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segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

A Rua do Benfomoso e a irresponsabilidade do PS



1. Sempre houve rusgas em Portugal. Actualmente chamam-se operações especiais de prevenção criminal e estão previstas numa lei aprovada num Governo de José Sócrates, quando António Costa era Ministro da Administração Interna.

Todos os anos há dezenas de operações destas, que incluem cortes de ruas, revistas a pessoas, casas, lojas, etc. Tudo isto devidamente acompanhado por magistrados do Ministério Público.

Estas operações, têm como alvo zonas com altos índices de criminalidade. A Rua do Benformoso, onde só nos últimos dois anos se verificaram 52 crimes com arma branca, encaixa por isso perfeitamente no critério que leva a que habitualmente a polícia realize operações destas.

2. Podemos não gostar destas operações em geral, e até podemos criticar alguma em específico. Eu devo dizer que não sou fã, duvido da sua eficácia e acho que são propensas ao abuso de autoridade.
Dito isto, nada difere esta operação de tantas outras que a PSP normalmente realiza. A PSP cortou a Rua do Benformoso, como há um mês cortou vários bairros da zona da grande Lisboa, como já o fez em bairros do Porto, e no próprio Martim Moniz quando o governo era socialista.

3. O histerismo da esquerda em geral e do Partido Socialista em específico não tem por isso qualquer justificação. Aliás, é espantoso como durante anos nunca ouvimos qualquer resmungo de Isabel Moreira ou Ana Gomes quando estas operações eram feitas na Cova da Moura ou no Bairro do Lagarto. Nunca os arautos do antirracismo se levantaram quando os “corpos” encostados à parede eram negros ou ciganos. Foi preciso esperar por um governo de Direita para de repente se lembrarem que estas operações eram um atentado ao Estado de Direito.

O que está por isso em causa neste “escândalo” não tem nada a ver com xenofobia ou racismo. É pura manipulação que tem como única finalidade colar o Governo à “extrema-direita”.

4. A estratégia do PS é clara e irresponsável. Vivem de exacerbar casos e de manipular indignações, procurando claramente polarizar o debate entre eles, os justos e puros, e os fascistas, ou seja, todos os que discordam deles.

Domingo foi os imigrantes, sexta o aborto, no mês passado o racismo. Os socialistas não têm qualquer problema em usar pessoas, muitas delas em situações de fragilidade, para a sua estratégia política. São bandeiras que atiram fora assim que perdem a sua utilidade.

5. Por isso esteve muito bem Luís Montenegro ao denunciar o extremismo da manifestação “Não nos encostem à parede”. Evidentemente que nem todas as pessoas daquela grande multidão eram extremistas. E alguns têm de facto razões para se manifestar. Mas estão a ser usados por políticos e comentadores que não hesitam em comparar uma acção legal da polícia com a repressão nazi aos judeus.

Por isso a equiparação entre os promotores daquela manifestação e os promotores da vigília pelas forças de segurança não é apenas justa, mas perfeitamente acertada. A estratégia do PS e do resto da esquerda em nada difere da estratégia populista do Chega. Ambos distorcem factos e manipulam indignações para obter escândalos que lhes permitam dominar a narrativa do espaço público. E ambos apostam na polarização para se estabelecerem a si como justos e todos os seus adversários como malvados que procuram destruir a sociedade.

Isto já é mau quando praticado por partidos de protesto com o Bloco (que o faz há muitos anos) ou o Chega (que está agora a dar os seus primeiros passos). Mas o Partido Socialista tem a responsabilidade de não arrastar o país para esta irresponsabilidade, que fractura a sociedade, promove ódios e tem consequências imprevisíveis.

6. A verdade é que enquanto perdemos tempo com o último escândalo inventado por populistas, do Bloco ao Chega, passando pelo actual PS, os problemas do país continuam por resolver. Os populistas são óptimos a apontar problemas, mas totalmente incapazes de os resolver. Tenhamos esperança de que os eleitores não se deixem levar pela narrativa do histerismo, e deem aos que procuram realmente governar, os votos necessários para o fazer.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

A condenação de Mário Machado



Antes de mais, não tenho qualquer simpatia por Mário Machado e a sua retirada da sociedade parece-me bastante favorável.


Para além disso a liberdade de expressão tem limites. Ameaças, insultos, mentiras não são liberdade de expressão e devem ser sancionados.

Dito isto, acho alarmante que Mário Machado seja condenado a dois anos de prisão efectiva pelo que escreveu nas redes sociais. O facto de ser líder de um movimento político que já praticou actos de violência e de o próprio ter um histórico de violência não permitem tratar o que escreveu como uma simples graça de mau gosto. Mas não há ali uma ameaça clara e concreta, não colocou de facto em risco ninguém, não praticou qualquer acto que demonstrasse que se tratava de facto de uma ameaça.

A justiça não pode começar a criminalizar intenções, não pode prender pessoas porque são más pessoas, ou porque escrevem coisas horrorosas nas redes sociais. E aqui não estou a defender Mário Machado, mas a sociedade. Porque o tribunal que hoje condena Mário Machado de forma “exemplar”, por afirmações que todos discordamos, é o mesmo que amanhã me condena a mim por afirmar qualquer coisa que vai contra a ortodoxia vigente.

E basta ver o que neste momento acontece no Reino Unido, onde as prisões e condenações por “crime de ódio” nas redes sociais aumentam, para perceber que não estou a falar de uma teoria da conspiração, mas de algo que está a acontecer diante dos nossos olhos.

Hoje no Ocidente em geral, e na Europa em particular, a liberdade de expressão está cada vez mais reduzida. A coberto do discurso de ódio, bane-se e criminaliza-se opiniões que simplesmente são contrários ao politicamente correcto.

Por isso, apesar do asco que sinto por Mário Machado, apesar do nojo que sinto pelas suas declarações, tenho mais medo do tribunal que o condenou e da sociedade que aplaude essa condenação. Porque é sempre mais perigoso o Poder que ignora a Justiça para defender a “Democracia”, do que o criminoso que a ataca às claras.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Faltam Imigrantes e falta controlo

 


Qualquer pessoa que conheça o país fora de Lisboa sabe que não há imigrante a mais. Somos um país assolado por uma crise demográfica há décadas, enquanto o número de emigrantes tem aumentado. O resultado é que, mesmo com a imigração, há um sem número de sectores que enfrenta uma crise de mão de obra.
E também não é verdade que precisemos de mão de obra qualificada. Não precisamos de médicos, engenheiros, gestores, cientistas, etc.: esses formamos em quantidade e qualidade nas nossas universidades, só precisamos de conseguir que não abandonem Portugal. A imigração que precisamos é mesmo para trabalhar no campo, na pesca, e vários outros sectores que até ao “boom” da imigração não encontravam mão de obra.
Evidentemente podemos discutir se a imigração em massa não tem um efeito perverso sobre esses sectores, permitindo manter uma política de baixos salários, perante trabalhadores que não têm a mesma capacidade negocial que os portugueses. Mas isso não significa que tenhamos imigração a mais.
Então isto significa que não há qualquer problema com a imigração em Portugal? Não, significa apenas que o problema não é haver muitos imigrantes, mas a total incapacidade do Estado de fiscalizar a Imigração. Abrir as portas à Imigração sem ter a capacidade de lidar com os processos de legalização, sem garantir que há capacidade para alojar estas pessoas, sem saber se têm emprego, sobretudo sem investigar a forma como cá chegaram, dando carta livre às redes de tráfico para explorar pessoas pobres à procura de uma vida melhor, é um crime humanitário.
Quem defende uma política de portas abertas sem qualquer critério defende tanto os imigrantes como André Ventura e as grupetas neo-fascistas a que ele andou a piscar o olho neste fim-de-semana. Uns e outros usam pessoas em situação especialmente frágil como arma de arremesso político, sem qualquer vergonha.
Sim, Portugal precisa de Imigrantes. E precisa de Imigrantes que estejam dispostos a fazer trabalhos duros e mal pagos. Mas o Estado tem a obrigação de garantir que os imigrantes têm condições de vida e de trabalho dignas. Não pode continuar a acolher pessoas que vêm dormir na rua, explorados por redes de tráficos, sem qualquer esperança de legalização e sem condições para se integrar na sociedade. O discurso humanista das portas abertas esconde a exploração de milhares de pessoas sob a incompetência do Estado.
Mas é preciso clareza. Acreditar que é preciso controlar a imigração não se confunde com o nojento discurso do Chega, que sentindo-se apertado nas sondagens, com medo de novos influencers fascistas nas redes sociais, adopta envergonhadamente a linguagem de movimentos racistas, desumanizando os imigrantes e atacando o principio básico da civilização ocidental, herdeiro do Cristianismo, de que todos os homens foram criado à imagem e semelhança de Deus. E aqueles que enchem a boca em defesa dos valores cristãos, pregam contra o islão e enchem a boca com a defesa da vida, deviam corar de vergonha quando tratam os imigrantes da mesma forma que os defensores do aborto tratam os embriões. Podem tentar enganar a consciência, com discursos redondos, mas só tentam disfarças o indisfarçável: que caminham lado a lado com Mário Machado e amigos, ecoando os mesmos hinos que os movimento neo-nazis cantam por essa Europa fora.
E por fim, não posso deixar de referir os católicos que publicamente participam nesta campanha contra a imigração e que este Domingo orgulhosamente marcharam explicando que Portugal é nosso e clamaram pela deportação: o Papa tem sido claríssimo sobre a imigração. E ouvir o Papa quando fala do aborto, mas ignorar quando fala sobre migrantes, é igual à extrema-esquerda que ouve o Santo Padre sobre o migrantes e depois ignorar o Bispo de Roma quando fala sobre o aborto. Não se pode servir a dois senhores, não se pode servir o poder e a Cristo.
No centro da política deve estar o Ser Humano. Seja uma criança por nascer, seja um imigrante. É justo e humano defender políticas de imigração ajustadas, capazes de acolher imigrantes sem descurar os que já estão cá estão que precisam de apoio. Mas não confundamos uma preocupação humana por aqueles que chegam ao nosso país com o egoísmo e o racismo daqueles que considera que o humanismo é apenas para aqueles que nasceram no local certo.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

O racismo é parvo mas não é crime

 


1. O Direito Penal é a ultima instância do Direito. Este ramo do Direito serve para salvaguardar direitos fundamentais que não podem ser salvaguardados de outra forma. Ou seja, só é crime, a ofensa a bens jurídicos importantes que não podem ser defendidos de outra forma. Por exemplo, cuspir na rua é ilícito mas não tem importância suficiente para ser crime.


2. O racismo, em si mesmo, não é crime. Se eu for na rua e mudar de passeio porque vejo uma pessoa de um etnia que não gosto ou se habitualmente der o lugar as senhoras no autocarro e não o fizer porque a senhora é de um determinada etnia, é moralmente e socialmente reprovável, mas não é crime. Nem sequer é crime se, numa conversa privada, eu fizer observações sobre certos povos.


Um comportamento para ser crime tem que violar um direito de um terceiro (ainda que em abstracto). Ser um selvagem não é algo que se recomende, mas não em si mesmo crime.


3. O racismo é crime quando, de alguma forma, ofende o direito fundamental de um terceiro e não houver outra forma de o defender. Por exemplo, se eu me cruzar no passeio com alguém de outra etnia e o mandar sair da frente porque não quero cruzar-me com pessoas dessa etnia, provavelmente estarei a incorrer num crime. Como será crime se defender publicamente que as pessoas de um determinada etnia devem ser tratadas de forma diferente pelo facto de serem dessa etnia. É crime porque em ambos os casos estou a atacar direitos fundamentais de terceiros.


4. Afirmar publicamente que um povo não gosta de trabalhar é crime? Dificilmente, porque dificilmente isso irá afectar os direitos de terceiros. Sim é insultuoso, mas os insultos em si mesmo não são abstratos. O Direito Penal não existe para punir todas as faltas sociais. Uma graça de mau gosto é isso mesmo, uma graça desagradável, não um crime.


5. O incidente de hoje com Ventura é uma estratégia da esquerda. Gritar racismo ou qualquer outros dos capitais capitais dos dias de hoje de cada vez que abre a boca, dizer que é um criminoso e anti-democrático, serve apenas para se exaltar a si próprios como defensores da Liberdade e da Democracia.


Infelizmente a banalização do racismo tem uma consequência prática: é que se tudo é racismo então nada é racismo. Se tudo é crime, nada é crime. É como na história do Pedro e do Lobo, em que o Pedro grita tantas vezes Lobo, que quando ele aparece, ninguém acredita. A esquerda está tão ocupada a rotular piadas de mau gosto como crime que quando aparecem casos de racismo de facto, já ninguém lhes liga.


6. José Pedro Aguiar Branco foi o único que esteve bem hoje no Parlamento. Não caiu na armadilha de Ventura, não caiu na armadilha da esquerda e assumiu o seu papel como Presidente da Assembleia da República, não como censor dos bons costumes. Já percebemos que esta legislatura vai ser fértil em escândalos demagógicos deste calibre, com o Chega e a esquerda a abusar da demagogia à procura de acirrar os seus guerreiros sociais. Caberá a Aguiar Branco não permitir que a Assembleia da República se transforme no campo de batalha que ambos os contendores procuram.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Pedro e Giovani.


Na última semana de Dezembro o país ficou chocado com a notícia de um jovem estudante morto num assalto em plena Lisboa. Passado uma semana, nova morte de um jovem estudante, desta vez em Bragança, por um bando de delinquentes da noite.
Normalmente estas duas tragédias seriam sobre a dor das famílias e a necessidade de combater dois fenómenos: a insegurança junto da Cidade Universitária e a violência que tem vindo ao aumentar na “noite”.

E provavelmente assim seria se o primeiro jovem não fosse branco e o segundo negro. Rapidamente a morte destes dois rapazes enquanto tragédia foi esquecida, para se transformar numa batalha política.

É verdade que a politização começou logo com o primeiro crime, ainda que de forma marginal. Mas com a segunda morte a coisa rapidamente se descontrolou. O crime era um acto de racismo, a comunicação social não tinha dado a mesma cobertura aos dois, diziam os activistas anti-racismo. Em resposta, vieram logo aqueles que diziam que estas associações não se preocupavam com a morte do jovem branco e que tinham sido negros a matar o primeiro.

Entretanto foram marcadas várias acções contra o racismo por causa da segunda morte, mesma sem qualquer indicação que o crime tivesse relacionado com a cor do morto.
No meio surgiu o boato de que o jovem teria sido morto por ciganos. Nova ronda de acusações que culminou na manifestação anti-racismo onde o famoso activista Mamadou Ba quase agrediu o repórter António Abreu por lhe perguntar sobre os ciganos. De seguida as redes sociais tornaram-se num campo de batalha, com acusações de racismo, de fake news, de isto e daquilo de ambos os lados. 

Finalmente veio a notícia de que afinal o crime não tinha motivações racistas e não tinha sido executado por ciganos e a questão esmoreceu. Não havendo racismo, não havendo ciganos, aparentemente a morte de dois jovens estudantes começou a perder o interesse. 

E isto é talvez das coisas mais trágicas do nosso tempo. Vivemos numa mentalidade marxista, que impregna muitas vezes até aqueles que o dizem combater. Contrariando a ideia de da fraternidade cristã, de homens criado à imagem de Deus em igual dignidade, e a ideia clássica da sociedade como um corpo que tem que trabalhar em harmonia, o marxismo dividiu a sociedade em classes que lutam entre si. E se o marxismo se ficou pelo povo contra o capital, hoje os seus herdeiros desdobraram esta luta numa quantidade infinda de identidades. Infelizmente, muitos dos que se opões ao marxismo acabam a olhar para a sociedade da mesma forma, mas escolhendo o “outro”lado como bom. Também acreditam que o mundo se divide entre homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, brancos e negros, só que estão do lado dos homens, dos heterossexuais e dos brancos! 

E assim vivemos num tempo de trincheiras, onde a morte de dois jovens só tem interesse enquanto arma de arremesso contra o inimigo. Onde o que realmente importa é se essa morte permite acusar o inimigo de alguma coisa.

Esta mentalidade é trágica. Pedro e Giovani foram mortos por bandidos. Mas foram mortos segunda vez por todos aqueles que os quiseram reduzir a arma política.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Hélder Amaral e os afrodescendentes: a diferença entre a Direita e a Esquerda - Observador, 19/07/19

Li nestas semanas em grandes parangonas que o Bloco e o Livre têm nas suas listas ao parlamento mulheres afrodescendentes. Ao olhar para estas notícias não consegui deixar de pensar na diferença entre a extrema-esquerda e a direita, sobretudo o CDS.

Para a extrema-esquerda Beatriz Dias e Joacine Moreira são vistas apenas como membros de uma minoria, como números de uma quota que é preciso preencher. Aparentemente o que interessa não são as suas qualidades, os seus méritos, as suas capacidades, mas apenas a cor da sua pele e o seu sexo.

E aqui está a grande diferença entre eles e o CDS: para o CDS o que interessa não é a etnia ou o sexo, mas a pessoa em si mesma. Por isso não há notícia “CDS apresenta afrodescendente como cabeça de lista em Viseu”. Para o CDS, o presidente da distrital de Viseu, deputado há mais de uma década e cabeça de lista às eleições deste ano não é “um afrodescendente”, é o Hélder Amaral, que não deve o seu lugar à cor da pele, ou à necessidade de preencher uma quota, mas às suas capacidades e qualidades.

Aliás, tal como não há notícia de “mulher cabeça de lista”, porque Assunção Cristas, Cecília Meireles, Raquel Abecassis, Patrícia Fonseca, Inês Palma Teixeira e Melissa da Silva (para além de Ana Rita Bessa, Isabel Galriça Neto e Isabel Menéres Campos, que não são cabeças de lista, mas entraram na quota nacional), não estão lá pelo seu sexo, mas pelo seu mérito. É verdade que são mulheres, mas não são apenas isso, são sobretudo pessoas com currículo profissional e político, muitas com provas dadas no Parlamento. E é por isso que são candidatas, não para satisfazer a obsessão igualitária moderna.

A esquerda olha para a sociedade e divide-a em classes. Operários vs patrões, povo vs burguesia, mulheres vs homens, brancos vs minorias, heterossexuais vs LGBTI, e por aí fora, num conjunto de classes e de conflitos que parece não ter fim. Por isso para a esquerda não interessa a pessoa, mas a sua “classe”. Por isso Beatriz e Joacine são apenas “mulheres afrodescendentes”.

Isto faz com que a esquerda acabe a partilhar a mentalidade dos movimentos racistas. A diferença é que os racistas dividem o mundo em brancos e pretos e a esquerda entre brancos e afrodescendentes. Mas quer para uns quer para outros a cor da pele define o que a pessoa é.

Para a direita democrática a pessoa está no centro da política, não a sua classe, a sua etnia, ou o seu sexo. Por isso a preocupação da direita não é a falsa igualdade da esquerda, que prefere os pobres mais pobres desde que os ricos também o fiquem, mas sim criar condições para que todos tenham não apenas uma vida digna, mas iguais condições para poder construir a sua vida.

As quotas raciais com que a esquerda sonha não vão resolver qualquer problema. Não resolvem o problema das centenas de milhares de negros que habitam bairros sociais à volta das grandes cidades, onde abunda a criminalidade, com escolas degradadas, com empregos mal pagos, com horários de trabalho desumanos. Nem dos negros, nem dos brancos, nem dos ciganos que lá moram. E achar que resolve é mais uma vez a manifestação desta mentalidade racista da esquerda, que pensa que um negro representa todos os outros, como se não estivéssemos a falar de pessoas com histórias, culturas e circunstâncias diferentes. Como se um cabo-verdiano católico, um guineense muçulmano, ou um português cujo os avós vieram de Moçambique fossem uma só entidade representada por qualquer pessoa que partilhe com eles a tonalidade.

Olhando para o parlamento é evidente, comparado com a sociedade, que há lá poucos negros. Como também se verá que há pouca gente do interior ou que há pouca gente vinda de bairros pobres. Mas isto é verdade para o parlamento, como é para as grandes empresas, como é para as carreiras universitárias, como é para as carreiras da magistratura A verdade é que os mais pobres em Portugal estão destinados a trabalhar nas obras ou, numa versão mais moderna, em grandes cadeias comerciais.

Portugal tem de facto um problema social grave: a incapacidade de tirar os pobres da pobreza. Mas isso não se resolve com quotas, nem com medidas artificias, mas com uma verdadeira política de educação centrada nos alunos e não na lenga-lenga da Escola Pública. O Bloco e o Livre querem mais negros no Parlamento? É simples: larguem o estatismo, larguem a sua visão estratificada da sociedade e comecem a trabalhar para criar escolas que estejam realmente ao serviço das comunidades e não ao serviço do Estado. Até lá, por muitas quotas que inventem, por muito afrodescendentes que coloquem nas suas listas, tudo continuará na mesma.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mário Machado e Mamadou Ba: a mesma luta contra a história de Portugal!




A Península Ibérica é habitada há milhares de anos. Antes de surgir Portugal passaram por cá iberos, celtas, gregos, fenícios, cartagineses, romanos (que sendo um império culturalmente homogéneo eram etnicamente bastante heterogéneos), vândalos, suevos, alanos, visigodos e por fim árabes.

Quando Dom Afonso Henriques, uma mistura de borgonhês e leonês, se lançou na reconquista, fê-lo na companhia de galegos, dos senhores de entre Douro e Minho, dos cavaleiros vilões de Coimbra, dos cruzados flamencos, ingleses, normandos e templários de toda a Europa. O reino de Portugal foi construído com moçárabes, judeus e muçulmanos e com o grande auxílio dos monges de Cister, também eles provenientes de vários pontos da Europa.

E se nos séculos seguintes Portugal foi sempre porto para toda a Europa, fazendo a ligação entre o Mediterrâneo e o norte do continente, com os descobrimentos o nosso país espalhou-se pelo mundo.

O Império foi construído não apenas pela força das armas, mas muito também graças à envagelização, à diplomacia e ao comércio. E assim Portugal iniciou uma relação de cinco séculos com África, com a Índia, com o extremo Oriente e com o Brasil. Ainda hoje podemos visitar os nossos monumentos um pouco por todo o mundo. 

Mas a relação com o resto do mundo não se resume à pedra morta, mas vive ainda hoje na cultura de vários países. Antes de mais na língua portuguesa, falada em cinco continentes. Mas também em tantos outros pormenores, da gastronomia ao futebol (basta relembrar as celebrações pela conquista do Euro 16 em Timor).

Assim como Portugal se espalhou pelo mundo, também o mundo veio até Portugal. Por isso nos podemos orgulhar de Coluna ou de Eusébio. Por isso cantamos com Caetano e Cesária Évora. Por isso lemos com comoção Mia Couto e Vinícius.

Evidentemente esta nossa relação com o mundo nem sempre foi pacífica. Muitas vezes errámos, usámos violência quando não devíamos, roubámos o que não era nosso. Como qualquer outro povo, também nós temos a nossa quota-parte de misérias. Mas a verdade é que a nossa história é fruto de um cruzamento de povos e culturas. Portugal partilha a sua história com Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor, Índia e China, assim como com tantos outros países onde a presença portuguesa se fez sentir, como a Tailândia, o Japão ou o Sri Lanka. 

Por tudo isto é absurdo qualquer tentativa de fazer do racismo um valor do patriotismo. Se o racismo é sempre absurdo, é-o ainda mais quando se tenta basear na defesa da cultura portuguesa. Porque o racismo é a antítese da nossa cultura, é o contrário daquela cultura que permitiu a um pequeno país como o nosso ter um império mundial. Não foi só com europeus branquinhos que Portugal manteve a sua presença no mundo. Foi também com portugueses africanos, índios, goeses, chineses e de tantos outros povos asiáticos, unidos a Portugal pela Fé. 

Dizer a um negro em Portugal “volta para a tua terra” é absurdo. Não apenas pela grande probabilidade de ele ser nado e criado em Portugal, mas porque mesmo que não seja, é muito provável que pertença a um desses povos que partilham connosco 500 anos de história. Por isso Portugal também é terra de tantos negros que habitam os bairros sociais e que nos últimos dias têm sido alvo de insultos torpes por causa de meia dúzia de bandidos. Eu tenho mais em comum com um cabo-verdiano do que com um alemão!

Por outro lado, tentar fazer passar Portugal como um país racista é absurdo. Por tudo o que já foi dito acima, é evidente que o nosso país não é racista. Aliás, o nosso país tornou-se grande precisamente por não o ser! Quer isto dizer que não há racismo em Portugal? Claro que há! Cá temos tudo, do bom e do mau. Incluindo racistas. Mas tentar reduzir problemas sociais graves, como a integração dos habitantes de bairros sociais, a uma luta racial versão marxista é falso e perigoso. Perigoso porque, à custa de tanto repetir a cassete do racismo, acaba mesmo por gerar problemas raciais.

Aliás, o racismo de Mário Machado e o anti-racismo de Mamadou Ba são duas faces da mesma moeda. Quando um negro é apanhado num crime ambos dizem a mesma coisa “é porque é negro”. No caso de Mário Machado diz para acusar os negros de serem criminosos, no Caso de Mamadou Ba para explicar que os negros são oprimidos. Mas no fundo ambos reduzem as pessoas à sua etnia.

Portugal tem problemas graves de pobreza e, sobretudo, tem problemas graves de integração social. Somos dos países da Europa onde é mais difícil aos pobres ascender socialmente. Na área metropolitana de Lisboa continuam a abundar bairros pobres, onde o crime impera, com escolas degradadas e onde os habitantes vivem em condições desumanas. Isto nada tem de racismo, é apenas sinal do falhanço do Estado relativamente aos mais pobres. Reduzir este problema a polícias vs habitantes dos bairros sociais ou brancos vs negros é passar ao lado do grande problema. 

Não temos um problema racial, temos um grave problema social. Em vez de perdermos tempo com debates imaginários, ou com personagens pouco recomendáveis, seria melhor começar de facto a tentar encontrar soluções para os problemas reais.