Bem
sei que afirmar que os taxistas têm razão me qualifica automaticamente como um
socialista retrógrado. Mas a verdade é que os taxistas têm razão quando afirmam
que a Uber opera ilegalmente em Portugal e lhes faz concorrência desleal.
É verdade que o serviço de táxis em Lisboa e no Porto é uma aventura. Tanto nos
pode calhar um belíssimo profissional, como um acelera, que vai a viagem
inteira a dizer palavrões e a mandar piropos às mulheres que passam. E
infelizmente não existe nenhuma maneira de distinguir, antes de entrar no
carro, um bom taxista de um mau taxista. É sempre uma questão de sorte.
Muito
pelo contrário, a Uber permite escolher o motorista, que é avaliado pelos
clientes, tem tendencialmente um serviço de qualidade, com carros recentes e bem
cuidados e uma segurança maior.
Por
isso, há muitas razões para se preferir a Uber aos táxis. Mas infelizmente isso
não significa que os taxistas não tenham razão nas suas queixas. O facto da
Uber ser um serviço que agrada aquele mundinho possidónio e novo-rico, que
sonha com uma Lisboa cosmopolita, cheia de restaurantes gourmet e bares
hipster, que não suporta pessoas de bigode e roupa à anos 80 a menos que tenham
nascido na década de 90, para quem tem muito mais glamour chegar ao Bairro Alto
ou ao Lux num carro moderno e com um motorista com bom ar do que num chasso
velho conduzido por um homem de bigode amarelo e unhas grandes, um mundo que
pulula entre as colunas dos jornais, os blogs e as redes sociais, não torna a
Uber legal.
Porque
gostemos ou não o transporte de passageiros em Portugal é regulado. Um taxista
para o ser tem que ter uma licença, que lhe custa muitas vezes milhares de
euros (existem em número limitado, por isso a maior parte das vezes têm que
comprar a de outro taxista que se queira retirar), tem o preçário tabelado por
lei, têm regras especificas, têm que frequentar acções de formação.
Para
se ser motoristas da Uber basta ter carta de condução e que a empresa aceite.*
Se,
para o mesmo serviço, uns tem que obedecer a um variado conjunto de regras e
outros não, então é evidente que se trata de concorrência desleal. Concorrência
é o que os vários taxistas e as várias empresas de táxis fazem entre si, não
inventar um serviço muito bom, que não obedece às mesmas regras.
Por
isso, mesmo que discorde com os meios de protestos dos taxistas, mesmo achando
que muitos prestam um péssimo serviço, mesmo sabendo que a Uber é melhor,
concordo com os taxistas quando dizem que esta é ilegal.
Contudo,
discordo é que a solução seja simplesmente proibir a Uber. A solução passa por
regularizar a situação. E isso pode-se fazer de várias maneiras. A pior é criar uma regulamentação especial
para este género de empresas. A melhor, liberalizar o transporte de
passageiros, acabando com as licenças de táxi, tornando apenas obrigatório o
registo dos condutores, criando regras iguais para todos.
O que
não se pode fazer é continuar a deixar "andar" a situação. Subornar
os taxistas com milhões de euros, dar-lhes palmadas nas costas quando eles
decidem paralisar Lisboa e Porto e depois não fazer mais nada, só vai degradar
ainda mais a situação. A decisão é simples: ou se encerra a Uber ou então
regula-se a sua situação. Caso contrário continuamos neste folclore de taxistas
indignados porque lhes fazem concorrência desleal e de cidadãos indignados porque não podem usufruir de um melhor serviço de transportes.
* Depois da publicação deste artigo, fui informado que, neste momento, a Uber em Portugal só opera com motorista licenciados para o transporte de passageiros em viaturas alugadas.
* Depois da publicação deste artigo, fui informado que, neste momento, a Uber em Portugal só opera com motorista licenciados para o transporte de passageiros em viaturas alugadas.
