.
Por isso é natural que num tempo onde se esqueceu Jesus, onde a Fé é reduzido a uma moral ou a uma ideologia, a proposta da Igreja pareça desadequada e ultrapassada. Também se compreende que, quem olha para a Igreja como mais uma organização, como um mero conjunto de pessoas ligada por uns rituais, as preocupações principais sejam as do mundo: quem manda, quem gere, se todos são “iguais”. De facto, a Igreja sem Cristo, tem os mesmos defeitos que qualquer outra instituição humana.
É Cristo que abre um novo horizonte, é Cristo que torna uma realidade completamente humana como a Igreja, numa realidade sobrenatural e eterna.
O relatório português do Sínodo foi por isso para mim uma experiência muito útil, porque me ajudou a identificar com clareza o grande problema da Igreja no nosso tempo. A mistura de ideologia com sindicalismo, tudo misturado com a linguagem inclusiva e as preocupações mundanas que hoje tanto ocupam alguns activistas, deixou claro a ausência de Jesus. De facto Cristo é o grande ausente deste relatório, porque é também o grande ausente da pastoral da Igreja. E este é o maior drama: é que ignorando Cristo, fica apenas o que é humano, ou seja ignora-se o eterno.
Para mim a Igreja é a presença de Cristo. E é essa presença que constantemente redime a minha pequena humanidade. A única urgência da Igreja devia ser levar essa presença a cada pessoa. O resto vem por acréscimo.
sexta-feira, 5 de agosto de 2022
Graça a Deus pelos Padres
A Igreja celebrou ontem o dia de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes, especialmente dos párocos. O dia do Santo Cura d’Ars chegou no meio de um turbilhão de acusações contra a Igreja portuguesa e contra os seus sacerdotes. E isso fez-me pensar nos padres da minha vida. Daqueles que entregaram a sua vida a Jesus para que eu O possa encontrar. E obrigou-me a tomar consciência do tanto que devo a tantos bons sacerdotes.
Antes de mais ao Padre João Seabra, que há dois meses foi para o céu. A ele, mais que a qualquer outra pessoa, devo a minha Fé e aquilo que sou hoje. Depois lembro-me do Padre Nuno, coadjutor do Padre João em Santos: um velho carmelita que passava horas no confessionário. Foi a primeira pessoa importante da minha vida que me lembro de morrer.
Depois pensei nos padres com que me cruzei na Baixa e no Chiado. O Padre Armando Duarte, amigo inseparável do Padre João. Sempre presente, sempre constante, com um sentido de humor mordaz. A ele lhe devo o muito que aprendi com o Manual do Acólito. Depois o Padre Mário Rui, que tornou o deserto da Baixa num centro de devoção em Lisboa. A ele toda a Igreja de Lisboa deve o regresso da procissão do Corpo de Deus. Em conjunto com o Padre João, tornaram a Baixa e o Chiado no pulmão da Igreja na Cidade de Lisboa. E a unidade entre estes três sacerdotes tornou-se modelo de unidade pastoral para todo o Patriarcado.
Ainda no Chiado, não me posso esquecer dos padres do Loreto: o Padre Angelo (confessor de meia Lisboa durante décadas), o Padre Francesco, o Padre Dino, e tantos outro cujo nome não me lembro. Foram eles os meus confessores durante a adolescência e a juventude. A minha alma muito lhes deve.
Depois lembro-me ainda dos sacerdotes que colaboraram na paróquia da Encarnação. O Padre João Aguiar, que enquanto director da Renascença assegurava diariamente a missa das 8h, e que chegava à Igreja à 7h30. O Padre Marim que todas as quartas-feiras celebrava a missa das 12h10 para as Noelistas. O Padre Rafael Morão, jesuíta e Reitor da Igreja de São Roque, que tantas vezes celebrava missa na Encarnação. O Padre Armindo, que veio estudar direito canónico e que durante anos celebrou a missa de Domingo às 10h30 para depois ficar a confessar durante a missa das 12h30 (o que me era muito útil). O Padre Hilário, também estudante de direito canónico e que assegurava muitas vezes as necessidades da paróquia. O velhinho Padre Azeredo, também jesuíta, que muitas vezes celebrava a missa das 12h10 durante a semana, tal como o ilustre frei Pinto Rema, franciscano e grande especialista em Santo António. E ainda o frei Miguel Patinha, da Ordem dos Pregadores.
Por fim, os padres que acompanharam o Padre João em Santa Joana. O Padre Duarte da Cunha, um amigo fiel que com amor filial acolheu um mestre com uma disponibilidade e lealdade incomparáveis. E o Padre Michael sempre discreto, sempre presente.
Lembro ainda o Padre Santos, durante anos prior de São Sebastião e de Nossa Senhora da Boa-Fé na Arquidiocese de Évora, que o Senhor chamou a Si no ano passado. Homem piedoso, sem medo de educar o povo e de afirmar as verdades, mas sobretudo a Verdade.
Por fim, nas paroquialidades, lembro-me dos padres salesianos de Lisboa, cujo nome não sei, mas que nestes últimos anos me têm acolhido tantas vezes na Santa Missa e no confessionário.
Mas na minha vida muito devo aos padre de Comunhão e Libertação, o movimento que tive a graça de encontrar. O Padre Ramiro, homem de inteligência profunda e uma capacidade de ensinar como poucos, cuja fidelidade à Igreja e ao carisma de monsenhor Giussani tanto me educou. O Padre Zé Maria Cortes, vizinho de sempre da minha família, que depois de construir a Igreja dos Pastorinhos partiu como missionário. O Padre Luís Miguel, essencial na minha vida universitária. E com estes dois últimos todos os padres da Fraternidade de São Carlos Borromeu que passaram por Alverca: o Padre Francesco, o Padre Silvano, o Padre Rafael e o Padre Giovani. O Padre Zé Maria Magalhães, que me levou a Lourdes e que insistia na minha vocação sacerdotal (penso que agora já terá desistido). O Padre Miguel Aguiar, com o seu cuidado com a liturgia, sempre acompanhado de um enorme sentido de humor. E também os que, tendo conhecido pior, me lembro de sempre: o Padre Silvério e o Padre Sérgio Pêra. Nesta categoria incluo o Padre Pedro Quintela (que preferiu cuidar dos mais miseráveis às honras do mundo) que não sendo do CL, foi sempre muito próximo e muito nosso amigo.
E chego aos padres da minha geração, o Padre Miguel Pereira, que tem feito uma grande pastoral sobre a teologia do corpo de São João Paulo II, o Padre Tiago, um grande entusiasta da causa da vida, e o meu querido parente, Padre Duarte Andrade e Sousa, um extraordinário sacerdote, um grande educador dos jovens, que pela mesquinhez de uns e a maldade de outros, está injustamente a pagar pecados alheios. E como, apesar de ainda ser novo, já não sou jovem, começo a ter amigos padres mais novos que eu, como o Padre Claúdio, ordenado há pouco tempo e que tive a graça de acompanhar quando era um jovem liceu de Comunhão e Libertação.
E também muitos outros padres com quem me fui cruzando, por circunstâncias diversas, ao longo da vida. O frei Gonçalo, franciscano, com quem me encontrei várias vezes, a mais memóravel das quais foi em Compostela, quando entre dezenas de milhares de peregrinos que vinham ver Bento XVI, “esbarrou” com o nosso grupo completamente por acaso. O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, o Padre João Vergamota, o Padre Diogo Maleitas Correia, os párocos de São Martinho do Porto, de Covas, o reitor de São Bento da Porta Aberta, o Padre José Rafael, o Padre Miguel Cabral, o Padre Pimentel, o Padre Santamaria, o Padre Adelino, capelão do Colégio de São Tomás onde acompanha os meus filhos. E tantos outros, que não conheço, mas com quem nestes 36 anos de cristão me cruzei na Santa Missa ou na confissão.
São muitos os padres necessários para atender a um cristão. Homens que oferecem a sua vida, para que o povo de Deus possa receber o Corpo de Cristo e o perdão dos pecados. Para receber a graça de ser filho de Deus, para casar e ser amparado na doença.
Por todos eles estou grato a Deus e rezo-Lhe para que os sustente e ampare na sua missão. Para que neste tempo de perseguição, onde pelo pecado de uns poucos pagam todos, permaneçam firmes no seus ministério.
Mas sobretudo, agradeço a cada um destes padres, os que me lembro e os que não me lembro, por me terem permitido ao longo da minha vida receber Cristo e viver na Sua Graça. A minha Fé é sustentada pela sua oferta constante de serviço a Cristo e à sua Igreja.
Que bom que é que hoje, num tempo de egoísmo, de escândalos fáceis, de perseguições cobardes, ainda existam homens dispostos a oferecer-se a Deus.
segunda-feira, 18 de abril de 2022
Aqui o prior educa-nos na Fé.
A história conta-se rapidamente. No fim dos anos 90, um dos bispos auxiliares do Patriarcado de Lisboa fez uma visita pastoral à paróquia de Santos-o-Velho. Durante a visita teve um encontro com os paroquianos onde perguntou qualquer coisa sobre o haver realidades muito distintas na paróquia e se isso causava algum problema. Respondeu um homem bom e caridoso da paróquia, mas conhecido pela falta de simpatia: “isso não é um problema, aqui o prior educa-nos na Fé”.
Lembro-me muitas vezes desta história, sobretudo quando regressam ao debate público as posições da Igreja sobre a sexualidade.
Eu, como centenas (talvez milhares) tive a graça de ter sido educado na Fé por aquele prior. Ou seja, fui educado no amor a Cristo e à Sua Igreja. E isto passa também, como é evidente, pela visão cristã do corpo, do amor e da sexualidade. Mas nunca me dei conta de que a moral sexual fosse central, ou sequer especialmente importante naquilo que pregava. O essencial foi sempre o encontro com a presença de Cristo, aqui e agora. O resto veio por acréscimo.
Porque a moral da Igreja não é apenas conjunto de normas para regular a vida dos católicos. A moral da Igreja brota do próprio Senhor e é a forma mais adequada, mais humana, de viver esta vida e conquistar a próxima.
Mas é impossível compreender a moral da Igreja sem ser à luz da Fé. Só o encontro com Cristo é capaz de mudar o coração do Homem. A beleza daquilo que a Igreja propõe, incluindo a sexualidade, só é compreensível nesta relação com Jesus.
Vivo por isso muito agradecido por ter um mestre que me educa na Fé. Para mim nunca foi difícil aceitar a moral sexual da Igreja. Pelo contrário, sempre achei a visão do corpo como morada do espírito, o acto sexual como oferta de si mesmo, a imagem do outro como dom e não como objecto, das coisas mais belas que conheço.
Não quer dizer que seja fácil, nem a Igreja diz que é. Como diz São Paulo aos Romanos: Nem me compreendo, pois não faço aquilo que queria fazer e faço o mal que detesto.
Neste tempo de hipersexualização, onde os corpos são exibidos e vendidos como objectos, neste tempo de egoísmo, da ditadura das sensações, propor e viver a pureza e a virgindade não é fácil, mas não deixa de ser verdade.
Por isso a Fé é essencial. Porque a relação com Cristo é a única coisa de realmente interessante que a Igreja tem para oferecer. É Ele que ilumina toda a realidade, é Ele que nos permite irromper da escravidão do pecado e viver de forma humana. Sobretudo, só com Ele nos podemos levantar após cada queda.
Concordo com os que dizem que se fala demasiado da moral sexual da Igreja. Sobretudo, aqueles que a querem mudar e que reduzem todo o drama humano, sobretudo o dos jovens, a saber com quem se pode ir para cama. É uma visão redutora da humanidade. Aquilo que faz falta à Igreja não é mudar o que é eterno mas dar testemunho da presença viva de Cristo. D’Aquele que estava morto, mas ressuscitou. Tudo o resto vem por acréscimo.
Resumindo, está tudo naquela resposta do homem maldisposto: aqui o prior educa-nos na Fé!





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