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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Comvidas: uma luz na escuridão.




Uma das consequências da pandemia que mais me assusta é o medo. O medo que nos domina e que conduz tantas vezes à desconfiança do outro e ao egoísmo. Tenho procurado resistir a essa tentação nestes últimos meses, mas nem sempre com total sucesso.

Preocupa-me sobretudo os miúdos (penso nos meus filhos) que crescem num tempo onde é dito que devemos estar distantes uns dos outros, que não devemos partilhar, que não devemos trocar abraços. Compreendo que algumas destas coisas são necessárias, mas percebo que estamos a educar uma geração para o medo do outro. E que isso é perverso.

Por isso me comove especialmente a acção do grupo Comvidas, um grupo de jovens voluntários que há meses prestam apoio a instituições afectadas pela Covid-19. Num tempo onde tudo diz que a prioridade é fugir do vírus, estes jovens voluntários vão ao encontro dele.

Não são tontos ou suícidas. Trabalham com todas as precauções, seguindo todos os protocolos, para ajudar quem precisa. Não é que desconheçam o perigo, simplesmente não se deixam dominar pelo medo.

São mais de 400 voluntários no terreno, mais de 1200 inscritos, que já trabalharam com 44 instituições. Instituições que não tinham quem apoiasse os seus utentes porque o seu pessoal estava afectado pela doença. E eles lá foram, com ingénua galhardia, lançarem-se para o meio de surtos de Covid, para garantir que não faltava ajuda aqueles velhotes.

Num tempo de medo e egoísmo, estes jovens são um testemunho de coragem e liberdade. O trabalho deles não é fazer bravatas, enchendo a boca de supostas liberdades que no fundo são apenas o egoísmo de não perder privilégios. O que eles fazem é dar a vida, ou pelo menos parte dela, para salvar outras. O seu testemunho seria sempre importante, neste tempo é essencial.

E impressiona que façam este trabalho com discrição, sem alarde, sem barulho. Não tem um plano para resolver a pandemia, não tem uma opinião sobre a epidemia. Veêm uma necessidade e vão ao encontro dela.  Sem discursos e sem teorias. 

Penso que será destes que Jesus fala quando diz: Venham, abençoados de meu Pai! Venham receber por herança o reino que está preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome e deram-me de comer, tive sede e deram-me de beber.

Estou muito grato por conhecer o trabalho do Comvidas, e por conhecer alguns dos seus voluntários. Grato não apenas pelo trabalho concreto que fazem, mas pelo que o seu gesto me educa. Os Comvidas relembram-me que não há maior amor do que a dar a vida por um amigo. Muito obrigado!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Covid-19: Quando a ideologia mata.


O mais assustador nesta (ou em qualquer) pandemia, é a sua inevitabilidade. Sem vacina, poderemos fazer mais ou menos para evitar o seu crescimento, mas ravar a pandemia está bastante para além das nossas capacidades.

Claro que há medidas preventivas que podem impedir os contágios. Diminuir os contactos, o uso de máscara, desinfectar as mãos, etc, são medidas razoáveis. Mas a verdade é que nunca será possível reduzir de tal formas os contactos que se possa controlar a pandemia. O preço a pagar por um confinamento total, como alguns têm defendido, não só é demasiado elevado (infelizmente, não é apenas a Covid-19 que mata), como provavelmente não obteria o resultado pretendido.

Uma pandemia é o que é, desde o principio dos tempos. O homem tem pouco controlo sobre isso. Contudo, o que é possível controlar é a resposta que damos à pandemia. E aí é que o falhanço, em Portugal, tem sido total.

O problema não são as pessoas, que têm que trabalhar, que têm filhos, que têm de fazer compras e que têm que têm de acompanhar a família. O problema é a falta total de preparação das autoridades para responder a um acontecimento que era expectável.

Se em Março a falta de preparação era desculpável, passado 10 meses é incompreensível. A falta de meios no SNS continua a ser assustadora. E não é que estas lacunas fossem desconhecidas. Já anteriormente tinha acontecido, em épocas de gripe, os hospitais quase colapsarem. Seria expectável que o mesmo acontecesse numa nova vaga desta pandemia.

Mas o mais escandaloso, é perceber que, mesmo sabendo das limitações do SNS, mesmo sabendo que os hospitais públicos estão próximos da ruptura, mesmo sabendo que há doentes a morrer de outras doenças por falta de resposta, mesmo sabendo que neste momento os médicos já têm que escolher de entre os doentes de Covid quais tratam primeiro, o Governo continue a não aproveitar todos os recursos que há para combater esta crise.

A cegueira ideológica do Governo é tal que continua a recusar-se a incluir os hospitais privados no combate a actual crise. Seja a receber doentes com outras patologias à quais o SNS não consegue dar resposta, quer seja a receber doentes Covid.

Qualquer pessoas normal, diante daquilo que temos vivido neste dias, diria que se devia aproveitar todos os recursos do país. Sobretudo, quando há pessoas a morrer por falta de resposta. Mas para o nosso Governo, e para a esquerda, o importante é mesmo “defender” o SNS (mesmo que isso signifique rebentar com o mesmo).

A esquerda afirmar muitas vezes que os privados lucram com a saúde das pessoas. Pelos vistos a esquerda prefere a morte das pessoas só para dar prejuízo aos privados!

Parte da situação que vivemos é culpa da impreparação do Governo. Mas não nos esqueçamos que não é apenas incompetência. Há uma decisão ideológica da esquerda de não incluir os Hospitais privados no combate à pandemia. E essas decisão ideológica custa vidas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O Natal não é quando o homem quer.



Tenho lido por aí repetidamente que o Natal este ano pode ser cancelado. Não querendo chatear ninguém, mas seria bom que não nos déssemos assim tanta importância. Se é verdade que o Governo chamou a si o poder de tolher de maneira idiota e desproporcional os nossos direitos, a verdade é que o Natal ainda não está à disposição dos homens.

Relembro aos mais distraídos que o Natal é um acontecimento histórico preciso: Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. (...) José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

Como se pode perceber, é pouco provável que este facto possa ser simplesmente “cancelado” por conta de uma pandemia. Sobretudo, porque sendo um facto histórico concreto (também me parecia difícil cancelar o cerco de Alésia!), é ao mesmo um acontecimento sobrenatural: Deus fez-se carne e habitou entre os homens. E por isso não nos limitamos a recordar um acontecimento histórico, mas fazemos memória da Encarnação Divina. Pela Sua Misericórdia, Jesus volta a nascer no coração de cada homem de boa vontade, que esteja disposto a fazer do seu coração uma manjedoura.

Evidentemente que se podem cancelar todas as festividades: as luzes, os concertos, os jantares de amigos, as festas das escolas e os encontros familiares. Num acesso de loucura o Primeiro-Ministro pode proibir a venda de bacalhau e a Dra. Graça Freitas pode declarar que o Bolo Rei ajuda na propagação do vírus. Em última instância até podem fechar as Igrejas e guardar todos os presépios do país em caixas. Nada disso impedirá o nascimento do Deus Menino, nem impedirá os cristãos de o acolher no seu coração! O Natal acontece, celebrado nas catacumbas ou nas basilicas papais, nas trincheiras geladas ou em casa junto à lareira, nos pequenos casebres ou nos palácios reais. A verdade é que celebramos o Natal há dois mil anos, com perseguições, guerras e pandemias. E nunca ninguém conseguiu esse belo feito de cancelar o Natal. E se por ventura, em algum momento, a Igreja peregrina desaparecer e ninguém na terra celebrar o Natal, este será para sempre celebrado pela multidão dos Santos que nos antecederam.

O Governo pode cancelar todos os festejos de Natal (ou pelo menos tentar). Mas esses festejos, por muito bons que sejam, são apenas uma consequência do Natal. Gostava que não acontecesse, porque gosto muitos das tradições natalícias: gostos dos cantos, dos presentes, de reunir a família. Até começo a gostar do Pai Natal. Mas se tal vier a acontecer, não muda em nada o Natal. Com ou sem luzes, com sem árvores de Natal, um facto permanece até ao fim dos tempos (e até para a eternidade): O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. (...) Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz».

Por isso não nos apoquentemos com o que há de vir, assunto sobre o qual pouco ou nada podemos fazer. Preparemos-nos antes para este extraordinário mistério do Nascimento do Deus Menino.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Defendo o Avante porque não sou comunista.





Tenho assistdo com alguma incredulidade à polémica sobre a Festa do Avante. Eu bem sei que nos últimos anos é trendy tratar a festa comunista como se mais um festival de música se tratasse, onde a única diferença era o stand da Vodafone ou da NOS ser substituído pelo do Partido Comunista da Coreia do Norte ou de Cuba. Frequentar o Avante era aliás prova de liberalidade e de vistas largas, típica da burguesia ocidental que sempre gostou de tratar os comunistas como uns caturros idealistas (ao contrário dos burgueses dos países comunistas, que regra geral não gostavam daquela caturrice comunista que consistia em prende-los, tortura-los ou matá-los).

Mas o PC nunca tratou o Avante como um mero festival. Sempre foi uma fonte de financiamento, uma prova de força e uma ocasião de marcar a reentré política. Simplesmente nunca se preocupou que isso fosse feito à custa de capitalistas tontos.

Por isso quando Jerónimo de Sousa diz que o Avante não é um festival de música tem toda a razão. É de facto uma acção política, onde o PC demonstra a sua força. E sendo uma acção política, está protegida pelo direito à liberdade politica garantida pela Constituição. O direito de reunião não depende da lei.

Logo, é evidente que o Partido Comunista não precisa de autorização para fazer a Festa do Avante. Não estamos em Estado de Emergência, a Constituição continua em vigor, não consigo por isso perceber com que autoridade o Governo pode ditar que acções políticas podem ou não realizar-se.

O ponto não é autorizar-se a Festa do Avante, mas em que termos ela se pode realizar-se. De facto o Governo pode ditar regras para a realização de acções políticas, incluindo regras sanitárias, depois cabe a quem promove acções politicas decidir se as realiza ou não. E até agora não ouvi ninguém do PC contestar isso. Aliás, o PC limitou-se a relembrar que o Avante não era um festival de música e ainda nem confirmou que se vai realizar.

Claro que grande parte da fúria com o Avante vem da proibição por parte do Governo de outra actividades. Mas era bom que se percebesse que o problema não é a festa do Avante, o problema é o Governo considerar que pode decidir sobre celebrações religiosas, o problema é ter polícias a questionar cidadãos na praia e na rua, o problema é achar-se que um partido político tem que pedir autorização para acções políticas. Isso é que devia realmente revoltar as pessoas.

Se a situação é de tal maneira grave que exige medidas extraordinárias então que se volte ao Estado de Emergência. Agora se não o é, então o Governo não pode evocar a Lei de Bases da Protecção Civil, para emitir decretos e despachos que violam a Constituição.

Eu defendo que o PC tem todo o direito de fazer a Festa do Avante, se assim o quiser, nas condições sanitárias que forem exigidas em Setembro. Não o faço por causa dos comunistas, nem sequer pela festa a que nunca fui e não tenciono ir. Faço-o porque acredito que num Estado de Direito nenhuma pandemia justifica que o Governo aja à margem da Lei e da Constituição. Faço-o porque acredito que a Democracia exige, especialmente em tempos de crise, o respeito pelos Direito Fundamentais que não estão à disposição do Governo, nem da maioria parlamentar. Defendo a Festa do Avante precisamente porque não sou comunista, porque acredito na liberdade individual e na liberdade política, acredito nas responsabilidade individual e política. Mas exijo também que a Constituição, com os seus Direitos Fundamentais, não se aplique apenas ao Partido Comunista, mas a todos os cidadão portugueses. 

domingo, 3 de maio de 2020

Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus




1. A resposta de Jesus sobre a quem se devia pagar imposto, se ao Templo se a César, é provavelmente uma das suas frases mais conhecidas. Quando questionado Jesus respondeu: de quem é a face que aparece na moeda? Respondem-lhe que é de César. Então o Messias diz, dai pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Jesus estabelece um princípio claro até então desconhecido: o de que a religião era independente do poder. Cristo é o primeiro a separar a Igreja do Estado.

E essa luta será uma constante da história da Igreja. A historiografia moderna, profundamente anti-católica, faz questão de confundir a Igreja e o poder durante parte da história da Europa. Esta versão da história ignora por completo a luta da Igreja pela sua liberdade contra o Poder Temporal, que tentou utilizar a Igreja como sua extensão. Os momentos em que a Igreja e o Poder estiveram juntos, foram em regra por escolha do Poder, com a Igreja submetida.

Em Portugal foi a resistência dos bispos portugueses que conseguiu a separação entre a Igreja e o Estado, e assim garantir a liberdade da Igreja. A recusa dos bispos em aceitar a submissão à Lei da Separação (que não separava coisa nenhuma, antes regulava de maneira estrita a vida da Igreja) fez a verdadeira separação da Igreja do Estado. O preço pago foi alto (todos os bispos foram desterrados, perderam-se os Paços, Igrejas, seminários, etc.) mas foi assim que a Igreja em Portugal se libertou do jugo do Estado: desobedecendo à Lei, resistindo ao Governo.

A Igreja sempre reconheceu que cabe ao Poder legítimo governar a sociedade. E que os cristão tem obrigação de lhe obedecer: dai a César o que é de César. Mas também sempre foi clara que “a Deus o que é de Deus”: não cabe ao Estado governar a Igreja. A separação da Igreja e do Estado não significa apenas que a Igreja não se mete no governo, significa também que o Estado não se mete na Igreja.

2. A Constituição da República Portuguesa no número 1 do seu artigo 41º estatui: A liberdade de consciência, de religião e de culto é inviolável. E no número 4 acrescenta: As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.

Ou seja, a liberdade religiosa pode-se declinar em duas vertentes: o direito pessoal de cada um a praticar a sua religião e o direito social das religiões de se organizarem livremente. Quer a minha liberdade de praticar uma religião, quer a liberdade de cada religião se organizar, são direitos fundamentais consagrados pela Constituição.

A mesma Constituição também prevê, no seu artigo 19º, a possibilidade de alguns direitos serem suspensos em caso de declaração de Estado de Emergência, mas exclui dessa possibilidade o direito à liberdade de religião.

É assim bastante discutível que a proibição de celebrações religiosas públicas fosse possível tal como foi declarada no Estado de Emergência das últimas semanas. De facto o Governo podia proibir eventos públicos em geral, ou ajuntamentos de pessoas, mas é duvidoso que pudesse de facto proibir celebrações religiosas.

Mas se durante o Estado de Emergência a questão ainda era discutível, chegando agora (enquanto escrevia este artigo acabou o Estado de Emergência) a declaração de calamidade, não há qualquer discussão possível. Um acto administrativo, baseado numa lei ordinária, não pode evidentemente restringir um Direito constitucionalmente garantido.

Por isso quando António Costa anunciou que as celebrações religiosas só voltariam no fim do mês, fez uma declaração para a qual não tinha poder. Como diz a Constituição, as igrejas são separadas do Estado e são livres na sua organização. Não estando a Constituição suspensa, sendo Portugal um Estado de Direito, o Primeiro-Ministro tem tanto poder para declarar quando começam as celebrações religiosas como para dizer o que vai ser o jantar cá em casa!

3. Dirão alguns que isto é um pormenor, que assim como assim os bispos estão de acordo com a data, que não vale a pena perder tempo com bagatelas diante da crise em que estamos.

Mas é precisamente porque vivemos uma crise que é essencial garantir o respeito pelo Estado de Direito. A teoria de que o bem maior tudo justifica, até o atropelo da Constituição e dos Direitos Fundamentais, abre a porta a que o poder do Estado não tenha limites. Se a crise justifica que se ignore a Constituição quanto ao direito à religião, o que impede que mais tarde o Estado venha a ignorar outros direitos? Se o limite ao poder já não é a Lei nem a Constituição (já nem falo da Moral) mas apenas as eventuais repercussões eleitorais, o que impede o Governo de fazer o que bem entende? Os cidadãos não são obrigado a confiar na boa fé do Governo. Não temos de estar dependentes dos caprichos do executivo.

4. Eu obedeço ao meu bispo. E confio que a data que o meu bispo escolher para o regresso das Missas públicas será a melhor decisão. Posso não concordar com essa decisão, posso não a perceber, mas sigo e obedeço. E assim procuro dar a Deus o que é de Deus.

Mas recuso-me a dar a César o que é de Deus. O Governo pode decidir sobre eventos públicos ou sobre a quantidade de pessoas por m2, mas não pode decidir quando voltam as Missas públicas. Esse poder só os bispos é que têm. Não por um direito seu, mas pelo direito que o seu povo tem a viver a sua Fé em liberdade. Por isso, mesmo com a concordância dos bispos, a decisão do Governo permanece como um grave ataque (e ilegal) à liberdade de religião de cada português.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O novo Costa da IIIª República





Li um pouco por todo o lado as medidas anunciadas por António Costa para o deconfinamento e fiquei bastante impressionado. Aparentemente todos consideram normal que o Primeiro-Ministro, ao abrigo da Lei de Bases da Protecção Civil, anuncie quando é que os portugueses podem fazer isto ou aquilo. O Primeiro-Ministro já tinha dito que independentemente da Constituição, o confinamento era para manter, e assim o fez. E pelos vistos os jornalistas todos consideram normal, que um Governo democrático aja ao arrepio da Constituição.

Se várias das medidas anunciadas ontem são de duvidosa legalidade, para dizer o mínimo, há uma delas que é ilegal, inconstitucional e gravíssima: o anúncio de que as celebrações religiosas só voltariam no fim de Maio.

O Estado de Emergência está previsto na Constituição e permite a suspensão, em condições muito apertadas, de alguns direitos fundamentais. Evidentemente a Lei de Bases da Protecção Civil não tem “poder” sobre a Constituição. Pelo que aquilo que é permitido no Estado de Emergência, não é permitido com a declaração de Calamidade. Seria absurdo que uma lei ordinária pudesse suspender a Constituição!

Já em Estado de Emergência é discutível a possibilidade de limitação da liberdade de religião. Contudo, como a Conferência Episcopal já tinha suspenso as missa públicas, a decisão do Governo de o fazer estava bastante esvaziada. Mesmo assim, o facto do decreto que regulava o EE suspender a possibilidade de celebrações públicas deu azo a alguns abusos, com as autoridades policiais a interromperem missas, o que me parece digno de um Estado anti-democrático. A autoridade dentro da Igreja é o padre ou o bispo, não é a policia.

Mas a decisão de António Costa de só abrir as Igrejas em Maio é simplesmente ilegal. O Primeiro-Ministro pode proibir ajuntamentos, eventos públicos, abertura de edifícios públicos, mas não tem qualquer poder para regular as celebrações religiosas.  A Liberdade Religiosa é um Direito Fundamental, garantido pela Constituição da República Portuguesa. E por muito que o Primeiro-Ministro queira agir independentemente do que ela diz, a verdade é que não o pode fazer.

Ao Estado cabe, quanto muito, declarar em que condições podem acontecer eventos públicos. Decidir quanto haverá missas públicas cabe aos bispos. Diante das regras para eventos públicos os bispos até podem decidir que só há missas públicas dia 30 de Maio, mas essa decisão é dos bispos, não é do novo Costa, que considera ter poder sobre a Igreja.

Impressiona-me que isto se passe e toda a gente pareça considerar normal. Nenhum jornalista pergunta ao PM com que poder regular o culto religioso, nenhum partido questiona, o Presidente da República não intervem. Há uma violação claríssima da Constituição, mas como estamos numa crise sanitária, parece que tudo é normal. Mas a crise sanitária, ao contrário do que alguns parecem achar, não suspende a Constituição nem dá poderes plenos ao Governo.

E para os que dizem que não é grave, que assim como assim as missas públicas se calhar também só iam começar dia 30, independentemente do governo, digo apenas que é essa a diferença entre o escravo e o homem livre. De facto, talvez pouco mudasse, a não ser esse pequeno pormenor do respeito pela liberdade e pela dignidade humana.

Em 1911 outro Costa também pensou que podia regular a prática religiosa. Todos sabemos como isso acabou: a Igreja ainda cá está, a Iª República desapareceu sem que alguém considerasse  que valia a pena disparar um tiro por ela. Talvez não fosse pior para todos aprender com essa história.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Covid-19: Cristo ou o nada.




Nada é mais insuportável ao homem contemporâneo do que descobrir que não é completamente autónomo, independente. Vivemos num tempo em que o homem tem a pretensão de ser senhor de si mesmo, de controlar tudo. Sou eu que me faço: decido o meu sexo, afasto a velhice, escolho quando morro, quantos filhos tenho. Rejeito toda a autoridade moral ou filosófica, sendo eu único árbitro do certo e do errado. A pretensão humana de autonomia chega ao cúmulo de querer controlar o clima!

Evidentemente esta pretensão é ridícula. O homem contemporâneo é como a criança pequena que veste a roupa de adulto e brinca aos crescidos. Por muito bem que imite a mãe ou o pai, a verdade é que não deixa de ser uma criança que corre para os pais quando esfola o joelho! O Homem por muito que faça de Criador continua a ser sua criatura.

A pandemia da Covid-19 veio por a nu a fragilidade desta pretensão. De repente o homem contemporâneo viu todo o seu mundo suspenso. E não foi algo que aconteceu nos países pobres e subdesenvolvidos, mas que paralisou as nações mais poderosas do mundo. De repentes os senhores do mundo viram-se desarmados diante de algo tão velho como o mundo: uma praga. E a verdade é que todo a ciência, todo o desenvolvimento, toda a riqueza foram incapazes de derrotar a praga. A única coisa que pareceu resultar foi ceder: fechar-nos em casa e esperar que passe! O homem omnipotente viu-se reduzido a cativo de um simples vírus.

E é este facto que aterrorizou o mundo. Não o vírus em si: tantas doenças que matam muito mais que a Covida-19! O que realmente assustou a nossa sociedade foi defrontar-se com a ideia que não depende apenas de si. Que é impotente. Que a realidade está acima da nossa capacidade.

Há uma tentativa de responder como se tivéssemos controlo da situação. O patético #vaitudoficarbem é disso sinal: claro que não vai tudo ficar bem e que ninguém ainda sabe como isto vai acabar. Há pessoas a morrer, a economia mundial está arrasada, não sabemos que acontecerá se isto chegar a países pobres. Dizer que vai tudo ficar bem não passa de uma mentira piedosa, como dizemos tantas vezes às crianças para que não se assustem quando há um perigo. Depois temos também o zelo pelo confinamento, a tentativa desesperada de nos convencermos que de facto há algo que podemos fazer para derrotar a praga. Claro que a prudência é uma coisa boa, mas também é claro que o confinamento quanto muito atrasa o ritmo de contágio, mas não vai resolver o problema.

Estas respostas procuram apenas esconder o problema central desta pandemia, que é também o problema central do Homem, e que procuramos ignorar: nós não controlámos a realidade, nós não somos senhores do destino, nós somos apenas criaturas dependentes.
E é essa dependência que tanto assusta. Porque o Homem contemporâneo, que enterrou Deus, ao descobrir-se dependente, crê estar dependente da natureza, das circunstâncias, do destino. É dependente do nada. Isso aterroriza. É voltar aos tempos do paganismo, que adorava a natureza caprichosa que não compreendia e que temia. Aos pagãos que ofereciam sacrifícios para aplacar os deuses e ter boas colheitas ou vitórias na guerra. Esta ideia é de facto sufocante.

Há contudo uma alternativa: «Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?» A Fé é a resposta a esta dependência. Ao contrário do que hoje se costuma dizer, a fé não é um sentimento, nem algo irrazoável. A Fé é a resposta mais razoável ao drama humano. Porque só há duas alternativas Deus ou o nada. E quem olhando para o mundo, quem olhando para tanto de extraordinário no mundo, pode razoavelmente dizer que somos fruto do nada?

Cristo não é uma mera figura histórica, não é um mestre. Cristo oferece-se como resposta ao drama humano. O cristianismo não é um estilo de vida, não é um método de coaching, não é uma forma de superação, mas o encontro com Aquele que responde plenamente ao Homem.

Evidentemente a Fé não resolve o problema do coronavirus. Não nos livra da doença, nem da morte. Como aliás, não cancela nada do drama humano. Mas torna-nos livres. Livres do medo que paralisa. Por isso cuidamos da saúde, cuidamos dos nossos, mas não tememos a vida, nem sequer a morte. Porque sabemos que não estamos entregues ao acaso, mas nas mãos Daquele que nos amou desde o momento da Criação.

Bem sei que para o nosso tempo as coisas que digo são estranhas. Parecem loucura. Mas há dois mil anos de santos que me acompanham. E parece-me que é mais razoável seguir os seus passos, do que a pretensão moderna de ser senhor do seu destino. Quanto mais não seja, por verificar quão rapidamente essa pretensão ruiu no ultimo mês.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Para quê indignar-nos? São só velhos!




Muitas coisas haveria para escrever sobre o que se tem passado em Portugal durante esta pandemia. A banalização do Estado de Emergência, a crise económica, o acesso dos jovens à escola, o confinamento, e esse tema que tanto emocionou os portugueses, que foram o festejos do 25 de Abril. E todas estas coisas são importantes, e todos estes temas têm sido amplamente debatidos.

Infelizmente existe um ponto nesta pandemia que tem sido alvo de um silêncio ensurdecedor. Um silêncio que vai do Presidente da República até aos comentadores televisivos, passando pelo governo, os deputados, os partidos em geral. E é um silêncio que envergonha, porque se existe algo que devia escandalizar era este ponto. Mas infelizmente, até nas redes sociais, tão rápidas a disseminar petições e memes indignado, parece reinar o mais absoluto silêncio.
Falo da situação dos lares. Dos lares onde este vírus parece ter-se espalhado sem qualquer problema e onde a contagem de corpos se vai acumulando sem que ninguém se sobressalte. Nesta altura o número de velhinhos institucionalizados que já morreram vítimas desta praga já é bastante mais de um terço das vítimas (e já não falo dos que morreram porque, devido ao “confinamento”, não tiveram acesso a cuidados que precisavam).

Mas percebe-se o silêncio, são apenas velhos. Dificilmente irão votar, não escrevem textos dramáticos no “face”, não publicam stories no “insta”, e para além disso, não são produtivos. São apenas um fardo, despejado em lares. E os funcionários dessas instituições, sem qualquer formação médica, sem meios, sem nada a não ser o seu esforço, que cuidem deles. Testes? Sim, quando calhar (já estamos há mais de um mês em Estado de Emergência e ainda nem metade dos residentes dos lares foi testada!). Hospital? Citando a directora do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital de Aveiro, não reúnem os critérios! (ou seja, assim como assim vão morrer).

Por estes, pelo que mais precisam, pelos que estão mais frágeis, não há músicas bonitas, correntes no whatsapp, petições enfurecidas ou mesmo uma selfie do Presidente da República. 

Não, não vai ficar tudo bem: temos velhinhos a morrer em Portugal, perante a total indiferença do Governo, do Presidente, dos partidos, da sociedade. Fossem cães a passar fome, e já estava um batalhão nas redes sociais a vociferar e seria abertura de telejornais. Mas são apenas seres humanos velhos, para quê preocupar-nos!

Esta indiferença põe a nú duas negras verdades. Primeiro o egoísmo da sociedade. Toda a conversa sobre “ficar em casa para salvar a avó” é treta. Os portugueses não ficaram em casa para proteger aqueles que são mais afectados por esta doença. Ficaram por terem medo. Os velhinhos são absolutamente descartáveis, como se pode ver pelo silêncio diante desta tragédia. Os velhos só interessam quando é para dizer mal do padre que lhes deu uma cruz a beijar ou como arma de arremesso contra os refugiados!

A segunda é que os nossos responsáveis políticos de facto vivem cada vez mais para a comunicação. Só interessa o que está na ordem do dia, o que faz sururu nas redes sociais. O 25 de Abril, os computadores para os jovens estudarem, o lay-off, os lucros dos bancos, os presos! Velhos a morrer em lares, abandonados pelo Estado? Isso não traz likes, nem dá caixas de jornais ou votos nas urnas. Logo, para quê preocupar-nos?

Há uns anos ouvi o professor Henrique Leitão dizer que hoje em dia o único limite que o poder conhece é a indignação popular. Infelizmente as massas preferem indignar-se com o 25 de Abril e com os presos. E assim os nossos mais velhos vão morrendo, silenciosamente, esquecidos, transformados em número nas estatísticas da DGS.

domingo, 19 de abril de 2020

Por favor não matem os velhinhos - Observador

Nos últimos tempos temos ouvido variadas vezes que esta crise do Covid-19 está a correr bem. Consigo perceber quem tem esta opinião. Tendo em conta o currículo do actual governo em situações de urgência, todos nós esperávamos o pior. Depois dos incêndios e de Tancos, pensando no estado em que Centeno deixou o SNS, é normal que os portugueses estivessem à espera dum cenário pior do queo de Itália e Espanha.
Contudo, é cada vez mais evidente que o Governo navega à vista nesta crise, sem qualquer plano. As soluções vão aparecendo aos soluços, a maior parte das vezes indo atrás daquilo que os corpos sociais já estão a fazer. Quando o governo declarou que podia requisitar os hospitais privados para combater o vírus, já estes se tinham oferecido, quando declarou que podia requisitar indústrias para redirecionar a sua produção para o combate ao vírus, já estas os estavam a fazer e quando criou a telescola já a maior parte das escolas tinham programas para poder acompanhar os seus alunos em casa. Se isto está menos mal, pouco crédito pode ser dado ao Governo por isso.
De facto, temos visto durante esta crise como, tantas vezes, teve o poder local que se substituir ao Governo. Basta pensar nos centros de testes criados no Porto, ou nos centros de acolhimento para sem-abrigos criados por Carlos Carreiras em Cascais, ou como Hélder Silva em Mafra já distribuiu máscaras por todos os seus munícipes. Uma das grande excepções é Lisboa, onde a resposta da Câmara varia entre curta e nula (o que leva alguns lisboetas a pensar se, já que temos um portuense como presidente da Câmara, não poderíamos trocar Medina por Rui Moreira).
Mas infelizmente nem com todo o esforço popular, social e autárquico é possível dizer que está a correr bem. Não quando sabemos, afirmado por Graças Freitas, que um terço dos mortos são utentes de lares. É ofensivo afirmar que esta crise está a correr bem, quando uma parte especialmente frágil da população está a ser fustigada desta maneira por este vírus. E sim, eu sei que fazem parte de um grupo de risco, mas isso é mais uma razão para serem especialmente protegidos. Infelizmente, diante desta tragédia a directora-geral da DGS nada mais faz do que culpar as instituições que não seguem as indicações!
Ou seja, perante uma doença sobre a qual pouco se sabe (relembre-se que não foi assim há tanto tempo que a própria Graças Freitas afirmou que não se transmitia entre humanos), mas que afecta especialmente os mais velhos, o Governo nada fez para proteger os velhinhos que vivem nos lares. Não há um plano, não há material, não há nada, a não ser indicações! E a directora-geral da DGS tenta explicar que a culpa é das instituições. Ou seja, daquelas instituições que não têm dinheiro, não têm condições, onde os funcionários estão isolados para apoiar os utentes e a quem o Governo nega qualquer apoio. Mas o problema é mesmo as IPSS, que não seguem as “indicações”!
É vergonhoso que o primeiro-ministro diga, sorridente, que isto está a correr bem. Não, não está. O que se passa nos lares é uma vergonha para o país. E é a face visível do abandono a que os nossos idosos estão entregues em Portugal (e ainda terão que explicar o enorme aumento de mortes desde que esta pandemia começou, comparativamente ao ano passado, por outra causas que não o vírus).
No dia 21 de Fevereiro, quando o vírus já estava à porta, a ministra da Saúde dizia que o SNS estava preparado para aplicar a eutanásia, que era uma questão de humanidade, que com certeza que se faria as adaptações necessárias. Aparentemente o Governo é capaz de preparar e fazer adaptações para uma lei que não está em vigor para permitir a morte a pedido. Só não é capaz é de tomar medidas para proteger os mais velhos. Infelizmente, é mesmo caso para dizer: por favor não matem os velhinhos.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Este país é para velhos, por enquanto.




Quer da Holanda quer da Bélgica chegam-nos notícias de que para os doentes de Covid-19 mais velhos as autoridades de saúde recomendam apenas cuidados paliativos. O mesmo se recomenda para certos casos de doença mental ou grupos de risco do vírus. Não se trata de indicações sobre o que fazer quando só há recursos para uma pessoa e há dois doentes. Não são critérios clínicos, são directrizes políticas que dizem que não vale a pena gastar recursos a salvar idosos e doentes.

Não é coincidência que estes sejam os dois países do mundo que primeiro legalizaram a eutanásia. Desde que a discussão começou em Portugal que tenho dito que, para além das questões técnicas, políticas, de saúde, há uma questão de fundo neste debate. A legalização da eutanásia não é apenas uma mudança legislativa, é uma mudança de consciência e de cultura.

A nossa civilização foi construída sobre a ideia que toda as pessoas têm igual dignidade. Que a Vida Humana é sempre digna, independentemente da sua circunstância. Esta ideia, que vêm do personalismo cristão, está vertido na Constituição portuguesa no artigo 24º que diz “A Vida Humana é inviolável”.

A partir do momento em que há circunstâncias em que o Estado permite matar alguém, o Estado afirma que há circunstâncias em que a Vida Humana já não é digna. Se a Vida é violável em determinadas circunstâncias, isso quer dizer que não é inviolável.

Legalizar a morte a pedido é por isso substituir o principio de que a Vida é sempre digna, pela ideia de que a dignidade da Vida Humana está ao dispor do Estado, é ditada pelo Estado. De um bem totalmente indisponível a Vida Humana passa a ser um bem à disposição do poder.

Por isso é sem espanto que vejo que os dois primeiros países que legalizaram a eutanásia não tenham qualquer problema em afirmar como política que não vale a pena tentar salvar os idosos e os mais doentes. É a consequência lógica de tornar legal a morte a pedido. Se um idoso ou um doente que pede para morrer pode ser morto pelo Estado, se dizemos que a sua Vida já não merece protecção legal, é apenas lógico que numa crise, onde os recursos são escassos, o Estado assuma logo que não vale a pena tentar salvar Vidas que legalmente têm menos dignidade, menos valor do que as outras.

Não duvido das boas intenções daqueles que defendem a legalização da morte a pedido. Nem tenho qualquer dúvida que muitos dos que hoje em Portugal defendem tais leis fiquem igualmente indignados com a decisão da Holanda e da Bélgica durante esta crise. Mas é importante que se perceba que a lei molda mentalidades. E que, quando legislámos, não podemos pensar apenas no imediato, mas no longo prazo. A longo prazo é evidente que legalizar a eutanásia desprotege a Vida dos mais frágeis. Mesmo que o actual legislador não tenha essa intenção. E se não acreditam, basta olhar para a Bélgica e a Holanda, dois países fundadores do União Europeia, dois países democráticos, dois países onde a Vida dos velhos e dos idosos não merece o esforço de ser salva.
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Em Portugal ainda vamos a tempo de evitar seguir este camimho. Espero que esta crise, onde com tanto esforço procuramos proteger a vida dos nossos mais velhos e mais frágeis,  traga algum bom senso aos nossos deputados. Sempre era algo de bom que saia desta crise.

sábado, 14 de março de 2020

À espera do Ressuscitado

A suspensão das missas comunitária por parte da Conferência Episcopal trouxe-me à mente a frase de Paul Claudel em O Anúncio a Maria: Para quê atormentar-nos se é tão fácil obedecer? Evidentemente que todo temos a nossa opinião sobre o assunto. E claro que todos temos liberdade de a dar. Mas pergunto-me: isso é útil? A verdade é que o Espírito Santo não escolheu bloggers católicos ou opinadores do Facebook para governar a Igreja. Escolheu os bispos.

Diante desta decisão, mais do que opiniões, parece-me que o mais útil é reflectir sobre este sacrifício a que o Senhor nos chama nesta Quaresma. Também a nós nos é pedido que nos retiremos do mundo durante um tempo. É evidente que não vamos para o deserto como Jesus. Hoje, mesmo fechados em casa, podemos estar em contacto com o resto do mundo. Para além disso temos o que comer e o que beber. Mas estes dias de recolhimento podem ser úteis para estar mais a sós com o Senhor.

Estes dias também são úteis para reavivar em nós a sede da Eucaristia. Falo por mim: a facilidade com que em Lisboa posso ir à missa leva-me tantas vezes a não lhe dar o devido valor. Quantas vezes trato a missa como uma maçada ou um inconveniente. Quantas vezes tento encaixar a missa entre os planos de Domingo. Quantas vezes chego a ter a ousadia de me chatear porque numa cidade onde há missa a quase todas as horas não haver nenhuma no horário que me era mais conveniente. Quando soube da decisão de suspender as missas públicas de repente senti-me privado de algo essencial na minha vida. E suponho que o tempo que levar até que volte a poder ir à Santa Missa só vai aumentar esse sentimento. Espero por isso que esta “ausência” sirva para  crescer na consciência da graça que é poder ir à missa e comungar o Corpo de Cristo.

Para além disso reparo que nestes dois dias desde que a decisão da CEP foi tomada começo a rezar mais e com mais intensidade. Como se a ausência da missa aumentasse em mim a urgência de estar com Deus. Aumentasse a minha dependência de Deus. Neste tempo de incerteza é bom reavivar esta consciência de que somos criatura de Deus, que dele estamos dependentes. Mas sobretudo, a consciência de que só Ele É.

Por fim penso que misericórdia que é para nós vivermos este sacrifício na Quaresma. Nesta Quaresma a espera pelo ressuscitado torna-se mais carnal. Também nós, como os apóstolos depois da crucifição, estamos fechados em casa com medo. Também para nós o Senhor está escondido. A suspensão das missas públicas é como a pedra à porta do sepulcro. E nós agora  iremos atravessar um logo Sábado Santo. Até ao dia em que esta suspensão seja levantada. E aí poderemos correr à Eucaristia, como Pedro e João para o Sepulcro. Poderemos cair de joelhos como Tomé diante do Corpo de Cristo e exclamar “Meu Senhor e meu Deus”.

Em Deus querendo haveremos de voltar-nos a encontrar na Igreja. Voltaremos a adorar a Deus feito Carne num pedaço de Pão. Voltaremos a comungar o Sangue de Cristo. Que este tempo de espera aumente em nós o desejo pela Eucaristia e a consciência da Graça que Deus nos concede de cada vez que nela participamos. Sobretudo, não desesperemos. Como diz São Paulo:

Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós? Ele, que nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?

Jesus Cristo, aquele que morreu, mas que ressuscitou, que está à direita de Deus é quem intercede por nós. Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? Em tudo isso somos vencedores, graças àquele que nos amou. Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus.



quarta-feira, 11 de março de 2020

Sem histerismo nem facilitismo: a serenidade da Fé.








Confesso que tenho estado perante este surto do Covid-19 com uma sensação mista de incredulidade e algum desânimo. Ao contrário de tanta gente que leio nas redes sociais, não consigo ter grandes certezas sobre o tema. Não sei se as escolas deviam ou não fechar, se o país devia ser posto em quarentena. Não alinho no histerismo, mas também não partilho da opinião de que isto é tudo culpa da comunicação social.

É evidente que estamos diante de algo grave, quanto mais não seja pelo pouco que se sabe sobre este vírus. E se o histerismo não nos leva a lado algum, é importante a prudência. Se de facto não for assim tão grave, só teremos perdido alguns dias com constrangimentos. Se o caso for realmente grave, então provavelmente daremos esses constrangimentos por bem empregues.

Também tenho assistido a muita zanga com este tema. Zanga com o Governo, com a DGS, com as pessoas que vão à praia, com as pessoas que compram demasiado papel higiénico. Também não consigo partilhar dessa zanga. Toda esta situação é demasiado nova, demasiado desconhecida, tem demasiadas variáveis. É normal que haja desorientação nos governantes. É normal que as pessoas não saibam reagir. E se este vírus vai sem dúvida afectar a vida social (já ninguém se atreve a abraçar amigos, quanto mais um desconhecido), acrescentar a esse afastamento zangas e acusações não me parece útil. Sim, também vi as fotografias das praias cheias. E sim, também acho inconsciência. Mas sejamos honestos: quantos de nós temos levado completamente a sério todas as indicações médicas contra a propagação do Convid19? Eu confesso que só há dois dias é que comecei a lavar as mãos mais vezes do que o costume.

Sobre este tema não tenho qualquer opinião ou conselho para dar que seja útil. E a verdade é que a maior parte das pessoas que dá opiniões sobre o tema também não. Há esta necessidade de ter e exprimir opinião sobre todos os assuntos. Parece-me que nesta crise tal necessidade só tem trazido confusão. A opinião que conta, e que devemos seguir, é a dos especialistas.

A verdade é que estamos impotentes diante desta ameaça. Pouco ou nada podemos fazer para a travar. Resta-nos por isso o supremo acto de humildade que é pedir. Pedir Àquele que tudo pode. Pedir para que ilumine os nossos Governantes. Para que dê forças aos nossos médicos e enfermeiros que estão à beira de uma batalha imprevisível. Pedir pelo nosso país. Pedir pelos que estão doentes e pela alma dos que já morreram.  E virar o olhar para Maria Santíssima, Consoladora dos Aflitos, Saúde dos Enfermos, Auxílio do Povo Cristão.

Poucas orações me consolam tanto como a oração de São Bernardo de Claraval a Nossa Senhora. Que a certeza da Fé nos ajude e sustente neste tempo de tribulação a não ceder ao medo e ao desespero.

Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria,
que nunca se ouviu dizer
que algum daqueles
que têm recorrido à vossa protecção,
implorado a vossa assistência,
e reclamado o vosso socorro,
fosse por Vós desamparado.
Animado eu, pois, de igual confiança,
a Vós, Virgem entre todas singular,
como a Mãe recorro,
de Vós me valho e,
gemendo sob o peso dos meus pecados,
me prostro aos Vossos pés.
Não desprezeis as minhas súplicas,
ó Mãe do Filho de Deus humanado,
mas dignai-Vos
de as ouvir propícia
e de me alcançar o que Vos rogo.