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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

O voto (in)útil



Têm-se multiplicado nos últimos dias os apelos ao voto útil por parte do PSD. Eu compreendo que perante a incompetência do actual governo haja a tentação de votar nos sociais-democratas. Mas a verdade é que para o voto ser útil é preciso que se vote numa alternativa. E olhando para o actual PSD, não consigo perceber como pode pretender ser uma alternativa ao PS de Costa.

É evidente que o PSD tem activos bons, bastante superiores ao PS. Penso por exemplo em Joaquim Miranda Sarmento ou em Ricardo Baptista Leite. Mas infelizmente, já percebemos que neste PSD quem manda é Rui Rio, que exerce o seu poder da forma despótica e mesquinha que lhe é habitual. Para o líder laranja, o partido é ele e só ele. Por isso, para saber se o PSD é realmente alternativa ao PSD, é preciso avaliar se Rio é um alternativa a Costa, e a resposta parece-me bastante evidente.

Do ponto  de vista ideológico, pouco ou nada distingue Costa e Rio. E o primeiro a admiti-lo foi o próprio Rio, quando explicou que só não era do PS por causa de Sá Carneiro. Mas mais do que o socialismo, o que une ideologicamente Costa e Rio é a sua maleabilidade: Costa consegue passar de adversário a aliado do PC e BE num piscar de olhos, conforme lhe convém. Já Rui Rio, nuns dias quer aliar-se ao CDS, noutros vê com bons olhos acordos com o PS. Relativamente ao Chega, passa da abertura ao desprezo pelos seus eleitores conforme o dia. A verdadeira ideologia de Rio, tal como a de Costa, é o poder.

As únicas ideias que Rio parece disposto a defender com convicção são a agenda fracturante do Bloco de Esquerda. Para isso, está disposto a ignorar o seu eleitorado, os militantes e até o Congresso do seu partido.

Depois há o carácter de Rio, que mais uma vez em pouco ou nada difere de Costa. Tal como Costa passou anos a torpedar a direcção do seu partido. Com a diferença de que Costa o fez enquanto estavam na oposição e Rio o fez enquanto Passos Coelho tentava salvar o país. Também para Rio lhe é indiferente trabalhar com pessoas de reputação duvidosa. Aliás, conquistou o partido com o apoio dos grande caciques sociais democratas, com currículos tão variados como Malheiro ou Rodrigo Gonçalves. Tem uma relação ténue com a verdade, como ainda recentemente se viu na campanha interna do PSD onde, após prometer que não faria campanha, passou um mês a enviar SMS a todos os militantes. Apesar de todos os banhos de ética, já ficou claro que Rio é tão confiável como Costa.

Mas as semelhanças com Costa não acabam aqui: também Rio tem uma relação difícil com o escrutínio público. Acabou com os debates quinzenais, vive em guerra com a imprensa, purga a oposição interna, desobedece ao Congresso. A única diferença é que Costa disfarça melhor o desprezo pela democracia.

A verdade é que quer nas ideias, quer no carácter, pouco ou nada distingue Costa de Rio. O presidente do PSD só vai para a direita quando é obrigado, de resto é feliz a navegar no Bloco Central. Aliás, é preciso não esquecer que Rio foi a aposta daquele PSD dos interesses, dos favores e dos tachinhos que se viu apeado do poder com Passos Coelho e só sossegou quando lá conseguiu colocar Rui Rio.

Votar Costa ou votar Rio pouco muda, a não ser que de facto o PSD tem alguns deputados melhores que os do PS. Votar neste PSD é votar na continuação das mesmas políticas deste PS, mas com outras caras. A verdade é que um voto em Rio é um voto inútil.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Portugal, um simulacro de Democracia.



Hoje no Parlamento, e de uma só assentada, vai se acabar com os debates quinzenais com o Governo, com os debates antes dos Conselhos Europeus, vai se dificultar a vida aos movimentos de cidadãos que queiram concorrer às autárquicas (únicas eleições a que podem concorrer aliás) e aumentar o número de assinaturas para uma petição ser levada a plenário. Tudo alterações nascidas do arranjinho entre o PS e a sua versão D.

Estas alterações significam menos escrutínio ao Governo e ainda mais dificuldades na participação dos cidadãos na vida política. É  a política cada  vez menos pública e cada vez mais tratada dentro de portas, nos directórios dos partidos, sem a maçada de ter que, ainda que só aparentemente, prestar contas a quem quer que seja.

Não espanta nada que o PS apoie estas medidas. De facto para o socialismo o poder é o Estado, que zela pelo bem dos seus cidadãos. O socialismo português é herdeiro do liberalismo francês, que substituiu o absolutismo real pelo absolutismo dos burgueses. Para os socialistas o Povo é uma entidade abstracta, apenas usada como arma de arremesso. De resto desconfiam do mesmo, e tem bastante medo de lhe entregar o poder. Para os socialistas o governo do país deve estar entregues aos iluminados que sabem governar, e o povo deve estar grato por ter tão excelsos governantes.

Podia causar espanto a posição do PSD. Mas a verdade é que não causa. Porque este PSD no fundo é apenas um PS daqueles que só não estão no PS por causa de Sá Carneiro (provavelmente não estão no PS porque a carreira parecia mais prometedora no PSD, mas não estraguemos uma boa história).

De facto o PSD de Rio é uma cópia barata do PS. Rio tem a mesma mentalidade de António Costa, mas menos desenvolvida. Mas isso não o preocupa, pois ele não vê qualquer problema em ser subordinado de Costa. Aliás, desconfio que até preferia sê-lo.

Para o actual líder do PSD a governação é um assunto demasiado importante para ser tratado por pessoas menores. É um assunto para pessoas sérias, que não tem tempo a perder com ninharias, como o escrutínio parlamentar ou a intervenção cívica.

Rio, tal como Costa, não acredita na democracia. Acredita no governo das elites, cabendo ao Povo apenas decidir que parte da elite é que governa. O resto, deve ser tratado por aqueles que “percebem do assunto”, para evitar demagogos e populistas. E todos os meios são lícitos para garantir esse fim. Desde recorrer a caciques suspeitos de ilegalidades para ganhar eleições internas, até diminuir o poder do Parlamento de escrutinar o Governo, passando por atacar a comunicação social de cada vez que esta ousa questionar as decisões das pessoas sérias que não tem tempo a perder a justificar os seus actos.

Hoje perspectiva-se um dia negro para a Democracia. Não apenas pelos projectos em si (que são maus) mas pelo simbolismo desta aliança do Centrão para diminuir a intervenção do Parlamento e dos cidadãos na política.

É urgente uma reforma do sistema político. Não podemos continuar a viver nesta partidocracia, onde o poder reside não no povo, mas nos órgãos dos partidos. Onde o presidente de uma Distrital eleito através de cacicagem partidária, tem mais poder que um deputado eleito pelo voto popular. Sem essa reforma continuaremos a viver neste simulacro de democracia, onde o que realmente conta é a decisão dos lideres do Centrão.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

CDS: o voto útil!




Começo por fazer um ponto prévio: eu acredito que, independentemente da direcção do PSD, o CDS seria o melhor partido para governar Portugal. A minha militância no CDS não se deve às circunstâncias políticas actuais, mas à convicção que a democracia cristã é o caminho certo para o país. Mais ainda, penso que o CDS tem melhores quadro político e pessoas mais bem preparadas para governar que os outros partidos.

Dito isto, também é verdade que Rui Rio facilita a vida a qualquer pessoa que não seja socialista. O actual presidente do PSD já deixou bastante claro ao que vem: preservar o seu lugar à frente do partido e encostar-se de tal maneira ao PS que consiga garantir uns cargos para si e para os seus partidários. A Rio não lhe interessa o país, mas o Estado. Ele não quer este ou aquela pasta do governo, o que ele quer mesmo é voltar ao velho centrão onde PS e PSD vão dividindo cargos como se fossem donos da coisa pública. Rio não concorre com o PS, mas com o PC e o BE para ver quem serve de muleta a António Costa.

Por isso é urgente afastar do seu partido as vozes incómodas e ao mesmo tempo mostrar-se sempre aberta às ideias da esquerda. Reparemos no caso caricato da Taxa Robles, onde Rio veio logo prazenteiro, com o seu ar de político moderado, dizer que a taxa até podia não ser má ideia, só para ser achincalhado com a reacção do PS à mesmo medida.

A verdade é que votar no actual PSD é o mesmo que votar no PS. Nada os distingue! A única alternativa de facto ao PS é o CDS. E não, não é pormo-nos em bicos de pé, é simplesmente constatar um facto. O voto útil, que durante tanto tempo deu tantos votos ao PSD, é agora o voto no CDS. De resto, do Bloco ao PSD todos os votos terão um único destino: apoiar um governo de António Costa.

Em Maio nas Europeias, mas sobretudo em Outubro nas legislativas, o CDS apresenta-se como a única alternativa real ao PS. Só um CDS realmente forte pode travar mais um governo das esquerdas encostadas. É irrealista? Talvez. Mas a única alternativa é mais quatro anos de gerigonça, agora na versão alargada!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Eleições no PSD: PPD vs PS2.





O PSD vai a votos. E vai a votos depois da demissão de Pedro Passos Coelho, o homem que liderou o país durante uma crise dramática, que com firmeza conseguiu tirar o país do buraco em que os socialistas nos colocaram, que mesmo depois de tomar medidas necessárias mas duríssimas, ganhou as eleições legislativas e que, ao fim de dois anos na oposição, é levado à demissão por um resultado menos bom nas autárquicas.

E começo por falar de Pedro Passos Coelho, porque me parece que para se perceber bem a importância das eleições do PSD é preciso perceber com clareza como é que lá se chegou.

Porque a verdade é que PPC devia ser um herói do seu partido e afinal acaba a ser empurrado pela porta pequena. Empurrado por quem? Pelas mesmas pessoas que durante quatro anos disseram que tudo o que governo fazia estava mal feito, pelos mesmos que diziam que íamos ter um segundo resgate, pelos mesmos que menosprezaram todos as subidas do índices económicos, pelos mesmos que diziam que era impossível Pedro Passos Coelho ganhar as eleições, pelos mesmos que nos dois anos após a vitória nas legislativas não descansaram enquanto o PSD não teve uma derrota para expulsar PPC.

A mim, que sou militante de outro partido, tudo isto me parece estranho. Eu diria que quando alguém durante quatro anos falha clamorosamente todas as suas previsões e demonstra uma total falta de lealdade para com o líder do seu partido o resultado devia ser o seu afastamento do partido. Pelos vistos no PSD o resultado é ser considerado o candidato ideal à liderança.

Porque a verdade é que a única “qualidade” que se conhece a Rio foi ter-se constantemente oposto a Passos e ser apoiado pelos barões que constantemente se opuseram a Passos. Mesmo quando isso significou fazer o jogo da esquerda, mesmo quando isso significou desejar o insucesso do governo nacional, mesmo quando isso significou alinhar com os mais abjectos ataques de que um governo foi alvo em democracia.

E assim teríamos Rui Rio, recompensado pelo seu constante apoio ao PS, líder incontestado do PSD, não fora a ousadia de Pedro Santana Lopes em se lhe opor.

Pedro Santana Lopes, que já tinha ganho o seu estatuto de senador do regime, que estava confortavelmente à frente da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e que politicamente já não precisava de demonstrar nada.

Muitos seguramente irão falar (como Rio tem feito) das trapalhadas de Santana. Mas a verdade é que tudo espremido temos meia dúzia de histórias inventadas pelos meios de comunicação social (algumas delas deram origem a processos de difamação, que foram ganho por PSL), a demissão do Ministro do Desporto e o golpe de estado constitucional feito por Jorge Sampaio. A isto se resumem as trapalhadas de um homem que foi um belíssimo presidente da Câmara da Figueira, que tem obra feita em Lisboa e que foi um extraordinário provedor da Santa Casa, tendo estendido o apoio social que esta presta ao mesmo tempo que deixou os cofres cheios (apenas para serem agora esvaziados na aventura do Montepio, a que Santana resistiu, mas que o governo finalmente conseguiu impor com a sua saída).

Eu como militante do CDS preferia que fosse Rui Rio a ganhar as eleições: seguramente isto levaria a que o PSD se transformasse num satélite do PS, com Rio contente em ser o vice de Costa, o que também significaria um crescimento do CDS.

Contudo, como português acredito que o país também precisa de um PSD forte. Por isso espero que o vencedor seja Pedro Santana Lopes, um homem que já provou ter a coragem suficiente para enfrentar o PS e todos os interesses que o rodeiam.