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domingo, 19 de outubro de 2025

Regressemos às origens da Europa

 




1. A islamização da Europa é, sem dúvida, uma ameaça. Hoje, vários países da Europa sentem já os perigos da islamização: bairros inteiros onde a autoridade do Estado não entra, onde reina a Sharia, ou seja, onde os direitos das mulheres não existem, nem as mais básicas liberdades.

É evidente que o Islão tem variadíssimas correntes, algumas das quais vivem em paz com a sociedade ocidental. Mas não é menos verdade de que há uma grande corrente do Islão que tem uma visão da sociedade, onde a lei civil está submetida à lei religiosa. E também não são poucos os que consideram a civilização ocidental como um inimigo, e que defendem o uso da violência para submeter os infiéis.

A Europa tem muita culpa neste crescendo da islamização. Não apenas pela evidentemente desastrosa política de portas abertas na imigração, mas também porque durante décadas, no seu desejo suicida de se livrar do cristianismo, escolheu o islamismo como aliado. Pensemos em coisas tão simples como a necessidade de assinalar publicamente qualquer festejo islâmico, enquanto se ignoram as festividades cristãs.

Em Portugal não temos o mesmo problema que o resto da Europa. Durante décadas a nossa comunidade islâmica era constituída maioritariamente por moçambicanos e guineenses. Ao contrário do que acontece, por exemplo, em França, por cá a nossa comunidade esteve sempre cultural e socialmente integrada.

Nos últimos anos, devido à política de portas abertas da imigração, esta realidade começou a mudar. Entraram em Portugal milhares de imigrantes muçulmanos de países que não têm qualquer relação connosco, e com uma visão muito mais extremista do Islão, que nada tem a ver com a comunidade islâmica que até então havia em Portugal.

É verdade que ainda não vivemos os mesmos problemas que vemos no resto da Europa, mas seria loucura ignorar os riscos que esta nova vaga de imigração coloca. Seria seguir o caminho da Alemanha, de França, da Bélgica, de Espanha e de vários outros países europeus.

2. Se é verdade que a islamização é um risco para a Europa, não é o único, nem sequer o mais grave. Porque a islamização não é a causa da decadência da nossa civilização, mas apenas uma das suas consequências.

O suicídio da Europa é fruto da negação do cristianismo, que é a sua origem. A Europa não é, geograficamente falando, um continente, mas apenas uma continuação da Ásia. O que separa a Europa da Ásia não são os Urais, nem o Bósforo, mas o cristianismo.

Foi o cristianismo que criou a cultura que uniu a Europa. O personalismo cristão está na origem dos Direitos Humanos, a Fé num Deus razoável está na origem da revolução científica.

Desde a Revolução Francesa, a Europa vive em guerra consigo mesma, procurando apagar qualquer traço da presença cristã. Este impulso já teve várias correntes, algumas vezes conflitantes entre si: liberalismo, marxismo, republicanismo laicista, nazismo, etc. Hoje revela-se, sobretudo, naquilo a que chamamos o wokismo.

O maior perigo que hoje enfrentamos na Europa é o ataque à liberdade que esta cultura procura impor. Esta mentalidade laicista, na sua actual versão, procura declarar que a sua ideologia é a Verdade, e que por isso qualquer tentativa de a negar é uma heresia.

Assistimos por toda a Europa a ataques constantes à Liberdade da Igreja, à liberdade de religião, de pensamento, de educação. Hoje, em boa parte da Europa, afirmar que um homem vestido de mulher é um homem, ou que a vida começa na concepção, ou até mesmo que nem todas as culturas são igualmente válidas, é visto como extremista, e, portanto, tendencialmente ilegal.

3. Quem criou o problema, não pode ser a solução. Por esse motivo é que, mesmo conhecendo os perigos do islamismo, recuso a utilização dos métodos do laicismo para enfrentar o problema.

A solução para a islamização da Europa não estará seguramente em dar ao Estado poder para declarar o que cada um pode vestir. Porque o Estado que declara que o uso da burca é uma submissão degradante da mulher à religião, é o mesmo que afirma que tem poder para decidir o que é um Homem e o que é uma Mulher.

Nós temos pouca memória, mas convinha lembrar que os mesmos ataques que foram ouvidos na Assembleia da República por causa da burca, são os que foram usados pelos políticos liberais para perseguir as congregações religiosas no século XIX.

Dirão que não há comparação entre o uso do hábito religioso e a burca, e eu concordo em absoluto. O problema é que o mesmo poder com que agora tantos cristãos se alinham para combater o extremismo islâmico, não concorda. E eu não estou disposto a entregar a Liberdade da Igreja ao bom senso desse poder. Seria saltar da frigideira para o fogo.

Significa isto que não devemos fazer nada quanto à ameaça do extremismo islâmico? Claro que não, há muitas coisas que podemos e devemos fazer. Restringir a imigração, fiscalizar mesquitas e madraças suspeitas de incentivar ao extremismo islâmico, expulsão dos estrangeiros que defendam o uso da violência contra os infiéis, proibir o financiamento de países conhecidos por apoiar o extremismo e o terrorismo islâmico, entre várias outras medidas.

Mas aquilo que não devemos, nem podemos fazer, é combater o extremismo islâmico usando a mesma mentalidade daqueles que hoje, por toda a Europa e no Ocidente em geral, procuram impor uma ditadura do pensamento único. Não estou disposto a sacrificar a minha liberdade de viver a Fé para combater este fenómeno.

4. Então qual é a solução? Como afirmei, na raiz do problema está a descristianização da Europa, pelo que a resposta é bastante evidente. O extremismo islâmico na Europa cresce no vazio cultural e espiritual em que vivemos.

O drama maior é que a Europa não tem nada a propor hoje que seja mais atraente que o fanatismo religioso. O que sobra hoje da cultura europeia? O consumismo, o hedonismo, o egoísmo e meia dúzia de frases feitas. Não é só o Islão que está mais extremista, é também a política. Os jovens procuram hoje desesperadamente algo que dê sentido à vida, para além do vazio da cultura moderna.

E a única resposta, a única resposta verdadeiramente Justa, verdadeiramente Bela, é Cristo.

Nos últimos dias, tenho visto um pouco por todo o lado a lista de países europeus que proibiram o uso da burca. E não posso deixar de me perguntar: e funcionou? Em algum desses países se travou a ascensão do islamismo radical? A resposta é bastante evidente: não.

Por isso, opor-me a leis tontas não significa não considerar a islamização da Europa uma ameaça. Significa simplesmente que não acredito que leis injustas e ineficazes resolvam o problema. Recuso-me a fazer o papel de idiota útil, que enche os pulmões contra o perigo islâmico, contra a cultura woke, e que depois abre caminho para outro qualquer tipo de opressão, que deseja, cheia de boa vontade, impor a sua visão do mundo a todos.

A única solução para a islamização da Europa, assim como para a cultura woke, é a recristianização. Isso não se faz através de projectos políticos e de poder, que no fundo acabam sempre vítimas da mesma mentalidade ideológica em que vivemos desde a queda da Bastilha.

O ponto fundamental para a recristianização da Europa é testemunhar Cristo vivo. Fazê-lo na sua vida pessoal, na sua vida social, na sua vida política. Não como projecto político, mas como desejo missionário. Foi assim há 1600 anos, quando Roma caiu, e um pequeno punhado de monges reconstruiu a Europa. Só poderá ser assim hoje, quando o novo império rui diante dos nossos olhos.

sábado, 27 de julho de 2024

JO: Um culto a uma nova religião



1. A Liberdade de Religião é um Direito Fundamental e não é apenas um direito passivo, a rezar em paz. É também o Direito a que a sua Fé seja respeitada, que aquilo que se tem como mais querido não seja parodiado para deleite de quem odeia a Fé alheia.
Eu não peço que todos compreendam a sacralidade da Última Ceia. Aquele momento único na História onde, pela bênção do pão e do vinho, Deus se ofereceu carnalmente aos homens. Mas tenho direito a que respeitem esse momento.
A Liberdade de Expressão tem limites e o ataque à minha liberdade de praticar a minha Fé sem ser alvo de escárnio é um desses limites.
2. O historiador inglês Tom Holland, no seu podcast The Rest is History, definia as guerras culturais como disputa teológicas onde um dos lados não reconhece como tal.
Ontem em Paria ficou evidente que a cultura woke é de facto religiosa. É um culto que se quer impor por oposição ao cristianismo. Ao culto da beleza como sinal de Deus, impõe o culto da fealdade. Ao culto da natureza humana como criatura de Deus, impõe o culto do homem criado à sua própria imagem e semelhança. Ao culto pela sacralidade da vida humana, impõe o festejo pelos “santos” da cultura da morte.
Quando olhamos para o caos que reina na Europa, sobretudo em França, temos tendência a falar de uma guerra de culturas entre a Europa e o Islão. Mas é falso, a guerra é uma guerra civil: a Europa entrou em luta consigo mesma, procurando substituir a sua herança cristã por uma outra fé, baseada no ódio ao cristianismo.
É nas ruínas desta guerra que o extremismo islâmico e o populismo vão crescendo. Perante esta nova religião que adora o feio e o grotesco, florescem propostas que, ainda que de forma deturpada, parecem propor algum ideal mais de acordo ao coração humano.
3. A paródia da Última Ceia ontem realizada em Paris é ofensiva, mas é sobretudo preocupante. Não para os cristãos (“Bem Aventurados sereis quando vos injuriarem, será grande no Céu a vossa recompensa”) mas para a Europa. O nosso continente parece um jovem que saído da casa dos pais se preocupa em desperdiçar e destruir toda a sua herança para provar que é agora é senhor de si mesmo. Pelo caminho outros vão ficando com o que era seu, até que este acabe na miséria. Foi isso que o mundo ontem aplaudiu entusiasticamente em Paris

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Em defesa da Europa Cristã

 


Ontem um homem sírio atacou crianças com uma faca num parque infantil em França. Um acto tão cobarde e monstruoso como este não pode deixar de revoltar qualquer um. Atacar crianças é a maior perfídia que consigo imaginar.

Este ataque voltou a levantar a questão da migração em massa de África e do Próximo Oriente para a Europa. Em Portugal o Chega já fez questão de alertar para o perigo que todas as crianças correm em todos os parques infantis por causa da imigração em massa.

Eu também concordo que a política de imigração da União Europeia é má. Má não apenas para os países europeus, mas também injusta para os imigrantes, que acabam na maioria das vezes abandonados e explorados nos países que os recebem. E também acho que há uma falta de clareza na diferença entre migrantes e refugiados. Pior, a União Europeia aposta numa falsa política de portas abertas, que ajuda a alimentar redes de tráfico e máfias, sem ter capacidade de dar respostas às pobres almas que procuram refúgio na Europa. E o resultado está à vista no cemitério em que se transformou o Mediterrâneo e no inferno em que Lesbos se tornou.

Por isso, se a política da extrema-esquerda, das falsas portas abertas, que só conduzem à miséria e à revolta dos migrantes, é uma ilusão, a resposta da extrema-direita, de tornar a Europa numa fortaleza fechada, também não me satisfaz. Porque em nome de uma falsa segurança das crianças europeias, estão dispostos a deixar morrer crianças não europeias no fundo do mar, ou às mãos de senhores da guerra, ou exploradas por uma qualquer máfia. A preocupação da extrema-direita não é com as crianças, nem com as mulheres, nem com os homens. A preocupação da extrema-direita é apenas com as pessoas da cor certa.

E pelo crime de um, querem fazer pagar milhões. Porque não exigem de facto uma resposta ao drama que hoje se vive nas rotas do Mediterrâneo, um negócio alimentado por máfias e senhores da guerra, à custa de milhões de inocente. Não pedem um combate eficaz ao tráfico humano, políticas de apoio ao desenvolvimento dos países de origem, campos de refugiados em condições, políticas eficazes de emigração. Só querem culpar um inimigo externo, demonizá-lo, e unir as massas à sua volta. Ou seja, querem força eleitoral, à custa de uma multidão de pobres e explorados.

Recuso que o preço da minha segurança seja a morte de milhares de crianças, só porque nasceram no continente errado. Sim, a Europa tem que encontra respostas a esta crise, mas não à custa de inocentes cujo único crime foi nascer no país errado.

Parte da extrema-direita vocifera contra os migrantes e refugiados em nome dos valores cristãos. Ignorando que se o primeiro mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas, o segundo é em tudo igual a este: amar o próximo como a ti mesmo.

Uma Europa fechada sobre si mesmo, afogando-se na riqueza criada pela exploração do resto do mundo, uma Europa que ignora o grito de desespero vindo de África e do Próximo Oriente, será muitas coisas. Será herdeira de Roma e de Atenas. Será herdeira do Alemanha pura e da União das Repúblicas Soviéticas. Aquilo que não é seguramente, é cristã.

Dou graças a Deus por nascido na segurança e na abundância da Europa. E ainda mais agradecido por ter nascido numa sociedade herdeira do cristianismo. Sei bem que isso comporta riscos, mesmo assim incomparáveis a atravessar o Mediterrâneo num bote de plástico. E não estou disposto a abdicar desta herança por uma falsa sensação de segurança.

domingo, 24 de julho de 2022

E viu que não era bom




De cada vez que acontece uma qualquer desgraça ouvimos sempre os mesmo comentários: a sociedade está perdida, há cada vez mais violência, as pessoas estão cada vez mais egoístas, as mulheres sofrem cada vez mais abusos, as crianças estão cada vez menos seguras. Todos os dias ouvimos mais histórias de velhinhos abandonados, de mulheres abusadas, de crianças que sofrem de bullying e por aí diante.

Mas nada disto nos devia surpreender. Nas últimas décadas o Ocidente lutou por se livrar das grilhetas do cristianismo, os bens pensantes desejavam o “progresso” de um mundo sem Cristo. E tanto procuraram o futuro que simplesmente regressaram ao passado!

Nada disto é novo, na Roma clássica já as mulheres eram tratadas como objectos, os mais pobres  e frágeis deixados à sua sorte, e tirando para os cidadãos ricos,  reinava a lei do mais forte. E isto era na maior civilização da altura, incomparável aos sacrifícios de bebés de Cartago ou aos caçadores de cabeça gauleses.

Foi o cristianismo que introduziu no mundo a ideia de que todos são igualmente dignos, que temos o dever de ajudar os que mais precisam, de que a mulher não é um objecto para o prazer dos homens, que o poder deve estar ao serviço dos mais frágeis.

O Ocidente, qual adolescente, na sua fúria de autonomia, preferiu deitar tudo isto fora, para ser “livre”. E assim se viu livre do filho pródigo, do bom samaritano, do bom pastor. Por isso hoje o filho mais novo não tem casa para onde regressar, o ferido fica a morrer na estrada e a ovelha perdida é devorada pelo lobo.

O Ocidente esqueceu o cristianismo e construiu uma nova civilização. E quando finalmente descansou da sua loucura, percebeu que não era bom, mas continua a sem querer regressar a casa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Eutanásia: o enterro da nossa civilização



Dia 29 de Janeiro de 2021 foi um dia histórico. Nesse dia 136 deputados aprovaram a possibilidade do Estado matar. Nos cinco anos de debate sobre a eutanásia muitas vezes foi dito que se tratava de um tema complexo. Não é verdade. Complexo é o debate sobre como cuidar das pessoas em fim de vida. A eutanásia é muito simples: é o acto de matar uma pessoa a seu pedido. Aquilo que os deputados andaram este tempo todo a debater foi quais os critérios que tornam o homicídio não apenas legal, mas também um dever do Estado.

Esta é provavelmente a lei mais grave aprovada em Democracia. As leis que tornaram o aborto legal, eram mais violentas e mais injustas. Mas no aborto houve o cuidado de esconder que estava em causa uma vida. Montaram-se esquemas elaborados para justificar o injustificável e negar a evidência cientifica que a vida começa na concepção.

Na eutanásia não houve qualquer fingimento. O parlamento decidiu que há circunstâncias nas quais o Estado pode matar uma pessoa.

29 de Janeiro é o dia em que a maioria dos deputados decidiu que o seu poder não tem qualquer limite. O artigo 24º diz que a vida humana é inviolável. Os deputado disseram que é inviolável excepto nos casos em que S.Exs. decidem o contrário. É histórico porque foi o dia em que os deputados disseram que uma maioria conjuntural pode ignorar a Constituição.

Ora se a vida, que a Constituição diz que é inviolável, pode ser violada por determinação de uma maioria de deputados, que os impede de aprovarem o quer que seja? Nada. Se o parlamento não reconhece que há limites para o exercício do poder, então já não estamos em democracia, mas na ditadura da maioria, onde o limite é a indignação popular.

Mas ao atentar contra o Direito à Vida não foi apenas a Constituição que os deputados rasgaram. Ao aprovar a eutanásia os deputado acabar de retirar o pilar central sobre o qual está construida a nossa sociedade: a igual, inerente e objectiva dignidade de cada Homem.

A sociedade Ocidental foi-se construido sobre esta ideia que todos os homens foram criados à imagem e semelhança de Deus. É a igual dignidade dos homens que serve de base à Democracia, que a justifica. Se todos temos igual dignidade, então todos devemos poder participar na vida pública, todos temos direito a escolher como queremos que a nossa sociedade seja regulada.

Por isso a democracia tem como limite os direitos inerentes à dignidade Humana. Eles são a causa da Democracia, a sua justificação. A Dignidade Humana é anterior à Democracia e está acima da vontade da maioria.

Se há vidas que não são dignas, se há pessoas que podem ser mortas, então qual é o critério? Quem o estabelece? A legalização da eutanásia proclama o principio de que a Vida Humana é digna enquanto é útil. Útil para produzir ou útil afectivamente. É digna enquanto tem algum interesse para a sociedade.

Não nos devemos espantar, é um processo há muito tempo em marcha. É o principio, ainda que hipocritamente escondido, do aborto. É o principio por trás da mentalidade de que se adopta cães e que gatos fazem parte da família. É o principio por trás do abandono dos velhos em lares, tratados como crianças. É o principio de que o próximo tem o valor que eu afectivamente lhe concedo. Quantas vezes diante de um acamado ouvimos dizer “já não é ele que ali está”. Ou que o cãozinho é “como um filho”. Ou que se aborta um deficiente “porque é melhor para ele”. Tudo isto se baseia no mesmo principio: de que a vida humana é digna quando a considero, ou seja, quando me é conveniente.

A aprovação da Eutanásia deixa cair a máscara. É a consagração legal, sem qualquer dúvida, deste principio. É uma nova sociedade que a lei consagra: a dignidade humana depende agora da vontade da maioria. Já não somos uma democracia, somos um Big Brother amplificado.

Tudo isto é fruto de uma mentalidade. Da mentalidade  relativista, que concebe homem como mero fruto do acaso, dono de si mesmo, deus de si mesmo. O homem que se define a si próprio, logo, também define o inicio e o fim da vida. Não se julgue que se trata de uma mentalidade nova. É tão velha como o mundo. Só que em vez de um Nabucodonosor, de um Nero, ou de um Átila, temos eleitores.

A verdadeira novidade não é o relativismo moral. A verdadeira novidade é a ideia de cada Homem é digno, porque cada um é criado à imagem e semelhança de Deus. Essa é a ideia que construiu a Civilização Ocidental, que originou a Democracia, que permitiu os Direitos Humanos. Foi essa ideia que foi enterrada a 29 de Janeiro por 135 deputados.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Porque não apoio André Ventura


Tenho pensado bastante sobre escrever ou não sobre André Ventura. Durante muito tempo decidi não o fazer. Não me apetecia perder tempo com a turba que rodeia Ventura. É verdade que há lá gente muito pouco recomendável, que vive do insulto, do confronto, e vários que raiam, para ser simpático, a extrema-direita. Mas isto não era suficiente para me dar ao trabalho de escrever sobre o homem. Num país onde quase 40% vota em António Costa, e  20% (agora provavelmente menos) vota na extrema-esquerda, os seguidores do Chega estão longe de ser o principal problema.

Mas o que me tem preocupado ultimamente é ver gente que estimo a apoiar André Ventura. Pessoas boas, que eu sei que pensam e desejam, se não o mesmo que eu, pelos menos muito próximo, vibrar com o Chega. E muitos destes, que partilham comigo a frustração pelo avanço de um mentalidade anti-cristã, dizem-me (alguns até zangadas comigo) que não percebem porque razão eu não apoio Ventura. Ou porque razão eu o critico, quando o inimigo é a esquerda. Já não sei quantas vezes ouvi nas últimas semanas a teoria da frente comum da Direita contra a Esquerda. E são esses, amigos e parentes, que me levaram finalmente a escrever seriamente sobre o líder do Chega.

Evidentemente há questões de estilo que me desagradam em Ventura. A agressividade, o insulto, a relação ténue com a verdade. Mas isso não é exclusivo dele como tantas vezes me relembram. Há 45 anos que a esquerda o faz impunemente. E essa é uma das razões pelas quais eu critico habitualmente a esquerda. Não vejo razão para começar a gostar do estilo, só porque agora vem da Direita.

Mas isto não é o mais importante. Se o problema fosse André Ventura ser um trauliteiro, com isso poderia bem. Sobretudo, porque dá um certo gozo ver a esquerda a provar do seu próprio veneno. Mas eu tenho uma discordância de fundo com o deputado do Chega.

Embora seja dificil no meio do discurso populista de AV descortinar uma doutrina ou ideologia (qualquer cruzamento entre o que ele diz e o que está no programa do partido é pura coicidência), há uma ideia que é constante, e que se resume na frase que tem sido um dos slogans da sua campanha presidencial: vou ser presidente dos Portugueses de bem. Não serei presidente dos bandidos, nem dos subsidiodependentes, nem dos corruptos, mas dos cidadãos de bem. E é aqui que está o cerne da minha aversão a Ventura: esta ideia que há pessoas não dignas. Pessoas que pelos seus actos devem ser excluidas da sociedade. Já nem falo das suas tiradas sobre ciganos e refugiados, sempre no fio da navalha, cinico o suficiente para poder recuar. Falo desta ideia clara no discurso de Ventura que há as pessoas de bem, que ele representa e as pessoas más.

E o meu problema com isso é que eu sou daquela religião que venera São Dimas, que era ladrão e Zaqueu que era corrupto. Eu sou daqueles que acredita que todo o Homem é criado à imagem e semelhança de Deus e por isso é sempre digno, mesmo quando pratica o mais indigno dos actos. Quando eu digo que toda a Vida tem dignidade é mesmo isso que quero dizer: Toda! Até aqueles a quem Ventura chama monstros.

Isto quer dizer que não acredito na justiça? Claro que acredito. A justiça é boa e necessária e não há caridade sem justiça. E quem infrige a lei deve ser punido (Dimas na cruz diz que a sua pena é justa e Nosso Senhor não lhe comutou a pena, só lhe abriu as portas do Céu). Mas a justiça tem como fim redimir o homem, não despi-lo da sua humanidade.

A mim pouco me interessa a direita e a esquerda. A mim interessa-me uma politica ao serviço do Homem e da sua dignidade. Uma politica que tenha no centro a dignidade de cada Homem e não apenas daqueles que o líder considera de bem.

Esta visão de Ventura, sobre a sociedade das pessoas boas que tem ser protegida dos maus, não é diferente da mentalidade comunista do proletariado oprimido pelos capitalistas, ou do marxismo cultural das minorias oprimidas pela maioria. Só mudam os nomes.

Por isso André Ventura até pode coincidir em algumas posições comigo. De resto nos últimos anos isto já me aconteceu diversas vezes com o Partido Comunista. Mas a sua visão de fundo é diametralmente oposta à minha. Alías, e digo-o sem reserva, diametralmente oposta à visão da Igreja sobre o mundo. Porque a Igreja é a primeira a proclamar esta dignidade que nos advêm de sermos criaturas de Deus. O Chega, ao proclamar que há uns cidadãos de bem e outros que não, proclama que a dignidade humana vem da obediência ao Código Penal.

No liceu tive a graça de ter um professor de Religião que me levou muitas vezes ao Casalinho da Ajuda (um bairro, para usar a expressão de Ventura, de banditagem). Este meu professor, e grande amigo, era padrinho de uma quantidade enorme de jovens naquele bairro. Alguns estavam presos, alguns era criminosos com cadastro. A todos eles o meu amigo abraçava com o mesmo olhar de misercórdia. Esta recordação não me permite apoiar um homem que diz não será presidente destas pessoas.

Dirão que isto é uma questão de Fé e estamos a falar de política. Mas se a Fé não muda o meu olhar sobre a política, se a Fé não muda o meu olhar sobre o mundo, então a minha Fé seria apenas um pietismo ou uma solidariedade social.

A mim não me separa de Ventura apenas uma questão de estilo, ou umas pequenas discordâncias ideológicas. A mim separa-me toda uma visão sobre o Homem. A dignidade do Homem para mim é inata à sua condição humana, para Ventura está dependente da sua obediência ao Código Penal.

E por isso por muitas fotografias que tire ajoelhado nas Igrejas deste país, por muitas vezes que se proclame enviado de Deus, enquanto continuar a desejar ser presidente dos Portugueses de bem, não só não terá o meu apoio, como pode contar com o meu veemente repúdio.


P.S.: Embora a minha questão com Ventura seja de fundo, há outra razão que dificulta muito a minha relação com ele. "Este Papa tem prestado um mau serviço ao cristianismo" disse ele ao DN. Dificilmente votaria num politico que criticasse o Papa. Seguramente não voto num deputado, membro de um órgão de soberania, que acha que tem que dar opiniões sobre o governo da Igreja. Não percebo que haja católicos que defendam alegremente quem assim ataca o sucessor de Pedro e afronta a liberdade da Igreja.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O Islão e a lenta agonia da Europa



A Europa tem um problema com o Islão. O terrorismo que ciclicamente assola o continente é apenas a face visível desse problema. Há um problema mais profundo, que muitos teimam em ignorar: em muitas cidades o crescimento das comunidades islâmicas levou à criação de enclaves onde o Estado não entra e as leis são ditadas pela comunidade. Estes enclaves são viveiros para o extremismos islâmico.

A continua tentativa de, em nome da tolerância, ignorar este problema têm tido consequências desastrosas. É evidente que existem milhões de muçulmanos na Europa que vivem integrados. Aliás, Portugal é um bom exemplo disso. Mas esse facto não nos pode levar a fechar os olhos para o crescimento de comunidades que procuram impor a toda a sociedade, pela força se preciso, a sua visão religiosa.

Insistir na ideia de que não há um problema islâmico é maus para todos, incluindo para os tais milhões de muçulmanos que só querem viver em paz e que em nome do politicamente correcto acabarão sujeitos aos extremistas de que não gostam e de quem muitos fugiram.

Este problema precisa de uma resposta política forte e determinada. É preciso não ter medo de impor a lei. É preciso combater os radicais, sem vergonha e sem pedir desculpa. É preciso assumir que a política migratória está a falhar. Sobretudo, é preciso de uma vez por todas enfrentar o problema dos migrantes: a política de pescar os que se pode no Mediterrâneo, chorar lágrimas de crocodilo pelos que lá morrem, e depois ir despejando os sobreviventes por essa Europa fora, não funciona. A Europa tem que combater as redes de tráfico, tem que resolver o problema da Líbia de uma vez por toda, e criar politicas internacionais que permitam aos migrantes não ter que abandonar os seus países. A falsa misericórdia de acolher sem critério qualquer pessoa que consiga atravessar o Mediterrâneo só traz mais mortes, mais miséria e em última instância, mais extremismo. O bonismo de chorar as mortes no Mediterrâneo ao mesmo tempo que nada se faz para resolver o problema, pode satisfazer a consciência ocidental, mas não evita os cadáveres no fundo do mar.

Contudo, podemos tomar todas as medidas necessárias contra a imposição de um islamismo radical na Europa. Podemos fechar as fronteiras, encerrar as mesquitas radicais, perseguir até ao fim todos os imãs extremistas e prender todos os terroristas, que nada disso impediria a decadência da Europa. O extremismo islâmico veio apenas preencher um vazio que existe no continente. O Islão não é o problema, será quanto muito um sintoma da decadência europeia.

A Europa não é verdadeiramente um continente, é apenas o nariz da Ásia. Os Urais não são uma fronteira geográfica, são uma fronteira cultural. O que une a Escandinávia ao estreito de Messina, Moscovo ao cabo de São Vicente é o cristianismo. A Europa é o cristianismo ou é nada. Evidentemente que a cultura europeia teve muitas outras influências: Grécia, Roma, os bárbaros e até o Islão. Mas todas essas influências foram incorporadas pelo cristianismo, e foi pelo cristianismo que se tornaram comuns a toda a Europa. 

Ao abandonar o cristianismo a Europa abandonou-se a si mesma. Renegou a sua história e a sua cultura. Sem o cristianismo não há Europa, há apenas um conjunto de países com pouco mais em comum que a proximidade geográfica.

Não vale a pena falar da cultura europeia, proclamar a defesa da herança europeia, se depois ninguém está disposto a reclamar a herança.

Não se trata de discursos vagos sobre valores. O cristianismo não é um conjunto de valores, que se podem colocar num museu. Não vale a pena falar de Igrejas derrubadas e de Mesquitas construidas, se depois as Igrejas continuam vazias.

O cristianismo não é uma arma de arremesso político. É uma Fé. E se não há Fé, então não há valores que valham. Os valores cristãos sem a Fé, são como uma árvore bela e imponente, mas cujas as raízes secaram. Está condenada a cair, apesar de toda a imponência.

Como dizia ao principio, é sem dúvida importante resolver o problema político do Islão na Europa. Mas a Europa tem um problema mais grave, que é um problema cultural. E esse problema não tem qualquer relação com o Islão. O problema não é os muçulmanos terem muitos filho e educarem-nos na sua religião. O problema é os cristão terem desistido de o fazer.

Por isso problema essencial da Europa não é resolver a questão politica. É mesmo um problema cultural: sem cristãos não há Europa. Por isso quem realmente ama a Europa, a sua história e a sua cultura, só tem um caminho: o cristianismo. Sem Cristo, podemos resolver todos os problemas políticos que quisermos que estaremos apenas a prolongar a lenta, mas inexorável, agonia da Europa.

sábado, 28 de dezembro de 2019

O ataque à Porta dos Fundos e a indignação selectiva.




Assisto com espanto às reacções de consternação ao ataque feito ao Porta dos Fundos. Tenho lido por aí comparações várias ao terrorismo islâmico, ao Charlie Hebdo, até cheguei a ler um texto onde se explicava que era um ataque a quem só queria unir todos através do humor.

É preciso ser claro: é evidente que o especial de Natal dos humoristas brasileiros não justifica o uso de violência. Mas também é preciso ter sentido das proporções e não confundir o arremesso de dois cocktails molotovs a um edifico vazio por um grupo integralista político, com o terrorismo islâmico, e ainda menos com o ataque feito ao Charlie Hebdo, onde os atacantes tinham o objectivo claro de matar.

Nem a Porta dos Fundos passou de repente a ser uma pobre vítima. Os humoristas brasileiros decidiram fazer um especial de Natal com o único objectivo de causar polémica, sabendo que assim teriam sucesso. E decidiram causar polémica escarnecendo da fé dos cristãos. O seu objectivo não foi fazer humor, foi mesmo ofender, certos de que as respostas a este especial, tantas vezes desproporcionadas, seriam suficientes para lhes garantir o sucesso.

E assim foi. Este filme não tem sucesso graças a qualquer mérito próprio, mas só pela polémica que gerou. Infelizmente desta vez a indignação foi longe de mais.

Mas assim como não tenho qualquer problema em condenar quem atacou de forma irresponsável a Porta dos Fundos, também não tenho qualquer problema em condenar quem usa o ódio para se promover.

É das coisas mais espantosas tomar consciência que no tempo em que Bernardo Silva é condenado por fazer uma graça com um amigo africano, em que carreiras são destruídas por graçolas machistas com vinte anos, num tempo onde a linguagem é controlada ao pormenor de modo a não ofender nenhuma minoria, não exista qualquer pudor em zombar com a fé de tantos milhões de pessoas, sobretudo quando centenas de milhares de cristãos são perseguidos, e alguns até mortos, por professarem a sua fé.

A Porta dos Fundos decidiu achincalhar da fé daqueles que são mortos na Nigéria, presos na China, silenciados no mundo Árabe. E não só não foi censurada pelos habituais inquisidores contemporâneos, como aqueles que legitimamente se revoltaram com o filme foram, esses sim, considerados como inimigos da liberdade.

É aliás extraordinário como um cocktail molotov contra um prédio vazio causa bastante mais comoção do que crianças mortas na Síria ou na Nigéria.

Eu não tenho qualquer problema em condenar o ataque à Porta dos Fundos. Mas não tenho paciência para a indignação selectiva, que censura graças com homossexuais, mas se ri com as ofensas aos cristãos, que se indigna com o ataque sem qualquer vítima no Brasil, mas que olha para o lado quando milhares de cristãos são mortos pelo mundo fora.

Espero que de futuro aqueles que se dizem cristãos saibam responder a este género de demonstrações de desprezo e ódio dando testemunho da caridade cristã. Mas também fico à espera que todos os indignados profissionais, que hoje tanto defendem a Porta dos Fundos, demonstrem a mesma indignação da próxima vez que um cristão for morto pela sua fé. E sobretudo, espero que os humoristas brasileiros, que aproveitaram este episódio para se vitimizar, abandonem o discurso de ódio e ataque a quem só quer viver a sua fé sem ser insultado.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O Deus menino em palhas deitado - Observador, 23/12/19

Dia 8 foi dia de cumprir mais uma vez a tradição. Juntamente com a minha mulher e os meus filhos (que são de ajuda relativa), montei o presépio. Ovelhas, pastores, reis magos e, evidentemente, a Sagrada Família. Um conjunto não completamente homogéneo de peças, de várias proveniências (muitas herdadas, umas compradas nos últimos anos), uma mistura de musgo seco e algum apanhado este ano, e ficou montado.

Confesso que ainda hoje me entusiasma e comove montar o presépio. Não pela sua beleza (que até tem alguma), nem pelo evidente entusiasmo das crianças. Aquilo que realmente me toca no presépio é aquilo que simboliza: um Deus que se faz bebé para vir ao encontro do Homem.

Vivemos um tempo onde é fácil sermos esmagados pelas circunstâncias. Em Portugal o clima político está cada vez mais crispado, ao mesmo tempo que o SNS vai desabando, os preços das casas não param de aumentar (como os preços em geral), as engenharias sociais vão-se multiplicando. O resto do mundo está completamente incerto: a ameaça da guerra comercial entre as duas maiores potências económicas mundiais, a América do Sul em convulsão, a União Europeia dividida e cada vez menos unida, guerra e perseguições religiosas em África e no Próximo Oriente.

E contudo, o presépio volta a lembrar-nos que neste “vale de lágrimas” Deus Se fez carne para que cada um o possa encontrar.

Evidentemente que este facto em nada muda a circunstância histórica. Não o muda hoje, como não o mudou há dois mil anos. Jesus nasceu e Herodes continuou a ser tetarca da Galileia, Quirino governador da Síria e César Augusto continuou a reinar sobre Roma. Cristo não veio para fazer uma revolução social, mas para que cada homem O pudesse encontrar.

E o encontro com Cristo muda o coração do homem, e é essa mudança que permite mudar a história. O cristianismo não é um plano de poder, ou uma organização social. O cristianismo é o povo que nasce deste encontro com Jesus. E foi esse povo que gerou uma cultura, que gerou uma sociedade, que gerou aquilo a que chamamos o Ocidente. Não é possível compreender os valores do Ocidente, a igual dignidade de todos os Homens, a preocupação com os mais fracos, a defesa da paz, sem reconhecer a sua raiz.

Evidentemente, a história do cristianismo tem a sua quota-parte de vergonhas e de misérias. Mas isso não choca um cristão: sabemos que a Igreja é santa mas constituída por pecadores. O espantoso do cristianismo é precisamente a redenção humana. Ao longo de dois mil anos muitos foram os que olharam para o cristianismo como uma possibilidade de poder e de domínio. Mas onde abundou o pecado, superabundou a Graça. E por isso ainda hoje é possível encontrar testemunhos de santidade, que não podem deixar de nos interpelar. Pensemos por exemplo na Síria, de onde fugiram todas as ONG’s e só ficou a Igreja para ajudar as vítimas da guerra.

É normal nesta altura do ano falarmos da magia do Natal. Num tempo de paz e concórdia. Mas nada disso é mágico, é apenas a consequência desta ternura de Deus para com o homem, de que o presépio é sinal: Deus fez-se carne e veio ao nosso encontro.

É esta a tremenda pretensão do cristianismo: não uma proposta filosófica ou um código moral, mas a presença do próprio Deus feito homem. É possível escarnecer desta pretensão, tentar ignorá-la, opor-se a ela ou até mesmo persegui-la (como ainda hoje acontece em tantos lugares do mundo). E contudo, passados dois mil anos, continua a haver um povo que, tal como os pastores e os reis magos, continua a adorar aquele Menino deitado numa manjedoura.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

As obras sem fé, a Fé e as obras - Encontro com as Equipas de Jovens de Nossa Senhora

Texto da minha intervenção no encontro com as Equipas de Jovens de Nossa Senhora sobre os cristãos no mundo. Aproveito para agradecer o convite.




Boa noite a todos. O meu nome é Zé Maria Seabra Duque, sou casado e pai de três filhos. Esta informação, que parece apenas um cliché de apresentação, é de facto o maior serviço que prestei a Portugal e à Europa até agora. Num tempo onde estamos tão ocupados a discutir o futuro da Igreja na Europa, esquecemo-nos tantas vezes que a maior ameaça que enfrentamos é os cristãos não terem filhos.
Profissionalmente devo fazer uma pequena correcção ao meu título: de facto não sou um ilustre advogado, como a minha colega oradora, sou apenas um pobre e mísero jurista.
Dito isto, e ainda antes de abordar o tema que me foi dado, gostaria ainda de dizer que é com muita alegria que neste preciso dia venho a esta Igreja.
Digo neste dia, porque faz hoje precisamente um ano que a eutanásia foi chumbada no Parlamento. Foi um belo dia, fruto do trabalho e do empenho de muita gente, por todo o país, muitos deles católicos (a começar nos bispos!).
E digo esta Igreja, porque esta é a Igreja da minha infância e princípio de juventude. Aqui fiz a catequese, aqui fui escuteiro e sobretudo aqui fui investido acólito. Os acólitos foram para mim uma grande escola: aprendi a amar mais os sacramentos e a liturgia. Mas sobretudo aprendi que não há maior glória do que servir a Deus. E que no serviço a Deus não há nada que esteja abaixo da nossa condição: qualquer que seja a tarefa é sempre um honra imerecida, nem que seja apenas segurar numa vela! Foi também nesta Igreja que me crismei: aqui, diante do Senhor Dom Tomás, que Deus tem na Sua Glória, proclamei que a Fé que recebi de meus pais tomava como coisa minha.
Por isso é sempre com comoção que aqui volto.

Sobre o tema vou dividir a minha intervenção em duas partes:
I.              As obras sem fé
II.            A fé e as obras.

I. As obras sem fé.
A primeira coisa que vos queria dizer é que a Europa é uma invenção do cristianismo.
A Europa não é um continente geográfico, de facto faz parte da eurásia. A fronteira dos Urais, ou do Bósforo, é cultural e civilizacional, não cientifica.
O que separa a Ásia e a Europa é o cristianismo.
O mundo grego e romano, que são duas das grandes influências da Europa, eram centradas no mediterrâneo. O leste e norte da Europa não estavam nesse mundo, ao contrário do próximo oriente ou do norte de África.
A Europa como a conhecemos hoje, do cabo de São Vicente aos Urais, do Mar do Norte ao Mediterrâneo a cultura que têm em comum é o cristianismo.
A Europa nasce da expansão do cristianismo na Idade Média.
É o tempo das catedrais, das cidades, da universidade, das feiras. É o tempo de Bernardo de Claraval, Francisco de Assis e Tomás de Aquino. É o tempo de Dante e de Giotto. É o tempo da razão, que, certa do desígnio de Deus sobre o mundo, procura incessantemente compreendê-lo.
A Idade Média é uma sociedade profundamente cristã. O poder da Igreja não era temporal (embora em alguns casos também o fosse) mas era um poder espiritual. E a Igreja lutou sempre pela sua independência do poder (e lutou literalmente, travou guerras pela sua independência do Imperador e dos reis). As obras da Idade Média não são fruto do poder, mas verdadeiramente da fé.
A Idade Moderna (fim do séc. XVI) assiste porém ao fim desta ordem. O reforço do poder real exigiu também um domínio do poder temporal sobre a Igreja, um garante da unidade nacional. A Fé passou a ser uma forma de afirmação política. Isso iria verificar-se com a reforma protestante, com todas as guerras que se lhe seguiram, até se chegar a formular que “em cada reino a religião do seu rei”.
Esta mudança de uma cultura cristã para um poder cristão, do cristianismo como acontecimento para o cristianismo como ideologia política, terá consequências dramáticas. Uma Igreja cada vez menos preocupada com a fé e mais preocupada com o poder. É o gérmen de uma mentalidade na qual a fé é reduzida a uma piedade, útil para o domínio mas sem relação com a realidade.
Ao mesmo tempo há uma cultura que começa a nascer, onde a razão se separa da fé. Uma razão que pretende ser o único critério para o conhecimento.
Esta mentalidade irá resultar no Iluminismo, um pensamento que rejeita qualquer relação da razão com a Fé. Isto tem um efeito dramático: é que se trata de uma razão amputada e diminuída. Porque se a razão elimina a Fé, elimina uma parte da realidade.
Por isso, quando chegamos à Revolução Francesa, que marca a entrada na chamada Idade Contemporânea, temos estas duas circunstâncias:
- Uma cultura onde a razão está amputada da fé;
- Uma organização social baseada nos valores cristãos como factor de regulação social, mas sem fé.
Evidentemente, nada disto é linear: acabei de resumir 1500 anos de história em três penadas. A Idade Média teve a sua quota parte de misérias e a Idade Moderna teve a sua quota parte de glória. O Concílio de Trento, o principio dos Jesuítas, muitos santos e santas. Contudo resumindo e simplificando, o resultado é este: as obras cristãs sem a fé.
A Revolução Francesa é fruto desta nova mentalidade, da razão que se considera o único critério para explicar a realidade.
Por isso, quando estala, revolta-se contra trono e o altar. Contra aquilo que considera impedir a liberdade do povo. Evidentemente esta mentalidade ideológica, fruto de um desejo justo de liberdade e de igualdade, resulta numa tirania trágica, com milhões de mortos (no Terror, nas guerras revolucionárias, na Vendeia, nas Guerras Napoleónicas).
A revolução acabará derrotada. Primeiro quando Napoleão assume o poder Imperial, mas sobretudo com a restauração de Luís XVIII. Contudo, se a revolução acaba derrotada enquanto projecto político, a sua mentalidade triunfa por toda a Europa.
Começa a triunfar esta cultura de uma razão todo-poderosa contra a superstição. E a verdade é a que resposta da Igreja foi, em grande parte, procurar manter as estruturas de poder, e não renovar a fé. Em Portugal, a Igreja foi reduzida a pouco mais de que um departamento do Estado, com os padre a serem nomeados pelo governo como qualquer outro funcionário público. Lembro que no séc. XIX boa parte dos bispos portugueses eram maçons!
É da Revolução Francesa que nascem as ideologias que hão de gerar a cultura moderna: o marxismo, que é a negação de Deus e do individuo em detrimento do Povo, o liberalismo, que é a negação do dignidade humana em detrimento do lucro e o nacionalismo, que é a negação da dignidade humana em favor da Nação.
Os últimos 200 anos têm sido marcados pelo recuo da cultura cristã. Até chegarmos ao Maio de 68, onde os filhos da burguesia se revoltam contra qualquer autoridade, contra qualquer moral. É o triunfo do homem “livre”, que no seu desejo de liberdade quebra todas as barreiras: com Deus, com a natureza, com a realidade.
A mentalidade actual é do homem que se basta a si próprio, que se define a si próprio. Por isso lhe é insuportável a Igreja. É-lhe insuportável que haja no mundo quem lhe lembre que não se basta a si mesmo. Que é criatura dependente do seu criador. Esta ideia é absolutamente insuportável à mentalidade moderna.
Mas a resposta não pode ser simplesmente a defesa dos valores cristãos. Não é seguramente a imposição ideológica de uma sociedade cristã de bons costumes. Porque essa sociedade, porque esses valores, sem a Fé, são verdadeiros e justos, mas não têm raízes.
Olhemos para Notre Dame como exemplo. Veio o fogo e consumiu parte da catedral. Mas o que foi realmente consumido? Os acrescentos feitos no tempo após a revolução, quando Notre Dame era um símbolo nacional e histórico. O que ficou de pé? As fundações de pedra, construídas pela fé do povo de Paris.
As obras sem Fé são secas. Caem perante a primeira ideologia que faz sobressaltar o coração. Se dizes a alguém “dois homens casarem é pecado” e outro diz “o amor não olha a géneros”, tu tens razão, tu dizes a coisa justa, mas o outro soa melhor, é mais atractivo!

II. A Fé e as obras.
Na sua primeira enciclica, Deus é amor, dizia Bento XVI: Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.
A Fé é o encontro com Cristo, hoje como há dois mil anos.
Pensemos em João e André, na margem do lago, a ouvir João Baptista. Ao fundo passa um homem. João Baptista para e diz "Eis o Cordeiro de Deus". A multidão não liga, está habituado às excentricidades do profeta. Mas João e André vão atrás dele. A um certo ponto o homem vira-se e pergunta "Que quereis?". Eles respondem "Mestre onde moras?", "Vinde e vede".
João narra este encontro décadas depois do acontecimento. E contudo aquele momento continua a ser o momento decisivo da sua longa vida.
A Fé é este encontro com Jesus. Presente hoje na Igreja. O encontro com uma humanidade extraordinária, uma humanidade diferente, uma humanidade mais plena, mais autêntica. Um encontro que, como dizia Bento XVI, não tira nada, mas dá tudo.
Um encontro com a Presença que corresponde plenamente ao desejo de beleza, de justiça, de felicidade do nosso coração. O convite hoje, tal como há dois mil anos, é o mesmo: vinde e vede. Vinde e verificai.
Onde encontramos hoje a Presença de Cristo? Naqueles que o seguem. A promessa de Cristo, onde dois ou três estiverem eu estarei no meio deles, não é vã. Está viva na Igreja, hoje.
Diante deste encontro, diante desta presença, só há duas possibilidades: sim ou não. Se for sim, então é impossível que o encontro com Cristo não mude a nossa vida. Se encontramos aquele que é a Verdadeira Beleza, então queremos levar essa Beleza ao Mundo. Se encontramos aquele que é Verdadeira Justiça, então queremos levar essa justiça ao mundo. Se encontramos aquele que é a Verdadeira Caridade, então queremos levar essa caridade ao mundo.
As obras são o fruto natural da Fé. São o fruto natural do encontro com Cristo.
A Fé é o critério com que olhamos o mundo, com que ajuizamos a realidade.
Perguntam se o mundo precisa dos cristãos? Mais do que nunca, porque mais do que nunca precisa de Cristo. Porque vivemos num tempo onde a humanidade está de tal modo amesquinhada que reduziu o seu desejo à procura de sensações. Foge de qualquer incómodo, tenta preencher o vazio com todo o lixo que encontra. Por isso Cristo, o único capaz de responder verdadeiramente ao coração do homem, é urgente.
Por isso é urgente que os cristãos se empenhem no mundo. Que estejam na sociedade, na economia, na educação, na política. Não com um plano ideológico ou doutrinário, mas com o desejo de testemunharem aquilo que vivem.
Só isto permite estar de maneira verdadeiramente livre e orignal na política.
Eu há uns anos decidi empenhar-me na política. Quando tomei essa decisão fui falar com o Padre João Seabra, meu tio e director espiritual. Ele disse-me várias coisas, mas o mais importante foi isto: nunca te esqueças que és cidadão do céu e concidadão dos santos.
Isto foi essencial para me fazer perceber que a minha missão na política não é o triunfo da ordem cristã sobre a barbárie actual, mas sim testemunhar Cristo.
E isto faz-se, não com um discurso, não com reduzir a participação política aos temas "católicos", mas estando seriamente empenhado na política, com seriedade, fazendo política para o que ela realmente serve: não um projecto de poder, mas servir o bem comum. Um gestor católico o que faz? Gere. E um professor católico? Ensina. Então o que faz um político católico? Política. A diferença não é de discurso, mas de posição diante da tarefa que lhe é confiada.
Dou-vos um exemplo prático. Na semana passada deu muito que falar o ministro do interior italiano, que apareceu de terço na mão a consagrar-se ao Imaculado Coração de Maria, no mesmo comício em que declarava que nem mais um migrante entraria em Itália. Eu não vou aqui discutir política migratória seguramente, mas pode alguém para defender o Cristianismo desprezar aqueles que estão em perigo? Que cristianismo é este que não se sobressalta diante do grito do pobre, do oprimido? Mais uma vez digo, não quero discutir as migrações, é um problema complexo, com respostas complexas, do qual Itália tem sido vítima. Mas a questão é: pode alguém seguir a Cristo e ao mesmo tempo desprezar o próximo? Salvini evidentemente defende muitas coisas boas. E é bom que ele queira  defender o cristianismo. Mas a verdade é que o cristianismo também pode ser reduzido a um projecto de poder igual a qualquer outro, tão tirânico como qualquer outro.
O desafio é por isso estar na política (como na educação, ou na economia, ou na saúde) não para afirmar uma doutrina, mas para testemunhar um facto. Por isso lutamos contra o aborto, a eutanásia ou a ideologia de género: não para contrapôr um sistema melhor, mas porque o encontro com Cristo dá-nos a certeza de que toda a vida é amada e desejada por Deus.
O grande desafio do nosso tempo é conseguir comunicar este facto ao mundo. A um mundo que fala uma linguagem diferente, que é fruto de uma mentalidade diferente. O desafio dos cristãos na vida pública hoje é conseguir comunicar a experiência de Cristo.

E isto só é possível de uma maneira, se nos deixarmos de tal modo modificar por Cristo que ao olhar para nós o outro veja uma humanidade diferente, uma humanidade mais plena, uma humanidade que vale a pena conhecer.