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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A Verdade vos libertará, não a narrativa

 


1. Lembro-me de quando, em miúdo, comecei a andar sozinho em Lisboa, penso que por ocasião de uma ida à Feira do Livro, a minha mãe me ter dito que estava sempre proibido de ir à parte de cima do Parque Eduardo VII, sobretudo depois de o sol se pôr, porque era uma conhecida zona de prostituição masculina, incluindo de menores.

Lembro-me também de uma tia minha, que esteve um ano a trabalhar na Madeira, ter sido surpreendida quando, ao passear por um jardim no centro do Funchal, lhe explicaram que ali era uma zona de prostituição de menores.

Tenho esperança de que os tempos tenham mudado e de que já não existam locais em Portugal onde se sabe que menores de idade se prostituem sem que nada aconteça. Mas, infelizmente, ainda me lembro do tempo em que o abuso de menores, sobretudo dos menores pobres, não era assunto, sobretudo se houvesse alguma contrapartida.

2. O caso Casa Pia chocou o país. De repente, tornou-se público que crianças à guarda do Estado tinham sido usadas numa rede de tráfico para satisfação de homens ricos e poderosos.

Infelizmente, todo o escândalo se traduziu em pouco. Não houve qualquer auditoria às instituições do Estado, não se fizeram reformas para garantir que não era possível que voltasse a acontecer e, sobretudo, teve-se cuidado com as investigações, garantindo que só era acusado quem não tinha poder político.

Infelizmente, o abuso sexual de menores é um crime que não só é razoavelmente vulgar, como até há pouco tempo não causava grande escândalo.

3. Em Portugal, a única instituição que, confrontada com esta realidade da normalidade do abuso sexual de menores, decidiu agir foi a Igreja.

Antes de mais, criou protocolos para a protecção dos menores, que foi actualizando ao longo do tempo e que não têm comparação com os de nenhuma outra instituição. Basta pensar que um maior que seja acusado de qualquer acto impróprio por um menor numa instituição da Igreja é imediatamente suspenso, enquanto numa escola do Estado tem de passar por todo um conjunto de diligências que chegam a demorar meses.

Para além disso, foram criadas comissões em todas as dioceses especificamente para a prevenção do abuso de menores.

Mas, sobretudo, a Igreja criou e pagou uma Comissão Independente, a quem dotou de todos os meios, para que investigasse os abusos sexuais de menores na Igreja em Portugal nos últimos setenta anos.

4. Na altura da publicação do relatório, fiz algumas críticas ao método usado. O relatório tinha uma grande qualidade, que foi a de permitir a pessoas que tinham sido abusadas e nunca tinham conseguido contar a sua história ter a possibilidade de o fazer.

Infelizmente, como as queixas podiam ser anónimas e a Comissão não cruzou dados com as dioceses, nem investigou as queixas que recebeu, não permitiu, na maioria dos casos, saber sequer se as queixas eram reais.

Das queixas recebidas, a Comissão extrapolou um número que seria o total de abusos cometidos nesses 70 anos. Infelizmente, como não foi feita qualquer investigação, ou sequer uma verificação cuidada das queixas, o número não tem qualquer valor.

Ficaram, contudo, claras duas coisas: a) não tendo sempre respondido da melhor forma, não houve sinais de tentativa dos bispos de encobrirem os casos; b) não havia casos de abusos sistémicos em determinadas instituições (ou seja, não havia colégios, asilos ou orfanatos onde os abusos sexuais fossem algo de normal ou habitual, como, por exemplo, na Casa Pia).

5. Decidiu a Conferência Episcopal criar uma comissão para propor compensações para as vítimas de abusos na Igreja. Repare-se que não havia qualquer obrigação legal de o fazer. Estamos a falar de casos que não foram julgados pelos tribunais, para além do facto evidente de não haver responsabilidade directa da hierarquia da Igreja nestes casos.

Esta decisão nasce do desejo dos bispos de Portugal de, de alguma forma, sempre imperfeita, evidentemente, apoiar pessoas cuja vida foi desfeita quando estavam ao cuidado da Igreja.

A comissão ouviu dezenas de pessoas, decidiu os valores e fez uma proposta à CEP. Esta decidiu depois o valor final.

Repare-se que tudo isto custou muito dinheiro à Igreja. Isto num país onde boa parte das dioceses tem grandes dificuldades em sustentar o seu clero, o seu património e todas as suas obras sociais. Não é, por isso, de espantar que, mesmo tendo-se oferecido para pagar estas compensações, haja uma distância entre o valor que a comissão propõe e aquilo que a Igreja pode realmente pagar.

6. Claro que a decisão da CEP trouxe muitas críticas. Porque, num país onde ninguém liga nada ao abuso de menores, as críticas são sempre para a instituição que criou protocolos, apertou as leis contra os abusos, investigou os casos e decidiu ainda, sem qualquer obrigação legal, pagar compensações em casos que não foram provados em tribunal!

A associação Coração Silenciado, recebida em audiência pelo Presidente da República, pediu uma auditoria do Estado ao processo de decisão de compensação que a CEP criou.

Com todo o respeito pela associação, é evidente que seria absurdo o Estado imiscuir-se numa decisão da Igreja, com a qual não tem qualquer relação ou interesse. Seria uma absurda ofensa à liberdade da Igreja permitir que o Estado fiscalizasse ou tomasse qualquer decisão sobre a forma como a Igreja se relaciona com as vítimas de abusos sexuais.

Aliás, já me parece um pouco absurdo que o Presidente da República, sabendo que era para esse pedido que a associação lhe tinha pedido audiência, tenha feito questão de os receber, sem por instantes lhe ocorrer explicar que não tem, nem poderia ter, como Chefe de Estado, qualquer intervenção neste assunto, sem, evidentemente, ferir gravemente a separação da Igreja e do Estado.

7. Infelizmente, tudo isto são pormenores que pouco interessam aos jornais. Dá muito mais cliques a parangona que diz «Igreja reduz indemnizações para metade» do que «Igreja decide pagar, apesar de não ter qualquer obrigação». E, nisto, penso que a CEP, na sua forma de gerir todo este processo, tem culpas.

A justa preocupação de nada ocultar tornou-se demasiadas vezes em medo de parecer mal, sacrificando, de vez em quando, a justiça à óptica. Pensemos no caso do Padre Mário Rui Pedras, suspenso por uma queixa anónima sem qualquer substância, ou no caso do Cónego Fernando Sousa e Silva, que foi tratado publicamente pelo seu bispo como culpado, por uma acusação que se veio a provar completamente falsa.

O que nos liberta é a Verdade, não a narrativa. Sacrificar a verdadeira justiça à justiça das redes sociais e da comunicação social coloca a Igreja numa posição de fragilidade.

Por isso, era importante que houvesse clareza sobre este assunto. Seria bom que a CEP deixasse claro, desde já, que, estando sempre disposta a dialogar com as vítimas, não irá permitir a interferência do Estado na sua vida interna e que se recusa a ser tratada pelo poder público (que pouco ou nada faz para combater os abusos de menores ao seu cuidado) como se fosse uma associação de malfeitores, quando é a única instituição em Portugal que fez alguma coisa de facto para acabar com o abuso sexual de menores no seu seio.

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A exploração da mulher: uma causa feminista

 artigo publicado no Observador


Nos últimos anos temos assistido a uma tentativa de dar glamour ao que hoje se chama “trabalho sexual”. Seja a prostituição, a pornografia, ou esse admirável cruzamento entre uma e outra, que é o OnlyFans, hoje a venda do corpo feminino para satisfazer o capricho de homens que podem pagar tornou-se uma suposta fonte de empoderamento e de liberdade das mulheres.

Isto seria sempre mentira, mesmo que não existisse coação. Mesmo que todas as mulheres que se prostituem, que fazem pornografia, ou produzem conteúdos sexuais a pagar, o fizessem realmente por escolha própria, o que está em causa no “trabalho sexual” é a redução do corpo da mulher a um produto, que os homens consomem.

No “suposto trabalho sexual” há sempre uma relação de poder do homem sobre o corpo da mulher, sobre a sua intimidade, sobre a sua sexualidade. Nunca há uma relação de igualdade, mas sempre o poder de quem tem dinheiro sobre quem dele precisa ou quer. Por isso as aspas na expressão “trabalho”, porque o que está em causa é sempre uma forma de exploração.

Mas, mais grave do que isso, é que o mundo do “trabalho sexual” é, provavelmente, a maior fonte de exploração e tráfico feminino. Para cada mulher que os jornais, cheios do seu progressismo, encontram a fingir que é feliz a vender o seu corpo, há centenas de mulheres forçadas e exploradas por homens.

Por isso, continuar a promover o “trabalho sexual” como forma de empoderamento feminino é branquear indústrias milionárias, que vivem de explorar mulheres, a maior parte das vezes muito jovens, que são utilizadas como produtos para satisfazer homens que podem pagar.

2. Ao mesmo tempo, as mesmas pessoas que branqueiam tantas vezes a redução e exploração das mulheres, usando expressões como empoderamento feminino e trabalho sexual, ficam chocadas quando alguém ergue a voz contra o aborto.

Sobre isto basta ver o escândalo que causou um almoço de mulheres conservadoras, e todas as intervenções públicas que foram feitas em nome desse novíssimo “direito” ao aborto, comparado com a calma com que foram recebidas sucessivas reportagens sobre raparigas com menos de vinte anos que vendem a sua intimidade na internet.

O aborto tornou-se hoje o sacramento do novo feminismo. Se, em 2007, no referendo, ouvimos vezes sem conta “todos somos contra o aborto, só não queremos mulheres presas; não é legalização, é apenas descriminalização; não é aborto livre”, hoje, essas mesmas pessoas falam do aborto como se de um direito se tratasse. Não a suposta excepção com que convenceram as pessoas a votar sim no referendo, mas um direito fundamental. E, como tal, quem a ele se opõe é um radical, que é contra as mulheres.

Pelos vistos, o actual feminismo, o que quer libertar a mulher do patriarcado, consiste em dar aos homens o que eles querem a troco de dinheiro, ao mesmo tempo que os desresponsabiliza de qualquer consequência com o aborto. A mulher que vende o seu corpo aos homens é livre, a mulher que é a favor da vida que cresce no ventre da mulher é escrava.

3. Ponderei seriamente em escrever este artigo. Aborto, pornografia, prostituição são temas que os homens só podem abordar se for para concordar. Se for para discordar, então estamos obrigados ao silêncio. Aparentemente, a dignidade das mulheres, a dignidade da vida por nascer, o fim da exploração sexual, são temas sobre os quais os homens só podem ter a opinião dos movimentos feministas.

Mas depois lembrei-me que tenho uma filha. E que não quero viver num mundo que lhe diz que ela é livre a vender-se a um homem, mas escrava a ter um filho. E, por isso, sim, o aborto, a pornografia, a prostituição, assim como todas as formas de exploração das mulheres são temas dos homens. Dos homens que acreditam que as mulheres são iguais a nós em dignidade, não produtos para nossa satisfação. Dos homens que valorizam as mulheres, não apenas os seus corpos. Dos homens para quem uma gravidez é fruto de um acto conjunto, e não uma responsabilidade da mulher isolada. Dos homens que querem educar os seus filhos para respeitar as mulheres. Dos homens que querem educar as suas filhas para serem mulheres e não objectos de prazer de qualquer homem com dinheiro.

O feminismo moderno tornou-se um aliado dos homens perversos. Não apenas dos que tratam as mulheres como objectos para o seu prazer, que se podem comprar, na rua ou na internet, mas também de todos os homens que fazem da exploração das mulheres fonte de riqueza.

Por isso não me calo. Não por achar que as mulheres em geral precisam do meu conselho, ou das minhas explicações. Não me calo porque não quero ser cúmplice desta loucura, que trata a exploração como libertação, e a maternidade como prisão.


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Padre João Seabra: a liberdade dos santos

 



A 14 de Setembro de 1949 nasceu o Padre João Seabra. Claro que, na altura, não era padre, era só o primeiro filho sobrevivo dos meus avós. Foi, por isso o mais velho de nove irmãos, e tio de muitos sobrinhos e sobrinhos-netos.

Mas, para além de irmão e tio muito amado, foi pai na fé de milhares de pessoas. Tendo escolhido a virgindade, a sua paternidade foi mais fecunda do que a de qualquer homem casado. E foi sempre impressionante como manteve esta extraordinária dualidade, de ser sempre filho, irmão e tio, ao mesmo tempo que era pai do povo que o Senhor lhe confiou.

O impacto da vida do Padre João na vida pública é difícil de medir. Seria interessante estudar tantas coisas da sua vida: como a sua insistência na confissão ajudou a restaurar este sacramento no Patriarcado de Lisboa, que influência os SAIREF tiveram no surgimento dos campos de férias católicos, quantas peregrinações a Fátima nasceram da peregrinação da Católica, de que forma a sua coragem na vida pública fez os católicos perderem a vergonha de dar testemunho público de Cristo, quantos miúdos o Colégio de São Tomás ajudou a crescer, entre tantos outros assuntos.

Mas os sucessos públicos do Padre João não espantam. A sua inteligência, a sua capacidade de compreender o mundo, a sua coragem, a sua energia inesgotável garantiram que ele iria sempre ter sucesso. Se, em vez de padre, fosse advogado, político ou qualquer outra coisa, teria tido sempre sucesso.

A coisa que realmente me espanta é que um homem destinado a ser um dos senhores do mundo tenha escolhido uma vida de servo. As capacidades do Padre João eram imensas, e todas elas ele ofereceu ao Senhor, para que Ele fizesse com elas o que desejasse.

E, por isso, decidiu ser padre. E ser padre era aquilo que definia toda a sua vida, a identificação total com aquilo que o Senhor lhe pedia. Por isso, o mais importante da sua vida era aquilo que é próprio do sacerdote: celebrar os sacramentos, e, de entre eles, uma clara preferência pela confissão.

O bom pastor é o que larga cem ovelhas para ir atrás da que está perdida. O Padre João era capaz de deixar centenas à espera do começo da missa, para confessar o que, em cima da hora, vinha pedir a graça da confissão.

E isso é o que mais espantava. Porque os imensos dons do Padre João foi Deus que lhos concedeu. A decisão de os submeter a todos à sua missão de sacerdote foi ele que escolheu.

E, chegando a doença, continuou a ser padre. Quando a fala lhe começou a falhar, quando deixou de conseguir andar, ofereceu-se sempre como sacerdote.

Lembro-me de, quando lhe fui pedir que baptizasse a minha filha, ele me perguntar se não preferia antes que fosse o Padre Duarte da Cunha, já que ele não estava capaz de fazer o Ritual todo. Eu disse-lhe que, se ele conseguisse baptizar, tinha gosto que fosse ele. E assim foi. O Padre Duarte, como o discípulo amado de pé junto à cruz, ali estava, como sempre. Recebeu-nos à porta da Igreja, fez a homilia e boa parte dos ritos, mas o Padre João, com as forças que ainda tinha, é que baptizou o bebé.

«Amando os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim». Lembro-me da última grande conversa que tive com o Padre João, menos de dois meses antes da sua morte. Eu tinha levado uma moção ao Congresso do CDS, que ele tinha revisto e corrigido com a sua habitual sageza. Acabado o congresso, chamou-me para lhe contar como tinha corrido tudo. Já estava bastante fragilizado, mas não falou nada de si, só quis saber de mim. E, mesmo com a fala quase imperceptível, fez perguntas, deu-me conselhos, contou graças. Mas sempre com a urgência de me educar.

Que um homem grande faça coisas grandes é o esperado. Que um homem grande se faça pequeno, que ofereça a sua vida, que abrace o sacrifício com total amor, isso é extraordinário. Porque os dons é Deus que os dá, mas amar aquilo que Deus nos dá, seja a oratória ou a doença, e consumir-se para dar testemunho d’Ele é uma escolha. Ao Padre João deu-lhe Deus os dons para ser grande; a santidade foi ele que a escolheu.

terça-feira, 28 de abril de 2026

A humildade na cama do hospital




Faz hoje um mês que fui ao hospital com o que pensava ser uma enorme contratura muscular nas costas e alguns problemas de estômago, para afinal aprender uma palavra nova: empiema.
Aquilo que era para ser apenas uma visita curta transformou-se em 23 dias de internamento (na fotografia vê-se a janela dos meus aposentos durante a estadia), enquanto me drenavam alguns dos litros de líquido que se tinham alojado na minha pleura e contraíam o pulmão. Dos potenciais riscos nenhum se concretizou, e a minha estadia hospitalar ficou marcada mais pela inconveniência do que pelo sofrimento. Mas não escondo que não foram dias fáceis, sobretudo ao princípio, sem saber quantos dias ficaria no hospital, sem forças para nada, na expectativa de saber se os tratamentos estavam a resultar.
A primeira semana de internamento coincidiu com a Semana Santa. De facto, acabei por ser operado na Quinta-Feira Santa e, na Sexta-Feira Santa, acordei com dois drenos de onde me tiravam sangue e líquido. Não me era possível não me lembrar da Paixão de Nosso Senhor; mas se Jesus foi esmagado no sofrimento, eu fui-o apenas na humilhação. Digo isto sem qualquer tristeza ou zanga, pelo contrário.
Porque a mim, sempre convencido das minhas capacidades, sempre confiante nas minhas forças e orgulhoso da minha capacidade de resolver assuntos, fez-me bem ficar preso a uma cama, sem forças, sujeito às ordens dos médicos e enfermeiros, dependente dos outros, incapaz de fazer, sobrando-me apenas esperar. O Senhor não me enviou grandes dores nem grandes sofrimentos, não foi uma doença heróica, apenas me obrigou a ficar deitado enquanto a vida acontecia. Eu, que tenho sempre a mania de que as coisas dependem de mim para se realizarem.
E o que me sobrava? Oferecer, dizer com São Paulo: «Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo», mesmo consciente do quão pouco estava a oferecer.
O Padre João Seabra dizia que era inútil perguntar o porquê das coisas que nos aconteciam; que a pergunta essencial era: para quê? E para mim tornou-se claro o para quê desta minha circunstância: para me educar na humildade, na dependência, para me relembrar que quem cuida (de mim, da minha mulher, dos meus filhos, da minha vida) não sou eu, mas o Senhor. Claro que o Bom Deus me chama a participar dessa missão, mas ela não depende das minhas parcas capacidades, mas da Sua infinita misericórdia.
E passados esses dias, lá saí do hospital e regressei a casa. Ainda a recuperar, aos poucos e poucos. Se tudo correr bem, até posso sair melhor desta aventura do que entrei, já que pelo caminho perdi uns bons quilos e deixei de fumar. E posso garantir que estou bastante feliz por regressar a casa, assim como por ir recuperando as forças.
Mas peço a Nosso Senhor que esta aventura das últimas semanas não se perca, para que, tendo experimentado na carne a minha fragilidade, me continue a lembrar que é Ele que me guarda quando venho e quando vou, agora e para sempre.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Ventura: o Homem que levou Seguro a Belém



Muitos resmungos tenho ouvido sobre o eleitorado do PSD, do CDS e da IL ter elegido António José Seguro para Presidente. Mas o principal responsável por termos, ao fim de vinte anos, um Presidente do Partido Socialista é André Ventura.

O auto-intitulado novo líder da Direita, que teve menos votos que a AD, passa a vida a explicar que é o líder da oposição, que o Governo é uma desgraça, que a IL é de esquerda, que o CDS morreu, que são todos do “sistema”, que todos vivem de tachos — e depois fica muito espantado por ninguém lhe dar o seu apoio.

Ora, Ventura não pode querer afirmar-se como o líder de uma revolta contra todos os outros partidos e, ao mesmo tempo, querer ser eleito com o apoio desses mesmos partidos.

O líder do Chega sempre afirmou que não queria ser Presidente de todos os portugueses. Logo, não pode ficar espantado por aqueles de quem não quer ser Presidente não votarem nele.

Vir agora lamentar-se porque aqueles que sempre desprezou e insultou não o apoiaram é fazer a figura da criança que, na escola, bate em todos e depois não percebe porque é que ninguém quer brincar com ela.

Se Ventura considera que ter um Presidente do PS é uma ameaça tão grande para o país que exigia a união de toda a Direita, então a primeira coisa que tinha de fazer para promover essa união era não concorrer.

Ele sabia perfeitamente que nunca seria eleito. Sabia perfeitamente que, passando a vida a destratar os outros partidos de Direita, jamais teria o seu apoio. Portanto, se queria mesmo um Presidente de Direita — se considerava que era urgente uma união à Direita — tinha uma solução simples: não se candidatar e procurar uma figura de consenso capaz de fazer pontes.

Mas assim não quis. Preferiu concorrer, marcar pontos políticos, fazer teatro, proclamar-se líder da Direita — e, com isso, colocar António José Seguro em São Bento.

Todos os apoiantes de Ventura hoje amargurados pela vitória de António José Seguro deviam ter consciência de que o principal culpado dessa eleição é o próprio Ventura, que decidiu ocupar todo o espaço da Direita mesmo sabendo que iria perder na segunda volta. Mais uma vez, o líder do Chega colocou a sua ambição pessoal à frente do país — e, mais uma vez, encontrou várias pessoas dispostas a apoiá-lo.

E assim, aqueles que apoiam Ventura, fazendo loas à “nova Direita”, pura e imaculada, que jamais se sentaria à mesa com socialistas, continuam a ser a máquina de oxigénio que permite ao PS manter-se vivo.

O PSD tem muitas culpas nestas eleições, a começar por ter preferido um candidato que agradasse ao aparelho em vez de um candidato que convencesse o país. Mas quem garantiu verdadeiramente a vitória esmagadora de Seguro foi a ambição de Ventura, servida pelos “puros” da Direita, que hoje ajudaram a ressuscitar o PS.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

POLÍTICA: O QUE TEMOS PARA OFERECER?

 

Intervenção no encontro da Companhia das Obras sobre Política e Eleições

1. POVO VS MASSA
No sexto ano da IIGG, no Natal de 1944, na sua mensagem radiofónica, o Papa Pio XII afirmava:

“Povo e multidão amorfa ou, como se costuma dizer, «massa», são dois conceitos diferentes. O povo vive e move-se por vida própria; a massa é, por si mesma, inerte, e só pode ser movida do exterior. O povo vive da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais — no seu próprio lugar e à sua maneira — é uma pessoa consciente das suas próprias responsabilidades e das suas próprias convicções. A massa, pelo contrário, espera o impulso do exterior, sendo um joguete fácil nas mãos de quem quer que explore os seus instintos ou as suas impressões, pronta a seguir, sucessivamente, hoje esta, amanhã aquela bandeira.”

Olhando para o que têm sido as últimas semanas da campanha eleitoral, e sobretudo a campanha da segunda volta, penso que é difícil não pensar nestas palavras de Pio XII, que o Padre João recordava na lição Poder e Moral, a Comunidade Política, que serviu de base a este encontro.

Penso que todos nós já nos demos conta (e provavelmente já o demos conta também em nós), de como o debate sobre as presidenciais se restringiu a um conjunto de bandeiras: democracia contra o fascismo, liberdade contra o socialismo, direita contra esquerda. Quem de repente aterrasse em Portugal, e nada conhecesse do país, diria que este se dividia entre fascistas e socialistas.

Ora, a mim não me parece que isto seja verdade, nem me parece um juízo razoável sobre o que está em causa nestas eleições. E parece-me sinal de uma sociedade polarizada, onde o outro, aquele que pensa diferente de mim, que vota diferente de mim, é um adversário, é um inimigo, é um impedimento à minha felicidade e ao bem comum.

2. A TRINCHEIRA IDEOLÓGICA

Claro que isto veio ao de cima nestas presidenciais, mas não surgiu agora. Hoje, em qualquer tema, há o dever moral de erguer uma trincheira: guerra da Ucrânia, na Terra Santa, na política americana, qualquer que seja o tema — só há bons e maus. E o dever dos bons é eliminar os maus.

Hoje, tanto no debate público como, tantas vezes, entre nós, excluímos a possibilidade de o outro ser um bem. Agarrados à ideia de que só a nossa ideologia poderá salvar o mundo, recusamos qualquer diálogo, qualquer cedência; a única possibilidade é a nossa vitória, a dos bons e justos, sobre os maus e opressores.

Por isso, diante disto, devo confessar que a questão de onde é que votamos, nesta eleição concreta, não é o que mais me preocupa. Sejamos claros: votar não é escolher a pessoa que queremos para um cargo, mas escolher entre as opções que existem. E, neste caso, só há duas, e nenhuma delas me parece especialmente boa. É como entrar num restaurante onde só há dois pratos e não gostamos de nenhum: não vale a pena pedir cozido; ou comemos o que não gostamos ou passamos fome.

O que me preocupa realmente é esta redução da política a uma luta ideológica, de bons contra maus. Onde reduzimos o outro a uma posição ideológica, onde só conta de que lado ele está: comigo ou contra mim.

Por isso, o que temos para oferecer diante disto? O que a Igreja, o que a Fé tem a oferecer diante disto?

3. A CONSCIÊNCIA

Antes de mais, uma consciência. A consciência de que o nosso destino não se joga na política, que o nosso horizonte não é a conquista do poder em nome de um bem maior, mas a Vida Eterna.

A primeira vez que disse ao Padre João que me queria empenhar na política, a primeira coisa que ele me disse foi: nunca te esqueças que és cidadão dos céus e concidadão dos santos. E depois explicou-me que a política é uma forma superior de caridade, porque a missão de um político é testemunhar Cristo diante de todo um povo.

Esta consciência, de que o homem é feito para o céu e não para o poder, é o que nos permite colocar de forma justa o valor da política. De forma realista, ou seja, tendo em conta a totalidade dos factores. A consciência de que somos chamados a participar na missão de Jesus, de sermos Suas testemunhas, mas que quem salva o mundo não é o nosso esforço, não é a nossa vitória: o que salva o mundo é Cristo. E assim podemos estar diante da política sem qualquer outra pretensão, sem qualquer outro cálculo, que não seja o de O servir.

4. O OUTRO COMO UM BEM

O segundo ponto que me parece que temos para oferecer é aquilo que o Padre Carrón sugeria num texto que escreveu sobre a situação política italiana em 2013:

“Agora, digo isto pensando no presente: se não encontrar espaço em nós a experiência elementar do outro como sendo um bem, e não um obstáculo para a plenitude do nosso eu, na política assim como nas relações humanas e sociais, será difícil sair da situação em que nos encontramos.”

Num tempo em que o outro é olhado, mesmo entre nós, como um obstáculo, tomar consciência de que também ele é feito do mesmo desejo de bem e de felicidade que eu, ainda que o exprima de forma diferente e até mesmo — não tenhamos medo de o dizer — de forma errada, esta consciência do outro como um bem é essencial

Dizer que o outro é um bem não significa dizer que tudo é bom, ou que todas as ideias são igualmente válidas. É simplesmente afirmar que a pessoa não é definida pelas suas ideias, nem sequer pelos seus actos, mas pelo desejo de Deus que está presente no coração de cada homem. E este é o ponto de partida para eventualmente construir algo.

Claro que esta proposta tem um limite evidente: a minha abertura ao diálogo pode não encontrar correspondência. Posso acabar a falar sozinho. Mas a alternativa a esta tentativa de encontrar um ponto em comum com o outro, como dizia o Padre João, é a guerra civil. E isso é o que hoje, de forma metafórica, entenda-se, vivemos.

5. UNIDADE

O terceiro ponto que gostaria de referir é o da unidade. Na conversa que já aqui descrevi com o Padre João sobre o meu empenho na política, a última coisa que ele me disse foi: lembra-te que na política segues sempre a Isilda e o António Maria.

Na altura pareceu-me um ponto meramente operativo, para um jovem sem experiência. Com o tempo tenho-me dado conta como a unidade com estes dois amigos tem sido central na minha acção política nestes últimos doze anos. Por dois aspetos.

Primeiro, porque me salva da tentação do poder, de servir o poder. Durante estes anos, várias vezes a Isilda, o António e eu discordamos. E, como temos o feitio que temos, e eu tenho um especialmente forte, acontece por vezes discutir-mos, até com aspereza. E é nestes momentos que a Isilda diz sempre o mesmo: não nos podemos zangar pela política, o essencial é a nossa unidade.

Porque Nosso Senhor não disse que estava presente quando um de nós tiver razão, mas quando dois ou mais estivermos reunidos em Seu Nome. Não pediu ao Pai que nos tirasse do mundo, mas que fossemos um só, para que o mundo acreditasse.

Esta unidade, não me salva apenas a mim do meu mau feitio, da minha impulsividade, da minha vaidade, mas é a hipótese de, na política, tornar Cristo presente.

6. AS FORÇAS QUE MUDAM A HISTÓRIA

Por isso é que me parece que neste momento, onde a política tem introduzido entre nós uma ferida, o ponto essencial não é em quem votamos, mas sim, como dizia Giussani: a solução “não advém directamente enfrentando os problemas, mas aprofundando a natureza do sujeito que os enfrenta.”

Quero com isto dizer que as eleições presidenciais e até a política não interessam? Evidentemente que não. E seria ridículo eu dizer tal coisa, quando dedico tanto tempo (roubado à família, antes de mais) a tentar participar na vida política.

Um católico que é advogado, não é que para exercer a sua profissão como católico só pode exercer direito canónico. Um professor de biologia que seja católico, e que em vez de falar de biologia nas aulas, para ser católico, dá catequese, é só um mau professor. Por isso um católico empenhado na política tem de fazer política. Mais, como diz o Padre João na sua lição, se quer estar na política tem de estar onde esta se faz: nos partidos. E sobre isto não acrescento mais nada, porque o que vale mesmo a pena é ir ler o que disse o Padre João, que é sempre melhor do que qualquer coisa que eu diga.

Por isso, a política é essencial, e temos o dever de participar nela. E estas eleições são importantes, e devemos ter claros os critérios com que votamos e as razões por que o fazemos. Mas a mim parece-me que o mais importante, neste tempo em que o juízo foi substituído pela indignação, a Fé pela ideologia, e o povo pela massa, não é a forma como a nossa acção política se traduz, mas a consciência com que o fazemos.

Porque a acção, ainda que nascida de um juízo profundo, pode estar errada. Eu posso votar para a semana com belíssimas razões e depois, por um conjunto enorme de circunstâncias que não controlo, arrepender-me amargamente do meu voto. E não estou nada preocupado com isso. Porque votar é escolher entre candidatos imperfeitos, em circunstâncias que eu não controlo, e por isso o resultado do meu voto, mesmo que bem ponderado, está completamente fora do meu controlo.

Mas estar diante da política com a consciência clara daquilo a que somos chamados é o que nos permite dar testemunho de Cristo.

No Maio de 68, um tempo em algumas coisas parecido com o nosso, um jovem foi ter com Giussani e diz-lhe querer estar «com as forças que mudam a história». Falava dos movimentos marxistas para onde tinham migrado a esmagadora maioria dos jovens católicos de então. Giussani responde-lhe então: «As forças que mudam a história são as mesmas forças que mudam o coração do homem».

E, por isso, a única coisa que eu desejo, diante destas eleições e diante da política actual, é manter-me fiel a esta consciência em que Giussani nos educa, que nos permite estar de forma livre diante da política. Penso que é isto que temos a oferecer à política actual.

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Católicos por Cristo

 


Vi os católicos por Seguro e não gostei. Acredito nas boas intenções, mas ser católico não é uma bandeira política. Não se pode reduzir a Fé a uma identidade: há os não socialistas por Seguro, os trabalhadores por Seguro, os que bebem café por Seguro, os católicos por Seguro.

Vi os católicos por Ventura e gostei ainda menos. Mais uma vez, estarão cheios de boas intenções, mas a verdade é que pegam em citações do Magistério que confirmam a sua opinião, ignoram várias outras, e transformam o voto em Ventura numa obrigação de um católico.

Repare-se: acho muito bem que os católicos se empenhem na política. É essencial que tenham consciência de que também a Fé está relacionada com a política. E é bom que, na hora de votar, a Fé seja o factor essencial no seu discernimento. E sejamos claros: quando falamos de Fé, falamos daquilo que a Igreja ensina, a sua doutrina, o seu magistério, não de uma opinião difusa.

Mas o trabalho que é preciso fazer é, partindo daquilo que a Igreja ensina, olhar para as opções disponíveis e decidir em consciência à luz da Fé. Ora, ambos os manifestos fazem o percurso contrário: partem da sua opinião sobre os políticos em causa e colam pedaços da Doutrina da Igreja para confirmar o que já tinham decidido. Ou seja, reduzem a Fé à sua ideologia.

A escolha de dia 8 não é fácil. Infelizmente, não só nenhum dos candidatos defende aquilo que a Igreja ensina sobre o poder político, como, pelo contrário, ambos defendem coisas gravemente contrárias aos ensinamentos da Igreja. Desde a defesa da eutanásia por António José Seguro aos constantes ataques a emigrantes e ciganos por Ventura, os dois candidatos oferecem razões suficientes para um católico, em abstracto, não votar em nenhum.

Mas não somos chamados a escolher a pessoa que gostaríamos de ter como Presidente da República, e sim a escolher entre duas pessoas concretas. A Fé deve ajudar nesse discernimento, mas isso dá trabalho. É preciso estudar, é preciso ler e ouvir os candidatos, ajuizar a situação política e tentar discernir qual dos dois poderá ser mais útil ao Bem Comum, como a Igreja o propõe.

Reduzir a Fé a uma bandeira ideológica, tentando que esta encaixe na nossa opinião pessoal, é mais fácil, mas é, de facto, ser “católico por Ventura” ou “católico por Seguro”. O que a Igreja nos propõe é sermos de Cristo. Não se pode servir a dois senhores.