Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Sacrilégio na RTP




Pelos vistos, Bruno Nogueira tem um programa na RTP, televisão pública, que nós ajudamos a pagar com os nossos impostos. Nada contra: é um humorista com bastante sucesso, e não me parece injustificado que tenha tal programa.

Infelizmente, o humorista decidiu encerrar o primeiro episódio da série com uma rábula cujo único objectivo é gozar com a Sagrada Comunhão. Não há qualquer contexto, qualquer conversa, nada: é apenas ele, paramentado, com uma píxide na mão, numa igreja, a fingir que distribui a comunhão, variando entre os comportamentos lascivos de quem a recebe e os dele próprio, no papel de sacerdote.

Não se trata de uma crítica à Igreja, nem de uma graçola sobre padres. É apenas uma ofensa ao que de mais sagrado há no Cristianismo: o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, tão vivo e realmente presente como nos Céus.

Podemos discutir a legalidade do que ele fez. As ofensas à religião são puníveis por lei, assim como os sacrilégios e as ofensas aos ministros da religião. Mas a questão jurídica é a que menos me interessa. O que me incomoda é que a televisão pública nacional transmita, sem qualquer problema, uma rábula cuja única finalidade é escarnecer da Fé cristã. Não há ali mais nada, a não ser diminuir o valor da Sagrada Comunhão.

A mim, pouco me interessa Bruno Nogueira. É parvo, a carreira está estagnada, alguma coisa tem de fazer para chamar a atenção. Mas existem uma enorme quantidade de plataformas onde o pode fazer e onde eu posso optar por não assistir. O problema é a RTP transmitir uma rábula que, para além da sua legalidade duvidosa, tem como único e claro objectivo ofender os católicos.

Convido-vos, por isso, a escrever ao Conselho Geral Independente da RTP (cgi@rtp.pt) e ao Ministro da Presidência (gabinete.mp@mp.gov.pt), protestando contra este evidente ataque aos católicos, produzido com dinheiro público.

Para facilitar, deixo uma minuta de texto, que vos convido a partilhar pelos vossos contactos, de forma a chegarmos ao maior número de pessoas.

«Ex.mos Srs.,

No passado dia 6 de Outubro, na RTP1, no programa Ruído, foi transmitida uma rábula do humorista Bruno Nogueira que, aparentemente, não tinha qualquer outra finalidade que não a de escarnecer dos católicos.

O dito humorista aparecia paramentado como um sacerdote católico, utilizando alfaias litúrgicas, no altar de um templo católico, simulando a distribuição da Sagrada Comunhão de forma lasciva.

É evidente que esta rábula não tinha qualquer outra finalidade que não fosse ofender os católicos, utilizando, para isso, não apenas os símbolos e objectos próprios do culto católico, mas também simulando, de forma ofensiva, um dos actos mais sagrados do Cristianismo.

Para além das evidentes dúvidas legais, nomeadamente relativamente aos artigos 240.º, 251.º e 252.º do Código Penal, gostaríamos de questionar V. Ex.as para saber se consideram aceitável a propagação de discurso de ódio contra os católicos na estação pública portuguesa.»


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Laicos, salvo seja

 

De forma chocante, em pleno século XXI, circulou hoje uma fotografia do Patriarca de Lisboa a benzer a nova Escola Secundária de Cascais, com o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e o Ministro da Educação a benzerem-se! Onde está a laicidade do Estado? E a Constituição?
Se ainda fosse numa daquelas aldeias perdidas no interior do país onde não há mais nada a não ser a Igreja Paroquial, ainda se percebia. Agora, uma escola pública ao lado da capital?
E ainda por cima numa zona rica. Se ainda fosse num daqueles bairros pobres, onde ninguém quer entrar e só sobra uma comunidade missionária, com um velho padre e umas freiras caturras. Agora, numa zona cosmopolita como Cascais, é uma ofensa.
Já estamos no século XXI. A Igreja pertence ao passado, uma curiosidade a visitar para apreciar a arte e a arquitectura, uma espécie de museu, quanto muito. Sim é bom ter sempre um sitio bonito para visitar em qualquer terra do país, agora, um padre, pior, um bispo, numa cerimónia de Estado?
Já não se lembram de que o Estado é laico? Onde está o espírito republicano? Já chega termos de aturar as chagas de Cristo na bandeira, ainda temos de ver o Presidente da República a benzer-se!? Em pleno ano da Graça de 2026!?
É preciso pôr a padralhada toda na ordem! Um novo Afonso Costa, que obrigue a Igreja a ficar na sacristia. Talvez se possa abrir uma excepção para os centros sociais paroquiais. E também para as creches e jardins de infância das paróquias. E para os colégios das ordens religiosas e movimentos. E para os lares que pertençam à Igreja. E para as obras que apoiam pessoas com deficiência, toxicodependentes, crianças. E também para as paróquias e instituições que distribuem refeições às pessoas mais pobres. Mas, tirando isso, é preciso voltar a pôr os católicos no sítio!
Porque é que o país inteiro tem de levar com um bispo a inaugurar uma escola numa cidade no distrito de Lisboa? Porque o Presidente da Câmara quis? Porque a comunidade escolar quer? Quer porque a Igreja tem uma presença importante naquela comunidade? E isso é razão para que uma pessoa laica seja obrigada a ver uma fotografia de tal evento? É porque eu, mesmo não fazendo ideia de onde fica a escola, estou muito ofendido! E, se eu estou ofendido, então não devia acontecer!
Isto é o problema de vivermos num país onde a Igreja continua a ter poder. Devíamos aprender a viver em liberdade, como nos países onde não são permitidos estes privilégios aos católicos. Países onde o Estado é laico, ateu, como qualquer país moderno. É pôr os olhos na China e na Coreia do Norte e aprender como se faz!

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A Verdade vos libertará, não a narrativa

 


1. Lembro-me de quando, em miúdo, comecei a andar sozinho em Lisboa, penso que por ocasião de uma ida à Feira do Livro, a minha mãe me ter dito que estava sempre proibido de ir à parte de cima do Parque Eduardo VII, sobretudo depois de o sol se pôr, porque era uma conhecida zona de prostituição masculina, incluindo de menores.

Lembro-me também de uma tia minha, que esteve um ano a trabalhar na Madeira, ter sido surpreendida quando, ao passear por um jardim no centro do Funchal, lhe explicaram que ali era uma zona de prostituição de menores.

Tenho esperança de que os tempos tenham mudado e de que já não existam locais em Portugal onde se sabe que menores de idade se prostituem sem que nada aconteça. Mas, infelizmente, ainda me lembro do tempo em que o abuso de menores, sobretudo dos menores pobres, não era assunto, sobretudo se houvesse alguma contrapartida.

2. O caso Casa Pia chocou o país. De repente, tornou-se público que crianças à guarda do Estado tinham sido usadas numa rede de tráfico para satisfação de homens ricos e poderosos.

Infelizmente, todo o escândalo se traduziu em pouco. Não houve qualquer auditoria às instituições do Estado, não se fizeram reformas para garantir que não era possível que voltasse a acontecer e, sobretudo, teve-se cuidado com as investigações, garantindo que só era acusado quem não tinha poder político.

Infelizmente, o abuso sexual de menores é um crime que não só é razoavelmente vulgar, como até há pouco tempo não causava grande escândalo.

3. Em Portugal, a única instituição que, confrontada com esta realidade da normalidade do abuso sexual de menores, decidiu agir foi a Igreja.

Antes de mais, criou protocolos para a protecção dos menores, que foi actualizando ao longo do tempo e que não têm comparação com os de nenhuma outra instituição. Basta pensar que um maior que seja acusado de qualquer acto impróprio por um menor numa instituição da Igreja é imediatamente suspenso, enquanto numa escola do Estado tem de passar por todo um conjunto de diligências que chegam a demorar meses.

Para além disso, foram criadas comissões em todas as dioceses especificamente para a prevenção do abuso de menores.

Mas, sobretudo, a Igreja criou e pagou uma Comissão Independente, a quem dotou de todos os meios, para que investigasse os abusos sexuais de menores na Igreja em Portugal nos últimos setenta anos.

4. Na altura da publicação do relatório, fiz algumas críticas ao método usado. O relatório tinha uma grande qualidade, que foi a de permitir a pessoas que tinham sido abusadas e nunca tinham conseguido contar a sua história ter a possibilidade de o fazer.

Infelizmente, como as queixas podiam ser anónimas e a Comissão não cruzou dados com as dioceses, nem investigou as queixas que recebeu, não permitiu, na maioria dos casos, saber sequer se as queixas eram reais.

Das queixas recebidas, a Comissão extrapolou um número que seria o total de abusos cometidos nesses 70 anos. Infelizmente, como não foi feita qualquer investigação, ou sequer uma verificação cuidada das queixas, o número não tem qualquer valor.

Ficaram, contudo, claras duas coisas: a) não tendo sempre respondido da melhor forma, não houve sinais de tentativa dos bispos de encobrirem os casos; b) não havia casos de abusos sistémicos em determinadas instituições (ou seja, não havia colégios, asilos ou orfanatos onde os abusos sexuais fossem algo de normal ou habitual, como, por exemplo, na Casa Pia).

5. Decidiu a Conferência Episcopal criar uma comissão para propor compensações para as vítimas de abusos na Igreja. Repare-se que não havia qualquer obrigação legal de o fazer. Estamos a falar de casos que não foram julgados pelos tribunais, para além do facto evidente de não haver responsabilidade directa da hierarquia da Igreja nestes casos.

Esta decisão nasce do desejo dos bispos de Portugal de, de alguma forma, sempre imperfeita, evidentemente, apoiar pessoas cuja vida foi desfeita quando estavam ao cuidado da Igreja.

A comissão ouviu dezenas de pessoas, decidiu os valores e fez uma proposta à CEP. Esta decidiu depois o valor final.

Repare-se que tudo isto custou muito dinheiro à Igreja. Isto num país onde boa parte das dioceses tem grandes dificuldades em sustentar o seu clero, o seu património e todas as suas obras sociais. Não é, por isso, de espantar que, mesmo tendo-se oferecido para pagar estas compensações, haja uma distância entre o valor que a comissão propõe e aquilo que a Igreja pode realmente pagar.

6. Claro que a decisão da CEP trouxe muitas críticas. Porque, num país onde ninguém liga nada ao abuso de menores, as críticas são sempre para a instituição que criou protocolos, apertou as leis contra os abusos, investigou os casos e decidiu ainda, sem qualquer obrigação legal, pagar compensações em casos que não foram provados em tribunal!

A associação Coração Silenciado, recebida em audiência pelo Presidente da República, pediu uma auditoria do Estado ao processo de decisão de compensação que a CEP criou.

Com todo o respeito pela associação, é evidente que seria absurdo o Estado imiscuir-se numa decisão da Igreja, com a qual não tem qualquer relação ou interesse. Seria uma absurda ofensa à liberdade da Igreja permitir que o Estado fiscalizasse ou tomasse qualquer decisão sobre a forma como a Igreja se relaciona com as vítimas de abusos sexuais.

Aliás, já me parece um pouco absurdo que o Presidente da República, sabendo que era para esse pedido que a associação lhe tinha pedido audiência, tenha feito questão de os receber, sem por instantes lhe ocorrer explicar que não tem, nem poderia ter, como Chefe de Estado, qualquer intervenção neste assunto, sem, evidentemente, ferir gravemente a separação da Igreja e do Estado.

7. Infelizmente, tudo isto são pormenores que pouco interessam aos jornais. Dá muito mais cliques a parangona que diz «Igreja reduz indemnizações para metade» do que «Igreja decide pagar, apesar de não ter qualquer obrigação». E, nisto, penso que a CEP, na sua forma de gerir todo este processo, tem culpas.

A justa preocupação de nada ocultar tornou-se demasiadas vezes em medo de parecer mal, sacrificando, de vez em quando, a justiça à óptica. Pensemos no caso do Padre Mário Rui Pedras, suspenso por uma queixa anónima sem qualquer substância, ou no caso do Cónego Fernando Sousa e Silva, que foi tratado publicamente pelo seu bispo como culpado, por uma acusação que se veio a provar completamente falsa.

O que nos liberta é a Verdade, não a narrativa. Sacrificar a verdadeira justiça à justiça das redes sociais e da comunicação social coloca a Igreja numa posição de fragilidade.

Por isso, era importante que houvesse clareza sobre este assunto. Seria bom que a CEP deixasse claro, desde já, que, estando sempre disposta a dialogar com as vítimas, não irá permitir a interferência do Estado na sua vida interna e que se recusa a ser tratada pelo poder público (que pouco ou nada faz para combater os abusos de menores ao seu cuidado) como se fosse uma associação de malfeitores, quando é a única instituição em Portugal que fez alguma coisa de facto para acabar com o abuso sexual de menores no seu seio.

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A exploração da mulher: uma causa feminista

 artigo publicado no Observador


Nos últimos anos temos assistido a uma tentativa de dar glamour ao que hoje se chama “trabalho sexual”. Seja a prostituição, a pornografia, ou esse admirável cruzamento entre uma e outra, que é o OnlyFans, hoje a venda do corpo feminino para satisfazer o capricho de homens que podem pagar tornou-se uma suposta fonte de empoderamento e de liberdade das mulheres.

Isto seria sempre mentira, mesmo que não existisse coação. Mesmo que todas as mulheres que se prostituem, que fazem pornografia, ou produzem conteúdos sexuais a pagar, o fizessem realmente por escolha própria, o que está em causa no “trabalho sexual” é a redução do corpo da mulher a um produto, que os homens consomem.

No “suposto trabalho sexual” há sempre uma relação de poder do homem sobre o corpo da mulher, sobre a sua intimidade, sobre a sua sexualidade. Nunca há uma relação de igualdade, mas sempre o poder de quem tem dinheiro sobre quem dele precisa ou quer. Por isso as aspas na expressão “trabalho”, porque o que está em causa é sempre uma forma de exploração.

Mas, mais grave do que isso, é que o mundo do “trabalho sexual” é, provavelmente, a maior fonte de exploração e tráfico feminino. Para cada mulher que os jornais, cheios do seu progressismo, encontram a fingir que é feliz a vender o seu corpo, há centenas de mulheres forçadas e exploradas por homens.

Por isso, continuar a promover o “trabalho sexual” como forma de empoderamento feminino é branquear indústrias milionárias, que vivem de explorar mulheres, a maior parte das vezes muito jovens, que são utilizadas como produtos para satisfazer homens que podem pagar.

2. Ao mesmo tempo, as mesmas pessoas que branqueiam tantas vezes a redução e exploração das mulheres, usando expressões como empoderamento feminino e trabalho sexual, ficam chocadas quando alguém ergue a voz contra o aborto.

Sobre isto basta ver o escândalo que causou um almoço de mulheres conservadoras, e todas as intervenções públicas que foram feitas em nome desse novíssimo “direito” ao aborto, comparado com a calma com que foram recebidas sucessivas reportagens sobre raparigas com menos de vinte anos que vendem a sua intimidade na internet.

O aborto tornou-se hoje o sacramento do novo feminismo. Se, em 2007, no referendo, ouvimos vezes sem conta “todos somos contra o aborto, só não queremos mulheres presas; não é legalização, é apenas descriminalização; não é aborto livre”, hoje, essas mesmas pessoas falam do aborto como se de um direito se tratasse. Não a suposta excepção com que convenceram as pessoas a votar sim no referendo, mas um direito fundamental. E, como tal, quem a ele se opõe é um radical, que é contra as mulheres.

Pelos vistos, o actual feminismo, o que quer libertar a mulher do patriarcado, consiste em dar aos homens o que eles querem a troco de dinheiro, ao mesmo tempo que os desresponsabiliza de qualquer consequência com o aborto. A mulher que vende o seu corpo aos homens é livre, a mulher que é a favor da vida que cresce no ventre da mulher é escrava.

3. Ponderei seriamente em escrever este artigo. Aborto, pornografia, prostituição são temas que os homens só podem abordar se for para concordar. Se for para discordar, então estamos obrigados ao silêncio. Aparentemente, a dignidade das mulheres, a dignidade da vida por nascer, o fim da exploração sexual, são temas sobre os quais os homens só podem ter a opinião dos movimentos feministas.

Mas depois lembrei-me que tenho uma filha. E que não quero viver num mundo que lhe diz que ela é livre a vender-se a um homem, mas escrava a ter um filho. E, por isso, sim, o aborto, a pornografia, a prostituição, assim como todas as formas de exploração das mulheres são temas dos homens. Dos homens que acreditam que as mulheres são iguais a nós em dignidade, não produtos para nossa satisfação. Dos homens que valorizam as mulheres, não apenas os seus corpos. Dos homens para quem uma gravidez é fruto de um acto conjunto, e não uma responsabilidade da mulher isolada. Dos homens que querem educar os seus filhos para respeitar as mulheres. Dos homens que querem educar as suas filhas para serem mulheres e não objectos de prazer de qualquer homem com dinheiro.

O feminismo moderno tornou-se um aliado dos homens perversos. Não apenas dos que tratam as mulheres como objectos para o seu prazer, que se podem comprar, na rua ou na internet, mas também de todos os homens que fazem da exploração das mulheres fonte de riqueza.

Por isso não me calo. Não por achar que as mulheres em geral precisam do meu conselho, ou das minhas explicações. Não me calo porque não quero ser cúmplice desta loucura, que trata a exploração como libertação, e a maternidade como prisão.


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Padre João Seabra: a liberdade dos santos

 



A 14 de Setembro de 1949 nasceu o Padre João Seabra. Claro que, na altura, não era padre, era só o primeiro filho sobrevivo dos meus avós. Foi, por isso o mais velho de nove irmãos, e tio de muitos sobrinhos e sobrinhos-netos.

Mas, para além de irmão e tio muito amado, foi pai na fé de milhares de pessoas. Tendo escolhido a virgindade, a sua paternidade foi mais fecunda do que a de qualquer homem casado. E foi sempre impressionante como manteve esta extraordinária dualidade, de ser sempre filho, irmão e tio, ao mesmo tempo que era pai do povo que o Senhor lhe confiou.

O impacto da vida do Padre João na vida pública é difícil de medir. Seria interessante estudar tantas coisas da sua vida: como a sua insistência na confissão ajudou a restaurar este sacramento no Patriarcado de Lisboa, que influência os SAIREF tiveram no surgimento dos campos de férias católicos, quantas peregrinações a Fátima nasceram da peregrinação da Católica, de que forma a sua coragem na vida pública fez os católicos perderem a vergonha de dar testemunho público de Cristo, quantos miúdos o Colégio de São Tomás ajudou a crescer, entre tantos outros assuntos.

Mas os sucessos públicos do Padre João não espantam. A sua inteligência, a sua capacidade de compreender o mundo, a sua coragem, a sua energia inesgotável garantiram que ele iria sempre ter sucesso. Se, em vez de padre, fosse advogado, político ou qualquer outra coisa, teria tido sempre sucesso.

A coisa que realmente me espanta é que um homem destinado a ser um dos senhores do mundo tenha escolhido uma vida de servo. As capacidades do Padre João eram imensas, e todas elas ele ofereceu ao Senhor, para que Ele fizesse com elas o que desejasse.

E, por isso, decidiu ser padre. E ser padre era aquilo que definia toda a sua vida, a identificação total com aquilo que o Senhor lhe pedia. Por isso, o mais importante da sua vida era aquilo que é próprio do sacerdote: celebrar os sacramentos, e, de entre eles, uma clara preferência pela confissão.

O bom pastor é o que larga cem ovelhas para ir atrás da que está perdida. O Padre João era capaz de deixar centenas à espera do começo da missa, para confessar o que, em cima da hora, vinha pedir a graça da confissão.

E isso é o que mais espantava. Porque os imensos dons do Padre João foi Deus que lhos concedeu. A decisão de os submeter a todos à sua missão de sacerdote foi ele que escolheu.

E, chegando a doença, continuou a ser padre. Quando a fala lhe começou a falhar, quando deixou de conseguir andar, ofereceu-se sempre como sacerdote.

Lembro-me de, quando lhe fui pedir que baptizasse a minha filha, ele me perguntar se não preferia antes que fosse o Padre Duarte da Cunha, já que ele não estava capaz de fazer o Ritual todo. Eu disse-lhe que, se ele conseguisse baptizar, tinha gosto que fosse ele. E assim foi. O Padre Duarte, como o discípulo amado de pé junto à cruz, ali estava, como sempre. Recebeu-nos à porta da Igreja, fez a homilia e boa parte dos ritos, mas o Padre João, com as forças que ainda tinha, é que baptizou o bebé.

«Amando os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim». Lembro-me da última grande conversa que tive com o Padre João, menos de dois meses antes da sua morte. Eu tinha levado uma moção ao Congresso do CDS, que ele tinha revisto e corrigido com a sua habitual sageza. Acabado o congresso, chamou-me para lhe contar como tinha corrido tudo. Já estava bastante fragilizado, mas não falou nada de si, só quis saber de mim. E, mesmo com a fala quase imperceptível, fez perguntas, deu-me conselhos, contou graças. Mas sempre com a urgência de me educar.

Que um homem grande faça coisas grandes é o esperado. Que um homem grande se faça pequeno, que ofereça a sua vida, que abrace o sacrifício com total amor, isso é extraordinário. Porque os dons é Deus que os dá, mas amar aquilo que Deus nos dá, seja a oratória ou a doença, e consumir-se para dar testemunho d’Ele é uma escolha. Ao Padre João deu-lhe Deus os dons para ser grande; a santidade foi ele que a escolheu.

terça-feira, 28 de abril de 2026

A humildade na cama do hospital




Faz hoje um mês que fui ao hospital com o que pensava ser uma enorme contratura muscular nas costas e alguns problemas de estômago, para afinal aprender uma palavra nova: empiema.
Aquilo que era para ser apenas uma visita curta transformou-se em 23 dias de internamento (na fotografia vê-se a janela dos meus aposentos durante a estadia), enquanto me drenavam alguns dos litros de líquido que se tinham alojado na minha pleura e contraíam o pulmão. Dos potenciais riscos nenhum se concretizou, e a minha estadia hospitalar ficou marcada mais pela inconveniência do que pelo sofrimento. Mas não escondo que não foram dias fáceis, sobretudo ao princípio, sem saber quantos dias ficaria no hospital, sem forças para nada, na expectativa de saber se os tratamentos estavam a resultar.
A primeira semana de internamento coincidiu com a Semana Santa. De facto, acabei por ser operado na Quinta-Feira Santa e, na Sexta-Feira Santa, acordei com dois drenos de onde me tiravam sangue e líquido. Não me era possível não me lembrar da Paixão de Nosso Senhor; mas se Jesus foi esmagado no sofrimento, eu fui-o apenas na humilhação. Digo isto sem qualquer tristeza ou zanga, pelo contrário.
Porque a mim, sempre convencido das minhas capacidades, sempre confiante nas minhas forças e orgulhoso da minha capacidade de resolver assuntos, fez-me bem ficar preso a uma cama, sem forças, sujeito às ordens dos médicos e enfermeiros, dependente dos outros, incapaz de fazer, sobrando-me apenas esperar. O Senhor não me enviou grandes dores nem grandes sofrimentos, não foi uma doença heróica, apenas me obrigou a ficar deitado enquanto a vida acontecia. Eu, que tenho sempre a mania de que as coisas dependem de mim para se realizarem.
E o que me sobrava? Oferecer, dizer com São Paulo: «Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo», mesmo consciente do quão pouco estava a oferecer.
O Padre João Seabra dizia que era inútil perguntar o porquê das coisas que nos aconteciam; que a pergunta essencial era: para quê? E para mim tornou-se claro o para quê desta minha circunstância: para me educar na humildade, na dependência, para me relembrar que quem cuida (de mim, da minha mulher, dos meus filhos, da minha vida) não sou eu, mas o Senhor. Claro que o Bom Deus me chama a participar dessa missão, mas ela não depende das minhas parcas capacidades, mas da Sua infinita misericórdia.
E passados esses dias, lá saí do hospital e regressei a casa. Ainda a recuperar, aos poucos e poucos. Se tudo correr bem, até posso sair melhor desta aventura do que entrei, já que pelo caminho perdi uns bons quilos e deixei de fumar. E posso garantir que estou bastante feliz por regressar a casa, assim como por ir recuperando as forças.
Mas peço a Nosso Senhor que esta aventura das últimas semanas não se perca, para que, tendo experimentado na carne a minha fragilidade, me continue a lembrar que é Ele que me guarda quando venho e quando vou, agora e para sempre.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Ventura: o Homem que levou Seguro a Belém



Muitos resmungos tenho ouvido sobre o eleitorado do PSD, do CDS e da IL ter elegido António José Seguro para Presidente. Mas o principal responsável por termos, ao fim de vinte anos, um Presidente do Partido Socialista é André Ventura.

O auto-intitulado novo líder da Direita, que teve menos votos que a AD, passa a vida a explicar que é o líder da oposição, que o Governo é uma desgraça, que a IL é de esquerda, que o CDS morreu, que são todos do “sistema”, que todos vivem de tachos — e depois fica muito espantado por ninguém lhe dar o seu apoio.

Ora, Ventura não pode querer afirmar-se como o líder de uma revolta contra todos os outros partidos e, ao mesmo tempo, querer ser eleito com o apoio desses mesmos partidos.

O líder do Chega sempre afirmou que não queria ser Presidente de todos os portugueses. Logo, não pode ficar espantado por aqueles de quem não quer ser Presidente não votarem nele.

Vir agora lamentar-se porque aqueles que sempre desprezou e insultou não o apoiaram é fazer a figura da criança que, na escola, bate em todos e depois não percebe porque é que ninguém quer brincar com ela.

Se Ventura considera que ter um Presidente do PS é uma ameaça tão grande para o país que exigia a união de toda a Direita, então a primeira coisa que tinha de fazer para promover essa união era não concorrer.

Ele sabia perfeitamente que nunca seria eleito. Sabia perfeitamente que, passando a vida a destratar os outros partidos de Direita, jamais teria o seu apoio. Portanto, se queria mesmo um Presidente de Direita — se considerava que era urgente uma união à Direita — tinha uma solução simples: não se candidatar e procurar uma figura de consenso capaz de fazer pontes.

Mas assim não quis. Preferiu concorrer, marcar pontos políticos, fazer teatro, proclamar-se líder da Direita — e, com isso, colocar António José Seguro em São Bento.

Todos os apoiantes de Ventura hoje amargurados pela vitória de António José Seguro deviam ter consciência de que o principal culpado dessa eleição é o próprio Ventura, que decidiu ocupar todo o espaço da Direita mesmo sabendo que iria perder na segunda volta. Mais uma vez, o líder do Chega colocou a sua ambição pessoal à frente do país — e, mais uma vez, encontrou várias pessoas dispostas a apoiá-lo.

E assim, aqueles que apoiam Ventura, fazendo loas à “nova Direita”, pura e imaculada, que jamais se sentaria à mesa com socialistas, continuam a ser a máquina de oxigénio que permite ao PS manter-se vivo.

O PSD tem muitas culpas nestas eleições, a começar por ter preferido um candidato que agradasse ao aparelho em vez de um candidato que convencesse o país. Mas quem garantiu verdadeiramente a vitória esmagadora de Seguro foi a ambição de Ventura, servida pelos “puros” da Direita, que hoje ajudaram a ressuscitar o PS.