Faz
hoje 39 anos que o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa de Portugal foram
mortos num brutal atentado. Poucos minutos depois de descolarem a caminho de um
comício no Porto o avião onde seguiram explodiu, matando todos os passageiros.
Camarate
permanece como um dos maiores escândalos da nossa democracia e seguramente a
maior vergonha da nossa justiça. Tudo foi feito para abafar o que era evidente:
foi um atentado. Testemunhas mortas, provas roubadas, relatórios abafados, a
verdade é que o poder político e o poder judicial não quiseram investigar o assassínio
de um Primeiro-Ministro e de um Ministro. Isto em democracia.
Passados
quase quarenta anos continuamos sem saber quem foram os assassinos, quem foram
os seus mandantes, quem era o alvo ou qual o motivo deste crime. O pouco que
realmente sabemos devemo-lo à coragem de alguns jornalistas, de alguns amigos e
familiares das vítimas e dos poucos políticos que insistiram em sucessivas
Comissões de Inquérito no Parlamento. Sobre o tema vale a pena ler o livro de
Inês Serra Lopes, que corajosamente, numa altura em que ainda era perigoso
investigar o assunto, publicou, onde demonstra com clareza que foi realmente um
atentado.
O
silêncio sobre Camarate é uma das chagas abertas da nossa democracia. E é uma
das provas claras da sua fragilidade. Como ainda há pouco tempo relembrava
Pedro Santana Lopes, num belíssimo artigo sobre o 25 de Novembro, a democracia
em Portugal nasceu e manteve-se sobre tutela militar até à revisão
Constitucional de 1982. Portugal não foi realmente uma democracia até essa
data. Até 1982 o poder dependia, em última instância, dos militares de Abril,
que condicionaram à sua vontade o legítimo exercício do poder democrático.
Francisco
Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa eram duas das figuras mais importantes na
luta por uma verdadeira democracia ocidental em Portugal, fora da tutela
militar. Não sabemos, e dificilmente viremos a saber, se foi por isso que
pagaram com a sua vida. Aquilo que sabemos, é que foi o regime semi-democrático
saído do 25 de Novembro que impediu que lhes fosse feita justiça.
O
mesmo regime que nada fez contra o Partido Comunista a 25 de Novembro depois de
falhado o golpe de Estado. O mesmo regime que nunca teve coragem para reverter
as nacionalizações criminosas, os saneamentos e a reforma agrária. O mesmo
regime que “descolonizou” entregando à União Soviética o Ultramar. O mesmo
regime que anos mais tarde havia de deixar impunes os terroristas da FP-25.
Aqueles
que hoje se dizem herdeiros de Sá Carneiro e Amaro da Costa têm o dever de
combater este regime. Não apenas discutir qual o seu lugar à mesa ou que
migalhas do orçamento lhes toca, mas realmente combater este regime. Sá
Carneiro e Amaro da Costa lutaram por uma verdadeira democracia, não por este
regime dominado pelos partidos, pelas amizades maçónicas e pelos interesses da
plutocracia.
Que
Camarate não seja apenas uma efeméride que relembramos uma vez ao ano, mas seja
um símbolo da coragem para lutar por um Portugal diferente.
