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quinta-feira, 17 de julho de 2025

A barbaridade tornou Israel no agressor



Que uma bomba caísse na Paróquia da Sagrada Família em Gaza era inevitável. Quando se faz chover bombas durante quase dois anos num território com o tamanho do Alentejo, era bastante expectável que uma lá fosse cair.

Mas a Igreja da Sagrada Família é apenas mais um dos alvos civis que Israel atingiu nestes quase dois anos de guerra. Mesmo descontando todo o exagero e mentiras do Hamas, a verdade é que o contínuo ataque a Gaza tem provocado milhares de vítimas inocentes. Pessoas pobres, desesperadas, reféns do Hamas, abandonadas pelos países árabes, bombardeadas por Israel.

Há muito tempo que qualquer proporcionalidade entre o horrendo ataque de 7 de Outubro e a resposta de Israel se perdeu. E não colhe o argumento de que o Hamas, podendo, faria pior. Porque o Hamas é um grupo terrorista e Israel é, supostamente, um Estado civilizado.

Não coloco em causa o direito de Israel a existir, nem o direito a defender-se. Não há qualquer dúvida de que o ataque de 7 de Outubro pode ser equiparado a um acto de guerra, pelo que era razoável uma resposta de Israel. Mas não existe um direito a ocupar território que não é seu, não há direito a terraplanar Gaza.

É evidente que o Hamas não tem qualquer problema em usar a população civil como escudo humano. Em usar caves de hospitais como bases, ou escolas como paióis. São um grupo terrorista. Cabe a Israel responder como um Estado que respeita o Direito Internacional. Não o faz. Responde como uma nação poderosa, capaz de punir todo um povo para impor a sua vontade.

O ataque à Paróquia da Sagrada Família, a única presença cristã em Gaza, que acolhe 600 pessoas, não é apenas um azar. É um símbolo da barbaridade da acção de Israel. Não alinho com a esquerda, que finge que Israel é uma potência imperialista e que, mais ou menos envergonhadamente, defende a sua destruição. Não acredito que haja um genocídio em Gaza. Não nego a selvajaria do 7 de Outubro, e não tenho dúvida de que o Hamas é um grupo terrorista que deve ser destruído.

Mas neste momento, o governo de Netanyahu tornou Israel numa potência militar agressora, que, para seguir a sua visão de um Grande Israel — do rio ao mar (a inversão do sonho esquerdista para a Palestina) —, não hesita em chacinar inocentes (o que é diferente de um genocídio). E, por isso, tem de ser travado.

 

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Guerra na Terra Santa: algumas notas


1. A primeira coisa que é preciso dizer é que não há uma equivalência moral entre o Hamas e Israel. O Hamas é um grupo terrorista, que não hesita em matar e torturar inocentes para os seus objetivos. A única solução para o Hamas é a sua erradicação. Todos os terroristas desta organização devem ser presos, e, não sendo isto possível, mortos. O apoio ao Hamas, ainda que apenas moral, deve ser punido. As organizações que colaborem com o Hamas devem ser tratadas como foras da lei. O Hamas não é um movimento político de resistência, é um bando de malfeitores, cujas primeiras vítimas são os próprios residentes da faixa da Gaza. Apoiar o Hamas não é apoiar a Palestina, muito pelo contrário.

Israel é um Estado e como tal tem direito a viver em paz e segurança. E para isso tem o direito a defender-se. Mas precisamente por ser um Estado não pode defender-se nos mesmo termos que um grupo terrorista. É óbvio que a exigência para com Israel é muito superior do que a exigência para com Hamas. Por isso é que defendo que Israel tem o direito a existir em paz e defendo a erradicação do Hamas. Não basta avisos de quando vão bombardear, ou encostar-se à selvajaria do Hamas para justificar a morte de inocentes. Bombardear alvos civis não é aceitável só porque lá no meio estão escondidos terroristas. Claro que o Hamas é cobarde, claro que o Hamas não se importa com os civis que morrem, é um grupo terrorista. Cabe a Israel não se comportar da mesma forma.

2. A comunidade internacional tem pedido contenção a Israel e bem. Mas seria importante não esquecer que Israel combate um inimigo amoral, bárbaro, que enquanto apela à paz, bombardeia civis e mantém crianças reféns. É fácil pedir contenção quando não somos nós a levar com as bombas. Se a comunidade internacional quer mesmo a paz então que a construa: que a ONU mande tropas para Gaza controlar o Hamas, que a comunidade internacional corte relações com quem financia o Hamas, que ajude a perseguir os seus cabecilhas que vivem luxuosamente no Qatar. Até lá, os apelos a Israel são apenas formulas para descargo de consciência.

3. É verdade que a forma como Israel trata os Palestinianos é brutal e muitas vezes injustas. Mas falar em limpeza étnica é absurdo. Israel está a defender-se de um grupo de terroristas que esses sim, declaram claramente querer fazer um genocídio. Um grupo de terroristas que faz questão em esconder-se no meio dos civis e em não permitir que estes fujam. Israel tem feito esforços para diminuir as baixas entre civis. Não há qualquer genocídio.

Infelizmente há, sem dúvida, brutalidade por parte de Israel, para quem é suficiente tentar minimizar as baixas civis, não sendo estas impedimento para atacar o Hamas. Mas há uma diferença substancial: o Hamas faz dos civis alvos, Israel não. Infelizmente o resultado prático é o mesmo: a morte de milhares de inocentes. E isso devia levar Israel a repensar na sua forma de fazer a guerra.

4. Eu tenho imensa inveja das pessoas que têm imensas certezas sobre o conflito na Terra Santa. Das pessoas que simplificam um dos mais complexos problemas de geopolítica em meia dúzia de frase feitas, ou de imagens repescadas do Facebook. Eu confesso que olhando para o Próximo Oriente não consigo vislumbrar qualquer solução fácil. A verdade é que se Israel se desarma desaparece. Também é verdade que a brutalidade de Israel para com os árabes alimenta mais ódio e faz vítimas inocentes. Mas se Israel não a usar, então pelos vistos são as suas crianças, os seus jovens, as suas mulheres, os seus velhinhos que irão ser mortos. Olhar para isto e dizer que há uma solução fácil é ou muito bárbaro (é só matar um dos lados) ou então muito estúpido.

5. Precisamente por ser complexo, é inútil ir procurar legitimidade ao passado. Continuar a recuar no tempo para explicar por que razão aquela Terra deve ser dos judeus ou dos árabes é absurdo. A verdade é que o reino judeu na Terra Santa desapareceu completamente com Tito e Vespasiano. E desde então, até ao séc. XX, nunca mais houve ali um reino independente. A Terra Santa foi trocando de mãos várias vezes, desde os Romanos, ao Bizantinos, passando por vários impérios islâmicos, sem esquecer os reinos cruzados.

O estabelecimento do Estado de Israel e a criação dos países árabes foi um processo cheio de erros, de várias partes. Escarafunchar neles não irá trazer qualquer ajuda. O facto evidente é que na Terra Santa existem dois povos distintos, que merecem viver em paz, dignidade e segurança. O importante agora é procurar uma solução para o problema actual, não continuar preso a um passado longínquo.

6. Tenho visto muito gente espantada pelos movimentos LGBT apoiarem o Hamas. É preciso ser muito distraído para não reparar que estes movimentos são, pela sua natureza, violentos. A ideologia de género parte sempre da violência contra a própria natureza humana, afirmando que a natureza é uma imposição social que os oprime. E por isso são contra a tal “opressão” da sociedade e defendem a destruição de todos os opressores.

São contra o “opressor “israelita, mesmo que isso signifique estar ao lado de um grupo de terroristas que mata crianças a sangue-frio. Porque a realidade para esses movimentos é que eles criam na sua narrativa. Seria bom que os políticos não se esquecessem disso a próxima vez que estes movimentos vierem pedir apoio.

7. As gigantescas manifestações de apoio ao Hamas na Europa demonstram mais uma vez que o nosso continente tem um problema com o Islão. E não vale a pena dizer que é com a imigração. Muitos dos que se manifestam a favor de terroristas e contra o Ocidente já nasceram na Europa. Para além disso a Europa está cheia de imigrantes que não causam qualquer problema (ou não mais do que o habitual). A Europa tem um problema concreto com o Islão, com grandes comunidades que abertamente defendem o terrorismo, a violência e odeiam o Ocidente. Continuar, em nome da tolerância, a permitir a proliferação do islamismo extremista na Europa é um erro que já estamos a pagar e que iremos pagar ainda mais caro.

8. Os grandes esquecidos no meio de toda esta violência são os cristãos. Há décadas que os cristãos são vítimas em todo o Próximo Oriente. Minorias, sem lobby que os proteja, vivem abandonados à sua sorte. Os cristãos naquela parte do mundo são cada vez menos, sendo cada vez mais a sua presença residual em todo o Próximo Oriente, especialmente na Terra Santa. E se neste grande conflito os palestinianos contam com o apoio da esquerda ocidental e dos países árabes e Israel com o lobby judeu, os Estados Unidos e parte da direita ocidental, os cristãos da Terra Santa tem por junto a Santa Sé para os proteger. Rejeitados pelos palestinianos por não serem muçulmanos, rejeitados pelos israelitas por em geral serem árabes, irão continuar a ser esmagados sem ter quem erga a voz por eles.

9. Como já tive ocasião de dizer, a única hipótese de paz na Terra Santa é a Misericórdia. Hoje o Patriarca Latino de Jerusalém ofereceu-se para trocar de lugar com as crianças que são reféns do Hamas. No meio de toda a violência, de toda a vingança, de todo o ódio, a misericórdia Cardeal Pizzaballa, mostra o caminho para a paz: diante do ódio o amor, diante da violência a misericórdia. Este é o único caminho para a paz, por isso juntemo-nos ao convite do Cardeal Pizzaballa, de fazermos jejum e oração no dia 17, a pedir a paz para a terra onde o Deus de Amor se fez homem.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Só a Misericórdia pode trazer a Paz



A estratégia do Hamas é simples. Sabendo que não tem qualquer hipótese de derrotar Israel pelas armas, leva a cabo um ataque brutal, ultrapassando todo os limites que seja possível imaginar. Sabem bem que este ataque levará Israel a uma resposta brutal, que será potenciada pelo facto do Hamas montar os seus covis em prédios, escolas e hospitais. A resposta judaica evidentemente irá causar um enorme número de vítimas, para além de impor sacrifícios brutais aos palestinianos. E o Hamas sabe disso, e sabe que não vai ganhar, e sabe que o seu povo vai morrer. E não se importa. Não se importa porque agora pode fazer o papel de vítima, e vir falar de paz, e dizer que Israel está a matar civis. E haverá idiotas úteis no Ocidente que irão alinhar nessa conversa, e haverá idiotas para tentar equiparar o Hamas e Israel, concedendo a um grupo terroristas bárbaro uma dignidade que não tem, deixando a um canto os legítimos líderes da Palestina.
E o que sobrará no fim? Mortos, muitos, miséria, destruição, e mais ódio. Ainda mais ódio.
Quebrar o ciclo do ódio não é fácil, mas é urgente. Nas últimas décadas já demasiadas atrocidades foram cometidas na Terra Santa para podermos falar em justiça. Todos os lados em conflito (sim, há mais de dois), tem queixas justas e cometeram injustiças. A única hipótese para a paz é a misericórdia e o perdão. Sem isso, continuaremos neste círculo vicioso onde o terrorismo palestiniano alimenta a violência israelita, onde o medo leva a impor muros e separações, onde gerações inteiras continuam a crescer na sombra da guerra e da violência.
Aquilo que espera a Terra Santa nos próximos tempos é a guerra. Rezemos para que que a paz venha tão rapidamente quanto possível.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O Islão e a lenta agonia da Europa



A Europa tem um problema com o Islão. O terrorismo que ciclicamente assola o continente é apenas a face visível desse problema. Há um problema mais profundo, que muitos teimam em ignorar: em muitas cidades o crescimento das comunidades islâmicas levou à criação de enclaves onde o Estado não entra e as leis são ditadas pela comunidade. Estes enclaves são viveiros para o extremismos islâmico.

A continua tentativa de, em nome da tolerância, ignorar este problema têm tido consequências desastrosas. É evidente que existem milhões de muçulmanos na Europa que vivem integrados. Aliás, Portugal é um bom exemplo disso. Mas esse facto não nos pode levar a fechar os olhos para o crescimento de comunidades que procuram impor a toda a sociedade, pela força se preciso, a sua visão religiosa.

Insistir na ideia de que não há um problema islâmico é maus para todos, incluindo para os tais milhões de muçulmanos que só querem viver em paz e que em nome do politicamente correcto acabarão sujeitos aos extremistas de que não gostam e de quem muitos fugiram.

Este problema precisa de uma resposta política forte e determinada. É preciso não ter medo de impor a lei. É preciso combater os radicais, sem vergonha e sem pedir desculpa. É preciso assumir que a política migratória está a falhar. Sobretudo, é preciso de uma vez por todas enfrentar o problema dos migrantes: a política de pescar os que se pode no Mediterrâneo, chorar lágrimas de crocodilo pelos que lá morrem, e depois ir despejando os sobreviventes por essa Europa fora, não funciona. A Europa tem que combater as redes de tráfico, tem que resolver o problema da Líbia de uma vez por toda, e criar politicas internacionais que permitam aos migrantes não ter que abandonar os seus países. A falsa misericórdia de acolher sem critério qualquer pessoa que consiga atravessar o Mediterrâneo só traz mais mortes, mais miséria e em última instância, mais extremismo. O bonismo de chorar as mortes no Mediterrâneo ao mesmo tempo que nada se faz para resolver o problema, pode satisfazer a consciência ocidental, mas não evita os cadáveres no fundo do mar.

Contudo, podemos tomar todas as medidas necessárias contra a imposição de um islamismo radical na Europa. Podemos fechar as fronteiras, encerrar as mesquitas radicais, perseguir até ao fim todos os imãs extremistas e prender todos os terroristas, que nada disso impediria a decadência da Europa. O extremismo islâmico veio apenas preencher um vazio que existe no continente. O Islão não é o problema, será quanto muito um sintoma da decadência europeia.

A Europa não é verdadeiramente um continente, é apenas o nariz da Ásia. Os Urais não são uma fronteira geográfica, são uma fronteira cultural. O que une a Escandinávia ao estreito de Messina, Moscovo ao cabo de São Vicente é o cristianismo. A Europa é o cristianismo ou é nada. Evidentemente que a cultura europeia teve muitas outras influências: Grécia, Roma, os bárbaros e até o Islão. Mas todas essas influências foram incorporadas pelo cristianismo, e foi pelo cristianismo que se tornaram comuns a toda a Europa. 

Ao abandonar o cristianismo a Europa abandonou-se a si mesma. Renegou a sua história e a sua cultura. Sem o cristianismo não há Europa, há apenas um conjunto de países com pouco mais em comum que a proximidade geográfica.

Não vale a pena falar da cultura europeia, proclamar a defesa da herança europeia, se depois ninguém está disposto a reclamar a herança.

Não se trata de discursos vagos sobre valores. O cristianismo não é um conjunto de valores, que se podem colocar num museu. Não vale a pena falar de Igrejas derrubadas e de Mesquitas construidas, se depois as Igrejas continuam vazias.

O cristianismo não é uma arma de arremesso político. É uma Fé. E se não há Fé, então não há valores que valham. Os valores cristãos sem a Fé, são como uma árvore bela e imponente, mas cujas as raízes secaram. Está condenada a cair, apesar de toda a imponência.

Como dizia ao principio, é sem dúvida importante resolver o problema político do Islão na Europa. Mas a Europa tem um problema mais grave, que é um problema cultural. E esse problema não tem qualquer relação com o Islão. O problema não é os muçulmanos terem muitos filho e educarem-nos na sua religião. O problema é os cristão terem desistido de o fazer.

Por isso problema essencial da Europa não é resolver a questão politica. É mesmo um problema cultural: sem cristãos não há Europa. Por isso quem realmente ama a Europa, a sua história e a sua cultura, só tem um caminho: o cristianismo. Sem Cristo, podemos resolver todos os problemas políticos que quisermos que estaremos apenas a prolongar a lenta, mas inexorável, agonia da Europa.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A morte de Samuel Paty e a liberdade de educar.



Samuel Paty era um professor de liceu francês. Numa das suas aulas de cidadania, falando sobre a liberdade de expressão, mostrou dois cartoons do Charlie Hebdo que representavam Maomé. Antes de mostrar os desenhos o professor teve o cuidado, sabendo que para os islâmicos aqueles desenhos eram blasfemos, de avisar os estudantes do que ia mostrar e permitiu que quem se sentisse ofendido com aquelas imagens saísse da sala. 

Depois da aula o pai de uma aluna começou uma campanha contra o professor, que foi ampliada pelo imã local. A campanha de ameaças começou dentro e fora das redes sociais, com várias ameaças de morte. No dia 16 de Outubro Paty foi morto por um extremista islâmico, cujo o nome não escrevo para não lhe conceder a publicidade que procurou. O terrorista pagou a estudantes para que lhe indicassem quem era o professor, seguiu-o e cortou-lhe a cabeça. De seguida publicou imagens da cabeça no Twitter enquanto se proclama um mártir do Islão.

Samuel Paty foi vítima do extremismo islâmico. Vítima de quem não suporta uma sociedade onde haja outra visão que não a sua. Vitima de uma ideologia que não permite discordâncias.

Em Portugal alguns comentadores, a quem também não tenciono conceder publicidade, tiveram a falta de vergonha de tentar equivaler o terrorista assassino a Artur Mesquita Guimarães, o pai que luta pela liberdade de educar os seus filhos.

A acusação é nojento e fruto de mentes doentias. Dificilmente valeria a pena perder tempo a explicar o absurdo da comparação. Mas há coisas que é preciso que fiquem claras.

Artur Mesquita Guimarães é um pai que luta pela possibilidade de educar os seus filhos em liberdade. Ele não pediu para acabar com as aulas de Educação para a Cidadania, não fez qualquer critica ou ataque aos professores que a ensinam, não pôs em causa a liberdade de ninguém. Simplesmente luta pela liberdade de não sujeitar os filhos à visão única do Ministério da Educação. E fê-lo como se faz em Democracia: com a Lei.

Pelo contrário, os seus detractores não suportam que exista quem tenha uma visão diferente da sociedade. Por isso perseguiram-no e aos seus filhos, fizeram campanhas nas redes sociais contra ele, e muitos pediram leis que permitissem punir o homem que tem a audácia de ser livre.

Eu evito fazer comparações com terroristas. Mas de uma coisa não tenho dúvida, no caso das crianças de Famalicão, não é seguramente quem luta pela liberdade que pode ser comparado ao facínora que matou Samuel Paty. Se alguém pode ser comparado ao terroristas, é quem quer impor a sua visão, á força se preciso, a toda a sociedade.

A luta de Artur Mesquita Guimarães é a mesma de Samuel Paty: uma escola onde a liberdade e a fé de cada um seja respeitada. Eu estarei sempre desde logo contra os extremistas que querem impor uma visão única às crianças. Sejam eles islâmicos ou laicistas.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A nova guerra das trincheiras


O que mais me impressiona na sociedade contemporânea é ver como a mentalidade de trincheira vive cada vez mais profundamente enraizada. Ou seja, a mentalidade de que estamos numa guerra, dentro das trincheiras estão os bons, lá fora os maus. E tudo aquilo que o que estão supostamente do nosso lado da trincheira fazem é bom, justificável, ou em último caso aceitável porque estamos em guerra e tudo o que os de fora fazem é mau.

Cada vez mais na discussão pública os factos em si mesmo parecem importar pouco para o juízo que se faz deles. Mais importante que os factos é quem os pratica. E isto não se aplica apenas a um “grupo” ou a um “lado”. É cada vez mais geral.

Exemplos não faltam. Basta ver como as mesmas pessoas que apoiaram com toda a força tudo o que foi feito pelos coletes amarelos em França, agora condenam veemente o que se está a passar nos Estados Unidos. Por outro lado, aqueles que durante meses descreveram os coletes amarelos como fascistas, agora recorrem a todo o tipo de contorcionismo para explicar que o vandalismo, os roubos e a violência nas ruas americanas são simples protestos. Ou ver como aqueles que condenam o governo Espanhol pela sua irresponsabilidade no 8 de Março tentam justificar todas as acções de Bolsonaro. Ou como os que acusam Bolsonaro de tentar interferir na justiça, ignoram o facto do governo Espanhol ter demitido o responsável da Guarda Civil que estava a investigar a responsabilidade do dito governo no 8 de Março.

Dentro desta mentalidade o máximo que alguém está disposto a admitir é que o “seu” fez um erro, mas logo justifica com um suposto erro de alguém do outro lado: o Trump fez aquilo mas o Obama fez aqueloutro, o Sanchez fez assim mas o Abascal fez assado. Chegamos ao cúmulo de ser impossível falar de regimes totalitários sem ter que condenar todos, para não ser acusado de estar a apoiar um lado da barricada: é verdade o Hitler matou judeus, mas o Estaline matou ucranianos, o Castro fuzilou os adversários, mas o Pinochet também!

Esta mentalidade de trincheira é absolutamente destrutiva. Destrutiva porque acaba por subjugar a realidade à ideologia. Aquilo que era um meio para um fim (uma doutrina para alcançar o bem comum) torna-se num fim em si mesmo. E a imposição dessa ideologia tudo justifica, até a violação dessa doutrina. E destrutiva porque desumaniza o outro, torna-o num inimigo. A mentalidade de trincheira não contempla que aquele que discorda de mim também procura o bem comum, simplesmente acha que o caminho é outro. A partir do momento em que a ideologia é tudo o que interessa então quem não está connosco é do mal!

E assim temos a política reduzida a trincheiras que vão despejando todas o armamentos que possuem sobre o adversário. O resultado? Terra queimada, destruída, vazia. A impossibilidade de construir o quer que seja, até o inimigo estar completamente derrotada e destroçado.

Mas a história ensina-nos qual o preço a pagar por essa vitória total contra o inimigo da trincheira adversária. A Europa e os Estados Unidos ensinaram essa lição ao mundo, a um elevado preço, no fim da Iª Grande Guerra, quando os aliados destruíram o Império Austríaco e a Alemanha, humilhando assim os seus adversários e impondo-lhes a sua vontade. Da humilhação germânica nasceu o nacional-socialismo e uma nova destruição da Europa. E nos escombros da Rússia Imperial nasceu um monstro que havia de assolar a Europa e o mundo o resto do século.

E como foi possível reconstruir um continente, ou a parte dele que ainda era livre, após duas guerras devastadoras, uma crise económica sem precedentes e uma pandemia devastadora? Quando dois países que tinham lutado mortalmente poucos anos antes, decidiram pôr em comum a produção principal da guerra: o carvão e o aço. Foi a decisão da França e da Alemanha, de colocar de lado uma inimizade e desconfiança milenar, e de criar uma comunidade de nações, que possibilitou não apenas reconstrução da Europa ocidental, mas também lhe garantiu um dos maiores períodos de paz da História. Foi a primeira vez na história da Europa onde a paz não foi construída pela força, mas pela boa vontade entre nações.

Hoje temos a possibilidade de escolher que caminho que queremos seguir. Podemos insistir na mentalidade de trincheira, fazendo com que a política fique sempre mais polarizada, entregue a extremistas, incapaz de construir. Ou então podemos arriscar olhar para o outro como um bem, como alguém que me pode ajudar a construir algo de bom para a sociedade. Evidentemente que este caminho tem uma grande dificuldade: não depende apenas de mim, depende sempre da liberdade do outro, mas é o único que permite de facto construir algo.

Não se trata de ceder princípios, ou de ser relativista. Não se trata de ceder a verdade. Trata-se apenas de mudar o nosso olhar sobre o outro. De tentar encontrar no outro nem que seja um vislumbre de terreno comum sobre o qual se possa construir. Não é um caminho fácil, mas parece-me a única alternativa à destruição que as trincheiras provocam.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Os Conservadores, o movimento LGBT e o duplopensar.



Tenho visto por aí algumas pessoas de direita muito contentes por o partido Conservador inglês ter decidido juntar-se aos festejos do mês do orgulho homossexual. Este contentamento vem acompanhado de muitos conselhos para que a direita portuguesa, sobretudo o CDS, lhe siga o exemplo.

Segundo estes arautos da nova direita, esta seria uma posição que respeita a liberdade pessoal e a igualdade. Há, contudo, um pequeno problema. É que esta posição, aparentemente liberal e humanista, ignora uma primeira premissa.

Para que a agenda LGBT seja de facto uma questão de liberdade pessoal e dignidade, primeiro há que reduzir a pessoa à sua sexualidade. É preciso que a intimidade de cada um seja identificativo de quem ela é. Já não se trata de A ou B, com a sua história pessoal, com a sua vivência própria da sua intimidade, passa a ser parte de uma entidade abstrata que são os homossexuais. É a aplicação da tese clássica do marxismo, da guerra de classes, a todo uma nova panóplia de grupos e sub-grupos.

Isso é claríssimo naquilo que foram as duas grandes conquistas do movimento LGBT na última década: o casamento e a adopção por pessoas do mesmo sexo. O que estava realmente em discussão nestes casos não era a sexualidade de cada um. Porque para o Estado a vida íntima de cada um não releva. O Estado não legisla afectos, não legisla a olhar pelo buraco de fechadura. O ponto era saber se o Estado devia regular a relação entre duas pessoas do mesmo sexo, no caso do casamento, e se duas pessoas do mesmo sexo poderiam adoptar uma criança.

Não estava em causa a igualdade ou a liberdade pessoal. Pelo contrário, estava em causa impor a visão de uma sociedade onde a sexualidade é um factor de diferenciação. Trata-se de impor, através do Estado, uma visão da sociedade onde a pessoa é definida pela sua sexualidade. Vejamos o exemplo da adopção: antes dois homens nunca podiam adoptar. Agora dois homossexuais podem adoptar, mas dois irmãos não podem. Antes a diferença era ser preciso pai e mãe para a criança, agora a diferença é a relação que tem com o outro adoptante.

Por isso nunca percebi aqueles que tanto se opõem ao Estado, sobretudo os Liberais, e depois defendem que o Estado possa interferir e regular a vida íntima dos cidadãos.

Mas mais grave do que isso é perceber o que significa este apoio à causa LGBT hoje. Hoje quando a questão do casamento e da adopção está encerrada. Hoje quando já existe legislação abundante contra qualquer forma de discriminação. Qual é agenda que este movimento defende hoje? A educação! Dos adultos e das crianças.

Para o movimento LGBT não é suficiente que o Estado tenha adotado a sua visão da organização social, é preciso que todos concordem com essa visão. Não basta que exista o casamento entre pessoas do mesmo, é preciso que ninguém se atreva a discordar dele. A lei não é suficiente, querem também a hegemonia cultural. E isso faz-se através da repressão do adultos e da doutrinação das crianças.

A repressão dos adultos usa como instrumento os crimes de ódio. Ou seja, censura e criminaliza opiniões. E não falo de insultos e de bullying. Falo de opiniões como esta que escrevo. Ou de outras opiniões com as quais não concordo, mas que não me passaria pela cabeça censurar.

Mas mais grave é querer impor essa visão da sociedade às crianças. É retirar aos pais a liberdade de educar os seus filhos. Não se trata simplesmente de ensinar a aceitar e a respeitar a diferença, trata-se de incutir nas crianças uma visão social, cultural, moral, independentemente da vontade dos pais. Para o movimento LGBT eu não tenho o direito de ensinar ao meu filho a visão cristã da sexualidade. Ou seja, não posso ensinar que a sexualidade é para ser vivida dentro do matrimónio entre homem e mulher.

Aquilo que o partido Conservador hoje apoia, assim como os seus seguidores em Portugal, é que o Estado tenha o direito (e mesmo o dever) de impor a visão dos movimentos LGBT sobre a sexualidade a todas as crianças.

É sempre grave ver que há quem defenda que o Estado tem o dever de impor uma visão ideológica à sociedade. Que deva operar engenharia social através da lei e da educação. Mas pior é que haja quem o defenda em nome da liberdade. Orwell estaria orgulhoso.

 


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A exumação de Franco e a trincheira ideológica.





Quando Franco morreu foi sepultado na Basílica do Vale dos Caídos. O Vale dos Caído é um monumento imponente, construído durante o franquismo para sepultar os mortos de ambos os lados da Guerra Civil de Espanha.

A retirada dos restos mortais de Franco do Vale é uma guerra antiga da esquerda, que Pedro Sanchéz decidiu levar até ao fim. Por isso há duas semanas, depois de um processo atribulado, Franco foi exumado e os seus restos mortais transladados para o mesmo cemitério onde está enterrada a sua mulher, com acesso restrito ao seu túmulo.

O que mais me impressionou na exumação de Franco não foi o facto em si, mas a irresponsabilidade de Pedro Sanchéz.

Espanha não tem um problema com o franquismo. Para além de umas centenas de caturras que todos os anos participavam numa missa e cantavam o Cara al Sol, não se conhecem movimentos políticos ou sociais a gritar pelo regresso do franquismo. A transição para a democracia em Espanha foi um sucesso.

Esta decisão, de exumar Franco, foi feita apenas com um fim político: garantir poder ao PSOE. Ao exumar Franco, Sanchéz colocou em cheque o PP e o Ciudadanos(se são contra são fascistas, se são a favor são traidores, se não têm opinião, cobardes) e deu força ao Vox que vestiu a pele da direita corajosa, verdadeiramente espanhola, sem medo de enfrentar o “politicamente correcto”.     

E dar força ao Vox serve os propósitos de Sanchéz que aposta tudo numa polarização de Espanha. Sanchéz exumou Franco para causar revolta na direita, para logo a seguir poder gritar: vêm aí os fascistas! O presidente do governo espanhol quer ganhar as eleições à custa da divisão das duas espanhas. Quer aprofundar essa divisão e estabelecer-se como o campeão da esquerda.

Esta política seria sempre perigosa. Mas é mais perigosa num país onde os avós dos actuais eleitores, mataram e morreram por causa destas divisões. Num país onde a cicatriz da guerra e da ditadura ainda não está fechada. Pelo poder, Sanchéz demonstra-se disposto a reabrir essa cicatriz o mais profundamente possível.

Infelizmente, Pedro Sanchéz não é um caso isolado, mas uma tendência cada vez mais disseminada. A política está cada vez mais polarizada. Cada vez mais os políticos aproveitam o descontentamento popular para fazer uma política de trincheira, transformando os adversários em inimigos a abater. Esta política afasta os moderados e abre o campo para eleições disputadas por Trump e Clinton, Bolsonaro e Haddad, Jonhson e Corbyn.

Mas não se confunda a moderação com uma ausência de firmeza. E não se confunda ideais com ideologia. Aquilo a que assistimos é a uma política cada vez mais ideológica. Ou seja, uma política onde um meio para atingir o bem comum é transformado num fim em si mesmo, transformando quem discorda num adversário, com o qual não é possível qualquer hipótese de diálogo.

Pensemos, por exemplo, na luta pela igual dignidade de todas as pessoas. Esta luta pela igualdade, transformada num fim em si mesmo, permite colocar a igualdade acima da dignidade humana. Por isso, em nome da igualdade entre homem e mulher, se defende o aborto. E transforma-se quem é contra o aborto num inimigo da mulher! Mas não nos enganemos, o contrário também é possível. É possível proclamar a defesa da herança cristã da Europa até ao ponto de estarmos dispostos a permitir que morram pessoas no Mediterrâneo.

A defesa do bem comum exige a capacidade de diálogo com quem discorda de mim, de construir em conjunto, de procurar, não consensos, mas pontos comuns a partir dos quais seja possível trabalhar para a sociedade. Evidentemente que em política tem que haver debate, discussão. Tem que haver quem ganha e quem perde. Mas também é preciso olhar para o adversário não como um mal, mas como alguém que procura o bem comum. Mesmo que a sua visão desse bem comum esteja errada!

A alternativa ao diálogo é de facto o extremar da política a que estamos a assistir. Onde o vencedor se ocupa mais em destruir a obra do seu antecessor do que em construir.
O futuro desta política de trincheira pode ser entrevisto naquilo que hoje acontece na Catalunha: um povo em luta consigo mesmo, sem que se veja qualquer solução que não passe pela vitória de uma facção e o esmagamento da outra.

A exumação de Franco será apenas uma nota de rodapé nos livros de história. A política de polarização de Sanchéz poderá vir a ser o fim de Espanha. Dificilmente alguma coisa mudará com as eleições de 10 de Novembro. Esperemos pelo menos que o resto do mundo aprenda alguma coisa.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Na Síria, mais uma vez o martírio.



Confesso que não sou especialista na complexa política do Próximo Oriente. Existe uma quantidade enorme de povos, de alianças, de movimentos políticos e religiosos, que não são fáceis acompanhar. Para além disso, a informação sobre a situação política nessa zona do globo chega-nos sempre pelo filtro do Ocidente, que tende a apresentar a situação sobre o prisma que é mais conveniente. Basta pensar na guerra civil da Síria, onde terroristas foram sempre tratados como se fossem democratas.

Dito isto, sempre tive alguma apreciação pelos curdos. Desde que me lembro de ouvir falar deste povo estavam regra geral a ser perseguidos por algum ditador ou grupo extremista sanguinário e a resistir.

Mas a minha admiração por este povo aumento sobretudo durante a guerra contra o Estado Islâmico. Lembro de a um certo ponto os curdos serem os únicos que pareciam realmente lutar contra o EI. Sobretudo, quando a perseguição aos cristãos começou no Iraque os curdos pareciam ser os únicos dispostos a lutar para os defender.

Na altura em que a Europa fazia jura de combate ao EI e o Estados Unidos lhes davam força enfraquecendo o governo Sírio, os curdos lutaram, e muitas vezes com sucesso contra esses bárbaros.

Enquanto escrevo estas linhas a Turquia está a atacar o nordeste da Síria, uma zona autónoma, nascida da guerra contra o Estado Islâmico, controlado por uma coligação de curdos, mas também de cristãos e árabes. A desculpa evidentemente é o ataque aos curdos. Erdogan, sem qualquer problema, está a bombardear civis e a usar jihadistas neste ataque. Entre os objectivos está o tomar posse das prisões onde se encontram dezenas de milhares combatentes do Estado Islâmico (que, relembremos, nunca teve grandes problemas com a Turquia). Tudo leva a querer que o ataque Turco não só será levará a mais atrocidades contra o povo sírio, como pode levar ao recomeço da guerra civil que martirizou e destruiu aquele país.

Tudo isto se passa com o consentimento tácito de Trump (que retirou os conselheiros militares americanos daquela zona, permitindo o avanço turco) e a bênção de Putin. Para todos aqueles que viam nestes dois os grandes defensores do Ocidente e da Cristandade contra o islamismo é bom que fique claro que os dois acabaram de entregar os maiores inimigos do Estado Islâmico a um ditador islâmico por mero interesse geo-estratégico. Trump demonstra assim que é igual a Bush e pouco melhor que Obama. Os aliados de hoje sãos os inimigos de amanhã, tudo dependente do interesse americano.

Mais uma vez o povo sírio, especialmente as suas minorias, serão vitimas no grande tabuleiro da geo-política mundial. A guerra de influências entre americanos, russos, iranianos, sauditas, judeus e árabes será mais uma vez paga com o sangue inocente dos sírios. Pouco ou nada podemos fazer. Mas podemos e devemos denunciar.

P.S.: Sobre o tema vale a pena ler a notícia da RR assinada pelo Filipe Avillez assim como ir seguindo o que ele escreve nas redes sociais sobre o tema.