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sábado, 30 de maio de 2020

O populismo é um sintoma, temos que tratar é a doença, Observador, 30/05/20

Para a minha geração, nascida em democracia, para quem a queda U.R.S.S. é apenas uma vaga recordação da infância e a guerra na Jugoslávia um acontecimento confuso que preocupava os adultos, a democracia é um dado adquirido. Muitas vezes, demasiadas, esquecemo-nos que a democracia que conhecemos não só é recente como está longe de ser um sistema universal. De facto, só no meu tempo de vida passou a democracia a ser a regra na Europa, sendo ainda hoje desconhecida em boa parte do mundo.

E o facto de darmos a democracia por adquirida leva-nos muitas vezes a acreditar que ela é indestrutível, que é inexorável, que é inevitável. Temos a crença de que qualquer ameaça à democracia acabará, inevitavelmente, derrotada e condenada ao caixote de lixo da História. Infelizmente essa mesma História prova que esta crença não é justificada. Basta um rápido olhar para o tal caixote de lixo para lá vermos impérios, regimes e nações que se consideravam eternos e que hoje só vivem nos livros (e alguns nem isso).

Talvez por isso não demos a devida atenção à crise que a democracia atravessa no Ocidente em geral, e em Portugal em particular. Pode haver mais ou menos revolta com o regime, mas damos por adquirido que ele não cai.

A única coisa que parece realmente assustar é o chamado populismo. E assusta porque faz um discurso contra o sistema. Não se limita a denunciar os problemas, promove um novo sistema. E a simples ideia de que possa haver outro sistema, que não a democracia que conhecemos, assusta de tal maneira que chega a acontecer defender-se os males da democracia só para evitar esse papão. Basta lembrar como nas últimas eleições brasileiras vários comentadores defenderam o PT, usando como argumento que era preferível um corrupto a um populista.

O problema é que a verdadeira ameaça à democracia não é o populismo. O populismo é a reacção à crise que a nossa democracia atravessa. É a reacção à promiscuidade entre políticos, poder económico e jornalistas. É a reacção aos escândalos de corrupção e amiguismo que assombram a nossa classe política e que passam impunes. É a reacção aos partidos cada vez mais fechados sobre si mesmos, os seus esquemas de poder e os seus tachos. É a reacção a uma comunicação social pouco isenta, ao serviço do poder e de agendas ideológicas. É a reacção à economia de compadrio. É a reacção ao falhanço do Estado Social, com uma justiça lenta, um SNS a cair aos pedaços e uma Segurança Social afundada em burocracia. É a reacção a um sistema onde os políticos respondem ao directório do partido e não aos cidadãos.

É disto que o populismo se alimenta. Evidentemente que o faz muitas vezes de forma pouca honesta, empolando e descontextualizando factos para manipular a insatisfação popular. O populismo vive da revolta, e por isso tem que a alimentar.

Criar um cordão sanitário à volta dos populistas, desprezando os factos que o alimentam, catalogar de populista qualquer pessoa que alerte para a crise do regime, ridicularizar aqueles que defendem algumas das causas que os populistas tomaram de assalto, não só não resolve o problema do populismo, como só o alimenta.

Fingir que a corrupção não é um problema, ignorar os problemas de criminalidade em certos bairros, ridicularizar quem defende a Vida e a Família, insultar quem demonstra receios com a crise migratória, cerrar fileiras à volta dos aparelhos dos partidos tradicionais, mesmo quando há evidências claras de comportamento menos ético, é apenas lançar combustível para uma fogueira. Como os Estado Unidos e o Brasil demonstram claramente.

O populismo é um sintoma de um regime doente. É a febre de uma infecção. Podemos tomar paracetamol, e este até pode trazer algum alívio. Mas a doença não só não vai desaparecer, como vai provavelmente piorar, até a infecção estar tão espalhada que nenhum remédio a resolve.

Mais importante do que combater o populismo, é combater a doença que assola a nossa democracia. É combater a corrupção, aproximar os eleitos dos eleitores, é garantir uma imprensa isenta, uma justiça célere, um Estado Social que funcione, acabar com a economia de compadrio, a promiscuidade entre políticos, bancos e as grandes empresas. Ou seja, mais importante do que combater o populismo é fortalecer a democracia e garantir um sistema justo. Se formos capazes de o fazer, então o populismo irá desaparecer. Como a febre desaparece quando se acaba a infecção.

Ao contrário do que os populistas tentam vender, ainda existem muitos políticos honestos que trabalham pelo bem comum, muitos jornalistas isentos que vivem a missão de informar o público e muitos empresários que com o seu trabalho criam riqueza para o país. Esta é a sua hora. Hoje mais do que nunca é preciso apoiar e incentivar aqueles que servem realmente ares publica. Caso contrário só resta esperar até que a alternativa de voto seja nos “donos disto tudo” ou nos populistas. E aí será indiferente, porque estaremos só a assinar a certidão de óbito da democracia.


domingo, 5 de janeiro de 2020

A esquerda viu-se ao espelho e disse Chega!




É fascinante ler o artigo de Daniel Oliveira no Expresso, Flores de estufa com espinhos. Escreve a certa altura o comentador que “os mesmos que ao primeiro reparo se atiram para o chão num pranto, vítimas de ignóbil censura, lançam na lama quem se atreva a levantar-lhes a voz.” e mais à frente acrescenta “A degradação do espaço mediático e a banalização do escândalo tornou os cidadãos menos exigentes, não mais.” e ainda “não deixar que usem as redes sociais para a difamação.”

Um leitor mais distraído poderia pensar que Daniel Oliveira estava a praticar aquela tradição da esquerda que é a auto-critica. Finalmente tinha percebido o modus operandi da extrema-esquerda que sempre apoiou, e vinha agora corajosamente denuncia-lo.
Mas não, aparentemente Daniel Oliveira, e a maior parte da esquerda, não vê qualquer mal quando Marisa Matias manipula informação sobre uma votação no Parlamento Europeu para fazer uma campanha falsa contra Nuno Melo, não demonstra qualquer sobressalto quando Isabel Moreira chama bárbaros e outros insultos a quem dela discorda, até não se importa de partilhar memes mentirosos sobre Pedro Passos Coelho. Isto só os incomoda quando são os “fascistas” a fazerem-no.

A esquerda descobriu que dizer que o Governo era uma vergonha não era linguagem apropriada para o Parlamento. Pelos visto adequado é passar quatro anos a dizer que o governo rouba. Também descobriu o respeito institucional devido à segunda figura de Estado. Respeito esse que não estendem à primeira, visto que passaram dez anos a publicamente dizer tudo que havia para dizer sobre Cavaco Silva. Por fim, a esquerda agora acha execrável o vitimismo, e que se traga para o Parlamento as facturas dos polícias. Pena que nunca se tenha incomodado quando um doente com hepatite foi usado politicamente para atacar Paulo Macedo (para não falar dos amigos imaginários de Carlos César).

Nada no populismo de André Ventura é novo, tirando o facto de não ser de esquerda. Aquilo que o deputado do Chega e os seus apoiantes fazem hoje é igual ao que a esquerda tem feito nos últimos quarenta anos. Desde os berros de fascista na constituinte até as grandoladas no governo de Passos Coelho, a esquerda leva mais de quarenta anos a degradar o debate público e político. A esquerda pode achar Ventura um monstro, mas é um monstro que eles criaram.

A ascensão de André Ventura é a resposta a quarenta anos de demagogia e populismo. É a resposta da direita que se fartou da desonestidade da esquerda que responsabilizou Passos Coelho pelos mortos numa crise de gripe e olhou para o lado nos mortos de Pedrógão. É a resposta da direita farta de ser achincalhada e insultada como retrógrada e diagnosticada com um conjunto de fobias que a esquerda vai inventado ao longo do caminho. É a resposta da direita que vê tudo a ser permitido à esquerda, mas que é suposto manter-se em silêncio. André Ventura é fruto da frustração causada pelo populismo da esquerda.

Evidentemente, o populismo da esquerda não se combate com um populismo de direita. A desonestidade da esquerda não justifica a desonestidade da direita. Mas não vale a pena Daniel Oliveira e os seus camaradas virem agora escandalizar-se, quando foram cúmplices na degradação da democracia que trouxe ao parlamento André Ventura.

No fim do seu artigo, Daniel Oliveira deixa várias estratégias para combater o Chega. São todas inúteis. A única maneira eficaz de a esquerda combater o populismo de direita seria ela própria abandonar o populismo. Infelizmente não me parece que o venha a fazer, uma vez que deve o seu sucesso eleitoral à sua capacidade amoral de manipular os factos para obter apoio das massas. Para realmente combater o populismo da direita, a esquerda teria de olhar para o espelho e dizer: Chega! Mas não o faz, provavelmente com medo que o seu reflexo seja André Ventura.