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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A exumação de Franco e a trincheira ideológica.





Quando Franco morreu foi sepultado na Basílica do Vale dos Caídos. O Vale dos Caído é um monumento imponente, construído durante o franquismo para sepultar os mortos de ambos os lados da Guerra Civil de Espanha.

A retirada dos restos mortais de Franco do Vale é uma guerra antiga da esquerda, que Pedro Sanchéz decidiu levar até ao fim. Por isso há duas semanas, depois de um processo atribulado, Franco foi exumado e os seus restos mortais transladados para o mesmo cemitério onde está enterrada a sua mulher, com acesso restrito ao seu túmulo.

O que mais me impressionou na exumação de Franco não foi o facto em si, mas a irresponsabilidade de Pedro Sanchéz.

Espanha não tem um problema com o franquismo. Para além de umas centenas de caturras que todos os anos participavam numa missa e cantavam o Cara al Sol, não se conhecem movimentos políticos ou sociais a gritar pelo regresso do franquismo. A transição para a democracia em Espanha foi um sucesso.

Esta decisão, de exumar Franco, foi feita apenas com um fim político: garantir poder ao PSOE. Ao exumar Franco, Sanchéz colocou em cheque o PP e o Ciudadanos(se são contra são fascistas, se são a favor são traidores, se não têm opinião, cobardes) e deu força ao Vox que vestiu a pele da direita corajosa, verdadeiramente espanhola, sem medo de enfrentar o “politicamente correcto”.     

E dar força ao Vox serve os propósitos de Sanchéz que aposta tudo numa polarização de Espanha. Sanchéz exumou Franco para causar revolta na direita, para logo a seguir poder gritar: vêm aí os fascistas! O presidente do governo espanhol quer ganhar as eleições à custa da divisão das duas espanhas. Quer aprofundar essa divisão e estabelecer-se como o campeão da esquerda.

Esta política seria sempre perigosa. Mas é mais perigosa num país onde os avós dos actuais eleitores, mataram e morreram por causa destas divisões. Num país onde a cicatriz da guerra e da ditadura ainda não está fechada. Pelo poder, Sanchéz demonstra-se disposto a reabrir essa cicatriz o mais profundamente possível.

Infelizmente, Pedro Sanchéz não é um caso isolado, mas uma tendência cada vez mais disseminada. A política está cada vez mais polarizada. Cada vez mais os políticos aproveitam o descontentamento popular para fazer uma política de trincheira, transformando os adversários em inimigos a abater. Esta política afasta os moderados e abre o campo para eleições disputadas por Trump e Clinton, Bolsonaro e Haddad, Jonhson e Corbyn.

Mas não se confunda a moderação com uma ausência de firmeza. E não se confunda ideais com ideologia. Aquilo a que assistimos é a uma política cada vez mais ideológica. Ou seja, uma política onde um meio para atingir o bem comum é transformado num fim em si mesmo, transformando quem discorda num adversário, com o qual não é possível qualquer hipótese de diálogo.

Pensemos, por exemplo, na luta pela igual dignidade de todas as pessoas. Esta luta pela igualdade, transformada num fim em si mesmo, permite colocar a igualdade acima da dignidade humana. Por isso, em nome da igualdade entre homem e mulher, se defende o aborto. E transforma-se quem é contra o aborto num inimigo da mulher! Mas não nos enganemos, o contrário também é possível. É possível proclamar a defesa da herança cristã da Europa até ao ponto de estarmos dispostos a permitir que morram pessoas no Mediterrâneo.

A defesa do bem comum exige a capacidade de diálogo com quem discorda de mim, de construir em conjunto, de procurar, não consensos, mas pontos comuns a partir dos quais seja possível trabalhar para a sociedade. Evidentemente que em política tem que haver debate, discussão. Tem que haver quem ganha e quem perde. Mas também é preciso olhar para o adversário não como um mal, mas como alguém que procura o bem comum. Mesmo que a sua visão desse bem comum esteja errada!

A alternativa ao diálogo é de facto o extremar da política a que estamos a assistir. Onde o vencedor se ocupa mais em destruir a obra do seu antecessor do que em construir.
O futuro desta política de trincheira pode ser entrevisto naquilo que hoje acontece na Catalunha: um povo em luta consigo mesmo, sem que se veja qualquer solução que não passe pela vitória de uma facção e o esmagamento da outra.

A exumação de Franco será apenas uma nota de rodapé nos livros de história. A política de polarização de Sanchéz poderá vir a ser o fim de Espanha. Dificilmente alguma coisa mudará com as eleições de 10 de Novembro. Esperemos pelo menos que o resto do mundo aprenda alguma coisa.

domingo, 3 de novembro de 2019

Caminhar por todas as vidas.



Cara Teresa,

li o seu artigo sobre a Caminhada pela Vida e devo dizer que fiquei muito triste com o que escreveu. Infelizmente parece-me que parte de um preconceito contra aqueles que no dia 26 de Outubro deram um pouco do seu tempo para lutar pelo que acreditam.

De alguma maneira parece achar que o facto de nos manifestarmos publicamente contra o aborto e a eutanásia esgota toda a nossa intervenção cívica em defesa da vida. O que só quer dizer que ignora que muitos daqueles que colaboram ou simplesmente participam na Caminhada pela Vida estão bastante habituados a dar parte do seu tempo para ajudar os outros. Penso em muitos daqueles que comigo trabalharam na Caminhada e que são voluntários em bairros sociais, que participam em programas para renovar habitações de pessoas em dificuldade, que dão explicações a crianças pobres, que já fizeram voluntariado no estrangeiro, que ajudam em instituições que apoiam crianças, etc. São centenas, se não milhares, aqueles que para além de participar uma vez por ano nesta Caminhada, nos restantes 364 dias defendem a dignidade da vida humana dando parte do seu tempo para apoiar quem precisa.

Para além disso, ignora o trabalho de tantas instituições pró-vida que estão no terreno e que apoiam grávidas em dificuldade, crianças abandonas, famílias pobres. Instituições que acolhem, que dão formação profissional, que dão apoio jurídico, que providenciam bens materiais, ou que simplesmente aconselham mulheres que vão ser ou já são mães. E deixe-me dizer que de entre estas mulheres, muitas são imigrantes que só encontram apoio nestas instituições.

E ainda na sua descrição do que seria este povo pró-vida que sai à rua, fala sobre raparigas católicas americanas que abortavam por isto e por aquilo e que depois iam manifestar-se contra ao aborto. Cara Teresa, deixe-me dizer-
-lhe uma coisa: na Caminhada pela Vida não perguntamos a nenhuma das quase cinco mil pessoas que participaram em Lisboa, ou das quase onze mil que o fizeram em todo o país, sobre a sua vida íntima. Não apontamos dedos, não julgamos. Aliás, de entre as associações que participam neste Caminhada há uma que se dedica em exclusividade a apoiar mulheres que abortaram. Nós caminhamos em defesa da Vida com todos aqueles que o queiram fazer, sem qualquer pretensão de sermos justos ou perfeitos, apenas com desejo de testemunhar que toda a Vida tem dignidade.

Fala também da nossa cegueira relativamente a outras realidades onde a dignidade da Vida Humana não é respeitada. E concordo consigo. Não posso falar pelos milhares que caminharam dia 26, só por mim. Escrevi sobre o drama dos migrantes do Mediterrâneo, e dos migrante nas fronteira do México. Alertei várias vezes, dentro das minhas possibilidades, para aquilo que se passava na Síria. E também para a perseguição aos cristãos no próximo-oriente. E sobre o drama da guerra em tantas zonas de África. Contudo, sem dúvida, não fiz o suficiente. Nunca é suficiente. Os dramas são muitos e o tempo e os recursos limitados.

Felizmente a Plataforma Caminhada pela Vida e as associações pró-vida não são as únicas realidades de luta e apoio à vida que existem. Penso que seguramente conhece a Cáritas (que tanto faz contra a pobreza não só cá, mas como também na Síria e na fronteira do México), a Ajuda à Igreja que Sofre, o Serviço de Apoio aos Refugiados dos Jesuítas e tantas outras obras e realidades que trabalham, cada uma com o seu objectivo e know how próprio, na defesa da dignidade Humana. Lembro-me aliás que, aquando das eleições europeias, o SAR dos Jesuítas fez um inquérito sobre as posições dos partidos relativamente aos migrantes do Mediterrâneo. E lembro-me porque na ocasião tive a possibilidade de defender esta obra quando a acusaram de não falar do aborto. A resposta que dei na altura a esses críticos serve também para lhe responder a si: felizmente que há quem cuide dos refugiados e felizmente que há quem cuide da vida por nascer. Fazermos todos tudo serviria apenas para não se fazer nada.

Dito isto, não posso deixar de lhe perguntar: a si não lhe dói também saber que mais de quinze mil crianças são todos os anos mortas em Portugal antes de nascer? Não lhe dói saber que o aborto é a maior causa de morte no mundo? Não lhe dói saber que no Ocidente a esmagadora maioria das crianças com Trissomia 21 não chega a nascer? Não lhe dói saber que em Portugal há mulheres que abortam porque são obrigadas pelos companheiros, pressionadas pelos patrões, coagidas pela família? Não lhe dói saber que o aborto em Portugal raramente é por vontade da mulher, mas pela falta de apoio da sociedade? Não lhe parece que isto é razão para se sair à rua uma tarde ao ano?

Por fim, cara Teresa, permita-me que lhe diga isto: a Caminhada pela Vida não é confessional. Não é um evento religioso, mas cívico. É verdade que para um católico a vida é especialmente sagrada. É verdade que para um cristão o 5º mandamento encerra bastante a questão. Para além disso, para quem acredita na sagrada escritura que a vida começa na concepção é algo que nós sabemos ainda antes de a biologia o afirmar: "como é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Assim que a tua saudação chegou aos meus ouvidos o menino exultou de alegria no meu seio". E que toda a vida tem dignidade já os cristãos o aprenderam com São Paulo antes de o aprenderem na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Mas tudo isto, a que habitualmente chamamos o personalismo cristão, não é apenas uma questão de Fé, é também a base da Civilização Ocidental. A nossa sociedade está fundada sobre o valor intrínseco da vida Humana. Sobre a ideia de que todos, independentemente das suas circunstâncias, somos iguais em dignidade. Aliás, é por essa igual dignidade que o voto é universal e todos os votos têm o mesmo valor. A ideia de que toda a Vida é digna nasce de facto do cristianismo, mas há muito que é património comum sobre o qual se construiu a civilização dos direitos humanos.

Por isso lutar pelo direito à vida das crianças por nascer, lutar pela inviolabilidade da vida humana em todas as circunstâncias não é uma luta dos cristãos, mas a luta por uma sociedade onde a Vida humana é uma realidade acima do Estado e não ao dispor deste.

Despeço-me com a esperança de que para o ano venha caminhar connosco. Se deixar cair o seu preconceito irá ver um povo de todas as idades, de todas as condições sociais, de todas as religiões, que sai em festa à rua para testemunhar que toda a vida tem dignidade.

José Maria Seabra Duque,
coordenador-geral da Plataforma Caminhada pela Vida.

P.S.: Reparei que cita várias vezes o Santo Padre. Chamava à sua atenção para estas citações que aparentemente lhe escaparam:

Sobre o aborto:

Será lícito deitar fora uma vida para resolver um problema? Será lícito contratar um assassino para resolver um problema? Esta é uma questão de direitos humanos e não uma questão religiosa: um ser humano nunca é incompatível com a vida

Sobre a eutanásia:

A eutanásia e o suicídio assistido são uma derrota para todos. A resposta a que somos chamados é nunca abandonar aqueles que sofrem, não desistir, mas cuidar e amar para restaurar a esperança

E por fim, da mensagem que o Santo Padre enviou à Caminhada pela Vida em Portugal em 2017:


Sustentando tal verdade com factos e razões científicas e morais num dramático apelo à razão para ser voltar ao respeito de cada vida humana desde a sua concepção até ao último respiro. Sobre todos os aliados de Deus na batalha contra o aborto, eutanásia e demais atentados à vida humana, Santo Padre invoca a sabedoria e fortaleza da Espírito Santo "Senhor que dá a vida" ao conceder-lhes a sua Bênção Apostólica.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Referendo à eutanásia: uma hipótese para lutar.



As últimas eleições legislativas provocaram uma grande e grave mudança para o país. A esquerda reforçou a sua maioria, o PSD tem um grupo parlamentar inexperiente criado à imagem de Rui Rio e o CDS quase foi varrido do mapa.

Estas mudanças terão várias consequências, sendo o escancarara-se da porta à legalização da morte a pedido uma das principais.

O chumbo desta medida na última legislatura foi por uma unha negra. Foi fruto de muito trabalho e do cruzamento de várias circunstâncias. A oposição do PC, a posição firme do CDS, a intervenção de Cavaco Silva e Passos Coelho. Foi a única vez que se conseguiu o chumbo de uma medida fracturante com uma maioria de esquerda no Parlamento.

Infelizmente as circunstâncias mudaram. O PSD ficou reduzido a 79 deputados, o PC a 10 e o CDS a 5. Dos partidos novos só o Chega é contra a eutanásia. No PS, só ficou um dos dois deputados que votou contra. Na melhor das hipóteses são 95 votos contra a eutanásia. Provavelmente, considerando que Rui Rio é a favor da legalização da morte a pedido, 65 ou 70. Ou seja, a eutanásia será aprovada no Parlamento por uma maioria de 20 a 50 votos. Há votos suficientes não apenas para aprovar a eutanásia, mas também para ultrapassar um veto presidencial.

Evidentemente que o Bloco de Esquerda conhece estes números, por isso fez da legalização da eutanásia a sua primeira medida nesta legislatura. Podemos lutar o que quisermos, fazer as campanhas que quisermos, que o resultado em São Bento já está decidido. Haverá um simulacro de debate e depois uma aprovação sem espinhas.

Por isso temos duas opções: esperar a aprovação da lei ou tentar tirar a decisão de São Bento. E retirar a decisão do Parlamento significa pedir um referendo. O referendo é a única alternativa à legalização da eutanásia. Ou pelo menos, a única alternativa de lutarmos realmente contra tal injustiça.

Foi por isso que, na última Caminhada pela Vida, foi anunciada uma Iniciativa Popular de Referendo sobre o projecto-lei do Bloco. Isto significa apresentar ao Parlamento uma proposta de referendo sobre esse projecto, acompanhada por 60 mil assinaturas. Caberá depois ao Parlamento aprovar ou chumbar essa proposta.

Não se trata, como alguns dizem, de referendar a Vida. A Vida humana é inviolável, por isso nem a Assembleia da República, nem o povo têm legitimidade para legislar sobre ela. A Vida é um direito sobre o qual a lei não pode dispor.

Infelizmente é mesmo isso que os deputados se propõem fazer: aprovar uma lei que legaliza a morte de um doente quando este o pede. E o referendo é por isso apenas um instrumento para travar esta lei.

            A posição de que não se pode fazer um referendo para travar a legalização da eutanásia lembra a posição dos pacifistas que dizem que a guerra é sempre injusta. A guerra é má, mas se um exército invade um país e começa a trucidar inocentes, então a guerra não só é um meio legítimo, como é também uma obrigação para a defesa destes.

Negar o referendo poderá dar superioridade moral. Mas é a superioridade moral de quem está disposto a pagar com a vida dos outros a sua perfeição ideológica. É o farisaísmo do levita a caminho do templo, que não pára para ajudar um ferido na estrada para não ficar impuro.

Também há quem tema o referendo por temer as consequências da derrota. Sobretudo por temer que depois se torne mais difícil revogar uma lei que foi aprovada pelo povo. Mas a verdade é que nenhuma lei fracturante foi revogada no Parlamento português por uma maioria de direita. Aliás, não conheço nenhuma lei fracturante que tenha sido revogada por um Parlamento por esse mundo fora. Independentemente de ser uma lei aprovada por um tribunal, por um parlamento ou em referendo, a verdade é que a experiência demonstra que as leis fracturantes, uma vez aprovadas, dificilmente são revogadas. Por isso, este argumento, por muito lícito que seja, baseia-se numa premissa nunca verificada: que uma maioria conservadora há-de revogar essa lei. Basta olhar para Portugal, para Espanha, para a Bélgica ou para a Holanda, para verificar que tal nunca acontece.

Evidentemente, o referendo tem riscos. Mas não é apenas a única possibilidade de travar esta lei, é também a única possibilidade de retirar o debate da Assembleia da República e trazê-lo para a rua. A única possibilidade de fazer uma campanha para esclarecer as consciências sobre o que é a morte a pedido e as suas consequências. É a grande possibilidade de gritar a verdade diante da mentira da “morte digna”.  E é essencial uma verdadeira campanha contra a eutanásia, não uma luta táctica no Parlamento, com argumentos mais ou menos formais.

É fundamental voltar a afirmar sem rodeios que aquilo que está em discussão na eutanásia é se a doença torna legal matar uma pessoa. É essencial voltar a colocar a dignidade da Vida Humana no centro do debate público. A grande probabilidade de a morte a pedido se tornar legal torna ainda mais urgente que a sociedade participe neste processo.


Neste tema da morte a pedido não há uma escolha inteiramente boa ou fácil. Podemos escolher entre deixar passar a lei na Assembleia da República, com qualquer oposição a ser ignorada na comunicação social, ou tentar trazer a luta para a rua com o referendo. Resumido: podemos desistir ou continuar a lutar, mesmo que com baixa probabilidade de vitória. Eu quero continuar a lutar, porque acredito que a Vida de cada um dos que for vitima desta lei é um bem precioso pelo qual vale a pena ir à batalha. E por isso apoio o referendo.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Porque toda a Vida é digna - Observador, 22/10/19

Nos últimos dias tenho visto muitas pessoas a perguntar como é possível um médico deixar nascer uma criança sem olhos, nariz e alguns ossos na cabeça.

Evidentemente que nesta circunstância não podemos deixar de pensar, antes de mais, nos pais do Rodrigo. Esta hora só pode ser dramática para eles. Eles tinham o direito a conhecer a realidade do seu filho e a preparar-se para os desafios de um filho com deficiências tão profundas. A indignação diante de tal erro médico é justa, sobretudo ao saber-se que já antes o médico tinha tido vários processos disciplinares. É natural por isso que a sociedade se indigne em solidariedade para com os pais do Rodrigo.

Infelizmente parece que, mais do que a incapacidade do médico em questão de detectar má formações numa ecografia, o choque é por ter permitido que aquela  criança nascesse.
Vivemos num tempo em que uma criança deficiente é suposto não nascer. Sendo que não nascer é um eufemismo para matar essa criança na barriga da mãe. Um tempo onde a dignidade humana, e consequentemente a sua protecção jurídica, está dependente da ligação emocional que é capaz de suscitar.

É esta mentalidade, de relativização da dignidade Humana, que permite hoje discutir a legalização da morte a pedido. Assim como um bebé deficiente não deve nascer, um doente em fim de vida pode ser morto. Cada vez mais a vida é digna enquanto não der trabalho ou incómodo, enquanto emocionalmente me satisfizer. Perdeu-se a consciência de que cada Ser Humano é único e irrepetível. Que cada Ser Humano é, pela sua própria condição humana, digno, independente da sua circunstância.

E para quem eventualmente considerar que exagero, basta lembrar que um dos grande vencedores das eleições de dia 6 foi o PAN, cujo líder afirmou publicamente que “Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma”. Ou que o bloquista Bruno Maia, que ficou à porta do Parlamento nas últimas eleições, questionou na televisão nacional qual a dignidade de uma pessoa acamada.

E assim, esta mentalidade retrógrada, que considera que a Vida Humana só é digna quando a sociedade o diz, vai-se instalando. Lentamente voltámos aos tempos de Esparta, onde as crianças deficiente eram abandonadas à morte. Aos tempos das migrações dos povos germânicos para o Império Romano, onde os velhos e os doentes eram mortos para não atrapalharem. Aos tempos de Calígula, que fez do seu cavalo Incitatus cônsul, enquanto mandava matar qualquer pessoa de quem nãos gostava e prostituía as irmãs no palácio imperial. A mentalidade que dita a agenda fracturante, que se considera progressista, nada mais é do que um regresso à barbárie de um passado distante.
Por tudo isto é cada vez mais necessário voltar a afirmar publicamente aquilo que muitos julgávamos ser uma evidência: que a Vida Humana é intrinsecamente digna. A deficiência, a doença, as capacidades, a inteligência, não diminuem ou aumentam essa dignidade. E é triste que ainda seja preciso fazê-lo.

É para afirmar o valor da vida de todos os bebés, saudáveis ou não, de todos os doentes e idosos, para testemunhar que a vida é sempre digna, que a Caminhada pela Vida vai sair à rua no dia 26 de Outubro em Lisboa, Porto, Aveiro, Braga e Viseu. A esta cultura que concebe a Vida Humana como um valor ao dispor da sensibilidade social e do poder legislativo, é preciso responder publicamente relembrando que a nossa sociedade está fundada sobre o valor objectivo da Vida.

Todas as vidas são dignas. O que não é digno é a maneira como a sociedade tantas vezes trata os mais frágeis: os deficientes, os doentes, os idosos, os mais pobres. Caminhar em defesa da Vida não é simplesmente ser contra o aborto ou contra a eutanásia, é defender uma sociedade que cuida dos seus, que cuida especialmente dos que mais precisam. É defender mais apoio às grávidas em dificuldades, mais apoio às famílias com filhos deficientes, é defender os que cuidam dos doentes, é defender mais cuidados continuados, mais cuidados paliativos. Caminhar pela Vida é dar testemunho da sociedade que desejamos, uma sociedade que não mata, cuida.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

CDS mais ou menos à direita? Uma perda de tempo. - Público, 17/10/19

O novo desaire do PSD e do CDS trouxe consigo o regresso do debate sobre a Direita. Mais uma vez assistimos à discussão sobre o que é preciso mudar para que o Partido Socialista deixe de estar no poder excepto em alturas de crise.

Da parte do CDS este debate acaba sempre por cair na discussão sobre se o partido deve ser mais à direita ou se deve ser menos sectário, de maneira a facilitar uma grande coligação de centro-direita contra o PS. Invariavelmente o problema resume-se no quão à direita o CDS deve ser.

O problema é que ser de direita não quer dizer coisa nenhuma. Direita e esquerda são adjectivos surgidos na revolução francesa que descreviam onde se sentavam os mais conservadores e os mais progressistas na Assembleia Nacional. Desde então tem sido usado como forma simples de classificar os partidos e as doutrinas políticas. Mas em si mesmo, simplificando para efeitos do argumento, não querem dizer nada.

À esquerda o problema não se revela tanto pelo simples de facto que esta se identifica com o socialismo nas suas múltiplas variantes. Mas aquilo que habitualmente descrevemos como direita é um conjunto variado de doutrinas e ideologias políticas com raízes e propósitos diferentes.

Por isso ser “mais à direita” não quer dizer nada. Ser mais à direita pode significar um Estado mais autoritário, ou menos Estado. Pode significar mais europeísmo ou mais nacionalismo. Pode significar mais liberalismo económico ou mais regulação do Estado. Mais à direita significa coisas diferentes para um Liberal, um Conservador, um Democrata Cristão ou um nacionalista.

Mas pior do que querer ser mais à direita, no vácuo desta expressão, é querer que haja uma só direita. Uma só direita significa abandonar qualquer pensamento original das várias direitas, e unir-se em volta do combate à esquerda. No fundo é transformar a direita em apenas uma “contra-esquerda”.
Qualquer uma destas duas opiniões tem como consequência deixar as direitas ser definidas pela esquerda. Desistir de apresentar qualquer ideia original, mas simplesmente combater o socialismo. Ou seja, no fundo, é não propor uma alternativa ao pensamento da esquerda, mas simplesmente reagir a este.
O grande problema das direitas foi perderem a sua identidade. Para serem poder aceitaram a predominância cultural e social da esquerda, e limitaram-se a ser a governanta do país, que aparece para pôr as contas em ordem. E está tão afundada nesta mentalidade, que mesmo quando reage o faz meramente rejeitando as propostas da esquerda, mas sem qualquer capacidade de propor uma visão para o país que não seja a reacção à esquerda.

Este é o problema de centrar o debate sobre o futuro das direitas no ser mais ou menos à direita: tem sempre como condição prévia o quadro mental e cultural da esquerda.

Aquilo que o CDS precisa não é de ser mais ou menos à direita. Esse debate é fazer o jogo da esquerda. O que o CDS precisa é de ter uma identidade clara que se traduza numa proposta clara para o país. Não uma mera rejeição do socialismo, mas uma verdadeira alternativa a este.

Essa foi aliás a grande riqueza e contributo de Adelino Amaro da Costa e Diogo Freitas do Amaral para a democracia: num tempo onde todos os partidos tinham que ser socialistas, os fundadores do CDS tiveram a coragem de propor um partido personalista cristão, que tinha como centro a dignidade humana. Um partido que propunha um Estado ao serviço do Homem, em colaboração com os vários corpos sociais, que procurasse garantir a dignidade de cada homem respeitando as liberdades individuais, que defendia uma economia social, ou seja respeitando a liberdade económica, mas ao serviço da sociedade.

Os tempos mudaram e os desafios dos nossos dias são diferentes daqueles que enfrentaram Amaro da Costa e Freitas do Amaral. Mas parece-me que seria muito mais proveitoso para o CDS debater como tornar actual este ímpeto dos seus fundadores, de um partido verdadeiramente democrata-cristão, centrado na dignidade humana, que defende um Estado ao serviço do bem comum, do que na estéril discussão de quão de direita deve o partido ser.

O CDS só voltará a crescer quando recuperar a sua identidade. Discutir se esta identidade está mais à direita ou mais ao centro, se deve ser mais ou menos sectário é apenas desperdiçar tempo.