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domingo, 30 de março de 2025

Discurso Caminhada pela Vida 2025


 

Olá a todos! Muito obrigado!

Mais um ano onde, por todo o país, se Caminhou pela Vida! E é impressionante pensar que ano, após ano, aqui continuamos, sem esmorecer! Alguns de nós já fazemos isto há algum tempo. Felizmente uma grande maioria dos que aqui estão ainda não tinha nascido em 98, na primeira Caminhada pela Vida, mas é impressionante ver como temos tantos e tantos jovens, tantos e tantos.

Este ano cumprem-se 18 anos desde que o aborto livre é legal em Portugal. Ou seja, este ano vai votar a primeira geração que cresceu a ouvir que o aborto era legal!

Mas esta geração, a geração pró-vida continua aqui firme, a caminhar, a dizer com clareza e sem medo, que a vida tem valor desde o momento da concepção até à morte natural! Muito obrigado! A presença destes jovens, a vossa força enche-nos a todos de coragem!

Este ano caminhamos entre legislaturas. Acabou agora uma, vai começar agora outra. E algumas coisas boas aconteceram desde o ano passado: conseguimos travar o avanço dos prazos do aborto, a eutanásia ainda continua sem ser legal, já vão quase dez anos! Há dez anos que estão a tentar e ainda não conseguiram! E esperemos para o ano estar a dizer o mesmo!

E conseguimos dar um belo golpe na ideologia de género nas escolas! É uma vitória, é mesmo uma grande vitória.

Mas vêm aí novas eleições e nós temos duas armas a voz e o voto. E se hoje fizemos ouvir a nossa voz, temos de a continuar a fazer ouvir até dia 18 de maio! Façam-se ouvir juntos dos partidos e dos candidatos a deputados: escrevam-lhes, escrevam para os jornais, publiquem nas redes sociais! Façam ouvir a nossa voz com clareza:

Recusamos o alargamento dos prazos do aborto! Recusamos a Eutanásia! Recusamos a ideologia de género! Mas mais: queremos medidas de concretas de apoio às mulheres e às famílias para que possam ter os seus bebés! Queremos medidas concretas de apoio aos doentes e aos idosos! Queremos liberdade, liberdade de consciência para os médicos e, sobretudo, liberdade para educar os nossos filhos, liberdade para afirmar que um homem é um homem e uma mulher uma mulher! Liberdade para afirmar que o aborto não é um direito, é um mal e tem de ser combatido! E acima de tudo, e deixa-me dizer isto da forma mais clara possível, e sem qualquer tibieza: queremos, lutamos, exigimos, o fim do aborto, sem nenhum se! E não temos ilusões: isso passa sem dúvida por medidas sociais de apoio às grávidas, mas passa também pela ilegalização do aborto!

O aborto não pode ser legal, o aborto não é um direito, um aborto é um crime! O aborto é um crime em qualquer circunstância! O aborto destrói uma vida! O aborto, aliás, destrói duas vidas!

Não nos deixemos enganar pelo discurso de que o aborto legal protege as mulheres, é mentira! Sabem quem o aborto legal protege? O aborto legal protege os patrões que não querem empregadas grávidas, proteges os homens que não querem ter filhos, protege os pais que não querem escândalos na família, protege a sociedade, para quem o aborto é mais barato do que uma criança. O aborto livre não protege as mulheres que querem ter os seus filhos e a quem estado nada oferece que não seja o aborto!

E por isso continuaremos a lutar: pelos bebés que não nasceram, pelas mulheres que são empurradas para o aborto, pelas mulheres cuja a única escolha que têm é entre desemprego, a solidão, a pobreza ou o aborto! Lutamos por elas! Lutamos por um país onde a vida humana é protegida desde o momento da concepção até à morte natural.

Vamos fazer ouvir a nossa voz até dia 18 de maio! E no dia das eleições usemos com sabedoria a nossa segunda arma: o voto! Usemos o nosso voto para construir uma sociedade que defende a vida, que defende a família, que defende a liberdade de educação!  Amigos, peço que façamos da liberdade de educação uma grande causa nossa! 

Votamos em quem defenda a vida desde o momento da concepção, que defenda a família, que defenda a liberdade de educação! Queremos liberdade para educar os nossos filhos!

Amigos, caminhamos este ano e, Deus queira, para o ano voltaremos a caminhar. E vamos continuar a fazê-lo, vamos continuar a dar testemunho da beleza da vida, vamos continuar a construir uma sociedade onde toda a vida tem dignidade! Muito obrigado, que Deus vos guarde e que Deus guarde Portugal! Viva a Vida!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

O aborto e o crescimento do ódio

 


Primeiro era só para os nascituros com risco de deficiência e para aqueles que foram concebidos por violação. Por alguma razão, um bebé deficiente tem menos valor que um saudável e um nascituro deve pagar pelos pecados do seu pai. Depois era só para evitar que as mulheres fossem presas, mesmo sabendo que não havia uma mulher presa por ter abortado há décadas. Agora afinal é um direito fundamental da mulher, e o bebé é reduzido a uma coisa sem qualquer direito, de tal forma que é preciso alargar os prazos do aborto legal, para garantir que não há qualquer estorvo à possibilidade de eliminar uma vida que não nasceu. Pelo meio, lembraram-se que afinal os doentes e idosos também não têm a mesma dignidade que o resto das pessoas e por isso, quando pedem para morrer, em vez de ser cuidados, devem levar uma injecção letal.

Esta loucura, e não tenho dúvidas que chegará o tempo onde a história assim julgará esta cultura da morte, não começou em 2007, começou em 1984, quando se começou a legalizar o aborto. E não terminou aí, continua viva ainda hoje. E assim irá continuar. Irá continuar porque é fruto de uma cultura que já não reconhece o valor intrinsecamente sagrado da vida humana.

Hoje a Pessoa tem valor na medida em que a sociedade assim o dita. Tem valor na medida em que tem utilidade prática ou afectiva para mim. Se assim não for, não é bem vida, é uma coisa, já não tem dignidade. É esta porta, da redução do outro à ideia que eu tenho sobre ele, que a legalização do aborto abriu. Uma porta que, depois das tragédias do século XX, devia ter sido fechada.

Não nos espantemos por isso que hoje se banalizem o discurso de ódio contra imigrantes, minorias, adversários políticos. A partir do momento em que o homem se fez Deus, e decidiu julgar ele em que momentos a vida humana passa a ter direito a existir, nesse momento, abrimos a porta à redução do outro a um objecto cujo valor sou eu que decido. É deficiente? Pode ser abortado. Está doente? Pode ser morto. A sua vinda não dá jeito? Eliminamos. E chamamos-lhe Direitos.

Dia 11 fez anos o referendo que tornou o aborto livre legal em Portugal. Um pouco por todas as redes sociais vi festejos, como se uma grande conquista se tratasse. Desde então mais de 230 mil crianças não nasceram, pela mão do Estado. É isto que festejavam. Como pode o ódio não triunfar numa sociedade que festeja a morte de centenas de milhares de crianças por nascer?

O artigo podia ficar por aqui. A tentação de apontar o ódio e ficar aí é grande. Mas a verdade é que é mesmo preciso responder é esta pergunta: como, neste tempo onde se festeja a morte de crianças por nascer, é possível não triunfar o ódio. E a resposta, não sendo fácil, é simples. Eu não posso mudar a sociedade, mas posso mudar o meu coração. Não posso impedir que o ódio cresça entre as pessoas, mas posso impedir que cresça em mim. Por isso aquilo que posso fazer, que podemos todos fazer, é responder ao ódio com amor. É diante de quem defende a cultura da morte, afirmar uma cultura de amor à vida. Não há vida em abstracto, mas às vidas concretas das pessoas com quem me cruzo.

Dia 29 de Março a Caminhada pela Vida sai à rua em 13 cidades do país. Um momento preferencial para dar testemunho da beleza da vida. Para responder à cultura do ódio, com uma cultura de amor. Caminhamos não por ódio, mas para dar testemunho de que a vida é sempre bela e pode, e deve ser amada, em qualquer circunstância.

domingo, 3 de novembro de 2019

Caminhar por todas as vidas.



Cara Teresa,

li o seu artigo sobre a Caminhada pela Vida e devo dizer que fiquei muito triste com o que escreveu. Infelizmente parece-me que parte de um preconceito contra aqueles que no dia 26 de Outubro deram um pouco do seu tempo para lutar pelo que acreditam.

De alguma maneira parece achar que o facto de nos manifestarmos publicamente contra o aborto e a eutanásia esgota toda a nossa intervenção cívica em defesa da vida. O que só quer dizer que ignora que muitos daqueles que colaboram ou simplesmente participam na Caminhada pela Vida estão bastante habituados a dar parte do seu tempo para ajudar os outros. Penso em muitos daqueles que comigo trabalharam na Caminhada e que são voluntários em bairros sociais, que participam em programas para renovar habitações de pessoas em dificuldade, que dão explicações a crianças pobres, que já fizeram voluntariado no estrangeiro, que ajudam em instituições que apoiam crianças, etc. São centenas, se não milhares, aqueles que para além de participar uma vez por ano nesta Caminhada, nos restantes 364 dias defendem a dignidade da vida humana dando parte do seu tempo para apoiar quem precisa.

Para além disso, ignora o trabalho de tantas instituições pró-vida que estão no terreno e que apoiam grávidas em dificuldade, crianças abandonas, famílias pobres. Instituições que acolhem, que dão formação profissional, que dão apoio jurídico, que providenciam bens materiais, ou que simplesmente aconselham mulheres que vão ser ou já são mães. E deixe-me dizer que de entre estas mulheres, muitas são imigrantes que só encontram apoio nestas instituições.

E ainda na sua descrição do que seria este povo pró-vida que sai à rua, fala sobre raparigas católicas americanas que abortavam por isto e por aquilo e que depois iam manifestar-se contra ao aborto. Cara Teresa, deixe-me dizer-
-lhe uma coisa: na Caminhada pela Vida não perguntamos a nenhuma das quase cinco mil pessoas que participaram em Lisboa, ou das quase onze mil que o fizeram em todo o país, sobre a sua vida íntima. Não apontamos dedos, não julgamos. Aliás, de entre as associações que participam neste Caminhada há uma que se dedica em exclusividade a apoiar mulheres que abortaram. Nós caminhamos em defesa da Vida com todos aqueles que o queiram fazer, sem qualquer pretensão de sermos justos ou perfeitos, apenas com desejo de testemunhar que toda a Vida tem dignidade.

Fala também da nossa cegueira relativamente a outras realidades onde a dignidade da Vida Humana não é respeitada. E concordo consigo. Não posso falar pelos milhares que caminharam dia 26, só por mim. Escrevi sobre o drama dos migrantes do Mediterrâneo, e dos migrante nas fronteira do México. Alertei várias vezes, dentro das minhas possibilidades, para aquilo que se passava na Síria. E também para a perseguição aos cristãos no próximo-oriente. E sobre o drama da guerra em tantas zonas de África. Contudo, sem dúvida, não fiz o suficiente. Nunca é suficiente. Os dramas são muitos e o tempo e os recursos limitados.

Felizmente a Plataforma Caminhada pela Vida e as associações pró-vida não são as únicas realidades de luta e apoio à vida que existem. Penso que seguramente conhece a Cáritas (que tanto faz contra a pobreza não só cá, mas como também na Síria e na fronteira do México), a Ajuda à Igreja que Sofre, o Serviço de Apoio aos Refugiados dos Jesuítas e tantas outras obras e realidades que trabalham, cada uma com o seu objectivo e know how próprio, na defesa da dignidade Humana. Lembro-me aliás que, aquando das eleições europeias, o SAR dos Jesuítas fez um inquérito sobre as posições dos partidos relativamente aos migrantes do Mediterrâneo. E lembro-me porque na ocasião tive a possibilidade de defender esta obra quando a acusaram de não falar do aborto. A resposta que dei na altura a esses críticos serve também para lhe responder a si: felizmente que há quem cuide dos refugiados e felizmente que há quem cuide da vida por nascer. Fazermos todos tudo serviria apenas para não se fazer nada.

Dito isto, não posso deixar de lhe perguntar: a si não lhe dói também saber que mais de quinze mil crianças são todos os anos mortas em Portugal antes de nascer? Não lhe dói saber que o aborto é a maior causa de morte no mundo? Não lhe dói saber que no Ocidente a esmagadora maioria das crianças com Trissomia 21 não chega a nascer? Não lhe dói saber que em Portugal há mulheres que abortam porque são obrigadas pelos companheiros, pressionadas pelos patrões, coagidas pela família? Não lhe dói saber que o aborto em Portugal raramente é por vontade da mulher, mas pela falta de apoio da sociedade? Não lhe parece que isto é razão para se sair à rua uma tarde ao ano?

Por fim, cara Teresa, permita-me que lhe diga isto: a Caminhada pela Vida não é confessional. Não é um evento religioso, mas cívico. É verdade que para um católico a vida é especialmente sagrada. É verdade que para um cristão o 5º mandamento encerra bastante a questão. Para além disso, para quem acredita na sagrada escritura que a vida começa na concepção é algo que nós sabemos ainda antes de a biologia o afirmar: "como é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Assim que a tua saudação chegou aos meus ouvidos o menino exultou de alegria no meu seio". E que toda a vida tem dignidade já os cristãos o aprenderam com São Paulo antes de o aprenderem na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Mas tudo isto, a que habitualmente chamamos o personalismo cristão, não é apenas uma questão de Fé, é também a base da Civilização Ocidental. A nossa sociedade está fundada sobre o valor intrínseco da vida Humana. Sobre a ideia de que todos, independentemente das suas circunstâncias, somos iguais em dignidade. Aliás, é por essa igual dignidade que o voto é universal e todos os votos têm o mesmo valor. A ideia de que toda a Vida é digna nasce de facto do cristianismo, mas há muito que é património comum sobre o qual se construiu a civilização dos direitos humanos.

Por isso lutar pelo direito à vida das crianças por nascer, lutar pela inviolabilidade da vida humana em todas as circunstâncias não é uma luta dos cristãos, mas a luta por uma sociedade onde a Vida humana é uma realidade acima do Estado e não ao dispor deste.

Despeço-me com a esperança de que para o ano venha caminhar connosco. Se deixar cair o seu preconceito irá ver um povo de todas as idades, de todas as condições sociais, de todas as religiões, que sai em festa à rua para testemunhar que toda a vida tem dignidade.

José Maria Seabra Duque,
coordenador-geral da Plataforma Caminhada pela Vida.

P.S.: Reparei que cita várias vezes o Santo Padre. Chamava à sua atenção para estas citações que aparentemente lhe escaparam:

Sobre o aborto:

Será lícito deitar fora uma vida para resolver um problema? Será lícito contratar um assassino para resolver um problema? Esta é uma questão de direitos humanos e não uma questão religiosa: um ser humano nunca é incompatível com a vida

Sobre a eutanásia:

A eutanásia e o suicídio assistido são uma derrota para todos. A resposta a que somos chamados é nunca abandonar aqueles que sofrem, não desistir, mas cuidar e amar para restaurar a esperança

E por fim, da mensagem que o Santo Padre enviou à Caminhada pela Vida em Portugal em 2017:


Sustentando tal verdade com factos e razões científicas e morais num dramático apelo à razão para ser voltar ao respeito de cada vida humana desde a sua concepção até ao último respiro. Sobre todos os aliados de Deus na batalha contra o aborto, eutanásia e demais atentados à vida humana, Santo Padre invoca a sabedoria e fortaleza da Espírito Santo "Senhor que dá a vida" ao conceder-lhes a sua Bênção Apostólica.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Referendo à eutanásia: uma hipótese para lutar.



As últimas eleições legislativas provocaram uma grande e grave mudança para o país. A esquerda reforçou a sua maioria, o PSD tem um grupo parlamentar inexperiente criado à imagem de Rui Rio e o CDS quase foi varrido do mapa.

Estas mudanças terão várias consequências, sendo o escancarara-se da porta à legalização da morte a pedido uma das principais.

O chumbo desta medida na última legislatura foi por uma unha negra. Foi fruto de muito trabalho e do cruzamento de várias circunstâncias. A oposição do PC, a posição firme do CDS, a intervenção de Cavaco Silva e Passos Coelho. Foi a única vez que se conseguiu o chumbo de uma medida fracturante com uma maioria de esquerda no Parlamento.

Infelizmente as circunstâncias mudaram. O PSD ficou reduzido a 79 deputados, o PC a 10 e o CDS a 5. Dos partidos novos só o Chega é contra a eutanásia. No PS, só ficou um dos dois deputados que votou contra. Na melhor das hipóteses são 95 votos contra a eutanásia. Provavelmente, considerando que Rui Rio é a favor da legalização da morte a pedido, 65 ou 70. Ou seja, a eutanásia será aprovada no Parlamento por uma maioria de 20 a 50 votos. Há votos suficientes não apenas para aprovar a eutanásia, mas também para ultrapassar um veto presidencial.

Evidentemente que o Bloco de Esquerda conhece estes números, por isso fez da legalização da eutanásia a sua primeira medida nesta legislatura. Podemos lutar o que quisermos, fazer as campanhas que quisermos, que o resultado em São Bento já está decidido. Haverá um simulacro de debate e depois uma aprovação sem espinhas.

Por isso temos duas opções: esperar a aprovação da lei ou tentar tirar a decisão de São Bento. E retirar a decisão do Parlamento significa pedir um referendo. O referendo é a única alternativa à legalização da eutanásia. Ou pelo menos, a única alternativa de lutarmos realmente contra tal injustiça.

Foi por isso que, na última Caminhada pela Vida, foi anunciada uma Iniciativa Popular de Referendo sobre o projecto-lei do Bloco. Isto significa apresentar ao Parlamento uma proposta de referendo sobre esse projecto, acompanhada por 60 mil assinaturas. Caberá depois ao Parlamento aprovar ou chumbar essa proposta.

Não se trata, como alguns dizem, de referendar a Vida. A Vida humana é inviolável, por isso nem a Assembleia da República, nem o povo têm legitimidade para legislar sobre ela. A Vida é um direito sobre o qual a lei não pode dispor.

Infelizmente é mesmo isso que os deputados se propõem fazer: aprovar uma lei que legaliza a morte de um doente quando este o pede. E o referendo é por isso apenas um instrumento para travar esta lei.

            A posição de que não se pode fazer um referendo para travar a legalização da eutanásia lembra a posição dos pacifistas que dizem que a guerra é sempre injusta. A guerra é má, mas se um exército invade um país e começa a trucidar inocentes, então a guerra não só é um meio legítimo, como é também uma obrigação para a defesa destes.

Negar o referendo poderá dar superioridade moral. Mas é a superioridade moral de quem está disposto a pagar com a vida dos outros a sua perfeição ideológica. É o farisaísmo do levita a caminho do templo, que não pára para ajudar um ferido na estrada para não ficar impuro.

Também há quem tema o referendo por temer as consequências da derrota. Sobretudo por temer que depois se torne mais difícil revogar uma lei que foi aprovada pelo povo. Mas a verdade é que nenhuma lei fracturante foi revogada no Parlamento português por uma maioria de direita. Aliás, não conheço nenhuma lei fracturante que tenha sido revogada por um Parlamento por esse mundo fora. Independentemente de ser uma lei aprovada por um tribunal, por um parlamento ou em referendo, a verdade é que a experiência demonstra que as leis fracturantes, uma vez aprovadas, dificilmente são revogadas. Por isso, este argumento, por muito lícito que seja, baseia-se numa premissa nunca verificada: que uma maioria conservadora há-de revogar essa lei. Basta olhar para Portugal, para Espanha, para a Bélgica ou para a Holanda, para verificar que tal nunca acontece.

Evidentemente, o referendo tem riscos. Mas não é apenas a única possibilidade de travar esta lei, é também a única possibilidade de retirar o debate da Assembleia da República e trazê-lo para a rua. A única possibilidade de fazer uma campanha para esclarecer as consciências sobre o que é a morte a pedido e as suas consequências. É a grande possibilidade de gritar a verdade diante da mentira da “morte digna”.  E é essencial uma verdadeira campanha contra a eutanásia, não uma luta táctica no Parlamento, com argumentos mais ou menos formais.

É fundamental voltar a afirmar sem rodeios que aquilo que está em discussão na eutanásia é se a doença torna legal matar uma pessoa. É essencial voltar a colocar a dignidade da Vida Humana no centro do debate público. A grande probabilidade de a morte a pedido se tornar legal torna ainda mais urgente que a sociedade participe neste processo.


Neste tema da morte a pedido não há uma escolha inteiramente boa ou fácil. Podemos escolher entre deixar passar a lei na Assembleia da República, com qualquer oposição a ser ignorada na comunicação social, ou tentar trazer a luta para a rua com o referendo. Resumido: podemos desistir ou continuar a lutar, mesmo que com baixa probabilidade de vitória. Eu quero continuar a lutar, porque acredito que a Vida de cada um dos que for vitima desta lei é um bem precioso pelo qual vale a pena ir à batalha. E por isso apoio o referendo.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Porque toda a Vida é digna - Observador, 22/10/19

Nos últimos dias tenho visto muitas pessoas a perguntar como é possível um médico deixar nascer uma criança sem olhos, nariz e alguns ossos na cabeça.

Evidentemente que nesta circunstância não podemos deixar de pensar, antes de mais, nos pais do Rodrigo. Esta hora só pode ser dramática para eles. Eles tinham o direito a conhecer a realidade do seu filho e a preparar-se para os desafios de um filho com deficiências tão profundas. A indignação diante de tal erro médico é justa, sobretudo ao saber-se que já antes o médico tinha tido vários processos disciplinares. É natural por isso que a sociedade se indigne em solidariedade para com os pais do Rodrigo.

Infelizmente parece que, mais do que a incapacidade do médico em questão de detectar má formações numa ecografia, o choque é por ter permitido que aquela  criança nascesse.
Vivemos num tempo em que uma criança deficiente é suposto não nascer. Sendo que não nascer é um eufemismo para matar essa criança na barriga da mãe. Um tempo onde a dignidade humana, e consequentemente a sua protecção jurídica, está dependente da ligação emocional que é capaz de suscitar.

É esta mentalidade, de relativização da dignidade Humana, que permite hoje discutir a legalização da morte a pedido. Assim como um bebé deficiente não deve nascer, um doente em fim de vida pode ser morto. Cada vez mais a vida é digna enquanto não der trabalho ou incómodo, enquanto emocionalmente me satisfizer. Perdeu-se a consciência de que cada Ser Humano é único e irrepetível. Que cada Ser Humano é, pela sua própria condição humana, digno, independente da sua circunstância.

E para quem eventualmente considerar que exagero, basta lembrar que um dos grande vencedores das eleições de dia 6 foi o PAN, cujo líder afirmou publicamente que “Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma”. Ou que o bloquista Bruno Maia, que ficou à porta do Parlamento nas últimas eleições, questionou na televisão nacional qual a dignidade de uma pessoa acamada.

E assim, esta mentalidade retrógrada, que considera que a Vida Humana só é digna quando a sociedade o diz, vai-se instalando. Lentamente voltámos aos tempos de Esparta, onde as crianças deficiente eram abandonadas à morte. Aos tempos das migrações dos povos germânicos para o Império Romano, onde os velhos e os doentes eram mortos para não atrapalharem. Aos tempos de Calígula, que fez do seu cavalo Incitatus cônsul, enquanto mandava matar qualquer pessoa de quem nãos gostava e prostituía as irmãs no palácio imperial. A mentalidade que dita a agenda fracturante, que se considera progressista, nada mais é do que um regresso à barbárie de um passado distante.
Por tudo isto é cada vez mais necessário voltar a afirmar publicamente aquilo que muitos julgávamos ser uma evidência: que a Vida Humana é intrinsecamente digna. A deficiência, a doença, as capacidades, a inteligência, não diminuem ou aumentam essa dignidade. E é triste que ainda seja preciso fazê-lo.

É para afirmar o valor da vida de todos os bebés, saudáveis ou não, de todos os doentes e idosos, para testemunhar que a vida é sempre digna, que a Caminhada pela Vida vai sair à rua no dia 26 de Outubro em Lisboa, Porto, Aveiro, Braga e Viseu. A esta cultura que concebe a Vida Humana como um valor ao dispor da sensibilidade social e do poder legislativo, é preciso responder publicamente relembrando que a nossa sociedade está fundada sobre o valor objectivo da Vida.

Todas as vidas são dignas. O que não é digno é a maneira como a sociedade tantas vezes trata os mais frágeis: os deficientes, os doentes, os idosos, os mais pobres. Caminhar em defesa da Vida não é simplesmente ser contra o aborto ou contra a eutanásia, é defender uma sociedade que cuida dos seus, que cuida especialmente dos que mais precisam. É defender mais apoio às grávidas em dificuldades, mais apoio às famílias com filhos deficientes, é defender os que cuidam dos doentes, é defender mais cuidados continuados, mais cuidados paliativos. Caminhar pela Vida é dar testemunho da sociedade que desejamos, uma sociedade que não mata, cuida.

domingo, 21 de outubro de 2018

A voz e o voto pró-vida em Portugal - Observador, 21/10/19

1. Todos os anos, desde 2012, a Federação Portuguesa Pela Vida organiza a Caminhada Pela Vida. São milhares de pessoas que descem à rua para se manifestar publicamente pela defesa da Vida desde o momento da concepção até à morte natural. No ano passado foram mais de 4 mil só em Lisboa, a juntar às centenas que caminharam em Aveiro e no Porto. Este ano a Caminhada Pela Vida irá realizar-se em mais duas cidades: Braga e Aveiro.

Na Caminhada pela Vida foi lançada a Iniciativa Legislativa de Cidadãos “Pelo Direito a Nascer” que recolheu mais de 50 mil assinaturas e resultou numa lei aprovada pelo parlamento e cuja revogação foi decidida pela “gerigonça” no primeiro dia da nova legislatura. Foi na Caminhada pela Vida que se lançou a petição “Toda a Vida tem Dignidade” que, após recolher quase quinze mil assinaturas, continua à espera de ser debatida no Parlamento. Foi na Caminhada pela Vida que começou a campanha contra a eutanásia que incluiu dezenas de sessões de esclarecimento, vigílias por todo o país e uma grande manifestação contra a eutanásia no dia 29 de Maio.

A Caminhada pela Vida é apenas a face mais visível do activismo cívico pró-vida em Portugal. Na última década a Federação Portuguesa Pela Vida, assim como outras associações e grupos cívicos, têm mantido uma enérgica actividade na defesa dos seus ideais. Conferências, petições, sessões de esclarecimento, seminários, estudos. Num país onde escasseia o activismo cívico, a causa da defesa da vida tem demonstrado uma rara vivacidade.

2. Infelizmente esta actividade tem sido invisível para a maior parte dos portugueses.  Invisível porque ignorado pela esmagadora maioria da comunicação social. Mesmo num país onde o activismo cívico é raro, a comunicação social parece nunca reparar quando um grupo de cidadãos se organiza para defender o valor da Vida Humana. Na comunicação social portuguesa parece não haver espaço para a política para além da partidária. De facto, as iniciativas pró-vida só são parcamente noticiadas quando acontecem durante um debate iniciado pelos partidos.

E para provar o que afirmo não preciso de ir muito longe, basta referir três acontecimentos do último ano.

O primeiro: a Caminhada pela Vida, já acima descrita, que apesar de juntar milhares de pessoas, de se realizar em várias cidades do país, de acontecer no contexto do debate da eutanásia, conseguiu ser ignorada pela esmagadora maioria da comunicação social.

O segundo: o congresso sobre a eutanásia organizado pela Universidade Católica, a Rádio Renascença e a Federação Portuguesa Pela Vida, que contou com a presença de grandes académicos portugueses como o Professor Germano de Sousa ou o Professor Miguel Oliveira e Silva e com o especialista holandês Professor Theo Boer. Organizado um mês antes da discussão da legalização da morte a pedido no parlamento não mereceu qualquer tipo de cobertura da comunicação social.
Por fim, a cobertura após a derrota da legalização da morte a pedido. Os telejornais dessa noite limitaram-se a cinco minutos sobre o tema, preenchidos quase totalmente com declarações dos partidos derrotados, aparentemente sem espaço para os movimentos cívicos que realizaram uma grande campanha nacional em defesa da Vida.

3. Mas mais grave do que o silêncio da comunicação social é a falta de representatividade política do movimento pró-vida nos partidos.

Nos últimos 20 anos o Bloco de Esquerda tem dominado a agenda dos chamados “temas fracturantes” em Portugal. O Bloco faz uma política baseada num activismo cívico que tem dominado completamente a agenda do parlamento no que respeita às questões da Vida e da Família. Nestes mesmos vinte anos os partidos de centro esquerda e centro direita (com honrosas excepções no CDS) varia entre uma vaga defesa dos valores da Vida e da Família e uma verdadeira rendição à agenda do Bloco.

E repare-se que não estou a acusar o Bloco de nada: eles têm uma agenda pública, defendem-na sem medo e sem problema algum de utilizar os meios ao seu alcance para a levar por diante.
O problema é mesmo o PS e o PSD que se tornaram reféns desta agenda. O PS simplesmente cedeu à agenda fracturante, tornando-se refém de Isabel Moreira, Pedro Delgado Alves e seus companheiros. Em questões fracturantes já nada hoje distingue o PS do Bloco.

O PSD tem-se mantido mais neutro, mas incapaz de combater esta agenda. Basta lembra que a adopção por pessoas do mesmo sexo foi aprovada com 19 votos do PSD e que as barrigas de aluguer tiveram direito a uma proposta de lei desse partido. Se já no PS é claro que há uma separação entre os eleitores mais conservadores nos costumes e o seu grupo parlamentar, no PSD é cada vez mais evidente que entre as bases e o grupo parlamentar existe uma separação cada vez maior nestes temas.

4. Muito se tem discutido sobre os populismos no nosso tempo. Fenómenos como Trump nos Estado Unidos ou, mais recentemente, Bolsonaro no Brasil têm apanhado de surpresa a maior parte dos jornalistas, comentadores e políticos. Não admira. É sinal evidente que existe uma separação cada vez maior entre estas elites e o povo.

Parte desta separação está na população pró-vida, que (não apenas em Portugal) é ignorada e desprezada pela comunicação social e pelos políticos. De tal modo que muitos dos apoiantes desta causa, frustrados pela invisibilidade do seu trabalho, acabam lá fora por aderir a líderes demagogos que, por ideal ou conveniência (maioritariamente por conveniência) juntam os temas pró-vida a um discurso de revolta contra as elites. De tal modo que conseguem chamar a si, apesar das suas contradições e fraquezas, boa parte daqueles que activamente defendem as causas da vida.

Os movimentos pró-vida em Portugal não têm até agora sido submetidos a essa tentação. Para nós é claro que a dignidade da Vida Humana é um bem não apenas no seu inicio e no seu fim, mas também em todas as fases do seu desenvolvimento. Não aderimos por isso a discursos que defendem a Vida por nascer, mas não o fazem depois do nascimento. Contudo sentimos e notamos entre nós uma frustração crescente pela constante invisibilidade a que o nosso trabalho é votado pela comunicação social e pelos políticos.

5. Vamos entrar em ano de eleições. Primeiro europeias, depois legislativas. Para garantir que o povo pró-vida não volta a ver as suas perspectivas iludidas pelos partidos que supostamente partilham dos nossos ideais para conseguir os votos, mas que os renegam depois na Assembleia da República, a Federação Portuguesa pela Vida vai lançar um questionário a todos os partidos e cabeças de listas que concorrerem às duas eleições. Nesse questionário será perguntado de maneira clara qual a sua posição sobre os temas que movem os movimentos pró-vida.

Assim saberemos com clareza quem de facto defende a causa da Vida na política, assim saberemos com o que contamos quando formos votar. Aquando da discussão da eutanásia o Professor Cavaco Silva falou em duas armas: a voz e o voto. A nossa voz temo-la usado muitas vezes nos últimos anos e somos das poucas forças políticas e cívicas em Portugal que não receia descer à rua. O nosso voto iremos usá-lo no próximo ano denunciando aqueles que promovem a cultura da morte e apoiando aqueles que se comprometeram a colocar a Vida em primeiro lugar.

Membro da direcção da Federação Portuguesa pela Vida.