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sexta-feira, 9 de maio de 2025

ANTES DE TUDO, VIVA O PAPA

Que bom que é voltar a ter Papa, seja ele quem for.
Não sei mais sobre Leão XIV do que aquilo que ontem se foi dizendo nas televisões e na internet, mas estou muito feliz por voltarmos a ter um Papa. Acho imensa graça a esta necessidade moderna de tentar adivinhar todo um pontificado com base em pouco mais do que uma página da Wikipédia e alguns tweets. Felizmente, como não tenho qualquer obrigação de ocupar um espaço de comentário, abstenho-me dessa triste figura de fingir ser especialista sobre um homem de quem, até ontem, só sabia o nome.
Mas gostei muito do nome que escolheu. Gostei porque, nestes tempos tão ideologicamente marcados, a evocação de Leão XIII — o Papa que, às ideologias liberais e marxistas, opôs uma doutrina baseada na Fé — me parece muito feliz. Também hoje, recordar a dignidade humana perante ideologias desumanizantes, tanto à esquerda como à direita, é essencial. Gosto também porque, como ontem me lembrava um caro amigo, remete para São Leão Magno, o Papa que enfrentou o flagelo de Deus, Átila, o Huno, e o fez retirar-se de Itália. Também hoje os bárbaros, vindos de várias origens, estão às portas de Roma, e esperamos que Leão XIV tenha o mesmo sucesso que o seu santo predecessor.
Gostei muito também das palavras do Santo Padre. A forma clara como anunciou Cristo Ressuscitado como fonte da verdadeira paz, a devoção que demonstrou a Nossa Senhora, o apelo claro à paz e à missão. Depois destes dias de Sede Vacante, foi um conforto para o coração voltar a ouvir Pedro.
Amei o Papa assim que saiu fumo branco, mesmo antes de saber quem era. Como ensinava São João Bosco aos seus alunos: gritamos "viva o Papa", seja quem for o Papa. Mas o que vi e ouvi da varanda de São Pedro confortou-me e animou-me.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Na morte do Papa Francisco



Morreu o Papa Francisco. Não tenho jeito, nem a pretensão, de fazer qualquer análise sobre o seu pontificado, para esse peditório já há gente a mais. Alguns bem informados e capazes, muitos que se ficarão pela rama e dirão disparates. Não me parece que tenha capacidade para fazer partes dos primeiros, por isso evito-me juntar aos segundos.

Mas impressiona-me muito que o Santo Padre, após o sofrimento que passou nesta Quaresma, morra na Segunda-Feira de Páscoa. À cabeça vem-me a frase de Nosso Senhor, «Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de morrer.» (Lc., 21, 15). Com a sua doença e morte, de forma misteriosa, o Papa Francisco associou-se à Páscoa.

Guarda com comoção a chegada do Papa Francisco à nunciatura em Lisboa, no dia em que aterrou em Portugal. Lembro-me como, apesar do evidente cansaço, veio até junto daqueles que lá estávamos, para saudar e abençoar.

Agora segue-se um tempo misterioso, onde a Sé de Pedro está vazia. Muitos irão falar do Papa Francisco, mas falarão mais da sua ideia do Santo Padre, do que realmente do seu pontificado. Não irão faltar as análises, as intrigas sobre quem deverá ser o próximo Papa, com análises profundas, questões políticas, apostas. Tudo na ânsia de tentar descobrir aquilo que só o Espírito Santo conhece.

Peço para mim a graça de não cair nessa tentação. Sobre o Papa Francisco, peço ao Bom Deus que o receba na Sua Glória. Sobre o próximo Papa, rezo para que os senhores cardeais abram o seu coração ao Espírito Santo e escolham para a Cátedra Pedro quem o Senhor deseja.

Rezo sobretudo para que o Bom Deus me livre de ter opiniões sobre quem deve ser o próximo Papa. Para não esperar um pastor à minha medida, que caiba nas minhas limitações, na minha visão do mundo e da Igreja. Rezo para que Deus, mande à Sua Igreja o pastor que Ele deseja, e que a mim conceda a abertura de coração de amar o Papa, seja ele quem for.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

JMJ: afinal até sai barato!

 



Saiu mais uma notícia sobre os custos da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, desta vez sobre o preço do palco onde irá estar o altar na vigília de encerramento do evento. O artigo, mais escrito com o objectivo de ter cliques do que interesse jornalístico, compara estes custos com os do altar da visita do Papa Bento XVI em 2010.
Claro que a comparação é disparata e desonesta: em 2010 construiu-se um altar para uma única missa que depois foi posteriormente desmontado. Nas Jornadas está a construir-se uma estrutura fixa, um equipamento que poderá ser posteriormente utilizado para mega eventos ao ar-livre.
Infelizmente não é a primeira, nem será a última notícia, sobre o tema escrita de forma pouco informada e sensacionalista. Por isso escrevo uns pontos para esclarecer qualquer pessoa de boa vontade (aos outros os factos são indiferentes):
1. O que vai acontecer em Agosto não é a “visita” do Papa, mas a Jornada Mundial da Juventude. A JMJ é um dos maiores eventos do mundo e incomparável a qualquer outro evento que Lisboa tenha acolhido. Estamos a falar de 1 a 1.5 milhões de jovens que durante uma semana irão estar em Lisboa. Aos jovens, juntam-se milhares de bispos de todo o mundo, padres, jornalistas, etc. Não é por acaso que os hotéis de Lisboa e arredores estão todos esgotados para essa semana há meses. Vamos ter mais de um milhão de pessoas a dormir, a comer, a percorrer, a consumir em Lisboa.
2. Para além dos peregrinos que vão acorrer de todo o mundo a Lisboa, o evento irá ser acompanhado pelos media em todo o mundo. São centenas de milhões de católicos de olhos posto em Lisboa através da televisão, da rádio, das redes sociais, de streaming. Este evento garante que durante uma semana Lisboa é a cidade que todos os católicos do mundo vão ver.
3. Tanto quanto é publico a Jornada Mundial da Juventude terá um custo daté 80 milhões de euros. Uma parte desse custo será suportado pelo Estado, pela Câmara Municipal de Lisboa e ainda pela Câmara de Loures. O que leva a que se pergunte muitas vezes, porque é um Estado laico patrocina um encontro religioso? A resposta é simples, e nada tem a ver com boa vontade.
4. Parte dos custos que o poder púbico irá ter é o normal quando se recebe uma multidão de centenas de milhares de pessoas: reforço do policiamento, reforço dos transportes, reforço das equipas de emergência, etc. Para além disso existe o custo com o local central das Jornadas: o Parque Tejo, onde terrenos baldios e pantanosos ser irão transformar num parque junto ao Tejo, para ser utilizado por todos os cidadãos e equipado para receber mega eventos, como disse acima.
5. Até aqui temos, por um lado investimento naquilo que são as funções do Estado, por outro em equipamentos que vão ser para uso público. Mas claro que o investimento público neste evento supera estas questões. Mas mais uma vez, a razão para ser feito não é para fazer favores à Igreja.
6. O milhão e meio de pessoas que irão estar nessa semana em Lisboa irão gastar dinheiro na dormida (mesmo ficando muito locais cedidos gratuitamente), vão ter que comer e beber, vão gastar dinheiro em recordações, ou sejam, vão consumir em Lisboa e na região durante uma semana. Entre o que é injectado directamente na economia e o que é arrebatado em impostos, é fácil verificar que o investimento feito pelo erário público nas JMJ será recuperado várias vezes. Aliás, segundo o calculo do Governo o evento vai ter um retorno de 350 milhões de euros para Portugal.
7. A somar-se ao é valor que um e milhão e meio de pessoas a consumir trás (os tais 350 milhões de euros), temos ainda o valor publicitário de albergar um evento que será transmitido para todo o mundo. Basta pensar que ao organizar um evento católico a nível mundial estamos a falar de um “mercado” de mil e trezentos milhões de pessoas, espalhados pelos quatro cantos da terra. Imaginemos qual não é o valor publicitário para Lisboa de ser palco de um evento que durante uma semana é transmitido em todos os formatos para um mercado deste tamanho!
8. Por isso podem parar com o disparate de como o Estado laico vai gastar dinheiro para ajudar a viagem do Papa. As Jornadas Mundiais são um evento gigantesco, com repercussão a nível mundial. O que o Estado está a fazer é bastante simples e razoável: investir para que este evento seja um sucesso, de forma a ter o maior retorno possível. Não é um favor, é mesmo aproveitar uma oportunidade única

quarta-feira, 10 de março de 2021

O Papa no Iraque: Servo dos Servos de Deus


Foi comovente ver o espanto de José Manuel Fernandes com a visita do Papa ao Iraque. Penso ter sido o único jornalista não religioso que deu atenção à visita papal. Num podcast no Observador pergunta o publisher se será Francisco o único líder mundial corajoso.

É compreensível o espanto, é o mesmo de há dois mil anos. O espanto da cruz que é loucura para os gentios. É que o Papa Francisco não é apenas um líder mundial, nem sobretudo isso. O Papa é o sucessor de Pedro, daquele primeiro Pedro que regressou a Roma para ser morto junto do seu rebanho.

Este homem de 84 anos, que visitou um país devastado pela guerra, é Sumo Pontifice,  Principe dos Apóstolos, bispo de Roma, Patriarca do Ocidente, mas sobretudo é Vigário de Cristo e Servo dos Servos de Deus. Francisco é servo das freiras que na Birmânia se colocam à frente do exército, dos sacerdotes que recebem nas suas Igrejas os dissidentes venezuelanos, dos missionários perseguidos por toda a África e próximo Oriente, das freiras e sacerdotes de Aleppo, dos religiosos que morreram em Itália infectados pela Covid-19 por continuarem a cuidar dos mais pobres, é servo de todos os cristãos que por todo o mundo são perseguidos por amarem a Deus.

E é por isso que o Papa foi ao Iraque. Porque o seu ministério não é o poder, mas o serviço, o serviço a Cristo, como servo do Povo de Deus. O Santo Padre celebra entre as pedras de Igrejas destruídas, porque celebra para as pedras vivas do Templo de Deus, que é o seu povo. Porque Ele é a pedra sobre a qual Cristo ergue a sua Igreja.

Francisco não é um líder de facção, nem um actor do xadrez geopolítico, é o Doce Cristo na Terra. E assim foi ao encontro do povo mártir do Iraque. Daqueles cristãos que sofreram os horrores da guerra e da perseguição. Foi ao encontro dos mais pobres e mais esquecidos, porque Deus não os esquece.   

É de facto espantoso ver um homem tão livre como o Papa. Livre porque totalmente preso aquela resposta de Pedro há dois mil anos: “Senhor, tu bem sabes que te amo”. Não estamos de facto habituados a ver esta liberdade.

Aquilo que o Papa fez nenhum líder mundial, por muito poderoso que seja, podia fazer. Porque esses líderes só têm exércitos, drones, tecnologia. O Papa tem um mandato divino: “Então apascenta o meu rebanho”. Os poderosos só têm a chave deste mundo, mas o Papa tem as chaves do próximo.

Foi de facto comovente ver a visita do Papa ao Iraque. Sobretudo neste tempo, como diz José Manuel Fernandes, de cobardia. Mas é bom não ficarmos pelo espanto diante desta coragem, como se fosse apenas um acto de um grande líder que quer dar um exemplo. A visita do Papa ao Iraque é muito mais do que isso, é um testemunho daquilo que os Cristãos são chamados a ser: presença de Cristo no mundo.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Os Papas de Meirelles





Não vi, nem tenciono ver o filme “Os dois Papas”. Já sei que é um filme bem realizado, com fotografia óptima, com boas representações. Acredito que seja uma obra de arte. Porém não me suscita qualquer interesse.

A resignação de Bento XVI é um dos momentos mais extraordinários dos nossos dias. Não apenas pela sua novidade, mas pelo que representa neste tempo onde o sucesso é tudo, um Papa resignar no auge da sua popularidade. Relembro aos mais esquecidos, que gostam de reescrever a história, que quando resignou Bento XVI estava no momento áureo do seu pontificado. Tinha arrumado a casa na questão dos abusos sexuais, as suas visitas pastorais eram um sucesso cada vez maior, era uma voz cada vez mais respeitada no mundo da cultura e da política, a sua pequena reforma litúrgica tinha cada vez mais apoiantes, tinha estabelecido com sucesso diálogo com ortodoxos e com os anglicanos e era o ano das Jornadas Mundiais da Juventude no Brasil, que tudo apontava virem a ser apoteóticas. Foi neste contexto que Bento XVI resignou. 

Para além disso Bento XVI e Francisco são dois homens extraordinários, com vida preenchidas, com trabalhos notáveis. Bento XVI é comummente reconhecido como um dos maiores intelectuais do seu tempo. 

Um filme é sempre uma história que o realizador quer contar. E evidentemente que para o fazer, mesmo sobre factos reais, tem sempre que adaptar para que a Obra tenha interesse, senão seria um documentário. Mas há uma diferença entre contar a história do que realmente aconteceu e contar a história como se acha que aconteceu ou devia ter acontecido. É a diferença entre estar aberto à grandeza da realidade ou querer sermos nós a ditar a realidade. 

Infelizmente o realizador do filme não tem interesse em contar o que aconteceu, mas em contar a sua opinião. Por isso temos dois Papas que são do tamanho do realizador. O que resulta numa caricatura de Bento XVI e de Francisco. Segundo as críticas, lá estão todos os clichés que habitualmente se atribuem aos dois Papas. Não há qualquer abertura à realidade dos dois pontificado, apenas o preconceito de quem julga conhecer. 

Nada disto me choca ou escandaliza. Nem sequer tenho qualquer má vontade contra quem Fernando Meirelles. Acredito que fez o melhor que sabe sem qualquer má intenção. Mas se sabe muito de cinema, sabe pouco sobre Bento XVI e Francisco. 

Por isso, diante de tão grandes figuras, com tanto para ler sobre eles e para além disso com tantos outros filmes para ver, não tenciono perder o meu tempo a ver dois Papas do tamanho de Fernando Meirelles. Até podem ser interessantes, mas este é um dos casos onde a vida supera largamente a arte. 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Frei Bento Domingues: Honni soit qui mal y pense.






Conta a lenda que Eduardo III de Inglaterra, durante um baile em que dançava com uma das suas noras a quem caiu uma liga, apanhou a do chão, colocou-a na sua perna e, perante o coro de maledicência que se tinha formado, afirmou “Honni soit qui mal y pense” ou seja, “tenha vergonha que vê mal nisto”. De seguida afirmou que aquela liga ainda haveria de ser desejada por muitos. Assim nasceu a Ordem da Jarreteira, a mais antiga e prestigiada ordem de cavalaria inglesa.

Lembrei-me desta história ao tomar conhecimento de um artigo escrito por frei Bento Domingues no jornal Público. Para algum leitor mais distraído, que ainda não tenha tomado conhecimento de quem é o autor em questão, fica uma breve explicação:

Frei Bento é um frade Dominicano que deve a sua fama ao facto de, há décadas a esta parte, atacar a Igreja em qualquer palco que lhe concedam. Munido de uma enorme capacidade de debitar fórmulas vazias que tanto agradam ao mundo, frei Bento dedica-se a tentar reduzir a Igreja ao seu olhar mundano e limitado.

A fama deste frade vem, não da sua santidade ou inteligência, mas simplesmente porque é o critico de serviço. Sempre que há algum tema relacionado com a Igreja, lá estará frei Bento pronto para o ataque. Para ele o critério nunca é a Fé da Igreja, que é a Fé em Jesus, mas sempre e apenas a sua cabeça, que aparentemente se ficou por 68.

Esta semana decidiu então este senhor escrever um artigo a armar intriga contra o Papa emérito. No dito artigo, para além de debitar mentiras e insultos a Bento XVI, frei Bento “escandaliza-se” (ele que não se escandaliza com a morte de uma criança no ventre materno…) porque o Papa emérito não só escreveu o prefácio de um livro do Cardeal Sarah, perfeito para a Congregação do Culto, nomeado há dois anos pelo Papa Francisco, como ainda por cima o elogia e agradece ao Papa por o ter nomeado.

Daqui, frei Bento, imerso nos seus esquemas mundanos de lutas de poder, retira toda uma intriga digna de uma dessas modernas e tontas séries de politica.

Claro que para o dominicano, que vê as coisas não pelos olhos da fé mas com os olhos da sua própria mesquinhez, o Papa Bento XVI estaria a fazer o que ele faria se estivesse na sua posição (claro que frei Bento nunca estaria na posição do Papa emérito, porque jamais teria largado o poder de forma humilde e voluntária).

O problema é que o Papa Bento XVI, assim como o Papa Francisco, não se movem pelos critérios de frei Bento, que são os critérios do mundo, mas pelo amor a Cristo e à Igreja. E isso, o frade comentador nunca seria capaz de compreender.

A vergonha não está seguramente no Papa emérito, que é mais fiel ao Papa Francisco do que frei Bento alguma vez será. A vergonha está neste mísero frade, incapaz de olhar para a realidade sem ser com a mesquinhez que lhe tolda o juízo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

VIVA O PAPA!


A minha primeira reacção à decisão do Santo Padre de resignar foi de choque. Fiquei completamente atordoado, sem conseguir compreender o alcance daquilo que estava a acontecer. De algum modo, no meu egoísmo e no meu mimo, senti-me abandonado.
Sabia que existia a possibilidade, em abstracto, do Papa resignar. O Código de Direito Canónico, no Cân. 332 §2 prevê essa hipótese. O próprio Papa Bento XVI no livro Luz do Mundo tinha dito que poderia resignar um dia. Mesmo assim, não estava à espera que o Santo Padre o fizesse agora.
Aparentemente esta seria a altura menos expectável. Parecia que o Sumo Pontífice ia finalmente ter alguma paz. Este ano adivinhava-se como um ano de sucesso. Era o ano da Encíclica sobre a Fé, o ano da Jornadas no Rio de Janeiro, o ano dos festejos do 50º aniversário do Concílio. Parecia que este ia ser o ano da aclamação total do Papa.
Para além disso, por muito que tentemos, é impossível não nos lembrarmos dos últimos anos do pontificado de João Paulo II. De como o antecessor de Bento XVI se ofereceu a Deus diante de todos nós.
Mas olhando para este acontecimento com os olhos da fé percebo que (como eu aliás já desconfiava) o problema está todo em mim. Porque o meu primeiro juízo parte de sentimentos e de cálculos e não da fé.
Antes de tudo, antes de qualquer explicação ou argumento, existe em mim esta simples e racional certeza: o Santo Padre Bento XVI ama mais a Igreja que eu, é mais santo do que e mais inteligente do que eu. Demonstrou durante todo o seu pontificado a coragem de nunca fugir diante da adversidade e a humildade de Servo dos Servos de Deus. Por isso se decidiu resignar, mesmo que eu não compreenda, fá-lo por amor a Cristo e à Sua Igreja e não por uma resignação ou um comodismo. Por isso este acontecimento é um bem. Isto sei eu, mesmo que não conheça mais nenhum facto.
Para além disso, a verdade é que a circunstância de Bento XVI é diferente da de João Paulo II. Um foi eleito com pouco mais de cinquenta anos o outro com setenta e oito. Um era um desportista pujante o outro um homem frágil. João Paulo II recusou resignar diante da humilhação e da doença, porque percebia a importância do seu testemunho no sofrimento. Bento XVI resigna porque sabe que o trabalho que é pedido ao Papa é superior às suas forças. Respostas diferentes a circunstâncias diferentes, mas um mesmo critério: o amor total a Cristo e à Igreja.
Aliás o Pontificado destes dois Papas tão diferentes está intimamente ligado: Bento XVI completou o trabalho de João Paulo II. O Papa polaco atraiu as multidões e o seu sucessor confirmou-as na fé.
Não digo que compreenda totalmente a decisão do Papa, nem sequer que goste desta decisão. Bento XVI é um grande Papa e o seu pontificado é uma graça extraordinária para toda a Igreja e para mim muito concretamente. Foi durante este pontificado que passei de adolescente a adulto. A pessoa do Santo Padre, as suas palavras e os seus actos marcaram o amadurecimento da minha fé.
Mas esta é a grande a alegria de seguir. Não preciso de perceber tudo, não preciso de gostar de tudo. Porque aquilo que experimentei dá-me a certeza absoluta que a decisão do Papa é boa.
Nos próximos dias vai ser muita a confusão. Por um lado as intrigas e os disparates sobre as razões que levaram a esta decisão. Por outro o carrossel dos candidatos a Papa que irão florescer como ervas daninhas. No próximo mês iremos ouvir desfiar um rol de perfis que o próximo Papa terá que ter e descrições de cardeais que encaixam nesses perfis. Uma tarefa vã. Basta relembrar que em 2005 os media todos diziam que Papa ia ser africano, de um país pobre, progressista e jovem. Em vez disso foi eleito um cardeal velho, europeu, conservador do país mais rico da Europa.
Por isso o que é preciso antes de mais é serenidade. A agenda do Espírito Santo não é marcada pelos media nem pelo facebook. É Ele quem governa a Igreja, por isso podemos estar totalmente descansados.
Depois é preciso rezar. Rezar a agradecer o extraordinário pontificado de Bento XVI. Rezar pela Igreja para que cresça no amor ao Papa. Rezar pelos cardeais para que se deixem guiar pelo Espírito no conclave.
Acabo este post como acabei este dia: cheio de gratidão a Deus pelo pontificado de Bento XVI. Desde o primeiro minuto do seu pontificado foi possível ver a promessa de Jesus a Pedro: “Tu és Pedro, sobre esta pedra erguerei a minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela”. Cheio de gratidão a Bento XVI pela sua enormíssima paternidade: Viva o Papa!