Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com
Mostrar mensagens com a etiqueta comunicação social. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta comunicação social. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

JMJ: afinal até sai barato!

 



Saiu mais uma notícia sobre os custos da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, desta vez sobre o preço do palco onde irá estar o altar na vigília de encerramento do evento. O artigo, mais escrito com o objectivo de ter cliques do que interesse jornalístico, compara estes custos com os do altar da visita do Papa Bento XVI em 2010.
Claro que a comparação é disparata e desonesta: em 2010 construiu-se um altar para uma única missa que depois foi posteriormente desmontado. Nas Jornadas está a construir-se uma estrutura fixa, um equipamento que poderá ser posteriormente utilizado para mega eventos ao ar-livre.
Infelizmente não é a primeira, nem será a última notícia, sobre o tema escrita de forma pouco informada e sensacionalista. Por isso escrevo uns pontos para esclarecer qualquer pessoa de boa vontade (aos outros os factos são indiferentes):
1. O que vai acontecer em Agosto não é a “visita” do Papa, mas a Jornada Mundial da Juventude. A JMJ é um dos maiores eventos do mundo e incomparável a qualquer outro evento que Lisboa tenha acolhido. Estamos a falar de 1 a 1.5 milhões de jovens que durante uma semana irão estar em Lisboa. Aos jovens, juntam-se milhares de bispos de todo o mundo, padres, jornalistas, etc. Não é por acaso que os hotéis de Lisboa e arredores estão todos esgotados para essa semana há meses. Vamos ter mais de um milhão de pessoas a dormir, a comer, a percorrer, a consumir em Lisboa.
2. Para além dos peregrinos que vão acorrer de todo o mundo a Lisboa, o evento irá ser acompanhado pelos media em todo o mundo. São centenas de milhões de católicos de olhos posto em Lisboa através da televisão, da rádio, das redes sociais, de streaming. Este evento garante que durante uma semana Lisboa é a cidade que todos os católicos do mundo vão ver.
3. Tanto quanto é publico a Jornada Mundial da Juventude terá um custo daté 80 milhões de euros. Uma parte desse custo será suportado pelo Estado, pela Câmara Municipal de Lisboa e ainda pela Câmara de Loures. O que leva a que se pergunte muitas vezes, porque é um Estado laico patrocina um encontro religioso? A resposta é simples, e nada tem a ver com boa vontade.
4. Parte dos custos que o poder púbico irá ter é o normal quando se recebe uma multidão de centenas de milhares de pessoas: reforço do policiamento, reforço dos transportes, reforço das equipas de emergência, etc. Para além disso existe o custo com o local central das Jornadas: o Parque Tejo, onde terrenos baldios e pantanosos ser irão transformar num parque junto ao Tejo, para ser utilizado por todos os cidadãos e equipado para receber mega eventos, como disse acima.
5. Até aqui temos, por um lado investimento naquilo que são as funções do Estado, por outro em equipamentos que vão ser para uso público. Mas claro que o investimento público neste evento supera estas questões. Mas mais uma vez, a razão para ser feito não é para fazer favores à Igreja.
6. O milhão e meio de pessoas que irão estar nessa semana em Lisboa irão gastar dinheiro na dormida (mesmo ficando muito locais cedidos gratuitamente), vão ter que comer e beber, vão gastar dinheiro em recordações, ou sejam, vão consumir em Lisboa e na região durante uma semana. Entre o que é injectado directamente na economia e o que é arrebatado em impostos, é fácil verificar que o investimento feito pelo erário público nas JMJ será recuperado várias vezes. Aliás, segundo o calculo do Governo o evento vai ter um retorno de 350 milhões de euros para Portugal.
7. A somar-se ao é valor que um e milhão e meio de pessoas a consumir trás (os tais 350 milhões de euros), temos ainda o valor publicitário de albergar um evento que será transmitido para todo o mundo. Basta pensar que ao organizar um evento católico a nível mundial estamos a falar de um “mercado” de mil e trezentos milhões de pessoas, espalhados pelos quatro cantos da terra. Imaginemos qual não é o valor publicitário para Lisboa de ser palco de um evento que durante uma semana é transmitido em todos os formatos para um mercado deste tamanho!
8. Por isso podem parar com o disparate de como o Estado laico vai gastar dinheiro para ajudar a viagem do Papa. As Jornadas Mundiais são um evento gigantesco, com repercussão a nível mundial. O que o Estado está a fazer é bastante simples e razoável: investir para que este evento seja um sucesso, de forma a ter o maior retorno possível. Não é um favor, é mesmo aproveitar uma oportunidade única

terça-feira, 7 de maio de 2019

A democracia vive da transparência.




Li nas redes sociais a notícia de que a SIC não convidou o PNR a participar no debate sobre as eleições europeias que promoveu para os candidatos sem assento parlamentar. Segundo li a SIC justificou a ausência de convite com critérios editoriais.

Não sinto qualquer simpatia pelo PNR, é um partido autoritário, racista e xenófobo. A visão do nacionalismo do PNR é anti-histórica, baseada em teorias ditas identitárias, como se ser português tivesse algo que ver com o tom da pele ou pudesse ser reduzido à genética.

Dito isto, não me parece que a SIC ao excluir o PNR do debate preste um bom serviço à democracia. 

Não se defende a democracia silenciando os que não consideramos democráticos. O princípio básico da democracia é a liberdade de pensamento e a liberdade política. Por isso excluir o PNR em nome da democracia obriga a ferir os mais básicos direitos políticos que a democracia garante.

Para além disso é uma decisão absolutamente discricionária. Eu não tenho dúvidas que o PNR é um partido que despreza a democracia. Mas o Partido Comunista, que apoia a Coreia do Norte e o Maduro, também a despreza. E contudo tem largo espaço mediático. O Bloco é constituído por várias facções, algumas das quais também desprezam a “democracia burguesa” e dificilmente se vê um telejornal sem Catarina Martins ou uma das manas Mortágua.

Se querem afastar do debate político os partidos que desprezam a democracia, então porque razão só o fazem com o PNR? Porque não é dado o mesmo tratamento à esquerda anti-democrática? Quem estabelece a linha a partir da qual um partido é de tal maneira anti-democrático que deve ser excluído do debate público?

Este tipo de atitude, longe de fortalecer a democracia, enfraquece-a. Os partidos anti-sistema ganham força de cada vez que o “sistema” os tenta excluir. A sua retórica baseia-se sobretudo no ataque e na ruptura com o sistema para qual parte da população olha com suspeita. João Patrocínio pouco teria a ganhar em participar num debate que será dominado por Paulo Sande e André Ventura. Mas o PNR tem muito em ganhar ao fazer-se de vítima da SIC, que o excluiu apenas porque eles são contra o “sistema”.

Os movimentos populistas aproveitam o descrédito em que têm vindo a cair os sistemas democráticos para florescer. Estes partidos crescem à sombra da podridão dos sistemas democráticos. Os constantes escândalos de corrupção; a pornográfica intimidade entre partidos do poder e as grandes empresas; os jornalistas activistas políticos; a protecção política concedida aos grandes banqueiros; a falência dos serviços públicos; as constantes medidas eleitoralistas para agradar a grupos de pressão; tudo isto fere mais a democracia do que o PNR.

A democracia não se defende com censura, mas com transparência. Não é o PNR que põe em perigo a democracia. Nem são os movimentos populistas (de direita ou de esquerda). A grande ameaça à democracia neste momento são os  líderes e os partidos políticos que vivem fechados no seu mundo, interessados apenas no poder e na distribuição de cargos pelos militantes; são os órgãos de comunicação social movidos por interesses políticos e empresariais próprios e não pelo dever de informação; são os cargos políticos utilizados como trampolim para empregos lucrativos no privado; é a mentira institucionalizada como arma política.

Aqueles que tentam excluir o PNR (e mesmo o Chega) do debate político em nome da democracia, fariam melhor serviço ao país se exigissem antes transparência na vida pública. O populismo necessita da sombra criada por uma vida política opaca para crescer. Acabem com essa sombra e o populismo ruirá.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O extremismo é sempre de direita?




“Extrema-direita entra no parlamento da Andaluzia.” Este é o título em mais ou menos todas as notícias dos jornais portugueses sobre as eleições na Andaluzia. Todos fazem questão em sublinhar que o VOX (que ontem elegeu doze deputados) é de extrema-direita. Estranhamente nenhum deles sente necessidade de referir que o Podemos ou a IU são partidos de extrema-esquerda.

Aparentemente o VOX precisa sempre do adjectivo de extrema-direita, mas o Podemos, que neste momento garante o poder a Pedro Sánchez, o Podemos que em paga pelo dinheiro que recebeu de Maduro continua a apoiar o regime Venezuelano, o Podemos que quer derrubar a cruz do Vale dos Caídos, que quer fragmentar a Espanha, nunca é referido como de extrema-esquerda.

Esta desigualdade de critérios não é de espantar. Lembremos que, nas eleições brasileiras, o presidente eleito era sempre o candidato da extrema-direta, mas Haddad que tinha como vice Manuela D’Ávila, do PCB, nunca era descrito como candidato da extrema-esquerda. Trump, presidente democraticamente eleito é sempre associado à extrema-direita, mas o ditador Maduro nunca é descrito como de extrema-esquerda. Marine Le Pen, Salvini, Órban são sempre populista de extrema-direita, Tsipras, Iglésias, Mélenchon nunca são de extrema-esquerda.

A verdade é que a comunicação social tem sempre muito mais complacência com a extrema-esquerda do que com a extrema-direita. Pensemos por exemplo que Che Guevara e Fidel Castro, dois assassinos sanguinários, são ainda hoje tratados como heróis. Ou para ficarmos por casa, pensemos em Otelo Saraiva de Carvalho, terroristas condenado em tribunal, que todos os anos é homenageado na nossa comunicação social.

Só isso explica que em Portugal o PNR ou o novo partido de André Ventura sejam sempre tratados como perigosos, mas que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunistas estejam no poder. Aparentemente ser contra a imigração é perigoso, mas legislar para que crianças de 16 anos mudem de género é bom. Ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma deriva autoritária, mas defender a nacionalização da economia já não tem problema. Em última instância, ser contra a União Europeia é bom ou mau, dependendo se quem o diz é Catarina Martins ou José Pinto Coelho!

Eu não defendo a extrema-direita. Eu também acho que os jornais têm o dever de denunciar ideias e comportamentos extremistas. Só quero é que o façam independentemente do lado da barricada de onde vêm. 

Aquilo a que assistimos hoje em dia na comunicação social é aterrador: qualquer pessoa de direita que se atreva a falar de nação, de defesa da Vida ou da Família é um extremista enquanto a esquerda pode defender o que bem lhe apetecer que está a apenas a derrubar tabus e defender o progresso.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Professor Gentil Martins e a pequena Comissária Política






Elogiar o Professor Gentil Martins é uma tarefa fácil. A sua vida é tão preenchida, tão extraordinária, que qualquer pequena pesquisa no Google nos permite coleccionar factos suficientes para exemplificar a sua excepcionalidade.

Cirugião pediátrico de excelência, participou em mais de 12 mil intervenções cirúgicas. Foi director de serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital da Estefânia durante 34 anos. Fez 7 operações para separar gémeos siameses. Escreveu artigos científicos e proferiu conferências um pouco por todo o mundo. Foi bastonário da Ordem dos Médicos e presidente da Associação Médica Mundial. Criou a primeira Unidade Multidisciplinar de Oncologia Pediátrica a nível mundial no IPO de Lisboa.

Como se a sua carreira médica não fosse suficiente ajudou a fundar ou apoiou várias organizações de apoio social como a ACREDITAR ou a CAVITOP. Foi atleta de várias modalidades,  chegado a representar Portugal nos Jogos Olímpicos.

Teve e tem uma forte intervenção cívica. Foi uma das vozes mais sonantes contra o aborto, manifestou-se sempre contras as barrigas de aluguer e ainda este ano foi o promotor da carta que os cinco antigos bastonários da Ordem dos Médicos escreveram contra a eutanásia.

Aos 86 anos continua a trabalhar sempre disposto a servir o bem comum. E com toda a humildade. Vale a pena contar uma pequena história: no primeiro Prós e Contras sobre o aborto foram mobilizados apoiantes dos dois lados para ir assistir ao programa. O Professor Gentil Martins foi um dos que foi, tendo-se sentado no meio do público. Só após grande insistência da Fátima Campos Ferreira é que aceitou ir para a primeira fila e falar.

Esta fim-de-semana o Professor Gentil Martins foi entrevistado para o Expresso. No seu registo habitual, de homem habituado a dizer o que pensa sem se preocupar com politiquices, deu a sua opinião sobre a homossexualidade.

Como já é habitual logo se criou um escândalo, com a inevitável Isabel Moreira a clamar pela intervenção da Ordem dos Médicos por o Senhor Professor ter proferido palavras contra a ortodoxia contemporânea. Clamor no qual foi acompanhada pelos seus antigos companheiros de blog (cujo o nome dispenso de publicitar) Miguel Vale de Almeida (o ex-deputado que só o foi até ser aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tendo logo de seguida resignado ao mandato) e Ana Matos Pires (uma das já famosas “duas médicas” que vão apresentar queixa à Ordem). Só faltou de facto a Fernando Câncio, para o ramalhete ficar completo.

A nova Comissária Política das causas fracturantes lida com as divergências ao bom velho estalinista: qualquer desvio da ortodoxia (ditada por ela) é um erro que deve ser eliminado. Isabel Moreira não discute opiniões ou ideias. Ela é a detentora da verdade e quem dela discorda deve ser perseguido. E, infelizmente, existem sempre alguns seres, daqueles cuja a vida se resume ás campanhas virtuais e cujo o sonho é viver no eixo Chiado – Príncipe Real – Campo de Ourique, dispostos a seguir fielmente a querida líder.

E chegado aqui não posso deixar de perguntar: quem é Isabel Moreira e porque razão lhe dão os media tanta tempo de antena? Que obra ou feito tem a senhora deputada no seu currículo para ser a guardiã da ortodoxia?

A última vez que eu reparei Isabel Moreira devia toda a sua carreira a três factos: o nome, o apoio do lobby fracturante e a sua enorme falta de educação. Não fora ser a filha rebelde de Adriano Moreira, defensora ardente de qualquer causa fracturante, capaz de insultar e  ameaçar todo os que discordam de si, quem é que ligaria à senhora? A diferença entre Isabel Moreira e os trolls do facebook, é que a ela o Partido Socialista decidiu dar palco.

E vivemos num tempo tão estúpido, tão dominado pelos pequenos escândalos da redes sociais empolados pelos jornalistas, que um homem que serviu o país toda a sua vida sem nunca ocupar qualquer cargo político pode ser perseguido por uma mulher que só ocupou cargos políticos sempre ao serviço dos lobbies seus amigos. E há quem a aplauda e lhe aprecie a “coragem” (de perseguir um senhor velhinho através dos seus “seguidores”…).

Evidentemente o Professor Gentil Martins não precisa da minha defesa. Sobretudo contra pequenos Comissários Políticos que claramente nasceram demasiado tarde para cumprir a sua verdadeira vocação como bufos da PIDE ou informadores do NKVD. 

Contudo há nesta polémica um facto que é importante sublinhar. É que existe em Portugal uma deputada, apoiada pela direcção de um grande partido e apaparicada pelos meios de comunicação social, que emite uma fatwa contra um dos maiores médicos portugueses vivos porque discorda das suas afirmações. Não discute, não debate, limita-se a proclamar que é dever dos médicos fazer queixa de um colega porque este se atreveu a publicamente afirmar aquilo em que acredita.

Para mim a grande questão é: o Partido Socialista adere à perseguição ideológica da sua deputada? Os restantes partidos políticos ficam em silêncio perante a tentativa de censura por parte de uma deputada? A comunicação social vai continuar a fingir que é normal uma politica incitar à perseguição por parte dos seus seguidores de quem não pensa como ela? Chegámos a um tempo onde ninguém ousa publicamente contrariar o lobby representado pela Isabel Moreira?

Mal estamos quando aquilo que alguém pensa é mais escandaloso do que a tentativa de instaurar uma ditadura de pensamento único.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Eleições Americanas: O Debate.





Publiquei ontem um artigo sobre as eleições americanas sem me lembrar que era o dia do último debate entre Clinton e Trump. Se me tivesse lembrado teria provavelmente esperado mais um dia, aproveitando assim aquilo que seria discutido em Las Vegas.

Não o fiz, mas ao ler hoje os resumos do debate percebo que não teria mudado nada. Confirma-se mais uma vez que estamos diante de dois candidatos muito maus. Deixo aqui apenas três notas sobre o debate de ontem.

1. Trump foi Trump: ordinário, populista, demagogo.

De bom teve a promessa de nomear juízes pró-vida para o Supremo Tribunal e o seu pragmatismo em relação á Síria e ao papel da Rússia na luta contra o Estado Islâmico.

De mau (para além da já proverbial malcriação e ausência de ideias) a sua resposta sobre o que faria em caso de derrota. "Vou ver na altura" não é uma resposta aceitável quando lhe perguntam se vai aceitar os resultados das eleições. A Democracia não é compatível com birras e chantagens.

2. Hillary foi Hillary: a pose de estadista, o discurso "responsável" ao mesmo tempo que apelava a ala radical do seu partido no mesmo tom demagógico do seu antigo concorrente democrata, Bernie Sanders.

De bom, a restrição ao porte de armas e a posição sobre a emigração. Para além disso demonstra melhor preparação que Trump sobre os assuntos.

De mau: a posição sobre o aborto e o lobby LGBT e a posição sobre a Síria. Teve o descaramento de afirmar que a guerra civil continua por culpa da Rússia e de Assad.

Convém relembrar que os Estados Unidos nos últimos cinco anos armaram a oposição Síria, constituída maioritariamente por extremistas islâmicos. Sem a Rússia, Assad teria caído e a Síria estaria agora como a Líbia: entregue a senhores da guerra em continua luta pelo poder, com o único ponto em comum de quererem impor uma ditadura islâmica. Encerrar o espaço aéreo da Síria, permitindo assim a recuperação dos rebeldes não levará à paz, mas ao prolongamento da guerra da Síria. Como Hillary bem sabe. Mas não lhe interessa porque prefere continuar a demonizar a Rússia do que resolver o problema da Síria.

3. Impressionante como ambos os candidatos têm um claro problema de honestidade em relação ao dinheiro. E como ambos se defendem acusando o outro de ser mais trafulha.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Acabemos com os escândalos.



Os jornais de hoje noticiavam, como se de um grande escândalo se tratasse, que António Costa trabalhou como consultor político para o Partido Socialista entre a sua saída do Governo e a sua tomada de posse como Presidente de Câmara.

Confesso que li e reli a notícia à procura de qual seria o escândalo mas não consegui perceber. António Costa não ocupava na altura nenhum cargo público, não recebeu dinheiro do Estado e de facto trabalhou para o Partido Socialista nessa altura.

Este escândalo veio na onda de outro escândalo que ontem chegou a todos os jornais: o presidente da Câmara de Lisboa viveu num apartamento na Avenida da Liberdade, no qual pagava uma renda, aparentemente dentro da média do mercado, mas que tinha sido construído contra o parecer do Núcleo Residente da Estrutura Consultiva do PDM – um serviço da Câmara de Lisboa – e com o parecer positivo do IGESPAR. Tudo isto enquanto ganhava mais de 7 mil euros como comentador da SIC.

Estas descobertas foram feitas através de um blog, que por sua vez as fez consultando a declaração de rendimentos de António Costa que, como dizem os jornais também em tom de escândalo, foi entregue com 46 dias de atraso.

Ora, estes dois escândalos seguiram-se aos escândalos dos processos tributários contra Passos Coelho por não ter pago o seu IRS a tempo. Claro que Passos Coelho pagou o que devia às Finanças, mas fê-lo com atraso.

Já este escândalo foi antecedido pelo escândalo de Passos Coelho não ter pago à Segurança Social os descontos devidos pelo seu trabalho independente entre 1999 e 2004. É verdade que tais descontos nem sempre foram obrigatórios, também é verdade que o Primeiro-Ministro nunca foi notificado pela Segurança Social para proceder aos pagamentos e também é verdade que ele acabou por pagar, mesmo quando a dívida já estava prescrita.

Se continuarmos a andar para trás descobriremos mais casos desse género. O meu preferido continua a ser o da Tecnoforma. Durante uma semana todos os jornais especularam sobre a exclusividade parlamentar de Passos Coelho, com base numa queixa anónimo à Procuradoria-Geral da República. Tudo isto quando a resposta era simples: o Primeiro-Ministro não recebeu dinheiro da Tecnoforma enquanto era deputado.

O que têm estes escândalos todos em comum? Antes de mais o facto de em nenhum deles os media se terem dado ao trabalho de fazer qualquer tipo de investigação. Em todos eles limitaram-se a reproduzir queixas, blogs ou fugas de informação.

Para além disso, em todos estes casos se verificou que não havia motivo nenhum para escândalo. Em nenhum foi cometido qualquer crime ou ilegalidade grave. Nem havia sequer a quebra de qualquer código de ética. Quanto muito os protagonistas tiveram falta de prudência ou alguma negligência. Mas não houve utilização de dinheiros públicos, ou favorecimento do Estado ou sequer abuso de influência.

Então por que razão foram notícia? Porque vende. E a comunicação social vive mais preocupada em vender do que em noticiar. Prefere estes escândalos a ter que fazer notícias sobre política, ou sobre os grandes acontecimentos do país ou do resto do mundo.

A juntar a este problema temos ainda as redes sociais. A internet permite acesso instantâneo a todo o tipo de informação, sem qualquer meio de garantir a sua veracidade. O facto de que, para se ser especialista em qualquer assunto, bastar o Google, faz com que ninguém perca tempo a estudar o que quer que seja. 

E assim se reduz o debate público e político a um conjunto de fait divers. Já não interessam ideias ou projectos, apenas slogans que possam ser instantaneamente comunicados e que entusiasmem ou indignem as massas.

A consequência é que a razão foi totalmente afastada da política. Só interessa a emoção. Por isso qualquer projecto político ou obedece a ditadura do chavão, ou está condenado à partida. O mais fácil é mesmo dizer o mínimo de palavras possíveis e as mais neutras possíveis.

Assim se explica que a política portuguesa seja dominada por pessoas medíocres, sem qualquer ideia ou ideal. De facto não precisam de nenhum dos dois para terem sucesso. Só precisam de ser capazes de lidar bem com a comunicação social e de se lembrarem das frases certas: austeridade, crise, direitos essenciais, consciência social, solidariedade europeia…

É preciso romper esta ditadura do politicamente correcto. Mas para isso não basta políticos capazes de liderar, de pensar, de arriscar. É preciso também que nós os apoiemos. Construir a polis não é apenas responsabilidade dos políticos, mas de todos os que nela vivem. Por isso temos também nós a responsabilidade de não nos deixarmos enredar nesta cultura do escândalo, das causas massificadas e termos um juízo claro sobre a realidade que nos rodeia. 

A ausência de debate público combate-se construído esse debate. Se cada um de nós, em vez de embarcar em discussões estéreis sobre a Segurança Social de Passos Coelho ou a casa de António Costa, arriscar num juízo claro, numa proposta clara, sobre a vida é possível melhorar o nível do debate público.

Comecemos então nós a fazer este trabalho. Em nossa casa, no nosso trabalho, com os nossos amigos, nas nossas comunidades. Procuremos não o confronto, mas sim o debate que nos permite discernir qual o melhor caminho a seguir. E assim é possível construir algo novo.

(Por motivos vários não me foi possível publicar na semana passada. Tentarei continuar a manter a peridiocidade semanal do blog)