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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O CDS e o futuro: haja coragem!





O resultado das legislativas foi desastroso para o CDS. Infelizmente, foi um desastre anunciado, aconteceu apesar de todos os avisos de que o caminho que estava a ser percorrido não tinha bom fim.

No congresso de Lamego, a palavra de ordem foi o famoso pragmatismo. Desde então o CDS furtou-se a qualquer debate público de ideias e agarrou-se à fórmula de que era preciso apenas discutir “os problemas concretos das pessoas”. Apesar dos sinais das europeias, apesar do panorama europeu e mundial, onde era claro que, de facto, as pessoas queriam ideias e ideais, a direcção do partido decidiu manter a sua estratégia. A procura de um novo eleitorado que permitisse conquistar o centro-direita ditou que o partido guardasse as suas bandeiras (e defendeu tantas, corajosamente, no parlamento) e se limitasse a falar dos temas do dia-a-dia. O resultado da estratégia está à vista: não se ganhou nenhum novo eleitorado e o antigo está a esvair-se.

É evidente que Assunção Cristas tem responsabilidade nesta estratégia. E a ainda presidente do CDS assumiu-as com  dignidade na noite eleitoral. Mas não deixa de ser verdade que há outra cara desta linha, o primeiro a proclamar a necessidade do pragmatismo, autor do programa eleitoral e claramente um dos grandes estrategas da direcção: Adolfo Mesquita Nunes. A derrota de ontem é do CDS, é de Assunção Cristas, mas é também do seu principal ideólogo.

É impossível não reconhecer a capacidade política de Adolfo Mesquita Nunes. Um bom orador, um bom tribuno, responsável durante a crise por uma das pastas que mais alavancou a economia portuguesa. Mas nada disto pode afastar a evidência de que a sua estratégia conduziu o partido à pior votação de sempre.

Não basta por isso simplesmente mudar o líder do partido: é preciso claramente mudar o rumo. Nada seria pior do que trocar Assunção Cristas por um líder que vá simplesmente continuar a estratégia de, em nome do pragmatismo, diluir aquela que é matriz do partido: a democracia cristã.

É por isso preciso um novo rumo. Evidentemente, o tempo não volta para trás nem se repete. O trabalho que espera o CDS não é o de repetir fórmulas passadas. O que é preciso é retomar o ímpeto fundador do partido e trazê-lo para os nossos dias.

É preciso voltar a afirmar hoje com clareza o primado da dignidade da Vida Humana, em todas as circunstâncias, desde a concepção até à morte natural. E como consequência dessa dignidade o respeito pelas liberdades individuais: a liberdade de educação, a liberdade religiosa e política, a liberdade económica.

Mas também no respeito pela dignidade humana é preciso defender um Estado Social cooperativo, não centralista. Um Estado que serve as pessoas e que é garante do respeito pela sua dignidade. O CDS, como partido democrata-cristão, tem que ser o partido dos trabalhadores, dos pequenos e médios empresários, dos agricultores, das famílias. O partido que defende os mais fracos e indefesos. Não somos nem podemos ser um partido liberal, que coloca a liberdade acima da dignidade Humana.

Por fim, um Estado que se concebe como instrumento de uma sociedade, é um Estado que respeita a história, as tradições e a cultura da sociedade. Não se trata de um saudosismo bafiento, mas de um respeito por aquilo que nos une enquanto portugueses. Em nome de uma qualquer ideologia de vanguarda não podemos rasgar 900 anos de história.

Muitos dirão que isto é conversa que não interessa a ninguém, que as pessoas só querem saber de coisas concretas. Mas a verdade é que temos assistido cada vez mais à ascensão dos partidos que se apresentam com ideais (do PAN à IL) e que o pragmatismo deu 4% nas urnas.

O futuro não parece risonho para aqueles que acreditam numa política baseada na dignidade da Pessoa Humana. Num Estado ao serviço das pessoas e não da ideologia. Para as pessoas que desejam políticos ao serviço do ideal e não do resultado eleitoral. Mas a hora não é de cobardias nem de tibiezas. Nos próximos anos não se jogará apenas a sobrevivência do CDS, mas do regime democrático que está cada vez mais enlameado, cada vez mais afastado das pessoas, cada vez mais fragilizado.

O CDS, tal como há 40 anos, quando cercado no Palácio de Cristal e ameaçado pelos que não suportavam um partido de homens livres, tem que voltar a ser o partido do humanismo cristão, que se ergue contra a tirania do marxismo e o pântano do centrão. Haja coragem.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Votar é preciso!





1. Em Portugal assiste-se a um desencanto cada vez maior com a política. São cada vez menos os que votam e os que votam fazem-nos de maneira cada vez mais desanimadas. Há muitas razões para que isto aconteça. A política parece cada vez mais distante da vida diária das pessoas, cada vez mais embrenhada em trincheiras partidárias. Os escândalos de corrupção e de abuso de poder parecem não acabar. Os políticos falam uma linguagem que só eles parecem entender, mais pensada para os comentadores e os outros políticos, do que para os cidadãos.

Contudo as razões que levam tantos a uma posição cínica diante da política, não são exclusivas da política. São fruto de uma sociedade cada vez mais distante da realidade, de uma humanidade cada vez mais desinteressada pela sua própria vida, pela dos seus filhos, pela dos seus amigos. A política é aquilo que a sociedade dela faz.

Temos a política que temos porque a maior parte de nós não se empenha nela. Para que a política mude é preciso o empenho de quem a quer mudar. E neste momento esse empenho significa dia 6 de Outubro ir votar.

2. A política vive da tensão entre o ideal e o real. Nós empenhamo-nos na política para servir o ideal. Contudo o ideal serve-se na realidade concreta. E a realidade nunca é como nós queremos, nunca é a melhor, é o que é.

Se só nos empenhamos na política quando estão reunidas todas as condições para se construir o que consideramos melhor, então nunca o faremos. Ficaremos encerrados na nossa trincheira, cheios de razão e superioridade moral, mas sem realmente construir nada.

Dia 6 de Outubro não somos chamados a votar nos candidatos perfeitos, com ideias justas e vidas privadas impolutas. Somos chamados a votar em quem aparece no boletim de voto. E o nosso trabalho é ajuizar como é que nosso voto pode ajudar a construir o bem comum.

Votar é escolher entre as possibilidades que existem, não entre as que nós queremos. Se nos refugiamos na nossa exigência moralista de candidatos perfeitos o único resultado será não termos qualquer voz na construção da nossa sociedade.

3. Estas eleições são dramáticas. Infelizmente, como tem vindo a ser habitual, muitas das questões essenciais têm ficado longe da campanha. Dia 6 de Outubro está em jogo:

- A possibilidade de aprovação da eutanásia, do alargamento dos prazos legais do aborto, do regresso das barrigas de aluguer;

- A ameaça à liberdade de educarmos os nossos filhos: mais ideologia de género nas escolas, mais perseguição às escolas não estatais, menos possibilidade de escolher a escola, mais centralismo do Ministério da Educação;

- Um Estado cada vez mais poderoso e centralizador, que chama a si todos os aspectos da vida social, desde a saúde à economia, passando pelo apoio social, reduzindo assim a possibilidade intervenção pessoal e das comunidade;

- A continuação da impunidade para os casos de corrupção e de abuso de poder.

4. Está nas mãos de cada um de nós tomar posição sobre estes temas. Cabe a cada um de nós escolher se queremos um Estado que respeita a dignidade humana, a sua liberdade, a sua consciência. O tempo é grave por isso não farei qualquer apelo partidário. Apenas apelo para que todos em consciência não fiquem na indiferença perante as eleições. Dia 6 é dia de escolher: dá trabalho,  mas a alternativa é deixar outros escolherem por nós.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

António Costa: o grande ilusionista - Observador, 02/10/19



As pessoas ouviram António Costa e acreditaram que tinham mais dinheiro e mais tempo, quando na prática estão mais pobres e demoram mais tempo a fazer o quer que
Ainda me lembro quando José Sócrates, regressado do seu exílio parisiense, fez o seu reaparecimento na televisão. Muito me ri com a expressão “narrativa de direita” com que o antigo primeiro-ministro se referia à profunda crise em que tinha deixado o país. Mal sabia eu o que nos esperava.
Se a expressão “narrativa” na boca de José Sócrates parecia uma piada de mau gosto, a verdade é que com António Costa se tornou num programa de governo. O primeiro-ministro, mais do que governar, narra uma história que só existe na publicidade do Partido Socialista. Confesso que gostaria bastante de viver no país que habitualmente Costa descreve. Infelizmente vivo no país que ele supostamente governa. Qualquer semelhança entre os dois é pura coincidência.
O país da narrativa socialista virou a página da austeridade, tem um Serviço de Saúde que funciona, os transportes são uma maravilha e a economia nunca esteve mais sólida. O país real vive com a maior carga fiscal da democracia, um SNS onde pacientes morrem à espera de fazer exames, uma rede de transportes com supressões diárias e uma economia pouco mais que estagnada.
Muitas vezes nos últimos anos temos ouvido descrever António Costa como um grande político. Não consigo perceber porquê. Um grande político é um grande orador, como Francisco Louçã ou Paulo Portas; um grande ideólogo, como Álvaro Cunhal; alguém capaz de ganhar eleições, como Cavaco Silva; uma pessoa corajosa diante das ameaças, como Mário Soares; um governante capaz de sacrificar os votos pelo bem do país, como Passos Coelho. António Costa é um péssimo orador, a única ideologia que lhe é conhecida é a que lhe abrir a porta do poder, não conseguiu ganhar as eleições legislativas, desaparece sempre que acontece algum problema no país e tem passado os últimos quatro anos a sacrificar o país em nome dos votos.
Se com isto quero dizer que António Costa não tem qualidades? Não, é evidente que tem. De facto, conseguiu perder eleições e mesmo assim governar, levou até ao fim a legislatura com o apoio de dois partidos que sempre desprezou e, apesar do estado lastimável do país, continua a liderar as sondagens. Se o primeiro-ministro não é um grande político, não deixa de ser um extraordinário ilusionista, talvez um dos melhores do mundo.
Luís de Matos conseguiu que todo o país acreditasse que ele conseguia acertar nos números do totoloto. Contudo António Costa conseguiu convencer boa parte do país que a austeridade tinha passado! David Copperfield atravessou, em directo para o mundo, a grande muralha da China. Mas António Costa conseguiu destruir o Serviço Nacional de Saúde com o apoio total da esquerda. Se Costa não tem qualidades para competir com os grande políticos, tem sem dúvidas qualidades suficientes para se comparar aos grandes ilusionista da actualidade!
De facto os últimos quatro anos foram um enorme número de magia. Por um lado, António Costa distraiu o público com aumentos do salário mínimo e das reformas, a diminuição dos horários da função pública, a diminuição do preço dos passes. Ao mesmo tempo aumentou brutalmente os impostos indirectos, deixou aumentar os tempos de espera em todos os serviços públicos e diminuiu o investimento público. As pessoas ouviram António Costa e acreditaram que tinham mais dinheiro e mais tempo, quando na prática estão mais pobres e demoram mais tempo a fazer o quer que seja (do cartão de cidadão à espera pelo autocarro). Só não é o truque de magia perfeito porque ao contrário dos seus companheiros ilusionistas, António Costa é bastante evidente nos truques que usa.
Contudo, mesmo essa falha no número de magia a que Costa chama governar é colmatada pela sua extraordinária equipa. Por um lado tem as suas duas assistentes, Catarina e Jerónimo, que vão ajudando a entreter o público. Se no tempo de Passos tudo o que governo fazia era um ataque aos trabalhadores, neste novo tempo os trabalhadores é que são injustos quando atacam o governo (basta pensar na greve dos enfermeiros!).
Como qualquer artista contemporâneo, o primeiro-ministro conta com uma grande equipa de apoio. E como bom português (pensemos em Cristiano Ronaldo por exemplo) António Costa prefere confiar na família a confiar nos profissionais. O que se perde em competência ganha-se em fidelidade (ao bom estilo Corleone).
Para além dessa equipa mais próxima e familiar, chamada governo, o primeiro-ministro conta também com o apoio de uma equipa mais alargada, que ajuda a manter a sua narrativa, mesmo quando a realidade se começa a impor. Teria sido impossível para António Costa manter a ilusão de um país idílico, sem o auxílio inestimável da comunicação social. Jornalistas e opinadores têm sido essenciais para os arriscados truques de magia de Costa. Reparemos como ele consegue chegar ao fim desta legislatura sem nunca ser confrontado com o facto de terem morrido mais de cem pessoas em incêndios depois do governo mudar as chefias da protecção civil; ou com o roubo de armas em Tancos, cuja resolução se revelou um crime maior do que roubo em si; ou com a morte de pacientes à espera de exames médicos ou de operações; ou com as constantes mentiras que diz publicamente (basta consultar qualquer site de fact checking para verificar o número assustador de vezes que António Costa mente nas declarações públicas que faz). Uma equipa profissional que consegue sempre evitar ligar o primeiro-ministro a todos os escândalos dos últimos quatro anos é essencial para o seu sucesso.
Infelizmente o país parece estar condenado a mais uns anos de narrativa socialista. Mais uns anos onde nada é o que parece, tudo é o que o primeiro-ministro disser. E ao contrário de Luís de Matos ou David Copperfield, o preço do sucesso do grande ilusionista António Costa é pago por todos nós.
Mas  como qualquer artista, também António Costa vive do público. Por isso dia 6 de Outubro o povo pode escolher se quer voltar a ter um governo ou se prefere continuar com o ilusionismo.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Não um católico não pode votar à esquerda e um jornal católico não deve dizer que pode!




O ponto SJ, portal oficial dos Jesuítas, num especial sobre as eleições legislativas publicou um artigo sobre as razões de um católico para votar na esquerda. 

Se no plano teórico tal possibilidade ainda pode ser defensável (dificilmente), no plano bastante prático das eleições legislativas de 2019 não é. Um católico não pode em consciência votar em nenhum dos partidos da esquerda. Votar na esquerda é votar na eutanásia, é votar no provável alargamento dos prazos do aborto, é votar nas barrigas de aluguer, é votar na ideologia de género nas escolas, é votar na legalização das drogas leves e da prostituição.

Bem sei que estes não os únicos assuntos relevantes para os católicos decidirem o seu voto. Mas a defesa da Vida e da Dignidade da pessoa Humana não sendo o único tema é sem dúvida o mais importante e o mais estruturante de uma sociedade. Por isso não é licito aos católicos votarem em partido que não respeitam este principio.

Sobre isto não me alongo mais. Aconselho vivamente quer a carta pastoral que a Conferência Episcopal emitiu sobre o tema, quer o artigo do Pedro Morais Vaz no Observador, onde o assunto do voto dos católicos está explicado de maneira claríssima.

O que realmente me preocupa é ver que, em nome de uma suposta abertura ao mundo e à diversidade de opiniões, ser cada vez mais comum realidades da Igreja darem voz a quem defende posições contrárias à Fé.

O primeiro dever de um católico é testemunhar a Verdade. E isto é aplica-se também para órgãos de comunicação católicos. Não se pode ser de Cristo e depois viver como se todas as opiniões fossem iguais.

Evidentemente que dentro da Igreja, sobre diversos temas, há opiniões e visões e diferentes. Mas também é evidente que um católico não pode, sem mentir, defender opiniões contrárias à doutrina da Igreja.

O diálogo com o mundo não se faz ignorando a Verdade, mas confrontado o mundo com a Verdade de que somos testemunhas. Não cabe aos católicos dar voz ao erro, cabe aos católicos lançar a luz da Verdade sobre o erro.

Por isso aqueles que pertencem à Igreja não devem ser a voz de quem defende posições contrárias à Doutrina.  Mesmo que essas pessoas sejam católicas. Se um católico defendo algo contrário à Fé, espera-se que do portal de um ordem religiosa que o corrija, não que o promova!

E não se trata de silenciar ninguém. Não há em Portugal falta de locais onde quem defende o aborto, a eutanásia, a ideologia de género se expressar. Nem eu estou a defender que essas pessoas devam ser silenciadas. Simplesmente não é razoável que exponham os seus erros em páginas católicas, em encontros católicos e ainda menos em altares de igrejas!

Bem sei que o Ponto Sj deixa claro que as opiniões dos autores não reflectem a opinião da Companhia de Jesus. E não tenho dúvidas disso. Mas também não tenho dúvidas que o Ponto Sj jamais publicaria um artigo onde fosse defendido a morte dos homossexuais ou o linchamento dos negros, ou a apologias de partidos que defendessem tais medidas. Não é por isso compreensível que permita um artigo onde se apela ao voto em partido que defendem a morte de bebés por nascer ou de pessoas em fim de vida.

Qualquer católico, mas ainda mais, qualquer ordem religiosa, movimento, paróquia, ou membro da hierarquia da Igreja tem especial responsabilidade de zelar pela alma daqueles que o seguem. Esse dever não pode ser escondido atrás de um qualquer desejo de diversidade ou de diálogo. Se todos têm lugar na Igreja, os seus erros e mentiras não têm. É por isso triste que a coberto de um falso diálogo e de uma falsa diversidade se propaguem erros e mentiras que poderão levar os mais incautos a votar em quem defende o contrário da Igreja.