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terça-feira, 28 de abril de 2026

A humildade na cama do hospital




Faz hoje um mês que fui ao hospital com o que pensava ser uma enorme contratura muscular nas costas e alguns problemas de estômago, para afinal aprender uma palavra nova: empiema.
Aquilo que era para ser apenas uma visita curta transformou-se em 23 dias de internamento (na fotografia vê-se a janela dos meus aposentos durante a estadia), enquanto me drenavam alguns dos litros de líquido que se tinham alojado na minha pleura e contraíam o pulmão. Dos potenciais riscos nenhum se concretizou, e a minha estadia hospitalar ficou marcada mais pela inconveniência do que pelo sofrimento. Mas não escondo que não foram dias fáceis, sobretudo ao princípio, sem saber quantos dias ficaria no hospital, sem forças para nada, na expectativa de saber se os tratamentos estavam a resultar.
A primeira semana de internamento coincidiu com a Semana Santa. De facto, acabei por ser operado na Quinta-Feira Santa e, na Sexta-Feira Santa, acordei com dois drenos de onde me tiravam sangue e líquido. Não me era possível não me lembrar da Paixão de Nosso Senhor; mas se Jesus foi esmagado no sofrimento, eu fui-o apenas na humilhação. Digo isto sem qualquer tristeza ou zanga, pelo contrário.
Porque a mim, sempre convencido das minhas capacidades, sempre confiante nas minhas forças e orgulhoso da minha capacidade de resolver assuntos, fez-me bem ficar preso a uma cama, sem forças, sujeito às ordens dos médicos e enfermeiros, dependente dos outros, incapaz de fazer, sobrando-me apenas esperar. O Senhor não me enviou grandes dores nem grandes sofrimentos, não foi uma doença heróica, apenas me obrigou a ficar deitado enquanto a vida acontecia. Eu, que tenho sempre a mania de que as coisas dependem de mim para se realizarem.
E o que me sobrava? Oferecer, dizer com São Paulo: «Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo», mesmo consciente do quão pouco estava a oferecer.
O Padre João Seabra dizia que era inútil perguntar o porquê das coisas que nos aconteciam; que a pergunta essencial era: para quê? E para mim tornou-se claro o para quê desta minha circunstância: para me educar na humildade, na dependência, para me relembrar que quem cuida (de mim, da minha mulher, dos meus filhos, da minha vida) não sou eu, mas o Senhor. Claro que o Bom Deus me chama a participar dessa missão, mas ela não depende das minhas parcas capacidades, mas da Sua infinita misericórdia.
E passados esses dias, lá saí do hospital e regressei a casa. Ainda a recuperar, aos poucos e poucos. Se tudo correr bem, até posso sair melhor desta aventura do que entrei, já que pelo caminho perdi uns bons quilos e deixei de fumar. E posso garantir que estou bastante feliz por regressar a casa, assim como por ir recuperando as forças.
Mas peço a Nosso Senhor que esta aventura das últimas semanas não se perca, para que, tendo experimentado na carne a minha fragilidade, me continue a lembrar que é Ele que me guarda quando venho e quando vou, agora e para sempre.

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