Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com
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quinta-feira, 22 de maio de 2025

Adolescência, violência sexual e a falta do pais

  


  1. Nos últimos tempos as notícias sobre o aumento da violência, sobretudo a violência sexual, entre menores têm aumentado. Se não bastasse o sucesso da série Adolescência, a notícia da violação de uma menor por três influencers, assim como a notícia de que o número de abusos sexuais entre menores tem aumentado, trouxe o assunto para a ribalta.


Rapidamente vemos repetir os mesmos chavões: o machismo tóxico, o movimento incel, a extrema-direita, as redes sociais, etc. Eu confesso que a mim o que mais me choca é a incapacidade de compreender que estes fenómenos, que sem dúvida produzem violência sexual, não são a causa, mas sim a consequência de uma mentalidade dominante.

Vivemos num tempo dominado pelo individualismo. Estamos rodeados de mantras como “se não cuidares de ti, quem cuidará?”, “és responsável pela tua felicidade”, “não deixes que nada se interponha entre ti e os teus sonhos”. Todas as semanas somos brindados com reportagens que explicam a carga que significa ter filhos, ou cuidar dos pais envelhecidos, ou de companheiros doentes. As crianças são educadas a acreditar que são especiais, que merecem ser tratadas como tal e que o mundo tem o dever de se adaptar a elas.

Desta cultura não escapa, pelo contrário, a sexualidade. A cultura actual ensina que a sexualidade existe, antes de mais, para satisfação própria. Por isso é bom ver mulheres a prostituírem-se em frente a câmaras, é bom pagar para ter sexo, todas as fantasias são incentivadas (incluindo o maltrato a mulheres como forma de ter prazer, que dá direito a best-seller e a sucesso de bilheteira). No nosso tempo a satisfação dos desejos sexuais é uma prioridade e o sexo um direito.

Ora, é evidente que, se educamos assim as crianças, não nos podemos espantar que elas não se detenham diante de pormenores como a vontade do outro. Num mundo onde a objectivação das mulheres (na pornografia, na prostituição, nas redes sociais) é banalizada, por que razão nos espantamos quando os adolescentes e os jovens tratam as mulheres como objectos? Se consideramos normal ver vídeos de mulheres pagas para satisfazer tarados que fantasiam com violações, por que nos espantamos que miúdos de 13, 14, 15 anos não distingam quanto é real e quando é apenas ficção?

Mas pior do que isto, quando a sociedade diz que mulheres que oferecerem a sua intimidade a homens perversos que lhes podem pagar é empoderamento, e outras tretas destas, quando constantemente se reduz as mulheres a pedaços de carne para exibir, nas revistas, nos sites, nos filmes, nas telenovelas, o que estamos a dizer às menores que estão a ver? Que é bom e normal, e até dá direito a ser famosa, vender a sua intimidade.

Educar assim as crianças e depois ficar espantado que os abusos sexuais aumentem demonstra uma total incapacidade de compreender que os actos têm consequências. Como eu dizia, a masculinidade tóxica, a cultura incel, são apenas duas das várias consequências de uma cultura onde prima o individualismo e onde os caprichos são tratados como direitos. Mas a causa é a mentalidade dominante, individualista e egoísta.

  1. O artigo podia ficar por aqui. Mas existe outro ponto, referido em abundância, que não consigo deixar de notar. Falo da relação dos jovens com a internet em geral, e com as redes sociais em particular.

Nas últimas semanas ouvimos vezes sem conta falar da necessidade de regular a internet, as redes sociais, de proibir os telemóveis nas escolas. Mas há um ponto essencial, que me parece totalmente ausente do debate: por que razão um pai que abandonasse uma criança no meio de uma rua cheia de casas de alterne, violência e teóricos da conspiração perderia a guarda do filho, mas achamos normal que um pai dê um smartphone a uma criança? A comparação pode parecer um exagero, mas a verdade é que hoje através destes aparelhos as crianças estão expostas a um mundo que não compreendem, com fácil acesso a todo o tipo de informação, contactáveis por qualquer pessoa, com pouco ou nenhuma supervisão.

Evidentemente que os pais podem dizer que controlam o que os filhos vão vendo, mas é preciso ser muito ingénuo para acreditar que é possível controlar completamente o que um miúdo de 12 anos faz no seu telefone. O problema maior dos telemóveis não é o mal que as telas fazem (que também fazem), mas o facto de exporem os miúdos a um mundo para o qual não estão preparados.
Qual é a solução? Proibir o acesso dos miúdos a tecnologia? Impedi-los de ter acesso a uma ferramenta como a internet, essencial para o seu futuro? Desligá-los do mundo? Claro que não, por muito que, olhando para o mundo, possa parecer tentador!

Como dizia monsenhor Giussani, “educar é introduzir à realidade na totalidade dos seus factores”. É preciso acompanhar as crianças e adolescentes na introdução à internet, dar-lhes critérios, explicar-lhes os riscos, mostrar as potencialidades, e aguardar que tenham maturidade. É evidente que largar um rapaz a entrar na puberdade, com as hormonas em ebulição, mas ainda sem maturidade, numa realidade onde todas as perversidades estão ao alcance de uma pesquisa no Google, e onde são livres de as partilhar com os amigos (e com desconhecidos), é uma péssima ideia. É preciso acompanhá-los nessa aventura.

E isso depende, sobretudo, dos pais. Claro que a escola tem um papel importante na educação das crianças, mas de nada vale a escola controlar o uso dos telefones pelos miúdos, se, ao dar um passo para fora da escola, esse controlo desaparece. A resposta, por isso, a este flagelo não é responsabilizar as escolas, ou sequer as redes sociais, mas os pais, que têm de ser os protagonistas da educação dos filhos.

É duro ser o pai que nega aos filhos aquilo que os amigos todos têm. A pressão dos pares é uma coisa tramada, e contrariá-la dá muito trabalho. Mas é uma missão da qual os pais não se podem desmarcar. A liberdade dos miúdos é uma coisa tremenda, e é evidente que não podemos controlar. Mas temos o dever de os acompanhar enquanto crescem, para ter a certeza de que têm as ferramentas necessárias para enfrentar o mundo.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Os bem mais preciosos não se procuram, esperam-se




Quando soube que ia sair um novo filme da Disney confesso que não fiquei especialmente entusiasmado. Não que os últimos filmes da Disney sejam maus, mas já há algum tempo que nenhum me enche as medidas. E a história de uma família com poderes que morava numa casa mágica não prometia. De tal maneira que a primeira vez que o comecei a ver com a minha mulher desistimos ao fim de pouco tempo.

Mas depois chegou a noite de cinema com as crianças e ele insistiram que queriam ver o Encanto (o peer pressure não perdoa) e, a contragosto, lá vi o filme com eles. E a verdade é que valeu a pena.

Há muitas boa razões para ver Encanto: as músicas são divertidas, tem boas piadas e uma história interessante. A história é de facto sobre uma família com poderes que vive numa casa mágica, mas é muito mais do que isso.

Encanto conta a história da família Madrigal, que depois do sacrifico do avô Pedro, recebeu um milagre, assinalado por uma vela que nunca se apaga.  Por causa do milagre cada membro da família recebeu um dom, excepto a protagonista do filme, Mirabel.

A família é governada pela austera avó Madrigal, que tem como missão proteger o milagre que dá vida, não só à sua família, mas a toda a comunidade que a rodeia. Mas será a necessidade de proteger o milagre que levará a família Madrigal a zangar-se. A incompreensão da avó para com Mirabel, o desespero de Mirabel pela responsabilidade de salvar o milagre, o Bruno (do qual não falamos), tudo isto leva a uma terrível zanga que acaba com a destruição da casita e ao apagar da vela.

Então acontece a cena mais bonita do filme, quando a avó conta a Mirabel a sua história de amor com o avô Pedro, e de como no momento de maior desespero, quando Pedro é morto a proteger a mulher e os filhos recém nascidos, lhe foi dado um milagre. E este é talvez o que eu mais gosto do filme: a consciência de que o milagre é algo que não nasce do esforço, nem pode ser salvo pelos dons, mas algo que foi concedido gratuitamente.

Há muito mais coisas para dizer sobre este filme. Aposto que há imensos detalhes técnicos que me escaparam, pormenores em que não reparei, e várias lições que não aprendi. De facto a minha vocação não é ser critico de cinema.

A mim comoveu-me esta consciência do milagre que é dado gratuitamente. Sobretudo porque me ajudou a compreender uma frase que me tem acompanhado desde Setembro, que é a frase do ano da escola dos meus filhos: os bens mais precisos da vida não se procuram, esperam-se. Este filme ajudou-me a compreende-la. De facto os bens mais preciosos, não nascem do nosso trabalho ou do nosso esforço, mas são nos oferecido, gratuitamente, como o milagre da família Madrigal. Por isso a posição razoável é daquele que espera.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Boys will be boys!




Calhou-me em sorte só ter (até agora) filhos rapazes. Nascidos neste tempo tão esclarecido, infelizmente teimam em não perceber que o género é uma mera construção social, e insistem em praticar os mais arcaicos estereótipos de género. Aliás, já por mais de uma vez apanhei o mais velho a recusar ver certos programas televisivos por, segundo esta criança preconceituosa, serem para “meninas!”.

O facto dos meus filhos insistirem em ser rapazes, com todos os estereótipos associados, traz os seus desafios. Bem aventurado o inventor da box das televisões e do youtube que me permite resolver com facilidade o preconceito dos miúdos contra os tais desenhos de “meninas”. A escolha não abunda, mas entre Patrulha Pata e Dartacão a coisa vai-se resolvendo.

Quanto a histórias, não são muitos estranhos. Gostam dos clássicos sem dúvida, embora prefiram quando eu invento histórias de cavaleiros onde eles participam. Por outro lado, também nas histórias demonstram não ter absorvido bem os ensinamentos do seu tempo: insistem em caçar o lobo e na morte do dragão, numa gritante manifestação de espécismo. Aparentemente as campanhas do PAN, o episódio da Patrulha Pata onde o dragão é bom e só ataca pessoas porque está magoado assim como o episódio do Super Wings onde um pobre tubarão persegue os heróis só porque tem uma lata nos dentes, não foram suficiente para as crianças perceberem a importância de tratar com igualdade todas as espécies. Pode ser que um dia prefiram perseguir o caçador, mas por enquanto mantêm-se obstinados com noções arcaicas do herói contra o animal feroz.

O mais complicado desde machismo dos meus filhos são mesmo os brinquedos. Felizmente eles são bastante dados à imaginação. Passam a vida a inventar brincadeiras, com cavaleiros, vilões, dragões, etc. Nestas brincadeiras, cruzam-se heróis da Marvel, cães da Patrulha Pata, cavaleiros, personagens da Disney, vilões, pistolas, espadas e lanças. A mãe é quase sempre a princesa e a missão passa normalmente por salvá-la de uma qualquer ameaça (eu por norma sou um aliado, embora aqui e ali já tenho servido de lobo mau).

O problema é que se a imaginação abunda, cada vez é mais difícil encontrar brinquedos para estas brincadeiras. Espadas, escudos, pistolas, castelos: pouco ou nada. Em qualquer supermercado ou loja de brinquedo é possível encontrar com facilidade cozinhas, vestidos de princesa, bonecas, e uma profusão de personagens de desenhos animados. Encontra brinquedos para rapazes (se é que hoje em dia se pode dizer isto) é cada vez mais complicado.

Bem sei que hoje é suposto nós ensinarmos às crianças que não há brinquedos para rapazes, o problema é que, por muito que a sociedade insista, as crianças parecem resistir à modernidade. Apesar dos desenhos animados onde todos são bons, apesar dos brinquedos cada vez mais unisexo, apesar das histórias cada vez mais apatetadas, os meus filhos gostam mesmo é de brincar aos cavaleiros, derrotar os maus e salvar a princesa.

Como todos sabemos as teorias são muito bonitas, mas os filhos são o que são. E no caso dos meus parecem ser impermeáveis ao João Costa, às senhoras das Capazes ou aos grande educadores da ILGA. Não posso por isso deixar de perguntar a quem vende brinquedos, se não querem reconsiderar esta política de brinquedos cada vez mais gender neutral. É que ceder a lobbys tem muita graça, mas no fim quem pede os brinquedos são as crianças!