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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

No enterro de Mário Soares onde andava o Povo?



Na morte de Mário Soares muitas coisas haveria a dizer. Antes de mais como é impressionante que diante da morte haja sempre a necessidade ou de "endeusar" ou de "demonizar". Não existe, aparentemente, a opção intermédia de olhar para aquele que morreu como aquilo que foi: um homem, com qualidade e defeitos, virtudes e pecados, pelos quais agora responde.

Outra das coisas que me impressionou muitíssimo na morte do Dr. Soares foi voltar perceber como, mesmo passado mais de quarente anos, não é possível falar com tranquilidade e distanciamento sobre o 25 de Abril e os anos que se lhe seguiram. Mais uma vez, ou se está de um lado ou do outro. Como se a história não fosse complexa e não fosse possível ser da democracia mas contra o modo com esta foi implementada. Ou a favor da descolonização, mas contra descolonização como esta foi feita.

Também me impressionou a memória curta de muitos dos notáveis que falaram e escreveram sobre o antigo Presidente. Aparentemente a democracia em Portugal teve um único pai! Mas a verdade é que, não desprezando o enorme contributo de Mário Soares, que com coragem enfrentou várias vezes a esquerda radical, é preciso não esquecer tantos outros que também lutaram, alguns ao lado dele, para que Portugal fosse livre e democrático. Antes de mais é preciso não esquecer Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, dois dos mártires da democracia no nosso país. Mas sobretudo todo o povo que com coragem lutou, sobretudo a norte do Tejo, para que Portugal não fosse comunista. Esse povo não era de Mário Soares: eram trabalhadores, pequenos proprietários, pequenos empresários, agricultores, gente cristã que bem sabia que não queria o comunismo em Portugal. A todos esses, e não apenas ao Dr. Soares, devemos a democracia.

Contudo, aquilo que realmente me impressionou na morte do Dr. Mário Soares foi a ausência do povo. O Estado, os senadores do regime, os políticos, os notáveis, os escribas, os artistas, os desportistas, todo e qualquer um que se ache importante neste país, estiveram presentes nas exéquias de Mário Soares. O Governo declarou três dias de luto nacional, preparou um funeral de Estado com pompa e circunstância. Veio a GNR a cavalo, a charrete, tirou-se o pó a algumas bugigangas da monarquia para adornar o evento. Vieram as forças armadas, a força área fez voar os seus jactos. E contudo o povo permaneceu serenamente ausente. Apesar dos apelos do Governo, apesar das campanhas televisivas, apesar de todas as explicações pormenorizadas sobre as cerimónias fúnebres, o seu horário e trajecto, o povo não veio.

O mesmo povo que em dia de semana recebeu em euforia os campões nacionais. O mesmo povo que acorreu em massa a homenagear Eusébio. O povo que saiu à rua para chorar Amália. O povo que enche o Rock in Rio e os concertos do Tony Carreira. Esse mesmo povo foi trabalhar, ou ficou nas suas casas.

Sobre este facto cada um é livre para fazer as teorias que quiser. Pode-se dizer que era dia de semana, embora também a chegada dos campeões europeus tenha sido a um dia de semana. Ou então que o povo não gosta de enterros, mas a verdade é que os de Eusébio e Amália estiveram cheios. Ou mesmo que foi por questões partidárias, mas é preciso lembrar que todos os partidos, uns mais convictos que outros, homenagearam o Dr. Soares. Pode-se até dizer que o povo não gostava do "Bochechas", embora fosse uma figura que sempre suscitou simpatia junto do público.

Para mim a razão pela qual o povo faltou ao luto decretado pelo Estado foi precisamente por ter sido o Estado a decretar o luto. O problema não é o Dr. Soares, mas o facto de o povo não ter interesse no que a elite diz. A ausência do povo é, para mim, sinal do enorme divórcio que existe entre o poder e o povo.

O povo adere ao que é seu, ao que sente seu. Por isso vai à rua receber a selecção, por isso vai à rua chorar Eusébio e Amália. Mas o Pai da Democracia, desta democracia e desta política em que já não acredita, para isso não vai. Mais depressa se teria enchido as ruas para chorar o "Bochechas", que montava tartarugas, do que o herói desta República ao qual o povo não liga.

Infelizmente, as nossa elites parecem querer à viva força ignorar este divórcio. Preferem não reparar que o mesmo povo que há quarenta anos acompanhou Soares à Fonte Luminosa, se recusou a acompanha-lo à sua última morada e só volta a Alameda para receber a Selecção.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Pedro Aguiar Pinto - Pai do "Povo".





O Senhor decidiu chamar a Si o Pedro Aguiar Pinto. Esta notícia apanhou-me de choque hoje de manhã. E num momento destes só de facto a Fé nos insondáveis, mas porém misericordiosos desígnios do Bom Deus nos pode valer. Porque de resto é incompreensível que alguém que tanta falta faz possa assim ser arrebatado do meio de nós, deste modo tão inesperado.

Desde de pequeno que tenho memória do Pedro. Da sua serenidade, da sua simpatia, da sua paciência, do seu interesse pelas pessoas. Não tenho ideia de alguma vez o ter visto irritado ou zangado. Muito pelo contrário, a imagem que sempre tive foi de um homem feliz. E para um homem que viveu o que ele viveu, isto já seria suficiente elogio. Porque só alguém com uma grande fé pode estar diante do drama da vida, e sobretudo diante dos dramas concretos da vida do Pedro, sem ficar amargurado. A sua serenidade e felicidade já eram, por si só, testemunho da sua santidade. Só por isso já valia a pena conhecê-lo.

Mas o Pedro foi muito mais do que um homem alegre. Era um homem apaixonado pela vida. Um homem a quem tudo interessava. Que não estava acomodado na sua importância de professor universitário consagrado, mas que continuamente se entregava ao serviço dos outros.

O Povo é disso o sinal mais público e claro. A fidelidade com que durante anos e anos, de forma absolutamente gratuita, se entregou à missão de ajudar milhares de pessoas a formar um juízo verdadeiramente cristão sobre a realidade deu frutos abundantes, visíveis já aqui na terra, mas cuja a totalidade só veremos no céu.

O Pedro fará muita falta. Antes de mais à família que tanto amou. Depois aos seus muitos amigos, para quem sempre foi uma presença fiel e um testemunho claro de fé. Mas fará muito falta ao Povo de Deus, que ele ajudou a edificar na Fé com a sua vida e a sua obra. Conforta-me saber que na presença de Deus, reunido na plenitude com aqueles que amou e que partiram antes dele, intercederá por todo o Povo de quem foi pai.