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domingo, 24 de julho de 2022

E viu que não era bom




De cada vez que acontece uma qualquer desgraça ouvimos sempre os mesmo comentários: a sociedade está perdida, há cada vez mais violência, as pessoas estão cada vez mais egoístas, as mulheres sofrem cada vez mais abusos, as crianças estão cada vez menos seguras. Todos os dias ouvimos mais histórias de velhinhos abandonados, de mulheres abusadas, de crianças que sofrem de bullying e por aí diante.

Mas nada disto nos devia surpreender. Nas últimas décadas o Ocidente lutou por se livrar das grilhetas do cristianismo, os bens pensantes desejavam o “progresso” de um mundo sem Cristo. E tanto procuraram o futuro que simplesmente regressaram ao passado!

Nada disto é novo, na Roma clássica já as mulheres eram tratadas como objectos, os mais pobres  e frágeis deixados à sua sorte, e tirando para os cidadãos ricos,  reinava a lei do mais forte. E isto era na maior civilização da altura, incomparável aos sacrifícios de bebés de Cartago ou aos caçadores de cabeça gauleses.

Foi o cristianismo que introduziu no mundo a ideia de que todos são igualmente dignos, que temos o dever de ajudar os que mais precisam, de que a mulher não é um objecto para o prazer dos homens, que o poder deve estar ao serviço dos mais frágeis.

O Ocidente, qual adolescente, na sua fúria de autonomia, preferiu deitar tudo isto fora, para ser “livre”. E assim se viu livre do filho pródigo, do bom samaritano, do bom pastor. Por isso hoje o filho mais novo não tem casa para onde regressar, o ferido fica a morrer na estrada e a ovelha perdida é devorada pelo lobo.

O Ocidente esqueceu o cristianismo e construiu uma nova civilização. E quando finalmente descansou da sua loucura, percebeu que não era bom, mas continua a sem querer regressar a casa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Eutanásia: o enterro da nossa civilização



Dia 29 de Janeiro de 2021 foi um dia histórico. Nesse dia 136 deputados aprovaram a possibilidade do Estado matar. Nos cinco anos de debate sobre a eutanásia muitas vezes foi dito que se tratava de um tema complexo. Não é verdade. Complexo é o debate sobre como cuidar das pessoas em fim de vida. A eutanásia é muito simples: é o acto de matar uma pessoa a seu pedido. Aquilo que os deputados andaram este tempo todo a debater foi quais os critérios que tornam o homicídio não apenas legal, mas também um dever do Estado.

Esta é provavelmente a lei mais grave aprovada em Democracia. As leis que tornaram o aborto legal, eram mais violentas e mais injustas. Mas no aborto houve o cuidado de esconder que estava em causa uma vida. Montaram-se esquemas elaborados para justificar o injustificável e negar a evidência cientifica que a vida começa na concepção.

Na eutanásia não houve qualquer fingimento. O parlamento decidiu que há circunstâncias nas quais o Estado pode matar uma pessoa.

29 de Janeiro é o dia em que a maioria dos deputados decidiu que o seu poder não tem qualquer limite. O artigo 24º diz que a vida humana é inviolável. Os deputado disseram que é inviolável excepto nos casos em que S.Exs. decidem o contrário. É histórico porque foi o dia em que os deputados disseram que uma maioria conjuntural pode ignorar a Constituição.

Ora se a vida, que a Constituição diz que é inviolável, pode ser violada por determinação de uma maioria de deputados, que os impede de aprovarem o quer que seja? Nada. Se o parlamento não reconhece que há limites para o exercício do poder, então já não estamos em democracia, mas na ditadura da maioria, onde o limite é a indignação popular.

Mas ao atentar contra o Direito à Vida não foi apenas a Constituição que os deputados rasgaram. Ao aprovar a eutanásia os deputado acabar de retirar o pilar central sobre o qual está construida a nossa sociedade: a igual, inerente e objectiva dignidade de cada Homem.

A sociedade Ocidental foi-se construido sobre esta ideia que todos os homens foram criados à imagem e semelhança de Deus. É a igual dignidade dos homens que serve de base à Democracia, que a justifica. Se todos temos igual dignidade, então todos devemos poder participar na vida pública, todos temos direito a escolher como queremos que a nossa sociedade seja regulada.

Por isso a democracia tem como limite os direitos inerentes à dignidade Humana. Eles são a causa da Democracia, a sua justificação. A Dignidade Humana é anterior à Democracia e está acima da vontade da maioria.

Se há vidas que não são dignas, se há pessoas que podem ser mortas, então qual é o critério? Quem o estabelece? A legalização da eutanásia proclama o principio de que a Vida Humana é digna enquanto é útil. Útil para produzir ou útil afectivamente. É digna enquanto tem algum interesse para a sociedade.

Não nos devemos espantar, é um processo há muito tempo em marcha. É o principio, ainda que hipocritamente escondido, do aborto. É o principio por trás da mentalidade de que se adopta cães e que gatos fazem parte da família. É o principio por trás do abandono dos velhos em lares, tratados como crianças. É o principio de que o próximo tem o valor que eu afectivamente lhe concedo. Quantas vezes diante de um acamado ouvimos dizer “já não é ele que ali está”. Ou que o cãozinho é “como um filho”. Ou que se aborta um deficiente “porque é melhor para ele”. Tudo isto se baseia no mesmo principio: de que a vida humana é digna quando a considero, ou seja, quando me é conveniente.

A aprovação da Eutanásia deixa cair a máscara. É a consagração legal, sem qualquer dúvida, deste principio. É uma nova sociedade que a lei consagra: a dignidade humana depende agora da vontade da maioria. Já não somos uma democracia, somos um Big Brother amplificado.

Tudo isto é fruto de uma mentalidade. Da mentalidade  relativista, que concebe homem como mero fruto do acaso, dono de si mesmo, deus de si mesmo. O homem que se define a si próprio, logo, também define o inicio e o fim da vida. Não se julgue que se trata de uma mentalidade nova. É tão velha como o mundo. Só que em vez de um Nabucodonosor, de um Nero, ou de um Átila, temos eleitores.

A verdadeira novidade não é o relativismo moral. A verdadeira novidade é a ideia de cada Homem é digno, porque cada um é criado à imagem e semelhança de Deus. Essa é a ideia que construiu a Civilização Ocidental, que originou a Democracia, que permitiu os Direitos Humanos. Foi essa ideia que foi enterrada a 29 de Janeiro por 135 deputados.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Deixem Fatima jogar.



Mais uma semana, mais um escândalo para alimentar as redes sociais. Agora foi uma rapariga paquistanesa que foi impedida de jogar basquete porque se apresentou com uma t-shirt de mangas compridas debaixo do equipamento regulamentar. Os árbitros do jogo impediram-na de jogar evocando os regulamentos. A rapariga, Fatima de seu nome, recusou-se a tirar a t-shirt de mangas compridas evocando a sua fé. O problema foi rapidamente resolvido pela Federação Portuguesa de Basquete, que entregou a Fatima um equipamento para a prática de basquete que respeita os preceitos islâmicos. 

Não vivêssemos nós no tempo das redes sociais, onde qualquer pequeno problema local é ampliado a escândalo nacional, e todo este assunto estaria arrumado. Infelizmente passei o dia a ler no meu feed pessoas a debitar disparates sobre Fatima Habib e a sua fé.

Os argumentos em geral podem-se dividir em dois: “eles” aqui têm que cumprir as nossas regras e as nossas tradições e lá na terra “deles” também não deixam construir igrejas ou as mulheres andar de calções. Deixa-me sempre um pouco surpreendido que um assunto que de facto levanta questões sérias acabe sempre em dois argumentos tão idiotas como estes. 

Antes de mais fico sempre espantado como num país onde a esmagadora maioria das pessoas é incapaz de respeitar uma prioridade na estrada ou de apanhar o cocó dos cães no chão, de repente se começa a ter tanto respeito pela sacralidade das regras. Aparentemente cumprir à risca o regulamento da Federação Portuguesa de Basquete passou a ser uma questão civilizacional.
Depois, se é verdade que o tal regulamento é uma regra nossa, o direito à liberdade religiosa também o é. Com a diferença que um é feito por uma federação desportiva e o outro pela Assembleia Constituinte.

Por fim a questão da cultura e tradição é especialmente disparatada. A sério que raparigas de trezes anos jogarem basquete de calções e manga à cava faz parte da nossa tradição? Um desporto americano, que segue as regras de vestuário americanas, passou a fazer parte tão integral da nossa cultura, que qualquer desrespeito a estas regras chega para colocar em perigo a civilização? É como quando argumentam contra o burquini falando de tradição, como se o biquíni fosse mais tradicional que as mulheres da Nazaré na praia vestida dos pés à cabeça!

E já agora, para os mais esquecidos, relembro que a presença islâmica em Portugal é bastante mais antiga e bastante mais marcante na nossa cultura que o basquete feminino…
Já o argumento do lá na terra “deles” é também fraco, mas introduz um pensamento perigoso. O argumento é disparatado porque lembra um pouco as crianças que se portam mal nas aulas e usam como desculpa os amigos que também o fazem. Quase apetece responder “mas eu não sou pai do Paquistão!”. É evidente que o atropelo aos direitos humanos em países muçulmanos, sobretudo no que toca à liberdade religiosa e aos direitos das mulheres, não serve como argumento para fazermos o mesmo. Acusar o Paquistão de não deixar as mulheres usar calções para depois proibir as mulheres de se taparem é bastante contra-senso.

Mas este argumento é perigoso porque legitima o poder do Estado em interferir na liberdade religiosa. Quando afirmamos que Portugal deve restringir a liberdade religiosa porque outros países também o fazem, estamos a afirmar que a liberdade religiosa é um direito que, de alguma maneira, está à disposição do Estado. Que o Estado pode dar ou retirar.

Ora, a o direito à liberdade religiosa, ou seja de praticar a sua fé sem ser discriminado por ela, é um direito fundamental e inato à pessoa. Não é concedido pelo Estado, como de resto não o são nenhum dos direitos fundamentais, mas apenas reconhecido e protegido por este. Por isso permitir ao Estado que restrinja a liberdade religiosa de uma pessoa ou de um grupo é reconhecer ao Estado legitimidade para o fazer a qualquer pessoa ou grupo, como se esse direito emanasse dele e não fosse prévio a ele. 

Se reconhecemos ao Estado legitimidade para restringir a liberdade religiosa de uma muçulmana, reconhecemos que o Estado tem legitimidade para impor uma conduta íntima e moral aos cidadãos. Convém não esquecer que há cem anos em Portugal os sacerdotes não podiam andar de batina, nem os religiosos com os seus hábitos!

Evidentemente que a liberdade religiosa tem os seus limites, como qualquer outro direito fundamental. Para começar, a liberdade religiosa pode ceder a outros direitos fundamentais de maior valor: por exemplo a direito à segurança colectiva pode obrigar a que as mulheres não possam usar burca em locais públicos impedido assim a sua identificação. Para além disso a liberdade religiosa não pode impor á sociedade um sacrifício desproporcional: por exemplo o impedimento de os Adventistas trabalhar ao sábado não pode parar todo o país nesse dia. Por fim, a própria realidade restringe a liberdade religiosa: se uma religião não permitir a uma pessoa nadar, esta não pode ser nadadora olímpica.

Por isso aquilo que me parece razoável discutir no caso de Fátima Habib é se o regulamento de vestuário da Federação Portuguesa de basquete é mais importante que o direito de Fatima a jogar basquete sem desrespeitar a sua fé. A resposta não é simples, não é igual para todos os desportos e merece ser debatido. A mim parece-me que estiveram mal os árbitros que não a deixaram jogar, que houve alguma negligência por parte do clube e da família da jogadora ao não investigar para saber se havia maneira de conciliar as duas coisas (pelos vistos havia), e que esteve bem a Federação quando criou meios para que Fatima jogasse dentro dos regulamentos. Percebo que é possível defender outra posição. O que é absurdo são os disparates que se têm lido nas redes sociais e que parecem ter que chegado a alguns comentadores da comunicação social.

Muito se tem falado da guerra de culturas entre o Islão e o Ocidente. E é evidente que existe uma enorme diferença entre a nossa cultura, onde subsiste resquícios da herança cristã e a cultura islâmica. Desde logo no que diz respeito à liberdade religiosa e aos direitos das mulheres. Mas esta guerra não será ganha se rejeitarmos as bases sobre as quais o Ocidente foi construído. Não é possível ganhar uma guerra cultural se abdicamos da nossa cultura. Permitir que Fatima Habib jogue basquete com equipamento que respeite a sua fé não é uma cedência ao Islão, pelo contrário, é afirmar a diferença entre o Ocidente e o Islão. Defender a liberdade dos muçulmanos praticarem a sua fé sem serem discriminados é afirmar a dignidade de cada Homem, é defender a liberdade de cada pessoa, ou seja, é lutar pelas raízes e pelos ideais que permitiram construir aquilo a que chamamos a nossa cultura. Que uma rapariga muçulmana possa jogar basquete no Algarve não é um vitória do Islão, é uma vitória do Ocidente.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

O sangue dos mártires é semente de cristãos.




Não me consigo lembrar de quantas vezes já escrevi sobre a perseguição aos cristãos nos nossos dias. Foram muitas. Mas ainda assim muito menos do que as que deveriam ter sido. Tristemente é difícil, se não impossível, acompanhar todos os crimes de que os cristãos têm sido alvo nestes últimos anos. Morte, tortura, abusos sexuais, prisão, escravidão, exílio ou simples descriminação legal ou social, tudo isto é uma realidade para uma grande fatia dos cristãos no mundo.

Os cristãos são hoje perseguidos na maioria dos países muçulmanos, em grandes partes de África, na Índia, na China, na Coreia do Norte, no Vietname, no Laos, nas Filipinas, na Venezuela, na Nicarágua, e são alvo de descriminações em muitos outros países.

Sobre estes factos (que podem ser consultado no relatório da Ajuda à Igreja que Sofre https://religious-freedom-report.org/ptp/home-ptp/) existe um ensurdecedor silêncio no Ocidente.

Por isso não nos podem espantar as fracas reacções ocidentais ao massacre de cristãos no Sri Lanka. Porque razão Obama e Clinton, que sempre recusaram reconhecer estas perseguições, haveriam agora de reconhecer que os atentados do Sri Lanka foram contra cristãos e não “adoradores da Páscoa”? Porque haveríamos de esperar algo de diferente de quem, quando tinha poder, permitiu a morte de tantos cristãos sem qualquer sobressalto?

Mesmo cá em Portugal, aparentemente só a morte de um português é que permitiu que os atentados no Sri Lanka tivessem algum relevo (embora pareçam esquecer-se que os cristãos cingaleses se não são portugueses por lei, são no por história e por fé). Aliás, basta ver que a afirmação do Cardeal Patriarca, de que o cristianismo é hoje a religião mais perseguida no mundo, foi recebida com um misto de risota e de ironia.

Este silêncio e este desprezo porém não nos deve fazer desesperar. Porque a nossa Fé foi fundada por Cristo, também ele morto sob a cobardia e o silêncio do poder do mundo. Os poderosos que hoje ignoram a perseguição aos cristãos são apenas novos Pilatos, convencido da inocência dos cristãos, mas demasiado fracos para impedir a injustiça contra eles. Os mártires do nosso tempo são imagem de Cristo e morrendo com Ele, também com Ele alcançarão a Vida Eterna.

Que o sangue dos mártires, desprezado pelo mundo, fortaleça a fé da Igreja e dos Cristãos, e que o seu testemunho fortaleça a nossa Fé.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Não quero ser teu amigo.


SEXTA-FEIRA, JUNHO 05, 2009


O Presidente Obama encontra-se neste momento em digressão pelo Médio Oriente. No Cairo declarou querer começar uma nova relação com o Islão. Diante disto a Europa suspira com orgulho e baba-se diante do seu messias.

O que a Europa não percebe (porque eu duvido que Obama não o saiba) é que o problema não é a política Bush. O senhor terá feito erros (como por exemplo, invadir o Iraque) mas não inventou a guerra de civilizações.

Os extremistas islâmicos não nossos "amigos" porque não o querem ser. Claro que um presidente americano que os combate os irrita mais do que um que lhes sorri. Mas continuaram a odiar a América e o Ocidente à mesma.

Por isso sorrir e fingir que não se passa nada é adiar o problema. Ao adiar o problema estamos a aumenta-lo.

Pelos visto já nos esquecemos da paz de Munique.

P.S.: Na foto o presidente do país que se recusou a dobrar diante de qualquer rei faz um profunda vénia ao rei da Arábia Saudita.