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segunda-feira, 22 de abril de 2024

CDS: Um pouco de humildade ficava bem

 



Aconteceu este fim-de-semana o congresso do CDS. Eu, por motivos familiares, não consegui ir. Mas fui acompanhando os acontecimentos. E confesso alguma preocupação com a soberba (que alias, preocupação que tenho desde 10 de março).

A verdade é que o CDS entre 2015 e 2019 perdeu 13 deputados. Também devemos lembrar que nesse mesmo ano, não conseguiu recuperar o seu segundo eurodeputado, tendo como cabeça de lista o actual presidente.

Entre 2019 e 2022 o CDS viveu uma guerra civil, onde muitos dos actuais dirigentes tiveram participação activa. Alguns dos que hoje apoiam entusiasticamente o CDS chegaram a apelar ao voto noutros partidos em 2022.  Isto num partido falido. O resultado, com muita responsabilidade da direcção então no poder, mas também daqueles que lutaram até ao fim para garantir o seu falhanço, foi que não conseguimos eleger qualquer deputado.

Em 2024 o resultado das eleições deixou claro que o CDS não cresceu eleitoralmente (as sondagens já o indicavam) e que a eleição de dois deputados se deveu a coligação com o PSD. Coligação que Francisco Rodrigues dos Santos tentou em 2022 e que foi abertamente criticada por muitos dos que hoje apoiam a actual direcção e pelo próprio Nuno Melo.

Por isso, fingir que o que aconteceu nos últimos anos do CDS foi um desastre de uma única direcção e que está ultrapassado devido ao génio do actual presidente, não só é mentira, como é uma estratégia perigosa. Francisco Rodrigues dos Santos não foi o causador dos problemas do CDS, mas também não os conseguiu inverter. E Nuno Melo, também não, teve foi mais sorte e um partido mais pacificado.

O CDS tem agora, com o regresso ao parlamento e a presença no Governo uma segunda hipótese, que não fez por merecer, de renascer. Convém aproveitá-la com humildade. Temos dois bons deputados, o que me alegra. Mas é preciso fazer realmente prova de vida e não embandeirar em arco. Sobretudo, é preciso que o CDS deixe de ser uma coutada pessoal, dos de sempre, que se abra realmente e sobretudo, que volte a ocupar o seu lugar como o partido da Direita Social, com propostas e medidas concretas de apoio às famílias, no reforço da sociedade civil, no apoio aos mais frágeis, na defesa da liberdade, sobretudo na liberdade de educação.

A soberba é sempre um pecado, mas a soberba sem ter razões para isso é também um dos piores erros que se pode fazer em política.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

É tempo de reconstruir, mas reconstruir o quê?


A grande novidade das últimas eleições legislativas foi a saída do CDS da Assembleia da República. Será esta a primeira legislatura em democracia que o CDS não terá qualquer representação no parlamento.

Com a saída do CDS do hemiciclo há um espaço político que fica órfão de representação parlamentar. Não há hoje no parlamento nenhum partido cuja a doutrina se baseie na dignidade da pessoa humana, especialmente da dos mais frágeis; na liberdade da sociedade, sobretudo da família, da Igreja e dos corpos sociais intermédios; num Estado ao serviço do Homem, que promova uma sociedade civil forte.

Evidentemente que existem vários deputados na Assembleia da República que defendem estes ideais, em vários partidos. Mas já não existe um partido que faça do personalismo cristão a sua doutrina.

Os partidos existem enquanto são úteis à sociedade. Evidentemente que a mim, que sou militante do CDS e que o tenho defendido o melhor que sei e posso, me custaria sempre ver o partido desaparecer. Mas é preciso que os militantes percebam claramente que um partido não é um fim em si mesmo.

O espaço da direita hoje em Portugal está bastante ocupado. Existe um partido de poder, onde há espaço para mais ou menos tudo o que não seja (muito) à esquerda. Existe um partido claramente liberal e um partido populista/de protesto, de cariz mais extremista. Se a tentação do CDS for, para voltar a ter força política, tentar ocupar algum destes espaços, então está condenado ao fracasso.

O único espaço que está livre é aquele em que o CDS sempre existiu, de forma mais ou menos assumida: o da democracia-cristã, baseada no personalismo. É nesse espaço que o CDS pode revelar a sua utilidade para Portugal.

Eu também acredito que é urgente reconstruir o CDS porque acredito que o espaço que o partido deixou órfão faz falta ao país. É preciso um partido na Assembleia da República que lute pela dignidade do homem, desde a concepção à morte natural. Que defenda a liberdade das famílias e a liberdade da sociedade, sobretudo na educação. Que promova a dignidade do trabalho, que se oponha ao esbulho fiscal, que esteja ao lado dos mais pobres e dos mais fracos da sociedade. É urgente um partido que acredite num Estado ao serviço do homem e da sociedade, sem ideologias.

Por este espaço político vale a pena lutar. Será um trabalho de formiga, feito na sombra, que exigirá muito esforço, mas que vale a pena.

O que não vale a pena é lutar por manter um partido de egos, de palavras redondas, preso a um passado que já não volta. Também não vale a pena lutar por um partido que procure ser a imitação barata de outros ou que troque o seu ideal por um sonhado sucesso eleitoral. Não vale a pena porque um partido assim não é útil, não vale a pena porque tal tentativa está condenada ao insucesso.

É tempo de reconstruir. E a perguntar que aqueles que querem reconstruir o CDS têm que fazer é: reconstruir o quê? E isso é mais importante do que nomes e protagonistas.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

CDS razões de um voto


 1. Uma mudança de época.

Vivemos um tempo de fim de uma era. A civilização ocidental, construída pelo cristianismo, rejeita as suas origens. Se é verdade que o Ocidente se tem descristianizado nos últimos séculos, aquilo que é hoje diferente é que aquelas evidências, fruto da cultura cristã que ainda sobravam, ruíram completamente nos últimos vinte anos.

Hoje a cultura dominante professa um homem criado à sua imagem e semelhança, que se define a si mesmo. Que define quando começa e termina a vida, que define a sua sexualidade, que define onde começa e termina a dignidade. Uma cultura que aceita tudo excepto a possibilidade da Verdade.

O resultado político desta cultura reflecte-se num Estado que procura moldar a realidade através do poder. Um Estado que define o que é vida e o que não é, o que é a família, quem é homem e quem é mulher. Evidentemente que o resultado é um Estado totalitário, que não admite a própria realidade.

É por isso urgente procurar espaços na política onde seja possível defender a liberdade de afirmar a Verdade. Antes de mais, que o Homem é criatura de Deus, que é anterior ao Estado, e que a sua Dignidade e Liberdade não está dependente do Estado ou da sociedade. Que o Estado existe para servir o Homem, para defender a família e a sua liberdade, os corpos sociais, ou seja, que exista para fortalecer a sociedade civil e não para a dominar.

Temos a tentação hoje de olhar para a política pelo critério do mundo, que a divide em direita e esquerda. Esta divisão, por muito facilitadora que seja, é redutora. A verdade é que, quer à direita quer à esquerda, encontramos a mesma mentalidade onde Deus foi substituído pelo Estado, pelo Mercado, pela Pátria, ou por outro qualquer chavão ideológico. A mim pouco me interessa a direita e a esquerda, o que me interessa realmente é encontrar uma realidade política que defenda a Dignidade e a Liberdade do Homem e da sociedade.

 

2. O paradoxo entre ideal e realidade.

O empenho político nasce de um desejo de justiça, de verdade, de beleza. Nasce de um pulsar do coração que nos leva a desejar um mundo melhor.

Ao mesmo tempo, a política é feita em geral de pequenas coisas e de grande limites. A política está sempre limitada, antes de mais pela nossa incapacidade e disponibilidade. Mas sobretudo, limitada pelo liberdade do outro. É impossível em milhões de pessoas que tudo seja como nós desejamos.

Temos por isso duas soluções. Rejeitar qualquer compromisso, e viver de tal maneira presos ao ideal que acabamos sós e impotentes, ou perceber como é possível, dentro dos limites que a realidade impõe, servir o ideal.

É um equilíbrio nem sempre fácil. É fácil cair na trincheira da ideologia, em que o ideal se transforma no único prisma porque olhamos a realidade até a reduzirmos a uma ideologia. Não é mais difícil, a coberto do realismo utilitário, descartar o ideal com a desculpa da eficácia.

Por isso a política vive nesta tensão entre o ideal e o real. Exige um discernimento constante em cada circunstância sobre como é possível viver o ideal em cada decisão concreta.

Este paradoxo está especialmente presente na hora de votar. Nenhum candidato é o ideal, todos têm defeitos ou aspectos com os quais discordo. E todos nós preferíamos outros candidatos quaisquer. Mas o facto é que nas eleições somos chamados a escolher entre os candidatos que há, e não entre os candidatos que sonhámos. E por isso a alternativa é entre escolher aquele que mais se adequa ou desresponsabilizar-nos (com a desculpa que nenhum serve) da política.


3. Porque voto CDS.

Nas eleições de 30 de Janeiro, é preciso escolher entre os vários partidos qual aquele que melhor defende a Dignidade do Homem e a sua liberdade. Existem várias questões concretas que serão importantes nesta legislatura e que ajudam a discernir sobre o voto.

A primeira questão é a da eutanásia. A legalização da morte a pedido significa que o Estado reclama para si o direito de definir em que circunstâncias a vida humana tem ou não valor. E se o Estado pode decidir sobre a dignidade humana, significa que pode decidir sobre qualquer outro direito. Se há circunstâncias em que o Estado pode decidir que é licito matar, significa que haverá sempre circunstâncias onde o Estado pode decidir retirar qualquer outro direito fundamental.

Por isso, não posso votar num partido que não rejeita a eutanásia. Bem sei que provavelmente, e independentemente do meu voto, a questão será aprovada no Parlamento. Mas existe um diferença fundamental entre não conseguir travar um lei injusta e dar o meu voto a quem a vai aprovar.

Mas a questão da dignidade humana não se esgota no direito à vida. O respeito pela dignidade de cada pessoas concreta em cada circunstância, significa também respeitar a dignidade dos trabalhadores, dos mais pobres, dos doentes, de todos, incluindo  daqueles que cometem crimes. Porque ou a dignidade humana é objectiva e independente da circunstância, ou então está à disposição do poder.

Um segundo ponto essencial é a liberdade de educar. E não se trata apenas da liberdade de escolher a escola, ou da autonomia das escolas (que também é importante). Mas sim de reconhecer que a missão de educar cabe antes de mais à família e que ao Estado cabe auxiliar as famílias, não substituir-se a elas. Defender o fim da doutrinação obrigatória nas escolas e liberdade dos pais para escolher a educação dos filhos é essencial.

Um terceiro ponto essencial é liberdade dos corpos sociais. Portugal é um país profundamente estatista, onde o Estado tem a tendência de absorver qualquer iniciativa fora da sua esfera. É necessária uma sociedade forte, que seja capaz de responder aos problemas sociais. Por isso apoiar os corpos sociais (a Igreja, as associações, as IPSS, etc) é essencial para uma sociedade livre.

Por fim, também é importante a liberdade económica, porque esta é essencial para garantir a dignidade humana. O homem é sempre digno, mas quando vive na pobreza a sua dignidade não é respeitada. É preciso criar condições para que cada pessoa possa trabalhar dignamente e viver dignamente do seu trabalho. E isso não é possível com a asfixia fiscal em que vivemos. É preciso uma sociedade onde seja possível criar riqueza.

De todos os partidos, aquele que mais claramente tem defendido todas estas questões é o CDS. Fá-lo no seu programa eleitoral e tem feito delas os temas centrais da sua campanha. Por isso, não apenas voto como apelo a que se vote no CDS. Não por um qualquer clubismo, mas por ser o partido onde reconheço de forma mais evidente a defesa das questões que a mim me parecem mais essenciais.

Evidentemente que com isto não quero dizer que o CDS seja perfeito ou a única opção. Mas não tenho dúvidas que é aquele que de forma mais clara defende a Dignidade Humana e a sua liberdade.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O último bastião


A recusa do PSD em coligar-se com o CDS é uma boa notícia. Evidentemente que dificulta a vida ao CDS, que nas actuais circunstâncias terá de trabalhar muito para assegurar um grupo parlamentar. Mas o actual PSD não é o PSD de Passos Coelho, nem sequer o de Durão Barroso e menos ainda o de Sá Carneiro. O actual PSD em pouco ou nada se distingue do actual PS. Nem nas políticas que defende, nem nos métodos que usa.

Basta tomar como exemplo a questão da eutanásia, onde Rio manobrou o que pode para conseguir a sua aprovação. De facto, Rio fez bastante mais pela legalização da morte a pedido que António Costa. E de resto, nada separa, neste tema, Mónica Quintela de Isabel Moreira, ou André Coelho Lima de Bacelar de Vasconcelos. Se foi assim num grupo parlamentar escolhido pela anterior direcção, num escolhido por Rio será seguramente pior.

E quanto aos métodos, também pouco os parece distinguir. Rio apregoa banhos de ética mas depois garante o poder recorrendo aos caciques mais poderosos do seu partido como os Gonçalves ou Malheiro. Até ressuscitou António Preto! Tal como a Costa, pouco ou nada lhe preocupam as suspeitas que rodeiam os seus apoiantes, desde que estes lhe sejam úteis.

A grande diferença entre Rio e Costa não é doutrinal ou de honestidade, é mesmo de competência. E nesse campo quem fica a perder é o líder social-democrata.

Seria por isso muito complicado ao CDS justificar a coligação com este PSD. Como poderia um partido que esteve na linha da frente na luta contra a eutanásia apelar ao voto em Rio? Eu pessoalmente não o faria.

Por isso, por muito difícil que seja, ir a votos sozinho é bom e necessário. Porque o CDS tem neste momento uma posição única na política portuguesa: é o último bastião na defesa de um Estado baseado na dignidade da pessoa humana.

Temos à esquerda um conjunto de partidos para quem o estado é a origem de todos os direitos, incluindo do direito à Vida e à família. Á direita temos dois partidos: um que substitui Estado por mercado achando que assim resolve todos os problemas, outro para quem a dignidade humana depende do Código Penal ou dos pais.

O CDS é assim um último bastião para aqueles que acreditam que a pessoa deve estar no centro de toda a acção política. Para aqueles que acreditam numa sociedade civil forte, apoiada por um Estado solidário. O bastião dos que acreditam que toda a vida é digna, desde a concepção à morte natural, incluindo todas as fases entre estes dois acontecimentos. O bastião dos que amam Portugal, a sua história e a sua cultura e que por isso sabem que a nossa vocação não é estar fechados ao mundo. O bastião dos que acreditam nas liberdades individuais, mas sabem que o Estado é necessário para garantir que todos possam exercer essas liberdades. O bastião contra toda a tirania, do Estado ou do mercado, dos sindicatos ou dos patrões, à direita e à esquerda.

Sim hoje somos poucos e estamos frágeis. Gastámos demasiado tempo e energia numa guerra civil inútil. Mas o CDS é hoje mais necessário do que nunca. Por isso, é hora de enterrar machados de guerra, de colocar os conflitos em pausa, e por muito que doa, lutar por um bom resultado no dia 30 de Janeiro. Não se trata de defender uma direcção ou de tentar salvar um partido. Trata-se simplesmente de garantir que no dia 31 de Janeiro ainda haverá na Assembleia da República um grupo parlamentar que defenda a dignidade humana do princípio ao fim.

sábado, 11 de janeiro de 2020

CDS: menos aparência, mais substância. - Observador, 11/01/20

A política é a tensão entre o ideal e o real. Ou seja, entre aquilo que se acredita ser o melhor para a sociedade e o que é possível fazer.

Assim começava o artigo que escrevi no Observador há dois anos, pouco antes do congresso do CDS em Lamego, quando muito se discutia se o CDS devia ser mais ideológico ou mais pragmático. Já na altura tinha a mesma posição que tenho hoje: pragmatismo e idealismo não são antagónicos, pelo contrário, são complementares.

O resultado do pragmatismo como estratégia política ficou à vista nos últimos dois anos: um partido sem rumo, a cavalgar todos os escândalos, sem um projecto para o país, perdido em estratégias de comunicação. A famosa fotografia dos deputados do CDS reunidos com os deputados da esquerda para aprovar a reposição do tempo dos professores que tanto dano causou na campanha, não foi fruto de um azar, foi fruto desta estratégia. Os últimos dois anos deixaram claro que o CDS era contra os socialistas, mas ninguém percebeu qual a alternativa que propunha.

O problema do CDS não se resolve, como tantos parecem achar, com um simples afinar do tiro ou com um estilo novo. Não basta uma nova agência de comunicação, renovar slogans ou fazer publicidade gira nas redes sociais. O problema do CDS é um problema de substância e isso não se resolve com triunfalismos gerados por vagas de fundo criadas por estruturas do partido.

Infelizmente, muitos parecem confundir substância com proclamação de princípios. Como se fosse suficiente afirmar aquilo em que acreditamos, sem um projecto realista para transformar a doutrina em propostas concretas para o país. A posição do idealista entrincheirado nos seus princípios serve para um partido de protesto, mas não é útil para um partido que queira realmente construir o bem comum.

Aquilo que o CDS precisa é de apresentar um projecto claro ao país. Retomar o ímpeto fundador, de ser não apenas oposição, mas uma alternativa real ao socialismo. É preciso que a defesa da Vida, a subsidiariedade, a economia social de mercado, a defesa das liberdades individuais, dos trabalhadores, do mundo rural, dos mais pobres, das pessoas deficientes, da cultura portuguesa, da Europa das nações e da portugalidade não sejam apenas palavras mortas, mas dêem origem a um verdadeiro programa de governo.

É isto que o CDS devia debater: como trazer para o século XXI estes princípios, os princípios da democracia cristã, os princípios que tornaram o CDS um partido realmente diferente e necessário na política portuguesa.

É isto que a moção Juntos pelo Futuro de Filipe Lobo d’Ávila tenta fazer. É uma moção longa (a maior das que foram apresentadas ao congresso), despida de truques de grafismo ou de comunicação. É verdadeiramente um programa de governo, que reafirma de maneira cristalina a doutrina do CDS e que faz propostas concretas para a sua aplicação.

Num tempo onde a aparência parece ser o mais importante na política, Filipe Lobo d’Ávia apostou na substância. Sem agências, sem truques de comunicação, sem o apoio de estruturas partidárias, apresentou um documento fruto da sua reflexão com o grupo que o tem acompanhado nos últimos anos.

Filipe Lobo d’Ávila não é príncipe herdeiro de uma dinastia decadente, nem um Dom Sebastião vindo de uma qualquer manhã de nevoeiro. É precisamente quem foi nos últimos anos: a voz que propôs um caminho diferente daquele que o CDS percorreu nos últimos tempos. Vai a Aveiro propor aquilo que propôs em Gondomar, quando se opôs à sucesão de Paulo Portas, e aquilo que propôs em Lamego, quando o CDS exultava com o resultado de Lisboa. Um projecto para trazer o CDS de volta à democracia cristã, um projecto para trazer os ideais do CDS para o século XXI. Penso que chegou a hora de o ouvir.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Trazer a democracia cristã para o século XXI - Jornal Económico, 13/12/19

O desastre do CDS nas eleições legislativas fez o partido entrar em convulsão. Mas depois de 6 de Outubro descobriu-se que afinal todos os militantes do CDS, dirigente incluído, afinal discordavam do caminho que o partido estava a seguir!

Ironias à parte, a verdade é que se têm multiplicado o número de personalidades que bradam por um CDS verdadeiramente democrata-cristão, que na sua boca significa mais de direita e mais conservador. Supostamente seria esse o segredo para conquistar os eleitores.

Tenho vários problemas com estas exigências. O primeiro dos quais é que são tão vazias como o famoso pragmatismo de Adolfo Mesquita Nunes que resultou no resultado que se conhece.
Vazias porque se baseiam na mesma ideia: aquilo que realmente importa é dizer o que o eleitorado quer ouvir. A anterior direcção afirmava que as pessoas queriam era ouvir falar dos problemas concretos. Os que agora a criticam acham que as pessoas querem é ouvir falar da lista de temas que, regra geral, alimenta as redes sociais.

Esta estratégia, de adaptar o discurso à contingência que supostamente garante o melhor resultado eleitoral, é a estratégia que destruiu o CDS. No fundo, é a estratégia de Paulo Portas, mas sem ele. Funcionou com Portas porque ele era um político de excelência. Mas o ‘portismo’ sem Portas não funciona, porque na ausência de um líder de excepção, não há uma ideia ou causa que levem as pessoas a apoiar ou a votar no CDS.

O segundo problema é que embora usem muito a expressão democracia cristã acabam a defender outra coisa: um partido conservador e verdadeiramente de direita, o quer que isso seja. A democracia cristã é uma doutrina política com princípios claros: dignidade humana, solidariedade social, subsidiariedade.

Claro que os conservadores de direita se revêem em muitos destes princípios. Mas não são confundíveis e, em alguns casos, nem sequer compatíveis. A democracia cristã não é conservadora, porque o seu ponto não é conservar uma tradição ou sistema, mas defender a dignidade objectiva de cada Homem. E está acima da divisão anacrónica de esquerda e direita, porque não está presa a definições ideológicas, mas procura soluções concretas que permitam organizar a sociedade para o seu fim último, o bem comum, independentemente das soluções preconizadas caberem nas definições de direita ou esquerda.

É preocupante que diante da actual crise a discussão no CDS seja sobre qual a máscara que convém usar para o partido recuperar nas sondagens. O que realmente importa discutir é se o CDS tem hoje algo a propor ao país.

Numa direita sobrepovoada que espaço sobra para o CDS? O espaço para o qual foi criado: a democracia cristã. Há 44 anos atrás, diante do avanço do socialismo, os fundadores do partido tiveram a coragem de propor outro sistema. Um sistema baseado na dignidade humana, com respeito pelas liberdades individuais. Uma sociedade baseada na família e na solidariedade entre os indivíduos. Um Estado construído de baixo para cima, descentralizado, com espaço para os corpos intermédios da sociedade. Um país com uma economia de mercado, mas com mecanismos de regulação que proteja os mais frágeis. O CDS não se limitou a opor-se ao socialismo, propôs uma verdadeira alternativa a este.

Acompanho por isso Filipe Lobo d’Ávila quando afirma que é preciso refundar o CDS. Mais do que conversas vazias sobre direita e conservadorismo, é preciso coragem para retomar o ímpeto inicial do CDS e trazê-lo para o século XXI. Para menos do que isto é tempo perdido.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

CDS mais ou menos à direita? Uma perda de tempo. - Público, 17/10/19

O novo desaire do PSD e do CDS trouxe consigo o regresso do debate sobre a Direita. Mais uma vez assistimos à discussão sobre o que é preciso mudar para que o Partido Socialista deixe de estar no poder excepto em alturas de crise.

Da parte do CDS este debate acaba sempre por cair na discussão sobre se o partido deve ser mais à direita ou se deve ser menos sectário, de maneira a facilitar uma grande coligação de centro-direita contra o PS. Invariavelmente o problema resume-se no quão à direita o CDS deve ser.

O problema é que ser de direita não quer dizer coisa nenhuma. Direita e esquerda são adjectivos surgidos na revolução francesa que descreviam onde se sentavam os mais conservadores e os mais progressistas na Assembleia Nacional. Desde então tem sido usado como forma simples de classificar os partidos e as doutrinas políticas. Mas em si mesmo, simplificando para efeitos do argumento, não querem dizer nada.

À esquerda o problema não se revela tanto pelo simples de facto que esta se identifica com o socialismo nas suas múltiplas variantes. Mas aquilo que habitualmente descrevemos como direita é um conjunto variado de doutrinas e ideologias políticas com raízes e propósitos diferentes.

Por isso ser “mais à direita” não quer dizer nada. Ser mais à direita pode significar um Estado mais autoritário, ou menos Estado. Pode significar mais europeísmo ou mais nacionalismo. Pode significar mais liberalismo económico ou mais regulação do Estado. Mais à direita significa coisas diferentes para um Liberal, um Conservador, um Democrata Cristão ou um nacionalista.

Mas pior do que querer ser mais à direita, no vácuo desta expressão, é querer que haja uma só direita. Uma só direita significa abandonar qualquer pensamento original das várias direitas, e unir-se em volta do combate à esquerda. No fundo é transformar a direita em apenas uma “contra-esquerda”.
Qualquer uma destas duas opiniões tem como consequência deixar as direitas ser definidas pela esquerda. Desistir de apresentar qualquer ideia original, mas simplesmente combater o socialismo. Ou seja, no fundo, é não propor uma alternativa ao pensamento da esquerda, mas simplesmente reagir a este.
O grande problema das direitas foi perderem a sua identidade. Para serem poder aceitaram a predominância cultural e social da esquerda, e limitaram-se a ser a governanta do país, que aparece para pôr as contas em ordem. E está tão afundada nesta mentalidade, que mesmo quando reage o faz meramente rejeitando as propostas da esquerda, mas sem qualquer capacidade de propor uma visão para o país que não seja a reacção à esquerda.

Este é o problema de centrar o debate sobre o futuro das direitas no ser mais ou menos à direita: tem sempre como condição prévia o quadro mental e cultural da esquerda.

Aquilo que o CDS precisa não é de ser mais ou menos à direita. Esse debate é fazer o jogo da esquerda. O que o CDS precisa é de ter uma identidade clara que se traduza numa proposta clara para o país. Não uma mera rejeição do socialismo, mas uma verdadeira alternativa a este.

Essa foi aliás a grande riqueza e contributo de Adelino Amaro da Costa e Diogo Freitas do Amaral para a democracia: num tempo onde todos os partidos tinham que ser socialistas, os fundadores do CDS tiveram a coragem de propor um partido personalista cristão, que tinha como centro a dignidade humana. Um partido que propunha um Estado ao serviço do Homem, em colaboração com os vários corpos sociais, que procurasse garantir a dignidade de cada homem respeitando as liberdades individuais, que defendia uma economia social, ou seja respeitando a liberdade económica, mas ao serviço da sociedade.

Os tempos mudaram e os desafios dos nossos dias são diferentes daqueles que enfrentaram Amaro da Costa e Freitas do Amaral. Mas parece-me que seria muito mais proveitoso para o CDS debater como tornar actual este ímpeto dos seus fundadores, de um partido verdadeiramente democrata-cristão, centrado na dignidade humana, que defende um Estado ao serviço do bem comum, do que na estéril discussão de quão de direita deve o partido ser.

O CDS só voltará a crescer quando recuperar a sua identidade. Discutir se esta identidade está mais à direita ou mais ao centro, se deve ser mais ou menos sectário é apenas desperdiçar tempo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O CDS e o futuro: haja coragem!





O resultado das legislativas foi desastroso para o CDS. Infelizmente, foi um desastre anunciado, aconteceu apesar de todos os avisos de que o caminho que estava a ser percorrido não tinha bom fim.

No congresso de Lamego, a palavra de ordem foi o famoso pragmatismo. Desde então o CDS furtou-se a qualquer debate público de ideias e agarrou-se à fórmula de que era preciso apenas discutir “os problemas concretos das pessoas”. Apesar dos sinais das europeias, apesar do panorama europeu e mundial, onde era claro que, de facto, as pessoas queriam ideias e ideais, a direcção do partido decidiu manter a sua estratégia. A procura de um novo eleitorado que permitisse conquistar o centro-direita ditou que o partido guardasse as suas bandeiras (e defendeu tantas, corajosamente, no parlamento) e se limitasse a falar dos temas do dia-a-dia. O resultado da estratégia está à vista: não se ganhou nenhum novo eleitorado e o antigo está a esvair-se.

É evidente que Assunção Cristas tem responsabilidade nesta estratégia. E a ainda presidente do CDS assumiu-as com  dignidade na noite eleitoral. Mas não deixa de ser verdade que há outra cara desta linha, o primeiro a proclamar a necessidade do pragmatismo, autor do programa eleitoral e claramente um dos grandes estrategas da direcção: Adolfo Mesquita Nunes. A derrota de ontem é do CDS, é de Assunção Cristas, mas é também do seu principal ideólogo.

É impossível não reconhecer a capacidade política de Adolfo Mesquita Nunes. Um bom orador, um bom tribuno, responsável durante a crise por uma das pastas que mais alavancou a economia portuguesa. Mas nada disto pode afastar a evidência de que a sua estratégia conduziu o partido à pior votação de sempre.

Não basta por isso simplesmente mudar o líder do partido: é preciso claramente mudar o rumo. Nada seria pior do que trocar Assunção Cristas por um líder que vá simplesmente continuar a estratégia de, em nome do pragmatismo, diluir aquela que é matriz do partido: a democracia cristã.

É por isso preciso um novo rumo. Evidentemente, o tempo não volta para trás nem se repete. O trabalho que espera o CDS não é o de repetir fórmulas passadas. O que é preciso é retomar o ímpeto fundador do partido e trazê-lo para os nossos dias.

É preciso voltar a afirmar hoje com clareza o primado da dignidade da Vida Humana, em todas as circunstâncias, desde a concepção até à morte natural. E como consequência dessa dignidade o respeito pelas liberdades individuais: a liberdade de educação, a liberdade religiosa e política, a liberdade económica.

Mas também no respeito pela dignidade humana é preciso defender um Estado Social cooperativo, não centralista. Um Estado que serve as pessoas e que é garante do respeito pela sua dignidade. O CDS, como partido democrata-cristão, tem que ser o partido dos trabalhadores, dos pequenos e médios empresários, dos agricultores, das famílias. O partido que defende os mais fracos e indefesos. Não somos nem podemos ser um partido liberal, que coloca a liberdade acima da dignidade Humana.

Por fim, um Estado que se concebe como instrumento de uma sociedade, é um Estado que respeita a história, as tradições e a cultura da sociedade. Não se trata de um saudosismo bafiento, mas de um respeito por aquilo que nos une enquanto portugueses. Em nome de uma qualquer ideologia de vanguarda não podemos rasgar 900 anos de história.

Muitos dirão que isto é conversa que não interessa a ninguém, que as pessoas só querem saber de coisas concretas. Mas a verdade é que temos assistido cada vez mais à ascensão dos partidos que se apresentam com ideais (do PAN à IL) e que o pragmatismo deu 4% nas urnas.

O futuro não parece risonho para aqueles que acreditam numa política baseada na dignidade da Pessoa Humana. Num Estado ao serviço das pessoas e não da ideologia. Para as pessoas que desejam políticos ao serviço do ideal e não do resultado eleitoral. Mas a hora não é de cobardias nem de tibiezas. Nos próximos anos não se jogará apenas a sobrevivência do CDS, mas do regime democrático que está cada vez mais enlameado, cada vez mais afastado das pessoas, cada vez mais fragilizado.

O CDS, tal como há 40 anos, quando cercado no Palácio de Cristal e ameaçado pelos que não suportavam um partido de homens livres, tem que voltar a ser o partido do humanismo cristão, que se ergue contra a tirania do marxismo e o pântano do centrão. Haja coragem.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Porquê votar no CDS?



Dia 6 de Outubro é dia de eleições legislativas. Pela primeira vez serei candidato ao Parlamento. Vou em 44 da lista do CDS/PP em Lisboa, pelo que a minha participação nestas eleições trata-se apenas de um sinal de apoio ao meu partido, que considero ser a melhor opção para Portugal.

As próximas eleições serão dramáticas para o país. Os últimos anos e as sondagens demonstram uma política onde a mentalidade socialista cada vez mais domina. Por mentalidade socialista entenda-se uma concepção da sociedade onde o Estado é o centro e a quem cabe moldar a realidade. Seja na economia, seja na educação, até na biologia. A actual mentalidade socialista não se limita a defender a estatização da economia ou dos serviços, vai tão longe como desejar dar ao Estado o poder de decidir onde começa e onde acaba a Vida, de se imiscuir na sexualidade de cada um e até mesmo no cada pessoa come e bebe.

Infelizmente esta mentalidade tem cada vez mais força na política. Não só domina completamente os partidos de esquerda, mas começa também a ser cada vez mais dominante no próprio PSD.

Por isso é essencial que cada um que defende uma política com o Homem no centro, que dia 6 de Outubro vença qualquer preguiça ou desencanto e vá votar. E parece-me claro que a alternativa ao socialismo em Portugal, o partido que de facto defende uma política centrada nas pessoas, é o CDS.
Antes de mais, é sempre bom relembrar que o CDS integrou o governo de salvação nacional que liderou o país durante a terrível crise a que o Partido Socialista nos entregou. O governo de que o CDS fez parte recebeu em mãos um país falido, entregue por José Sócrates à troika e passados quatro anos entregou um país recuperado e em crescimento. E ao contrário de Rui Rio, o CDS não só não renega esse passado, como o assume com orgulho. 

Também não é demais lembrar o trabalho do CDS nos últimos quatro anos. Foi sempre oposição à gerigonça, sendo que depois da saída de Passos Coelho, se tornou a única oposição. Nos últimos quatro anos o CDS denunciou sempre o caminho deste governo: a manipulação e a mentira diante de um país com serviços cada vez mais arruinados, com a economia a crescer muito abaixo do que devia e uma política feita à medida dos interesses eleitorais do Partido Socialista. Para além disso o CDS foi, mais uma vez, muitas vezes solitariamente, a voz que defendeu os interesses das pessoas sobre a ideologia do Estado. É justo relembrar o trabalho de Isabel Neto contra a eutanásia e na defesa dos cuidados paliativos, da Ana Rita Bessa na defesa da liberdade de educação, da Cecília Meireles na luta pela transparência nos negócios do Estado, a voz de Patricia Fonseca em favor do mundo rural e das nossas tradições. O CDS propôs a criminalização do abandono de idosos, a defesa dos direitos em fim de vida, o estatuto do cuidador informal, defendeu a redução do IRC. Foi o CDS que liderou o pedido de supervisão de constitucionalidade das barrigas de aluguer mais tarde declarada pelo Tribunal Constitucional e dos 18 deputados do CDS quinze assinaram o pedido de supervisão da lei de identidade de género.

Para além disso vale a pena votar CDS pelos candidatos que apresenta nesta eleição. Em Lisboa, para além das deputas já citadas, vale a pena votar em João Gonçalves Pereira e no Diogo Moura, que para além do seu extraordinário trabalho em Lisboa, têm apoiado e dado força aqueles que lutam pela defesa da Vida e da Família. Vale a pena votar na Raquel Abecasis em Leiria, no Filipe Anacoreta Correia em Viana do Castelo, no Francisco Rodrigues dos Santos no Porto: todos eles têm sido vozes públicas na defesa da Vida, da Família, da Liberdade de Educação e de um verdadeiro Estado Social.

Vale também a pena fazer um exercício que em geral pouco gostamos: o de ler o programa do CDS. É útil para perceber a diferença clara entre a visão do CDS para a sociedade e a da esquerda. O CDS defende um Estado ao serviço das pessoas, um verdadeiro Estado Social, que aposta na cooperação com a sociedade. Que tem como fim, não o Estado em si mesmo, mas o garantir a dignidade e os direitos de todos. Por isso defende a liberdade de escolha da escola, cooperação entre o SNS e o sector privado e cooperativo, apoiar as famílias alargando a licença de paternidade assim como a rede de creches, menos impostos para que as famílias possam dispor dos seus rendimentos da forma que preferirem, defende que o direito à habitação não se faz à custa dos privados, mas colocando o património do Estado no mercado, a desburocratização, a defesa do interior com um estatuto fiscal adequado, limitar o poder inquisitorial da Autoridade Tributária. Resumindo: um Estado que não seja um obstáculo às pessoas, mas uma ajuda.

Por tudo isto votarei CDS no dia 6 de Outubro. Se com isto quer dizer que nada há a criticar? Claro que sim. E haverá sempre em qualquer partido. Mas no dia das eleições não vamos votar nos candidatos perfeitos que existem na nossa cabeça, mas sim naqueles que se apresentam às urnas. E de entre esses para mim a escolha é claramente o CDS.

P.S.: Não sendo cego nem surdo, bem sei as criticas que têm sido feitas ao CDS neste últimos anos. Também sei que boa parte desses críticos perdeu mais tempo a dizer mal de Assunção Cristas do que a combater a eutanásia ou as barrigas de aluguer. Gosto pouco de lições de moral da parte de quem só sabe dizer mal, sem de facto estar disponível para lutar por algo mais do que um lugar na ribalta.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Para tudo há um momento e um tempo (Ecl 3,1)



O livro do Eclesiastes diz que há um momento e um tempo para tudo: tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para amar e tempo para odiar, um tempo para a paz e o tempo para a guerra. Diz também que há um tempo para falar e um tempo para calar.

Quem se empenha na política tem que ter sempre em primeiro lugar o bem comum. Na nossa organização do poder político a política faz-se sobretudo nos partidos. Quem milita num partido deve por isso ter em primeiro lugar o bem comum e só a seguir o partido. O partido é funcional, é um instrumento para a organização política. Se um político serve o partido antes do bem comum então está a servir-se a si mesmo e não a nação.

Por isso um partido deve ser um espaço de liberdade, com espaço para todos aqueles que , partilhando a mesma doutrina política, ou doutrinas políticas com pontos em comum, tem diferente opiniões e ideias sobre como trazê-las à prática.

Nada seria pior do que um partido monolítico, onde todos tivessem a mesma opinião. Pior ainda, um partido onde todos tivessem que concordar com o seu líder. As divergências, as diferenças de opinião, as criticas são não apenas justas, como também muitas vezes necessárias.

Contudo, como dizia ao principio, há um tempo e um momento para tudo. Faltam pouco mais de dois meses para as eleições legislativas. Eleições essas que parecem vir a ser desastrosas para o país: a vitória da esquerda é certa, a única discussão aparente é o tamanho dessa maioria.

Este resultado será sem dúvida muito por culpa da direita. E muito há a dizer e a criticar na política do PSD e do CDS nos últimos quatro anos. Em 2015 os dois juntos conseguiram 38.50% dos votos e 107 deputados. Em 2019 os dois juntos poderão não chegar aos 25% dos votos.

Não podemos ignorar o que se passou na direita nestes anos. Nada seria pior do que se, após as eleições, os militantes dos partidos de direita enterrassem a cabeça na areia, fingido que é tudo culpa da comunicação social e dos novos partidos que dispersam o voto.

Mas para tudo há um momento. E este momento é o de luta contra a esquerda, não o da guerra interna. Não é tempo de ajustes de contas, nem de posicionamentos para futuras lideranças.

Percebo perfeitamente os militantes que, discordando da direcção do seu partido, decidam não participar na campanha. Não percebo aqueles que vendo o abismo à sua frente empurram o seu partido nessa direcção, com constantes criticas nos jornais e guerrilhas nas redes sociais.

Nada é mais oco e vazio do que dizer que é tempo de união: se alguém não acredita num projecto é natural que não o apoie. Mas é sem dúvida tempo de silêncio. Em bom português, quem não quer ajudar que não o faça, mas saia da frente.

Se em última instância um militante discorda de tal maneira do seu partido que lhe parece melhor que outro partido tenha melhor resultado nas eleições, se de facto já não acredita no seu partido, então tem o dever moral de abandonar o partido. Se apesar de tudo, apesar de toda a discordância, continua a acreditar que o seu partido é a melhor opção para o país, então este é o tempo do silêncio.


A partir de 6 de Outubro haverá tempo para juízos, balanços, críticas. Até lá, o único inimigo deve ser a esquerda.