Confesso que tenho pouca ou nenhuma paciência para as eleições — e ainda menos para a campanha eleitoral. É a terceira vez, em três anos, que vamos a votos. De cada vez, o país para, a aplicação do PRR atrasa-se e projetos públicos ficam em suspenso. Tudo isto porque o Primeiro-Ministro foi pouco prudente, e a oposição aproveita (na ausência de ideias) para espremer até ao fim o tema.
We few, we happy few, we band of brothers; For he today that sheds his blood with me Shall be my brother
sexta-feira, 16 de maio de 2025
AD: NÃO O VOTO ÚTIL, MAS O VOTO NECESSÁRIO
terça-feira, 12 de março de 2024
O Inverno (e a Primavera, o Verão e o Outono) do nosso descontentamento
Olhando para as reacões às eleições de Domingo parece-me que o centro-direita não percebeu o que aconteceu. Continuo a ver a AD a afirmar que ganhou as eleições, quando a verdade é que o máximo que pode afirmar é que não perdeu. Neste momento tem apenas mais 2 deputados que o PS (sendo que, embora seja pouco provável, ainda pode empatar, ou até ficar com menos) e menos deputados do que a esquerda unida. A verdade é que a AD teve um dos piores resultados de sempre do centro-direita, pouco acima de há dois anos e que precisa que ou o PS ou Chega no mínimo se abstenham para aprovar qualquer coisa no Parlamento. Seja isto o que for, não é uma vitória.
Mas, ao contrário do que tinha acontecido até agora quando o centro-direita tinha um mau resultado, a verdade é que o PS tem um resultado ainda pior. Perde mais de 40 deputados e mais de 500 mil votos. O país mostrou muito claramente que está farto do PS e que não o quer no poder, nem sequer em conjunto com a esquerda.
Mas quem derrotou o PS não foi a AD, que repete mais ou menos o resultado de há dois anos quando o PS teve maioria absoluta. Quem derrotou a o PS foi o Chega. Com mais de um milhão de votos e quase cinquenta deputados, confirma-se não apenas como o terceiro partido, como se torna também no terceiro partido com maior grupo parlamentar na democracia portuguesa. Ignorar que os portugueses quiseram tirar o PS do poder e que expressaram esse desejo sobretudo através do voto no Chega é um erro que podemos vir a pagar caro.
Estas eleições vieram por a nu algo que já era evidente há anos, mas que o refúgio da abstenção sempre permitiu disfarçar. Hoje há um total divórcio entre a política e todos os seus protagonistas (partidos, políticos, comentadores, etc) com a sociedade. As eleições, que nenhum dos dois grande partidos ganhou, e que viram crescer o partido que se afirma como anti-sistema deixaram claro que boa parte do povo não tem qualquer interesse nesta elite.
A elite política vive hoje cada vez mais em circuito fechado. Transitam directamente das juventudes partidárias para uma qualquer avença e daí para o Parlamento ou um espaço de comentário. Vivem fechado no seu círculo, alimentados pela bolha do Twitter, perdidos em tricas que não interessam a ninguém a não ser aos que vivem nessa bolha. Debitam discursos redondo sobre os temas que os comentadores (que vivem na mesma bolha) garantem ser essenciais, mas que nada dizem à população. Pregam com ar douto, sempre com a pretensão de ensinar ao povo sobre o que se deve preocupar, como deve vota, quais as grandes causas civilizacionais. Sobretudo ignoram totalmente o dia-a-dia dos portugueses, tratando com desprezo qualquer preocupação que vá contra a sua narrativa.
Do outro lado vivem os eleitores, com trabalhos que no topo da carreira pagam o mesmo que ganha um qualquer assessor de 20 anos, que andam de transportes públicos, que tem os filhos na escola do Estado, que tem de utilizar o SNS. Os eleitores que vivem em casas cada vez mais caras, que vêm os filhos a viver pior que a sua geração, sem qualquer esperança de conseguir melhorar a sua qualidade de vida.
Do outro lado estão também as associações da sociedade civil, sem qualquer ligação partidária, que fazem trabalho político, trabalho cultural, trabalho social, sem qualquer apoio ou sequer consideração da parte do poder.
É evidente que num país cada vez mais envelhecido, mais pobre, com serviços públicos mais degradados, sem opções profissionais, e em que os políticos vivem fechados sobre si mesmos, o descontentamento só podia aumentar. E isto era evidente nos últimos anos, com o aumento constante da abstenção. Não é agora que as pessoas não confiam nos políticos, é há anos. A grande diferença é que nesta eleição houve um partido que soube manipular esses descontentamento.
Não tenho dúvida que Chega não é solução. A única coisa que sabe fazer é amplificar os problemas da população sem propor qualquer solução exequível para eles. Estou convencido que a melhor forma de esvaziar o Chega seria dar-lhes responsabilidades no Governo. No instante em que tivessem que resolver qualquer problema, ficaria claro a sua inutilidade. Mas o facto de o Chega não ser solução, não significa que os problemas de que fala não existam. Menorizar as pessoas que votam no Chega trata-la como tontas, como analfabetas, com paternalismo, é meio caminho andando para continuar a dar mais força a Ventura. O Chega não é a causa da crise do sistema, é a consequência.
Se o PSD quer realmente voltar a ser um grande partido tem que começar por tirar a cabeça da areia. Tem de levar a sério esta separação entre o seu partido e a população. Tem de ir conhecer os problemas reais dos portugueses e propor caminhos claros para os resolver. Sobretudo tem que romper a bolha em que vivem os políticos. Uma bolha de impunidade, onde carreiras se constroem apenas com base em apoiar os candidatos certos, onde centenas de pessoas vivem de avenças ou contratos públicos, onde para se ter sucesso nos negócios não é necessário qualquer jeito, apenas os contactos certos.
Tem de abandonar a agenda ideológica dos comentadores e dos lobbys, e ouvir aqueles que durante décadas foram o seu eleitorado. Ligar menos à estrutura partidária e mais à sociedade civil. Tem de deixar cair barões e caciques, com cadastros dúbios. Tem de estar juntos das populações, não apenas nas eleições, mas todo o ano. Tem de saber ser um partido popular, sem ser populista.
Sobretudo, tem de ter um rumo claro, uma ideia para o país, um conjunto de ideias que defende. As pessoas tem de olhar para o PSD e saber para onde quer ir e como tenciona lá chegar. Como vai reformar a justiça para que esta seja célere e igual para ricos e pobres? Como vai reforma o ensino para que as famílias possam educar em liberdade os seus filhos? Como vai reformar a saúde para todos tenham acesso a ela? Como vai reformar o Estado para que este seja eficiente? Que visão tem para a habitação, os transportes, a economia? Veja-se quão ridículo perder o tempo a discutir o TGV quando há um país inteiro que nem uma camioneta tem para ir de casa para o trabalho!
Portugal atravessa uma clara fase de descontentamento geral. Hoje há uma total falta de fé na política e as pessoas não têm qualquer esperança de que a situação vá melhorar, seja o governo PS ou PSD. Se o cenro-direito quer esvaziar o populismo só tem um caminho: tirar a cabeça da areia, romper a bolha que hoje envolve os partidos, e fazer política no verdadeiro sentido do termo: servir a coisa pública.
segunda-feira, 11 de março de 2024
Algumas notas sobre as eleições
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
CDS razões de um voto
1. Uma mudança de época.
Vivemos um tempo de fim de uma era. A civilização ocidental, construída pelo cristianismo, rejeita as suas origens. Se é verdade que o Ocidente se tem descristianizado nos últimos séculos, aquilo que é hoje diferente é que aquelas evidências, fruto da cultura cristã que ainda sobravam, ruíram completamente nos últimos vinte anos.
Hoje a cultura dominante professa um homem criado à sua imagem e semelhança, que se define a si mesmo. Que define quando começa e termina a vida, que define a sua sexualidade, que define onde começa e termina a dignidade. Uma cultura que aceita tudo excepto a possibilidade da Verdade.
O resultado político desta cultura reflecte-se num Estado que procura moldar a realidade através do poder. Um Estado que define o que é vida e o que não é, o que é a família, quem é homem e quem é mulher. Evidentemente que o resultado é um Estado totalitário, que não admite a própria realidade.
É por isso urgente procurar espaços na política onde seja possível defender a liberdade de afirmar a Verdade. Antes de mais, que o Homem é criatura de Deus, que é anterior ao Estado, e que a sua Dignidade e Liberdade não está dependente do Estado ou da sociedade. Que o Estado existe para servir o Homem, para defender a família e a sua liberdade, os corpos sociais, ou seja, que exista para fortalecer a sociedade civil e não para a dominar.
Temos a tentação hoje de olhar para a política pelo critério do mundo, que a divide em direita e esquerda. Esta divisão, por muito facilitadora que seja, é redutora. A verdade é que, quer à direita quer à esquerda, encontramos a mesma mentalidade onde Deus foi substituído pelo Estado, pelo Mercado, pela Pátria, ou por outro qualquer chavão ideológico. A mim pouco me interessa a direita e a esquerda, o que me interessa realmente é encontrar uma realidade política que defenda a Dignidade e a Liberdade do Homem e da sociedade.
2. O paradoxo entre ideal e realidade.
O empenho político nasce de um desejo de justiça, de verdade, de beleza. Nasce de um pulsar do coração que nos leva a desejar um mundo melhor.
Ao mesmo tempo, a política é feita em geral de pequenas coisas e de grande limites. A política está sempre limitada, antes de mais pela nossa incapacidade e disponibilidade. Mas sobretudo, limitada pelo liberdade do outro. É impossível em milhões de pessoas que tudo seja como nós desejamos.
Temos por isso duas soluções. Rejeitar qualquer compromisso, e viver de tal maneira presos ao ideal que acabamos sós e impotentes, ou perceber como é possível, dentro dos limites que a realidade impõe, servir o ideal.
É um equilíbrio nem sempre fácil. É fácil cair na trincheira da ideologia, em que o ideal se transforma no único prisma porque olhamos a realidade até a reduzirmos a uma ideologia. Não é mais difícil, a coberto do realismo utilitário, descartar o ideal com a desculpa da eficácia.
Por isso a política vive nesta tensão entre o ideal e o real. Exige um discernimento constante em cada circunstância sobre como é possível viver o ideal em cada decisão concreta.
Este paradoxo está especialmente presente na hora de votar. Nenhum candidato é o ideal, todos têm defeitos ou aspectos com os quais discordo. E todos nós preferíamos outros candidatos quaisquer. Mas o facto é que nas eleições somos chamados a escolher entre os candidatos que há, e não entre os candidatos que sonhámos. E por isso a alternativa é entre escolher aquele que mais se adequa ou desresponsabilizar-nos (com a desculpa que nenhum serve) da política.
3. Porque voto CDS.
Nas eleições de 30 de Janeiro, é preciso escolher entre os vários partidos qual aquele que melhor defende a Dignidade do Homem e a sua liberdade. Existem várias questões concretas que serão importantes nesta legislatura e que ajudam a discernir sobre o voto.
A primeira questão é a da eutanásia. A legalização da morte a pedido significa que o Estado reclama para si o direito de definir em que circunstâncias a vida humana tem ou não valor. E se o Estado pode decidir sobre a dignidade humana, significa que pode decidir sobre qualquer outro direito. Se há circunstâncias em que o Estado pode decidir que é licito matar, significa que haverá sempre circunstâncias onde o Estado pode decidir retirar qualquer outro direito fundamental.
Por isso, não posso votar num partido que não rejeita a eutanásia. Bem sei que provavelmente, e independentemente do meu voto, a questão será aprovada no Parlamento. Mas existe um diferença fundamental entre não conseguir travar um lei injusta e dar o meu voto a quem a vai aprovar.
Mas a questão da dignidade humana não se esgota no direito à vida. O respeito pela dignidade de cada pessoas concreta em cada circunstância, significa também respeitar a dignidade dos trabalhadores, dos mais pobres, dos doentes, de todos, incluindo daqueles que cometem crimes. Porque ou a dignidade humana é objectiva e independente da circunstância, ou então está à disposição do poder.
Um segundo ponto essencial é a liberdade de educar. E não se trata apenas da liberdade de escolher a escola, ou da autonomia das escolas (que também é importante). Mas sim de reconhecer que a missão de educar cabe antes de mais à família e que ao Estado cabe auxiliar as famílias, não substituir-se a elas. Defender o fim da doutrinação obrigatória nas escolas e liberdade dos pais para escolher a educação dos filhos é essencial.
Um terceiro ponto essencial é liberdade dos corpos sociais. Portugal é um país profundamente estatista, onde o Estado tem a tendência de absorver qualquer iniciativa fora da sua esfera. É necessária uma sociedade forte, que seja capaz de responder aos problemas sociais. Por isso apoiar os corpos sociais (a Igreja, as associações, as IPSS, etc) é essencial para uma sociedade livre.
Por fim, também é importante a liberdade económica, porque esta é essencial para garantir a dignidade humana. O homem é sempre digno, mas quando vive na pobreza a sua dignidade não é respeitada. É preciso criar condições para que cada pessoa possa trabalhar dignamente e viver dignamente do seu trabalho. E isso não é possível com a asfixia fiscal em que vivemos. É preciso uma sociedade onde seja possível criar riqueza.
De todos os partidos, aquele que mais claramente tem defendido todas estas questões é o CDS. Fá-lo no seu programa eleitoral e tem feito delas os temas centrais da sua campanha. Por isso, não apenas voto como apelo a que se vote no CDS. Não por um qualquer clubismo, mas por ser o partido onde reconheço de forma mais evidente a defesa das questões que a mim me parecem mais essenciais.
Evidentemente que com isto não quero dizer que o CDS seja perfeito ou a única opção. Mas não tenho dúvidas que é aquele que de forma mais clara defende a Dignidade Humana e a sua liberdade.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
O voto (in)útil
Têm-se multiplicado nos últimos dias os apelos ao voto útil por parte do PSD. Eu compreendo que perante a incompetência do actual governo haja a tentação de votar nos sociais-democratas. Mas a verdade é que para o voto ser útil é preciso que se vote numa alternativa. E olhando para o actual PSD, não consigo perceber como pode pretender ser uma alternativa ao PS de Costa.
É evidente que o PSD tem activos bons, bastante superiores ao PS. Penso por exemplo em Joaquim Miranda Sarmento ou em Ricardo Baptista Leite. Mas infelizmente, já percebemos que neste PSD quem manda é Rui Rio, que exerce o seu poder da forma despótica e mesquinha que lhe é habitual. Para o líder laranja, o partido é ele e só ele. Por isso, para saber se o PSD é realmente alternativa ao PSD, é preciso avaliar se Rio é um alternativa a Costa, e a resposta parece-me bastante evidente.
Do ponto de vista ideológico, pouco ou nada distingue Costa e Rio. E o primeiro a admiti-lo foi o próprio Rio, quando explicou que só não era do PS por causa de Sá Carneiro. Mas mais do que o socialismo, o que une ideologicamente Costa e Rio é a sua maleabilidade: Costa consegue passar de adversário a aliado do PC e BE num piscar de olhos, conforme lhe convém. Já Rui Rio, nuns dias quer aliar-se ao CDS, noutros vê com bons olhos acordos com o PS. Relativamente ao Chega, passa da abertura ao desprezo pelos seus eleitores conforme o dia. A verdadeira ideologia de Rio, tal como a de Costa, é o poder.
As únicas ideias que Rio parece disposto a defender com convicção são a agenda fracturante do Bloco de Esquerda. Para isso, está disposto a ignorar o seu eleitorado, os militantes e até o Congresso do seu partido.
Depois há o carácter de Rio, que mais uma vez em pouco ou nada difere de Costa. Tal como Costa passou anos a torpedar a direcção do seu partido. Com a diferença de que Costa o fez enquanto estavam na oposição e Rio o fez enquanto Passos Coelho tentava salvar o país. Também para Rio lhe é indiferente trabalhar com pessoas de reputação duvidosa. Aliás, conquistou o partido com o apoio dos grande caciques sociais democratas, com currículos tão variados como Malheiro ou Rodrigo Gonçalves. Tem uma relação ténue com a verdade, como ainda recentemente se viu na campanha interna do PSD onde, após prometer que não faria campanha, passou um mês a enviar SMS a todos os militantes. Apesar de todos os banhos de ética, já ficou claro que Rio é tão confiável como Costa.
Mas as semelhanças com Costa não acabam aqui: também Rio tem uma relação difícil com o escrutínio público. Acabou com os debates quinzenais, vive em guerra com a imprensa, purga a oposição interna, desobedece ao Congresso. A única diferença é que Costa disfarça melhor o desprezo pela democracia.
A verdade é que quer nas ideias, quer no carácter, pouco ou nada distingue Costa de Rio. O presidente do PSD só vai para a direita quando é obrigado, de resto é feliz a navegar no Bloco Central. Aliás, é preciso não esquecer que Rio foi a aposta daquele PSD dos interesses, dos favores e dos tachinhos que se viu apeado do poder com Passos Coelho e só sossegou quando lá conseguiu colocar Rui Rio.
Votar Costa ou votar Rio pouco muda, a não ser que de facto o PSD tem alguns deputados melhores que os do PS. Votar neste PSD é votar na continuação das mesmas políticas deste PS, mas com outras caras. A verdade é que um voto em Rio é um voto inútil.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
O último bastião
A recusa do PSD em coligar-se com o CDS é uma boa notícia. Evidentemente que dificulta a vida ao CDS, que nas actuais circunstâncias terá de trabalhar muito para assegurar um grupo parlamentar. Mas o actual PSD não é o PSD de Passos Coelho, nem sequer o de Durão Barroso e menos ainda o de Sá Carneiro. O actual PSD em pouco ou nada se distingue do actual PS. Nem nas políticas que defende, nem nos métodos que usa.
Basta tomar como exemplo a questão da eutanásia, onde Rio manobrou o que pode para conseguir a sua aprovação. De facto, Rio fez bastante mais pela legalização da morte a pedido que António Costa. E de resto, nada separa, neste tema, Mónica Quintela de Isabel Moreira, ou André Coelho Lima de Bacelar de Vasconcelos. Se foi assim num grupo parlamentar escolhido pela anterior direcção, num escolhido por Rio será seguramente pior.
E quanto aos métodos, também pouco os parece distinguir. Rio apregoa banhos de ética mas depois garante o poder recorrendo aos caciques mais poderosos do seu partido como os Gonçalves ou Malheiro. Até ressuscitou António Preto! Tal como a Costa, pouco ou nada lhe preocupam as suspeitas que rodeiam os seus apoiantes, desde que estes lhe sejam úteis.
A grande diferença entre Rio e Costa não é doutrinal ou de honestidade, é mesmo de competência. E nesse campo quem fica a perder é o líder social-democrata.
Seria por isso muito complicado ao CDS justificar a coligação com este PSD. Como poderia um partido que esteve na linha da frente na luta contra a eutanásia apelar ao voto em Rio? Eu pessoalmente não o faria.
Por isso, por muito difícil que seja, ir a votos sozinho é bom e necessário. Porque o CDS tem neste momento uma posição única na política portuguesa: é o último bastião na defesa de um Estado baseado na dignidade da pessoa humana.
Temos à esquerda um conjunto de partidos para quem o estado é a origem de todos os direitos, incluindo do direito à Vida e à família. Á direita temos dois partidos: um que substitui Estado por mercado achando que assim resolve todos os problemas, outro para quem a dignidade humana depende do Código Penal ou dos pais.
O CDS é assim um último bastião para aqueles que acreditam que a pessoa deve estar no centro de toda a acção política. Para aqueles que acreditam numa sociedade civil forte, apoiada por um Estado solidário. O bastião dos que acreditam que toda a vida é digna, desde a concepção à morte natural, incluindo todas as fases entre estes dois acontecimentos. O bastião dos que amam Portugal, a sua história e a sua cultura e que por isso sabem que a nossa vocação não é estar fechados ao mundo. O bastião dos que acreditam nas liberdades individuais, mas sabem que o Estado é necessário para garantir que todos possam exercer essas liberdades. O bastião contra toda a tirania, do Estado ou do mercado, dos sindicatos ou dos patrões, à direita e à esquerda.
Sim hoje somos poucos e estamos frágeis. Gastámos demasiado tempo e energia numa guerra civil inútil. Mas o CDS é hoje mais necessário do que nunca. Por isso, é hora de enterrar machados de guerra, de colocar os conflitos em pausa, e por muito que doa, lutar por um bom resultado no dia 30 de Janeiro. Não se trata de defender uma direcção ou de tentar salvar um partido. Trata-se simplesmente de garantir que no dia 31 de Janeiro ainda haverá na Assembleia da República um grupo parlamentar que defenda a dignidade humana do princípio ao fim.



