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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

No país esquecido, sobra a igreja


 

Portugal é um país cada vez mais deserto. Por todo o país existem vilas e aldeias onde já quase nada há, a não ser um conjunto de pessoas que vão envelhecendo. Os centros de saúde e os hospitais, as esquadras, os tribunais, as escolas, os correios, os bancos, os serviços públicos em geral, vão se tornando cada vez mais distantes, deixando, para quem vive fora das cidades, uma qualquer máquina automática e uma suposta digitalização, que a população envelhecida dessas terras não compreende.

A única realidade que se mantém presente em todo o país, muitas vezes com dificuldades e recorrendo a alguma originalidade, é a Igreja. Em quase todas as aldeias de Portugal, por muito longínquas e desertas que estejam, lá está a Paróquia. E sabe Deus quantas vezes essa paróquia é acompanhada pelos únicos serviços sociais que a população têm acesso: um centro de dia, um agrupamento de escuteiros, os Vicentinos, e tantas outras realidades que se tornam a única vida social no país profundo.

Uma vez visitei um sacerdote amigo meu, de Trás-os-Montes, que tinha ao seu cuidado nada menos do que catorze paróquias. Lembro-me bem de o acompanhar a uma missa que celebrava semanalmente ás 7h ou às 8h da manhã: uma Igreja escura, gelada, mas lá estava ele a celebrar para meia dúzia de velhotes.

Mas não é apenas nesse Portugal esquecido que a Igreja é a única presença social. Em quantos bairros das grandes cidades, esquecidos pelo poder (assim como assim é quase tudo pessoas sem direito a voto), a Igreja está presente? Penso nas Missionárias da Caridade em Chela, nos meus amigos de Comunhão e Libertação no Casalinho da Ajuda, nos Franciscanos do Bairro Padre Cruz, e tantos outras realidade em tantos outros bairros.

A obra educativa e social da Igreja em Portugal não tem qualquer paralelo. São milhares de escolas, de lares, de centros sociais, de obras de caridade, que diariamente acolhem, educam, alimentam, vestem, cuidam daqueles a quem o Estado a e sociedade não chegam. Obras que vivem da vida oferecida de consagrados e leigos, e também da generosidade do Povo de Deus. Porque mesmo aquelas obras que são IPSS só conseguem sobreviver com a generosidade desse povo.

A Igreja permanece hoje, como desde o princípio da nacionalidade, como a única realidade social presente em todos os recantos do país. Também por isso é tantas vezes guardiã da cultura e da arte do nosso povo. As nossas festas populares estão sempre ligadas à devoção. E por isso de norte a sul a fé do povo vai mantendo vivas as nossas tradições.

E o fruto dessa devoção, das tradições seculares, vê-se no património religioso. Desde as catedrais às humildes capelas perdidas no meio do nada, são milhares de obras de arte que espelham uma vida de fé milenar. Num país onde o património do Estado vai ruindo, a fé do povo vai mantendo vivo um património de valor incalculável.

Todo este esforço da Igreja, se fazer presente, de servir o próximo, de conservar as tradições, de cuidar do património, tem como fim a salvação das almas. A missão da Igreja não é ser uma ONG, ou animador cultural, nem restauradora de património, mas anunciar Cristo. Mas o fruto deste trabalho é que a Igreja tem em Portugal um papel social incomparável.

Imagine-se o que seria o nosso país sem as obras sociais da Igreja, sem a suas escolas, sem as festas religiosas, sem os cruzeiros, as capelas, os santuários, as igrejas, as basílicas e as catedrais. Quantos ficariam sem tecto? Quando passariam fome? Quantos ficariam sozinhos na sua doença?  Quantas famílias não teriam quem cuidasse das suas crianças, dos seus deficientes, dos seus idosos? Quantas terras ficariam sem as suas festas? Quantas cidades perderiam o seu património mais valioso?

Muitas vezes se fala do suposto apoio do Estado à Igreja, tantas vezes mentido e deturpando. Mas era bom termos a consciência de que o Estado precisa bastante mais da Igreja, do que a Igreja do Estado. A Igreja existe há dois mil anos, e viveu nas catacumbas de Roma e nas Catedrais de França, na Polónia comunista e na Europa medieval, sempre sem perder a Fé.  O Estado é que, incapaz de socorrer os mais desvalidos, incapaz de se fazer presente no país profundo, incapaz de manter o seu património cultural, depende da Igreja e do seu povo.

Eu também espero que não se gaste mal dinheiro na Jornada Mundial da Juventude. E também acredito na separação entre a Igreja e o Estado. (sobretudo porque acredito na liberdade da Igreja em relação ao poder). Mas não esqueço que existe um país real, para lá da bolha das redes sociais, um país pobre e abandonado pelo poder. E nesse país esquecido não estão os opinadores, os políticos, os “comediantes”, nem sequer o Estado. Nesse país só está a Igreja.  

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

JMJ: afinal até sai barato!

 



Saiu mais uma notícia sobre os custos da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, desta vez sobre o preço do palco onde irá estar o altar na vigília de encerramento do evento. O artigo, mais escrito com o objectivo de ter cliques do que interesse jornalístico, compara estes custos com os do altar da visita do Papa Bento XVI em 2010.
Claro que a comparação é disparata e desonesta: em 2010 construiu-se um altar para uma única missa que depois foi posteriormente desmontado. Nas Jornadas está a construir-se uma estrutura fixa, um equipamento que poderá ser posteriormente utilizado para mega eventos ao ar-livre.
Infelizmente não é a primeira, nem será a última notícia, sobre o tema escrita de forma pouco informada e sensacionalista. Por isso escrevo uns pontos para esclarecer qualquer pessoa de boa vontade (aos outros os factos são indiferentes):
1. O que vai acontecer em Agosto não é a “visita” do Papa, mas a Jornada Mundial da Juventude. A JMJ é um dos maiores eventos do mundo e incomparável a qualquer outro evento que Lisboa tenha acolhido. Estamos a falar de 1 a 1.5 milhões de jovens que durante uma semana irão estar em Lisboa. Aos jovens, juntam-se milhares de bispos de todo o mundo, padres, jornalistas, etc. Não é por acaso que os hotéis de Lisboa e arredores estão todos esgotados para essa semana há meses. Vamos ter mais de um milhão de pessoas a dormir, a comer, a percorrer, a consumir em Lisboa.
2. Para além dos peregrinos que vão acorrer de todo o mundo a Lisboa, o evento irá ser acompanhado pelos media em todo o mundo. São centenas de milhões de católicos de olhos posto em Lisboa através da televisão, da rádio, das redes sociais, de streaming. Este evento garante que durante uma semana Lisboa é a cidade que todos os católicos do mundo vão ver.
3. Tanto quanto é publico a Jornada Mundial da Juventude terá um custo daté 80 milhões de euros. Uma parte desse custo será suportado pelo Estado, pela Câmara Municipal de Lisboa e ainda pela Câmara de Loures. O que leva a que se pergunte muitas vezes, porque é um Estado laico patrocina um encontro religioso? A resposta é simples, e nada tem a ver com boa vontade.
4. Parte dos custos que o poder púbico irá ter é o normal quando se recebe uma multidão de centenas de milhares de pessoas: reforço do policiamento, reforço dos transportes, reforço das equipas de emergência, etc. Para além disso existe o custo com o local central das Jornadas: o Parque Tejo, onde terrenos baldios e pantanosos ser irão transformar num parque junto ao Tejo, para ser utilizado por todos os cidadãos e equipado para receber mega eventos, como disse acima.
5. Até aqui temos, por um lado investimento naquilo que são as funções do Estado, por outro em equipamentos que vão ser para uso público. Mas claro que o investimento público neste evento supera estas questões. Mas mais uma vez, a razão para ser feito não é para fazer favores à Igreja.
6. O milhão e meio de pessoas que irão estar nessa semana em Lisboa irão gastar dinheiro na dormida (mesmo ficando muito locais cedidos gratuitamente), vão ter que comer e beber, vão gastar dinheiro em recordações, ou sejam, vão consumir em Lisboa e na região durante uma semana. Entre o que é injectado directamente na economia e o que é arrebatado em impostos, é fácil verificar que o investimento feito pelo erário público nas JMJ será recuperado várias vezes. Aliás, segundo o calculo do Governo o evento vai ter um retorno de 350 milhões de euros para Portugal.
7. A somar-se ao é valor que um e milhão e meio de pessoas a consumir trás (os tais 350 milhões de euros), temos ainda o valor publicitário de albergar um evento que será transmitido para todo o mundo. Basta pensar que ao organizar um evento católico a nível mundial estamos a falar de um “mercado” de mil e trezentos milhões de pessoas, espalhados pelos quatro cantos da terra. Imaginemos qual não é o valor publicitário para Lisboa de ser palco de um evento que durante uma semana é transmitido em todos os formatos para um mercado deste tamanho!
8. Por isso podem parar com o disparate de como o Estado laico vai gastar dinheiro para ajudar a viagem do Papa. As Jornadas Mundiais são um evento gigantesco, com repercussão a nível mundial. O que o Estado está a fazer é bastante simples e razoável: investir para que este evento seja um sucesso, de forma a ter o maior retorno possível. Não é um favor, é mesmo aproveitar uma oportunidade única

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Bento XVI: Um Papa amado pelo povo de Deus


 


Durante todo o seu pontificado foi igual. Onde quer que Bento XVI fosse o povo de Deus acorria em massa para o encontrar, perante o contínuo espanto da comunicação social que previa sempre que era naquela viagem que o Papa não ia ser bem recebido.
Porque o diagnóstico estava feito desde o primeiro instante. Os opinadores já tinham decretado que a Igreja precisava de um Papa jovem, progressista, de um país pobre e o Espírito Santo tinha-se enganado e escolhido um cardeal velho, pilar doutrinal do pontificado de João Paulo II e o país mais rico da Europa. Por isso o sucesso de Bento XVI foi sempre um mistério para aqueles que observam a Igreja pelo olhar do mundo.
O mito de um Papa impopular, que ainda hoje perdura em alguns círculos, foi desmentido pelas multidões de todo o mundo: daqueles que enchiam todas as semanas São Pedro, dos jovens de Colónia, de Sidney, de Madrid, das famílias em Valença, na Cidade do México, de Milão, e do povo de Deus em todo o mundo: do Brasil à sua Alemanha, de Inglaterra a Portugal, dos Estados Unidos aos Camarões. Para quem se interessa mais pela realidade do que por narrativas, era evidente que Bento XVI era um Papa muito amado. O Papa alemão não teve apenas um enorme sucesso juntos dos intelectuais (que o reconheciam como um os seus maiores), teve sempre um enorme sucesso junto do povo cristão.
E por isso só quem durante todos estes anos esteve cego pelo seu preconceito se pode espantar com o espetáculo dos últimos dias em São Pedro. São milhares os peregrinos que fazem fila para se ir despedir daquele homem humilde trabalhador da vinha do Senhor.
Olhando para estas multidões não podemos deixar de perguntar como Jesus “O que é que foram ver no deserto? “. E a resposta é a mesma: um profeta! Uma voz que neste deserto espiritual e carnal, clama “preparai o caminho do Senhor”. Bento XVI, tal como João Baptista, nunca se pregou a si mesmo, mas apontou sempre o Senhor. Aquele homem genial, tímido, que só queria regressa à sua Baviera, ofereceu-se como cordeiro sacrificial para cumprir a vontade de Deus.
E depois aquele momento, aquele momento onde silenciou um mundo que não se cala, ao anunciar a sua renúncia. Uma decisão que não compreendi, mas na qual confiei, porque diante de um santo como Bento XVI, que conhecia a Deus como eu nunca poderei conhecer, mesmo quando não se compreende, confia-se.
Neste deserto de egoísmo e de individualismo, onde cada vez mais se afirma o próprio eu, Bento XVI afirmou sempre um outro, testemunhou sempre o próprio Deus, ofereceu-se continuamente ao Seu Senhor, para nos confirmar a nós na Fé. E foi isto que as multidões foram ver, uma fonte de água pura no meio o deserto.
Dizia o então Cardeal Ratzinger, na missa «PRO ELIGENDO ROMANO PONTIFICE»: “Por fim, voltemos mais uma vez à carta aos Efésios. A carta diz com as palavras do Salmo 68 que Cristo, subindo ao céu, "deu dádivas aos homens" (Ef 4, 8) O vencedor distribui dons. E estes dons são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. O nosso ministério é um dom de Cristo aos homens, para construir o seu corpo o mundo novo. Vivamos o nosso ministério assim, como dom de Cristo aos homens! Mas nesta hora, sobretudo, peçamos com insistência ao Senhor, para que depois do grande dom do Papa João Paulo II, nos ofereça um pastor segundo o seu coração, um pastor que nos guie ao conhecimento de Cristo, ao seu amor, à verdadeira alegria.” Demos graças a Deus por nos ter dado um Pastor assim.
SANTO SUBITO!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

A magia do Natal





Quando eu era miúdo o Natal era de facto mágico. Lembro-me de ser pequeno e de ir à Missa do Galo, com a família toda. E como durante anos foi assim, todos juntos, a ouvir o coro a cantar o Adeste Fideles, a procissão infindável de acólitos, os sinos do Glória, enquanto o Menino Jesus era levado até ao presépio. As homílias extraordinárias do Padre João e no fim, o beijo ao Menino. Mas a noite não acabava aí: seguia-se para casa dos avós, onde, depois de rezarmos e cantarmos alguns cânticos de Natal, era altura de abrir os presentes que o Menino Jesus tinha trazido. E a seguir a ceia: o chocolate quente, os pãezinhos com pasta de fiambre, a castanhada, e mais uma enorme quantidade de doces. E depois o dia 25, a correria entre as refeições que não acabavam, as conversas dos tios, as brincadeiras dos primos, os brinquedos por estrear. E o dia acabava connosco cansados, cheios e felizes.


E depois aconteceu a vida. Os primos cresceram até já não fazer sentido por o sapatinho para o Divino Menino saber onde deixar os nossos presentes, os meus avós foram quase todos para o Céu (e não foram só eles), deixamos de fazer a ceia por falta de quórum, a Igreja que hoje frequento não se pode comparar à beleza de Santos-o-Velho e da Encarnação, e as combinações com as diversas famílias tornaram-se uma tarefa logística, que exige uma eficácia alemã e uma diplomacia suiça!

Claro que o Natal continua a ter coisa muito boas e bonitas, mas já não é o Natal da minha infância. E está bem assim. A forma como vivia o Natal em criança foi essencial para amar esta festa. Mas o que realmente importa é aquilo que anunciava. Toda a beleza, todos os doces, todos os presentes, todos os cânticos, eram anúncio de um facto: “Hoje em Belém de Judá nasceu para vós um salvador!”. Que Deus se tenha feito Homem, que o Todo o Poderoso se tenha feito um bebé indefeso, que Aquele que reina eternamente sobre o Cosmos e a História, durma numa manjedoura, numa corte de pastores, é o facto mais belo, mais terno, mais comovente de toda a história!

A luz que irradia de Belém ilumina todas as trevas, penetra toda a história, redime e dá sentido a toda a dor e sofrimento. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz!”. Nada é mais belo que isto!


A recordação do Natal de quando era miúdo enche-me de alguma nostalgia, e de tristeza pelos que já morreram. Mas sobretudo enche-me de gratidão pela consciência que suscita em mim do enorme mistério do Natal.

Por isso, se hoje o Natal é menos mágico é ainda mais comovente, porque despido de tantos ornamentos, marcado pela tristeza daquilo que era e já não é, brilham ainda com mais clareza as palavras de Isaías, que todos os anos escutamos na Missa do Galo: “Um menino nasceu, um filho nos foi dado. Deus colocou a soberania sobre os seus ombros. Os seus títulos são: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz”. E esta é a única “magia” que preciso para o meu Natal, porque este Menino lança luz sobre toda a existência, incluindo a minha.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Anéis do Poder: faltam mulheres e minorias




1 - O primeiro livro de Tolkien que li foi o Silmarillion quando tinha 11 ou 12 anos. Desde então li e reli muitas vezes as grandes obras do professor, assim como tudo aquilo que ele escreveu e a que consegui lançar a mão (das Aventuras de Tom Bombadil ao Roverandom). E se estou longe de ser um especialista em Tolkien, sou sem dúvida um fã. Por tudo isso não senti qualquer desilusão com a nova série da Amazon Os Anéis do Poder: só se desilude quem tem alguma ilusão e eu nunca tive qualquer dúvida sobre o que aí vinha. Não é possível compreender a Terra Média sem compreender Tolkien, e o professor inglês é um homem incompreensível para a cultura moderna. 

2 - Na mitologia de Tolkien existe um enorme conjunto de mulheres poderosas. Desde as senhoras dos Valar que fizeram as estrelas e as árvores de Valinor, passando por rainhas e princesas que conseguiram enfrentar e derrotar Morgoth e Sauron. E para quem só leu O Senhor dos Anéis há Eowyn que derrotou o mais poderoso de todos os servos de Sauron, aquele a quem bastava o grito para enlouquecer bravos guerreiros e, sobretudo, Galadriel, a protagonista da nova série sobre a Terra Média.

E é justo que seja a protagonista, porque Galadriel é sem dúvida uma das maiores protagonista da obra de Tolkien. É aliás a única protagonista que atravessa as três eras da Terra Média. Liderou parte dos Noldor na primeira era, fundou um reino seu na segunda era e foi uma das principais adversárias de Sauron na terceira era. Segundo Tolkien, de entre os elfos, só Feanor era mais poderoso do que ela. Por isso o problema não é que Galadriel seja protagonista da série, o problema é que seja reduzida a uma adolescente traumatizada que que ser igual ao irmão.

Mulheres poderosas e com protagonismo não faltam na obra de Tolkien, mas o que a Amazon fez foi pegar numa mulher poderosa e transforma-la num homem! Aquela que era uma gloriosa rainha passou a ser um peão com uma espada, achando que assim se “empoderava” as mulheres. E este é o absurdo da ideologia woke, não querem de facto mulheres a protagonizar nada, querem que as  mulheres sejam imitações de homens e dar-lhes protagonismo artificial.

3 - Tolkien era um homem minucioso. Não se limitou a criar umas histórias fantásticas, criou um mundo. Um mundo com mapas, com línguas, com calendários, com várias raças e dentro das raças vários povos, com costumes e tradições diferentes. O que existe publicado é uma fracção do trabalho de Tolkien sobre a Terra Média (e relembre-se que ele só publicou o Hobbit e o Senhor dos Anéis, tudo o resto foi publicado pelo seu filho). A atenção ao pormenor de Tolkien chegava ao ponto de refazer partes da história porque era irrealista uma personagem percorrer aquela distância naquele espaço de tempo ou porque o clima não se adequava à estação em que a acção se desenrolava.

Não há qualquer problema em que haja pessoas de várias cores de pele numa série passada na Terra Média. É uma liberdade relativamente ao trabalho de Tolkien, mas que encaixa na sua obra. Por isso um elfo negro, ou uma anã, não são um problema, o problema é ser apenas um! O problema é que todos os elfos sejam esqualidos e depois, por magia, haja um negro! Que exista uma família de elfos de pele negra não é um problema, agora fazer aparecer um negro por magia é completamente artificial. Podiam perfeitamente ter feito os habitantes de Númenor morenos como os sul-americanos ou os árabes, não podem é, numa ilha isolada durante séculos, ter uma população toda branca e depois a rainha ser negra (ao contrário do tio que é branco!).

Isto não é diversidade, não se trata de mostrar que na Terra Média há raças de todas as cores, para isso tinham feito os harfoot negros ou apresentado uma família de anões asiática. Trata-se mais uma vez de virtue signalling: vejam como somos inclusivos, até temos um elfo negro! Mas mais uma vez é pegar na diversidade e moldá-la toda ao exemplo do homem branco: se uma mulher que ser poderosa, se um negro quer ser protagonista, então tem que ser como homens brancos.

4 - Vejo muito boa gente a protestar por a série d’Os Aneís do Poder dar demasiado protagonismo a mulheres e a negros. Eu pelo contrário acho que um dos problemas (e há vários outros, bastante mais graves) é não lhes dar suficiente protagonismo. Tolkien, um inglês católico e conservador, criou um mundo cheio de mulheres poderosas e cheio de povos diversos. A progressista Amazon criou uma fraca imitação desse mundo cheio de homens brancos, ainda que os vista de mulher ou aqui e ali escolha um negro para representar. O resultado é evidentemente um pastel artificial ridículo, que ninguém aprecia, mas que aqueles que vivem enfeudados ao wokismo têm que fingir gostar. Eu por mim, fico-me pelo mundo do velho professor de Oxford, onde as mulheres são capazes de derrotar Melkor, e Sauron é derrotado por uma minoria que se esconde para não ser oprimida.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

“Se não fosses tu meu Cristo sentir-me-ia criatura finita” São Gregório Nazianzeno



No último Domingo fui à missa a uma Igreja que nunca tinha ido. O motivo era o baptismo de uma aluna da minha mulher. Fui um pouco a contragosto: era fora de Lisboa, tínhamos chegado de uma viagem grande no dia anterior e a hora era pouco convidativa para ir com os miúdos. Para piorar o meu humor, a criança mais nova decidiu passar boa parte da missa fazer barulho e por isso estive a todo o tempo no corta vento, sem conseguir prestar grande atenção.

Chegado à altura da comunhão tinha decidido não ir comungar: tinha estado distraído, estava um pouco irritado com as crianças, e estavam pessoas à porta do corredor central. Quando estava nestes pensamentos, percebi que o padre estava a distribuir a comunhão pela Igreja: de repente estava à minha frente, com o Corpo de Cristo nas mãos. A mim restou-me pouco mais do que aceitar esta misericórdia, de um Senhor que passa por cima da minha pequenez para vir ao meu encontro. Comovi-me como há algum tempo não me comovia na missa.

Mas se me comovi, não me espantei, porque felizmente foi assim toda a minha vida. A minha vida é marcada por este Deus encarnado que constantemente vem até a mim. Não uma ideia, não uma moral, mas uma Pessoa, que se torna presente nesta companhia concreta que é a Igreja: na minha família, nos meus amigos, no testemunho dos santos, na graça dos sacramentos, na beleza da liturgia, na caridade da Doutrina!

E o encontro com Cristo dá à minha vida todo um novo horizonte. Tenho experimentado o cem vezes mais aqui na terra e isso fortalece a minha certeza na vida eterna.

Mas é impossível compreender aquilo que a Igreja propõe sem Cristo. A castidade, a fidelidade, a doação de si, a obediência, só são compreensíveis na relação com Jesus. Sem Ele, não passam de regras e preceitos ocos.

Por isso é natural que num tempo onde se esqueceu Jesus, onde a Fé é reduzido a uma moral ou a uma ideologia, a proposta da Igreja pareça desadequada e ultrapassada. Também se compreende que, quem olha para a Igreja como mais uma organização, como um mero conjunto de pessoas ligada por uns rituais, as preocupações principais sejam as do mundo: quem manda, quem gere, se todos são “iguais”. De facto, a Igreja sem Cristo, tem os mesmos defeitos que qualquer outra instituição humana.

É Cristo que abre um novo horizonte, é Cristo que torna uma realidade completamente humana como a Igreja, numa realidade sobrenatural e eterna.

O relatório português do Sínodo foi por isso para mim uma experiência muito útil, porque me ajudou a identificar com clareza o grande problema da Igreja no nosso tempo. A mistura de ideologia com sindicalismo, tudo misturado com a linguagem inclusiva e as preocupações mundanas que hoje tanto ocupam alguns activistas, deixou claro a ausência de Jesus. De facto Cristo é o grande ausente deste relatório, porque é também o grande ausente da pastoral da Igreja. E este é o maior drama: é que ignorando Cristo, fica apenas o que é humano, ou seja ignora-se o eterno.

Para mim a Igreja é a presença de Cristo. E é essa presença que constantemente redime a minha pequena humanidade. A única urgência da Igreja devia ser levar essa presença a cada pessoa. O resto vem por acréscimo.




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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Graça a Deus pelos Padres



A Igreja celebrou ontem o dia de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes, especialmente dos párocos. O dia do Santo Cura d’Ars chegou no meio de um turbilhão de acusações contra a Igreja portuguesa e contra os seus sacerdotes. E isso fez-me pensar nos padres da minha vida. Daqueles que entregaram a sua vida a Jesus para que eu O possa encontrar. E obrigou-me a tomar consciência do tanto que devo a tantos bons sacerdotes.

Antes de mais ao Padre João Seabra, que há dois meses foi para o céu. A ele, mais que a qualquer outra pessoa, devo a minha Fé e aquilo que sou hoje. Depois lembro-me do Padre Nuno, coadjutor do Padre João em Santos: um velho carmelita que passava horas no confessionário. Foi a primeira pessoa importante da minha vida que me lembro de morrer.

Depois pensei nos padres com que me cruzei na Baixa e no Chiado. O Padre Armando Duarte, amigo inseparável do Padre João. Sempre presente, sempre constante, com um sentido de humor mordaz. A ele lhe devo o muito que aprendi com o Manual do Acólito. Depois o Padre Mário Rui, que tornou o deserto da Baixa num centro de devoção em Lisboa. A ele toda a Igreja de Lisboa deve o regresso da procissão do Corpo de Deus. Em conjunto com o Padre João, tornaram a Baixa e o Chiado no pulmão da Igreja na Cidade de Lisboa. E a unidade entre estes três sacerdotes tornou-se modelo de unidade pastoral para todo o Patriarcado.

Ainda no Chiado, não me posso esquecer dos padres do Loreto: o Padre Angelo (confessor de meia Lisboa durante décadas), o Padre Francesco, o Padre Dino, e tantos outro cujo nome não me lembro. Foram eles os meus confessores durante a adolescência e a juventude. A minha alma muito lhes deve.

Depois lembro-me ainda dos sacerdotes que colaboraram na paróquia da Encarnação. O Padre João Aguiar, que enquanto director da Renascença assegurava diariamente a missa das 8h, e que chegava à Igreja à 7h30. O Padre Marim que todas as quartas-feiras celebrava a missa das 12h10 para as Noelistas. O Padre Rafael Morão, jesuíta e Reitor da Igreja de São Roque, que tantas vezes celebrava missa na Encarnação. O Padre Armindo, que veio estudar direito canónico e que durante anos celebrou a missa de Domingo às 10h30 para depois ficar a confessar durante a missa das 12h30 (o que me era muito útil). O Padre Hilário, também estudante de direito canónico e que assegurava muitas vezes as necessidades da paróquia. O velhinho Padre Azeredo, também jesuíta, que muitas vezes celebrava a missa das 12h10 durante a semana, tal como o ilustre frei Pinto Rema, franciscano e grande especialista em Santo António. E ainda o frei Miguel Patinha, da Ordem dos Pregadores.

Por fim, os padres que acompanharam o Padre João em Santa Joana. O Padre Duarte da Cunha, um amigo fiel que com amor filial acolheu um mestre com uma disponibilidade e lealdade incomparáveis. E o Padre Michael sempre discreto, sempre presente.

Lembro ainda o Padre Santos, durante anos prior de São Sebastião e de Nossa Senhora da Boa-Fé na Arquidiocese de Évora, que o Senhor chamou a Si no ano passado. Homem piedoso, sem medo de educar o povo e de afirmar as verdades, mas sobretudo a Verdade.

Por fim,  nas paroquialidades, lembro-me dos padres salesianos de Lisboa, cujo nome não sei, mas que nestes últimos anos me têm acolhido tantas vezes na Santa Missa e no confessionário.

Mas na minha vida muito devo aos padre de Comunhão e Libertação, o movimento que tive a graça de encontrar. O Padre Ramiro, homem de inteligência profunda e uma capacidade de ensinar como poucos, cuja fidelidade à Igreja e ao carisma de monsenhor Giussani tanto me educou. O Padre Zé Maria Cortes, vizinho de sempre da minha família, que depois de construir  a Igreja dos Pastorinhos partiu como missionário. O Padre Luís Miguel, essencial na minha vida universitária. E com estes dois últimos todos os padres da Fraternidade de São Carlos Borromeu que passaram por Alverca: o Padre Francesco, o Padre Silvano, o Padre Rafael e o Padre Giovani. O Padre Zé Maria Magalhães, que me levou a Lourdes e que insistia na minha vocação sacerdotal (penso que agora já terá desistido). O Padre Miguel Aguiar, com o seu cuidado com a liturgia, sempre acompanhado de um enorme sentido de humor. E também os que, tendo conhecido pior, me lembro de sempre: o Padre Silvério e o Padre Sérgio Pêra.  Nesta categoria incluo o Padre Pedro Quintela (que preferiu cuidar dos mais miseráveis às honras do mundo) que não sendo do CL, foi sempre muito próximo e muito nosso amigo.

E chego aos padres da minha geração, o Padre Miguel Pereira, que tem feito uma grande pastoral sobre a teologia do corpo de São João Paulo II, o Padre Tiago, um grande entusiasta da causa da vida, e o meu querido parente, Padre Duarte Andrade e Sousa, um extraordinário sacerdote, um grande educador dos jovens, que pela mesquinhez de uns e a maldade de outros, está injustamente a pagar pecados alheios. E como, apesar de ainda ser novo, já não sou jovem, começo a ter amigos padres mais novos que eu, como o Padre Claúdio, ordenado há pouco tempo e que tive a graça de acompanhar quando era um jovem liceu de Comunhão e Libertação.

E também muitos outros padres com quem me fui cruzando, por circunstâncias diversas, ao longo da vida. O frei Gonçalo, franciscano, com quem me encontrei várias vezes, a mais memóravel das quais foi em Compostela, quando entre dezenas de milhares de peregrinos que vinham ver Bento XVI, “esbarrou” com o nosso grupo completamente por acaso. O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, o Padre João Vergamota, o Padre Diogo Maleitas Correia, os párocos de São Martinho do Porto, de Covas, o reitor de São Bento da Porta Aberta, o Padre José Rafael, o Padre Miguel Cabral, o Padre Pimentel, o Padre Santamaria, o Padre Adelino, capelão do Colégio de São Tomás onde acompanha os meus filhos. E tantos outros, que não conheço, mas com quem nestes 36 anos de cristão me cruzei na Santa Missa ou na confissão.

São muitos os padres necessários para atender a um cristão. Homens que oferecem a sua vida, para que o povo de Deus possa receber o Corpo de Cristo e o perdão dos pecados. Para receber a graça de ser filho de Deus, para casar e ser amparado na doença.

Por todos eles estou grato a Deus e rezo-Lhe para que os sustente e ampare na sua missão. Para que neste tempo de perseguição, onde pelo pecado de uns poucos pagam todos, permaneçam firmes no seus ministério.

Mas sobretudo, agradeço a cada um destes padres, os que me lembro e os que não me lembro, por me terem permitido ao longo da minha vida receber Cristo e viver na Sua Graça. A minha Fé é sustentada pela sua oferta constante de serviço a Cristo e à sua Igreja.

Que bom que é que hoje, num tempo de egoísmo, de escândalos fáceis, de perseguições cobardes, ainda existam homens dispostos a oferecer-se a Deus.