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quinta-feira, 11 de abril de 2024

Debater o aborto: quanto vale o embrião?



Nos últimos tempos voltou ao debate público a questão do aborto. É possível notar uma mudança profunda neste debate. Se em 2007 o centro do debate era o valor da vida intra-uterina, neste momento esse assunto é completamente ignorado, sendo o aborto apresentado como se fosse uma mera questão de saúde feminina. Isso nota-se aliás na linguagem, quando se fala em direitos sexuais e reprodutivos.


Ora, se é verdade que os direitos da mãe são uma parte importante na questão do aborto, a questão realmente de fundo é saber qual o valor da vida por nascer. Porque se a vida que está no ventre da mulher não tem valor, então a discussão do aborto é apenas absurda. O aborto seria um acto médico qualquer e não fazia qualquer sentido ter sequer legislação especial. Mas se a vida intra-uterina tem valor, então a discussão só pode ser a partir de que momento é que ganha esse valor: porque é que as 9 semanas pode ser eliminado e às 11 não? Qual o critério para decidir o momento em que o embrião passa a mercer protecção jurídica?

A biologia é muito simples: a partir do momento da fecundação há um ser vivo, com ADN próprio, que pertence ao género humano. Ou seja, a partir da fecundação há um novo Ser Humano. Isto é que o a ciência afirma. Aqueles que se opõem ao aborto afirmam que este facto, o simples facto de ser humano, é suficiente para que à aquela nova vida seja reconhecida toda a sua dignidade e deve por isso merecer toda a protecção legal.

Quem pelo contrário afirma até um certo prazo da gravidez o aborto deve ser legal afirma que para lhe ser reconhecido a dignidade não basta existir, tem que ter mais alguma característica. O seja, nega que o ser humano por si mesmo mereça protecção legal, mas que essa protecção depende do reconhecimento social do seu valor. Por ser um amontoado de células, por o coração não bater, por não ter sistema nervoso central, não é verdadeiramente humano como nós.

Podemos dar as voltas que quisermos, adocicar o debate, usar eufemismos e siglas, mas a verdade é simples: defender que o aborto é legal é defender que a dignidade do ser humano não é inata mas sim definida pelo poder. Está longe de ser a primeira vez na história que isto acontece e os resultados desta lógica são tragicamente conhecidos.

Eu percebo que há desafios gigantes ligado à gravidez. Desafios que afectam as mulheres. Mas esses desafios têm que ser enfrentados à luz do facto de que no útero de uma mulher grávida está uma vida humana. Ignorar este facto, desumanizar o embrião ou o feto, pode ajudar a sossegar a consciência, mas não resolve nenhuma injustiça. Pelo contrário agrava-a.

Para o mundo contemporâneo é mais fácil ignorar a questão da vida por nascer. É mais fácil dizer que a mulher tem na barriga uma coisa, que depois, num passo de magia, se transforma num bebé. Porque reconhecer que ali está um bebé significa enfrentar o horror dos milhões de vidas ceifadas anualmente pelo aborto. Reconhecer a dignidade infinita da vida por nascer significa dar-se conta da monstruosidade que a cultura do aborto introduziu no nosso tempo. E por isso é mais fácil esquecer o bebé, e reduzir o aborto a uma mera questão da intimidade da mulher.

Respeito o drama das mulheres que não desejam ter os seus filhos, das mulheres que procuram aborto ilegal, das mulheres que estão em situações de dificuldade e estão grávidas. E defendo uma sociedade que apoia e acolha essas mulheres, assim como todas as mulheres grávidas. Mas a solução para um drama, a solução para uma injustiça, não passa por ignorar que o aborto elimina uma vida. O drama do aborto é, antes de mais, o drama de uma vida que existe e que merece ser defendida. 

quarta-feira, 27 de março de 2019

O aborto não diminui, só aumenta a cada ano.





Li por aí que o número de aborto em Portugal continua a descer. Infelizmente é mentira porque o aborto não é reversível, logo o número está sempre a aumentar. Neste momento já são mais de 130 mil crianças mortas no ventre materno legalmente no nosso país. Cada uma destas mortes conta. Não são uma estatística, cada uma delas representa uma tragédia.

O que diminuiu foi o número de aborto praticado anualmente. E isso é bom, porque em cada ano seja praticado menos abortos é bom. Mas não retira nada ao drama de sabermos que no nosso país se praticaram mais de 15 mil aborto no ano passado.

Para além disso é preciso contextualizar estes números. Durante alguns anos o número de aborto praticado diminuiu, mas o número de gravidezes diminuiu ainda mais. Por isso, de facto o aborto por gravidez aumentou, ou seja, era cada vez maior a proporção de gravidezes que terminavam em aborto. Em 2015 uma em cada cinco gravidezes terminava em aborto.

Não conheço os dados de 2018, mas sei que é desonesto dizer que a prática do aborto está a diminuir sem analisar se o número de gravidezes aumentou ou diminuiu. Seria o mesmo que afirmar que o número de negativas numa escola diminuiu após a escola ter ficado sem alunos!

Há uma frase, atribuída a Estaline mas sem grande certeza, que diz “um morto é uma tragédia, milhares de mortos é estatística”. Infelizmente esta frase aplica-se totalmente aos números do aborto, onde a estatística tenta mascarar o facto de que cada uma destas mortes é uma tragédia.

O trabalho mais urgente do povo pró-vida é relembrar continuamente o valor de cada vida humana. É criar a consciência de que cada vida por nascer é um Ser Humano com igual dignidade a cada um de nós. É não deixar esquecer que cada um dos quinze mil bebés abortado em Portugal são vítimas de uma lei iníqua e de uma sociedade injusta, que trata a vida intra-uterina como uma coisa.

A luta contra o flagelo do aborto é urgente. Não é, nem pode ser assunto menor. Lutar contra o aborto é lutar por uma sociedade onde cada Vida Humana tem valor, é respeitada e protegida. É lutar contra a violência contra os mais fracos, contra a injustiça contra os mais desprotegidos. Lutar contra o aborto é lutar por uma sociedade onde a Vida vem em 1º lugar.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Advento: a espera daqu'Ele que já É. - Partilha, Dez. 2018





Escrevo estas linhas a menos de um mês de nascer o meu terceiro filho. É provável que quando as estiverem a ler já o meu filho Zé Maria esteja em casa com os pais e os irmãos (Deus o queira!). A espera do nascimento de um filho, ainda por cima tão próximo do tempo do Natal, não pode deixar de me levar a meditar mais profundamente no tempo do Advento.
O Advento é o tempo da espera, da espera desse Menino que nos foi dado, desse Menino que é Deus feito homem. Mas esta espera é também a espera de alguém que já é, que já existe. Assim é como qualquer pai que espera o nascimento do seu filho, assim foi também para a Virgem Maria e para São José.
Porque a escritura deixa-nos claro algo que a ciência só conseguiu provar centenas de anos depois: que dentro do ventre de uma mãe está uma pessoa. Se hoje com a biologia sabemos que desde o momento da concepção estamos diante de uma nova vida, um Ser Humano que, embora totalmente dependente da mãe, tem uma identidade biológica própria, pela fé a Igreja ensina-o há dois mil anos.
Neste tempo de Advento viremos os olhos para Maria Santíssima. O Anjo anuncia-lhe que vai ter um filho. Diz-lhe também que a sua prima Isabel concebeu um filho e que já é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril. Maria corre a visitar sua prima. Entra na casa, saúda Isabel e esta, alertada pelo filho que cresce no seu seio, reconhece que está diante do Seu Senhor. Como é isto possível? Jesus tem no máximo uma semana, pouco mais é do que um amontoado de células. E contudo, aquele amontoado de células é Deus feito Homem. Deus fez-se célula! E o primeiro a reconhecê-lo e a anunciá-lo, como voltará a fazê-lo no Jordão trinta anos depois, é o seu primo João que ainda nem nasceu!
Todos os dias a Igreja relembra este mistério, nas palavras do Angelus. Todos os dias dizemos “O Anjo do Senhor anunciou a Maria e ela concebeu pelo Espírito Santo (…) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
O Advento é tempo de mais uma vez relembrar que a nossa Fé não é sentimental ou apenas espiritual, mas profundamente carnal: Deus encarnou! Deus quis ser como nós!
Neste tempo de Advento meditemos em Maria, que acreditou desde o primeiro instante. Meditemos naquela jovem, mais jovem que muitos de nós, que durante nove meses viveu esta intimidade com Deus, de O trazer no seu ventre.
A Fé da Igreja ao fazer memória (ou seja ao tornar presente hoje) deste Deus escondido no seio de uma Virgem, ao fazer memória desta espera do Seu nascimento, proclama a santidade da vida por nascer.
No Advento esperamos Jesus que vai nascer mas que já existe. Por isso ainda hoje em Nazaré, no local da Anunciação, estão as palavras: Aqui o Verbo se fez carne! Deus fez-se carne com o Sim de Maria. Ali começa a sua maternidade.
Neste Advento pensemos em Maria, imagem perfeita de todas as mães. Pensemos como amou aquele filho desde o primeiro momento em que teve consciência da sua existência. Pensemos em João Baptista, que exulta de alegria ao reconhecer naquele monte de células a encarnação Divina. Pensemos em Isabel que proclama diante da jovem prima “Bendita és tu entre todas as mulheres, como me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?”. E como Maria, João Baptista e Isabel esperemos também nós o nascimento deste Menino. E à imagem desse Menino, que já dentro do ventre materno era Deus, olhemos assim para todas as crianças que já existem, mas ainda não nasceram.