Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Ventura: o Homem que levou Seguro a Belém



Muitos resmungos tenho ouvido sobre o eleitorado do PSD, do CDS e da IL ter elegido António José Seguro para Presidente. Mas o principal responsável por termos, ao fim de vinte anos, um Presidente do Partido Socialista é André Ventura.

O auto-intitulado novo líder da Direita, que teve menos votos que a AD, passa a vida a explicar que é o líder da oposição, que o Governo é uma desgraça, que a IL é de esquerda, que o CDS morreu, que são todos do “sistema”, que todos vivem de tachos — e depois fica muito espantado por ninguém lhe dar o seu apoio.

Ora, Ventura não pode querer afirmar-se como o líder de uma revolta contra todos os outros partidos e, ao mesmo tempo, querer ser eleito com o apoio desses mesmos partidos.

O líder do Chega sempre afirmou que não queria ser Presidente de todos os portugueses. Logo, não pode ficar espantado por aqueles de quem não quer ser Presidente não votarem nele.

Vir agora lamentar-se porque aqueles que sempre desprezou e insultou não o apoiaram é fazer a figura da criança que, na escola, bate em todos e depois não percebe porque é que ninguém quer brincar com ela.

Se Ventura considera que ter um Presidente do PS é uma ameaça tão grande para o país que exigia a união de toda a Direita, então a primeira coisa que tinha de fazer para promover essa união era não concorrer.

Ele sabia perfeitamente que nunca seria eleito. Sabia perfeitamente que, passando a vida a destratar os outros partidos de Direita, jamais teria o seu apoio. Portanto, se queria mesmo um Presidente de Direita — se considerava que era urgente uma união à Direita — tinha uma solução simples: não se candidatar e procurar uma figura de consenso capaz de fazer pontes.

Mas assim não quis. Preferiu concorrer, marcar pontos políticos, fazer teatro, proclamar-se líder da Direita — e, com isso, colocar António José Seguro em São Bento.

Todos os apoiantes de Ventura hoje amargurados pela vitória de António José Seguro deviam ter consciência de que o principal culpado dessa eleição é o próprio Ventura, que decidiu ocupar todo o espaço da Direita mesmo sabendo que iria perder na segunda volta. Mais uma vez, o líder do Chega colocou a sua ambição pessoal à frente do país — e, mais uma vez, encontrou várias pessoas dispostas a apoiá-lo.

E assim, aqueles que apoiam Ventura, fazendo loas à “nova Direita”, pura e imaculada, que jamais se sentaria à mesa com socialistas, continuam a ser a máquina de oxigénio que permite ao PS manter-se vivo.

O PSD tem muitas culpas nestas eleições, a começar por ter preferido um candidato que agradasse ao aparelho em vez de um candidato que convencesse o país. Mas quem garantiu verdadeiramente a vitória esmagadora de Seguro foi a ambição de Ventura, servida pelos “puros” da Direita, que hoje ajudaram a ressuscitar o PS.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

POLÍTICA: O QUE TEMOS PARA OFERECER?

 

Intervenção no encontro da Companhia das Obras sobre Política e Eleições

1. POVO VS MASSA
No sexto ano da IIGG, no Natal de 1944, na sua mensagem radiofónica, o Papa Pio XII afirmava:

“Povo e multidão amorfa ou, como se costuma dizer, «massa», são dois conceitos diferentes. O povo vive e move-se por vida própria; a massa é, por si mesma, inerte, e só pode ser movida do exterior. O povo vive da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais — no seu próprio lugar e à sua maneira — é uma pessoa consciente das suas próprias responsabilidades e das suas próprias convicções. A massa, pelo contrário, espera o impulso do exterior, sendo um joguete fácil nas mãos de quem quer que explore os seus instintos ou as suas impressões, pronta a seguir, sucessivamente, hoje esta, amanhã aquela bandeira.”

Olhando para o que têm sido as últimas semanas da campanha eleitoral, e sobretudo a campanha da segunda volta, penso que é difícil não pensar nestas palavras de Pio XII, que o Padre João recordava na lição Poder e Moral, a Comunidade Política, que serviu de base a este encontro.

Penso que todos nós já nos demos conta (e provavelmente já o demos conta também em nós), de como o debate sobre as presidenciais se restringiu a um conjunto de bandeiras: democracia contra o fascismo, liberdade contra o socialismo, direita contra esquerda. Quem de repente aterrasse em Portugal, e nada conhecesse do país, diria que este se dividia entre fascistas e socialistas.

Ora, a mim não me parece que isto seja verdade, nem me parece um juízo razoável sobre o que está em causa nestas eleições. E parece-me sinal de uma sociedade polarizada, onde o outro, aquele que pensa diferente de mim, que vota diferente de mim, é um adversário, é um inimigo, é um impedimento à minha felicidade e ao bem comum.

2. A TRINCHEIRA IDEOLÓGICA

Claro que isto veio ao de cima nestas presidenciais, mas não surgiu agora. Hoje, em qualquer tema, há o dever moral de erguer uma trincheira: guerra da Ucrânia, na Terra Santa, na política americana, qualquer que seja o tema — só há bons e maus. E o dever dos bons é eliminar os maus.

Hoje, tanto no debate público como, tantas vezes, entre nós, excluímos a possibilidade de o outro ser um bem. Agarrados à ideia de que só a nossa ideologia poderá salvar o mundo, recusamos qualquer diálogo, qualquer cedência; a única possibilidade é a nossa vitória, a dos bons e justos, sobre os maus e opressores.

Por isso, diante disto, devo confessar que a questão de onde é que votamos, nesta eleição concreta, não é o que mais me preocupa. Sejamos claros: votar não é escolher a pessoa que queremos para um cargo, mas escolher entre as opções que existem. E, neste caso, só há duas, e nenhuma delas me parece especialmente boa. É como entrar num restaurante onde só há dois pratos e não gostamos de nenhum: não vale a pena pedir cozido; ou comemos o que não gostamos ou passamos fome.

O que me preocupa realmente é esta redução da política a uma luta ideológica, de bons contra maus. Onde reduzimos o outro a uma posição ideológica, onde só conta de que lado ele está: comigo ou contra mim.

Por isso, o que temos para oferecer diante disto? O que a Igreja, o que a Fé tem a oferecer diante disto?

3. A CONSCIÊNCIA

Antes de mais, uma consciência. A consciência de que o nosso destino não se joga na política, que o nosso horizonte não é a conquista do poder em nome de um bem maior, mas a Vida Eterna.

A primeira vez que disse ao Padre João que me queria empenhar na política, a primeira coisa que ele me disse foi: nunca te esqueças que és cidadão dos céus e concidadão dos santos. E depois explicou-me que a política é uma forma superior de caridade, porque a missão de um político é testemunhar Cristo diante de todo um povo.

Esta consciência, de que o homem é feito para o céu e não para o poder, é o que nos permite colocar de forma justa o valor da política. De forma realista, ou seja, tendo em conta a totalidade dos factores. A consciência de que somos chamados a participar na missão de Jesus, de sermos Suas testemunhas, mas que quem salva o mundo não é o nosso esforço, não é a nossa vitória: o que salva o mundo é Cristo. E assim podemos estar diante da política sem qualquer outra pretensão, sem qualquer outro cálculo, que não seja o de O servir.

4. O OUTRO COMO UM BEM

O segundo ponto que me parece que temos para oferecer é aquilo que o Padre Carrón sugeria num texto que escreveu sobre a situação política italiana em 2013:

“Agora, digo isto pensando no presente: se não encontrar espaço em nós a experiência elementar do outro como sendo um bem, e não um obstáculo para a plenitude do nosso eu, na política assim como nas relações humanas e sociais, será difícil sair da situação em que nos encontramos.”

Num tempo em que o outro é olhado, mesmo entre nós, como um obstáculo, tomar consciência de que também ele é feito do mesmo desejo de bem e de felicidade que eu, ainda que o exprima de forma diferente e até mesmo — não tenhamos medo de o dizer — de forma errada, esta consciência do outro como um bem é essencial

Dizer que o outro é um bem não significa dizer que tudo é bom, ou que todas as ideias são igualmente válidas. É simplesmente afirmar que a pessoa não é definida pelas suas ideias, nem sequer pelos seus actos, mas pelo desejo de Deus que está presente no coração de cada homem. E este é o ponto de partida para eventualmente construir algo.

Claro que esta proposta tem um limite evidente: a minha abertura ao diálogo pode não encontrar correspondência. Posso acabar a falar sozinho. Mas a alternativa a esta tentativa de encontrar um ponto em comum com o outro, como dizia o Padre João, é a guerra civil. E isso é o que hoje, de forma metafórica, entenda-se, vivemos.

5. UNIDADE

O terceiro ponto que gostaria de referir é o da unidade. Na conversa que já aqui descrevi com o Padre João sobre o meu empenho na política, a última coisa que ele me disse foi: lembra-te que na política segues sempre a Isilda e o António Maria.

Na altura pareceu-me um ponto meramente operativo, para um jovem sem experiência. Com o tempo tenho-me dado conta como a unidade com estes dois amigos tem sido central na minha acção política nestes últimos doze anos. Por dois aspetos.

Primeiro, porque me salva da tentação do poder, de servir o poder. Durante estes anos, várias vezes a Isilda, o António e eu discordamos. E, como temos o feitio que temos, e eu tenho um especialmente forte, acontece por vezes discutir-mos, até com aspereza. E é nestes momentos que a Isilda diz sempre o mesmo: não nos podemos zangar pela política, o essencial é a nossa unidade.

Porque Nosso Senhor não disse que estava presente quando um de nós tiver razão, mas quando dois ou mais estivermos reunidos em Seu Nome. Não pediu ao Pai que nos tirasse do mundo, mas que fossemos um só, para que o mundo acreditasse.

Esta unidade, não me salva apenas a mim do meu mau feitio, da minha impulsividade, da minha vaidade, mas é a hipótese de, na política, tornar Cristo presente.

6. AS FORÇAS QUE MUDAM A HISTÓRIA

Por isso é que me parece que neste momento, onde a política tem introduzido entre nós uma ferida, o ponto essencial não é em quem votamos, mas sim, como dizia Giussani: a solução “não advém directamente enfrentando os problemas, mas aprofundando a natureza do sujeito que os enfrenta.”

Quero com isto dizer que as eleições presidenciais e até a política não interessam? Evidentemente que não. E seria ridículo eu dizer tal coisa, quando dedico tanto tempo (roubado à família, antes de mais) a tentar participar na vida política.

Um católico que é advogado, não é que para exercer a sua profissão como católico só pode exercer direito canónico. Um professor de biologia que seja católico, e que em vez de falar de biologia nas aulas, para ser católico, dá catequese, é só um mau professor. Por isso um católico empenhado na política tem de fazer política. Mais, como diz o Padre João na sua lição, se quer estar na política tem de estar onde esta se faz: nos partidos. E sobre isto não acrescento mais nada, porque o que vale mesmo a pena é ir ler o que disse o Padre João, que é sempre melhor do que qualquer coisa que eu diga.

Por isso, a política é essencial, e temos o dever de participar nela. E estas eleições são importantes, e devemos ter claros os critérios com que votamos e as razões por que o fazemos. Mas a mim parece-me que o mais importante, neste tempo em que o juízo foi substituído pela indignação, a Fé pela ideologia, e o povo pela massa, não é a forma como a nossa acção política se traduz, mas a consciência com que o fazemos.

Porque a acção, ainda que nascida de um juízo profundo, pode estar errada. Eu posso votar para a semana com belíssimas razões e depois, por um conjunto enorme de circunstâncias que não controlo, arrepender-me amargamente do meu voto. E não estou nada preocupado com isso. Porque votar é escolher entre candidatos imperfeitos, em circunstâncias que eu não controlo, e por isso o resultado do meu voto, mesmo que bem ponderado, está completamente fora do meu controlo.

Mas estar diante da política com a consciência clara daquilo a que somos chamados é o que nos permite dar testemunho de Cristo.

No Maio de 68, um tempo em algumas coisas parecido com o nosso, um jovem foi ter com Giussani e diz-lhe querer estar «com as forças que mudam a história». Falava dos movimentos marxistas para onde tinham migrado a esmagadora maioria dos jovens católicos de então. Giussani responde-lhe então: «As forças que mudam a história são as mesmas forças que mudam o coração do homem».

E, por isso, a única coisa que eu desejo, diante destas eleições e diante da política actual, é manter-me fiel a esta consciência em que Giussani nos educa, que nos permite estar de forma livre diante da política. Penso que é isto que temos a oferecer à política actual.

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Católicos por Cristo

 


Vi os católicos por Seguro e não gostei. Acredito nas boas intenções, mas ser católico não é uma bandeira política. Não se pode reduzir a Fé a uma identidade: há os não socialistas por Seguro, os trabalhadores por Seguro, os que bebem café por Seguro, os católicos por Seguro.

Vi os católicos por Ventura e gostei ainda menos. Mais uma vez, estarão cheios de boas intenções, mas a verdade é que pegam em citações do Magistério que confirmam a sua opinião, ignoram várias outras, e transformam o voto em Ventura numa obrigação de um católico.

Repare-se: acho muito bem que os católicos se empenhem na política. É essencial que tenham consciência de que também a Fé está relacionada com a política. E é bom que, na hora de votar, a Fé seja o factor essencial no seu discernimento. E sejamos claros: quando falamos de Fé, falamos daquilo que a Igreja ensina, a sua doutrina, o seu magistério, não de uma opinião difusa.

Mas o trabalho que é preciso fazer é, partindo daquilo que a Igreja ensina, olhar para as opções disponíveis e decidir em consciência à luz da Fé. Ora, ambos os manifestos fazem o percurso contrário: partem da sua opinião sobre os políticos em causa e colam pedaços da Doutrina da Igreja para confirmar o que já tinham decidido. Ou seja, reduzem a Fé à sua ideologia.

A escolha de dia 8 não é fácil. Infelizmente, não só nenhum dos candidatos defende aquilo que a Igreja ensina sobre o poder político, como, pelo contrário, ambos defendem coisas gravemente contrárias aos ensinamentos da Igreja. Desde a defesa da eutanásia por António José Seguro aos constantes ataques a emigrantes e ciganos por Ventura, os dois candidatos oferecem razões suficientes para um católico, em abstracto, não votar em nenhum.

Mas não somos chamados a escolher a pessoa que gostaríamos de ter como Presidente da República, e sim a escolher entre duas pessoas concretas. A Fé deve ajudar nesse discernimento, mas isso dá trabalho. É preciso estudar, é preciso ler e ouvir os candidatos, ajuizar a situação política e tentar discernir qual dos dois poderá ser mais útil ao Bem Comum, como a Igreja o propõe.

Reduzir a Fé a uma bandeira ideológica, tentando que esta encaixe na nossa opinião pessoal, é mais fácil, mas é, de facto, ser “católico por Ventura” ou “católico por Seguro”. O que a Igreja nos propõe é sermos de Cristo. Não se pode servir a dois senhores.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Quem vota Seguro não é Socialista, quem vota Ventura não é Fascista.



Esta frase devia ser uma evidência. Antes de mais, porque nem o primeiro é socialista, nem o segundo é fascista. António José Seguro, na melhor das hipóteses, é um social-democrata. Já André Ventura, por muito que alguns activistas berrem, é sem dúvida um populista, mas não é fascista.

Mas o ponto principal nem sequer é este, porque podíamos ter um socialista e um fascista a concorrer a Presidente, e mesmo assim isso não transformava quem votasse em algum deles num socialista ou num fascista.

Votar num candidato não é o mesmo que o apoiar ou concordar com ele. Votar é escolher, entre as opções disponíveis, aquela que parece ser a mais possível de ser útil ao bem comum. Um trabalho fácil quando as escolhas são boas e abundantes; um trabalho muito difícil quando só há dois candidatos e nenhum deles vai de encontro aos nossos ideais.

De entre as pessoas em quem mais confio nas questões políticas, conheço várias que vão votar António José Seguro e várias que vão votar André Ventura. Cada um com as suas razões, em geral razões com as quais eu concordo, e nenhum deles está especialmente contente com o seu sentido de voto. Simplesmente, tendo de escolher entre os dois, decidiram usar o seu voto da forma que lhes parece menos má: porque AJS é mais moderado, porque não querem um antigo secretário-geral do PS como Presidente, porque acham que AJS oferece maior estabilidade, porque acham que AV não vai ganhar e querem que Seguro ganhe pelo menos possível, etc. Tudo boas razões, nenhuma das quais se traduz num apoio a qualquer um dos candidatos.

Este discurso tonto, de que de alguma forma nestas eleições estaríamos perante uma escolha entre direita e esquerda, democracia e fascismo, socialismo e liberdade, seria ridículo se não fosse trágico. E é trágico porque, mais uma vez, torna a política numa guerra de trincheiras, onde do lado de lá está um inimigo a abater. Quem é pela liberdade tem de votar X, o que significa que quem não vota como eu é um inimigo da liberdade.

E não vale a pena dizer que isto é coisa de Ventura ou de Seguro: ambos os lados estão cheios de pessoas com esta posição, que demonizam quem vota de forma diferente, que transformam qualquer divergência de pensamento numa heresia.

Ora, não é verdade que Portugal se divida entre socialistas e fascistas. Não é verdade que quem vota em Seguro ou em Ventura seja mais puro ou menos puro. Não é verdade que a democracia e a liberdade estejam em causa. O que põe em causa a liberdade e a democracia é a incapacidade de olhar para o outro — sobretudo o outro que discorda de mim — como uma possibilidade de bem. E, sem isso, a política transforma-se numa guerra onde é preciso esmagar e sanear o adversário, tudo em nome do bem e da liberdade. 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Filipe Igualdade e o agitar das águas: reflexão pré-eleitoral

 


A França, no final do século XVIII, estava decadente. Cheia de dívidas, com os resquícios do feudalismo a garantir privilégios para a nobreza — incluindo o não pagar impostos —, a corrupção era omnipresente e a fome surgia a cada seca. Cada tentativa de mudar o estado das coisas parecia votada ao falhanço perante a oposição daqueles a quem a situação aproveitava.

Muitos sentiam a urgência de mudar as águas, de combater o sistema. Entre eles estava o Duque de Orleães, o mais importante nobre do país, primo do rei e imensamente rico.

Da sua residência em Paris, o Palais-Royal, foi patrocinando os inimigos do rei, acolhendo-os e criando clubes e cafés onde a polícia não podia entrar sem a sua autorização. Pagou panfletos, patrocinou a caridade e arrendava casas a preços baratos. Tudo para ser rei em lugar do rei e, assim, instituir uma monarquia liberal.

Nos Estados Gerais, tomou as dores do Terceiro Estado e liderou os nobres que atravessaram o salão e se juntaram a estes. Recusou todos os títulos e mudou o seu nome para Filipe Igualdade; tornou-se deputado na Convenção Nacional, votou favoravelmente a morte do Rei, seu primo, e juntou-se aos jacobinos. Um belo agitar de águas.

Claro que teve o azar de os revolucionários não o quererem para rei; aliás, nem sequer o queriam especialmente para deputado, já que foi eleito como o 24.º e último da lista pela Comuna de Paris e nunca ocupou qualquer lugar de destaque. Talvez o seu momento de glória, em conjunto com o apoio à morte do Rei, tenha sido ter sido também ele morto durante o Terror.

O agitar de águas, a tal luta contra o sistema que Filipe Igualdade patrocinou na esperança de controlar a revolução e chegar ao poder, teve consequências mais profundas que a sua própria morte. Resultou em milhões de mortes entre a revolução, as suas guerras e as campanhas napoleónicas, abrindo caminhos de morte e destruição que chegariam aos nossos dias.

Claro que o pobre Duque não desejava nada disso. Ele só queria derrotar o sistema que, de facto, estava podre. E estava disposto a fechar os olhos a todos os excessos dos revolucionários porque era preciso agitar as águas. E assim perdeu a cabeça, a França perdeu-se e milhões morreram. Mas, ao menos, o sistema caiu.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Carta Aberta à Clara Não



Cara Clara,

Li com atenção a sua carta aberta a alguns políticos sobre a ideologia de género. Bem sei que não sou nenhum dos destinatários da carta, nem sequer possuo qualquer relevância – não ocupo qualquer cargo público, não tenho coluna em qualquer jornal, nem sequer possuo esse título que alguns tanto almejam de “influencer” –, mas fiquei incomodado com a sua carta e, por isso, decidi responder-lhe.

Incomoda-me, e penso que é até bastante preocupante, que ao fim de séculos de luta pela igual dignidade de cada pessoa, a Clara se refira a um grupo de pessoas como “pessoas LGBT”. Bem sei que é uma tendência designar pessoas por uma “identidade”, seja a sua sexualidade, a sua etnia ou o seu estatuto económico.

Para mim, uma pessoa é isso mesmo: uma pessoa. Tenho, entre os meus amigos e familiares, pessoas de diferentes etnias, religiões e que vivem a sua sexualidade de forma diferente da minha. Nem por um momento me ocorreria que essa diferença os definisse. O meu amor, o meu carinho, a minha estima por uma pessoa não muda conforme a sua sexualidade. Reconheço em cada um o mesmo desejo de amor, de justiça e de beleza que eu possuo.

Reduzir a pessoa a uma identidade é desumanizá-la; é tratar essa pessoa, não de acordo com a sua dignidade intrínseca, mas definindo-a por uma qualquer característica que a Clara ache relevante. No fundo, não é diferente do racismo ou da xenofobia, onde a pessoa é reduzida à cor da sua pele ou à sua nacionalidade.

A Clara parece considerar que a consequência normal diante de alguém diferente é abandonar essa pessoa ou tratá-la mal. E provavelmente acha que essa é a consequência porque defende que essa diferença define uma pessoa (é LGBT, é trans, é “racializada”). Para mim, abandonar ou maltratar uma pessoa diferente de mim é absurdo, porque essa diferença em nada muda a dignidade ontológica do ser humano.

Por isso, a chantagem psicológica que tenta usar sobre quem tem uma visão diferente da sua da sexualidade não me impressiona. Já me preocupa bastante que queira impor a sua visão sobre a sexualidade a toda a sociedade.

A teoria de género é uma teoria social que defende que o género e o sexo são coisas diferentes, que o género é apenas uma construção social e que, por isso, há tantos géneros quantos aqueles que as pessoas inventarem. O facto de esta teoria estar muito difundida não a torna correcta. Também houve alturas em que as teorias raciais estavam muito difundidas e não passaram a ser correctas por causa disso.

A teoria de género faz tábua rasa da biologia, da história e da sociologia para impor uma visão ideológica da identidade sexual. Mas a Clara tem toda a liberdade de acreditar em tal teoria, que não vê qualquer problema em que um homem, por se afirmar mulher, possa espancar uma mulher num ringue de boxe ou violá-la numa cadeia. Não tem é o direito de a querer impor como verdade única a toda a sociedade.

A Clara tenta explicar que não há uma ideologia de género, só uma teoria. Isso só seria verdade se, de facto, fosse tratada apenas como uma hipótese científica discutível. Mas não é isso que acontece. A teoria de género tornou-se hoje numa ideologia oficial, que se impõe através de leis, às escolas, às empresas e à sociedade em geral. Uma verdade de fé que não pode ser negada, sob pena de punição.

Cara Clara, eu convivo muito bem com a diversidade. Não tenho qualquer problema com quem pensa ou vive de forma diferente da minha. Nunca reduzi ninguém à sua identidade sexual, procurando amar e respeitar qualquer pessoa com quem me cruzo. Aquilo com que não convivo bem é com a tentativa dos ideólogos do género de procurar reduzir pessoas à sua sexualidade e de obrigar todo o mundo a pensar como eles. Há um de nós que não vive bem com a diversidade, mas não me parece que seja eu…

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

As presidenciais e a defesa da vida



Em Fevereiro de 2007, o país foi chamado a decidir sobre o aborto livre, pela segunda vez. Depois da derrota dos defensores do aborto livre em 1998, após muita insistência, o segundo referendo haveria de abrir a porta ao aborto livre em Portugal.

Desde então, o aborto tem estado quase ausente do debate político. Apesar dos esforços da Federação Portuguesa pela Vida e de tantas pessoas da sociedade civil, o tema só esparsamente aparece no debate político e, nos últimos tempos, apenas para se discutir o alargamento dos prazos legais do aborto livre.

A Federação Portuguesa pela Vida, que nunca desistiu de lutar pelo fim do aborto em Portugal, apesar de tanto silêncio à sua volta, perguntou aos principais candidatos à Presidência da República a sua opinião sobre alguns temas da defesa da vida.

O resultado, triste mas não inesperado, foi que apenas respondeu Gouveia e Melo, para dizer que o tema era demasiado complexo para uma resposta de “sim” ou “não”.

Isso significa que, para sabermos o que pensam os candidatos à Presidência sobre o aborto livre, temos pouco mais do que aquilo que fizeram em 2007 e algumas — poucas — declarações nos últimos anos.

À esquerda, não é questão: todos são a favor do aborto livre. À direita, João Cotrim de Figueiredo deixou por várias vezes clara a sua posição, não apenas a favor do aborto, mas até de algum desprezo pelos pró-vida.

Sobram então Gouveia e Melo, Marques Mendes e Ventura.

Sobre o primeiro nada sabemos. Respondeu à Federação Portuguesa pela Vida não respondendo, e até há pouco tempo ninguém lhe conhecia qualquer opinião sobre qualquer assunto. Esse é, aliás, o grande drama da sua candidatura.

André Ventura já afirmou várias vezes publicamente que apoiou o “sim” em 2007, que não quer voltar atrás na liberalização do aborto e que não esteve no hemiciclo quando se debateu o alargamento dos prazos na Assembleia da República. É verdade que diz ser contra o aborto, mas naquela posição, bem conhecida entre nós, de que a proibição não funciona.

Marques Mendes votou “não” em 2007 e, desde então, só falou do aborto para reafirmar a sua posição no referendo. Não é propriamente entusiasta: mais do que revogar a lei, fala em apoio à maternidade (tal como André Ventura) e pouco mais.

É curto, sem dúvida. Mas não seria honesto dizer que é igual não ter opinião, ser a favor da legalização e ser contra a legalização do aborto. Mais ou menos timidamente, a verdade é que Marques Mendes é o único candidato presidencial que publicamente afirma ser contra a actual lei do aborto.

Existe outro tema quente, relativo à defesa da vida, que poderá voltar ao debate: a morte a pedido. Aí, Marques Mendes diz não ter opinião formada, mas afirma que enviaria qualquer lei para o Tribunal Constitucional; já André Ventura diz que é contra, mas defende, ainda assim, a realização de um referendo.

Do ponto de vista estrito da defesa da vida, embora nenhum dos dois tenha, pessoalmente, grande currículo, Marques Mendes leva vantagem. Primeiro, porque é publicamente contra a legalização do aborto. Depois, porque mais importante do que saber a posição pessoal sobre a eutanásia é saber o que fará o Presidente se lhe for enviada uma lei. E sobre isso Marques Mendes foi mais claro do que Ventura, embora seja bastante razoável presumir que também Ventura enviaria a lei para o Tribunal Constitucional.

Mas há um ponto importante a não esquecer: as eleições não são apenas sobre a defesa da vida e, apesar de o aborto — pela sua natureza profundamente injusta — ser central para uma cultura que defenda a vida, não é o único assunto relacionado com a dignidade humana.

A defesa da dignidade humana não se esgota no nascimento para só voltar a aparecer no fim da vida. Ser contra o aborto porque toda a vida é digna não pode deixar de ter como consequência lógica ser contra todos os atentados à dignidade humana ao longo da vida: a violência, a pobreza, a exclusão, a exploração, a discriminação, etc. E, nesse capítulo, é evidente que o currículo de André Ventura é fraco.

Alguém que usa como tema central da campanha uma frase de uma música — “Isto não é o Bangladesh” — que tem como rima “tira os teus putos castanhos da minha creche”, claramente não defende a dignidade humana.

Confesso que as actuais eleições não me entusiasmam, não tendo qualquer entusiasmo por nenhum dos candidatos. Mas sei que, assim como não voto em quem defende que o aborto deve ser legal (o que já seria razão suficiente para não votar em André Ventura), também não voto em quem escolhe como ponto central da sua campanha o ataque a imigrantes, incluindo crianças.

Por isso, não voto em António José Seguro, não voto em Catarina Martins, não voto em António Filipe, não voto em Jorge Pinto, não voto em João Cotrim de Figueiredo e também não voto em André Ventura. O que sobra? Pouco, ou quase nada. Mas a política é escolher entre os que há, não entre os que gostaríamos que houvesse.