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domingo, 5 de janeiro de 2020

A esquerda viu-se ao espelho e disse Chega!




É fascinante ler o artigo de Daniel Oliveira no Expresso, Flores de estufa com espinhos. Escreve a certa altura o comentador que “os mesmos que ao primeiro reparo se atiram para o chão num pranto, vítimas de ignóbil censura, lançam na lama quem se atreva a levantar-lhes a voz.” e mais à frente acrescenta “A degradação do espaço mediático e a banalização do escândalo tornou os cidadãos menos exigentes, não mais.” e ainda “não deixar que usem as redes sociais para a difamação.”

Um leitor mais distraído poderia pensar que Daniel Oliveira estava a praticar aquela tradição da esquerda que é a auto-critica. Finalmente tinha percebido o modus operandi da extrema-esquerda que sempre apoiou, e vinha agora corajosamente denuncia-lo.
Mas não, aparentemente Daniel Oliveira, e a maior parte da esquerda, não vê qualquer mal quando Marisa Matias manipula informação sobre uma votação no Parlamento Europeu para fazer uma campanha falsa contra Nuno Melo, não demonstra qualquer sobressalto quando Isabel Moreira chama bárbaros e outros insultos a quem dela discorda, até não se importa de partilhar memes mentirosos sobre Pedro Passos Coelho. Isto só os incomoda quando são os “fascistas” a fazerem-no.

A esquerda descobriu que dizer que o Governo era uma vergonha não era linguagem apropriada para o Parlamento. Pelos visto adequado é passar quatro anos a dizer que o governo rouba. Também descobriu o respeito institucional devido à segunda figura de Estado. Respeito esse que não estendem à primeira, visto que passaram dez anos a publicamente dizer tudo que havia para dizer sobre Cavaco Silva. Por fim, a esquerda agora acha execrável o vitimismo, e que se traga para o Parlamento as facturas dos polícias. Pena que nunca se tenha incomodado quando um doente com hepatite foi usado politicamente para atacar Paulo Macedo (para não falar dos amigos imaginários de Carlos César).

Nada no populismo de André Ventura é novo, tirando o facto de não ser de esquerda. Aquilo que o deputado do Chega e os seus apoiantes fazem hoje é igual ao que a esquerda tem feito nos últimos quarenta anos. Desde os berros de fascista na constituinte até as grandoladas no governo de Passos Coelho, a esquerda leva mais de quarenta anos a degradar o debate público e político. A esquerda pode achar Ventura um monstro, mas é um monstro que eles criaram.

A ascensão de André Ventura é a resposta a quarenta anos de demagogia e populismo. É a resposta da direita que se fartou da desonestidade da esquerda que responsabilizou Passos Coelho pelos mortos numa crise de gripe e olhou para o lado nos mortos de Pedrógão. É a resposta da direita farta de ser achincalhada e insultada como retrógrada e diagnosticada com um conjunto de fobias que a esquerda vai inventado ao longo do caminho. É a resposta da direita que vê tudo a ser permitido à esquerda, mas que é suposto manter-se em silêncio. André Ventura é fruto da frustração causada pelo populismo da esquerda.

Evidentemente, o populismo da esquerda não se combate com um populismo de direita. A desonestidade da esquerda não justifica a desonestidade da direita. Mas não vale a pena Daniel Oliveira e os seus camaradas virem agora escandalizar-se, quando foram cúmplices na degradação da democracia que trouxe ao parlamento André Ventura.

No fim do seu artigo, Daniel Oliveira deixa várias estratégias para combater o Chega. São todas inúteis. A única maneira eficaz de a esquerda combater o populismo de direita seria ela própria abandonar o populismo. Infelizmente não me parece que o venha a fazer, uma vez que deve o seu sucesso eleitoral à sua capacidade amoral de manipular os factos para obter apoio das massas. Para realmente combater o populismo da direita, a esquerda teria de olhar para o espelho e dizer: Chega! Mas não o faz, provavelmente com medo que o seu reflexo seja André Ventura.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O novo extremismo que ameaça a nossa democracia.



A manifestação dos polícias voltou a trazer o refrão da “ascensão” da extrema-direita. O número de André Ventura, de t-shirt e megafone em punho, aparentemente foi o suficiente para alertar jornalistas e comentadores. A tal ponto chegou a histeria que não houve jornal que não tenha feito uma reportagem sobre um suposto gesto da extrema-direita usada pelo Movimento Zero (gesto que depois se percebeu ter começado como uma graça, que gerou uma fake news, que levou alguns extremistas mais incautos a adoptarem-no, que levou ao histerismo dos media portugueses sobre um dos gestos de mão mais comuns, como a profusão de fotografias que invadiram as redes sociais comprovam).

O histerismo à volta do suposto extremismo de André Ventura é absurdo. No fundo é pouco mais do que uma narrativa que serve apenas para alarmar o povo e tentar trazer pontos à esquerda.

Contudo basta ler o programa do Chega para perceber que o partido de Ventura não é de extrema nenhuma. Tirando duas ou três medidas mais duras (mas que não incomuns noutros países democráticos), tudo espremido temos um partido liberal na economia e conservador nos costumes. Mesmo a sua reforma do sistema político não passa de um gaullismo requentado.

Depois temos o próprio André Ventura. O líder do Chega é um filho do nosso sistema que decidiu cavalgar a onda do populismo. Doutorado em Direito, funcionário público, professor universitário, comentador da Cofina, antiga estrela do PSD, a verdade é que André Ventura viveu e cresceu dentro do sistema. Não se lhe conhece qualquer actividade cívica, qualquer ligação a movimentos subversivos, nem qualquer interesse anterior pela agenda que agora defende ardorosamente (pelo contrário, só se conhece um tese de doutoramento bastante equilibrado sobre os direitos das minorias e sobre o abuso do poder judicial). 

O Chega não é um partido de extrema-direita, é um instrumento da ambição política de André Ventura. O novo deputado é um homem inteligente, um razoável orador e sobretudo um bom manipulador das massas. Tapada que estava a sua ascensão no PSD com a eleição de Rio, viu na criação de um partido populista uma boa oportunidade de chegar ao parlamento e aproveitou-a. E tem demonstrado que pode continuar a crescer, tal é a sua capacidade de se agarrar a qualquer movimento de contestação social que aí apareça. Seja a ideologia do género, seja os polícias, seja o mundo rural, de tudo se servirá para se apresentar como campeão do povo. Tudo isto enquanto vai trocando elogios e encontros com Rui Rio. O objectivo de Ventura não é mudar o sistema, mas substituir o CDS como eventual parceiro de coligações com o PSD.

Podemos discutir se um partido assim é útil ou não. Não vale é a pena berra extrema-direita só porque não gostamos do homem.

Sobretudo quando ao mesmo tempo se trata com toda a normalidade partidos anti-democráticos com assento parlamentar só porque se sentam do lado esquerdo do hemiciclo. Os comentadores que consideram uma ameaça ao Estado de Direito a posição de Ventura sobre os ciganos, são os mesmos que consideram normal o PCP continuar a louvar a revolução de Outubro ou a lamentar a queda do Muro de Berlim. Os jornalistas que chegam ao cúmulo de chamar ao 25 de Novembro um golpe militar só porque este ano o Chega decidiu festejá-lo, são os mesmos que não vêm qualquer problema no Bloco de Esquerda apoiar Maduro e Fidel Castro.

Perigo para a democracia não é André Ventura, mas partidos que abertamente atacam a liberdade educativa, a liberdade económica e até a liberdade religiosa. Perigo para a democracia são os partidos que apoiam todas as ditaduras de esquerda e apelidam de fascistas todos os governantes democraticamente eleitos de quem não gostam.

Mas sobretudo o maior perigo para a democracia, que infelizmente a maior parte dos jornalistas e comentadores teima em ignorar, é a aproximação do Partido Socialista a estes partidos.

Durante décadas mais clara do que a divisão entre direita e esquerda, era a divisão entre partidos democráticos e não democráticos. Entre os partidos que apoiavam o Ocidente, europeístas, e os partidos que apoiavam as ditaduras marxistas. Para Mário Soares nunca houve dúvidas de que lado do muro de Berlim estava. Por isso o PS governou com o PSD, com o CDS, mas nunca com o PC. Porque havia essa linha divisória, entre os que defensores da democracia e os defensores do autoritarismo marxista, que os socialistas nunca atravessaram. Isto até António Costa estar tão sedento de poder que fez o que nenhum dos seus antecessores se atreveu: aliar-se à esquerda não democrática para garantir o poder.

E agora vemos o PS refém da agenda da extrema-esquerda. Já não se trata apenas de aprovar leis fracturantes. Trata-se da imposição da agenda de género nas escolas e à sociedade, trata-se da destruição da economia, trata-se do animalismo primário. O Partido Socialista chegou ao ridículo de recusar condenar os crimes do estalinismo! Este PS já não é o de Mário Soares, de António Guterres ou de Jaime Gama. Este PS é pouco mais do um conjunto de bloquistas com mais ambição política.

A verdade é que a maior ameaça à democracia não é claramente André Ventura e o seu folclore populista. A grande ameaça à democracia é o Partido Socialista ter passado essa linha que separava os partidos democráticos dos partidos marxistas. 

Infelizmente para a nossa comunicação social, já há muito amansada e dominada pelos parente e amigos do Primeiro-Ministro, o que realmente importa não é ter um partido que partilha o poder com apoiantes de Castro e Maduro. O grave mesmo é André Ventura. Depois não se queixem.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Hélder Amaral e os afrodescendentes: a diferença entre a Direita e a Esquerda - Observador, 19/07/19

Li nestas semanas em grandes parangonas que o Bloco e o Livre têm nas suas listas ao parlamento mulheres afrodescendentes. Ao olhar para estas notícias não consegui deixar de pensar na diferença entre a extrema-esquerda e a direita, sobretudo o CDS.

Para a extrema-esquerda Beatriz Dias e Joacine Moreira são vistas apenas como membros de uma minoria, como números de uma quota que é preciso preencher. Aparentemente o que interessa não são as suas qualidades, os seus méritos, as suas capacidades, mas apenas a cor da sua pele e o seu sexo.

E aqui está a grande diferença entre eles e o CDS: para o CDS o que interessa não é a etnia ou o sexo, mas a pessoa em si mesma. Por isso não há notícia “CDS apresenta afrodescendente como cabeça de lista em Viseu”. Para o CDS, o presidente da distrital de Viseu, deputado há mais de uma década e cabeça de lista às eleições deste ano não é “um afrodescendente”, é o Hélder Amaral, que não deve o seu lugar à cor da pele, ou à necessidade de preencher uma quota, mas às suas capacidades e qualidades.

Aliás, tal como não há notícia de “mulher cabeça de lista”, porque Assunção Cristas, Cecília Meireles, Raquel Abecassis, Patrícia Fonseca, Inês Palma Teixeira e Melissa da Silva (para além de Ana Rita Bessa, Isabel Galriça Neto e Isabel Menéres Campos, que não são cabeças de lista, mas entraram na quota nacional), não estão lá pelo seu sexo, mas pelo seu mérito. É verdade que são mulheres, mas não são apenas isso, são sobretudo pessoas com currículo profissional e político, muitas com provas dadas no Parlamento. E é por isso que são candidatas, não para satisfazer a obsessão igualitária moderna.

A esquerda olha para a sociedade e divide-a em classes. Operários vs patrões, povo vs burguesia, mulheres vs homens, brancos vs minorias, heterossexuais vs LGBTI, e por aí fora, num conjunto de classes e de conflitos que parece não ter fim. Por isso para a esquerda não interessa a pessoa, mas a sua “classe”. Por isso Beatriz e Joacine são apenas “mulheres afrodescendentes”.

Isto faz com que a esquerda acabe a partilhar a mentalidade dos movimentos racistas. A diferença é que os racistas dividem o mundo em brancos e pretos e a esquerda entre brancos e afrodescendentes. Mas quer para uns quer para outros a cor da pele define o que a pessoa é.

Para a direita democrática a pessoa está no centro da política, não a sua classe, a sua etnia, ou o seu sexo. Por isso a preocupação da direita não é a falsa igualdade da esquerda, que prefere os pobres mais pobres desde que os ricos também o fiquem, mas sim criar condições para que todos tenham não apenas uma vida digna, mas iguais condições para poder construir a sua vida.

As quotas raciais com que a esquerda sonha não vão resolver qualquer problema. Não resolvem o problema das centenas de milhares de negros que habitam bairros sociais à volta das grandes cidades, onde abunda a criminalidade, com escolas degradadas, com empregos mal pagos, com horários de trabalho desumanos. Nem dos negros, nem dos brancos, nem dos ciganos que lá moram. E achar que resolve é mais uma vez a manifestação desta mentalidade racista da esquerda, que pensa que um negro representa todos os outros, como se não estivéssemos a falar de pessoas com histórias, culturas e circunstâncias diferentes. Como se um cabo-verdiano católico, um guineense muçulmano, ou um português cujo os avós vieram de Moçambique fossem uma só entidade representada por qualquer pessoa que partilhe com eles a tonalidade.

Olhando para o parlamento é evidente, comparado com a sociedade, que há lá poucos negros. Como também se verá que há pouca gente do interior ou que há pouca gente vinda de bairros pobres. Mas isto é verdade para o parlamento, como é para as grandes empresas, como é para as carreiras universitárias, como é para as carreiras da magistratura A verdade é que os mais pobres em Portugal estão destinados a trabalhar nas obras ou, numa versão mais moderna, em grandes cadeias comerciais.

Portugal tem de facto um problema social grave: a incapacidade de tirar os pobres da pobreza. Mas isso não se resolve com quotas, nem com medidas artificias, mas com uma verdadeira política de educação centrada nos alunos e não na lenga-lenga da Escola Pública. O Bloco e o Livre querem mais negros no Parlamento? É simples: larguem o estatismo, larguem a sua visão estratificada da sociedade e comecem a trabalhar para criar escolas que estejam realmente ao serviço das comunidades e não ao serviço do Estado. Até lá, por muitas quotas que inventem, por muito afrodescendentes que coloquem nas suas listas, tudo continuará na mesma.