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terça-feira, 26 de agosto de 2025

O Padre Gabriel e seus companheiros: luz na escuridão da Terra Santa

 


Gabriel Romanelli é um argentino de 64 anos, nascido em Rio Cuarto, na província de Córdoba. Em 1989 foi ordenado padre e desde então é missionário no Próximo Oriente. Calhou-lhe em sorte ser pároco da Igreja da Sagrada Família em Gaza durante esta sangrenta guerra.

O Padre Gabriel não é palestiniano, nem israelita, não é do Hamas, não é um político, nem sequer um soldado, é apenas um pároco, como centenas de milhares pelo mundo fora.

Em conjunto com outros padres do Instituto do Verbo Encarnado, quatro freiras da mesma congregação, e umas poucas Missionárias da Caridade (três a cinco, não se sabe bem), asseguram a presença católica na Faixa de Gaza. A eles juntam-se os padres e as freiras ortodoxos da Igreja de São Porfírio.

De há quase dois anos a esta parte a sua missão é acolher centenas de pessoas que não têm quem cuide delas. Crianças, idosos, mulheres, doentes, vítimas da guerra. Os mais pobres numa sociedade já de si pobre. Os últimos dos últimos, a quem o único socorro é destes missionários (há um padre e uma freira palestiniana, de resto, são todos estrangeiros).

Nos últimos dias o Governo de Israel anunciou a ocupação da cidade de Gaza, e mandou evacuar os civis, explicando, citando o Ministro da Defesa de Israel, que as portas do inferno iriam ser abertas. Claro que fugir da cidade de Gaza seria sempre complicado, dado que não há muito lado para onde fugir. Mas para os refugiados na Igreja da Sagrada Família, é simplesmente impossível.

Como afirmam o Patriarca Ortodoxo e o Patriarca Latino de Jerusalém, num comunicado conjunto, para estes “deixar a cidade de Gaza e procurar fugir para o Sul é o equivalente à pena de morte”. Por isso o Padre Gabriel, os seus irmãos padres, as freiras da sua congregação, assim como os padres e as freiras da Igreja de São Porfírio, decidiram ficar em Gaza. Irão ficar no meio das bombas, dos tiros, da morte e da destruição. Não abandonam o seu pequeno rebanho, de cristãos e muçulmanos, os seus doentes, as suas crianças, as suas mulheres e os seus velhinhos.

Dizem, pessoas mais sapientes que eu, que é inevitável que assim seja. Que Israel, que controla todas as fronteiras de Gaza, que controla cerca de três quartos do território, que controla a energia, a água, a comida, que já eliminou centenas de altas patentes do Hamas, precisa mesmo de bombardear e invadir uma cidade com centenas de milhares de civis para estar seguro. O sangue derramado não é suficiente para controlar os carniceiros do Hamas. E por isso, segundo essas pessoas tão sapientes, a morte daqueles miseráveis em São Porfírio e na Sagrada Família é o preço a pagar pelo 7 de Outubro. Claro que aquelas pessoas não têm qualquer culpa, mas o mundo, pelos vistos, é assim. E quem não concorda é, na melhor das hipóteses, um sonhador, na pior, antissemita.

E no meio dos carniceiros Hamas, nos seus exílios dourados no Kuwait, e do Governo Israelita nos seus bunkers em Telavive, dos activistas nos seus luxuosos veleiros que nunca chegarão a Gaza, ou em viagens pagas a Israel para verem essa grande democracia, está o Padre Gabriel, da Argentina, e os seus companheiros. Sem soldados, sem armas, sem bunkers, sem jornalistas. Ali ficam, dispostos, não a matar, mas a morrer, pelos que lhes foram confiados.

Por isso desculpem-me se me falta a paciência para retórica da treta, dos que me querem convencer que os terroristas do Hamas são um movimento de libertação, ou de que o Governo de Israel está só a defender-se. Ao ouvir falar do sofrimento daquela gente, só me vem à mente Clóvis: “se ao menos eu estivesse lá com os meus francos”. Mas já não há Clóvis, nem francos, nem ninguém que pareça realmente interessado em defender os inocentes. E sobretudo, já nenhuma nação se interessa pelo destino daqueles pobres cristãos de Gaza, perseguidos entre os perseguidos. Muitas vezes, nem os seus próprios irmãos na fé se importam, tão empenhados que estão a defender Israel.

Mas sei bem que se oferecessem ao Padre Gabriel todo um exército para atacar os seus inimigos, ele provavelmente recusaria. Provavelmente responderia como no Salmo: “o meu auxílio vem do Senhor que fez o Céu e a Terra. Não permitirá que vacilem os teus passos, não há de adormecer O que guarda Israel”. Nesta hora de trevas e dor, o testemunho daquele punhado de padres e freiras, que diante da morte, escolhem a Vida Eterna, é o raio de luz que pode vir a iluminar a escuridão que desce sobre a Terra de Jesus.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Notre Dame de Nice a morte do Ocidente

 



Ontem em Nice um extremistas islâmico matou três pessoas na Basílica de Nossa  Senhora da Assunção. Ao contrário de George Floyd ou de Samuel Paty, as vítimas deste ataque permanecem anónimas. Sabemos que havia uma mãe de família, cujas as últimas palavras foram dirigidas aos filhos, o sacristão que tentou parar o ataque e uma senhora de 70 anos, degolada sobre a pia baptismal. Tudo isto enquanto o assassino gritava Allahu Akbar.

 Para estes três mártires não houve nenhum “je suis” e aparentemente their lives don’t matter. A sua morte não podia ser utilizada por nenhum lobby político, nem entrava na agenda de nenhuma ONG patrocinada por um qualquer milionário.

 São apenas mais três cristão mortos pelo ódio à Fé. Mais três de entre os milhares mortos no  mundo inteiro, todos os anos. Mortos aos quais se somam milhares de prisioneiros, de escravos de perseguidos. Um pouco por todo o mundo, mas especialmente nos países onde o Islão governa.

 E não venham com o discurso de que há extremistas em todo o lado, ou do fanatismo religioso. Não vejo cristãos a queimar mesquitas, a fazer de meninas islâmicas escravas sexuais ou a queimar vivos cristãos convertidos a outras religiões. O que vejo é a perseguição sistemática aos cristãos perante o total silêncio do Ocidente.

 A morte destes três cristãos, sem direito a nome, não pintou de preto as capas dos jornais, não abriu os telejornais, nem sequer teve direito a um moldura provisória no Facebook. Mereceu apenas umas breves referências, um ataque em Nice com uma faca...

 Mas era bom que aqueles que hoje silenciam a morte dos cristãos, que fingem que não se trata de ódio religioso, que se lembrassem que para o Islão o Ocidente e o Cristianismo são inseparáveis. E nenhuma das formas glicodoces que o Ocidente cobardemente adopta para apagar a sua herança cristã impedirá os fanáticos islâmicos de olhar para o Ocidente como um inimigo. O ódio ao cristianismo, que teimam em ignorar, é também ódio ao Ocidente.

 Por isso quando o poder da Europa e da América ignora o martírio dos cristãos cava a sua própria sepultura. Cada Igreja queimada, cada cristão morto significa apenas o fortalecer do extremismo islâmico contra todo Ocidente. E começa a ser tarde para acordar.

sábado, 28 de dezembro de 2019

O ataque à Porta dos Fundos e a indignação selectiva.




Assisto com espanto às reacções de consternação ao ataque feito ao Porta dos Fundos. Tenho lido por aí comparações várias ao terrorismo islâmico, ao Charlie Hebdo, até cheguei a ler um texto onde se explicava que era um ataque a quem só queria unir todos através do humor.

É preciso ser claro: é evidente que o especial de Natal dos humoristas brasileiros não justifica o uso de violência. Mas também é preciso ter sentido das proporções e não confundir o arremesso de dois cocktails molotovs a um edifico vazio por um grupo integralista político, com o terrorismo islâmico, e ainda menos com o ataque feito ao Charlie Hebdo, onde os atacantes tinham o objectivo claro de matar.

Nem a Porta dos Fundos passou de repente a ser uma pobre vítima. Os humoristas brasileiros decidiram fazer um especial de Natal com o único objectivo de causar polémica, sabendo que assim teriam sucesso. E decidiram causar polémica escarnecendo da fé dos cristãos. O seu objectivo não foi fazer humor, foi mesmo ofender, certos de que as respostas a este especial, tantas vezes desproporcionadas, seriam suficientes para lhes garantir o sucesso.

E assim foi. Este filme não tem sucesso graças a qualquer mérito próprio, mas só pela polémica que gerou. Infelizmente desta vez a indignação foi longe de mais.

Mas assim como não tenho qualquer problema em condenar quem atacou de forma irresponsável a Porta dos Fundos, também não tenho qualquer problema em condenar quem usa o ódio para se promover.

É das coisas mais espantosas tomar consciência que no tempo em que Bernardo Silva é condenado por fazer uma graça com um amigo africano, em que carreiras são destruídas por graçolas machistas com vinte anos, num tempo onde a linguagem é controlada ao pormenor de modo a não ofender nenhuma minoria, não exista qualquer pudor em zombar com a fé de tantos milhões de pessoas, sobretudo quando centenas de milhares de cristãos são perseguidos, e alguns até mortos, por professarem a sua fé.

A Porta dos Fundos decidiu achincalhar da fé daqueles que são mortos na Nigéria, presos na China, silenciados no mundo Árabe. E não só não foi censurada pelos habituais inquisidores contemporâneos, como aqueles que legitimamente se revoltaram com o filme foram, esses sim, considerados como inimigos da liberdade.

É aliás extraordinário como um cocktail molotov contra um prédio vazio causa bastante mais comoção do que crianças mortas na Síria ou na Nigéria.

Eu não tenho qualquer problema em condenar o ataque à Porta dos Fundos. Mas não tenho paciência para a indignação selectiva, que censura graças com homossexuais, mas se ri com as ofensas aos cristãos, que se indigna com o ataque sem qualquer vítima no Brasil, mas que olha para o lado quando milhares de cristãos são mortos pelo mundo fora.

Espero que de futuro aqueles que se dizem cristãos saibam responder a este género de demonstrações de desprezo e ódio dando testemunho da caridade cristã. Mas também fico à espera que todos os indignados profissionais, que hoje tanto defendem a Porta dos Fundos, demonstrem a mesma indignação da próxima vez que um cristão for morto pela sua fé. E sobretudo, espero que os humoristas brasileiros, que aproveitaram este episódio para se vitimizar, abandonem o discurso de ódio e ataque a quem só quer viver a sua fé sem ser insultado.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Na Síria, mais uma vez o martírio.



Confesso que não sou especialista na complexa política do Próximo Oriente. Existe uma quantidade enorme de povos, de alianças, de movimentos políticos e religiosos, que não são fáceis acompanhar. Para além disso, a informação sobre a situação política nessa zona do globo chega-nos sempre pelo filtro do Ocidente, que tende a apresentar a situação sobre o prisma que é mais conveniente. Basta pensar na guerra civil da Síria, onde terroristas foram sempre tratados como se fossem democratas.

Dito isto, sempre tive alguma apreciação pelos curdos. Desde que me lembro de ouvir falar deste povo estavam regra geral a ser perseguidos por algum ditador ou grupo extremista sanguinário e a resistir.

Mas a minha admiração por este povo aumento sobretudo durante a guerra contra o Estado Islâmico. Lembro de a um certo ponto os curdos serem os únicos que pareciam realmente lutar contra o EI. Sobretudo, quando a perseguição aos cristãos começou no Iraque os curdos pareciam ser os únicos dispostos a lutar para os defender.

Na altura em que a Europa fazia jura de combate ao EI e o Estados Unidos lhes davam força enfraquecendo o governo Sírio, os curdos lutaram, e muitas vezes com sucesso contra esses bárbaros.

Enquanto escrevo estas linhas a Turquia está a atacar o nordeste da Síria, uma zona autónoma, nascida da guerra contra o Estado Islâmico, controlado por uma coligação de curdos, mas também de cristãos e árabes. A desculpa evidentemente é o ataque aos curdos. Erdogan, sem qualquer problema, está a bombardear civis e a usar jihadistas neste ataque. Entre os objectivos está o tomar posse das prisões onde se encontram dezenas de milhares combatentes do Estado Islâmico (que, relembremos, nunca teve grandes problemas com a Turquia). Tudo leva a querer que o ataque Turco não só será levará a mais atrocidades contra o povo sírio, como pode levar ao recomeço da guerra civil que martirizou e destruiu aquele país.

Tudo isto se passa com o consentimento tácito de Trump (que retirou os conselheiros militares americanos daquela zona, permitindo o avanço turco) e a bênção de Putin. Para todos aqueles que viam nestes dois os grandes defensores do Ocidente e da Cristandade contra o islamismo é bom que fique claro que os dois acabaram de entregar os maiores inimigos do Estado Islâmico a um ditador islâmico por mero interesse geo-estratégico. Trump demonstra assim que é igual a Bush e pouco melhor que Obama. Os aliados de hoje sãos os inimigos de amanhã, tudo dependente do interesse americano.

Mais uma vez o povo sírio, especialmente as suas minorias, serão vitimas no grande tabuleiro da geo-política mundial. A guerra de influências entre americanos, russos, iranianos, sauditas, judeus e árabes será mais uma vez paga com o sangue inocente dos sírios. Pouco ou nada podemos fazer. Mas podemos e devemos denunciar.

P.S.: Sobre o tema vale a pena ler a notícia da RR assinada pelo Filipe Avillez assim como ir seguindo o que ele escreve nas redes sociais sobre o tema.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Aleppo: Que Deus nos Perdoe.





Estive ontem na Igreja da Encarnação ao Chiado a ouvir o testemunho da Irmã Guadalupe. Esta freira é missionária e esteve em Aleppo nos últimos anos. Nos últimos tempos tem percorrido o mundo a alertar para a situação que se vive naquela cidade.

É impressionante ouvir o testemunho da irmã e perceber a gravidade da campanha de desinformação de que temos sido alvos no Ocidente. Todos os políticos e media ocidentais vendem a guerra Síria como uma luta dos rebeldes pela liberdade contra o tirânico governo de Assad.

A verdade é que Assad é dos poucos líderes laicos daquela região. A Síria é dos poucos países com liberdade religiosa, onde as mulheres tinham direitos (incluindo a andar de cabeça de descoberta!!) e com total estabilidade.

Os "rebeldes" não lutam por uma maior democracia, mas por uma teocracia, um estado islâmico, onde só o Corão é lei. Os "rebeldes", que na sua maioria nem sírios são, pertencem a grupos extremistas islâmicos, como a Al-Nursa (o braço da Al-Queida na Síria e berço do Estado Islâmico) e a Irmandade Muçulmana.

Ouvir a irmã Guadalupe força-nos a tomar consciência do sangue que está nas mãos do Ocidente quando decidiu ignorar, não apenas as consequências de uma guerra travada por bárbaros, mas a perseguição sistemática aos cristãos na Síria levada a cabo por grupos armados e financiados pelos países "democráticos".

Em nome de interesses políticos e de jogos diplomáticos o Ocidente ignorou o extermínio dos cristãos sírios. Crianças, mulheres grávidas, idosos torturados e mortos sem ter quem os defendesse. As cabeças expostas nas praças sírias, os corpos exibidos em cruzes, os mercados de escravos. Tudo isto foi ignorado com o único objectivo de remover Assad, qualquer que fosse o custo a pagar.

Porque não, não é apenas os Estado Islâmico que promove estes actos bárbaros, mas também grupos de rebeldes apoiados e armados pelo Ocidente (para além disso, o Estado Islâmico só existe na Síria por causa do enfraquecimento do governo, por isso também pelos seus actos o Ocidente é responsável).

Durante a campanha eleitoral americana ouvimos muitas vezes que Trump podia conduzir o mundo a uma guerra mundial. Isso não sei, esperemos que não. O que sabemos é que Clinton e a administração Obama, patrocinaram o genocídio dos cristãos sírios, assim como o martírio de todo aquele povo. Sobre isso nenhum jornalista, nenhum politólogo, nenhum comentador falou. Preferem todos atacar Vladimir Putin, que com todos os defeitos, foi quem garantiu que a Síria não ficasse entregue a terroristas islâmicos. Quando oiço comentar o perigo da aproximação entre Trump e Putin o meu primeiro pensamento é de que pode ser que finalmente os americanos deixem o povo Sírio em paz.

O sangue dos inocente de Aleppo, dos inocentes de toda a Síria, clama por justiça! Diante de uma sociedade hipnotizada pela comunicação social é urgente proclamar esta verdade: A Síria precisa de paz e a paz, neste momento, só é possível com a derrota do Estado Islâmico e dos rebeldes. Apoiar os rebeldes é continuar a apoiar a morte de inocentes, é continuar a apoiar o genocídio dos cristãos sírios.

A Irmã Guadalupe ontem pedia só duas coisas: oração e difusão. Rezemos e não cessemos de gritar ao mundo o que hoje mesmo está a acontecer aos nosso irmãos em Aleppo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

José Sánchez de Río: "Viva Cristo Rei!".





Foi ontem canonizado pelo Papa Francisco José Sánchez del Río. Joselito, como é popularmente tratado, era uma criança de 14 anos que se juntou aos Cristeros, o exército cristão que lutou contra a perseguição religiosa lançada pelo presidente Mexicano.

Foi preso e torturado. Recusou-se sempre negar a sua fé. No dia 10 de Fevereiro de 1928 foi morto. As suas últimas palavras foram "Viva Cristo Rei!".

Em 2012 foi lançado o filme "For Greater Glory -  The True Story of "Cristiada" que conta parte da história da guerra dos Cristeros, incluindo a morte de São José Sanches do Rio. É um belíssimo filme, que se encontra facilmente na internet e que merece ser visto. Foi o actor que representou o papel de Joselito, juntamente com uma criança de 14 anos da terra do mártir, que ontem entregaram as relíquias do novo santo durante a cerimónia de canonização.

Neste tempo, onde tantas crianças morrem mártires, especialmente na Síria, que São José Sanches do Rio nos conceda a todos um Fé firme e corajosa como a dele.

Viva Cristo Rei!

O vídeo não é extarordinário, mas foi a única versão desta cena que encontrei disponível.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Mensagem de Páscoa de David Cameron: "Assim como o corpo sem espírito está morto, também a fé sem obras está morta."




Para surpresa dos cristãos da Europa, no Domingo de Páscoa assistimos ao aparecimento de um novo campeão dos cristãos. David Cameron, Primeiro-Ministro do Reino Unido, saudou os súbditos de Sua Majestade e o resto do mundo com uma belíssima mensagem pascal.
No seu discurso o Primeiro-Ministro afirmou que o Reino Unido é um país cristão. 

Lembrou a importância social do Cristianismo e afirmou-se como defensor dos cristãos que neste momento são perseguidos em vários pontos de África e do Próximo Oriente.

O discurso de Cameron foi muito bom. Numa hora em que o Ocidente parece ignorar, quer as suas raízes, quer a perseguição de que os cristãos são alvo em todo o mundo, ver um líder mundial afirmar tão claramente estes factos acende no coração de todos os cristãos uma grande esperança.

Contudo, existem alguns factos que não podemos, nem devemos ignorar, antes de começarmos a apontar para David Cameron como o campeão dos cristãos.

Antes de mais, é preciso não esquecer que no dia 7 de Maio haverá eleições gerais no Reino Unido. E que todas sondagens apontam para uma corrida apertada, sem ser possível ainda descortinar para quem penderá a vantagem: se para os conservadores de Cameron, se para os trabalhistas de Miliband. 

O que parece ser mesmo certo é que nem um nem outro conseguirão deputados suficientes para terem maioria absoluta, nem mesmo com o apoio de Nick Clegg, líder dos Liberais, que governam em aliança com os conservadores.

Sendo que estas eleições têm duas grandes novidades. A primeira é que, fruto do referendo na Escócia, o Partido Nacional Escocês pode vir a eleger até 50 dos 59 deputados da Escócia. Embora isto sejam más notícias para os trabalhistas, que costumavam dominar a Escócia, a verdade é que o PNE poderá eleger deputados suficientes para viabilizar um governo trabalhista, mesmo que estes consigam menos deputados que os conservadores.
A segunda grande novidade é o Partido Independente do Reino Unido, dirigido pelo carismático Nigel Farage, que neste momento se encontra comodamente instalado no terceiro lugar das sondagens, com 15% das intenções de voto. Embora, devido às particularidades dos sistema inglês, deva eleger apenas 5 deputados.

Se para Cameron o problema da Escócia não é um grande transtorno, uma vez que nunca alcançaria um grande resultado nesse lado da ilha, o Partido Independente está a revelar-se uma grande dor de cabeça.

De facto, Nigel Farage tem conseguido ir buscar votos sobretudo junto do eleitorado conservador. Com as suas ideias eurocépticas e anti-imigração, Nigel Farage tem conseguido conquistar muitos dos que hoje se demonstram desencantados com a crescente burocracia politicamente correcta da União Europeia e com a aparente incapacidade dos líderes políticos em lidar com o crescimento do extremismo islâmico na Europa e no resto do mundo.

E é o salto do partido de Farage, para terceira força política do país, que rouba a Cameron a hipótese da maioria absoluta e que poderá roubar a maioria relativa. E assim, o actual Primeiro-Ministro, que chegou aos conservadores com o papel de romper a hegemonia trabalhista dos anos Blair, arrisca-se a ser apenas uma nota de roda pé entre governos do Labour.

É neste contexto que David Cameron fez esta inusitada mensagem pascal. Perseguido pelos socialistas de Ed Miliband, acossado pelos independentes de Nigel Farage, o Primeiro-Ministro decidiu reafirmar o seu cristianismo, assim como o cristianismo do Reino Unido.
Contudo, que cristianismo é este? Segundo o relatório de 2014 da Ajuda à Igreja que Sofre, o Reino Unido é dos setes países da União Europeia onde o estado da liberdade religiosa é preocupante. Em 2015 o Tribunal dos Direitos do Homem deu razão a quatro cidadãos britânicos cristãos que defendiam que o Reino Unido não protegia os seus direitos à liberdade religiosa. De facto, hoje em dia em Inglaterra a grande maioria dos cristãos tem medo de se afirmar como tal, por ter medo de ser descriminado socialmente ou no trabalho.

Para além disso, as leis contra o Discurso de Ódio têm sido usadas contra pregadores que em público falam contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou defendem que a homossexualidade é um pecado. Em Julho de 2013 a polícia prendeu um pregador que publicamente referiu a homossexualidade como um pecado.

Para além disto, várias instituições cristãs, tais como escolas ou centros de acolhimento, têm sido multados ou fechados por defenderem a doutrina cristã sobre a sexualidade. Há pouco tempo foram retiradas crianças a uma família de acolhimento por esta se recusar a ensinar a homossexualidade como uma prática normal.

Em 2013 o milionário Barrie Drewitt-Barlow anuncia que vai intentar uma acção legal contra para que lhe seja permitido casar-se na Igreja de Inglaterra.

Por isso, aparentemente, David Cameron promete defender os cristãos por esse mundo fora, mas nãos se lembrou ainda de defender os cristãos ingleses.

Não pretendo com este texto diminuir o discurso de David Cameron. Foi um bom discurso, que exigiu coragem e, acima de tudo, um discurso muitíssimo necessário. O facto de um líder de um grande país ocidental publicamente relembrar as raízes do ocidente e denunciar a perseguição de que os cristãos têm sido alvo é importantíssimo e não posso deixar de aplaudir esse facto.

Por outro lado, não é minha intenção amesquinhar o discurso do Primeiro-Ministro inglês. O facto de o discurso ser conveniente, de nunca o ter feito antes e de se mostrar impotente para combater a discriminação aos cristãos no seu próprio país, não significa que a mensagem de Cameron não seja sincera ou que não exija coragem. 

Contudo, não alinho numa onda de entusiasmo, que eleva David Cameron a grande líder mundial e defensor da cristandade. Bem sei que o Reino Unido é protestante, e que por isso para eles a Fé basta. Mas eu, como católico, estou como São Tiago: Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vós lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até se satisfazer”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.

P.S.: Podem ler aqui o discuros que David Cameron fez nos 400 anos da da Biblía do Rei Jaime. Foi em 2011 e também nessa altura o Primeiro-Ministro inglês afirmou a sua fé e defendeu que o Reino Unido é um pais cristão.