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terça-feira, 12 de março de 2024

O Inverno (e a Primavera, o Verão e o Outono) do nosso descontentamento



Olhando para as reacões às eleições de Domingo parece-me que o centro-direita não percebeu o que aconteceu. Continuo a ver a AD a afirmar que ganhou as eleições, quando a verdade é que o máximo que pode afirmar é que não perdeu. Neste momento tem apenas mais 2 deputados que o PS (sendo que, embora seja pouco provável, ainda pode empatar, ou até ficar com menos) e menos deputados do que a esquerda unida. A verdade é que a AD teve um dos piores resultados de sempre do centro-direita, pouco acima de há dois anos e que precisa que ou o PS ou Chega no mínimo se abstenham para aprovar qualquer coisa no Parlamento. Seja isto o que for, não é uma vitória.

Mas, ao contrário do que tinha acontecido até agora quando o centro-direita tinha um mau resultado, a verdade é que o PS tem um resultado ainda pior. Perde mais de 40 deputados e mais de 500 mil votos. O país mostrou muito claramente que está farto do PS e que não o quer no poder, nem sequer em conjunto com a esquerda.

Mas quem derrotou o PS não foi a AD, que repete mais ou menos o resultado de há dois anos quando o PS teve maioria absoluta. Quem derrotou a o PS foi o Chega. Com mais de um milhão de votos e quase cinquenta deputados, confirma-se não apenas como o terceiro partido, como se torna também no terceiro partido com maior grupo parlamentar na democracia portuguesa. Ignorar que os portugueses quiseram tirar o PS do poder e que expressaram esse desejo sobretudo através do voto no Chega é um erro que podemos vir a pagar caro.

Estas eleições vieram por a nu algo que já era evidente há anos, mas que o refúgio da abstenção sempre permitiu disfarçar. Hoje há um total divórcio entre a política e todos os seus protagonistas (partidos, políticos, comentadores, etc) com a sociedade. As eleições, que nenhum dos dois grande partidos ganhou, e que viram crescer o partido que se afirma como anti-sistema deixaram claro que boa parte do povo não tem qualquer interesse nesta elite.

A elite política vive hoje cada vez mais em circuito fechado. Transitam directamente das juventudes partidárias para uma qualquer avença e daí para o Parlamento ou um espaço de comentário. Vivem fechado no seu círculo, alimentados pela bolha do Twitter, perdidos em tricas que não interessam a ninguém a não ser aos que vivem nessa bolha. Debitam discursos redondo sobre os temas que os comentadores (que vivem na mesma bolha) garantem ser essenciais, mas que nada dizem à população. Pregam com ar douto, sempre com a pretensão de ensinar ao povo sobre o que se deve preocupar, como deve vota, quais as grandes causas civilizacionais. Sobretudo ignoram totalmente o dia-a-dia dos portugueses,  tratando com desprezo qualquer preocupação que vá contra a sua narrativa.

Do outro lado vivem os eleitores, com trabalhos que no topo da carreira pagam o mesmo que ganha um qualquer assessor de 20 anos, que andam de transportes públicos, que tem os filhos na escola do Estado, que tem de utilizar o SNS. Os eleitores que vivem em casas cada vez mais caras, que vêm os filhos a viver pior que a sua geração, sem qualquer esperança de conseguir melhorar a sua qualidade de vida.

Do outro lado estão também as associações da sociedade civil, sem qualquer ligação partidária, que fazem trabalho político, trabalho cultural, trabalho social, sem qualquer apoio ou sequer consideração da parte do poder.

É evidente que num país cada vez mais envelhecido, mais pobre, com serviços públicos mais degradados, sem opções profissionais, e em que os políticos vivem fechados sobre si mesmos, o descontentamento só podia aumentar. E isto era evidente nos últimos anos, com o aumento constante da abstenção. Não é agora que as pessoas não confiam nos políticos, é há anos. A grande diferença é que nesta eleição houve um partido que soube manipular esses descontentamento.

Não tenho dúvida que Chega não é solução. A única coisa que sabe fazer é amplificar os problemas da população sem propor qualquer solução exequível para eles. Estou convencido que a melhor forma de esvaziar o Chega seria dar-lhes responsabilidades no Governo. No instante em que tivessem que resolver qualquer problema, ficaria claro a sua inutilidade. Mas o facto de o Chega não ser solução, não significa que os problemas de que fala não existam. Menorizar as pessoas que votam no Chega trata-la como tontas, como analfabetas, com paternalismo, é meio caminho andando para continuar a dar mais força a Ventura. O Chega não é a causa da crise do sistema, é a consequência.

Se o PSD quer realmente voltar a ser um grande partido tem que começar por tirar a cabeça da areia. Tem de levar a sério esta separação entre o seu partido e a população. Tem de ir conhecer os problemas reais dos portugueses e propor caminhos claros para os resolver. Sobretudo tem que romper a bolha em que vivem os políticos. Uma bolha de impunidade, onde carreiras se constroem apenas com base em apoiar os candidatos certos, onde centenas de pessoas vivem de avenças ou contratos públicos, onde para se ter sucesso nos negócios não é necessário qualquer jeito, apenas os contactos certos.

Tem de abandonar a agenda ideológica dos comentadores e dos lobbys, e ouvir aqueles que durante décadas foram o seu eleitorado. Ligar menos à estrutura partidária e mais à sociedade civil. Tem de deixar cair barões e caciques, com cadastros dúbios. Tem de estar juntos das populações, não apenas nas eleições, mas todo o ano.  Tem de saber ser um partido popular, sem ser populista.

Sobretudo, tem de ter um rumo claro, uma ideia para o país, um conjunto de ideias que defende. As pessoas tem de olhar para o PSD e saber para onde quer ir e como tenciona lá chegar. Como vai reformar a justiça para que esta seja célere e igual para ricos e pobres? Como vai reforma o ensino para que as famílias possam educar em liberdade os seus filhos? Como vai reformar a saúde para todos tenham acesso a ela? Como vai reformar o Estado para que este seja eficiente? Que visão tem para a habitação, os transportes, a economia? Veja-se quão ridículo perder o tempo a discutir o TGV quando há um país inteiro que nem uma camioneta tem para ir de casa para o trabalho!

Portugal atravessa uma clara fase de descontentamento geral. Hoje há uma total falta de fé na política e as pessoas não têm qualquer esperança de que a situação vá melhorar, seja o governo PS ou PSD. Se o cenro-direito quer esvaziar o populismo só tem um caminho: tirar a cabeça da areia, romper a bolha que hoje envolve os partidos, e fazer política no verdadeiro sentido do termo: servir a coisa pública.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Ataque ao TC, um prego na Democracia - Observador

O que é realmente preocupante é ver deputados arvorarem-se em porta-vozes de um lóbi político, fazendo exigências ao presidente do Tribunal Constitucional. Os deputados não são meros comentadores políticos, nem são apenas representantes de movimentos sociais. São titulares de um órgão de soberania. E a Assembleia da República não só não tem qualquer poder de fiscalização sobre o Tribunal Constitucional, como tem o dever de não se imiscuir, de não pressionar, de não condicionar o funcionamento do mesmo. Ter deputados a pedir explicações ao Presidente do TC, ou a pedir a sua demissão, é um atentado ao princípio da separação de poderes. Mais grave ainda é que um partido peça a audição parlamentar de João Caupers. Como se tivessem poder para fiscalizar o Tribunal Constitucional!

sábado, 30 de maio de 2020

O populismo é um sintoma, temos que tratar é a doença, Observador, 30/05/20

Para a minha geração, nascida em democracia, para quem a queda U.R.S.S. é apenas uma vaga recordação da infância e a guerra na Jugoslávia um acontecimento confuso que preocupava os adultos, a democracia é um dado adquirido. Muitas vezes, demasiadas, esquecemo-nos que a democracia que conhecemos não só é recente como está longe de ser um sistema universal. De facto, só no meu tempo de vida passou a democracia a ser a regra na Europa, sendo ainda hoje desconhecida em boa parte do mundo.

E o facto de darmos a democracia por adquirida leva-nos muitas vezes a acreditar que ela é indestrutível, que é inexorável, que é inevitável. Temos a crença de que qualquer ameaça à democracia acabará, inevitavelmente, derrotada e condenada ao caixote de lixo da História. Infelizmente essa mesma História prova que esta crença não é justificada. Basta um rápido olhar para o tal caixote de lixo para lá vermos impérios, regimes e nações que se consideravam eternos e que hoje só vivem nos livros (e alguns nem isso).

Talvez por isso não demos a devida atenção à crise que a democracia atravessa no Ocidente em geral, e em Portugal em particular. Pode haver mais ou menos revolta com o regime, mas damos por adquirido que ele não cai.

A única coisa que parece realmente assustar é o chamado populismo. E assusta porque faz um discurso contra o sistema. Não se limita a denunciar os problemas, promove um novo sistema. E a simples ideia de que possa haver outro sistema, que não a democracia que conhecemos, assusta de tal maneira que chega a acontecer defender-se os males da democracia só para evitar esse papão. Basta lembrar como nas últimas eleições brasileiras vários comentadores defenderam o PT, usando como argumento que era preferível um corrupto a um populista.

O problema é que a verdadeira ameaça à democracia não é o populismo. O populismo é a reacção à crise que a nossa democracia atravessa. É a reacção à promiscuidade entre políticos, poder económico e jornalistas. É a reacção aos escândalos de corrupção e amiguismo que assombram a nossa classe política e que passam impunes. É a reacção aos partidos cada vez mais fechados sobre si mesmos, os seus esquemas de poder e os seus tachos. É a reacção a uma comunicação social pouco isenta, ao serviço do poder e de agendas ideológicas. É a reacção à economia de compadrio. É a reacção ao falhanço do Estado Social, com uma justiça lenta, um SNS a cair aos pedaços e uma Segurança Social afundada em burocracia. É a reacção a um sistema onde os políticos respondem ao directório do partido e não aos cidadãos.

É disto que o populismo se alimenta. Evidentemente que o faz muitas vezes de forma pouca honesta, empolando e descontextualizando factos para manipular a insatisfação popular. O populismo vive da revolta, e por isso tem que a alimentar.

Criar um cordão sanitário à volta dos populistas, desprezando os factos que o alimentam, catalogar de populista qualquer pessoa que alerte para a crise do regime, ridicularizar aqueles que defendem algumas das causas que os populistas tomaram de assalto, não só não resolve o problema do populismo, como só o alimenta.

Fingir que a corrupção não é um problema, ignorar os problemas de criminalidade em certos bairros, ridicularizar quem defende a Vida e a Família, insultar quem demonstra receios com a crise migratória, cerrar fileiras à volta dos aparelhos dos partidos tradicionais, mesmo quando há evidências claras de comportamento menos ético, é apenas lançar combustível para uma fogueira. Como os Estado Unidos e o Brasil demonstram claramente.

O populismo é um sintoma de um regime doente. É a febre de uma infecção. Podemos tomar paracetamol, e este até pode trazer algum alívio. Mas a doença não só não vai desaparecer, como vai provavelmente piorar, até a infecção estar tão espalhada que nenhum remédio a resolve.

Mais importante do que combater o populismo, é combater a doença que assola a nossa democracia. É combater a corrupção, aproximar os eleitos dos eleitores, é garantir uma imprensa isenta, uma justiça célere, um Estado Social que funcione, acabar com a economia de compadrio, a promiscuidade entre políticos, bancos e as grandes empresas. Ou seja, mais importante do que combater o populismo é fortalecer a democracia e garantir um sistema justo. Se formos capazes de o fazer, então o populismo irá desaparecer. Como a febre desaparece quando se acaba a infecção.

Ao contrário do que os populistas tentam vender, ainda existem muitos políticos honestos que trabalham pelo bem comum, muitos jornalistas isentos que vivem a missão de informar o público e muitos empresários que com o seu trabalho criam riqueza para o país. Esta é a sua hora. Hoje mais do que nunca é preciso apoiar e incentivar aqueles que servem realmente ares publica. Caso contrário só resta esperar até que a alternativa de voto seja nos “donos disto tudo” ou nos populistas. E aí será indiferente, porque estaremos só a assinar a certidão de óbito da democracia.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

39 ano depois é preciso honrar a memória de Sá Carneiro e Amaro da Costa




Faz hoje 39 anos que o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa de Portugal foram mortos num brutal atentado. Poucos minutos depois de descolarem a caminho de um comício no Porto o avião onde seguiram explodiu, matando todos os passageiros.

Camarate permanece como um dos maiores escândalos da nossa democracia e seguramente a maior vergonha da nossa justiça. Tudo foi feito para abafar o que era evidente: foi um atentado. Testemunhas mortas, provas roubadas, relatórios abafados, a verdade é que o poder político e o poder judicial não quiseram investigar o assassínio de um Primeiro-Ministro e de um Ministro. Isto em democracia.

Passados quase quarenta anos continuamos sem saber quem foram os assassinos, quem foram os seus mandantes, quem era o alvo ou qual o motivo deste crime. O pouco que realmente sabemos devemo-lo à coragem de alguns jornalistas, de alguns amigos e familiares das vítimas e dos poucos políticos que insistiram em sucessivas Comissões de Inquérito no Parlamento. Sobre o tema vale a pena ler o livro de Inês Serra Lopes, que corajosamente, numa altura em que ainda era perigoso investigar o assunto, publicou, onde demonstra com clareza que foi realmente um atentado.

O silêncio sobre Camarate é uma das chagas abertas da nossa democracia. E é uma das provas claras da sua fragilidade. Como ainda há pouco tempo relembrava Pedro Santana Lopes, num belíssimo artigo sobre o 25 de Novembro, a democracia em Portugal nasceu e manteve-se sobre tutela militar até à revisão Constitucional de 1982. Portugal não foi realmente uma democracia até essa data. Até 1982 o poder dependia, em última instância, dos militares de Abril, que condicionaram à sua vontade o legítimo exercício do poder democrático.

Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa eram duas das figuras mais importantes na luta por uma verdadeira democracia ocidental em Portugal, fora da tutela militar. Não sabemos, e dificilmente viremos a saber, se foi por isso que pagaram com a sua vida. Aquilo que sabemos, é que foi o regime semi-democrático saído do 25 de Novembro que impediu que lhes fosse feita justiça.

O mesmo regime que nada fez contra o Partido Comunista a 25 de Novembro depois de falhado o golpe de Estado. O mesmo regime que nunca teve coragem para reverter as nacionalizações criminosas, os saneamentos e a reforma agrária. O mesmo regime que “descolonizou” entregando à União Soviética o Ultramar. O mesmo regime que anos mais tarde havia de deixar impunes os terroristas da FP-25.

Aqueles que hoje se dizem herdeiros de Sá Carneiro e Amaro da Costa têm o dever de combater este regime. Não apenas discutir qual o seu lugar à mesa ou que migalhas do orçamento lhes toca, mas realmente combater este regime. Sá Carneiro e Amaro da Costa lutaram por uma verdadeira democracia, não por este regime dominado pelos partidos, pelas amizades maçónicas e pelos interesses da plutocracia.

Que Camarate não seja apenas uma efeméride que relembramos uma vez ao ano, mas seja um símbolo da coragem para lutar por um Portugal diferente.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O novo extremismo que ameaça a nossa democracia.



A manifestação dos polícias voltou a trazer o refrão da “ascensão” da extrema-direita. O número de André Ventura, de t-shirt e megafone em punho, aparentemente foi o suficiente para alertar jornalistas e comentadores. A tal ponto chegou a histeria que não houve jornal que não tenha feito uma reportagem sobre um suposto gesto da extrema-direita usada pelo Movimento Zero (gesto que depois se percebeu ter começado como uma graça, que gerou uma fake news, que levou alguns extremistas mais incautos a adoptarem-no, que levou ao histerismo dos media portugueses sobre um dos gestos de mão mais comuns, como a profusão de fotografias que invadiram as redes sociais comprovam).

O histerismo à volta do suposto extremismo de André Ventura é absurdo. No fundo é pouco mais do que uma narrativa que serve apenas para alarmar o povo e tentar trazer pontos à esquerda.

Contudo basta ler o programa do Chega para perceber que o partido de Ventura não é de extrema nenhuma. Tirando duas ou três medidas mais duras (mas que não incomuns noutros países democráticos), tudo espremido temos um partido liberal na economia e conservador nos costumes. Mesmo a sua reforma do sistema político não passa de um gaullismo requentado.

Depois temos o próprio André Ventura. O líder do Chega é um filho do nosso sistema que decidiu cavalgar a onda do populismo. Doutorado em Direito, funcionário público, professor universitário, comentador da Cofina, antiga estrela do PSD, a verdade é que André Ventura viveu e cresceu dentro do sistema. Não se lhe conhece qualquer actividade cívica, qualquer ligação a movimentos subversivos, nem qualquer interesse anterior pela agenda que agora defende ardorosamente (pelo contrário, só se conhece um tese de doutoramento bastante equilibrado sobre os direitos das minorias e sobre o abuso do poder judicial). 

O Chega não é um partido de extrema-direita, é um instrumento da ambição política de André Ventura. O novo deputado é um homem inteligente, um razoável orador e sobretudo um bom manipulador das massas. Tapada que estava a sua ascensão no PSD com a eleição de Rio, viu na criação de um partido populista uma boa oportunidade de chegar ao parlamento e aproveitou-a. E tem demonstrado que pode continuar a crescer, tal é a sua capacidade de se agarrar a qualquer movimento de contestação social que aí apareça. Seja a ideologia do género, seja os polícias, seja o mundo rural, de tudo se servirá para se apresentar como campeão do povo. Tudo isto enquanto vai trocando elogios e encontros com Rui Rio. O objectivo de Ventura não é mudar o sistema, mas substituir o CDS como eventual parceiro de coligações com o PSD.

Podemos discutir se um partido assim é útil ou não. Não vale é a pena berra extrema-direita só porque não gostamos do homem.

Sobretudo quando ao mesmo tempo se trata com toda a normalidade partidos anti-democráticos com assento parlamentar só porque se sentam do lado esquerdo do hemiciclo. Os comentadores que consideram uma ameaça ao Estado de Direito a posição de Ventura sobre os ciganos, são os mesmos que consideram normal o PCP continuar a louvar a revolução de Outubro ou a lamentar a queda do Muro de Berlim. Os jornalistas que chegam ao cúmulo de chamar ao 25 de Novembro um golpe militar só porque este ano o Chega decidiu festejá-lo, são os mesmos que não vêm qualquer problema no Bloco de Esquerda apoiar Maduro e Fidel Castro.

Perigo para a democracia não é André Ventura, mas partidos que abertamente atacam a liberdade educativa, a liberdade económica e até a liberdade religiosa. Perigo para a democracia são os partidos que apoiam todas as ditaduras de esquerda e apelidam de fascistas todos os governantes democraticamente eleitos de quem não gostam.

Mas sobretudo o maior perigo para a democracia, que infelizmente a maior parte dos jornalistas e comentadores teima em ignorar, é a aproximação do Partido Socialista a estes partidos.

Durante décadas mais clara do que a divisão entre direita e esquerda, era a divisão entre partidos democráticos e não democráticos. Entre os partidos que apoiavam o Ocidente, europeístas, e os partidos que apoiavam as ditaduras marxistas. Para Mário Soares nunca houve dúvidas de que lado do muro de Berlim estava. Por isso o PS governou com o PSD, com o CDS, mas nunca com o PC. Porque havia essa linha divisória, entre os que defensores da democracia e os defensores do autoritarismo marxista, que os socialistas nunca atravessaram. Isto até António Costa estar tão sedento de poder que fez o que nenhum dos seus antecessores se atreveu: aliar-se à esquerda não democrática para garantir o poder.

E agora vemos o PS refém da agenda da extrema-esquerda. Já não se trata apenas de aprovar leis fracturantes. Trata-se da imposição da agenda de género nas escolas e à sociedade, trata-se da destruição da economia, trata-se do animalismo primário. O Partido Socialista chegou ao ridículo de recusar condenar os crimes do estalinismo! Este PS já não é o de Mário Soares, de António Guterres ou de Jaime Gama. Este PS é pouco mais do um conjunto de bloquistas com mais ambição política.

A verdade é que a maior ameaça à democracia não é claramente André Ventura e o seu folclore populista. A grande ameaça à democracia é o Partido Socialista ter passado essa linha que separava os partidos democráticos dos partidos marxistas. 

Infelizmente para a nossa comunicação social, já há muito amansada e dominada pelos parente e amigos do Primeiro-Ministro, o que realmente importa não é ter um partido que partilha o poder com apoiantes de Castro e Maduro. O grave mesmo é André Ventura. Depois não se queixem.

terça-feira, 11 de junho de 2019

“Sabe, um dos maiores problemas do nosso tempo é que somos governados por pessoas que se preocupam mais com os sentimentos, do que com pensamentos e ideias”.




Numa das mais maravilhosas cenas do filme “A Dama de Ferro” um médico tenta perceber como Margaret Tatcher se sente. A Baronesa dá uma resposta longa sobre sentimentos e ideias. A certa altura diz “Sabe, um dos maiores problemas do nosso tempo é que somos governados por pessoas que se preocupam mais com os sentimentos, do que com pensamentos e ideias”.

A política é cada vez mais narrativa e comunicação e cada vez menos debate de ideias. Aos políticos parece interessar mais as sondagens, focus group e índices de popularidade do que propor um caminho para o país. Cada vez mais estudar o eleitorado à procura do tema ou soundbyte que permita ganhar votos e cada vez menos debater ideias para alcançar o bem comum.

Não é de estranhar por isso o desinteresse cada vez maior da das pessoas pela política. Se a política tem como fim adaptar o discurso e as ideias até encontrar aqueles que permitem o melhor resultado eleitoral, então de facto há poucas razões para ir às urnas.

É sempre bom que os políticos oiçam o que o povo diz, mas é ainda mais importante que tenham algo para dizer ao povo. Há poucas coisas mais ridículas na política moderna do que ver membros do governos e líderes partidário a “brincar” ao povo, com a única finalidade de passar a mensagem que ouvem a população.

É bom que os políticos andem de transportes públicos de vez em quando. Mas o que os utentes dos transportes públicos precisam mesmo não é de uma catrefada de ministros, mais a sua entourage a andar de autocarro, é mesmo que estes resolvam os problemas dos transportes públicos.

É bom ver políticos em trabalhos agrícolas. Mas o que os agricultores precisam mesmo é de uma política para a agricultura que lhes permita rentabilizar o seu trabalho.

Não é pior que algum político utilize de vez enquanto o Serviço Nacional de Saúde. Mas o que os seus utentes precisam mesmo, não é de olhar para o lado na sala de espera e dizer “estás a ver este senhor tão importante também vem aqui ao Centro de Saúde”, mas de uma política para a saúde que permite a todos acesso a bons cuidados médicos.

 Já não há paciência para o político que faz política de proximidade, arrastando consigo uma comitiva de notáveis locais mais meia dúzia de jornalistas. As pessoas não precisam de proximidade aos políticos, precisam é que eles governem.

E para governar bem é preciso ideias. Não um pragmatismo vazio, que quer resolver os “problemas reais”, que oscila entre o voluntarismo inútil e o eleitoralismo descarado. O país não precisa de resolver problemas avulso, conforme estes vão aparecendo nas televisões. Precisa de ideias de como governar de modo a termos um país mais justo.

Permito-me agora falar concretamente do CDS, partido do qual sou militante. O CDS não pode ser autista, fingir que o problema das Europeias foi Nuno Melo dizer que era de direita ou que o Vox não era de extrema-direita, ignorando que o resultado vem de encontro ao que têm sido as sondagens dos últimos tempos: sempre a descer. Fingir que o problema foi Nuno Melo e voltar ao mantra do último congresso, ditado por Adolfo Mesquita Nunes, do pragmatismo e das soluções concretas para problemas concretas é repetir a estratégia que conduziu o CDS ao seu estado actual.

É urgente daqui a Outubro não ir deixando cair medidas aqui e ali, sobre os temas que parecem mais “quentes”. É preciso apresentar uma ideia para o país e para os seus problemas. Não basta dizer que somos alternativa e depois apresentar ideias soltas. É preciso deixar claro para onde queremos caminhar.

E isso devia ser fácil, porque o CDS tem uma doutrina clara: 

- A defesa da dignidade humana de onde decorre a defesa da Vida em todas as circunstâncias, da Democracia, das liberdade individuais, a defesa da família enquanto célula base da sociedade, a rejeição de engenharias sociais promovidas pelo Estado. 
- Uma economia que respeita as liberdades individuais, sem medo da iniciativa privada, mas que tenha por fim o desenvolvimento social e não apenas o lucro. 

- Um Estado forte no combate à corrupção, ao nepotismo e à economia de compadrio que minam a nossa sociedade. Um Estado eficiente, desburocratizado, pensado do poder local para o poder central, aproximando os centros de decisão das pessoas.

- Um país aberto ao mundo, mas sem nunca esquecer a sua história e a sua cultura, sem nunca esquecer a sua ligação histórica centenária aos países lusófonos. Um país aberto, mas que não negoceia a sua história e a sua cultura em nome de um falso multiculturalismo.

A capacidade de um político mede-se pela sua capacidade aplicar as ideias em que acredita à realidade. O verdadeiro pragmatismo não é esquecer a doutrina em favor das circunstâncias, mas sim aplicar essa doutrina à realidade concreta.

Se o CDS quer crescer, não apenas nas próximas eleições, mas crescer no futuro, tem que começar já a propor com clareza aquilo que defende para o país. Parafraseando o professor Adriano Moreira, é tempo de plantar macieiras.