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terça-feira, 16 de maio de 2023

HEY! MINISTER! LEAVE THEM KIDS ALONE!



Um dos maiores desafios dos pais nestes tempos é a relação das crianças com a tecnologia. Por um lado, é evidente que não é possível (nem é bom) não introduzir as crianças a uma ferramenta que deverá ser essencial no seu futuro. Gostemos ou não, os nossos filhos estão a ser criados num mundo digital. Por outro, o vício nos écrans está a criar uma geração que não sabe interagir com pessoas, sem imaginação, incapaz de pensar, incapaz de resolver problemas, e cada vez mais egocêntrica.


Em minha casa, com os meus filhos que são todos pequenos, evitamos a dependência dos écrans. Os miúdos vêem televisão como é evidente, e os mais velhos já conseguem pesquisar no Youtube (que usam apenas para ver jogos antigos de futebol e montagens dos melhores golos). Para além disso, de vez enquanto lá jogam um jogo no telefone dos avós (e mesmo isso tentamos limitar ao máximo).

Sei que irão precisar de saber utilizar os gadgets modernos, mas felizmente terão tempo. Agora é tempo de montar legos, mascar-se de heróis, fazer puzzles, fazer plasticina e pinturas, e inventar jogos.

Este desafio que nós vivemos em casa, é um desafio que todos os pais actuais sentem. E que não é fácil de gerir e que vai ficar cada vez mais difícil. Seria bom e importante que a escola fosse uma aliada dos pais nesta tarefa. Que ajudasse os miúdos a crescer sem estar dependente dos ecrãns, que os ajudasse a desenvolver a razão e a imaginação sem ter que recorrer ao Google ou ChatGPT, que os introduzisse com critério, no tempo certo, ao mundo digital.

Infelizmente o génio que temos no Ministério da Educação, incapaz de arranjar professores para crianças, mas com tempo para perseguir uma família que exerce o seu direito à liberdade de educação, lembrou-se que era boa ideia que os exames de aferição fossem todos digitais. Ou seja, obrigar miúdos de 7/8 anos a fazer testes, com respostas por extenso incluídas, num computador.

Miúdos que, por força da pandemia, tem atrasos na sua educação, miúdos que durante dois anos o contacto que tiveram com a escola foi por um écran, miúdos que ainda estão a desenvolver as suas capacidades de escrita e de matemática, vão ser obrigados a fazer uma prova nacional num computador.

A razão para esta extraordinária decisão? Prepará-los para os exames do secundário. Ou seja, para prepará-los para exames que vão ser feitos daqui a 8 ou 9 anos, vamos já colocar crianças pequenas a depender de écrans.

Já não falo de todo o pesadelo logístico que isto significa para as escolas. Mas como pode passar pela cabeça de algum educador que é boa ideia por crianças de 7/8 anos agarrados a um computador? Como é que quando os pais lutam cada vez mais para manter os miúdos afastados dos écrans, há todo um ministério que acha boa ideia obrigá-los a trabalhar num computador!

O meu filho mais velho, que é um bom aluno e sempre cumpridor, vai fazer provas de aferição. E será a primeira vez que irá mexer num computador. Já lhe expliquei que não se preocupe, que os pais não estão nada preocupados com este exame e que ele faça o que conseguir. Felizmente está numa escola que o educa realmente, e que se recusou a perder tempo essencial para educar crianças do segundo ano a prepará-los para este disparate.

Mas tenho consciência que a sorte que eu tenho de conseguir, embora com enorme sacrifício pessoal, escolher a escola dos filhos é um privilégio que pouco têm em Portugal. A esmagadora maioria dos miúdos está entregue aos tontos da 5 de Outubro, que olham para as crianças como cobaias educativas.

sábado, 24 de agosto de 2019

Isto não é sobre casas de banho - Observador, 24/08/19

O governo aproveitou o mês de Agosto, quando metade do país estava a banhos e a outra metade preocupada com o combustível para o carro, para publicar um despacho a regular a aplicação da lei de Identidade de Género nas escolas.

Apesar dos melhores esforços do governo para fazer passar este despacho entre os pingos da chuva, neste caso, entre os raios de sol, o caso acabou, por força da sociedade civil, por ocupar a agenda mediática. No momento em que escrevo, a petição pública que pede a suspensão deste despacho já vai em mais de 28 mil assinaturas.

A atenção mediática que surgiu à volta do despacho levou a mais uma acção de campanha do governo, com o Secretário de Estado João Costa a desdobrar a sua presença em qualquer meio de comunicação social disponível. Segundo o secretário de Estado garantiu em todos os microfones que apanhou à frente, este não é um despacho sobre casas de banho e não se trata de uma questão de ideologia, mas de crianças concretas.

Devo dizer que até concordo com estas duas afirmações. O problema não é de facto as casas de banho. Aliás, o problema nem sequer é o despacho: um arrazoado ideológico, vago e trapalhão, aberto a uma quantidade variada de interpretações, incluindo a possibilidade de termos rapazes de 17 anos a frequentar casas de banho com meninas de 12. Se é provável que aconteça? Talvez não, mas o despacho permite-o. E por muito que João Costa venha fazer interpretações bondosas do seu despacho, a verdade é que as suas palavras não têm qualquer força legal, ao a contrário do despacho que assinou e que parece desconhecer (na melhor das hipóteses, porque prefiro acreditar que quando afirma que o despacho só se aplica a crianças que já tenham começado o processo legal de mudança de género é simplesmente porque não sabe que o despacho que assinou fala apenas do género com que se identifica, e não porque esteja propositadamente a mentir).

Para além disso é verdade que o despacho trata de crianças reais, com dramas reais, muitos deles muito preocupantes (como afirmou um responsável da ILGA, a taxa de intenção de suicídio entre este jovens é de 50%).

O principal problema é que este despacho vem de facto implementar oficialmente em todas as escolas o que já tinha vindo a ser implementado pela porta do cavalo por este governo: a imposição da ideologia de género como doutrina oficial. E o problema é que de facto é a crianças reais que esta ideologia está a ser imposta. É sobretudo, a crianças reais, com dramas reais, que estão a ser usadas como bandeira política pelo secretário de Estado e pelo governo para impor a sua ideologia a todos alunos do país.

Já tínhamos os referenciais para a saúde na Educação para a Cidadania, que permitia ensinar às crianças que o género é uma construção social, que o sexo é biológico mas que cada um depois pode escolher o seu género. Agora, temos um despacho que obriga as escolas, em última instância, a denunciar os pais que se recusem a tratar como menina um rapaz de seis anos que diga que o quer ser.

Este é o real problema: o Estado impor ao país a teoria de que a biologia é indiferente para definir o sexo de uma pessoa, que cada um constrói o seu género independentemente dos seus cromossomas ou dos seus genitais.

Que o secretário de Estado acredite nesta teoria é problema dele, que a queira impor a todas as crianças desde o seis anos, é um problema de todos. É um problema sobretudo dos pais que têm filhos em idade escolar e que, quer queiram quer não queiram, têm os seus filhos doutrinados na ideologia perfilhada por João Costa.

As crianças têm direito a serem crianças. Num mundo hipersexualizado, as crianças têm direito a não serem expostas nas escolas, por obra e vontade do senhor secretário de Estado, à visão da sexualidade que este professa. Num mundo onde a sexualidade é um tema cada vez mais confuso, as crianças têm direito a não serem expostas a essa confusão. A escola deve ser um lugar seguro, onde as crianças podem crescer em segurança, não um laboratório de experiências sociais. As crianças não podem ser cobaias. Sobretudo as crianças que, por razões várias, já vivem precocemente dramas relacionados com a sua sexualidade, devem ser preservadas na sua inocência, deve-lhes ser permitido ser crianças. Obrigar as crianças a confrontarem-se com dramas de adultos é uma agressão que atinge sobretudo aqueles que o secretário de Estado jura querer defender.

Este despacho não é sobre casas de banho, é muito mais do que isto. É mais um passo para impor a ideologia de género nas escolas. É mais uma vez a instrumentalização das crianças para fins políticos. Se há adultos que acreditam que o género é uma mera construção social, que a sociologia se sobrepõe à biologia, que a ideologia se sobrepõe à ciência, têm liberdade para o fazer. Mas façam um favor: deixem as crianças em paz!