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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mário Machado e Mamadou Ba: a mesma luta contra a história de Portugal!




A Península Ibérica é habitada há milhares de anos. Antes de surgir Portugal passaram por cá iberos, celtas, gregos, fenícios, cartagineses, romanos (que sendo um império culturalmente homogéneo eram etnicamente bastante heterogéneos), vândalos, suevos, alanos, visigodos e por fim árabes.

Quando Dom Afonso Henriques, uma mistura de borgonhês e leonês, se lançou na reconquista, fê-lo na companhia de galegos, dos senhores de entre Douro e Minho, dos cavaleiros vilões de Coimbra, dos cruzados flamencos, ingleses, normandos e templários de toda a Europa. O reino de Portugal foi construído com moçárabes, judeus e muçulmanos e com o grande auxílio dos monges de Cister, também eles provenientes de vários pontos da Europa.

E se nos séculos seguintes Portugal foi sempre porto para toda a Europa, fazendo a ligação entre o Mediterrâneo e o norte do continente, com os descobrimentos o nosso país espalhou-se pelo mundo.

O Império foi construído não apenas pela força das armas, mas muito também graças à envagelização, à diplomacia e ao comércio. E assim Portugal iniciou uma relação de cinco séculos com África, com a Índia, com o extremo Oriente e com o Brasil. Ainda hoje podemos visitar os nossos monumentos um pouco por todo o mundo. 

Mas a relação com o resto do mundo não se resume à pedra morta, mas vive ainda hoje na cultura de vários países. Antes de mais na língua portuguesa, falada em cinco continentes. Mas também em tantos outros pormenores, da gastronomia ao futebol (basta relembrar as celebrações pela conquista do Euro 16 em Timor).

Assim como Portugal se espalhou pelo mundo, também o mundo veio até Portugal. Por isso nos podemos orgulhar de Coluna ou de Eusébio. Por isso cantamos com Caetano e Cesária Évora. Por isso lemos com comoção Mia Couto e Vinícius.

Evidentemente esta nossa relação com o mundo nem sempre foi pacífica. Muitas vezes errámos, usámos violência quando não devíamos, roubámos o que não era nosso. Como qualquer outro povo, também nós temos a nossa quota-parte de misérias. Mas a verdade é que a nossa história é fruto de um cruzamento de povos e culturas. Portugal partilha a sua história com Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor, Índia e China, assim como com tantos outros países onde a presença portuguesa se fez sentir, como a Tailândia, o Japão ou o Sri Lanka. 

Por tudo isto é absurdo qualquer tentativa de fazer do racismo um valor do patriotismo. Se o racismo é sempre absurdo, é-o ainda mais quando se tenta basear na defesa da cultura portuguesa. Porque o racismo é a antítese da nossa cultura, é o contrário daquela cultura que permitiu a um pequeno país como o nosso ter um império mundial. Não foi só com europeus branquinhos que Portugal manteve a sua presença no mundo. Foi também com portugueses africanos, índios, goeses, chineses e de tantos outros povos asiáticos, unidos a Portugal pela Fé. 

Dizer a um negro em Portugal “volta para a tua terra” é absurdo. Não apenas pela grande probabilidade de ele ser nado e criado em Portugal, mas porque mesmo que não seja, é muito provável que pertença a um desses povos que partilham connosco 500 anos de história. Por isso Portugal também é terra de tantos negros que habitam os bairros sociais e que nos últimos dias têm sido alvo de insultos torpes por causa de meia dúzia de bandidos. Eu tenho mais em comum com um cabo-verdiano do que com um alemão!

Por outro lado, tentar fazer passar Portugal como um país racista é absurdo. Por tudo o que já foi dito acima, é evidente que o nosso país não é racista. Aliás, o nosso país tornou-se grande precisamente por não o ser! Quer isto dizer que não há racismo em Portugal? Claro que há! Cá temos tudo, do bom e do mau. Incluindo racistas. Mas tentar reduzir problemas sociais graves, como a integração dos habitantes de bairros sociais, a uma luta racial versão marxista é falso e perigoso. Perigoso porque, à custa de tanto repetir a cassete do racismo, acaba mesmo por gerar problemas raciais.

Aliás, o racismo de Mário Machado e o anti-racismo de Mamadou Ba são duas faces da mesma moeda. Quando um negro é apanhado num crime ambos dizem a mesma coisa “é porque é negro”. No caso de Mário Machado diz para acusar os negros de serem criminosos, no Caso de Mamadou Ba para explicar que os negros são oprimidos. Mas no fundo ambos reduzem as pessoas à sua etnia.

Portugal tem problemas graves de pobreza e, sobretudo, tem problemas graves de integração social. Somos dos países da Europa onde é mais difícil aos pobres ascender socialmente. Na área metropolitana de Lisboa continuam a abundar bairros pobres, onde o crime impera, com escolas degradadas e onde os habitantes vivem em condições desumanas. Isto nada tem de racismo, é apenas sinal do falhanço do Estado relativamente aos mais pobres. Reduzir este problema a polícias vs habitantes dos bairros sociais ou brancos vs negros é passar ao lado do grande problema. 

Não temos um problema racial, temos um grave problema social. Em vez de perdermos tempo com debates imaginários, ou com personagens pouco recomendáveis, seria melhor começar de facto a tentar encontrar soluções para os problemas reais.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Mário Machado, Isabel do Carmo, Otelo Saraiva de Carvalho: extremistas maus e extremistas bons.



A mim pouco me incomoda quem é que a TVI convida para o seu programa da manhã. Cada vez vejo menos televisão e seguramente não tenciono ver os programas matutinos. Manuel Luís Goucha convidar Mário Machado ou a senhora que vende tremoços na praça é me absolutamente igual. O programa é feito para ter audiências e quem o produz faz o que achar melhor para ter sucesso.

Já apresentar um homem condenado por agressões, raptos e torturas, um homem que defende publicamente a violência e o ódio como armas políticas, um homem que continua envolvido no mundo do crime e da violência, como um político com ideias um pouco extremas incomoda-me muitíssimo. Incomoda-me porque é mentira. Líder político com ideias extremas é André Ventura. Mário Machado é um criminoso cuja carreira política se confunde com a carreira criminosa. Não vejo problema que ele fale na televisão, tenho um enorme problema de o ver bem vestido e arranjado no programa da manhã da TVI a falar como se fosse um qualquer famoso com ideias extravagantes. Porque isso é enganar o público. A senhora velhinha que vê atentamente o programa do Goucha, que nunca ouviu falar de Mário Machado, que não faz ideia que ele tenho estado envolvido no espancamento de vários negros e na morte de Alcino Monteiro, que não sonha que ele foi condenado por raptar e tortura uma pessoa com um serrote e cera a escaldar, olha para aquele homem bem vestido ali a falar sobre segurança, respeito e outras charlatanices e até o acha bom rapaz. 

Evidentemente que a reacção da esquerda, a pedir a intervenção do Estado e da justiça para silenciar Mário Machado é absurda. Para a esquerda uma pessoa tem liberdade para mudar de sexo, para se drogar, para se matar, só não tem liberdade para dizer estupideces (ou melhor, para dizer estupideces diferentes das da esquerda). A verdade é que a esquerda não lida bem com a democracia. Para a esquerda a liberdade de expressão e de pensamento está-lhes reservada. Tudo o resto é fascismo que deve ser ilegalizado e punido pelo Estado.

Este caso revela também uma grande diferença entre a direita e a esquerda. Foi possível ver e ouvir claramente o repúdio da direita para com Mário Machado. Mesmo aqueles que defenderam a TVI deixaram claro o repúdio que o líder da Nova Ordem Social lhes merece. Ao contrário da esquerda que parece incapaz de repudiar os seus terroristas e não se importa de branquear os crimes dos seus extremistas.

Ouvi a belíssima intervenção de Daniel Oliveira sobre Mário Machado, onde descreveu os crimes dos quais ele foi condenado. Mas gostaria de também de o ouvir descrever os crimes de Isabel do Carmo da próxima vez que ela for entrevistada. Li um bom artigo do Rui Tavares sobre como se dava mais publicidade a Mário Machado do que a Alcino Monteiro, e de como se deviam sentir os pais da vítima. Mas gostaria também de o ler sobre Gaspar Castelo Branco, morto pelas F-25 à porta de casa, da próxima vez que houver uma aparição pública de Otelo Saraiva de Carvalho, de como se devem sentir a mulher e os filhos da vítima de cada vez que ouvem o assassino do seu marido e pai a ser cortejado pela comunicação social. Que a esquerda em geral condenasse com a mesma força com que condenou a aparição de Mário Machado a aparição de todos os terroristas de esquerda, cujas vítimas continuam esquecidas e cujos crimes foram branqueados. É que Mário Machado é um pária, que esteve já preso dez anos. Otelo, Isabel do Carmo, Luis Gobern, Camilo Mortágua, entre outros, continuam a ser festejados e aplaudidos, apesar dos crimes dos quais nunca se arrependeram. 

A liberdade de expressão e de pensamento é essencial na democracia. Mário Machado, Otelo Saraiva de Carvalho, Isabel do Carmo e outros que mancharam de sangue a sua carreira política não deixaram de ter estes direitos. Se a TVI os quiser convidar para os seus programas pode fazê-lo. Mas era importante que, sob o manto da liberdade não se escondesse também a verdade. Porque a Democracia exige liberdade mas também não vive sem a verdade.