Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com
Mostrar mensagens com a etiqueta misericórdia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta misericórdia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Menos redes sociais, mais humanidade - Observador, 14/11/19

Se é verdade que as redes sociais ajudaram a democratizar o debate público, não é menos verdade que têm contribuído para o empobrecer.

O debate nas redes sociais vive da sua imediatez, da sua capacidade de emocionar ou revoltar, vive de emoções e não de razões. Ao mesmo tempo, por ser impessoal, convida também à falta de empatia para com o outro. É fácil escrever num ecrã aquilo que jamais diríamos a alguém olhos nos olhos.
Por isso qualquer tema tem potencial para se transformar numa guerra, com facções entrincheiradas, trocando acusações inflamadas e insultos.      E quanto mais “escandaloso” for o tema, mas irracional e irado será o debate

Quem passar os olhos pelas redes sociais em Portugal nos últimos dias poderá imaginar que a nossa sociedade se divide neste momento entre aqueles que querem apedrejar a mulher que colocou o seu filho recém-nascido num ecoponto e os que consideram que essa mulher é apenas uma pobre vítima da sociedade. Como se estivéssemos diante de um problema simples, onde só se pode ser a favor ou contra.

A única coisa simples neste caso é a consciência de que abandonar um recém-nascido despido num ecoponto para morrer é monstruoso. Qualquer que seja a circunstância da mãe, condenar à morte uma criança inocente, acabada de nascer, é (e peço desculpa pela repetição, nas não há outra maneira de o dizer) monstruoso.

Mas uma pessoa não é definida apenas pelos seus actos. A monstruosidade de abandonar o filho à morte não transforma automaticamente aquela mulher num monstro. A condenação do acto não nos impede de olhar com misericórdia para uma humanidade de tal maneira desfeita e ferida que é capaz de um dos actos mais anti-naturais do mundo.

Pouco ou nada sabemos sobre a mãe desta criança. Cabo-verdiana, jovem, vivia na rua. Alguns jornais afirmam que vivia da prostituição, que não sabia quem era o pai da criança. Estes são os dados que possuímos. E nesses dados, e no seu crime, podemos entrever uma vida miserável.

Quer isto dizer que não deve ser julgada pelos seus actos? Evidentemente que deve. Mas caberá a um juiz apurar (e não lhe invejo a sorte) até que grau pode esta mulher ser responsabilizada pelo seu acto. E em última instância, caberá ao tribunal decidir se esta mulher deve ou não ser presa.

E este olhar de misericórdia também não significa desresponsabilizar a mãe pelo que fez. Culpar as circunstâncias ou a sociedade pelo seu acto é um insulto a todos os que vivem as mesmas circunstâncias sem praticar qualquer mal. É um insulto a Manuel Xavier, o sem abrigo que salvou aquele bebé.

Mas há uma diferença entre fazer desta mulher apenas uma vítima da sociedade e olhar para ela com compaixão pelo drama terrível que vive. Como disse antes, caberá ao tribunal decidir sobre a responsabilidade da mãe neste terrível acto. Penso que a nós nos cabe perceber o que pode ser feito para ajudar mulheres que vivem dramas como o desta rapariga.

Eu não consigo deixar de me sentir interpelado por saber que há em Portugal, no século XXI, mulheres que vivem na rua, que se prostituem para viver, que vivem toda uma gravidez sem qualquer apoio. Nada disto justifica que se tente matar um filho, mas um drama assim não nos pode deixar indiferentes.

É fácil para mim, sentado em casa, rodeado pela minha família, condenar o acto desta mulher. Mas eu nunca tive que dormir na rua, nunca fui abandonado pela minha família, nunca tive de vender o meu corpo e nunca, por razões evidentes, passei por uma gravidez, quanto mais sozinho e sem apoio. Não sei, nem sonho o que aquela mulher passou. E penso que a esmagadora maioria daqueles que hoje andam pelas redes sociais a pedir o seu apedrejamento, também não. Por isso choca-me o crime, espero que a justiça funcione, mas não deixo de sentir compaixão por aquela mãe. E espero que o tempo, e a justiça, sirvam para a sua recuperação e regeneração.

Quanto ao seu filho, milagrosamente salvo das garras da morte: que Deus o guarde e que nunca tenha de enfrentar as mesmas circunstâncias desesperadas de sua mãe.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Os Miseráveis ou o Canto da Misericórdia.





in memoriam de meu irmão

A adaptação do musical Os Miseráveis para o cinema é dos filmes mais belos e comoventes que tenho visto nos últimos anos. Embora não tenha ficado muito convencido da primeira vez que o vi, voltei a vê-lo várias vezes, por um conjunto variado de razões, até acabar por ficar fascinado. De cada vez que o vejo, ou oiço a banda sonora, acabo sempre por ficar comovido com a sua beleza.

Para mim todo o filme roda à volta de duas personagens. De um lado o inspector Javert, o agente da justiça, do outro Jean Valjean, servo da misericórdia. 

O conflito entre os dois começa logo na primeira cena. Javert é guarda dos prisioneiros que fazem trabalhos forçados em Toulon. Valjean é o prisioneiro 24601, que ao fim de 19 anos, cinco anos por roubar um pão para alimentar os sobrinhos, os outros por tentar fugir, sai em liberdade condicional, com a obrigação de se apresentar regularmente às autoridades até ao fim da vida.

Jean Valjean sai de Toulon destruído, totalmente amargurado, furioso com todo o mundo pela injustiça de que foi alvo. E a liberdade só o esmaga mais. Rejeitado em todo o lado por ser um condenado, perseguido e acossado, acaba por se deitar para dormir à porta de uma casa próxima de um cemitério.

É então que o bispo da cidade o vê e o convida a entrar, para cear e dormir. Durante a noite Valjean foge, levando consigo os talheres de prata do bispo. No dia seguinte é apanhado pela guarda que o leva a casa do bispo.

E então dá-se o momento que transforma a vida de Valjean. O bispo, em vez de o acusar, repreende o antigo condenado por se ter esquecido de levar os castiçais de prata, último bem precioso que possuía, e dispensa a guarda. Depois de a guarda sair, o bispo diz a Valjean: Lembra-te disto meu irmão, vê nisto um desígnio superior. Deves usar esta prata preciosa para te tornares um homem honesto. Pelo testemunho dos mártires, pela Paixão e pelo Sangue, Deus ergueu-te da escuridão: eu comprei a tua alma para Deus.

A partir desse momento, Jean Valjean muda de nome, escapa à justiça e começa uma nova vida, toda alicerçada neste encontro. Relembrar esta cena traz-me à mente as palavras do Papa Francisco na audiência com Comunhão e Libertação: O lugar privilegiado do encontro é a carícia da misericórdia de Jesus Cristo para com o meu pecado. E, por isso, algumas vezes me ouvistes dizer que o lugar privilegiado do encontro com Jesus Cristo é o meu pecado. É graças a este abraço de misericórdia que dá vontade de responder e de mudar, e que pode surgir uma vida diferente. A moral cristã não é o esforço titânico, voluntarista, de quem decide ser coerente e o consegue, uma espécie de desafio solitário perante o mundo. Não. Esta não é a moral cristã, é outra coisa. A moral cristã é resposta, é a resposta comovida frente a uma misericórdia surpreendente, imprevisível, até mesmo “injusta” segundo os critérios humanos, de Alguém que me conhece, conhece as minhas traições e me quer bem ainda assim, me estima, me abraça, me chama de novo, espera em mim, espera de mim. A moral cristã não é nunca cair, mas levantar-se sempre, graças à sua mão que nos segura.

E assim é com Jean Valjean: ferido, trai a única pessoa que lhe estende a mão. Contudo, a misericórdia “injusta” daquele bispo leva-o à conversão. Todo o resto da sua vida será dedicada à misericórdia.

Do outro lado temos o inspector Javert. Para ele a justiça é tudo. Não existe maior virtude do que ser justo. O seu ódio a Valjean, que o leva a persegui-lo, ano após ano, advém do facto de este ter cometido o que para ele é o maior crime: fugir à justiça.

E este é o grande drama de Javert: ele é um homem bom, mas para quem nada existe para lá da justiça. Aliás, podemos entrever a bondade do polícia na cena em que ele contempla os corpos dos revolucionários mortos e vê entre eles o pequeno Gavroche, que antes o tinha denunciado à polícia e que quase levou à sua morte. Nesse momento Javert tira uma medalha do seu peito e coloca-a no cadáver da criança, injustamente morta.

O que ele não é capaz de aceitar é a injustiça da misericórdia. Para ele é claro: quem errou tem que pagar o seu preço. O perdão totalmente imerecido, como aquele de que foi alvo Valjean, parece-lhe o cúmulo da iniquidade. É gozar da justiça. Por isso quando o seu inimigo, que ele perseguiu toda a vida implacavelmente, o tem preso e decide liberta-lo em vez de o matar, ele quase enlouquece. E quando finalmente tem Valjean à sua disposição e em vez de o prender o deixa fugir, enlouquece de vez e suicida-se. 

E aqui vemos a diferença entre a justiça e a misericórdia. A justiça é uma virtude humana. É uma medida humana: cada um tem aquilo que merece. Mas a misericórdia é uma virtude divina: perdoar sem qualquer medida, sem qualquer cálculo ou conta. Por isso a justiça, para ser verdadeiramente justa, tem que ser temperada pela misericórdia. Se assim não for acaba por se tornar medida última de todas as coisas. Acaba por ser tornar iniqua e destrutiva.

A justiça, em última instância, é afirmação do homem como senhor de si mesmo. Eu fiz isto ou aquilo e agora pago. Mas a misericórdia é a medida de Deus. É o coração que grita: se mataste, se roubaste, essas coisas não aconteceram, só Ele é( in Miguel Mañara). Por isso negar a misericórdia é negar Deus, é trocar a Paternidade Divina pela independência, ou seja pelo nada e pelo desespero.

Por isso Javert diz ao suicidar-se: as estrelas são negras e frias, enquanto eu olho para o vazio de um mundo que eu não consigo segurar. Eu irei escapar-me agora do mundo, do mundo de Jean Valjean. Não há nenhum lugar para onde eu possa ir, não há nenhum caminho para seguir.

Ao contrário, Valjean morre sossegado, no Mosteiro onde viveu com a sua filha adoptiva, com palavras de beleza e alegria: Deus nas alturas ouve a minha oração. Leva-me agora, para o Teu cuidado. Onde estiveres, deixa-me estar. Leva-me agora, leva-me lá, traz-me para casa.

Existe outra razão, para lá da belíssima história para que este filme me emocione tanto. Não consigo ver este filme, ou sequer ouvir algumas das suas músicas, sem me lembrar do meu irmão Luís, que o Senhor chamou a Si no ano passado.

As razões para esta memória são várias. Para começar o DVD do filme que eu tenho herdei-o do meu irmão. Para além disso, também ele gostava muito d’Os Miseráveis. De tal maneira que chegou a encenar algumas cenas do filme num concurso de talentos do Colégio de São Tomás.

Mas a principal razão para me recordar do meu irmão é que também ele procurou sempre a misericórdia. Lembro-me de tantas vezes que ele foi tratado de maneira menos justa ou menos simpática e de que como ele, muitas vezes perante a minha fúria, preferia quase sempre não ligar, passar por cima.

Lembro-me também da sua constante disponibilidade para ajudar. Alguns destes seus gesto foram públicos: os concertos de natal, os coros, os teatros, o trabalho com os Cavaleiros de Comunhão e Libertação. Mas muitos mais foram os gestos privados. Nunca se esquecia de ninguém. Depois da sua morte foram várias as pessoas, especialmente pessoas que regra geral são esquecidas pelos outros, que me contaram a companhia que o Luís lhe tinha feito. Testemunharam pequenos gestos: uma mensagem que ele tinha mandado num momento de tristeza, a companhia ao almoço, um presente que ele tinha dado.

A verdade é que esta maneira de viver, entregue à misericórdia, não será provavelmente a melhor para triunfar no mundo. Engolir as injustiças e dar tudo sem nada esperar em troca não é propriamente a receita para uma vida sossegada. Mas é a receita para uma vida feliz, como aquela que o meu irmão viveu. Sobretudo, parece ser o caminho para chegar à Glória do Senhor.