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domingo, 26 de fevereiro de 2023

Intervenção no Faith's Night Out 2023 - Centro Congressos Lisboa, 25/02



Na minha pertença a Cristo e à Igreja, o encontro com o Padre João Seabra, que morreu em Junho do ano passado, foi o mais decisivo da minha vida.

No dia 12 de Novembro de 1978, em Santa-Isabel, na sua missa nova, o Padre João Seabra disse “O bom gosto do nosso mundo perguntará, escandalizado, se eu me considero então detentor da única verdade. E eu respondo que não. Não sou detentor da verdade. Mas sou detido por Ela. Não sou senhor da verdade, mas sou servo da Verdade”.

Este parece me um bom ponto de partida para a minha intervenção desta noite. Porque quando pedimos para levar a Verdade onde houver o erro, não estamos a pedir para nos afirmar-mos a nós mesmo, as nossa ideias, a nossa opinião.

Quando pedimos para levar a Verdade onde houver o erro, aquilo que pedimos é para levar Cristo, a Verdade feita carne, onde houver erro. E o primeiro lugar onde é preciso que a Verdade vença o erro é no meu coração.

Levar a Verdade onde houver o erro não é por isso um pretensão, ou uma arrogância. Pelo contrário, precisa de uma humilhação: a de me fazer servo dela! A de submeter as minhas pretensões, os meus impulsos, as minhas tentações, de submeter toda a minha pessoa ao serviço da Verdade.

Lembro-me quando fui ter com o padre João para lhe dizer que estava a pensar empenhar-me na política. Lembro-me bem de onde ele estava sentado, na cabeceira de uma mesa comprida na Sacristia Velha da Igreja da Encarnação (isto há mais de quinze anos)! Ele disse-me três coisas.

A primeira foi “lembra-te sempre que és cidadão dos céus e concidadãos do Santos”. Ao princípio estranhei, mas com o tempo tenho percebido que esta consciência é essencial para se estar na política. Porque sem o horizonte do céu é fácil ou ceder ao desespero, ou ceder ao poder.

Porque afirmar a Verdade diante do erro, sobretudo na política, não nos garante qualquer vitória, pelo contrário. E se é verdade que de vez enquanto lá conseguimos ganhar, não é menos verdade que os tempos não nos são favoráveis.

Acontece-me várias vezes, quando falo com alguém sobre as minha lutas políticas, perguntaram-me com ar desconfiado “mas tu achas que vão ganhar?” e a minha resposta, para algum choque do meus amigos, é sempre a mesma “tenho a certeza que vamos perder”.

Meu caros, eu sou católico, monárquico, miguelista, democrata-cristão, pró-vida e sportinguista! A derrota é quase inata em mim!

Mas a mim Deus não me pede que ganhe nada, nem sequer o céu, porque esse é Ele que o oferece. A única coisa que que Deus pede é que sejamos fiéis à Verdade que encontrámos. A vitória é Ele que a dá, quando e como entender. Como Nosso Senhor afirma: não digo estas coisas para vos atribular, Eu venci o mundo!

A consciência do céu é por isso essencial para nos mantermos fiéis à Verdade, diante da tentação do desespero ou do poder.

A seguir o Padre João perguntou-me se eu sabia qual era o dever de um católico na política. E eu, cheio de boa doutrina, respondi: servir bem comum. Ao que ele que me disse que eu estava errado. O dever de um católico na política é dar testemunho de Cristo. Como o dever de um católico que seja professor, ou advogado, ou médico. E explicou-me que a política era a forma mais elevada de caridade porque, se um professor é chamado a dar testemunho de Cristo diante dos seus alunos, e um médico diante dos seus doentes, um político é chamado a dar testemunho de Cristo diante de toda a sociedade.

Muitas vezes ouvimos falar da falta que fazem políticos católicos. Confesso que não concordo. Católico não é uma categoria política: temos os deputados LGBT, os deputados antirracismo, os deputados católicos! Não, a fé não é uma bandeira política.

O que falta é católicos que estejam empenhados na política. Ou seja, mulheres e homens para quem o encontro com Cristo é e tal forma totalizante, que estão dispostos a servi-lo na vida pública! Não com umas bandeiras ideológicas convenientes para capturar um nicho eleitoral, mas dispostos a empenhar-se seriamente na política, em todos os assuntos, tendo como critério a Verdade.

A última coisa que o Padre João me disse foi “tu na política segues a Isilda Pegado e o António Maria Pinheiro Torres”. Para quem não conhece estes meus dois amigos, são dois dos maiores protagonistas na defesa da Igreja e sobretudo da causa da Vida na política.

Ao princípio pensei que era apenas uma indicação prática, para alguém que estava a começar uma vida política. Com o tempo percebi que era muito mais do que isso.

É como Jesus nos ensina no Horto da Oliveiras: Pai, que eles sejam um só, como Tu e Eu somos um só, para que o mundo creia. Cristo faz-se presente na comunhão de um povo que é a Igreja. Na Ascensão Jesus não diz, onde tu estiveres, eu estarei também. Mas sim, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio vós.

É na comunhão entre os católicos que Jesus se faz presente. E isto é igualmente verdade na política. O meu esforço, mesmo que esteja certo e os outros errados, por si só é estéril. Porque em última instância é sinal apenas de mim mesmo.

A unidade com este amigos, não apenas o António e a Isilda, mas tantos outros que fui conhecendo, é sinal para o mundo da presença entre nós de Jesus, o único que torna possível vencer diferenças, zangas e irritações. Não é possível dar testemunho da verdade, sem a unidade.

E é assim, nesta amizade com estes meus amigos da Federação pela Vida, que há anos que a luta pela defesa da vida se mantém. A luta contra o aborto, pela família, pela liberdade de educação, contra eutanásia, é sustentada por esta amizade construída em Jesus. Não hesito em dizer que o povo da vida, que tanto tem feito nestes anos, nasce desta unidade!

O testemunho mais visível do povo da vida é sem dúvida a Caminhada pela Vida. Em dez cidades do país, são milhares os que saímos à rua para num tempo que afirma a cultura do descarte e da morte, dar testemunho público de que a Vida Humana é sagrada desde o momento da concepção até à morte natural. Quando falamos em levar a verdade onde houver o erro, a Caminhada pela Vida é um momento concreto para fazer carne este pedido.

Na vossa cadeira encontraram um flyers a convidar-vos para a Caminhada pela Vida, já no dia 18 de Março às 15h, no Largo Camões. Venham, convidem as vossas famílias, convidem os vossos amigos, avisem nas vossas paróquias, nos vossos movimentos!

Senhor fazei de mim um instrumento da Vossa paz, para que onde houver erro que eu leve a Verdade, pedimos nós na oração que serve de mote a esta noite. Dia 18 de Março às 15h no Largo Camões, cada um de nós tem a oportunidade para fazer esta oração com os nossos pés, caminhando em defesa da Vida. Estão todos convidados! Muito obrigado a todos, que Deus vos guarde!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Sobre o relatório dos abusos sexuais: algumas notas

 


 

1. As primeiras palavras sobre o relatório dos abusos de menores na Igreja não podem deixar de ser dor e vergonha. Independentemente das opiniões e até críticas que o relatório possa merecer, não é possível ficar indiferente aos relatos que ali estão. A verdade é que houve menores abusados na Igreja. E esses menores cresceram, para se tornar homens e mulheres profundamente marcados por esses abusos. E durante anos, às vezes décadas, carregaram sozinhos essa dor, não sentido da parte da Igreja o apoio necessário para enfrentar o crime de que eram vítimas.

E essa é talvez a culpa mais terrível da Igreja em tudo isto. Os sacerdotes da Igreja, assim como os seus colaboradores, são homens como todo os outros, e por isso pecadores como todos os outros. Também entre os católicos há criminosos horrendos. Pode-se fazer tudo o que for possível para prevenir os crimes na Igreja, mas não é possível controlar a liberdade humana que pode sempre escolher o mal. Mas a culpa terrível é que as crianças que foram abusadas não encontram na Igreja quem as apoiasse. Ou pelo menos, não acreditaram que pudessem ser ajudadas por quem pertencia à Igreja. E se assim é, alguma coisa teremos feito, para que aquelas pessoas abusadas e feridas no seu mais íntimo, não se sentissem acolhidas e protegidas. E isso não é apenas culpa dos abusadores, mas de todos os que pertencem à Igreja.

2. Quanto ao relatório em si, confesso que tenho alguma dificuldade com o método usado. A denúncia, sem investigação séria, sem contraditório, é muito facilmente manipulável. Por muito que nos pareça improvável que alguém invente um situação destas, a verdade é que não é impossível, nem sequer especialmente difícil fazê-lo. Para além disso, falamos muitas vezes de acontecimento com 40 ou 50 anos, sendo também fácil as confusões. Penso especialmente nos caos de insinuação, referidos no relatório, que a esta distância me parecem difíceis de avaliar.

Dito isto, percebo também que este era o único método possível de dar voz às vítimas. E este é talvez o maior mérito deste relatório: permitir a quem foi abusado na Igreja e nunca se sentiu escutado ou acompanhado, sê-lo. Na maior parte dos casos era impossível uma investigação judicial (veja-se que a maior parte dos casos enviados ao Ministério Público não chegou a ser investigado). E a verdade é que a comissão não revelou nomes, enviou-os à CEP que poderá agora investigar devidamente, seguindo as devidas regras processuais. A alternativa a este método era criar um sistema de tal forma rígido que se tornaria inviável. Por isso, continuando a não gostar do método, percebo que era o possível para permitir às vitimas de abusos na Igreja denunciar o que lhes aconteceu.

3. Os números apresentados pelo relatório são talvez a parte mais problemática. O relatório é de facto útil para compreender melhor o fenómeno dos abusos na Igreja, mas o método usado torna os número pouco fiáveis. Não digo que sejam poucos ou muitos. Por um lado, estimativas baseadas nos relatos das denúncias (que dão os quase cinco mil casos falados), não me parece fiável. Por outro, com certeza que nestes cinquenta anos houve pessoas abusadas que morreram sem que se soubesse do horror que tinham sido vítimas, haverá vitimas que não quiserem voltar a reviver o abuso, ou simplesmente que não acreditasse que valesse a pena denunciar. Por isso o número avançado pode pecar por defeito ou por excesso e dificilmente haverá forma de o confirmar.

Tenho ouvido muitas pessoas declarar que isto é apenas a ponta do iceberg, que haverá muito mais casos do que aqueles que foram revelados. É um palpite como outro qualquer. Eu não me arrisco a dizer se são mais ou menos: os que foram, foram demais e tudo temos que fazer para que não se repitam.

4. Enquadrar os abusos na Igreja no seu contexto histórico e social, não é apenas justo, é também importante para conseguir compreender melhor como evitá-los. Não se trata de desculpabilizar, nem de menorizar o problema, mas sim de entender melhor. Mas é fácil passar desta contextualização para uma comparação: aconteceu em todo o lado, na Igreja até acontece menos, é um problema transversal. E se todas estas afirmações são verdadeiras, a mim não me confortam nada. Sim é verdade que os abusos de menores não são um exclusivo na Igreja, nem há uma especial incidência destes comportamentos na Igreja. Também é verdade que muitos destes casos “encaixam” na mesma dinâmica de outros casos de abusos de menores. Mas a Igreja tem o dever de ser melhor. Sim, somos todos pecadores, mas isso não nos desobriga da obrigação de procurar ser santos. Por isso para mim um abuso na Igreja é bastante mais grave do que noutras realidades.

5. Por fim, um último apontamento: uma das informações mais interessantes do relatório é o facto de a grande maioria dos denunciantes nunca ter feito qualquer queixa do abuso de que foi vítima. Para muitos, este relatório foi a primeira vez que falaram do tema. Evidentemente que isto não impede que tenha havido em alguns casos negligência da parte dos responsáveis da Igreja. Mas não encontramos qualquer indicação da suposta teia de encobrimento que tantos apregoam. A hierarquia podia e devia ter feito mais e melhor, mas a teoria de um grupo de criminosos a abafar crimes continua sem encontrar qualquer sustento factual.

 

 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

No país esquecido, sobra a igreja


 

Portugal é um país cada vez mais deserto. Por todo o país existem vilas e aldeias onde já quase nada há, a não ser um conjunto de pessoas que vão envelhecendo. Os centros de saúde e os hospitais, as esquadras, os tribunais, as escolas, os correios, os bancos, os serviços públicos em geral, vão se tornando cada vez mais distantes, deixando, para quem vive fora das cidades, uma qualquer máquina automática e uma suposta digitalização, que a população envelhecida dessas terras não compreende.

A única realidade que se mantém presente em todo o país, muitas vezes com dificuldades e recorrendo a alguma originalidade, é a Igreja. Em quase todas as aldeias de Portugal, por muito longínquas e desertas que estejam, lá está a Paróquia. E sabe Deus quantas vezes essa paróquia é acompanhada pelos únicos serviços sociais que a população têm acesso: um centro de dia, um agrupamento de escuteiros, os Vicentinos, e tantas outras realidades que se tornam a única vida social no país profundo.

Uma vez visitei um sacerdote amigo meu, de Trás-os-Montes, que tinha ao seu cuidado nada menos do que catorze paróquias. Lembro-me bem de o acompanhar a uma missa que celebrava semanalmente ás 7h ou às 8h da manhã: uma Igreja escura, gelada, mas lá estava ele a celebrar para meia dúzia de velhotes.

Mas não é apenas nesse Portugal esquecido que a Igreja é a única presença social. Em quantos bairros das grandes cidades, esquecidos pelo poder (assim como assim é quase tudo pessoas sem direito a voto), a Igreja está presente? Penso nas Missionárias da Caridade em Chela, nos meus amigos de Comunhão e Libertação no Casalinho da Ajuda, nos Franciscanos do Bairro Padre Cruz, e tantos outras realidade em tantos outros bairros.

A obra educativa e social da Igreja em Portugal não tem qualquer paralelo. São milhares de escolas, de lares, de centros sociais, de obras de caridade, que diariamente acolhem, educam, alimentam, vestem, cuidam daqueles a quem o Estado a e sociedade não chegam. Obras que vivem da vida oferecida de consagrados e leigos, e também da generosidade do Povo de Deus. Porque mesmo aquelas obras que são IPSS só conseguem sobreviver com a generosidade desse povo.

A Igreja permanece hoje, como desde o princípio da nacionalidade, como a única realidade social presente em todos os recantos do país. Também por isso é tantas vezes guardiã da cultura e da arte do nosso povo. As nossas festas populares estão sempre ligadas à devoção. E por isso de norte a sul a fé do povo vai mantendo vivas as nossas tradições.

E o fruto dessa devoção, das tradições seculares, vê-se no património religioso. Desde as catedrais às humildes capelas perdidas no meio do nada, são milhares de obras de arte que espelham uma vida de fé milenar. Num país onde o património do Estado vai ruindo, a fé do povo vai mantendo vivo um património de valor incalculável.

Todo este esforço da Igreja, se fazer presente, de servir o próximo, de conservar as tradições, de cuidar do património, tem como fim a salvação das almas. A missão da Igreja não é ser uma ONG, ou animador cultural, nem restauradora de património, mas anunciar Cristo. Mas o fruto deste trabalho é que a Igreja tem em Portugal um papel social incomparável.

Imagine-se o que seria o nosso país sem as obras sociais da Igreja, sem a suas escolas, sem as festas religiosas, sem os cruzeiros, as capelas, os santuários, as igrejas, as basílicas e as catedrais. Quantos ficariam sem tecto? Quando passariam fome? Quantos ficariam sozinhos na sua doença?  Quantas famílias não teriam quem cuidasse das suas crianças, dos seus deficientes, dos seus idosos? Quantas terras ficariam sem as suas festas? Quantas cidades perderiam o seu património mais valioso?

Muitas vezes se fala do suposto apoio do Estado à Igreja, tantas vezes mentido e deturpando. Mas era bom termos a consciência de que o Estado precisa bastante mais da Igreja, do que a Igreja do Estado. A Igreja existe há dois mil anos, e viveu nas catacumbas de Roma e nas Catedrais de França, na Polónia comunista e na Europa medieval, sempre sem perder a Fé.  O Estado é que, incapaz de socorrer os mais desvalidos, incapaz de se fazer presente no país profundo, incapaz de manter o seu património cultural, depende da Igreja e do seu povo.

Eu também espero que não se gaste mal dinheiro na Jornada Mundial da Juventude. E também acredito na separação entre a Igreja e o Estado. (sobretudo porque acredito na liberdade da Igreja em relação ao poder). Mas não esqueço que existe um país real, para lá da bolha das redes sociais, um país pobre e abandonado pelo poder. E nesse país esquecido não estão os opinadores, os políticos, os “comediantes”, nem sequer o Estado. Nesse país só está a Igreja.  

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

JMJ: afinal até sai barato!

 



Saiu mais uma notícia sobre os custos da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, desta vez sobre o preço do palco onde irá estar o altar na vigília de encerramento do evento. O artigo, mais escrito com o objectivo de ter cliques do que interesse jornalístico, compara estes custos com os do altar da visita do Papa Bento XVI em 2010.
Claro que a comparação é disparata e desonesta: em 2010 construiu-se um altar para uma única missa que depois foi posteriormente desmontado. Nas Jornadas está a construir-se uma estrutura fixa, um equipamento que poderá ser posteriormente utilizado para mega eventos ao ar-livre.
Infelizmente não é a primeira, nem será a última notícia, sobre o tema escrita de forma pouco informada e sensacionalista. Por isso escrevo uns pontos para esclarecer qualquer pessoa de boa vontade (aos outros os factos são indiferentes):
1. O que vai acontecer em Agosto não é a “visita” do Papa, mas a Jornada Mundial da Juventude. A JMJ é um dos maiores eventos do mundo e incomparável a qualquer outro evento que Lisboa tenha acolhido. Estamos a falar de 1 a 1.5 milhões de jovens que durante uma semana irão estar em Lisboa. Aos jovens, juntam-se milhares de bispos de todo o mundo, padres, jornalistas, etc. Não é por acaso que os hotéis de Lisboa e arredores estão todos esgotados para essa semana há meses. Vamos ter mais de um milhão de pessoas a dormir, a comer, a percorrer, a consumir em Lisboa.
2. Para além dos peregrinos que vão acorrer de todo o mundo a Lisboa, o evento irá ser acompanhado pelos media em todo o mundo. São centenas de milhões de católicos de olhos posto em Lisboa através da televisão, da rádio, das redes sociais, de streaming. Este evento garante que durante uma semana Lisboa é a cidade que todos os católicos do mundo vão ver.
3. Tanto quanto é publico a Jornada Mundial da Juventude terá um custo daté 80 milhões de euros. Uma parte desse custo será suportado pelo Estado, pela Câmara Municipal de Lisboa e ainda pela Câmara de Loures. O que leva a que se pergunte muitas vezes, porque é um Estado laico patrocina um encontro religioso? A resposta é simples, e nada tem a ver com boa vontade.
4. Parte dos custos que o poder púbico irá ter é o normal quando se recebe uma multidão de centenas de milhares de pessoas: reforço do policiamento, reforço dos transportes, reforço das equipas de emergência, etc. Para além disso existe o custo com o local central das Jornadas: o Parque Tejo, onde terrenos baldios e pantanosos ser irão transformar num parque junto ao Tejo, para ser utilizado por todos os cidadãos e equipado para receber mega eventos, como disse acima.
5. Até aqui temos, por um lado investimento naquilo que são as funções do Estado, por outro em equipamentos que vão ser para uso público. Mas claro que o investimento público neste evento supera estas questões. Mas mais uma vez, a razão para ser feito não é para fazer favores à Igreja.
6. O milhão e meio de pessoas que irão estar nessa semana em Lisboa irão gastar dinheiro na dormida (mesmo ficando muito locais cedidos gratuitamente), vão ter que comer e beber, vão gastar dinheiro em recordações, ou sejam, vão consumir em Lisboa e na região durante uma semana. Entre o que é injectado directamente na economia e o que é arrebatado em impostos, é fácil verificar que o investimento feito pelo erário público nas JMJ será recuperado várias vezes. Aliás, segundo o calculo do Governo o evento vai ter um retorno de 350 milhões de euros para Portugal.
7. A somar-se ao é valor que um e milhão e meio de pessoas a consumir trás (os tais 350 milhões de euros), temos ainda o valor publicitário de albergar um evento que será transmitido para todo o mundo. Basta pensar que ao organizar um evento católico a nível mundial estamos a falar de um “mercado” de mil e trezentos milhões de pessoas, espalhados pelos quatro cantos da terra. Imaginemos qual não é o valor publicitário para Lisboa de ser palco de um evento que durante uma semana é transmitido em todos os formatos para um mercado deste tamanho!
8. Por isso podem parar com o disparate de como o Estado laico vai gastar dinheiro para ajudar a viagem do Papa. As Jornadas Mundiais são um evento gigantesco, com repercussão a nível mundial. O que o Estado está a fazer é bastante simples e razoável: investir para que este evento seja um sucesso, de forma a ter o maior retorno possível. Não é um favor, é mesmo aproveitar uma oportunidade única

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Bento XVI: Um Papa amado pelo povo de Deus


 


Durante todo o seu pontificado foi igual. Onde quer que Bento XVI fosse o povo de Deus acorria em massa para o encontrar, perante o contínuo espanto da comunicação social que previa sempre que era naquela viagem que o Papa não ia ser bem recebido.
Porque o diagnóstico estava feito desde o primeiro instante. Os opinadores já tinham decretado que a Igreja precisava de um Papa jovem, progressista, de um país pobre e o Espírito Santo tinha-se enganado e escolhido um cardeal velho, pilar doutrinal do pontificado de João Paulo II e o país mais rico da Europa. Por isso o sucesso de Bento XVI foi sempre um mistério para aqueles que observam a Igreja pelo olhar do mundo.
O mito de um Papa impopular, que ainda hoje perdura em alguns círculos, foi desmentido pelas multidões de todo o mundo: daqueles que enchiam todas as semanas São Pedro, dos jovens de Colónia, de Sidney, de Madrid, das famílias em Valença, na Cidade do México, de Milão, e do povo de Deus em todo o mundo: do Brasil à sua Alemanha, de Inglaterra a Portugal, dos Estados Unidos aos Camarões. Para quem se interessa mais pela realidade do que por narrativas, era evidente que Bento XVI era um Papa muito amado. O Papa alemão não teve apenas um enorme sucesso juntos dos intelectuais (que o reconheciam como um os seus maiores), teve sempre um enorme sucesso junto do povo cristão.
E por isso só quem durante todos estes anos esteve cego pelo seu preconceito se pode espantar com o espetáculo dos últimos dias em São Pedro. São milhares os peregrinos que fazem fila para se ir despedir daquele homem humilde trabalhador da vinha do Senhor.
Olhando para estas multidões não podemos deixar de perguntar como Jesus “O que é que foram ver no deserto? “. E a resposta é a mesma: um profeta! Uma voz que neste deserto espiritual e carnal, clama “preparai o caminho do Senhor”. Bento XVI, tal como João Baptista, nunca se pregou a si mesmo, mas apontou sempre o Senhor. Aquele homem genial, tímido, que só queria regressa à sua Baviera, ofereceu-se como cordeiro sacrificial para cumprir a vontade de Deus.
E depois aquele momento, aquele momento onde silenciou um mundo que não se cala, ao anunciar a sua renúncia. Uma decisão que não compreendi, mas na qual confiei, porque diante de um santo como Bento XVI, que conhecia a Deus como eu nunca poderei conhecer, mesmo quando não se compreende, confia-se.
Neste deserto de egoísmo e de individualismo, onde cada vez mais se afirma o próprio eu, Bento XVI afirmou sempre um outro, testemunhou sempre o próprio Deus, ofereceu-se continuamente ao Seu Senhor, para nos confirmar a nós na Fé. E foi isto que as multidões foram ver, uma fonte de água pura no meio o deserto.
Dizia o então Cardeal Ratzinger, na missa «PRO ELIGENDO ROMANO PONTIFICE»: “Por fim, voltemos mais uma vez à carta aos Efésios. A carta diz com as palavras do Salmo 68 que Cristo, subindo ao céu, "deu dádivas aos homens" (Ef 4, 8) O vencedor distribui dons. E estes dons são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. O nosso ministério é um dom de Cristo aos homens, para construir o seu corpo o mundo novo. Vivamos o nosso ministério assim, como dom de Cristo aos homens! Mas nesta hora, sobretudo, peçamos com insistência ao Senhor, para que depois do grande dom do Papa João Paulo II, nos ofereça um pastor segundo o seu coração, um pastor que nos guie ao conhecimento de Cristo, ao seu amor, à verdadeira alegria.” Demos graças a Deus por nos ter dado um Pastor assim.
SANTO SUBITO!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

A magia do Natal





Quando eu era miúdo o Natal era de facto mágico. Lembro-me de ser pequeno e de ir à Missa do Galo, com a família toda. E como durante anos foi assim, todos juntos, a ouvir o coro a cantar o Adeste Fideles, a procissão infindável de acólitos, os sinos do Glória, enquanto o Menino Jesus era levado até ao presépio. As homílias extraordinárias do Padre João e no fim, o beijo ao Menino. Mas a noite não acabava aí: seguia-se para casa dos avós, onde, depois de rezarmos e cantarmos alguns cânticos de Natal, era altura de abrir os presentes que o Menino Jesus tinha trazido. E a seguir a ceia: o chocolate quente, os pãezinhos com pasta de fiambre, a castanhada, e mais uma enorme quantidade de doces. E depois o dia 25, a correria entre as refeições que não acabavam, as conversas dos tios, as brincadeiras dos primos, os brinquedos por estrear. E o dia acabava connosco cansados, cheios e felizes.


E depois aconteceu a vida. Os primos cresceram até já não fazer sentido por o sapatinho para o Divino Menino saber onde deixar os nossos presentes, os meus avós foram quase todos para o Céu (e não foram só eles), deixamos de fazer a ceia por falta de quórum, a Igreja que hoje frequento não se pode comparar à beleza de Santos-o-Velho e da Encarnação, e as combinações com as diversas famílias tornaram-se uma tarefa logística, que exige uma eficácia alemã e uma diplomacia suiça!

Claro que o Natal continua a ter coisa muito boas e bonitas, mas já não é o Natal da minha infância. E está bem assim. A forma como vivia o Natal em criança foi essencial para amar esta festa. Mas o que realmente importa é aquilo que anunciava. Toda a beleza, todos os doces, todos os presentes, todos os cânticos, eram anúncio de um facto: “Hoje em Belém de Judá nasceu para vós um salvador!”. Que Deus se tenha feito Homem, que o Todo o Poderoso se tenha feito um bebé indefeso, que Aquele que reina eternamente sobre o Cosmos e a História, durma numa manjedoura, numa corte de pastores, é o facto mais belo, mais terno, mais comovente de toda a história!

A luz que irradia de Belém ilumina todas as trevas, penetra toda a história, redime e dá sentido a toda a dor e sofrimento. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz!”. Nada é mais belo que isto!


A recordação do Natal de quando era miúdo enche-me de alguma nostalgia, e de tristeza pelos que já morreram. Mas sobretudo enche-me de gratidão pela consciência que suscita em mim do enorme mistério do Natal.

Por isso, se hoje o Natal é menos mágico é ainda mais comovente, porque despido de tantos ornamentos, marcado pela tristeza daquilo que era e já não é, brilham ainda com mais clareza as palavras de Isaías, que todos os anos escutamos na Missa do Galo: “Um menino nasceu, um filho nos foi dado. Deus colocou a soberania sobre os seus ombros. Os seus títulos são: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz”. E esta é a única “magia” que preciso para o meu Natal, porque este Menino lança luz sobre toda a existência, incluindo a minha.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Anéis do Poder: faltam mulheres e minorias




1 - O primeiro livro de Tolkien que li foi o Silmarillion quando tinha 11 ou 12 anos. Desde então li e reli muitas vezes as grandes obras do professor, assim como tudo aquilo que ele escreveu e a que consegui lançar a mão (das Aventuras de Tom Bombadil ao Roverandom). E se estou longe de ser um especialista em Tolkien, sou sem dúvida um fã. Por tudo isso não senti qualquer desilusão com a nova série da Amazon Os Anéis do Poder: só se desilude quem tem alguma ilusão e eu nunca tive qualquer dúvida sobre o que aí vinha. Não é possível compreender a Terra Média sem compreender Tolkien, e o professor inglês é um homem incompreensível para a cultura moderna. 

2 - Na mitologia de Tolkien existe um enorme conjunto de mulheres poderosas. Desde as senhoras dos Valar que fizeram as estrelas e as árvores de Valinor, passando por rainhas e princesas que conseguiram enfrentar e derrotar Morgoth e Sauron. E para quem só leu O Senhor dos Anéis há Eowyn que derrotou o mais poderoso de todos os servos de Sauron, aquele a quem bastava o grito para enlouquecer bravos guerreiros e, sobretudo, Galadriel, a protagonista da nova série sobre a Terra Média.

E é justo que seja a protagonista, porque Galadriel é sem dúvida uma das maiores protagonista da obra de Tolkien. É aliás a única protagonista que atravessa as três eras da Terra Média. Liderou parte dos Noldor na primeira era, fundou um reino seu na segunda era e foi uma das principais adversárias de Sauron na terceira era. Segundo Tolkien, de entre os elfos, só Feanor era mais poderoso do que ela. Por isso o problema não é que Galadriel seja protagonista da série, o problema é que seja reduzida a uma adolescente traumatizada que que ser igual ao irmão.

Mulheres poderosas e com protagonismo não faltam na obra de Tolkien, mas o que a Amazon fez foi pegar numa mulher poderosa e transforma-la num homem! Aquela que era uma gloriosa rainha passou a ser um peão com uma espada, achando que assim se “empoderava” as mulheres. E este é o absurdo da ideologia woke, não querem de facto mulheres a protagonizar nada, querem que as  mulheres sejam imitações de homens e dar-lhes protagonismo artificial.

3 - Tolkien era um homem minucioso. Não se limitou a criar umas histórias fantásticas, criou um mundo. Um mundo com mapas, com línguas, com calendários, com várias raças e dentro das raças vários povos, com costumes e tradições diferentes. O que existe publicado é uma fracção do trabalho de Tolkien sobre a Terra Média (e relembre-se que ele só publicou o Hobbit e o Senhor dos Anéis, tudo o resto foi publicado pelo seu filho). A atenção ao pormenor de Tolkien chegava ao ponto de refazer partes da história porque era irrealista uma personagem percorrer aquela distância naquele espaço de tempo ou porque o clima não se adequava à estação em que a acção se desenrolava.

Não há qualquer problema em que haja pessoas de várias cores de pele numa série passada na Terra Média. É uma liberdade relativamente ao trabalho de Tolkien, mas que encaixa na sua obra. Por isso um elfo negro, ou uma anã, não são um problema, o problema é ser apenas um! O problema é que todos os elfos sejam esqualidos e depois, por magia, haja um negro! Que exista uma família de elfos de pele negra não é um problema, agora fazer aparecer um negro por magia é completamente artificial. Podiam perfeitamente ter feito os habitantes de Númenor morenos como os sul-americanos ou os árabes, não podem é, numa ilha isolada durante séculos, ter uma população toda branca e depois a rainha ser negra (ao contrário do tio que é branco!).

Isto não é diversidade, não se trata de mostrar que na Terra Média há raças de todas as cores, para isso tinham feito os harfoot negros ou apresentado uma família de anões asiática. Trata-se mais uma vez de virtue signalling: vejam como somos inclusivos, até temos um elfo negro! Mas mais uma vez é pegar na diversidade e moldá-la toda ao exemplo do homem branco: se uma mulher que ser poderosa, se um negro quer ser protagonista, então tem que ser como homens brancos.

4 - Vejo muito boa gente a protestar por a série d’Os Aneís do Poder dar demasiado protagonismo a mulheres e a negros. Eu pelo contrário acho que um dos problemas (e há vários outros, bastante mais graves) é não lhes dar suficiente protagonismo. Tolkien, um inglês católico e conservador, criou um mundo cheio de mulheres poderosas e cheio de povos diversos. A progressista Amazon criou uma fraca imitação desse mundo cheio de homens brancos, ainda que os vista de mulher ou aqui e ali escolha um negro para representar. O resultado é evidentemente um pastel artificial ridículo, que ninguém aprecia, mas que aqueles que vivem enfeudados ao wokismo têm que fingir gostar. Eu por mim, fico-me pelo mundo do velho professor de Oxford, onde as mulheres são capazes de derrotar Melkor, e Sauron é derrotado por uma minoria que se esconde para não ser oprimida.