Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Ventura: o Homem que levou Seguro a Belém



Muitos resmungos tenho ouvido sobre o eleitorado do PSD, do CDS e da IL ter elegido António José Seguro para Presidente. Mas o principal responsável por termos, ao fim de vinte anos, um Presidente do Partido Socialista é André Ventura.

O auto-intitulado novo líder da Direita, que teve menos votos que a AD, passa a vida a explicar que é o líder da oposição, que o Governo é uma desgraça, que a IL é de esquerda, que o CDS morreu, que são todos do “sistema”, que todos vivem de tachos — e depois fica muito espantado por ninguém lhe dar o seu apoio.

Ora, Ventura não pode querer afirmar-se como o líder de uma revolta contra todos os outros partidos e, ao mesmo tempo, querer ser eleito com o apoio desses mesmos partidos.

O líder do Chega sempre afirmou que não queria ser Presidente de todos os portugueses. Logo, não pode ficar espantado por aqueles de quem não quer ser Presidente não votarem nele.

Vir agora lamentar-se porque aqueles que sempre desprezou e insultou não o apoiaram é fazer a figura da criança que, na escola, bate em todos e depois não percebe porque é que ninguém quer brincar com ela.

Se Ventura considera que ter um Presidente do PS é uma ameaça tão grande para o país que exigia a união de toda a Direita, então a primeira coisa que tinha de fazer para promover essa união era não concorrer.

Ele sabia perfeitamente que nunca seria eleito. Sabia perfeitamente que, passando a vida a destratar os outros partidos de Direita, jamais teria o seu apoio. Portanto, se queria mesmo um Presidente de Direita — se considerava que era urgente uma união à Direita — tinha uma solução simples: não se candidatar e procurar uma figura de consenso capaz de fazer pontes.

Mas assim não quis. Preferiu concorrer, marcar pontos políticos, fazer teatro, proclamar-se líder da Direita — e, com isso, colocar António José Seguro em São Bento.

Todos os apoiantes de Ventura hoje amargurados pela vitória de António José Seguro deviam ter consciência de que o principal culpado dessa eleição é o próprio Ventura, que decidiu ocupar todo o espaço da Direita mesmo sabendo que iria perder na segunda volta. Mais uma vez, o líder do Chega colocou a sua ambição pessoal à frente do país — e, mais uma vez, encontrou várias pessoas dispostas a apoiá-lo.

E assim, aqueles que apoiam Ventura, fazendo loas à “nova Direita”, pura e imaculada, que jamais se sentaria à mesa com socialistas, continuam a ser a máquina de oxigénio que permite ao PS manter-se vivo.

O PSD tem muitas culpas nestas eleições, a começar por ter preferido um candidato que agradasse ao aparelho em vez de um candidato que convencesse o país. Mas quem garantiu verdadeiramente a vitória esmagadora de Seguro foi a ambição de Ventura, servida pelos “puros” da Direita, que hoje ajudaram a ressuscitar o PS.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

POLÍTICA: O QUE TEMOS PARA OFERECER?

 

Intervenção no encontro da Companhia das Obras sobre Política e Eleições

1. POVO VS MASSA
No sexto ano da IIGG, no Natal de 1944, na sua mensagem radiofónica, o Papa Pio XII afirmava:

“Povo e multidão amorfa ou, como se costuma dizer, «massa», são dois conceitos diferentes. O povo vive e move-se por vida própria; a massa é, por si mesma, inerte, e só pode ser movida do exterior. O povo vive da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais — no seu próprio lugar e à sua maneira — é uma pessoa consciente das suas próprias responsabilidades e das suas próprias convicções. A massa, pelo contrário, espera o impulso do exterior, sendo um joguete fácil nas mãos de quem quer que explore os seus instintos ou as suas impressões, pronta a seguir, sucessivamente, hoje esta, amanhã aquela bandeira.”

Olhando para o que têm sido as últimas semanas da campanha eleitoral, e sobretudo a campanha da segunda volta, penso que é difícil não pensar nestas palavras de Pio XII, que o Padre João recordava na lição Poder e Moral, a Comunidade Política, que serviu de base a este encontro.

Penso que todos nós já nos demos conta (e provavelmente já o demos conta também em nós), de como o debate sobre as presidenciais se restringiu a um conjunto de bandeiras: democracia contra o fascismo, liberdade contra o socialismo, direita contra esquerda. Quem de repente aterrasse em Portugal, e nada conhecesse do país, diria que este se dividia entre fascistas e socialistas.

Ora, a mim não me parece que isto seja verdade, nem me parece um juízo razoável sobre o que está em causa nestas eleições. E parece-me sinal de uma sociedade polarizada, onde o outro, aquele que pensa diferente de mim, que vota diferente de mim, é um adversário, é um inimigo, é um impedimento à minha felicidade e ao bem comum.

2. A TRINCHEIRA IDEOLÓGICA

Claro que isto veio ao de cima nestas presidenciais, mas não surgiu agora. Hoje, em qualquer tema, há o dever moral de erguer uma trincheira: guerra da Ucrânia, na Terra Santa, na política americana, qualquer que seja o tema — só há bons e maus. E o dever dos bons é eliminar os maus.

Hoje, tanto no debate público como, tantas vezes, entre nós, excluímos a possibilidade de o outro ser um bem. Agarrados à ideia de que só a nossa ideologia poderá salvar o mundo, recusamos qualquer diálogo, qualquer cedência; a única possibilidade é a nossa vitória, a dos bons e justos, sobre os maus e opressores.

Por isso, diante disto, devo confessar que a questão de onde é que votamos, nesta eleição concreta, não é o que mais me preocupa. Sejamos claros: votar não é escolher a pessoa que queremos para um cargo, mas escolher entre as opções que existem. E, neste caso, só há duas, e nenhuma delas me parece especialmente boa. É como entrar num restaurante onde só há dois pratos e não gostamos de nenhum: não vale a pena pedir cozido; ou comemos o que não gostamos ou passamos fome.

O que me preocupa realmente é esta redução da política a uma luta ideológica, de bons contra maus. Onde reduzimos o outro a uma posição ideológica, onde só conta de que lado ele está: comigo ou contra mim.

Por isso, o que temos para oferecer diante disto? O que a Igreja, o que a Fé tem a oferecer diante disto?

3. A CONSCIÊNCIA

Antes de mais, uma consciência. A consciência de que o nosso destino não se joga na política, que o nosso horizonte não é a conquista do poder em nome de um bem maior, mas a Vida Eterna.

A primeira vez que disse ao Padre João que me queria empenhar na política, a primeira coisa que ele me disse foi: nunca te esqueças que és cidadão dos céus e concidadão dos santos. E depois explicou-me que a política é uma forma superior de caridade, porque a missão de um político é testemunhar Cristo diante de todo um povo.

Esta consciência, de que o homem é feito para o céu e não para o poder, é o que nos permite colocar de forma justa o valor da política. De forma realista, ou seja, tendo em conta a totalidade dos factores. A consciência de que somos chamados a participar na missão de Jesus, de sermos Suas testemunhas, mas que quem salva o mundo não é o nosso esforço, não é a nossa vitória: o que salva o mundo é Cristo. E assim podemos estar diante da política sem qualquer outra pretensão, sem qualquer outro cálculo, que não seja o de O servir.

4. O OUTRO COMO UM BEM

O segundo ponto que me parece que temos para oferecer é aquilo que o Padre Carrón sugeria num texto que escreveu sobre a situação política italiana em 2013:

“Agora, digo isto pensando no presente: se não encontrar espaço em nós a experiência elementar do outro como sendo um bem, e não um obstáculo para a plenitude do nosso eu, na política assim como nas relações humanas e sociais, será difícil sair da situação em que nos encontramos.”

Num tempo em que o outro é olhado, mesmo entre nós, como um obstáculo, tomar consciência de que também ele é feito do mesmo desejo de bem e de felicidade que eu, ainda que o exprima de forma diferente e até mesmo — não tenhamos medo de o dizer — de forma errada, esta consciência do outro como um bem é essencial

Dizer que o outro é um bem não significa dizer que tudo é bom, ou que todas as ideias são igualmente válidas. É simplesmente afirmar que a pessoa não é definida pelas suas ideias, nem sequer pelos seus actos, mas pelo desejo de Deus que está presente no coração de cada homem. E este é o ponto de partida para eventualmente construir algo.

Claro que esta proposta tem um limite evidente: a minha abertura ao diálogo pode não encontrar correspondência. Posso acabar a falar sozinho. Mas a alternativa a esta tentativa de encontrar um ponto em comum com o outro, como dizia o Padre João, é a guerra civil. E isso é o que hoje, de forma metafórica, entenda-se, vivemos.

5. UNIDADE

O terceiro ponto que gostaria de referir é o da unidade. Na conversa que já aqui descrevi com o Padre João sobre o meu empenho na política, a última coisa que ele me disse foi: lembra-te que na política segues sempre a Isilda e o António Maria.

Na altura pareceu-me um ponto meramente operativo, para um jovem sem experiência. Com o tempo tenho-me dado conta como a unidade com estes dois amigos tem sido central na minha acção política nestes últimos doze anos. Por dois aspetos.

Primeiro, porque me salva da tentação do poder, de servir o poder. Durante estes anos, várias vezes a Isilda, o António e eu discordamos. E, como temos o feitio que temos, e eu tenho um especialmente forte, acontece por vezes discutir-mos, até com aspereza. E é nestes momentos que a Isilda diz sempre o mesmo: não nos podemos zangar pela política, o essencial é a nossa unidade.

Porque Nosso Senhor não disse que estava presente quando um de nós tiver razão, mas quando dois ou mais estivermos reunidos em Seu Nome. Não pediu ao Pai que nos tirasse do mundo, mas que fossemos um só, para que o mundo acreditasse.

Esta unidade, não me salva apenas a mim do meu mau feitio, da minha impulsividade, da minha vaidade, mas é a hipótese de, na política, tornar Cristo presente.

6. AS FORÇAS QUE MUDAM A HISTÓRIA

Por isso é que me parece que neste momento, onde a política tem introduzido entre nós uma ferida, o ponto essencial não é em quem votamos, mas sim, como dizia Giussani: a solução “não advém directamente enfrentando os problemas, mas aprofundando a natureza do sujeito que os enfrenta.”

Quero com isto dizer que as eleições presidenciais e até a política não interessam? Evidentemente que não. E seria ridículo eu dizer tal coisa, quando dedico tanto tempo (roubado à família, antes de mais) a tentar participar na vida política.

Um católico que é advogado, não é que para exercer a sua profissão como católico só pode exercer direito canónico. Um professor de biologia que seja católico, e que em vez de falar de biologia nas aulas, para ser católico, dá catequese, é só um mau professor. Por isso um católico empenhado na política tem de fazer política. Mais, como diz o Padre João na sua lição, se quer estar na política tem de estar onde esta se faz: nos partidos. E sobre isto não acrescento mais nada, porque o que vale mesmo a pena é ir ler o que disse o Padre João, que é sempre melhor do que qualquer coisa que eu diga.

Por isso, a política é essencial, e temos o dever de participar nela. E estas eleições são importantes, e devemos ter claros os critérios com que votamos e as razões por que o fazemos. Mas a mim parece-me que o mais importante, neste tempo em que o juízo foi substituído pela indignação, a Fé pela ideologia, e o povo pela massa, não é a forma como a nossa acção política se traduz, mas a consciência com que o fazemos.

Porque a acção, ainda que nascida de um juízo profundo, pode estar errada. Eu posso votar para a semana com belíssimas razões e depois, por um conjunto enorme de circunstâncias que não controlo, arrepender-me amargamente do meu voto. E não estou nada preocupado com isso. Porque votar é escolher entre candidatos imperfeitos, em circunstâncias que eu não controlo, e por isso o resultado do meu voto, mesmo que bem ponderado, está completamente fora do meu controlo.

Mas estar diante da política com a consciência clara daquilo a que somos chamados é o que nos permite dar testemunho de Cristo.

No Maio de 68, um tempo em algumas coisas parecido com o nosso, um jovem foi ter com Giussani e diz-lhe querer estar «com as forças que mudam a história». Falava dos movimentos marxistas para onde tinham migrado a esmagadora maioria dos jovens católicos de então. Giussani responde-lhe então: «As forças que mudam a história são as mesmas forças que mudam o coração do homem».

E, por isso, a única coisa que eu desejo, diante destas eleições e diante da política actual, é manter-me fiel a esta consciência em que Giussani nos educa, que nos permite estar de forma livre diante da política. Penso que é isto que temos a oferecer à política actual.

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Católicos por Cristo

 


Vi os católicos por Seguro e não gostei. Acredito nas boas intenções, mas ser católico não é uma bandeira política. Não se pode reduzir a Fé a uma identidade: há os não socialistas por Seguro, os trabalhadores por Seguro, os que bebem café por Seguro, os católicos por Seguro.

Vi os católicos por Ventura e gostei ainda menos. Mais uma vez, estarão cheios de boas intenções, mas a verdade é que pegam em citações do Magistério que confirmam a sua opinião, ignoram várias outras, e transformam o voto em Ventura numa obrigação de um católico.

Repare-se: acho muito bem que os católicos se empenhem na política. É essencial que tenham consciência de que também a Fé está relacionada com a política. E é bom que, na hora de votar, a Fé seja o factor essencial no seu discernimento. E sejamos claros: quando falamos de Fé, falamos daquilo que a Igreja ensina, a sua doutrina, o seu magistério, não de uma opinião difusa.

Mas o trabalho que é preciso fazer é, partindo daquilo que a Igreja ensina, olhar para as opções disponíveis e decidir em consciência à luz da Fé. Ora, ambos os manifestos fazem o percurso contrário: partem da sua opinião sobre os políticos em causa e colam pedaços da Doutrina da Igreja para confirmar o que já tinham decidido. Ou seja, reduzem a Fé à sua ideologia.

A escolha de dia 8 não é fácil. Infelizmente, não só nenhum dos candidatos defende aquilo que a Igreja ensina sobre o poder político, como, pelo contrário, ambos defendem coisas gravemente contrárias aos ensinamentos da Igreja. Desde a defesa da eutanásia por António José Seguro aos constantes ataques a emigrantes e ciganos por Ventura, os dois candidatos oferecem razões suficientes para um católico, em abstracto, não votar em nenhum.

Mas não somos chamados a escolher a pessoa que gostaríamos de ter como Presidente da República, e sim a escolher entre duas pessoas concretas. A Fé deve ajudar nesse discernimento, mas isso dá trabalho. É preciso estudar, é preciso ler e ouvir os candidatos, ajuizar a situação política e tentar discernir qual dos dois poderá ser mais útil ao Bem Comum, como a Igreja o propõe.

Reduzir a Fé a uma bandeira ideológica, tentando que esta encaixe na nossa opinião pessoal, é mais fácil, mas é, de facto, ser “católico por Ventura” ou “católico por Seguro”. O que a Igreja nos propõe é sermos de Cristo. Não se pode servir a dois senhores.