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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Quem vota Seguro não é Socialista, quem vota Ventura não é Fascista.



Esta frase devia ser uma evidência. Antes de mais, porque nem o primeiro é socialista, nem o segundo é fascista. António José Seguro, na melhor das hipóteses, é um social-democrata. Já André Ventura, por muito que alguns activistas berrem, é sem dúvida um populista, mas não é fascista.

Mas o ponto principal nem sequer é este, porque podíamos ter um socialista e um fascista a concorrer a Presidente, e mesmo assim isso não transformava quem votasse em algum deles num socialista ou num fascista.

Votar num candidato não é o mesmo que o apoiar ou concordar com ele. Votar é escolher, entre as opções disponíveis, aquela que parece ser a mais possível de ser útil ao bem comum. Um trabalho fácil quando as escolhas são boas e abundantes; um trabalho muito difícil quando só há dois candidatos e nenhum deles vai de encontro aos nossos ideais.

De entre as pessoas em quem mais confio nas questões políticas, conheço várias que vão votar António José Seguro e várias que vão votar André Ventura. Cada um com as suas razões, em geral razões com as quais eu concordo, e nenhum deles está especialmente contente com o seu sentido de voto. Simplesmente, tendo de escolher entre os dois, decidiram usar o seu voto da forma que lhes parece menos má: porque AJS é mais moderado, porque não querem um antigo secretário-geral do PS como Presidente, porque acham que AJS oferece maior estabilidade, porque acham que AV não vai ganhar e querem que Seguro ganhe pelo menos possível, etc. Tudo boas razões, nenhuma das quais se traduz num apoio a qualquer um dos candidatos.

Este discurso tonto, de que de alguma forma nestas eleições estaríamos perante uma escolha entre direita e esquerda, democracia e fascismo, socialismo e liberdade, seria ridículo se não fosse trágico. E é trágico porque, mais uma vez, torna a política numa guerra de trincheiras, onde do lado de lá está um inimigo a abater. Quem é pela liberdade tem de votar X, o que significa que quem não vota como eu é um inimigo da liberdade.

E não vale a pena dizer que isto é coisa de Ventura ou de Seguro: ambos os lados estão cheios de pessoas com esta posição, que demonizam quem vota de forma diferente, que transformam qualquer divergência de pensamento numa heresia.

Ora, não é verdade que Portugal se divida entre socialistas e fascistas. Não é verdade que quem vota em Seguro ou em Ventura seja mais puro ou menos puro. Não é verdade que a democracia e a liberdade estejam em causa. O que põe em causa a liberdade e a democracia é a incapacidade de olhar para o outro — sobretudo o outro que discorda de mim — como uma possibilidade de bem. E, sem isso, a política transforma-se numa guerra onde é preciso esmagar e sanear o adversário, tudo em nome do bem e da liberdade. 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Filipe Igualdade e o agitar das águas: reflexão pré-eleitoral

 


A França, no final do século XVIII, estava decadente. Cheia de dívidas, com os resquícios do feudalismo a garantir privilégios para a nobreza — incluindo o não pagar impostos —, a corrupção era omnipresente e a fome surgia a cada seca. Cada tentativa de mudar o estado das coisas parecia votada ao falhanço perante a oposição daqueles a quem a situação aproveitava.

Muitos sentiam a urgência de mudar as águas, de combater o sistema. Entre eles estava o Duque de Orleães, o mais importante nobre do país, primo do rei e imensamente rico.

Da sua residência em Paris, o Palais-Royal, foi patrocinando os inimigos do rei, acolhendo-os e criando clubes e cafés onde a polícia não podia entrar sem a sua autorização. Pagou panfletos, patrocinou a caridade e arrendava casas a preços baratos. Tudo para ser rei em lugar do rei e, assim, instituir uma monarquia liberal.

Nos Estados Gerais, tomou as dores do Terceiro Estado e liderou os nobres que atravessaram o salão e se juntaram a estes. Recusou todos os títulos e mudou o seu nome para Filipe Igualdade; tornou-se deputado na Convenção Nacional, votou favoravelmente a morte do Rei, seu primo, e juntou-se aos jacobinos. Um belo agitar de águas.

Claro que teve o azar de os revolucionários não o quererem para rei; aliás, nem sequer o queriam especialmente para deputado, já que foi eleito como o 24.º e último da lista pela Comuna de Paris e nunca ocupou qualquer lugar de destaque. Talvez o seu momento de glória, em conjunto com o apoio à morte do Rei, tenha sido ter sido também ele morto durante o Terror.

O agitar de águas, a tal luta contra o sistema que Filipe Igualdade patrocinou na esperança de controlar a revolução e chegar ao poder, teve consequências mais profundas que a sua própria morte. Resultou em milhões de mortes entre a revolução, as suas guerras e as campanhas napoleónicas, abrindo caminhos de morte e destruição que chegariam aos nossos dias.

Claro que o pobre Duque não desejava nada disso. Ele só queria derrotar o sistema que, de facto, estava podre. E estava disposto a fechar os olhos a todos os excessos dos revolucionários porque era preciso agitar as águas. E assim perdeu a cabeça, a França perdeu-se e milhões morreram. Mas, ao menos, o sistema caiu.