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quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A morte de Samuel Paty e a liberdade de educar.



Samuel Paty era um professor de liceu francês. Numa das suas aulas de cidadania, falando sobre a liberdade de expressão, mostrou dois cartoons do Charlie Hebdo que representavam Maomé. Antes de mostrar os desenhos o professor teve o cuidado, sabendo que para os islâmicos aqueles desenhos eram blasfemos, de avisar os estudantes do que ia mostrar e permitiu que quem se sentisse ofendido com aquelas imagens saísse da sala. 

Depois da aula o pai de uma aluna começou uma campanha contra o professor, que foi ampliada pelo imã local. A campanha de ameaças começou dentro e fora das redes sociais, com várias ameaças de morte. No dia 16 de Outubro Paty foi morto por um extremista islâmico, cujo o nome não escrevo para não lhe conceder a publicidade que procurou. O terrorista pagou a estudantes para que lhe indicassem quem era o professor, seguiu-o e cortou-lhe a cabeça. De seguida publicou imagens da cabeça no Twitter enquanto se proclama um mártir do Islão.

Samuel Paty foi vítima do extremismo islâmico. Vítima de quem não suporta uma sociedade onde haja outra visão que não a sua. Vitima de uma ideologia que não permite discordâncias.

Em Portugal alguns comentadores, a quem também não tenciono conceder publicidade, tiveram a falta de vergonha de tentar equivaler o terrorista assassino a Artur Mesquita Guimarães, o pai que luta pela liberdade de educar os seus filhos.

A acusação é nojento e fruto de mentes doentias. Dificilmente valeria a pena perder tempo a explicar o absurdo da comparação. Mas há coisas que é preciso que fiquem claras.

Artur Mesquita Guimarães é um pai que luta pela possibilidade de educar os seus filhos em liberdade. Ele não pediu para acabar com as aulas de Educação para a Cidadania, não fez qualquer critica ou ataque aos professores que a ensinam, não pôs em causa a liberdade de ninguém. Simplesmente luta pela liberdade de não sujeitar os filhos à visão única do Ministério da Educação. E fê-lo como se faz em Democracia: com a Lei.

Pelo contrário, os seus detractores não suportam que exista quem tenha uma visão diferente da sociedade. Por isso perseguiram-no e aos seus filhos, fizeram campanhas nas redes sociais contra ele, e muitos pediram leis que permitissem punir o homem que tem a audácia de ser livre.

Eu evito fazer comparações com terroristas. Mas de uma coisa não tenho dúvida, no caso das crianças de Famalicão, não é seguramente quem luta pela liberdade que pode ser comparado ao facínora que matou Samuel Paty. Se alguém pode ser comparado ao terroristas, é quem quer impor a sua visão, á força se preciso, a toda a sociedade.

A luta de Artur Mesquita Guimarães é a mesma de Samuel Paty: uma escola onde a liberdade e a fé de cada um seja respeitada. Eu estarei sempre desde logo contra os extremistas que querem impor uma visão única às crianças. Sejam eles islâmicos ou laicistas.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Proibir o Burquini: Um Cobardia e uma Tirania




Vi ontem a noticia de que a policia de Nice obrigou uma mulher a despir parte da sua roupa na praia. Isto porque supostamente estaria de burquini (de facto não estava) o que é proibido naquela cidade.

Antes de mais, não posso deixar de me espantar que a mesma polícia que deixou um camião cheio de armas entrar numa zona de trânsito proibido onde estavam dezenas de milhares de pessoas porque o condutor afirmou que ia vender gelados, consiga agora detectar uma mulher demasiado vestida na praia. Estamos diante de um enorme evolução na luta contra o terrorismo...

Tenho ouvido duas justificações para esta medida idiota: a primeira é a defesa da liberdade da mulher. Segundo os adeptos desta teoria, as mulheres que usam burquini só o fazem porque são obrigadas pelos maridos, pelos irmão, pelos filhos. Por isso decidiu a autoridade que em vez de estas mulheres serem oprimidas pelos seus familiares homens, devem-no ser pelo Estado. A solução não é, como talvez alguma pessoa mais simplista possa pensar, investigar os casos de abuso sobre as mulheres. A solução passa por obrigar todas as mulheres, as que o querem e as que não o querem, a não usar tal peça de vestuário. Assim, através de uma norma que proíbe a mulher de se vestir como entende, a república tenciona tornar as mulheres livres. Quer queiram quer não queiram!

Claro que isto em nada ajudará as mulheres que são obrigadas pelos seus parentes masculinos a taparem-se. Como é evidente um homem que acha que pode obrigar a mulher, ou a irmã, ou a mãe a vestir certa peça de roupa, não vai mudar de ideias só porque passou a ser proibido. A única consequência para essas mulheres oprimidas é que em vez de irem à praia de burquini não vão à praia de todo!

A segunda "desculpa" para esta norma é o respeito pelo secularismo, razão pela qual uma mulher não pode andar com um símbolo religioso vestido. Antes de mais convém esclarecer que o burquini não é um símbolo religioso. É um fato de banho que tapa todo o corpo excepto a cara, razão pela qual pode ser usada pelas mulheres muçulmanas. Contudo, não é um exclusivo daquelas que acreditam no Islão: também é usado por mulheres com problemas de pele ou que simplesmente não se querem expor em demasia aos raios do sol. Não posso por isso deixar de me perguntar se a proibição de usar burquini é só para as muçulmanas ou é para todas as mulheres? Se a polícia quiser obrigar uma mulher a despir o burquini e esta responder que tem uma doença de pele é expulsa da praia? Ou pode apresentar um atestado médico? Se disser que não é muçulmana, já não há problema?

Porque aparentemente o único problema, para os que defendem esta argumentação, é que não se pode andar com vestes religiosas em público. Ou melhor, com vestes religiosas islâmicas. Porque, tanto quanto foi noticiado, ninguém proibiu o uso dos hábitos religiosos, ou das vestes talares, ou dos turbantes dos sikh, ou do talit e do quipá judaico, ou da túnica budista. Apenas do burquini.

Ou seja, o problema é mesmo com o Islão. Isto porque existem grupos terroristas islâmicos que têm espalhado o terror pelo Europa. Por isso, por alguma centenas de terroristas, que representam alguns milhares de islâmicos, a França declara que a fé de mil milhões de pessoas em todo o mundo não é compatível com os valores da república. A fé do polícia que morreu no ataque ao Charlie Hebdo, a fé do merceeiro que escondeu judeus na sua loja durante um ataque terrorista, a fé dos professores universitários do Iraque mortos por defenderem a liberdade dos cristãos, a fé daquele homem que morreu com os mártires coptas junto ao mar, a fé dos reis de Marrocos e da Jordânia que publicamente condenaram e atacaram o Estado Islâmico, a fé dos frequentadores da Mesquita de Saint-Etienne-du-Rouvray que recusaram o enterro dos assassinos do padre Hamel. A fé de milhões de pessoas que nada tem a ver com o terrorismo ou com o Estado Islâmico.

Cheguei a ler num jornal português a opinião de um iluminado, que já vi repetida em outros lados (as frases curtas e idiotas usadas para explicar problemas complexos têm cada vez mais tendência a fazer sucesso), onde comparava o uso do burquini ao uso da suástica. Para este respeitado colunista o islamismo está de tal maneira ligado ao terrorismo que usar publicamente os seus símbolos é o mesmo que apoiar o Estado Islâmico. Como usar a suástica, mesmo que seja por outras razões, é o mesmo que apoiar o nazismo. Eu percebo que para quem tem que ocupar uma coluna de um jornal sem ter a capacidade para produzir qualquer pensamento inteligente, esta comparação tenha parecido muito boa. O problema é que o Estado Islâmico tem símbolos próprios, nenhum dos quais é o burquini! A comparação certa é da suástica com a bandeira do EI. Ou então comparar a proibição do burquini a uma proibição da bandeira alemã por causa do nazismo. Nenhuma das duas é abonatória à posição do escriba em questão.

Esta proibição não só não terá qualquer efeito na luta contra o terrorismo, como se arrisca a piorar a situação. Pensemos na mulher humilhada na praia à frente dos seus filhos, com a policia a manda-la despir, enquanto pessoas na praia berravam contra ela e a sua fé. Pensemos em todos os muçulmanos normais, que nada têm contra o ocidente. Que vêm nas noticias que uma mulher da sua fé foi humilhada por nenhuma outra razão do que de se vestir de acordo com aquilo em que acredita. Obrigada a despir-se porque a sua roupa é contra o secularismo e os costumes, como disse a polícia. Quantos desses é que terão passado a odiar a França? Em quantos terá crescido o ódio à Europa? Quantos viram confirmado as teorias dos radicais de que o Ocidente é contra o Islão? Esta medida só irá aumentar o ódio e a incompreensão numa situação onde eles já são reis e senhores.

Esta decisão é cobarde e é tirânica.

É cobarde porque a França faz-se forte com os fracos, mas depois é fraca com os fortes. Por um lado persegue uma parte desprotegida da população, proibindo a de expressar livremente a sua fé. Com que objectivo? Satisfazer a vontade da populaça que ameaça votar na Frente Popular. De facto, esta proibição só serve para propósitos eleitoralistas. Esta proibição utiliza as armas do clã Le Pen (a demagogia, o alarmismo, o discurso nacionalista) não para combater ou prevenir o terrorismo, mas sim para ganhos políticos.

Ao mesmo tempo, o Estado Islâmico continua a ter um território, um exército, continua a perseguir e a executar inocentes. Os seus apoiantes continuam a pregar nas mesquitas em França. Os seus sites continuam a recrutar jovens na Europa. Mas contra eles, contra os verdadeiros terroristas, a França nada faz a não ser belos discursos. Forte contra os fracos, fraca contra os fortes.

É tirânica, porque ataca um direito fundamental. O direito a expressar a sua Fé, o direito a vestir-se de acordo com aquilo em que se acredita, são direitos inerentes à dignidade humana não são concedidos pelo Estado, mas devem ser por ele reconhecidos e defendidos.

Os direitos fundamentais não são absolutos. Podem ser limitados quando estão em causa outros direitos de igual ou superior valor. Mas não podem ser limitados ou retirados só para não ofender a sensibilidade pública. Um Estado que viola os direitos fundamentais dos cidadãos, que se acha dono desses direitos fundamentais, que os deixa ao capricho de sensibilidades políticas, é um Estado tirânico.

Por isso a proibição do burquini não é um ataque apenas ao Islão. É um ataque ao Estado de Direito democrático. Por isso deve-nos preocupar a todos. Porque se concedemos aos Estado o poder para decidir hoje o que uma mulher islâmica pode ou não usar, arriscamo-nos a que amanhã esse mesmo Estado decida o que cada um de nós pode vestir, que ideias pode exprimir, que Fé pode professar.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Paris: a Escolha entre o Terror e o Nada.






Os ataques de dia 13 em Paris deixaram-nos chocados. Todo o Ocidente ficou abalado pelos actos tenebrosos cometidos numa das maiores capitais da Europa. E a verdade é que estes ataques nos tocaram mais do que os actos terroristas que nestes dias ocorreram no Quénia e no Líbano. Dizer o contrário é uma hipocrisia.

E chocaram-nos mais por uma razão muito simples. Não é que as vítimas do Líbano e do Quénia sejam menos inocentes que os mortos de Paris, ou que a sua vida tenha menos valor. Os libaneses e os quenianos são tão inocentes como os parisienses. A sua vida tem o mesmíssimo valor. Infelizmente vivem em zonas do mundo onde estes acontecimentos são habituais. Os seus governos, as suas forças de segurança, as suas forças armadas enfrentam grupos terroristas muitas vezes mais bem armados, com mais recursos e mais apoio do que eles. Por isso o terrorismo nestes países, embora igualmente desprezível e bárbaro, é expectável.

Mas que uma coisa destas aconteça no coração da Europa choca-nos e assusta-nos. Porque França tem ao seus dispor toda a tecnologia, todos os recursos, tem estabilidade política, força armadas e de segurança capacitadas com os mais modernos meios de investigação e com o armamento mais eficaz. E mesmo assim demonstrara-se incapaz de garantir a segurança de Paris. Incapazes de defender a sua capital de um pequeno grupo de terroristas armadas de AK-47 e explosivos artesanais.

O ataque a Paris choca mais o mundo do que os ataques no Líbano e no Quénia, porque deixa claro que não é apenas nos países pobres que estas coisas acontecem. Deixa claro que os terroristas podem atacar em qualquer lugar do mundo, por muitos meios que tenhamos à nossa disposição. 

O Ocidente pode, e deve, arrasar o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Pode, e deve, aumentar a vigilância sobre os extremistas islâmicos: desde a internet até às mesquitas radicais. Pode, e deve, melhorar o controlo fronteiriço. Mais ainda. O Ocidente pode, e deve, acolher melhor aqueles que fugindo da guerra e da miséria procuram a Europa. Pode, e deve, procurar uma maior integração das comunidades islâmicas. Pode, e deve, fazer muitas coisas. Contudo, nem assim se resolve o problema do terrorismo islâmico.

Dos cinco terroristas até agora identificados, quatro eram europeus. Nados e criados no centro da Europa. Filhos do império francês, educados na Europa. Não falamos por isso de jovens nascidos no meio da violência e da guerra, educados em madraças, habituados à morte. Mas de jovens (todos tinham menos de trinta anos) que preferiram matar e morrer em nome do Islão a tudo aquilo que o Ocidente lhe tinha para oferecer.

A força não é suficiente para acabar com o terrorismo. Mas também não será o multiculturismo de esquerda que oferecerá solução. A culpa não é do imperialismo ocidental que bombardeia a Síria ou dos soldados americanos que lutam no Afeganistão. Estes terroristas não foram expulsos dos seus países pela malvada NATO. Não eram vítima do capitalismo, ou pelo menos, não eram mais vítima do que os outros milhões de jovens que vivem nas capitais europeias sem fazer mal a ninguém.

Não bastam discursos retóricos, ideológicos vazios. Nem as ameaças de Hollande, nem o pacifismo da esquerda. É preciso ir à raiz do problema: o que é o Estado Islâmico tem para oferecer a estes jovens que é mais atractivo que do que aquilo que a sociedade ocidental oferece? Porque preferiram estes homens matar e morrer em nome do Islão a viver na paz europeia?

E aqui chegamos à raiz do problema: a Europa não tem nada para contrapor à ideologia islâmica. O ocidente já não acredita em nada. Não é que agora já não acredita em Deus ou na religião, nisso já não acredita há mais de um século. A nossa sociedade já não acredita em nada.

O problema não é que não reconhece a Verdade, é que nega a existência de uma Verdade (qualquer que ela seja). Para a nossa sociedade a Verdade é uma opressão, tudo é relativo. Não há Verdade quer dizer que não há verdadeira Beleza, ou verdadeira Justiça ou verdadeiro amor. Tudo é relativo.

Por isso, contra a ideologia apaixonada do extremismo islâmico a Europa só tem a oferecer aos seus jovens o "nada". O extremismo islâmico apela ao desejo profundo do coração do homem. O desejo de liberdade, de justiça de eternidade e depois deturpa-o. Mas o Ocidente nega que esses desejos sequer existam e afoga-os numa quantidade enorme de ofertas de distracções.

Entre uma versão deturpada da Verdade ou a negação da existência dos desejos mais essenciais do coração humano, há muitos que preferem a deturpação ao nada. E isso fica mais evidente quando quatro jovens criados na Europa decidem entrar numa sala de espetáculos e matar tantas pessoas quanto podem antes de morrer.

Por isso o problema do terrorismo não é resolúvel através de projectos políticos. Pode-se conter, pode-se diminuir, pode-se até tornar ineficaz, mas o problema permanece. 

O terrorismo antes de ser um problema sociológico ou político é um problema humano. É no coração do homem, de cada homem, que se ganha ou se perde a “guerra contra o terror”. Por isso, enquanto o Ocidente só tiver para oferecer o “nada” esta guerra continuará a perder-se.