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terça-feira, 25 de novembro de 2025

25 de Novembro: o erro da Direita

 


Confesso que não partilho do mesmo entusiasmo dos partidos da Direita com o 25 de Novembro. Parece-me que, na ânsia de encontrar uma data política só sua, atribuem ao dia um significado que os factos não sustentam.

Afirmar que foi a 25 de Novembro que passámos a ter realmente uma democracia é esticar a realidade. É evidente que nesse dia se pôs travão ao PREC, e que isso foi essencial. Mas não podemos esquecer que continuámos a ter o Conselho da Revolução, que os saneamentos, as ocupações e as nacionalizações não foram revertidos, e que ainda demoraria pelo menos uma década até termos uma democracia europeia.

Não quero com isto desmerecer o heróico esforço dos militares que nesse dia travaram a extrema-esquerda e conseguiram devolver alguma normalidade ao país. Nem a coragem dos políticos que, mesmo apesar das ameaças de morte, se bateram pela democracia. Mas, também por justiça para com eles, não vale a pena transformar o 25 de Novembro no que ele não foi.

A verdade, por muito chocante que isso possa ser, é que o grande vencedor do 25 de Novembro não foi a direita, nem o centro-esquerda, mas o Partido Comunista. Claro que Cunhal sonhou com a conquista do poder, e, tendo falhado a via eleitoral, não se importaria de o alcançar pela força. Mas percebeu rapidamente que não tinha as “espingardas” para tal. Portanto, deixou a extrema-esquerda sair à rua – que o preocupava mais do que a direita – e ser presa, permanecendo sossegado, garantindo que nada perdia do que já tinha alcançado.

Em Novembro de 1975, Cunhal já tinha tudo aquilo que o PC queria, excepto o poder absoluto, que não tinha forças para conquistar. Internacionalmente, tinha garantido que as províncias do Ultramar se tornariam satélites da União Soviética — uma política que conduziu a novas guerras e a milhares de mortos.

Internamente, tinha conseguido sanear inimigos políticos, garantir um património considerável para o partido, dominar os sindicatos, lançar, através da Reforma Agrária, bases profundas no Alentejo, dominar boa parte da comunicação social e infiltrar militantes comunistas nos ministérios e nos órgãos de justiça. Tudo isto permitiu que o PC garantisse uma influência social muitíssimo superior ao seu peso político — influência essa que ainda vai resistindo passados cinquenta anos, como se prova pelo facto de, apesar de ter apenas três deputados na Assembleia da República, se preparar para paralisar um país com uma greve geral em Dezembro.

Ou seja, Cunhal sonhou com um golpe de Estado – e não nos enganemos –, o facto de estar em minoria não significava que isso não fosse possível; afinal, 500 soldados em Lisboa tinham imposto a República a um país de seis milhões de pessoas. Mas garantiu que não perdia nada do que tinha ganho e ainda viu eliminada toda a concorrência à esquerda.

É evidente que as concessões feitas ao Partido Comunista, assim como aos militares, foram o que permitiu que, com o tempo, viessemos a ter uma democracia. E que a alternativa seria, se não uma guerra civil, pelo menos um período de enorme violência. Por isso, a paz, ainda que podre, alcançada a 25 de Novembro deve ser festejada — mas não deve ser transformada no que não é.

2. É possível afirmar que, mesmo assim, celebrar o 25 de Novembro com solenidade é útil para contrapor a narrativa da esquerda de que foram eles que construíram a democracia. No fundo, celebrar a data serviria como lembrete das loucuras do PREC e do preço que pagámos para conseguir ser uma verdadeira democracia. Compreendo o argumento, mas considero-o um erro, porque reforça a falsa narrativa da esquerda sobre o 25 de Abril.

Aquilo que começou por ser um golpe militar, motivado por razões internas de organização do exército, tornou-se, pela adesão do povo, numa revolução. No 25 de Abril participaram militares e populares de todos os quadrantes. A Revolução não foi de esquerda nem de direita, mas o grito de um povo que estava farto da guerra e do Estado Novo.

Na normal confusão que se seguiu, o Partido Comunista — de longe a realidade política mais bem organizada, e contando com o apoio da União Soviética — procurou tomar o poder. E entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro foram cometidas barbaridades, desde prisões políticas a saneamentos de pessoas sem qualquer ligação ao Estado Novo, que deixaram marcas no atraso social e económico do país até aos dias de hoje.

A esquerda, autora da esmagadora maioria desses actos, para justificar as suas acções, construiu uma narrativa que une o 25 de Abril à tentativa que se seguiu de construir uma ditadura de esquerda. Isto não só justifica o que fizeram, como torna qualquer ataque ao PREC num ataque ao 25 de Abril. A verdade é que a esquerda tomou de assalto a memória daquele dia, e a direita deixou.

Deixou porque teve medo de que, ao denunciar os abusos da esquerda, fosse colada ao anterior regime. Deixou porque receou que o povo que se tinha revoltado contra o PREC, sobretudo do Tejo para cima, visse o seu apoio ao 25 de Abril como um apoio ao processo revolucionário.

E isto foi um erro. Porque quem construiu a democracia não foi a extrema-esquerda, mas o centro, a esquerda e a direita. A democracia nada deve a Álvaro Cunhal, mas deve muito a Mário Soares, a Salgado Zenha, a Francisco Sá Carneiro, a Adelino Amaro da Costa, a Freitas do Amaral e a tantos outros. Foram eles que, partindo da revolução, construíram um país democrático, contra os que se queriam munir de uma qualquer legitimidade revolucionária para impor uma nova ditadura ao país.

E por isso a direita, mais do que insistir numa data própria — o 25 de Novembro —, deveria reclamar para si a memória histórica do 25 de Abril. Deveria recordar os homens e mulheres que resistiram à extrema-esquerda e, sendo fiéis ao espírito da revolução, construíram uma democracia.

Celebrar o 25 de Novembro como se fosse, de alguma forma, uma espécie de Revolução de Outubro da democracia, é não só uma mentira como também o reforço do mito da esquerda como herói da democracia.

Por isso, gostaria que a Direita parasse de cair na narrativa da Esquerda e reclamasse para si — e para o Partido Socialista, que tem demasiada vergonha da sua história — o papel essencial que tiveram na construção da democracia, não apenas no 25 de Novembro, mas desde o 25 de Abril.

 

terça-feira, 26 de abril de 2022

A direita e o 25 de Abril


Uma parte substancial da direita tem uma relação complicada com o 25 de Abril. O que é abundantemente aproveitado pela esquerda, sobretudo pela extrema-esquerda.

Esta relação complicada nasce de um equivoco histórico, criado pela esquerda e, infelizmente, aceite pela direita.

No dia 25 de Abril de 1974 houve um golpe militar que a adesão popular transformou numa revolução. Esse golpe foi preparado e executado por militares de direita e de esquerda, republicanos e monárquicos, católicos, etc. A adesão ao golpe militar pela população veio também de todos os quadrantes da população.

Claro que a democracia não se constrói num dia, nem basta derrubar uma ditadura para que logo se erga um democracia. E as dores de parto da democracia portuguesa foram violentas, especialmente para aqueles que se identificam à direita.

Durante os tempos revolucionários foram cometidos abusos e crimes que deixaram marcas em Portugal até hoje. As nacionalizações selvagens arrasaram a economia portuguesa, a reforma agrícola destruiu casas agrícolas sem produzir qualquer fruto, os saneamentos atingiram centenas de pessoas sem qualquer culpa, muitos foram presos por delito de opinião sendo que alguns foram torturados, houve partidos ilegalizados e bastante violência. Sobretudo, naquilo que é a maior vergonha para o país dos tempos da revolução, os povos irmãos do ultramar foram entregues sem cerimónias a Moscovo, condenando os novos países à guerra e violência que provocaram milhares de mortos e arrasaram as novas nações.

Num pais civilizado, os autores destes crimes teriam sido pelo menos afastados da vida política, se não mesmo presos. Em Portugal, são tratados como heróis. E são-no, precisamente por a direita permitir o equívoco de misturar o 25 de Abril com o processo revolucionário que se lhe seguiu.

A razão pela qual a extrema-esquerda, que tentou forçar o país a uma nova ditadura, é celebrada como heroína da liberdade, é porque se arma de uma legitimidade revolucionaria exclusiva. Como se de alguma forma fossem donos da Revolução e isso apagasse todos os seus crimes. 

A direita, que foi quem mais sofreu durante o processo revolucionário, marcada por todos os abusos feitos no pós-25 de Abril, deixou-se afastar desse momento fundador da democracia portuguesa e permitiu assim à esquerda ficar como heroína do momento.  E a esquerda agradece, sobretudo o Partido Comunista e os restantes herdeiros da extrema-esquerda, porque assim lhes é permitido branquear todos os seus crimes.

A verdade é que a democracia nada deve ao Partido Comunista nem à extrema-esquerda. Nada deve àqueles que, mesmo tendo participado no 25 de Abril, depois tentaram instrumentalizar a Revolução para impor uma nova ditadura ao país. Mas deve muito àqueles que fizeram a Revolução e depois defenderam a Democracia e a ajudaram a consolidar.

Por isso, é hora de a direita ultrapassar as suas dificuldades com o 25 de Abril. Não precisamos de cravos brancos, nem de atrelar o 25 de Novembro para falar do 25 de Abril. É hora de assumirmos sem medo o legado daqueles que no dia 25 de Abril de 1974 arriscaram a vida e a liberdade para que Portugal fosse uma democracia. E fazê-lo sobretudo contra quem, munido de uma suposta legitimidade revolucionária, procurou  impor ao país um regime socialista.

A Democracia em Portugal nasceu de facto com o 25 de Abril. E foram muitos os que arriscaram, nesse dia e nos que se lhe seguiram, para que fossemos livres. Continuar presos na armadilha montada pela extrema-esquerda para branquear os seus abusos é um insulto a todos os que sofreram para que Portugal fosse livre. E para além disso é um erro, um erro que a direita continua a pagar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Direita: nem cercas, nem trincheiras.



Aquilo a que se convencionou chamar direita em Portugal decidiu entrar em guerra civil nas últimas semanas. Infelizmente a discussão não tem sido pautado pela elevada troca de argumentos, mas quase sempre por esse desporto tão caro aos comentadores nacionais que é a troca de insultos, mais ou menos polidos.

Por um lado temos os que defendem uma política de trincheira. Para estes o inimigo está claramente identificado: é a esquerda, do PS à deputada não inscrita Joacine Katar Moreira. E nessa luta todos os que estão do lado de cá da barricada são bem vindos. A urgência de derrotar o adversário é tão grande, que não há espaço para moralismos. Inimigo do meu inimigo meu amigo é. Por isso para estes, qualquer critica ao Chega ou a qualquer populista de direita é fazer o jogo da esquerda.

Do outro lado temos os que defendem a pureza democrática da Direita. Que defendem a união da direita democrática e uma cerca à volta da direita iliberal.

Ambas as facções perdem imenso tempo a demarcar-se uma da outra. Todos explicam muito bem aquilo que não são e porque razão as posições da outra facção estão não só profundamente errada, como ainda por cima são a razão para a Esquerda estar confortavelmente instalada no poder.

Ambas as posições acabam de facto por ser a mesma. Chamando-lhe trincheira ou cerca, a direita vive entretida a isolar-se sobre si mesma, fechada na sua superioridade moral. E entre a trincheira e a cerca, o espaço vai diminuindo. De uma forma ou outra a verdade é que a Direita se recusa a dialogar com boa parte do país.

Quando G.K. Chesterton publicou o seu livro Heréticos, onde criticava a filosofia dos seus contemporâneos, um dos visados respondeu : "I shall not begin to worry about my philosophy of life until Mr. Chesterton discloses his." Este desafio levou Chesterton a escrever uma das suas obras primas, Ortodoxia, provavelmente um dos mais conhecidos e importantes livros de apologética cristã do século XX.

A Direita portuguesa está longe da genialidade de Chesterton, mas sofre do mesmo mal: sabemos muito bem aquilo que não quer, mas ainda ninguém percebeu muito bem aquilo que quer.

Vivemos tão imersos na mentalidade socialista, que a Direita existe na constante reacção à esquerda, mesmo que seja para a declarar como principal inimigo.

Não acredito nesta forma de fazer política, e não me parece que seja uma boa estratégia.

Ser contra alguma coisa não permite construir nada, só destruir. Sim, é razoável ser contra o Estado paternalista, autoritário, que desrespeita a dignidade Humana. Mas não basta ser contra, é preciso propor uma alternativa.

E é nisso que a nossa Direita falha. Está tão ocupado em não ser coisas (não ser socialista, não ser populista, não ser fascista, não ser fofinha) que não tem tempo para ser alguma coisa.

Social-democracia, conservadorismo, democracia-cristã, liberalismo, são cada vez mais chavões que não querem dizer absolutamente coisa nenhuma. São pouco mais do que bordões para discursos políticos redondos e vazios.

Sem a direita dizer ao que vem dificilmente poderá construir o quer que seja. Porque se não sabe para onde quer ir, só sabe que não quer ir por aí, então só sobra à Direita ficar imobilizada, a construir cada vez mais cercas e trincheiras, até ficar completamente isolada e irrelevante. Uma excentricidade, para ser vista pelo povo, como um animal em vias de extinção num Jardim Zoológico.

Parecia-me mais útil por isso que em vez da troca de insultos a que assistimos nas últimas semanas entre a direita das trincheiras e a direita das cercas, as dezenas de pessoas que usam o seu tempo a pensar no futuro da Direita, apresentassem com clareza aquilo que defendem. E não vale a pena perder tempo a apontar inimigos, que tenho por experiência própria que, quando defendemos o que acreditamos, os adversários encontram sempre maneira de nos encontrar.

Se cada um tiver claro aquilo em que acredita, se o defender com clareza, então não precisa de qualquer cerca ou trincheira. Pode dialogar com todos, porque sabe bem o que quer, e até onde está disposto a ir. Sobretudo, pode dialogar porque está na política para defender alguma coisa, não para atacar. E por isso pode falar com aqueles, à direita e à esquerda, que estejam dispostos a dialogar para construir uma sociedade mais justa. E este parece-me o único caminho razoável.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Os Conservadores, o movimento LGBT e o duplopensar.



Tenho visto por aí algumas pessoas de direita muito contentes por o partido Conservador inglês ter decidido juntar-se aos festejos do mês do orgulho homossexual. Este contentamento vem acompanhado de muitos conselhos para que a direita portuguesa, sobretudo o CDS, lhe siga o exemplo.

Segundo estes arautos da nova direita, esta seria uma posição que respeita a liberdade pessoal e a igualdade. Há, contudo, um pequeno problema. É que esta posição, aparentemente liberal e humanista, ignora uma primeira premissa.

Para que a agenda LGBT seja de facto uma questão de liberdade pessoal e dignidade, primeiro há que reduzir a pessoa à sua sexualidade. É preciso que a intimidade de cada um seja identificativo de quem ela é. Já não se trata de A ou B, com a sua história pessoal, com a sua vivência própria da sua intimidade, passa a ser parte de uma entidade abstrata que são os homossexuais. É a aplicação da tese clássica do marxismo, da guerra de classes, a todo uma nova panóplia de grupos e sub-grupos.

Isso é claríssimo naquilo que foram as duas grandes conquistas do movimento LGBT na última década: o casamento e a adopção por pessoas do mesmo sexo. O que estava realmente em discussão nestes casos não era a sexualidade de cada um. Porque para o Estado a vida íntima de cada um não releva. O Estado não legisla afectos, não legisla a olhar pelo buraco de fechadura. O ponto era saber se o Estado devia regular a relação entre duas pessoas do mesmo sexo, no caso do casamento, e se duas pessoas do mesmo sexo poderiam adoptar uma criança.

Não estava em causa a igualdade ou a liberdade pessoal. Pelo contrário, estava em causa impor a visão de uma sociedade onde a sexualidade é um factor de diferenciação. Trata-se de impor, através do Estado, uma visão da sociedade onde a pessoa é definida pela sua sexualidade. Vejamos o exemplo da adopção: antes dois homens nunca podiam adoptar. Agora dois homossexuais podem adoptar, mas dois irmãos não podem. Antes a diferença era ser preciso pai e mãe para a criança, agora a diferença é a relação que tem com o outro adoptante.

Por isso nunca percebi aqueles que tanto se opõem ao Estado, sobretudo os Liberais, e depois defendem que o Estado possa interferir e regular a vida íntima dos cidadãos.

Mas mais grave do que isso é perceber o que significa este apoio à causa LGBT hoje. Hoje quando a questão do casamento e da adopção está encerrada. Hoje quando já existe legislação abundante contra qualquer forma de discriminação. Qual é agenda que este movimento defende hoje? A educação! Dos adultos e das crianças.

Para o movimento LGBT não é suficiente que o Estado tenha adotado a sua visão da organização social, é preciso que todos concordem com essa visão. Não basta que exista o casamento entre pessoas do mesmo, é preciso que ninguém se atreva a discordar dele. A lei não é suficiente, querem também a hegemonia cultural. E isso faz-se através da repressão do adultos e da doutrinação das crianças.

A repressão dos adultos usa como instrumento os crimes de ódio. Ou seja, censura e criminaliza opiniões. E não falo de insultos e de bullying. Falo de opiniões como esta que escrevo. Ou de outras opiniões com as quais não concordo, mas que não me passaria pela cabeça censurar.

Mas mais grave é querer impor essa visão da sociedade às crianças. É retirar aos pais a liberdade de educar os seus filhos. Não se trata simplesmente de ensinar a aceitar e a respeitar a diferença, trata-se de incutir nas crianças uma visão social, cultural, moral, independentemente da vontade dos pais. Para o movimento LGBT eu não tenho o direito de ensinar ao meu filho a visão cristã da sexualidade. Ou seja, não posso ensinar que a sexualidade é para ser vivida dentro do matrimónio entre homem e mulher.

Aquilo que o partido Conservador hoje apoia, assim como os seus seguidores em Portugal, é que o Estado tenha o direito (e mesmo o dever) de impor a visão dos movimentos LGBT sobre a sexualidade a todas as crianças.

É sempre grave ver que há quem defenda que o Estado tem o dever de impor uma visão ideológica à sociedade. Que deva operar engenharia social através da lei e da educação. Mas pior é que haja quem o defenda em nome da liberdade. Orwell estaria orgulhoso.

 


segunda-feira, 25 de maio de 2020

O jogo das presidenciais.




Não é possível qualquer análise séria das presidenciais sem partir de uma premissa: salvo qualquer desastre, Marcelo Rebelo de Sousa vai vencer as presidenciais. E em principio vai vencer por larga margem. A maior vitória que os seus adversários podem sonhar é forçar a 2ª volta. Mas mesmo isso, se vier a acontecer (o que parece muito improvável), irá dever-se a abundância de candidatos de protesto e não por uma qualquer hipótese real de o derrotar.

António Costa sabe bem disto. Não tem ninguém no PS que possa sequer fazer mossa ao actual Presidente da República. Não há hoje na área do Partido Socialista qualquer presidenciável que fosse ter resultado muito melhor que Maria de Belém. Ao mesmo tempo o Primeiro-Ministro também sabe que o Presidente da República não tem força para o enfrentar a ele. 

Dado que Rui Rio tem como único sonho o bloco central, a oposição ao Governo hoje está reduzido a CDS, IL e Chega. Por isso Marcelo Rebelo de Sousa pouca ou nada pode fazer contra o Governo: se o demitir ele ganha as eleições, se vetar ele ultrapassa o veto no parlamento. António Costa domina o regime e ao PR sobra-lhe pouco mais que cortar fita e tirar selfies.

Por isso para Costa as presidenciais só têm um objectivo: reforçar o seu próprio poder. O apoio a Marcelo Rebelo de Sousa é apenas uma armadilha: condiciona o PR, e obriga a direita a escolher entre perder as eleições ou apoiar o seu candidato. E assim transforma o que poderia ser visto como uma derrota, numa vitória certa, metendo o Presidente e a oposição na algibeira.

Para António Costa só há um espinho nesta eleição: Ana Gomes. É evidente que quem o vai atacar com força durante a campanha é André Ventura. Mas para António Costa isso é indiferente. Um bom resultado de André Ventura só lhe traz vantagens: fragiliza ainda mais a direita, e une a esquerda à sua volta. Quanto mais forte for Ventura, mais Costa se arroga em guardião do regime.

Já Ana Gomes é diferente. É tão populista como André Ventura (mas como é de esquerda ninguém pode dizer isso), mas é do seu partido. Ana Gomes pode fazer à esquerda o que André Ventura faz à direita. Embora com menos estrondo, uma vez que a esquerda está bastante mais forte. Por isso quem tem interesse na candidatura de Ana Gomes é a direita, especialmente a direita que não quer André Ventura, e a esquerda desalinhada com o PS.

Já Ventura e Ana Gomes só têm a ganhar com as suas candidaturas. Com o resultado já decidido, estas eleições serão ideais para candidaturas de protesto. Dos dois, Ventura é o que tem mais a ganhar e a perder. Ana Gomes pouco tem a perder e a ganhar. Pode ganhar mais palco e influência, mas não tem qualquer expectativa de poder subir muitos mais politicamente. Já Ventura tem aqui uma boa possibilidade ter um bom resultado nas urnas. As sondagens têm vindo a subir, mas a verdade é que André Ventura em urnas só vale 1%. As presidenciais poderão ser um bom momento para fazer subir esse resultado. Por outro lado, se lhe correr mal, e não conseguir um bom resultado, sendo que as eleições seguintes são as autárquicas que não costumam favorecer partidos novos por falta de estruturas locais, pode ser o esvaziar do balão.

Bloco e Partido Comunista farão o que fazem sempre. O Bloco irá candidatar Marisa Matias, a única candidata que têm capaz de fazer boa figura numa eleição unipessoal. O PC irá candidatar mais um homem do aparelho para marcar presença.

A grande interrogação é o que fará a direita democrática. Apoia Marcelo? Inventa um candidato? Não faz nada? 

O circo à volta de Adolfo Mesquita Nunes não é para ser levado a sério. Mesmo com todas as qualidades políticas que lhe são conhecidas, é evidente que uma candidatura sua seria um desastre. Não tem força para ser uma alternativa credível a Marcelo, é demasiado sério para ser um candidato de protesto. A candidatura de Adolfo Mesquita Nunes serviria apenas para demonstrar a separação que há entre o povo da direita e as suas elites que se entretêm no auto-elogio no twitter e a fazer zooms entre si. A proto-candidatura de AMN tem como único objectivo cavar mais divisões no CDS e sobretudo relançar o projecto de uma direita supra-partidária liderada por liberais e conservadores iluminados. É um prolongamento do Movimento 5.7, que por muito interesse intelectual que tenha, não tem qualquer expressão social.

Infelizmente estas presidenciais vão ser duras para a direita. Gostemos ou não, não se vislumbra qualquer candidato que consiga influenciar estas eleições. A direita arrisca-se, para não votar em Marcelo Rebelo de Sousa, a apoiar uma candidatura que apenas a fragilize mais. Há um país real para além das capelinhas dos intelectuais da direita, um país real que gosta de Marcelo Rebelo de Sousa e não conhece nenhuma das luminárias por quem a nossa direita tanto suspira. Aquilo que os lideres da nova direita têm que pensar é o que preferem: engolir o sapo e votar em Marcelo Rebelo de Sousa ou arriscar provar a sua insignificância.

No estado actual das coisas não há espaço para grandes manobras nas próximas presidenciais. A maior parte das peças já estão colocadas e não sobra muito espaço no tabuleiro para grandes movimentações. Quem quiser ir a jogo vai ter que ir com as peças que há. E às vezes o mais sábio é mesmo ficar a ver.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O diabo chegou e veio para ficar. - Revista Acção Católica Rural, Janeiro 2020



A actual constituição da Assembleia da República não pode deixar de inquietar um católico. O reforço da maioria de esquerda significa o reforço daqueles partidos que, mesmo quando utilizam palavras parecidas com as da Igreja, partem de uma ideologia contrária à visão cristã da sociedade. Para o cristão no centro da política está o Homem, em toda a sua dignidade. Para a esquerda está o Estado ou o Povo. Um cristão não partilha da visão da sociedade dividida em classes, ou numa versão mais de acordo com a esquerda moderna, em grupos identitários. Para um cristão cada pessoa é igual em dignidade. 

Esta visão ideológica, embora produza muitas vezes um discurso em defesa dos mais pobres e mais desprotegidos, acaba por produzir políticas que prejudicam sobretudo estes. Como se pôde ver na última legislatura que acabou com um SNS desfeito, uma escola pública sem recursos e com o número de pobres a aumentar.

Nesta legislatura podemos esperar antes de mais a imposição de mais medidas fracturantes: eutanásia, barrigas de aluguer, aumentos dos prazos do aborto legal. Ou seja, um ataque às pessoas mais frágeis, que irão ficar ainda mais desprotegidas pela nossa legislação.

Mas não é apenas nas medidas fracturantes que podemos esperar o pior. A ideologia estatista desta maioria irá continuar a atacar todas as instituições que, fazendo serviço público, não pertencem ao Estado. Sendo que a maioria destas pertencem à Igreja.

Depois de ter arrasado com as escolas com contrato de associação, obrigando assim crianças com poucos de recursos a percorrer diariamente dezenas de quilómetro para obter ensino de pior qualidade, depois de ter acabado os acordos com as Misericórdias, que permitiam diminuir drasticamente as listas de espera nos Hospitais Públicos, é provável que esta maioria de esquerda vire agora a sua atenção para as IPSS. Onde havia uma instituição que providencia bons cuidados aos mais necessitados da sua zona, passará a haver uma instituição do Estado, sub-orçamentada e com falta de pessoal que não terá capacidade de resposta para os problemas dos mais pobres e indefesos.
E toda esta fúria estatista continuará a ser alimentada pela mais alta carga fiscal de sempre. Sendo que essa carga fiscal, por motivos eleitoralistas, continuará a incidir sobretudo nos impostos indirectos, que afectam sobretudo os mais pobres. A diminuição do IRS pouco ou nada diz a boa parte da população que não paga este imposto. Mas o aumento do imposto sobre o combustível, que se repercute em toda a economia, assim como o aumento de taxas e taxinhas, que leva ao aumento geral dos preços tem um efeito dramático junto das pessoas, sobretudo para aquelas para quem cada euro conta.

Desta nova maioria podemos por isso esperar o pior. Uma política apostada no reforço do peso do Estado na sociedade e da economia, diminuindo assim o espaço de crescimento da sociedade. Teremos mais impostos, mais dívida, serviços públicos cada vez mais incapazes e uma sociedade civil cada vez menos capacitada a responder a estes desafios.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Para onde quer ir a Direita?

Nos últimos vinte e quatro anos a Direita governou o país apenas sete: após o pântano de Guterres e a catastrófica governação de José Sócrates. A acreditar nas sondagens, a Direita prepara-se para ficar mais uma vez longe do poder nas legislativas deste ano.

Olhando para este factos só poderia pensar-se que os socialistas têm feito uma grande obra neste país para merecerem a confiança dos eleitores. Infelizmente, a realidade demonstra que os anos de governo socialista têm sido marcados por ineficiência, corrupção, deterioração das infra-estruturas e dos serviços públicos, aumentos sucessivos da carga fiscal, da dívida pública, etc.

Como se justifica então que o Partido Socialista pareça destinado a dominar a política nacional? Se não é pela capacidade dos socialistas, então só pode ser pela incapacidade da Direita em atrair o eleitorado.

Se a Direita quer voltar realmente ao poder (não apenas quando o PS empurra o país para o abismo) tem que repensar a sua estratégia, perante um eleitorado cada vez menos interessado em política e em partidos, para quem os políticos e os partidos são todos iguais e que vota (quando o faz) no partido que aparentemente «reverte» mais.

Para romper este ciclo é preciso que a Direita se distinga claramente do PS e da Esquerda. É preciso que apresente uma ideia clara para o país e para a sociedade, que entusiasme as pessoas. Infelizmente, as máquinas partidárias e os seus especialistas em comunicação insistem cada vez mais em transformar a Direita na “governanta” do país, que não se mete nem tem opinião sobre nenhum assunto estruturante, apenas apresenta gestão rigorosa e boas contas.

Os partidos de Direita, actualmente, têm tanto medo de ser confundidos com  designações como extremistas, retrógrados, populistas, ou com qualquer outra categoria com que a Esquerda, aliás, gosta de caracterizar a Direita que não se atrevem a defender em voz alta qualquer ideia que desafie a agenda cultural da Esquerda. A Direita tem mais medo do desprezo dos intelectuais de Esquerda do que do seu próprio eleitorado. Por isso, enquanto a Esquerda participa orgulhosamente nas actividades cívicas dos grupos LGBTI, pró-eutanásia, pró-aborto, etc., a Direita vai mantendo uma relação mais ou menos envergonhada com os grupos cívicos que defendem a dignidade da vida humana, a defesa da família ou a liberdade de educação. Ainda em Novembro último, a Federação Portuguesa pela Vida trouxe à rua cerca de dez mil pessoas em cinco cidades do país, (numa altura em que nenhum dos partidos de direita, com toda a sua estrutura, sonha colocar mil pessoas na rua) perante o silêncio quase total e  a falta de apoio dos partidos da direita.

Este é provavelmente o maior drama da Direita: na sua ânsia de ganhar novos eleitorados, foi diluindo os seus ideais até pouco se distinguir da Esquerda. O resultado foi que não ganhou o eleitorado da Esquerda e está cada vez mais distante do seu próprio eleitorado. Cada vez mais o povo de Direita vota no PSD e no CDS sem qualquer entusiasmo, movido apenas pela necessidade de tirar a Esquerda do poder. O pragmatismo eleitoral da Direita tem tido um único resultado: o seu declínio.
Isto acontece porque as questões que a Esquerda apelida de fracturantes (e das quais a Direita foge) são de facto as questões estruturantes da sociedade. O principio da dignidade objectiva da vida humana é o centro dos Direitos fundamentais dos quais decorrem todos os outros. O direito à liberdade (em todas as suas declinações), à propriedade privada (e portanto o mercado livre, a recusa do saque fiscal, etc.), os direitos políticos e sociais são tudo decorrências da dignidade humana.

Por isso, querer defender a diminuição do peso do Estado na economia e na sociedade, defender a liberdade económica, a liberdade das empresas, a desburocratização do Estado, sem defender primeiro a dignidade da Vida Humana em todas as circunstâncias é construir a casa pelo telhado.

Se a Direita quer voltar a ser poder tem que voltar a reconquistar as suas bases populares. Para o fazer tem que voltar às suas raízes, à defesa clara do personalismo contra o estatismo socialista. As pessoas movem-se por ideais, não por estratégias. E basta olhar para o exemplo de maior sucesso político na Direita dos últimos tempos: Francisco Rodrigues dos Santos, que com um discurso claro sobre os ideais da Direita, conseguiu não apenas transformar a Juventude Popular na mais entusiasta e activa juventude partidária, como ganhar uma tal influência na vida política que será o número dois do CDS no Porto.

Insistir no caminho actual, do pragmatismo, da agregação, da Direita suave e moderna, de braço dado com a Esquerda em todas as questões culturais, tem como resultado previsível continuar a lenta decadência da Direita até ser tomado por um Trump ou uma Le Pen, que cavalgue o descontentamento popular com as elites políticas (e não nos esqueçamos que André Ventura está à espreita).

A alternativa, voltar ao personalismo, a defesa da dignidade da Vida Humana, da defesa da família e da sua importância para a sociedade, ou seja, voltar aos ideais que fundaram a Direita democrática, já não é meramente um imperativo ético, é uma necessidade estratégica. Não se trata de cegueira ideológica ou de uma tentativa de muscular a Direita, mas do caminho que é necessário percorrer para voltar ao poder.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O extremismo é sempre de direita?




“Extrema-direita entra no parlamento da Andaluzia.” Este é o título em mais ou menos todas as notícias dos jornais portugueses sobre as eleições na Andaluzia. Todos fazem questão em sublinhar que o VOX (que ontem elegeu doze deputados) é de extrema-direita. Estranhamente nenhum deles sente necessidade de referir que o Podemos ou a IU são partidos de extrema-esquerda.

Aparentemente o VOX precisa sempre do adjectivo de extrema-direita, mas o Podemos, que neste momento garante o poder a Pedro Sánchez, o Podemos que em paga pelo dinheiro que recebeu de Maduro continua a apoiar o regime Venezuelano, o Podemos que quer derrubar a cruz do Vale dos Caídos, que quer fragmentar a Espanha, nunca é referido como de extrema-esquerda.

Esta desigualdade de critérios não é de espantar. Lembremos que, nas eleições brasileiras, o presidente eleito era sempre o candidato da extrema-direta, mas Haddad que tinha como vice Manuela D’Ávila, do PCB, nunca era descrito como candidato da extrema-esquerda. Trump, presidente democraticamente eleito é sempre associado à extrema-direita, mas o ditador Maduro nunca é descrito como de extrema-esquerda. Marine Le Pen, Salvini, Órban são sempre populista de extrema-direita, Tsipras, Iglésias, Mélenchon nunca são de extrema-esquerda.

A verdade é que a comunicação social tem sempre muito mais complacência com a extrema-esquerda do que com a extrema-direita. Pensemos por exemplo que Che Guevara e Fidel Castro, dois assassinos sanguinários, são ainda hoje tratados como heróis. Ou para ficarmos por casa, pensemos em Otelo Saraiva de Carvalho, terroristas condenado em tribunal, que todos os anos é homenageado na nossa comunicação social.

Só isso explica que em Portugal o PNR ou o novo partido de André Ventura sejam sempre tratados como perigosos, mas que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunistas estejam no poder. Aparentemente ser contra a imigração é perigoso, mas legislar para que crianças de 16 anos mudem de género é bom. Ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma deriva autoritária, mas defender a nacionalização da economia já não tem problema. Em última instância, ser contra a União Europeia é bom ou mau, dependendo se quem o diz é Catarina Martins ou José Pinto Coelho!

Eu não defendo a extrema-direita. Eu também acho que os jornais têm o dever de denunciar ideias e comportamentos extremistas. Só quero é que o façam independentemente do lado da barricada de onde vêm. 

Aquilo a que assistimos hoje em dia na comunicação social é aterrador: qualquer pessoa de direita que se atreva a falar de nação, de defesa da Vida ou da Família é um extremista enquanto a esquerda pode defender o que bem lhe apetecer que está a apenas a derrubar tabus e defender o progresso.

terça-feira, 28 de abril de 2015

41 Anos Depois: Já Podemos Seguir Em Frente?




Completaram-se este Sábado 41 anos sobre a revolução do 25 de Abril. Seria de esperar que, passado tanto tempo, já fosse possível falar sobre o assunto com algum distanciamento e frieza. Infelizmente a retórica exacerbada parece continuar a levar a melhor sobre os factos, cavando duas trincheiras ideológica que condicionam o debate político em Portugal. 

De um lado temos aqueles que retratam o Estado Novo como uma brutal ditadura fascista e pintam o 25 de Abril como o supremo momento de liberdade, onde todos se tornaram livres e felizes excepto os fascistas. Esta é a posição habitual da esquerda, que se considera possuidora do monopólio da moral democrática e que pensa, mesmo quando não o diz, que a direita não devia ter direito a celebrar o 25 de Abril.

Do outro lado temos aqueles que consideram que o Estado Novo era constituído apenas por pessoas rectas e moralmente superiores e que a censura e a polícia política apenas corrigiam alguns abusos, o que era um pequeno preço a pagar pela estabilidade.

Para alguém nascido em plena democracia, como é o meu caso, ambas as posições são bastante difíceis de compreender.

É verdade que o 25 de Abril pôs fim a uma ditadura e abriu caminho para a democracia que eu sempre conheci. Mas também é verdade que o processo para lá chega foi muito acidentado. A tentativa da esquerda de “tomar” a Revolução como criatura sua levou a acontecimentos inaceitáveis numa sociedade livre. Houve prisões políticas, saneamentos, nacionalizações injustificadas. Para além disso temos uma Constituição que diz que caminhamos para o socialismo e que teve que ser aprovada pelos militares.

Contudo, nenhum destes factos justifica o Estado Novo. O facto de ter havido abusos nos anos que se seguiram ao 25 de Abril não justifica um estado ditatorial. Tal como nem a honestidade, nem a estabilidade ou sequer a competência justifica que se retire a liberdade às pessoas.

Um Estado que substitua a dignidade de cada ser humana, com todos os seus direitos, pelo bem da Sociedade é um Estado injusto e que deve ser derrubado. Por isso não vale a pena argumentar que a censura portuguesa não se compara à censura comunista, ou de que o Marcelo Caetano não era violento como Estaline. Ser menos ditador do que Hitler ou Fidel Castro não torna ninguém num governante exemplar.

Enquanto não conseguirmos olhar e avaliar quer o Estado Novo quer o 25 de Abril sem palas ideológicas, enquanto fingirmos não reparar nos defeitos de um ou de outro, enquanto continuarmos a sobrevalorizar as qualidades de um ou de outro, não conseguiremos ultrapassar as trincheiras ideológicas.

E isso é um problema, porque esta forma de olhar par história recente portuguesa continua a condicionar a política portuguesa. Em Portugal para se ser democrático uma pessoa no máximo pode ser do centro político. Se não usar o palavreado socialista, garantido sempre o Estado Social e os direitos adquiridos, está-se automaticamente carimbado como “salazarista” ou “fascista”.

Alguém que defende por exemplo a Liberdade de Educação ou um Serviço Nacional de Saúde mais racional não tem qualquer hipótese na política portuguesa. Rapidamente será acusado de trair Abril, ou de querer voltar ao tempo da "outra senhora". O que é estranho se pensarmos que qualquer uma destas propostas teria sido rejeitada pelo Estado Novo por ser demasiado liberal.

Por outro lado, boa parte da Direita despreza a política actual, onde os partidos e o poder são mais importantes que o bem nacional e a maior parte dos governantes são pouco mais do que representantes de grupos de interesse. Por isso ficam na nostalgia, de um tempo antigo (que de facto nunca existiu a não ser na sua imaginação), onde todos os políticos procuravam apenas o bem comum e eram honesto e recusam-se a descer à “chiqueira” partidária.

O resultado é a ausência de um verdadeiro debate político. Hoje os grandes assuntos que distinguem os partidos é serem a favor ou contra a austeridade, a favor ou contra o despesismo. 

Enquanto a esquerda estiver presa na sua moral democrática superior, como herdeira dos capitães de Abril (mas esquecendo-se do COPCON e das prisões sem mandato) e a direita refém da sua altivez de quem está acima da chicana política (esquecendo-se provavelmente como foi feita a sucessão ao Dr. Salazar) a política nacional continuara a ser feita de palavras de ordem e demagogia, sem deixar espaço ao verdadeiro debates de ideias e de políticas.