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domingo, 19 de outubro de 2025

Regressemos às origens da Europa

 




1. A islamização da Europa é, sem dúvida, uma ameaça. Hoje, vários países da Europa sentem já os perigos da islamização: bairros inteiros onde a autoridade do Estado não entra, onde reina a Sharia, ou seja, onde os direitos das mulheres não existem, nem as mais básicas liberdades.

É evidente que o Islão tem variadíssimas correntes, algumas das quais vivem em paz com a sociedade ocidental. Mas não é menos verdade de que há uma grande corrente do Islão que tem uma visão da sociedade, onde a lei civil está submetida à lei religiosa. E também não são poucos os que consideram a civilização ocidental como um inimigo, e que defendem o uso da violência para submeter os infiéis.

A Europa tem muita culpa neste crescendo da islamização. Não apenas pela evidentemente desastrosa política de portas abertas na imigração, mas também porque durante décadas, no seu desejo suicida de se livrar do cristianismo, escolheu o islamismo como aliado. Pensemos em coisas tão simples como a necessidade de assinalar publicamente qualquer festejo islâmico, enquanto se ignoram as festividades cristãs.

Em Portugal não temos o mesmo problema que o resto da Europa. Durante décadas a nossa comunidade islâmica era constituída maioritariamente por moçambicanos e guineenses. Ao contrário do que acontece, por exemplo, em França, por cá a nossa comunidade esteve sempre cultural e socialmente integrada.

Nos últimos anos, devido à política de portas abertas da imigração, esta realidade começou a mudar. Entraram em Portugal milhares de imigrantes muçulmanos de países que não têm qualquer relação connosco, e com uma visão muito mais extremista do Islão, que nada tem a ver com a comunidade islâmica que até então havia em Portugal.

É verdade que ainda não vivemos os mesmos problemas que vemos no resto da Europa, mas seria loucura ignorar os riscos que esta nova vaga de imigração coloca. Seria seguir o caminho da Alemanha, de França, da Bélgica, de Espanha e de vários outros países europeus.

2. Se é verdade que a islamização é um risco para a Europa, não é o único, nem sequer o mais grave. Porque a islamização não é a causa da decadência da nossa civilização, mas apenas uma das suas consequências.

O suicídio da Europa é fruto da negação do cristianismo, que é a sua origem. A Europa não é, geograficamente falando, um continente, mas apenas uma continuação da Ásia. O que separa a Europa da Ásia não são os Urais, nem o Bósforo, mas o cristianismo.

Foi o cristianismo que criou a cultura que uniu a Europa. O personalismo cristão está na origem dos Direitos Humanos, a Fé num Deus razoável está na origem da revolução científica.

Desde a Revolução Francesa, a Europa vive em guerra consigo mesma, procurando apagar qualquer traço da presença cristã. Este impulso já teve várias correntes, algumas vezes conflitantes entre si: liberalismo, marxismo, republicanismo laicista, nazismo, etc. Hoje revela-se, sobretudo, naquilo a que chamamos o wokismo.

O maior perigo que hoje enfrentamos na Europa é o ataque à liberdade que esta cultura procura impor. Esta mentalidade laicista, na sua actual versão, procura declarar que a sua ideologia é a Verdade, e que por isso qualquer tentativa de a negar é uma heresia.

Assistimos por toda a Europa a ataques constantes à Liberdade da Igreja, à liberdade de religião, de pensamento, de educação. Hoje, em boa parte da Europa, afirmar que um homem vestido de mulher é um homem, ou que a vida começa na concepção, ou até mesmo que nem todas as culturas são igualmente válidas, é visto como extremista, e, portanto, tendencialmente ilegal.

3. Quem criou o problema, não pode ser a solução. Por esse motivo é que, mesmo conhecendo os perigos do islamismo, recuso a utilização dos métodos do laicismo para enfrentar o problema.

A solução para a islamização da Europa não estará seguramente em dar ao Estado poder para declarar o que cada um pode vestir. Porque o Estado que declara que o uso da burca é uma submissão degradante da mulher à religião, é o mesmo que afirma que tem poder para decidir o que é um Homem e o que é uma Mulher.

Nós temos pouca memória, mas convinha lembrar que os mesmos ataques que foram ouvidos na Assembleia da República por causa da burca, são os que foram usados pelos políticos liberais para perseguir as congregações religiosas no século XIX.

Dirão que não há comparação entre o uso do hábito religioso e a burca, e eu concordo em absoluto. O problema é que o mesmo poder com que agora tantos cristãos se alinham para combater o extremismo islâmico, não concorda. E eu não estou disposto a entregar a Liberdade da Igreja ao bom senso desse poder. Seria saltar da frigideira para o fogo.

Significa isto que não devemos fazer nada quanto à ameaça do extremismo islâmico? Claro que não, há muitas coisas que podemos e devemos fazer. Restringir a imigração, fiscalizar mesquitas e madraças suspeitas de incentivar ao extremismo islâmico, expulsão dos estrangeiros que defendam o uso da violência contra os infiéis, proibir o financiamento de países conhecidos por apoiar o extremismo e o terrorismo islâmico, entre várias outras medidas.

Mas aquilo que não devemos, nem podemos fazer, é combater o extremismo islâmico usando a mesma mentalidade daqueles que hoje, por toda a Europa e no Ocidente em geral, procuram impor uma ditadura do pensamento único. Não estou disposto a sacrificar a minha liberdade de viver a Fé para combater este fenómeno.

4. Então qual é a solução? Como afirmei, na raiz do problema está a descristianização da Europa, pelo que a resposta é bastante evidente. O extremismo islâmico na Europa cresce no vazio cultural e espiritual em que vivemos.

O drama maior é que a Europa não tem nada a propor hoje que seja mais atraente que o fanatismo religioso. O que sobra hoje da cultura europeia? O consumismo, o hedonismo, o egoísmo e meia dúzia de frases feitas. Não é só o Islão que está mais extremista, é também a política. Os jovens procuram hoje desesperadamente algo que dê sentido à vida, para além do vazio da cultura moderna.

E a única resposta, a única resposta verdadeiramente Justa, verdadeiramente Bela, é Cristo.

Nos últimos dias, tenho visto um pouco por todo o lado a lista de países europeus que proibiram o uso da burca. E não posso deixar de me perguntar: e funcionou? Em algum desses países se travou a ascensão do islamismo radical? A resposta é bastante evidente: não.

Por isso, opor-me a leis tontas não significa não considerar a islamização da Europa uma ameaça. Significa simplesmente que não acredito que leis injustas e ineficazes resolvam o problema. Recuso-me a fazer o papel de idiota útil, que enche os pulmões contra o perigo islâmico, contra a cultura woke, e que depois abre caminho para outro qualquer tipo de opressão, que deseja, cheia de boa vontade, impor a sua visão do mundo a todos.

A única solução para a islamização da Europa, assim como para a cultura woke, é a recristianização. Isso não se faz através de projectos políticos e de poder, que no fundo acabam sempre vítimas da mesma mentalidade ideológica em que vivemos desde a queda da Bastilha.

O ponto fundamental para a recristianização da Europa é testemunhar Cristo vivo. Fazê-lo na sua vida pessoal, na sua vida social, na sua vida política. Não como projecto político, mas como desejo missionário. Foi assim há 1600 anos, quando Roma caiu, e um pequeno punhado de monges reconstruiu a Europa. Só poderá ser assim hoje, quando o novo império rui diante dos nossos olhos.

sábado, 27 de julho de 2024

JO: Um culto a uma nova religião



1. A Liberdade de Religião é um Direito Fundamental e não é apenas um direito passivo, a rezar em paz. É também o Direito a que a sua Fé seja respeitada, que aquilo que se tem como mais querido não seja parodiado para deleite de quem odeia a Fé alheia.
Eu não peço que todos compreendam a sacralidade da Última Ceia. Aquele momento único na História onde, pela bênção do pão e do vinho, Deus se ofereceu carnalmente aos homens. Mas tenho direito a que respeitem esse momento.
A Liberdade de Expressão tem limites e o ataque à minha liberdade de praticar a minha Fé sem ser alvo de escárnio é um desses limites.
2. O historiador inglês Tom Holland, no seu podcast The Rest is History, definia as guerras culturais como disputa teológicas onde um dos lados não reconhece como tal.
Ontem em Paria ficou evidente que a cultura woke é de facto religiosa. É um culto que se quer impor por oposição ao cristianismo. Ao culto da beleza como sinal de Deus, impõe o culto da fealdade. Ao culto da natureza humana como criatura de Deus, impõe o culto do homem criado à sua própria imagem e semelhança. Ao culto pela sacralidade da vida humana, impõe o festejo pelos “santos” da cultura da morte.
Quando olhamos para o caos que reina na Europa, sobretudo em França, temos tendência a falar de uma guerra de culturas entre a Europa e o Islão. Mas é falso, a guerra é uma guerra civil: a Europa entrou em luta consigo mesma, procurando substituir a sua herança cristã por uma outra fé, baseada no ódio ao cristianismo.
É nas ruínas desta guerra que o extremismo islâmico e o populismo vão crescendo. Perante esta nova religião que adora o feio e o grotesco, florescem propostas que, ainda que de forma deturpada, parecem propor algum ideal mais de acordo ao coração humano.
3. A paródia da Última Ceia ontem realizada em Paris é ofensiva, mas é sobretudo preocupante. Não para os cristãos (“Bem Aventurados sereis quando vos injuriarem, será grande no Céu a vossa recompensa”) mas para a Europa. O nosso continente parece um jovem que saído da casa dos pais se preocupa em desperdiçar e destruir toda a sua herança para provar que é agora é senhor de si mesmo. Pelo caminho outros vão ficando com o que era seu, até que este acabe na miséria. Foi isso que o mundo ontem aplaudiu entusiasticamente em Paris

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Em defesa da Europa Cristã

 


Ontem um homem sírio atacou crianças com uma faca num parque infantil em França. Um acto tão cobarde e monstruoso como este não pode deixar de revoltar qualquer um. Atacar crianças é a maior perfídia que consigo imaginar.

Este ataque voltou a levantar a questão da migração em massa de África e do Próximo Oriente para a Europa. Em Portugal o Chega já fez questão de alertar para o perigo que todas as crianças correm em todos os parques infantis por causa da imigração em massa.

Eu também concordo que a política de imigração da União Europeia é má. Má não apenas para os países europeus, mas também injusta para os imigrantes, que acabam na maioria das vezes abandonados e explorados nos países que os recebem. E também acho que há uma falta de clareza na diferença entre migrantes e refugiados. Pior, a União Europeia aposta numa falsa política de portas abertas, que ajuda a alimentar redes de tráfico e máfias, sem ter capacidade de dar respostas às pobres almas que procuram refúgio na Europa. E o resultado está à vista no cemitério em que se transformou o Mediterrâneo e no inferno em que Lesbos se tornou.

Por isso, se a política da extrema-esquerda, das falsas portas abertas, que só conduzem à miséria e à revolta dos migrantes, é uma ilusão, a resposta da extrema-direita, de tornar a Europa numa fortaleza fechada, também não me satisfaz. Porque em nome de uma falsa segurança das crianças europeias, estão dispostos a deixar morrer crianças não europeias no fundo do mar, ou às mãos de senhores da guerra, ou exploradas por uma qualquer máfia. A preocupação da extrema-direita não é com as crianças, nem com as mulheres, nem com os homens. A preocupação da extrema-direita é apenas com as pessoas da cor certa.

E pelo crime de um, querem fazer pagar milhões. Porque não exigem de facto uma resposta ao drama que hoje se vive nas rotas do Mediterrâneo, um negócio alimentado por máfias e senhores da guerra, à custa de milhões de inocente. Não pedem um combate eficaz ao tráfico humano, políticas de apoio ao desenvolvimento dos países de origem, campos de refugiados em condições, políticas eficazes de emigração. Só querem culpar um inimigo externo, demonizá-lo, e unir as massas à sua volta. Ou seja, querem força eleitoral, à custa de uma multidão de pobres e explorados.

Recuso que o preço da minha segurança seja a morte de milhares de crianças, só porque nasceram no continente errado. Sim, a Europa tem que encontra respostas a esta crise, mas não à custa de inocentes cujo único crime foi nascer no país errado.

Parte da extrema-direita vocifera contra os migrantes e refugiados em nome dos valores cristãos. Ignorando que se o primeiro mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas, o segundo é em tudo igual a este: amar o próximo como a ti mesmo.

Uma Europa fechada sobre si mesmo, afogando-se na riqueza criada pela exploração do resto do mundo, uma Europa que ignora o grito de desespero vindo de África e do Próximo Oriente, será muitas coisas. Será herdeira de Roma e de Atenas. Será herdeira do Alemanha pura e da União das Repúblicas Soviéticas. Aquilo que não é seguramente, é cristã.

Dou graças a Deus por nascido na segurança e na abundância da Europa. E ainda mais agradecido por ter nascido numa sociedade herdeira do cristianismo. Sei bem que isso comporta riscos, mesmo assim incomparáveis a atravessar o Mediterrâneo num bote de plástico. E não estou disposto a abdicar desta herança por uma falsa sensação de segurança.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O Islão e a lenta agonia da Europa



A Europa tem um problema com o Islão. O terrorismo que ciclicamente assola o continente é apenas a face visível desse problema. Há um problema mais profundo, que muitos teimam em ignorar: em muitas cidades o crescimento das comunidades islâmicas levou à criação de enclaves onde o Estado não entra e as leis são ditadas pela comunidade. Estes enclaves são viveiros para o extremismos islâmico.

A continua tentativa de, em nome da tolerância, ignorar este problema têm tido consequências desastrosas. É evidente que existem milhões de muçulmanos na Europa que vivem integrados. Aliás, Portugal é um bom exemplo disso. Mas esse facto não nos pode levar a fechar os olhos para o crescimento de comunidades que procuram impor a toda a sociedade, pela força se preciso, a sua visão religiosa.

Insistir na ideia de que não há um problema islâmico é maus para todos, incluindo para os tais milhões de muçulmanos que só querem viver em paz e que em nome do politicamente correcto acabarão sujeitos aos extremistas de que não gostam e de quem muitos fugiram.

Este problema precisa de uma resposta política forte e determinada. É preciso não ter medo de impor a lei. É preciso combater os radicais, sem vergonha e sem pedir desculpa. É preciso assumir que a política migratória está a falhar. Sobretudo, é preciso de uma vez por todas enfrentar o problema dos migrantes: a política de pescar os que se pode no Mediterrâneo, chorar lágrimas de crocodilo pelos que lá morrem, e depois ir despejando os sobreviventes por essa Europa fora, não funciona. A Europa tem que combater as redes de tráfico, tem que resolver o problema da Líbia de uma vez por toda, e criar politicas internacionais que permitam aos migrantes não ter que abandonar os seus países. A falsa misericórdia de acolher sem critério qualquer pessoa que consiga atravessar o Mediterrâneo só traz mais mortes, mais miséria e em última instância, mais extremismo. O bonismo de chorar as mortes no Mediterrâneo ao mesmo tempo que nada se faz para resolver o problema, pode satisfazer a consciência ocidental, mas não evita os cadáveres no fundo do mar.

Contudo, podemos tomar todas as medidas necessárias contra a imposição de um islamismo radical na Europa. Podemos fechar as fronteiras, encerrar as mesquitas radicais, perseguir até ao fim todos os imãs extremistas e prender todos os terroristas, que nada disso impediria a decadência da Europa. O extremismo islâmico veio apenas preencher um vazio que existe no continente. O Islão não é o problema, será quanto muito um sintoma da decadência europeia.

A Europa não é verdadeiramente um continente, é apenas o nariz da Ásia. Os Urais não são uma fronteira geográfica, são uma fronteira cultural. O que une a Escandinávia ao estreito de Messina, Moscovo ao cabo de São Vicente é o cristianismo. A Europa é o cristianismo ou é nada. Evidentemente que a cultura europeia teve muitas outras influências: Grécia, Roma, os bárbaros e até o Islão. Mas todas essas influências foram incorporadas pelo cristianismo, e foi pelo cristianismo que se tornaram comuns a toda a Europa. 

Ao abandonar o cristianismo a Europa abandonou-se a si mesma. Renegou a sua história e a sua cultura. Sem o cristianismo não há Europa, há apenas um conjunto de países com pouco mais em comum que a proximidade geográfica.

Não vale a pena falar da cultura europeia, proclamar a defesa da herança europeia, se depois ninguém está disposto a reclamar a herança.

Não se trata de discursos vagos sobre valores. O cristianismo não é um conjunto de valores, que se podem colocar num museu. Não vale a pena falar de Igrejas derrubadas e de Mesquitas construidas, se depois as Igrejas continuam vazias.

O cristianismo não é uma arma de arremesso político. É uma Fé. E se não há Fé, então não há valores que valham. Os valores cristãos sem a Fé, são como uma árvore bela e imponente, mas cujas as raízes secaram. Está condenada a cair, apesar de toda a imponência.

Como dizia ao principio, é sem dúvida importante resolver o problema político do Islão na Europa. Mas a Europa tem um problema mais grave, que é um problema cultural. E esse problema não tem qualquer relação com o Islão. O problema não é os muçulmanos terem muitos filho e educarem-nos na sua religião. O problema é os cristão terem desistido de o fazer.

Por isso problema essencial da Europa não é resolver a questão politica. É mesmo um problema cultural: sem cristãos não há Europa. Por isso quem realmente ama a Europa, a sua história e a sua cultura, só tem um caminho: o cristianismo. Sem Cristo, podemos resolver todos os problemas políticos que quisermos que estaremos apenas a prolongar a lenta, mas inexorável, agonia da Europa.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A nova guerra das trincheiras


O que mais me impressiona na sociedade contemporânea é ver como a mentalidade de trincheira vive cada vez mais profundamente enraizada. Ou seja, a mentalidade de que estamos numa guerra, dentro das trincheiras estão os bons, lá fora os maus. E tudo aquilo que o que estão supostamente do nosso lado da trincheira fazem é bom, justificável, ou em último caso aceitável porque estamos em guerra e tudo o que os de fora fazem é mau.

Cada vez mais na discussão pública os factos em si mesmo parecem importar pouco para o juízo que se faz deles. Mais importante que os factos é quem os pratica. E isto não se aplica apenas a um “grupo” ou a um “lado”. É cada vez mais geral.

Exemplos não faltam. Basta ver como as mesmas pessoas que apoiaram com toda a força tudo o que foi feito pelos coletes amarelos em França, agora condenam veemente o que se está a passar nos Estados Unidos. Por outro lado, aqueles que durante meses descreveram os coletes amarelos como fascistas, agora recorrem a todo o tipo de contorcionismo para explicar que o vandalismo, os roubos e a violência nas ruas americanas são simples protestos. Ou ver como aqueles que condenam o governo Espanhol pela sua irresponsabilidade no 8 de Março tentam justificar todas as acções de Bolsonaro. Ou como os que acusam Bolsonaro de tentar interferir na justiça, ignoram o facto do governo Espanhol ter demitido o responsável da Guarda Civil que estava a investigar a responsabilidade do dito governo no 8 de Março.

Dentro desta mentalidade o máximo que alguém está disposto a admitir é que o “seu” fez um erro, mas logo justifica com um suposto erro de alguém do outro lado: o Trump fez aquilo mas o Obama fez aqueloutro, o Sanchez fez assim mas o Abascal fez assado. Chegamos ao cúmulo de ser impossível falar de regimes totalitários sem ter que condenar todos, para não ser acusado de estar a apoiar um lado da barricada: é verdade o Hitler matou judeus, mas o Estaline matou ucranianos, o Castro fuzilou os adversários, mas o Pinochet também!

Esta mentalidade de trincheira é absolutamente destrutiva. Destrutiva porque acaba por subjugar a realidade à ideologia. Aquilo que era um meio para um fim (uma doutrina para alcançar o bem comum) torna-se num fim em si mesmo. E a imposição dessa ideologia tudo justifica, até a violação dessa doutrina. E destrutiva porque desumaniza o outro, torna-o num inimigo. A mentalidade de trincheira não contempla que aquele que discorda de mim também procura o bem comum, simplesmente acha que o caminho é outro. A partir do momento em que a ideologia é tudo o que interessa então quem não está connosco é do mal!

E assim temos a política reduzida a trincheiras que vão despejando todas o armamentos que possuem sobre o adversário. O resultado? Terra queimada, destruída, vazia. A impossibilidade de construir o quer que seja, até o inimigo estar completamente derrotada e destroçado.

Mas a história ensina-nos qual o preço a pagar por essa vitória total contra o inimigo da trincheira adversária. A Europa e os Estados Unidos ensinaram essa lição ao mundo, a um elevado preço, no fim da Iª Grande Guerra, quando os aliados destruíram o Império Austríaco e a Alemanha, humilhando assim os seus adversários e impondo-lhes a sua vontade. Da humilhação germânica nasceu o nacional-socialismo e uma nova destruição da Europa. E nos escombros da Rússia Imperial nasceu um monstro que havia de assolar a Europa e o mundo o resto do século.

E como foi possível reconstruir um continente, ou a parte dele que ainda era livre, após duas guerras devastadoras, uma crise económica sem precedentes e uma pandemia devastadora? Quando dois países que tinham lutado mortalmente poucos anos antes, decidiram pôr em comum a produção principal da guerra: o carvão e o aço. Foi a decisão da França e da Alemanha, de colocar de lado uma inimizade e desconfiança milenar, e de criar uma comunidade de nações, que possibilitou não apenas reconstrução da Europa ocidental, mas também lhe garantiu um dos maiores períodos de paz da História. Foi a primeira vez na história da Europa onde a paz não foi construída pela força, mas pela boa vontade entre nações.

Hoje temos a possibilidade de escolher que caminho que queremos seguir. Podemos insistir na mentalidade de trincheira, fazendo com que a política fique sempre mais polarizada, entregue a extremistas, incapaz de construir. Ou então podemos arriscar olhar para o outro como um bem, como alguém que me pode ajudar a construir algo de bom para a sociedade. Evidentemente que este caminho tem uma grande dificuldade: não depende apenas de mim, depende sempre da liberdade do outro, mas é o único que permite de facto construir algo.

Não se trata de ceder princípios, ou de ser relativista. Não se trata de ceder a verdade. Trata-se apenas de mudar o nosso olhar sobre o outro. De tentar encontrar no outro nem que seja um vislumbre de terreno comum sobre o qual se possa construir. Não é um caminho fácil, mas parece-me a única alternativa à destruição que as trincheiras provocam.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Miguel Duarte e os migrantes: um crime (infelizmente) necessário.



1- A guerra do Afeganistão, a guerra do Iraque, a Primavera Árabe, a guerra na Síria, a guerra da Líbia e o desaparecimento total de qualquer espécie de governo, a guerra do Iémen, a ascensão do Estado Islâmico que por sua vez levou ao recrudescimento do extremismo islâmico, mergulhou boa parte do norte de África e do Próximo Oriente no caos.

Essa caos levou à deslocação de centenas de milhares de pessoas. Algumas são refugiados de guerra, outra migrantes que fogem de uma vida miserável. O sonho da grande maioria dessas pessoas é chegar à Europa.

2 - Sempre houve migrantes a tentar atravessa o Mediterrâneo para entrar ilegalmente na Europa. Sempre houve redes de tráfico que exploraram essas pessoas. Contudo o drama actual fez aumentar muitíssimo a procura da Europa, o que, evidentemente, fez crescer muitíssimo as redes de tráfico.

Falamos de gente que explora miseravelmente pessoas que não têm nada, que os enfia em barcos miseráveis e os atira ao mar, pouco lhes importando se sobrevivem ou não. O único interesse destes redes é mesmo o dinheiro.

3 - O aumento de migrantes no Mediterrâneo tem levado a uma catástrofe humanitária. Nas costas da Europa têm morrido milhares de pessoas afogadas pelo crime de procurarem uma vida melhor.

E a resposta europeia tem sido fraca e insuficiente. A questão dos migrantes tem sido usada como arma de arremesso político.

De um lado temos os que defendem que a União Europeia deve estar aberta a todos, que se mostram indiferentes ao justo receio de alguns países pelo número de migrantes, que se mostram indiferentes ao facto de a integração destes migrantes estar a falhar, sobretudo que se mostram indiferentes ao facto de ser Itália quem de facto enfrenta a maior parte do problema. 

Por outro lado temos aqueles que demonizam os migrantes e que exploram o medo das populações do terrorismo e do extremismo islâmico. Para estes a Europa corre o risco de ver a sua cultura destruída por uma invasão vinda de África e do Próximo Oriente.

Esta divisão da questão dos migrante em duas trincheiras tem tornado impossível resolver o problema. A discussão, com acusações de parte a parte, é estéril. Ambas as partes invocam razões justas, mas são incapazes de qualquer abertura.

4 - Este problema é complexo. Por um lado existem refugiados que têm um estatuto jurídico próprio. Mas a grande maioria dos que entram na Europa pelo Mediterrâneo, mesmo vindo de países desfeitos, não são refugiados, mas sim migrantes económicos.

Se é de justiça que a Europa acolha refugiados de guerra, também é justo que não aceite migrantes económicos para lá do que é a sua capacidade. Não pode contudo simplesmente deixar morrer pessoas na sua costa só porque são imigrantes ilegais. A Europa está construída precisamente sobre a Dignidade Humana. Esse principio impede que sejamos indiferentes aqueles que morrem "ilegalmente" no "nosso" mar.

Por outro lado, não basta resgatar os que atravessam o Mediterrâneo (embora isto seja urgente) também é preciso acabar com as redes de tráfico que exploram aquela pobre gente. É preciso criar condições nos seus países para que possam regressar. É preciso combater este problema em toda a sua complexidade e não continuar apenas nas grandes declarações de princípios, sem qualquer efeito prático.

5 - A tragédia do Mediterrâneo fez aparecer uma conjunto de ONG's que tentam salvar as pessoas que fazem a travessia. Algumas delas têm barcos que patrulham o mar à procura de embarcações para acolher os migrantes e transporta-los para Itália.

O objectivo é nobre e, para além disso, necessário. Claro que a acção destas organizações, embora resolva uma urgência, acaba por agravar o problema geral. A sua existência é um incentivo não apenas aos migrantes, mas às próprias redes de tráfico.

A juntar a isto, nem todas as ONG's são iguais. Algumas tem uma agenda política, algumas provavelmente pouco mais são do que fachadas para negócios escuros com os traficantes.

Isto não retira o mérito de tantos voluntários que vão para o Mediterrâneo com o único propósito de ajudar gente desesperada. E se é verdade que ao salvar os migrantes de morrerem afogadas, ao tornar mais segura a travessia, incentivam a mesma, também não é menos verdade que a alternativa é simplesmente continuar a deixar morrer pessoas no mar até as redes de tráfico ficarem sem clientes (o que não parece que resulte).
  
O problema dos migrantes envolve muita política, muito dinheiro e muitos interesses. Mas sobretudo, envolve muitas vítimas que não podem ser deixadas ao abandono apenas porque são "ilegais".

6 - Não conheço Miguel Duarte de lado nenhum. Nem conheço ninguém que seja realmente amigo da mãe dele. Sei que não é verdade que ele esteja a ser acusado por ter salvo pessoas no Mediterrâneo. Está a ser acusado por as ter levado para Itália. E isso é de facto um crime. Um crime necessário uma vez que a alternativa é provavelmente deixar morrer muitas daquelas pessoas afogadas.

Vi em diversas partes escrito que ele os deveria levar de volta para a Líbia, porque aparentemente muitos dos salvamentos são feitos próximos do lado de lá do Mediterrâneo. Isso é pouco melhor do que os deixar morrer afogados. Levá-los de volta para a Líbia é levá-lo para um país sem lei, sem governo, dominado por senhores da guerra. É entrega-los de novos às redes de tráfico humano. É de facto matá-los mais lentamente. A alternativa é leva-los para Itália é deixa-los à morte, no mar ou em terra.

Miguel Duarte não é vítima do Estado Italiano, é vítima de uma Europa que deixou o problema dos migrantes transformar-se num jogo político e de interesses, que ninguém está realmente empenhado em resolver. O jovem português entrou num jogo que está muito acima dele.

Se é justo que Itália se tente defender da imigração ilegal, não é menos justo que o Estado Português e a sociedade portuguesa se empenhem em defender um jovem que se arriscou para salvar pessoas da morte. As acções de Miguel são um crime, mas são justas e necessárias. Necessárias pela inépcia da Europa em resolver esta tragédia.

7 - Tenho visto muitas vezes repetido nas redes sociais que Miguel aos salvar pessoas no Mediterrâneo estaria a compactuar e a incentivar redes de tráfico humano.

E é verdade. É verdade que essas redes de gente sem escrúpulos se aproveita desta fraqueza da Europa, herança do cristianismo, que é a misericórdia. Esta fraqueza de amar o próximo, mesmo que isso nos prejudique. A fraqueza de amar aqueles que nos odeiam.

Percebo que para alguns seja mais lógico que para combater as redes de tráfico, para combater o fluxo migratório, se deixe morrer pessoas afogadas. Assim como assim foram elas que decidiram correr esse risco e nós estamos apenas a defender a nossa terra. Aliás, esta teoria não é nova, já há dois mil anos Caifás dizia que mais valia morrer um só homem pelo povo.

Não percebo é que alguém o faça com a desculpa de defender o cristianismo, ou os valores cristãos. Deixar morrer pessoas afogadas pode ser até uma boa decisão política, mas é completamente contrária às palavras de Cristo. Jesus não nos mandou amar os bons, os justos, os que nos amam, mandou amar o próximo, mandou amar os inimigos, mandou amar os que nos odeiam. Pode-se justificar deixar morrer alguns no mar por questões políticas, mas poupem-me à conversa de que estão a defender o cristianismo. O cristianismo não se defender desobedecendo a Cristo.

8 - O problema dos migrantes é um problema complexo. A Europa não pode de facto estar de portas totalmente abertas à imigração. Tem mesmo que que ter uma política clara de combate à imigração ilegal, tem que combater o tráfico humano, tem que trabalhar com os países de origem destes migrantes para evitar que ele saiam de lá. Tudo isto é verdade.


Mas enquanto o faz e não o faz, enquanto o problemas se resolve e não se resolve, não pode continuar a deixar morrer pessoas no Mediterrâneo. A mim não me choca nada que um imigrante seja repatriado, desde que seja tirado do mar, agasalhado e alimentado.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

As obras sem fé, a Fé e as obras - Encontro com as Equipas de Jovens de Nossa Senhora

Texto da minha intervenção no encontro com as Equipas de Jovens de Nossa Senhora sobre os cristãos no mundo. Aproveito para agradecer o convite.




Boa noite a todos. O meu nome é Zé Maria Seabra Duque, sou casado e pai de três filhos. Esta informação, que parece apenas um cliché de apresentação, é de facto o maior serviço que prestei a Portugal e à Europa até agora. Num tempo onde estamos tão ocupados a discutir o futuro da Igreja na Europa, esquecemo-nos tantas vezes que a maior ameaça que enfrentamos é os cristãos não terem filhos.
Profissionalmente devo fazer uma pequena correcção ao meu título: de facto não sou um ilustre advogado, como a minha colega oradora, sou apenas um pobre e mísero jurista.
Dito isto, e ainda antes de abordar o tema que me foi dado, gostaria ainda de dizer que é com muita alegria que neste preciso dia venho a esta Igreja.
Digo neste dia, porque faz hoje precisamente um ano que a eutanásia foi chumbada no Parlamento. Foi um belo dia, fruto do trabalho e do empenho de muita gente, por todo o país, muitos deles católicos (a começar nos bispos!).
E digo esta Igreja, porque esta é a Igreja da minha infância e princípio de juventude. Aqui fiz a catequese, aqui fui escuteiro e sobretudo aqui fui investido acólito. Os acólitos foram para mim uma grande escola: aprendi a amar mais os sacramentos e a liturgia. Mas sobretudo aprendi que não há maior glória do que servir a Deus. E que no serviço a Deus não há nada que esteja abaixo da nossa condição: qualquer que seja a tarefa é sempre um honra imerecida, nem que seja apenas segurar numa vela! Foi também nesta Igreja que me crismei: aqui, diante do Senhor Dom Tomás, que Deus tem na Sua Glória, proclamei que a Fé que recebi de meus pais tomava como coisa minha.
Por isso é sempre com comoção que aqui volto.

Sobre o tema vou dividir a minha intervenção em duas partes:
I.              As obras sem fé
II.            A fé e as obras.

I. As obras sem fé.
A primeira coisa que vos queria dizer é que a Europa é uma invenção do cristianismo.
A Europa não é um continente geográfico, de facto faz parte da eurásia. A fronteira dos Urais, ou do Bósforo, é cultural e civilizacional, não cientifica.
O que separa a Ásia e a Europa é o cristianismo.
O mundo grego e romano, que são duas das grandes influências da Europa, eram centradas no mediterrâneo. O leste e norte da Europa não estavam nesse mundo, ao contrário do próximo oriente ou do norte de África.
A Europa como a conhecemos hoje, do cabo de São Vicente aos Urais, do Mar do Norte ao Mediterrâneo a cultura que têm em comum é o cristianismo.
A Europa nasce da expansão do cristianismo na Idade Média.
É o tempo das catedrais, das cidades, da universidade, das feiras. É o tempo de Bernardo de Claraval, Francisco de Assis e Tomás de Aquino. É o tempo de Dante e de Giotto. É o tempo da razão, que, certa do desígnio de Deus sobre o mundo, procura incessantemente compreendê-lo.
A Idade Média é uma sociedade profundamente cristã. O poder da Igreja não era temporal (embora em alguns casos também o fosse) mas era um poder espiritual. E a Igreja lutou sempre pela sua independência do poder (e lutou literalmente, travou guerras pela sua independência do Imperador e dos reis). As obras da Idade Média não são fruto do poder, mas verdadeiramente da fé.
A Idade Moderna (fim do séc. XVI) assiste porém ao fim desta ordem. O reforço do poder real exigiu também um domínio do poder temporal sobre a Igreja, um garante da unidade nacional. A Fé passou a ser uma forma de afirmação política. Isso iria verificar-se com a reforma protestante, com todas as guerras que se lhe seguiram, até se chegar a formular que “em cada reino a religião do seu rei”.
Esta mudança de uma cultura cristã para um poder cristão, do cristianismo como acontecimento para o cristianismo como ideologia política, terá consequências dramáticas. Uma Igreja cada vez menos preocupada com a fé e mais preocupada com o poder. É o gérmen de uma mentalidade na qual a fé é reduzida a uma piedade, útil para o domínio mas sem relação com a realidade.
Ao mesmo tempo há uma cultura que começa a nascer, onde a razão se separa da fé. Uma razão que pretende ser o único critério para o conhecimento.
Esta mentalidade irá resultar no Iluminismo, um pensamento que rejeita qualquer relação da razão com a Fé. Isto tem um efeito dramático: é que se trata de uma razão amputada e diminuída. Porque se a razão elimina a Fé, elimina uma parte da realidade.
Por isso, quando chegamos à Revolução Francesa, que marca a entrada na chamada Idade Contemporânea, temos estas duas circunstâncias:
- Uma cultura onde a razão está amputada da fé;
- Uma organização social baseada nos valores cristãos como factor de regulação social, mas sem fé.
Evidentemente, nada disto é linear: acabei de resumir 1500 anos de história em três penadas. A Idade Média teve a sua quota parte de misérias e a Idade Moderna teve a sua quota parte de glória. O Concílio de Trento, o principio dos Jesuítas, muitos santos e santas. Contudo resumindo e simplificando, o resultado é este: as obras cristãs sem a fé.
A Revolução Francesa é fruto desta nova mentalidade, da razão que se considera o único critério para explicar a realidade.
Por isso, quando estala, revolta-se contra trono e o altar. Contra aquilo que considera impedir a liberdade do povo. Evidentemente esta mentalidade ideológica, fruto de um desejo justo de liberdade e de igualdade, resulta numa tirania trágica, com milhões de mortos (no Terror, nas guerras revolucionárias, na Vendeia, nas Guerras Napoleónicas).
A revolução acabará derrotada. Primeiro quando Napoleão assume o poder Imperial, mas sobretudo com a restauração de Luís XVIII. Contudo, se a revolução acaba derrotada enquanto projecto político, a sua mentalidade triunfa por toda a Europa.
Começa a triunfar esta cultura de uma razão todo-poderosa contra a superstição. E a verdade é a que resposta da Igreja foi, em grande parte, procurar manter as estruturas de poder, e não renovar a fé. Em Portugal, a Igreja foi reduzida a pouco mais de que um departamento do Estado, com os padre a serem nomeados pelo governo como qualquer outro funcionário público. Lembro que no séc. XIX boa parte dos bispos portugueses eram maçons!
É da Revolução Francesa que nascem as ideologias que hão de gerar a cultura moderna: o marxismo, que é a negação de Deus e do individuo em detrimento do Povo, o liberalismo, que é a negação do dignidade humana em detrimento do lucro e o nacionalismo, que é a negação da dignidade humana em favor da Nação.
Os últimos 200 anos têm sido marcados pelo recuo da cultura cristã. Até chegarmos ao Maio de 68, onde os filhos da burguesia se revoltam contra qualquer autoridade, contra qualquer moral. É o triunfo do homem “livre”, que no seu desejo de liberdade quebra todas as barreiras: com Deus, com a natureza, com a realidade.
A mentalidade actual é do homem que se basta a si próprio, que se define a si próprio. Por isso lhe é insuportável a Igreja. É-lhe insuportável que haja no mundo quem lhe lembre que não se basta a si mesmo. Que é criatura dependente do seu criador. Esta ideia é absolutamente insuportável à mentalidade moderna.
Mas a resposta não pode ser simplesmente a defesa dos valores cristãos. Não é seguramente a imposição ideológica de uma sociedade cristã de bons costumes. Porque essa sociedade, porque esses valores, sem a Fé, são verdadeiros e justos, mas não têm raízes.
Olhemos para Notre Dame como exemplo. Veio o fogo e consumiu parte da catedral. Mas o que foi realmente consumido? Os acrescentos feitos no tempo após a revolução, quando Notre Dame era um símbolo nacional e histórico. O que ficou de pé? As fundações de pedra, construídas pela fé do povo de Paris.
As obras sem Fé são secas. Caem perante a primeira ideologia que faz sobressaltar o coração. Se dizes a alguém “dois homens casarem é pecado” e outro diz “o amor não olha a géneros”, tu tens razão, tu dizes a coisa justa, mas o outro soa melhor, é mais atractivo!

II. A Fé e as obras.
Na sua primeira enciclica, Deus é amor, dizia Bento XVI: Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.
A Fé é o encontro com Cristo, hoje como há dois mil anos.
Pensemos em João e André, na margem do lago, a ouvir João Baptista. Ao fundo passa um homem. João Baptista para e diz "Eis o Cordeiro de Deus". A multidão não liga, está habituado às excentricidades do profeta. Mas João e André vão atrás dele. A um certo ponto o homem vira-se e pergunta "Que quereis?". Eles respondem "Mestre onde moras?", "Vinde e vede".
João narra este encontro décadas depois do acontecimento. E contudo aquele momento continua a ser o momento decisivo da sua longa vida.
A Fé é este encontro com Jesus. Presente hoje na Igreja. O encontro com uma humanidade extraordinária, uma humanidade diferente, uma humanidade mais plena, mais autêntica. Um encontro que, como dizia Bento XVI, não tira nada, mas dá tudo.
Um encontro com a Presença que corresponde plenamente ao desejo de beleza, de justiça, de felicidade do nosso coração. O convite hoje, tal como há dois mil anos, é o mesmo: vinde e vede. Vinde e verificai.
Onde encontramos hoje a Presença de Cristo? Naqueles que o seguem. A promessa de Cristo, onde dois ou três estiverem eu estarei no meio deles, não é vã. Está viva na Igreja, hoje.
Diante deste encontro, diante desta presença, só há duas possibilidades: sim ou não. Se for sim, então é impossível que o encontro com Cristo não mude a nossa vida. Se encontramos aquele que é a Verdadeira Beleza, então queremos levar essa Beleza ao Mundo. Se encontramos aquele que é Verdadeira Justiça, então queremos levar essa justiça ao mundo. Se encontramos aquele que é a Verdadeira Caridade, então queremos levar essa caridade ao mundo.
As obras são o fruto natural da Fé. São o fruto natural do encontro com Cristo.
A Fé é o critério com que olhamos o mundo, com que ajuizamos a realidade.
Perguntam se o mundo precisa dos cristãos? Mais do que nunca, porque mais do que nunca precisa de Cristo. Porque vivemos num tempo onde a humanidade está de tal modo amesquinhada que reduziu o seu desejo à procura de sensações. Foge de qualquer incómodo, tenta preencher o vazio com todo o lixo que encontra. Por isso Cristo, o único capaz de responder verdadeiramente ao coração do homem, é urgente.
Por isso é urgente que os cristãos se empenhem no mundo. Que estejam na sociedade, na economia, na educação, na política. Não com um plano ideológico ou doutrinário, mas com o desejo de testemunharem aquilo que vivem.
Só isto permite estar de maneira verdadeiramente livre e orignal na política.
Eu há uns anos decidi empenhar-me na política. Quando tomei essa decisão fui falar com o Padre João Seabra, meu tio e director espiritual. Ele disse-me várias coisas, mas o mais importante foi isto: nunca te esqueças que és cidadão do céu e concidadão dos santos.
Isto foi essencial para me fazer perceber que a minha missão na política não é o triunfo da ordem cristã sobre a barbárie actual, mas sim testemunhar Cristo.
E isto faz-se, não com um discurso, não com reduzir a participação política aos temas "católicos", mas estando seriamente empenhado na política, com seriedade, fazendo política para o que ela realmente serve: não um projecto de poder, mas servir o bem comum. Um gestor católico o que faz? Gere. E um professor católico? Ensina. Então o que faz um político católico? Política. A diferença não é de discurso, mas de posição diante da tarefa que lhe é confiada.
Dou-vos um exemplo prático. Na semana passada deu muito que falar o ministro do interior italiano, que apareceu de terço na mão a consagrar-se ao Imaculado Coração de Maria, no mesmo comício em que declarava que nem mais um migrante entraria em Itália. Eu não vou aqui discutir política migratória seguramente, mas pode alguém para defender o Cristianismo desprezar aqueles que estão em perigo? Que cristianismo é este que não se sobressalta diante do grito do pobre, do oprimido? Mais uma vez digo, não quero discutir as migrações, é um problema complexo, com respostas complexas, do qual Itália tem sido vítima. Mas a questão é: pode alguém seguir a Cristo e ao mesmo tempo desprezar o próximo? Salvini evidentemente defende muitas coisas boas. E é bom que ele queira  defender o cristianismo. Mas a verdade é que o cristianismo também pode ser reduzido a um projecto de poder igual a qualquer outro, tão tirânico como qualquer outro.
O desafio é por isso estar na política (como na educação, ou na economia, ou na saúde) não para afirmar uma doutrina, mas para testemunhar um facto. Por isso lutamos contra o aborto, a eutanásia ou a ideologia de género: não para contrapôr um sistema melhor, mas porque o encontro com Cristo dá-nos a certeza de que toda a vida é amada e desejada por Deus.
O grande desafio do nosso tempo é conseguir comunicar este facto ao mundo. A um mundo que fala uma linguagem diferente, que é fruto de uma mentalidade diferente. O desafio dos cristãos na vida pública hoje é conseguir comunicar a experiência de Cristo.

E isto só é possível de uma maneira, se nos deixarmos de tal modo modificar por Cristo que ao olhar para nós o outro veja uma humanidade diferente, uma humanidade mais plena, uma humanidade que vale a pena conhecer.