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terça-feira, 25 de novembro de 2025

25 de Novembro: o erro da Direita

 


Confesso que não partilho do mesmo entusiasmo dos partidos da Direita com o 25 de Novembro. Parece-me que, na ânsia de encontrar uma data política só sua, atribuem ao dia um significado que os factos não sustentam.

Afirmar que foi a 25 de Novembro que passámos a ter realmente uma democracia é esticar a realidade. É evidente que nesse dia se pôs travão ao PREC, e que isso foi essencial. Mas não podemos esquecer que continuámos a ter o Conselho da Revolução, que os saneamentos, as ocupações e as nacionalizações não foram revertidos, e que ainda demoraria pelo menos uma década até termos uma democracia europeia.

Não quero com isto desmerecer o heróico esforço dos militares que nesse dia travaram a extrema-esquerda e conseguiram devolver alguma normalidade ao país. Nem a coragem dos políticos que, mesmo apesar das ameaças de morte, se bateram pela democracia. Mas, também por justiça para com eles, não vale a pena transformar o 25 de Novembro no que ele não foi.

A verdade, por muito chocante que isso possa ser, é que o grande vencedor do 25 de Novembro não foi a direita, nem o centro-esquerda, mas o Partido Comunista. Claro que Cunhal sonhou com a conquista do poder, e, tendo falhado a via eleitoral, não se importaria de o alcançar pela força. Mas percebeu rapidamente que não tinha as “espingardas” para tal. Portanto, deixou a extrema-esquerda sair à rua – que o preocupava mais do que a direita – e ser presa, permanecendo sossegado, garantindo que nada perdia do que já tinha alcançado.

Em Novembro de 1975, Cunhal já tinha tudo aquilo que o PC queria, excepto o poder absoluto, que não tinha forças para conquistar. Internacionalmente, tinha garantido que as províncias do Ultramar se tornariam satélites da União Soviética — uma política que conduziu a novas guerras e a milhares de mortos.

Internamente, tinha conseguido sanear inimigos políticos, garantir um património considerável para o partido, dominar os sindicatos, lançar, através da Reforma Agrária, bases profundas no Alentejo, dominar boa parte da comunicação social e infiltrar militantes comunistas nos ministérios e nos órgãos de justiça. Tudo isto permitiu que o PC garantisse uma influência social muitíssimo superior ao seu peso político — influência essa que ainda vai resistindo passados cinquenta anos, como se prova pelo facto de, apesar de ter apenas três deputados na Assembleia da República, se preparar para paralisar um país com uma greve geral em Dezembro.

Ou seja, Cunhal sonhou com um golpe de Estado – e não nos enganemos –, o facto de estar em minoria não significava que isso não fosse possível; afinal, 500 soldados em Lisboa tinham imposto a República a um país de seis milhões de pessoas. Mas garantiu que não perdia nada do que tinha ganho e ainda viu eliminada toda a concorrência à esquerda.

É evidente que as concessões feitas ao Partido Comunista, assim como aos militares, foram o que permitiu que, com o tempo, viessemos a ter uma democracia. E que a alternativa seria, se não uma guerra civil, pelo menos um período de enorme violência. Por isso, a paz, ainda que podre, alcançada a 25 de Novembro deve ser festejada — mas não deve ser transformada no que não é.

2. É possível afirmar que, mesmo assim, celebrar o 25 de Novembro com solenidade é útil para contrapor a narrativa da esquerda de que foram eles que construíram a democracia. No fundo, celebrar a data serviria como lembrete das loucuras do PREC e do preço que pagámos para conseguir ser uma verdadeira democracia. Compreendo o argumento, mas considero-o um erro, porque reforça a falsa narrativa da esquerda sobre o 25 de Abril.

Aquilo que começou por ser um golpe militar, motivado por razões internas de organização do exército, tornou-se, pela adesão do povo, numa revolução. No 25 de Abril participaram militares e populares de todos os quadrantes. A Revolução não foi de esquerda nem de direita, mas o grito de um povo que estava farto da guerra e do Estado Novo.

Na normal confusão que se seguiu, o Partido Comunista — de longe a realidade política mais bem organizada, e contando com o apoio da União Soviética — procurou tomar o poder. E entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro foram cometidas barbaridades, desde prisões políticas a saneamentos de pessoas sem qualquer ligação ao Estado Novo, que deixaram marcas no atraso social e económico do país até aos dias de hoje.

A esquerda, autora da esmagadora maioria desses actos, para justificar as suas acções, construiu uma narrativa que une o 25 de Abril à tentativa que se seguiu de construir uma ditadura de esquerda. Isto não só justifica o que fizeram, como torna qualquer ataque ao PREC num ataque ao 25 de Abril. A verdade é que a esquerda tomou de assalto a memória daquele dia, e a direita deixou.

Deixou porque teve medo de que, ao denunciar os abusos da esquerda, fosse colada ao anterior regime. Deixou porque receou que o povo que se tinha revoltado contra o PREC, sobretudo do Tejo para cima, visse o seu apoio ao 25 de Abril como um apoio ao processo revolucionário.

E isto foi um erro. Porque quem construiu a democracia não foi a extrema-esquerda, mas o centro, a esquerda e a direita. A democracia nada deve a Álvaro Cunhal, mas deve muito a Mário Soares, a Salgado Zenha, a Francisco Sá Carneiro, a Adelino Amaro da Costa, a Freitas do Amaral e a tantos outros. Foram eles que, partindo da revolução, construíram um país democrático, contra os que se queriam munir de uma qualquer legitimidade revolucionária para impor uma nova ditadura ao país.

E por isso a direita, mais do que insistir numa data própria — o 25 de Novembro —, deveria reclamar para si a memória histórica do 25 de Abril. Deveria recordar os homens e mulheres que resistiram à extrema-esquerda e, sendo fiéis ao espírito da revolução, construíram uma democracia.

Celebrar o 25 de Novembro como se fosse, de alguma forma, uma espécie de Revolução de Outubro da democracia, é não só uma mentira como também o reforço do mito da esquerda como herói da democracia.

Por isso, gostaria que a Direita parasse de cair na narrativa da Esquerda e reclamasse para si — e para o Partido Socialista, que tem demasiada vergonha da sua história — o papel essencial que tiveram na construção da democracia, não apenas no 25 de Novembro, mas desde o 25 de Abril.

 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Alargamento dos prazos do aborto: um mero oportunismo


 

Sexta-feira, dia 10, será debatido na Assembleia da República o alargamento dos prazos do aborto. Aparentemente, como seria expectável dada a constituição do parlamento, as iniciativas irão chumbar, como qualquer pessoa que tenha dois olhos na cabeça conseguiria adivinhar.

A questão, é então por que razão se lembrou a esquerda de vir agora fazer esta proposta? Porque não o fizeram nos nove anos que tiveram maioria na AR? Se o PS está assim tão empenhado em garantir mais tempo para as mulheres abortarem, por que razão não o fez nos dois anos que teve maioria absoluta? A resposta é bastante simples, porque à esquerda em geral, e ao PS em particular, não lhes interessa que esta proposta passe.

Não nos confundamos, claro que eles preferiam prazos maiores para o aborto legal, mas o tema em si, interessa-lhes mais como bandeira política, útil para se abanada conforme as necessidades da agenda, do que a sua aplicação. Se tivessem proposto novos prazos para o aborto quando dispunham de maioria para isso, o assunto teria acabado por ali. Assim fica disponível para o reavivarem sempre que precisarem.

O timing destas propostas tem apenas duas finalidades. A primeira é poder acusar o PSD e o CDS de se encostarem ao Chega. Aposto convosco o que quiserem que depois da votação de sexta-feira estaremos dias a ouvir esse discurso.

A segunda finalidade é desviar a atenção do estado em que a esquerda deixou o SNS, criando um bode expiatório, que são os médicos. A lógica é simples, as mulheres não abortam porque os médicos são maus e objectores consciência. E em vez de discutirmos a falta de material, o estado decrépito do SNS, a falta de pessoal, estaremos a discutir a culpa dos médicos que recusam praticar abortos.

As mulheres que não conseguem abortar são para a esquerda apenas uma bandeira para usar enquanto lhes foi útil. Como foram os emigrantes há quinze, ou os habitantes da Cova da Moura há um mês, ou os transexuais há quatro ou cinco meses. E depois o interesse passará e a esquerda deixará cair ao chão estas pessoas, como o fez anteriormente, e passará para outras que lhes sejam úteis para criar ondas de revolta e gerar mais manifestos (sempre assinados pelas mesmas pessoas).

O problema é que as pessoas que eles usam como bandeira são reais. E merecem respeito. E precisam de apoio. Mas isso à esquerda é indiferente, porque assim que perdem o seu valor como bandeira, perdem qualquer interesse que podiam despertar a esses partidos.

Por isso não nos deixemos enganar: o que se vai votar dia 10 não tem qualquer relação com as mulheres, ou com qualquer drama humano. É apenas mais um oportunismo político daqueles que deixaram o país de rastos e agora tentam encobrir o rasto criando novas polémicas todos os meses.

 

sexta-feira, 17 de maio de 2024

O racismo é parvo mas não é crime

 


1. O Direito Penal é a ultima instância do Direito. Este ramo do Direito serve para salvaguardar direitos fundamentais que não podem ser salvaguardados de outra forma. Ou seja, só é crime, a ofensa a bens jurídicos importantes que não podem ser defendidos de outra forma. Por exemplo, cuspir na rua é ilícito mas não tem importância suficiente para ser crime.


2. O racismo, em si mesmo, não é crime. Se eu for na rua e mudar de passeio porque vejo uma pessoa de um etnia que não gosto ou se habitualmente der o lugar as senhoras no autocarro e não o fizer porque a senhora é de um determinada etnia, é moralmente e socialmente reprovável, mas não é crime. Nem sequer é crime se, numa conversa privada, eu fizer observações sobre certos povos.


Um comportamento para ser crime tem que violar um direito de um terceiro (ainda que em abstracto). Ser um selvagem não é algo que se recomende, mas não em si mesmo crime.


3. O racismo é crime quando, de alguma forma, ofende o direito fundamental de um terceiro e não houver outra forma de o defender. Por exemplo, se eu me cruzar no passeio com alguém de outra etnia e o mandar sair da frente porque não quero cruzar-me com pessoas dessa etnia, provavelmente estarei a incorrer num crime. Como será crime se defender publicamente que as pessoas de um determinada etnia devem ser tratadas de forma diferente pelo facto de serem dessa etnia. É crime porque em ambos os casos estou a atacar direitos fundamentais de terceiros.


4. Afirmar publicamente que um povo não gosta de trabalhar é crime? Dificilmente, porque dificilmente isso irá afectar os direitos de terceiros. Sim é insultuoso, mas os insultos em si mesmo não são abstratos. O Direito Penal não existe para punir todas as faltas sociais. Uma graça de mau gosto é isso mesmo, uma graça desagradável, não um crime.


5. O incidente de hoje com Ventura é uma estratégia da esquerda. Gritar racismo ou qualquer outros dos capitais capitais dos dias de hoje de cada vez que abre a boca, dizer que é um criminoso e anti-democrático, serve apenas para se exaltar a si próprios como defensores da Liberdade e da Democracia.


Infelizmente a banalização do racismo tem uma consequência prática: é que se tudo é racismo então nada é racismo. Se tudo é crime, nada é crime. É como na história do Pedro e do Lobo, em que o Pedro grita tantas vezes Lobo, que quando ele aparece, ninguém acredita. A esquerda está tão ocupada a rotular piadas de mau gosto como crime que quando aparecem casos de racismo de facto, já ninguém lhes liga.


6. José Pedro Aguiar Branco foi o único que esteve bem hoje no Parlamento. Não caiu na armadilha de Ventura, não caiu na armadilha da esquerda e assumiu o seu papel como Presidente da Assembleia da República, não como censor dos bons costumes. Já percebemos que esta legislatura vai ser fértil em escândalos demagógicos deste calibre, com o Chega e a esquerda a abusar da demagogia à procura de acirrar os seus guerreiros sociais. Caberá a Aguiar Branco não permitir que a Assembleia da República se transforme no campo de batalha que ambos os contendores procuram.

terça-feira, 26 de abril de 2022

A direita e o 25 de Abril


Uma parte substancial da direita tem uma relação complicada com o 25 de Abril. O que é abundantemente aproveitado pela esquerda, sobretudo pela extrema-esquerda.

Esta relação complicada nasce de um equivoco histórico, criado pela esquerda e, infelizmente, aceite pela direita.

No dia 25 de Abril de 1974 houve um golpe militar que a adesão popular transformou numa revolução. Esse golpe foi preparado e executado por militares de direita e de esquerda, republicanos e monárquicos, católicos, etc. A adesão ao golpe militar pela população veio também de todos os quadrantes da população.

Claro que a democracia não se constrói num dia, nem basta derrubar uma ditadura para que logo se erga um democracia. E as dores de parto da democracia portuguesa foram violentas, especialmente para aqueles que se identificam à direita.

Durante os tempos revolucionários foram cometidos abusos e crimes que deixaram marcas em Portugal até hoje. As nacionalizações selvagens arrasaram a economia portuguesa, a reforma agrícola destruiu casas agrícolas sem produzir qualquer fruto, os saneamentos atingiram centenas de pessoas sem qualquer culpa, muitos foram presos por delito de opinião sendo que alguns foram torturados, houve partidos ilegalizados e bastante violência. Sobretudo, naquilo que é a maior vergonha para o país dos tempos da revolução, os povos irmãos do ultramar foram entregues sem cerimónias a Moscovo, condenando os novos países à guerra e violência que provocaram milhares de mortos e arrasaram as novas nações.

Num pais civilizado, os autores destes crimes teriam sido pelo menos afastados da vida política, se não mesmo presos. Em Portugal, são tratados como heróis. E são-no, precisamente por a direita permitir o equívoco de misturar o 25 de Abril com o processo revolucionário que se lhe seguiu.

A razão pela qual a extrema-esquerda, que tentou forçar o país a uma nova ditadura, é celebrada como heroína da liberdade, é porque se arma de uma legitimidade revolucionaria exclusiva. Como se de alguma forma fossem donos da Revolução e isso apagasse todos os seus crimes. 

A direita, que foi quem mais sofreu durante o processo revolucionário, marcada por todos os abusos feitos no pós-25 de Abril, deixou-se afastar desse momento fundador da democracia portuguesa e permitiu assim à esquerda ficar como heroína do momento.  E a esquerda agradece, sobretudo o Partido Comunista e os restantes herdeiros da extrema-esquerda, porque assim lhes é permitido branquear todos os seus crimes.

A verdade é que a democracia nada deve ao Partido Comunista nem à extrema-esquerda. Nada deve àqueles que, mesmo tendo participado no 25 de Abril, depois tentaram instrumentalizar a Revolução para impor uma nova ditadura ao país. Mas deve muito àqueles que fizeram a Revolução e depois defenderam a Democracia e a ajudaram a consolidar.

Por isso, é hora de a direita ultrapassar as suas dificuldades com o 25 de Abril. Não precisamos de cravos brancos, nem de atrelar o 25 de Novembro para falar do 25 de Abril. É hora de assumirmos sem medo o legado daqueles que no dia 25 de Abril de 1974 arriscaram a vida e a liberdade para que Portugal fosse uma democracia. E fazê-lo sobretudo contra quem, munido de uma suposta legitimidade revolucionária, procurou  impor ao país um regime socialista.

A Democracia em Portugal nasceu de facto com o 25 de Abril. E foram muitos os que arriscaram, nesse dia e nos que se lhe seguiram, para que fossemos livres. Continuar presos na armadilha montada pela extrema-esquerda para branquear os seus abusos é um insulto a todos os que sofreram para que Portugal fosse livre. E para além disso é um erro, um erro que a direita continua a pagar.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Covid-19: Quando a ideologia mata.


O mais assustador nesta (ou em qualquer) pandemia, é a sua inevitabilidade. Sem vacina, poderemos fazer mais ou menos para evitar o seu crescimento, mas ravar a pandemia está bastante para além das nossas capacidades.

Claro que há medidas preventivas que podem impedir os contágios. Diminuir os contactos, o uso de máscara, desinfectar as mãos, etc, são medidas razoáveis. Mas a verdade é que nunca será possível reduzir de tal formas os contactos que se possa controlar a pandemia. O preço a pagar por um confinamento total, como alguns têm defendido, não só é demasiado elevado (infelizmente, não é apenas a Covid-19 que mata), como provavelmente não obteria o resultado pretendido.

Uma pandemia é o que é, desde o principio dos tempos. O homem tem pouco controlo sobre isso. Contudo, o que é possível controlar é a resposta que damos à pandemia. E aí é que o falhanço, em Portugal, tem sido total.

O problema não são as pessoas, que têm que trabalhar, que têm filhos, que têm de fazer compras e que têm que têm de acompanhar a família. O problema é a falta total de preparação das autoridades para responder a um acontecimento que era expectável.

Se em Março a falta de preparação era desculpável, passado 10 meses é incompreensível. A falta de meios no SNS continua a ser assustadora. E não é que estas lacunas fossem desconhecidas. Já anteriormente tinha acontecido, em épocas de gripe, os hospitais quase colapsarem. Seria expectável que o mesmo acontecesse numa nova vaga desta pandemia.

Mas o mais escandaloso, é perceber que, mesmo sabendo das limitações do SNS, mesmo sabendo que os hospitais públicos estão próximos da ruptura, mesmo sabendo que há doentes a morrer de outras doenças por falta de resposta, mesmo sabendo que neste momento os médicos já têm que escolher de entre os doentes de Covid quais tratam primeiro, o Governo continue a não aproveitar todos os recursos que há para combater esta crise.

A cegueira ideológica do Governo é tal que continua a recusar-se a incluir os hospitais privados no combate a actual crise. Seja a receber doentes com outras patologias à quais o SNS não consegue dar resposta, quer seja a receber doentes Covid.

Qualquer pessoas normal, diante daquilo que temos vivido neste dias, diria que se devia aproveitar todos os recursos do país. Sobretudo, quando há pessoas a morrer por falta de resposta. Mas para o nosso Governo, e para a esquerda, o importante é mesmo “defender” o SNS (mesmo que isso signifique rebentar com o mesmo).

A esquerda afirmar muitas vezes que os privados lucram com a saúde das pessoas. Pelos vistos a esquerda prefere a morte das pessoas só para dar prejuízo aos privados!

Parte da situação que vivemos é culpa da impreparação do Governo. Mas não nos esqueçamos que não é apenas incompetência. Há uma decisão ideológica da esquerda de não incluir os Hospitais privados no combate à pandemia. E essas decisão ideológica custa vidas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Direita: nem cercas, nem trincheiras.



Aquilo a que se convencionou chamar direita em Portugal decidiu entrar em guerra civil nas últimas semanas. Infelizmente a discussão não tem sido pautado pela elevada troca de argumentos, mas quase sempre por esse desporto tão caro aos comentadores nacionais que é a troca de insultos, mais ou menos polidos.

Por um lado temos os que defendem uma política de trincheira. Para estes o inimigo está claramente identificado: é a esquerda, do PS à deputada não inscrita Joacine Katar Moreira. E nessa luta todos os que estão do lado de cá da barricada são bem vindos. A urgência de derrotar o adversário é tão grande, que não há espaço para moralismos. Inimigo do meu inimigo meu amigo é. Por isso para estes, qualquer critica ao Chega ou a qualquer populista de direita é fazer o jogo da esquerda.

Do outro lado temos os que defendem a pureza democrática da Direita. Que defendem a união da direita democrática e uma cerca à volta da direita iliberal.

Ambas as facções perdem imenso tempo a demarcar-se uma da outra. Todos explicam muito bem aquilo que não são e porque razão as posições da outra facção estão não só profundamente errada, como ainda por cima são a razão para a Esquerda estar confortavelmente instalada no poder.

Ambas as posições acabam de facto por ser a mesma. Chamando-lhe trincheira ou cerca, a direita vive entretida a isolar-se sobre si mesma, fechada na sua superioridade moral. E entre a trincheira e a cerca, o espaço vai diminuindo. De uma forma ou outra a verdade é que a Direita se recusa a dialogar com boa parte do país.

Quando G.K. Chesterton publicou o seu livro Heréticos, onde criticava a filosofia dos seus contemporâneos, um dos visados respondeu : "I shall not begin to worry about my philosophy of life until Mr. Chesterton discloses his." Este desafio levou Chesterton a escrever uma das suas obras primas, Ortodoxia, provavelmente um dos mais conhecidos e importantes livros de apologética cristã do século XX.

A Direita portuguesa está longe da genialidade de Chesterton, mas sofre do mesmo mal: sabemos muito bem aquilo que não quer, mas ainda ninguém percebeu muito bem aquilo que quer.

Vivemos tão imersos na mentalidade socialista, que a Direita existe na constante reacção à esquerda, mesmo que seja para a declarar como principal inimigo.

Não acredito nesta forma de fazer política, e não me parece que seja uma boa estratégia.

Ser contra alguma coisa não permite construir nada, só destruir. Sim, é razoável ser contra o Estado paternalista, autoritário, que desrespeita a dignidade Humana. Mas não basta ser contra, é preciso propor uma alternativa.

E é nisso que a nossa Direita falha. Está tão ocupado em não ser coisas (não ser socialista, não ser populista, não ser fascista, não ser fofinha) que não tem tempo para ser alguma coisa.

Social-democracia, conservadorismo, democracia-cristã, liberalismo, são cada vez mais chavões que não querem dizer absolutamente coisa nenhuma. São pouco mais do que bordões para discursos políticos redondos e vazios.

Sem a direita dizer ao que vem dificilmente poderá construir o quer que seja. Porque se não sabe para onde quer ir, só sabe que não quer ir por aí, então só sobra à Direita ficar imobilizada, a construir cada vez mais cercas e trincheiras, até ficar completamente isolada e irrelevante. Uma excentricidade, para ser vista pelo povo, como um animal em vias de extinção num Jardim Zoológico.

Parecia-me mais útil por isso que em vez da troca de insultos a que assistimos nas últimas semanas entre a direita das trincheiras e a direita das cercas, as dezenas de pessoas que usam o seu tempo a pensar no futuro da Direita, apresentassem com clareza aquilo que defendem. E não vale a pena perder tempo a apontar inimigos, que tenho por experiência própria que, quando defendemos o que acreditamos, os adversários encontram sempre maneira de nos encontrar.

Se cada um tiver claro aquilo em que acredita, se o defender com clareza, então não precisa de qualquer cerca ou trincheira. Pode dialogar com todos, porque sabe bem o que quer, e até onde está disposto a ir. Sobretudo, pode dialogar porque está na política para defender alguma coisa, não para atacar. E por isso pode falar com aqueles, à direita e à esquerda, que estejam dispostos a dialogar para construir uma sociedade mais justa. E este parece-me o único caminho razoável.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O jogo das presidenciais.




Não é possível qualquer análise séria das presidenciais sem partir de uma premissa: salvo qualquer desastre, Marcelo Rebelo de Sousa vai vencer as presidenciais. E em principio vai vencer por larga margem. A maior vitória que os seus adversários podem sonhar é forçar a 2ª volta. Mas mesmo isso, se vier a acontecer (o que parece muito improvável), irá dever-se a abundância de candidatos de protesto e não por uma qualquer hipótese real de o derrotar.

António Costa sabe bem disto. Não tem ninguém no PS que possa sequer fazer mossa ao actual Presidente da República. Não há hoje na área do Partido Socialista qualquer presidenciável que fosse ter resultado muito melhor que Maria de Belém. Ao mesmo tempo o Primeiro-Ministro também sabe que o Presidente da República não tem força para o enfrentar a ele. 

Dado que Rui Rio tem como único sonho o bloco central, a oposição ao Governo hoje está reduzido a CDS, IL e Chega. Por isso Marcelo Rebelo de Sousa pouca ou nada pode fazer contra o Governo: se o demitir ele ganha as eleições, se vetar ele ultrapassa o veto no parlamento. António Costa domina o regime e ao PR sobra-lhe pouco mais que cortar fita e tirar selfies.

Por isso para Costa as presidenciais só têm um objectivo: reforçar o seu próprio poder. O apoio a Marcelo Rebelo de Sousa é apenas uma armadilha: condiciona o PR, e obriga a direita a escolher entre perder as eleições ou apoiar o seu candidato. E assim transforma o que poderia ser visto como uma derrota, numa vitória certa, metendo o Presidente e a oposição na algibeira.

Para António Costa só há um espinho nesta eleição: Ana Gomes. É evidente que quem o vai atacar com força durante a campanha é André Ventura. Mas para António Costa isso é indiferente. Um bom resultado de André Ventura só lhe traz vantagens: fragiliza ainda mais a direita, e une a esquerda à sua volta. Quanto mais forte for Ventura, mais Costa se arroga em guardião do regime.

Já Ana Gomes é diferente. É tão populista como André Ventura (mas como é de esquerda ninguém pode dizer isso), mas é do seu partido. Ana Gomes pode fazer à esquerda o que André Ventura faz à direita. Embora com menos estrondo, uma vez que a esquerda está bastante mais forte. Por isso quem tem interesse na candidatura de Ana Gomes é a direita, especialmente a direita que não quer André Ventura, e a esquerda desalinhada com o PS.

Já Ventura e Ana Gomes só têm a ganhar com as suas candidaturas. Com o resultado já decidido, estas eleições serão ideais para candidaturas de protesto. Dos dois, Ventura é o que tem mais a ganhar e a perder. Ana Gomes pouco tem a perder e a ganhar. Pode ganhar mais palco e influência, mas não tem qualquer expectativa de poder subir muitos mais politicamente. Já Ventura tem aqui uma boa possibilidade ter um bom resultado nas urnas. As sondagens têm vindo a subir, mas a verdade é que André Ventura em urnas só vale 1%. As presidenciais poderão ser um bom momento para fazer subir esse resultado. Por outro lado, se lhe correr mal, e não conseguir um bom resultado, sendo que as eleições seguintes são as autárquicas que não costumam favorecer partidos novos por falta de estruturas locais, pode ser o esvaziar do balão.

Bloco e Partido Comunista farão o que fazem sempre. O Bloco irá candidatar Marisa Matias, a única candidata que têm capaz de fazer boa figura numa eleição unipessoal. O PC irá candidatar mais um homem do aparelho para marcar presença.

A grande interrogação é o que fará a direita democrática. Apoia Marcelo? Inventa um candidato? Não faz nada? 

O circo à volta de Adolfo Mesquita Nunes não é para ser levado a sério. Mesmo com todas as qualidades políticas que lhe são conhecidas, é evidente que uma candidatura sua seria um desastre. Não tem força para ser uma alternativa credível a Marcelo, é demasiado sério para ser um candidato de protesto. A candidatura de Adolfo Mesquita Nunes serviria apenas para demonstrar a separação que há entre o povo da direita e as suas elites que se entretêm no auto-elogio no twitter e a fazer zooms entre si. A proto-candidatura de AMN tem como único objectivo cavar mais divisões no CDS e sobretudo relançar o projecto de uma direita supra-partidária liderada por liberais e conservadores iluminados. É um prolongamento do Movimento 5.7, que por muito interesse intelectual que tenha, não tem qualquer expressão social.

Infelizmente estas presidenciais vão ser duras para a direita. Gostemos ou não, não se vislumbra qualquer candidato que consiga influenciar estas eleições. A direita arrisca-se, para não votar em Marcelo Rebelo de Sousa, a apoiar uma candidatura que apenas a fragilize mais. Há um país real para além das capelinhas dos intelectuais da direita, um país real que gosta de Marcelo Rebelo de Sousa e não conhece nenhuma das luminárias por quem a nossa direita tanto suspira. Aquilo que os lideres da nova direita têm que pensar é o que preferem: engolir o sapo e votar em Marcelo Rebelo de Sousa ou arriscar provar a sua insignificância.

No estado actual das coisas não há espaço para grandes manobras nas próximas presidenciais. A maior parte das peças já estão colocadas e não sobra muito espaço no tabuleiro para grandes movimentações. Quem quiser ir a jogo vai ter que ir com as peças que há. E às vezes o mais sábio é mesmo ficar a ver.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Não um católico não pode votar à esquerda e um jornal católico não deve dizer que pode!




O ponto SJ, portal oficial dos Jesuítas, num especial sobre as eleições legislativas publicou um artigo sobre as razões de um católico para votar na esquerda. 

Se no plano teórico tal possibilidade ainda pode ser defensável (dificilmente), no plano bastante prático das eleições legislativas de 2019 não é. Um católico não pode em consciência votar em nenhum dos partidos da esquerda. Votar na esquerda é votar na eutanásia, é votar no provável alargamento dos prazos do aborto, é votar nas barrigas de aluguer, é votar na ideologia de género nas escolas, é votar na legalização das drogas leves e da prostituição.

Bem sei que estes não os únicos assuntos relevantes para os católicos decidirem o seu voto. Mas a defesa da Vida e da Dignidade da pessoa Humana não sendo o único tema é sem dúvida o mais importante e o mais estruturante de uma sociedade. Por isso não é licito aos católicos votarem em partido que não respeitam este principio.

Sobre isto não me alongo mais. Aconselho vivamente quer a carta pastoral que a Conferência Episcopal emitiu sobre o tema, quer o artigo do Pedro Morais Vaz no Observador, onde o assunto do voto dos católicos está explicado de maneira claríssima.

O que realmente me preocupa é ver que, em nome de uma suposta abertura ao mundo e à diversidade de opiniões, ser cada vez mais comum realidades da Igreja darem voz a quem defende posições contrárias à Fé.

O primeiro dever de um católico é testemunhar a Verdade. E isto é aplica-se também para órgãos de comunicação católicos. Não se pode ser de Cristo e depois viver como se todas as opiniões fossem iguais.

Evidentemente que dentro da Igreja, sobre diversos temas, há opiniões e visões e diferentes. Mas também é evidente que um católico não pode, sem mentir, defender opiniões contrárias à doutrina da Igreja.

O diálogo com o mundo não se faz ignorando a Verdade, mas confrontado o mundo com a Verdade de que somos testemunhas. Não cabe aos católicos dar voz ao erro, cabe aos católicos lançar a luz da Verdade sobre o erro.

Por isso aqueles que pertencem à Igreja não devem ser a voz de quem defende posições contrárias à Doutrina.  Mesmo que essas pessoas sejam católicas. Se um católico defendo algo contrário à Fé, espera-se que do portal de um ordem religiosa que o corrija, não que o promova!

E não se trata de silenciar ninguém. Não há em Portugal falta de locais onde quem defende o aborto, a eutanásia, a ideologia de género se expressar. Nem eu estou a defender que essas pessoas devam ser silenciadas. Simplesmente não é razoável que exponham os seus erros em páginas católicas, em encontros católicos e ainda menos em altares de igrejas!

Bem sei que o Ponto Sj deixa claro que as opiniões dos autores não reflectem a opinião da Companhia de Jesus. E não tenho dúvidas disso. Mas também não tenho dúvidas que o Ponto Sj jamais publicaria um artigo onde fosse defendido a morte dos homossexuais ou o linchamento dos negros, ou a apologias de partidos que defendessem tais medidas. Não é por isso compreensível que permita um artigo onde se apela ao voto em partido que defendem a morte de bebés por nascer ou de pessoas em fim de vida.

Qualquer católico, mas ainda mais, qualquer ordem religiosa, movimento, paróquia, ou membro da hierarquia da Igreja tem especial responsabilidade de zelar pela alma daqueles que o seguem. Esse dever não pode ser escondido atrás de um qualquer desejo de diversidade ou de diálogo. Se todos têm lugar na Igreja, os seus erros e mentiras não têm. É por isso triste que a coberto de um falso diálogo e de uma falsa diversidade se propaguem erros e mentiras que poderão levar os mais incautos a votar em quem defende o contrário da Igreja.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O extremismo é sempre de direita?




“Extrema-direita entra no parlamento da Andaluzia.” Este é o título em mais ou menos todas as notícias dos jornais portugueses sobre as eleições na Andaluzia. Todos fazem questão em sublinhar que o VOX (que ontem elegeu doze deputados) é de extrema-direita. Estranhamente nenhum deles sente necessidade de referir que o Podemos ou a IU são partidos de extrema-esquerda.

Aparentemente o VOX precisa sempre do adjectivo de extrema-direita, mas o Podemos, que neste momento garante o poder a Pedro Sánchez, o Podemos que em paga pelo dinheiro que recebeu de Maduro continua a apoiar o regime Venezuelano, o Podemos que quer derrubar a cruz do Vale dos Caídos, que quer fragmentar a Espanha, nunca é referido como de extrema-esquerda.

Esta desigualdade de critérios não é de espantar. Lembremos que, nas eleições brasileiras, o presidente eleito era sempre o candidato da extrema-direta, mas Haddad que tinha como vice Manuela D’Ávila, do PCB, nunca era descrito como candidato da extrema-esquerda. Trump, presidente democraticamente eleito é sempre associado à extrema-direita, mas o ditador Maduro nunca é descrito como de extrema-esquerda. Marine Le Pen, Salvini, Órban são sempre populista de extrema-direita, Tsipras, Iglésias, Mélenchon nunca são de extrema-esquerda.

A verdade é que a comunicação social tem sempre muito mais complacência com a extrema-esquerda do que com a extrema-direita. Pensemos por exemplo que Che Guevara e Fidel Castro, dois assassinos sanguinários, são ainda hoje tratados como heróis. Ou para ficarmos por casa, pensemos em Otelo Saraiva de Carvalho, terroristas condenado em tribunal, que todos os anos é homenageado na nossa comunicação social.

Só isso explica que em Portugal o PNR ou o novo partido de André Ventura sejam sempre tratados como perigosos, mas que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunistas estejam no poder. Aparentemente ser contra a imigração é perigoso, mas legislar para que crianças de 16 anos mudem de género é bom. Ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma deriva autoritária, mas defender a nacionalização da economia já não tem problema. Em última instância, ser contra a União Europeia é bom ou mau, dependendo se quem o diz é Catarina Martins ou José Pinto Coelho!

Eu não defendo a extrema-direita. Eu também acho que os jornais têm o dever de denunciar ideias e comportamentos extremistas. Só quero é que o façam independentemente do lado da barricada de onde vêm. 

Aquilo a que assistimos hoje em dia na comunicação social é aterrador: qualquer pessoa de direita que se atreva a falar de nação, de defesa da Vida ou da Família é um extremista enquanto a esquerda pode defender o que bem lhe apetecer que está a apenas a derrubar tabus e defender o progresso.