We few, we happy few, we band of brothers; For he today that sheds his blood with me Shall be my brother
terça-feira, 28 de abril de 2026
A humildade na cama do hospital
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Ventura: o Homem que levou Seguro a Belém
Muitos resmungos tenho ouvido sobre o eleitorado do PSD, do CDS e da IL ter elegido António José Seguro para Presidente. Mas o principal responsável por termos, ao fim de vinte anos, um Presidente do Partido Socialista é André Ventura.
O auto-intitulado novo líder da Direita, que teve menos votos que a AD, passa a vida a explicar que é o líder da oposição, que o Governo é uma desgraça, que a IL é de esquerda, que o CDS morreu, que são todos do “sistema”, que todos vivem de tachos — e depois fica muito espantado por ninguém lhe dar o seu apoio.
Ora, Ventura não pode querer afirmar-se como o líder de uma revolta contra todos os outros partidos e, ao mesmo tempo, querer ser eleito com o apoio desses mesmos partidos.
O líder do Chega sempre afirmou que não queria ser Presidente de todos os portugueses. Logo, não pode ficar espantado por aqueles de quem não quer ser Presidente não votarem nele.
Vir agora lamentar-se porque aqueles que sempre desprezou e insultou não o apoiaram é fazer a figura da criança que, na escola, bate em todos e depois não percebe porque é que ninguém quer brincar com ela.
Se Ventura considera que ter um Presidente do PS é uma ameaça tão grande para o país que exigia a união de toda a Direita, então a primeira coisa que tinha de fazer para promover essa união era não concorrer.
Ele sabia perfeitamente que nunca seria eleito. Sabia perfeitamente que, passando a vida a destratar os outros partidos de Direita, jamais teria o seu apoio. Portanto, se queria mesmo um Presidente de Direita — se considerava que era urgente uma união à Direita — tinha uma solução simples: não se candidatar e procurar uma figura de consenso capaz de fazer pontes.
Mas assim não quis. Preferiu concorrer, marcar pontos políticos, fazer teatro, proclamar-se líder da Direita — e, com isso, colocar António José Seguro em São Bento.
Todos os apoiantes de Ventura hoje amargurados pela vitória de António José Seguro deviam ter consciência de que o principal culpado dessa eleição é o próprio Ventura, que decidiu ocupar todo o espaço da Direita mesmo sabendo que iria perder na segunda volta. Mais uma vez, o líder do Chega colocou a sua ambição pessoal à frente do país — e, mais uma vez, encontrou várias pessoas dispostas a apoiá-lo.
E assim, aqueles que apoiam Ventura, fazendo loas à “nova Direita”, pura e imaculada, que jamais se sentaria à mesa com socialistas, continuam a ser a máquina de oxigénio que permite ao PS manter-se vivo.
O PSD tem muitas culpas nestas eleições, a começar por ter preferido um candidato que agradasse ao aparelho em vez de um candidato que convencesse o país. Mas quem garantiu verdadeiramente a vitória esmagadora de Seguro foi a ambição de Ventura, servida pelos “puros” da Direita, que hoje ajudaram a ressuscitar o PS.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
POLÍTICA: O QUE TEMOS PARA OFERECER?
Intervenção no encontro da Companhia das Obras sobre Política e Eleições
1.
POVO VS MASSA
No sexto ano da IIGG, no Natal de 1944, na sua mensagem radiofónica, o Papa Pio
XII afirmava:
“Povo
e multidão amorfa ou, como se costuma dizer, «massa», são dois conceitos
diferentes. O povo vive e move-se por vida própria; a massa é, por si mesma,
inerte, e só pode ser movida do exterior. O povo vive da plenitude da vida dos
homens que o compõem, cada um dos quais — no seu próprio lugar e à sua maneira
— é uma pessoa consciente das suas próprias responsabilidades e das suas
próprias convicções. A massa, pelo contrário, espera o impulso do exterior,
sendo um joguete fácil nas mãos de quem quer que explore os seus instintos ou
as suas impressões, pronta a seguir, sucessivamente, hoje esta, amanhã aquela
bandeira.”
Olhando
para o que têm sido as últimas semanas da campanha eleitoral, e sobretudo a
campanha da segunda volta, penso que é difícil não pensar nestas palavras de
Pio XII, que o Padre João recordava na lição Poder e Moral, a Comunidade Política, que serviu de base a este encontro.
Penso
que todos nós já nos demos conta (e provavelmente já o demos conta também em
nós), de como o debate sobre as presidenciais se restringiu a um conjunto de
bandeiras: democracia contra o fascismo, liberdade contra o socialismo, direita
contra esquerda. Quem de repente aterrasse em Portugal, e nada conhecesse do
país, diria que este se dividia entre fascistas e socialistas.
Ora,
a mim não me parece que isto seja verdade, nem me parece um juízo razoável
sobre o que está em causa nestas eleições. E parece-me sinal de uma sociedade
polarizada, onde o outro, aquele que pensa diferente de mim, que vota diferente
de mim, é um adversário, é um inimigo, é um impedimento à minha felicidade e ao
bem comum.
2. A TRINCHEIRA IDEOLÓGICA
Claro que isto veio ao de cima nestas presidenciais, mas não surgiu agora.
Hoje, em qualquer tema, há o dever moral de erguer uma trincheira: guerra da
Ucrânia, na Terra Santa, na política americana, qualquer que seja o tema — só
há bons e maus. E o dever dos bons é eliminar os maus.
Hoje,
tanto no debate público como, tantas vezes, entre nós, excluímos a
possibilidade de o outro ser um bem. Agarrados à ideia de que só a nossa
ideologia poderá salvar o mundo, recusamos qualquer diálogo, qualquer cedência;
a única possibilidade é a nossa vitória, a dos bons e justos, sobre os maus e
opressores.
Por
isso, diante disto, devo confessar que a questão de onde é que votamos, nesta
eleição concreta, não é o que mais me preocupa. Sejamos claros: votar não é
escolher a pessoa que queremos para um cargo, mas escolher entre as opções que
existem. E, neste caso, só há duas, e nenhuma delas me parece especialmente
boa. É como entrar num restaurante onde só há dois pratos e não gostamos de
nenhum: não vale a pena pedir cozido; ou comemos o que não gostamos ou passamos
fome.
O
que me preocupa realmente é esta redução da política a uma luta ideológica, de
bons contra maus. Onde reduzimos o outro a uma posição ideológica, onde só
conta de que lado ele está: comigo ou contra mim.
Por
isso, o que temos para oferecer diante disto? O que a Igreja, o que a Fé tem a
oferecer diante disto?
3. A CONSCIÊNCIA
Antes de mais, uma consciência. A consciência de que o nosso destino não se
joga na política, que o nosso horizonte não é a conquista do poder em nome de
um bem maior, mas a Vida Eterna.
A
primeira vez que disse ao Padre João que me queria empenhar na política, a
primeira coisa que ele me disse foi: nunca te esqueças que és cidadão dos céus
e concidadão dos santos. E depois explicou-me que a política é uma forma
superior de caridade, porque a missão de um político é testemunhar Cristo
diante de todo um povo.
Esta
consciência, de que o homem é feito para o céu e não para o poder, é o que nos
permite colocar de forma justa o valor da política. De forma realista, ou seja,
tendo em conta a totalidade dos factores. A consciência de que somos chamados a
participar na missão de Jesus, de sermos Suas testemunhas, mas que quem salva o
mundo não é o nosso esforço, não é a nossa vitória: o que salva o mundo é
Cristo. E assim podemos estar diante da política sem qualquer outra pretensão,
sem qualquer outro cálculo, que não seja o de O servir.
4. O OUTRO COMO UM BEM
O segundo ponto que me parece que temos para oferecer é aquilo que o Padre
Carrón sugeria num texto que escreveu sobre a situação política italiana em
2013:
“Agora,
digo isto pensando no presente: se não encontrar espaço em nós a experiência
elementar do outro como sendo um bem, e não um obstáculo para a plenitude do
nosso eu, na política assim como nas relações humanas e sociais, será difícil
sair da situação em que nos encontramos.”
Num
tempo em que o outro é olhado, mesmo entre nós, como um obstáculo, tomar
consciência de que também ele é feito do mesmo desejo de bem e de felicidade
que eu, ainda que o exprima de forma diferente e até mesmo — não tenhamos medo
de o dizer — de forma errada, esta consciência do outro como um bem é essencial
Dizer
que o outro é um bem não significa dizer que tudo é bom, ou que todas as ideias
são igualmente válidas. É simplesmente afirmar que a pessoa não é definida
pelas suas ideias, nem sequer pelos seus actos, mas pelo desejo de Deus que
está presente no coração de cada homem. E este é o ponto de partida para
eventualmente construir algo.
Claro
que esta proposta tem um limite evidente: a minha abertura ao diálogo pode não
encontrar correspondência. Posso acabar a falar sozinho. Mas a alternativa a
esta tentativa de encontrar um ponto em comum com o outro, como dizia o Padre
João, é a guerra civil. E isso é o que hoje, de forma metafórica, entenda-se,
vivemos.
5.
UNIDADE
O
terceiro ponto que gostaria de referir é o da unidade. Na conversa que já aqui
descrevi com o Padre João sobre o meu empenho na política, a última coisa que
ele me disse foi: lembra-te que na política segues sempre a Isilda e o
António Maria.
Na
altura pareceu-me um ponto meramente operativo, para um jovem sem experiência.
Com o tempo tenho-me dado conta como a unidade com estes dois amigos tem sido
central na minha acção política nestes últimos doze anos. Por dois aspetos.
Primeiro,
porque me salva da tentação do poder, de servir o poder. Durante estes anos,
várias vezes a Isilda, o António e eu discordamos. E, como temos o feitio que
temos, e eu tenho um especialmente forte, acontece por vezes discutir-mos, até
com aspereza. E é nestes momentos que a Isilda diz sempre o mesmo: não nos
podemos zangar pela política, o essencial é a nossa unidade.
Porque
Nosso Senhor não disse que estava presente quando um de nós tiver razão, mas
quando dois ou mais estivermos reunidos em Seu Nome. Não pediu ao Pai que nos
tirasse do mundo, mas que fossemos um só, para que o mundo acreditasse.
Esta
unidade, não me salva apenas a mim do meu mau feitio, da minha impulsividade,
da minha vaidade, mas é a hipótese de, na política, tornar Cristo presente.
6.
AS FORÇAS QUE MUDAM A HISTÓRIA
Por isso é que me parece que neste momento, onde a política tem introduzido entre nós uma ferida, o ponto essencial não é em quem votamos, mas sim, como dizia Giussani: a solução “não advém directamente enfrentando os problemas, mas aprofundando a natureza do sujeito que os enfrenta.”
Quero com isto dizer que as eleições presidenciais e até a política não
interessam? Evidentemente que não. E seria ridículo eu dizer tal coisa, quando
dedico tanto tempo (roubado à família, antes de mais) a tentar participar na
vida política.
Um
católico que é advogado, não é que para exercer a sua profissão como católico
só pode exercer direito canónico. Um professor de biologia que seja católico, e
que em vez de falar de biologia nas aulas, para ser católico, dá catequese, é
só um mau professor. Por isso um católico empenhado na política tem de fazer
política. Mais, como diz o Padre João na sua lição, se quer estar na política
tem de estar onde esta se faz: nos partidos. E sobre isto não acrescento mais
nada, porque o que vale mesmo a pena é ir ler o que disse o Padre João, que é
sempre melhor do que qualquer coisa que eu diga.
Por
isso, a política é essencial, e temos o dever de participar nela. E estas
eleições são importantes, e devemos ter claros os critérios com que votamos e
as razões por que o fazemos. Mas a mim parece-me que o mais importante, neste
tempo em que o juízo foi substituído pela indignação, a Fé pela ideologia, e o
povo pela massa, não é a forma como a nossa acção política se traduz, mas a
consciência com que o fazemos.
Porque
a acção, ainda que nascida de um juízo profundo, pode estar errada. Eu posso
votar para a semana com belíssimas razões e depois, por um conjunto enorme de
circunstâncias que não controlo, arrepender-me amargamente do meu voto. E não
estou nada preocupado com isso. Porque votar é escolher entre candidatos
imperfeitos, em circunstâncias que eu não controlo, e por isso o resultado do
meu voto, mesmo que bem ponderado, está completamente fora do meu controlo.
Mas
estar diante da política com a consciência clara daquilo a que somos chamados é
o que nos permite dar testemunho de Cristo.
No
Maio de 68, um tempo em algumas coisas parecido com o nosso, um jovem foi ter
com Giussani e diz-lhe querer estar «com as forças que mudam a história».
Falava dos movimentos marxistas para onde tinham migrado a esmagadora maioria
dos jovens católicos de então. Giussani responde-lhe então: «As forças que
mudam a história são as mesmas forças que mudam o coração do homem».
E,
por isso, a única coisa que eu desejo, diante destas eleições e diante da
política actual, é manter-me fiel a esta consciência em que Giussani nos educa,
que nos permite estar de forma livre diante da política. Penso que é isto que
temos a oferecer à política actual.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Católicos por Cristo
Vi os católicos por Seguro e não gostei. Acredito nas boas
intenções, mas ser católico não é uma bandeira política. Não se pode reduzir a
Fé a uma identidade: há os não socialistas por Seguro, os trabalhadores por
Seguro, os que bebem café por Seguro, os católicos por Seguro.
Vi os católicos por Ventura e gostei ainda menos. Mais uma
vez, estarão cheios de boas intenções, mas a verdade é que pegam em citações do
Magistério que confirmam a sua opinião, ignoram várias outras, e transformam o
voto em Ventura numa obrigação de um católico.
Repare-se: acho muito bem que os católicos se empenhem na
política. É essencial que tenham consciência de que também a Fé está
relacionada com a política. E é bom que, na hora de votar, a Fé seja o factor
essencial no seu discernimento. E sejamos claros: quando falamos de Fé, falamos
daquilo que a Igreja ensina, a sua doutrina, o seu magistério, não de uma
opinião difusa.
Mas o trabalho que é preciso fazer é, partindo daquilo que a
Igreja ensina, olhar para as opções disponíveis e decidir em consciência à luz
da Fé. Ora, ambos os manifestos fazem o percurso contrário: partem da sua
opinião sobre os políticos em causa e colam pedaços da Doutrina da Igreja para
confirmar o que já tinham decidido. Ou seja, reduzem a Fé à sua ideologia.
A escolha de dia 8 não é fácil. Infelizmente, não só nenhum
dos candidatos defende aquilo que a Igreja ensina sobre o poder político, como,
pelo contrário, ambos defendem coisas gravemente contrárias aos ensinamentos da
Igreja. Desde a defesa da eutanásia por António José Seguro aos constantes
ataques a emigrantes e ciganos por Ventura, os dois candidatos oferecem razões
suficientes para um católico, em abstracto, não votar em nenhum.
Mas não somos chamados a escolher a pessoa que gostaríamos
de ter como Presidente da República, e sim a escolher entre duas pessoas
concretas. A Fé deve ajudar nesse discernimento, mas isso dá trabalho. É
preciso estudar, é preciso ler e ouvir os candidatos, ajuizar a situação
política e tentar discernir qual dos dois poderá ser mais útil ao Bem Comum,
como a Igreja o propõe.
Reduzir a Fé a uma bandeira ideológica, tentando que esta
encaixe na nossa opinião pessoal, é mais fácil, mas é, de facto, ser “católico
por Ventura” ou “católico por Seguro”. O que a Igreja nos propõe é sermos de
Cristo. Não se pode servir a dois senhores.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Quem vota Seguro não é Socialista, quem vota Ventura não é Fascista.
Esta frase devia ser uma evidência. Antes de mais, porque nem o primeiro é socialista, nem o segundo é fascista. António José Seguro, na melhor das hipóteses, é um social-democrata. Já André Ventura, por muito que alguns activistas berrem, é sem dúvida um populista, mas não é fascista.
Mas o ponto principal nem sequer é este, porque podíamos ter um socialista e um fascista a concorrer a Presidente, e mesmo assim isso não transformava quem votasse em algum deles num socialista ou num fascista.
Votar num candidato não é o mesmo que o apoiar ou concordar com ele. Votar é escolher, entre as opções disponíveis, aquela que parece ser a mais possível de ser útil ao bem comum. Um trabalho fácil quando as escolhas são boas e abundantes; um trabalho muito difícil quando só há dois candidatos e nenhum deles vai de encontro aos nossos ideais.
De entre as pessoas em quem mais confio nas questões políticas, conheço várias que vão votar António José Seguro e várias que vão votar André Ventura. Cada um com as suas razões, em geral razões com as quais eu concordo, e nenhum deles está especialmente contente com o seu sentido de voto. Simplesmente, tendo de escolher entre os dois, decidiram usar o seu voto da forma que lhes parece menos má: porque AJS é mais moderado, porque não querem um antigo secretário-geral do PS como Presidente, porque acham que AJS oferece maior estabilidade, porque acham que AV não vai ganhar e querem que Seguro ganhe pelo menos possível, etc. Tudo boas razões, nenhuma das quais se traduz num apoio a qualquer um dos candidatos.
Este discurso tonto, de que de alguma forma nestas eleições estaríamos perante uma escolha entre direita e esquerda, democracia e fascismo, socialismo e liberdade, seria ridículo se não fosse trágico. E é trágico porque, mais uma vez, torna a política numa guerra de trincheiras, onde do lado de lá está um inimigo a abater. Quem é pela liberdade tem de votar X, o que significa que quem não vota como eu é um inimigo da liberdade.
E não vale a pena dizer que isto é coisa de Ventura ou de Seguro: ambos os lados estão cheios de pessoas com esta posição, que demonizam quem vota de forma diferente, que transformam qualquer divergência de pensamento numa heresia.
Ora, não é verdade que Portugal se divida entre socialistas e fascistas. Não é verdade que quem vota em Seguro ou em Ventura seja mais puro ou menos puro. Não é verdade que a democracia e a liberdade estejam em causa. O que põe em causa a liberdade e a democracia é a incapacidade de olhar para o outro — sobretudo o outro que discorda de mim — como uma possibilidade de bem. E, sem isso, a política transforma-se numa guerra onde é preciso esmagar e sanear o adversário, tudo em nome do bem e da liberdade.
sábado, 17 de janeiro de 2026
Filipe Igualdade e o agitar das águas: reflexão pré-eleitoral
A França, no final do século XVIII, estava decadente. Cheia
de dívidas, com os resquícios do feudalismo a garantir privilégios para a
nobreza — incluindo o não pagar impostos —, a corrupção era omnipresente e a
fome surgia a cada seca. Cada tentativa de mudar o estado das coisas parecia
votada ao falhanço perante a oposição daqueles a quem a situação aproveitava.
Muitos sentiam a urgência de mudar as águas, de combater o
sistema. Entre eles estava o Duque de Orleães, o mais importante nobre do país,
primo do rei e imensamente rico.
Da sua residência em Paris, o Palais-Royal, foi patrocinando
os inimigos do rei, acolhendo-os e criando clubes e cafés onde a polícia não
podia entrar sem a sua autorização. Pagou panfletos, patrocinou a caridade e
arrendava casas a preços baratos. Tudo para ser rei em lugar do rei e, assim,
instituir uma monarquia liberal.
Nos Estados Gerais, tomou as dores do Terceiro Estado e
liderou os nobres que atravessaram o salão e se juntaram a estes. Recusou todos
os títulos e mudou o seu nome para Filipe Igualdade; tornou-se deputado na
Convenção Nacional, votou favoravelmente a morte do Rei, seu primo, e juntou-se
aos jacobinos. Um belo agitar de águas.
Claro que teve o azar de os revolucionários não o quererem
para rei; aliás, nem sequer o queriam especialmente para deputado, já que foi
eleito como o 24.º e último da lista pela Comuna de Paris e nunca ocupou
qualquer lugar de destaque. Talvez o seu momento de glória, em conjunto com o
apoio à morte do Rei, tenha sido ter sido também ele morto durante o Terror.
O agitar de águas, a tal luta contra o sistema que Filipe
Igualdade patrocinou na esperança de controlar a revolução e chegar ao poder,
teve consequências mais profundas que a sua própria morte. Resultou em milhões
de mortes entre a revolução, as suas guerras e as campanhas napoleónicas,
abrindo caminhos de morte e destruição que chegariam aos nossos dias.
Claro que o pobre Duque não desejava nada disso. Ele só
queria derrotar o sistema que, de facto, estava podre. E estava disposto a
fechar os olhos a todos os excessos dos revolucionários porque era preciso
agitar as águas. E assim perdeu a cabeça, a França perdeu-se e milhões
morreram. Mas, ao menos, o sistema caiu.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
Carta Aberta à Clara Não
Cara Clara,
Li com atenção a sua carta aberta a alguns políticos sobre a
ideologia de género. Bem sei que não sou nenhum dos destinatários da carta, nem
sequer possuo qualquer relevância – não ocupo qualquer cargo público, não tenho
coluna em qualquer jornal, nem sequer possuo esse título que alguns tanto
almejam de “influencer” –, mas fiquei incomodado com a sua carta e, por isso,
decidi responder-lhe.
Incomoda-me, e penso que é até bastante preocupante, que ao
fim de séculos de luta pela igual dignidade de cada pessoa, a Clara se refira a
um grupo de pessoas como “pessoas LGBT”. Bem sei que é uma tendência designar
pessoas por uma “identidade”, seja a sua sexualidade, a sua etnia ou o seu
estatuto económico.
Para mim, uma pessoa é isso mesmo: uma pessoa. Tenho, entre
os meus amigos e familiares, pessoas de diferentes etnias, religiões e que
vivem a sua sexualidade de forma diferente da minha. Nem por um momento me
ocorreria que essa diferença os definisse. O meu amor, o meu carinho, a minha
estima por uma pessoa não muda conforme a sua sexualidade. Reconheço em cada um
o mesmo desejo de amor, de justiça e de beleza que eu possuo.
Reduzir a pessoa a uma identidade é desumanizá-la; é tratar
essa pessoa, não de acordo com a sua dignidade intrínseca, mas definindo-a por
uma qualquer característica que a Clara ache relevante. No fundo, não é
diferente do racismo ou da xenofobia, onde a pessoa é reduzida à cor da sua
pele ou à sua nacionalidade.
A Clara parece considerar que a consequência normal diante
de alguém diferente é abandonar essa pessoa ou tratá-la mal. E provavelmente
acha que essa é a consequência porque defende que essa diferença define uma
pessoa (é LGBT, é trans, é “racializada”). Para mim, abandonar ou maltratar uma
pessoa diferente de mim é absurdo, porque essa diferença em nada muda a
dignidade ontológica do ser humano.
Por isso, a chantagem psicológica que tenta usar sobre quem
tem uma visão diferente da sua da sexualidade não me impressiona. Já me
preocupa bastante que queira impor a sua visão sobre a sexualidade a toda a
sociedade.
A teoria de género é uma teoria social que defende que o
género e o sexo são coisas diferentes, que o género é apenas uma construção
social e que, por isso, há tantos géneros quantos aqueles que as pessoas
inventarem. O facto de esta teoria estar muito difundida não a torna correcta.
Também houve alturas em que as teorias raciais estavam muito difundidas e não
passaram a ser correctas por causa disso.
A teoria de género faz tábua rasa da biologia, da história e
da sociologia para impor uma visão ideológica da identidade sexual. Mas a Clara
tem toda a liberdade de acreditar em tal teoria, que não vê qualquer problema
em que um homem, por se afirmar mulher, possa espancar uma mulher num ringue de
boxe ou violá-la numa cadeia. Não tem é o direito de a querer impor como
verdade única a toda a sociedade.
A Clara tenta explicar que não há uma ideologia de género,
só uma teoria. Isso só seria verdade se, de facto, fosse tratada apenas como
uma hipótese científica discutível. Mas não é isso que acontece. A teoria de
género tornou-se hoje numa ideologia oficial, que se impõe através de leis, às
escolas, às empresas e à sociedade em geral. Uma verdade de fé que não pode ser
negada, sob pena de punição.
Cara Clara, eu convivo muito bem com a diversidade. Não
tenho qualquer problema com quem pensa ou vive de forma diferente da minha.
Nunca reduzi ninguém à sua identidade sexual, procurando amar e respeitar
qualquer pessoa com quem me cruzo. Aquilo com que não convivo bem é com a
tentativa dos ideólogos do género de procurar reduzir pessoas à sua sexualidade
e de obrigar todo o mundo a pensar como eles. Há um de nós que não vive bem com
a diversidade, mas não me parece que seja eu…
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
As presidenciais e a defesa da vida
Em Fevereiro de 2007, o país foi chamado a decidir sobre o aborto livre, pela segunda vez. Depois da derrota dos defensores do aborto livre em 1998, após muita insistência, o segundo referendo haveria de abrir a porta ao aborto livre em Portugal.
Desde então, o aborto tem estado quase ausente do debate
político. Apesar dos esforços da Federação Portuguesa pela Vida e de tantas
pessoas da sociedade civil, o tema só esparsamente aparece no debate político
e, nos últimos tempos, apenas para se discutir o alargamento dos prazos legais
do aborto livre.
A Federação Portuguesa pela Vida, que nunca desistiu de
lutar pelo fim do aborto em Portugal, apesar de tanto silêncio à sua volta,
perguntou aos principais candidatos à Presidência da República a sua opinião
sobre alguns temas da defesa da vida.
O resultado, triste mas não inesperado, foi que apenas
respondeu Gouveia e Melo, para dizer que o tema era demasiado complexo para uma
resposta de “sim” ou “não”.
Isso significa que, para sabermos o que pensam os candidatos
à Presidência sobre o aborto livre, temos pouco mais do que aquilo que fizeram
em 2007 e algumas — poucas — declarações nos últimos anos.
À esquerda, não é questão: todos são a favor do aborto
livre. À direita, João Cotrim de Figueiredo deixou por várias vezes clara a sua
posição, não apenas a favor do aborto, mas até de algum desprezo pelos
pró-vida.
Sobram então Gouveia e Melo, Marques Mendes e Ventura.
Sobre o primeiro nada sabemos. Respondeu à Federação
Portuguesa pela Vida não respondendo, e até há pouco tempo ninguém lhe conhecia
qualquer opinião sobre qualquer assunto. Esse é, aliás, o grande drama da sua
candidatura.
André Ventura já afirmou várias vezes publicamente que
apoiou o “sim” em 2007, que não quer voltar atrás na liberalização do aborto e
que não esteve no hemiciclo quando se debateu o alargamento dos prazos na
Assembleia da República. É verdade que diz ser contra o aborto, mas naquela
posição, bem conhecida entre nós, de que a proibição não funciona.
Marques Mendes votou “não” em 2007 e, desde então, só falou
do aborto para reafirmar a sua posição no referendo. Não é propriamente
entusiasta: mais do que revogar a lei, fala em apoio à maternidade (tal como
André Ventura) e pouco mais.
É curto, sem dúvida. Mas não seria honesto dizer que é igual
não ter opinião, ser a favor da legalização e ser contra a legalização do
aborto. Mais ou menos timidamente, a verdade é que Marques Mendes é o único
candidato presidencial que publicamente afirma ser contra a actual lei do
aborto.
Existe outro tema quente, relativo à defesa da vida, que
poderá voltar ao debate: a morte a pedido. Aí, Marques Mendes diz não ter
opinião formada, mas afirma que enviaria qualquer lei para o Tribunal
Constitucional; já André Ventura diz que é contra, mas defende, ainda assim, a
realização de um referendo.
Do ponto de vista estrito da defesa da vida, embora nenhum
dos dois tenha, pessoalmente, grande currículo, Marques Mendes leva vantagem.
Primeiro, porque é publicamente contra a legalização do aborto. Depois, porque
mais importante do que saber a posição pessoal sobre a eutanásia é saber o que
fará o Presidente se lhe for enviada uma lei. E sobre isso Marques Mendes foi
mais claro do que Ventura, embora seja bastante razoável presumir que também
Ventura enviaria a lei para o Tribunal Constitucional.
Mas há um ponto importante a não esquecer: as eleições não
são apenas sobre a defesa da vida e, apesar de o aborto — pela sua natureza
profundamente injusta — ser central para uma cultura que defenda a vida, não é
o único assunto relacionado com a dignidade humana.
A defesa da dignidade humana não se esgota no nascimento
para só voltar a aparecer no fim da vida. Ser contra o aborto porque toda a
vida é digna não pode deixar de ter como consequência lógica ser contra todos
os atentados à dignidade humana ao longo da vida: a violência, a pobreza, a
exclusão, a exploração, a discriminação, etc. E, nesse capítulo, é evidente que
o currículo de André Ventura é fraco.
Alguém que usa como tema central da campanha uma frase de
uma música — “Isto não é o Bangladesh” — que tem como rima “tira os teus putos
castanhos da minha creche”, claramente não defende a dignidade humana.
Confesso que as actuais eleições não me entusiasmam, não
tendo qualquer entusiasmo por nenhum dos candidatos. Mas sei que, assim como
não voto em quem defende que o aborto deve ser legal (o que já seria razão
suficiente para não votar em André Ventura), também não voto em quem escolhe
como ponto central da sua campanha o ataque a imigrantes, incluindo crianças.
Por isso, não voto em António José Seguro, não voto em
Catarina Martins, não voto em António Filipe, não voto em Jorge Pinto, não voto
em João Cotrim de Figueiredo e também não voto em André Ventura. O que sobra?
Pouco, ou quase nada. Mas a política é escolher entre os que há, não entre os
que gostaríamos que houvesse.
terça-feira, 25 de novembro de 2025
25 de Novembro: o erro da Direita
Confesso que não partilho do mesmo entusiasmo dos partidos
da Direita com o 25 de Novembro. Parece-me que, na ânsia de encontrar uma data
política só sua, atribuem ao dia um significado que os factos não sustentam.
Afirmar que foi a 25 de Novembro que passámos a ter realmente
uma democracia é esticar a realidade. É evidente que nesse dia se pôs travão ao
PREC, e que isso foi essencial. Mas não podemos esquecer que continuámos a ter
o Conselho da Revolução, que os saneamentos, as ocupações e as nacionalizações
não foram revertidos, e que ainda demoraria pelo menos uma década até termos
uma democracia europeia.
Não quero com isto desmerecer o heróico esforço dos
militares que nesse dia travaram a extrema-esquerda e conseguiram devolver
alguma normalidade ao país. Nem a coragem dos políticos que, mesmo apesar das
ameaças de morte, se bateram pela democracia. Mas, também por justiça para com
eles, não vale a pena transformar o 25 de Novembro no que ele não foi.
A verdade, por muito chocante que isso possa ser, é que o
grande vencedor do 25 de Novembro não foi a direita, nem o centro-esquerda, mas
o Partido Comunista. Claro que Cunhal sonhou com a conquista do poder, e, tendo
falhado a via eleitoral, não se importaria de o alcançar pela força. Mas
percebeu rapidamente que não tinha as “espingardas” para tal. Portanto, deixou
a extrema-esquerda sair à rua – que o preocupava mais do que a direita – e ser
presa, permanecendo sossegado, garantindo que nada perdia do que já tinha
alcançado.
Em Novembro de 1975, Cunhal já tinha tudo aquilo que o PC
queria, excepto o poder absoluto, que não tinha forças para conquistar.
Internacionalmente, tinha garantido que as províncias do Ultramar se tornariam
satélites da União Soviética — uma política que conduziu a novas guerras e a
milhares de mortos.
Internamente, tinha conseguido sanear inimigos políticos,
garantir um património considerável para o partido, dominar os sindicatos,
lançar, através da Reforma Agrária, bases profundas no Alentejo, dominar boa
parte da comunicação social e infiltrar militantes comunistas nos ministérios e
nos órgãos de justiça. Tudo isto permitiu que o PC garantisse uma influência
social muitíssimo superior ao seu peso político — influência essa que ainda vai
resistindo passados cinquenta anos, como se prova pelo facto de, apesar de ter
apenas três deputados na Assembleia da República, se preparar para paralisar um
país com uma greve geral em Dezembro.
Ou seja, Cunhal sonhou com um golpe de Estado – e não nos
enganemos –, o facto de estar em minoria não significava que isso não fosse
possível; afinal, 500 soldados em Lisboa tinham imposto a República a um país
de seis milhões de pessoas. Mas garantiu que não perdia nada do que tinha ganho
e ainda viu eliminada toda a concorrência à esquerda.
É evidente que as concessões feitas ao Partido Comunista,
assim como aos militares, foram o que permitiu que, com o tempo, viessemos a
ter uma democracia. E que a alternativa seria, se não uma guerra civil, pelo
menos um período de enorme violência. Por isso, a paz, ainda que podre, alcançada
a 25 de Novembro deve ser festejada — mas não deve ser transformada no que não
é.
2. É possível afirmar que, mesmo assim, celebrar o 25 de
Novembro com solenidade é útil para contrapor a narrativa da esquerda de que
foram eles que construíram a democracia. No fundo, celebrar a data serviria
como lembrete das loucuras do PREC e do preço que pagámos para conseguir ser
uma verdadeira democracia. Compreendo o argumento, mas considero-o um erro,
porque reforça a falsa narrativa da esquerda sobre o 25 de Abril.
Aquilo que começou por ser um golpe militar, motivado por
razões internas de organização do exército, tornou-se, pela adesão do povo,
numa revolução. No 25 de Abril participaram militares e populares de todos os
quadrantes. A Revolução não foi de esquerda nem de direita, mas o grito de um
povo que estava farto da guerra e do Estado Novo.
Na normal confusão que se seguiu, o Partido Comunista — de
longe a realidade política mais bem organizada, e contando com o apoio da União
Soviética — procurou tomar o poder. E entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro
foram cometidas barbaridades, desde prisões políticas a saneamentos de pessoas
sem qualquer ligação ao Estado Novo, que deixaram marcas no atraso social e
económico do país até aos dias de hoje.
A esquerda, autora da esmagadora maioria desses actos, para
justificar as suas acções, construiu uma narrativa que une o 25 de Abril à
tentativa que se seguiu de construir uma ditadura de esquerda. Isto não só
justifica o que fizeram, como torna qualquer ataque ao PREC num ataque ao 25 de
Abril. A verdade é que a esquerda tomou de assalto a memória daquele dia, e a
direita deixou.
Deixou porque teve medo de que, ao denunciar os abusos da
esquerda, fosse colada ao anterior regime. Deixou porque receou que o povo que
se tinha revoltado contra o PREC, sobretudo do Tejo para cima, visse o seu
apoio ao 25 de Abril como um apoio ao processo revolucionário.
E isto foi um erro. Porque quem construiu a democracia não
foi a extrema-esquerda, mas o centro, a esquerda e a direita. A democracia nada
deve a Álvaro Cunhal, mas deve muito a Mário Soares, a Salgado Zenha, a
Francisco Sá Carneiro, a Adelino Amaro da Costa, a Freitas do Amaral e a tantos
outros. Foram eles que, partindo da revolução, construíram um país democrático,
contra os que se queriam munir de uma qualquer legitimidade revolucionária para
impor uma nova ditadura ao país.
E por isso a direita, mais do que insistir numa data própria
— o 25 de Novembro —, deveria reclamar para si a memória histórica do 25 de
Abril. Deveria recordar os homens e mulheres que resistiram à extrema-esquerda
e, sendo fiéis ao espírito da revolução, construíram uma democracia.
Celebrar o 25 de Novembro como se fosse, de alguma forma,
uma espécie de Revolução de Outubro da democracia, é não só uma mentira como
também o reforço do mito da esquerda como herói da democracia.
Por isso, gostaria que a Direita parasse de cair na
narrativa da Esquerda e reclamasse para si — e para o Partido Socialista, que
tem demasiada vergonha da sua história — o papel essencial que tiveram na
construção da democracia, não apenas no 25 de Novembro, mas desde o 25 de
Abril.
domingo, 19 de outubro de 2025
Regressemos às origens da Europa
1. A islamização da Europa é, sem dúvida, uma ameaça. Hoje, vários países da Europa sentem já os perigos da islamização: bairros inteiros onde a autoridade do Estado não entra, onde reina a Sharia, ou seja, onde os direitos das mulheres não existem, nem as mais básicas liberdades.
É evidente que o Islão tem variadíssimas correntes, algumas
das quais vivem em paz com a sociedade ocidental. Mas não é menos verdade de
que há uma grande corrente do Islão que tem uma visão da sociedade, onde a lei
civil está submetida à lei religiosa. E também não são poucos os que consideram
a civilização ocidental como um inimigo, e que defendem o uso da violência para
submeter os infiéis.
A Europa tem muita culpa neste crescendo da islamização. Não
apenas pela evidentemente desastrosa política de portas abertas na imigração,
mas também porque durante décadas, no seu desejo suicida de se livrar do
cristianismo, escolheu o islamismo como aliado. Pensemos em coisas tão simples
como a necessidade de assinalar publicamente qualquer festejo islâmico,
enquanto se ignoram as festividades cristãs.
Em Portugal não temos o mesmo problema que o resto da
Europa. Durante décadas a nossa comunidade islâmica era constituída
maioritariamente por moçambicanos e guineenses. Ao contrário do que acontece,
por exemplo, em França, por cá a nossa comunidade esteve sempre cultural e
socialmente integrada.
Nos últimos anos, devido à política de portas abertas da
imigração, esta realidade começou a mudar. Entraram em Portugal milhares de
imigrantes muçulmanos de países que não têm qualquer relação connosco, e com
uma visão muito mais extremista do Islão, que nada tem a ver com a comunidade
islâmica que até então havia em Portugal.
É verdade que ainda não vivemos os mesmos problemas que vemos no resto da Europa, mas seria loucura ignorar os riscos que esta nova vaga de imigração coloca. Seria seguir o caminho da Alemanha, de França, da Bélgica, de Espanha e de vários outros países europeus.
2. Se é verdade que a islamização é um risco para a Europa,
não é o único, nem sequer o mais grave. Porque a islamização não é a causa da
decadência da nossa civilização, mas apenas uma das suas consequências.
O suicídio da Europa é fruto da negação do cristianismo, que
é a sua origem. A Europa não é, geograficamente falando, um continente, mas
apenas uma continuação da Ásia. O que separa a Europa da Ásia não são os Urais,
nem o Bósforo, mas o cristianismo.
Foi o cristianismo que criou a cultura que uniu a Europa. O
personalismo cristão está na origem dos Direitos Humanos, a Fé num Deus
razoável está na origem da revolução científica.
Desde a Revolução Francesa, a Europa vive em guerra consigo
mesma, procurando apagar qualquer traço da presença cristã. Este impulso já
teve várias correntes, algumas vezes conflitantes entre si: liberalismo,
marxismo, republicanismo laicista, nazismo, etc. Hoje revela-se, sobretudo,
naquilo a que chamamos o wokismo.
O maior perigo que hoje enfrentamos na Europa é o ataque à
liberdade que esta cultura procura impor. Esta mentalidade laicista, na sua
actual versão, procura declarar que a sua ideologia é a Verdade, e que por isso
qualquer tentativa de a negar é uma heresia.
Assistimos por toda a Europa a ataques constantes à Liberdade da Igreja, à liberdade de religião, de pensamento, de educação. Hoje, em boa parte da Europa, afirmar que um homem vestido de mulher é um homem, ou que a vida começa na concepção, ou até mesmo que nem todas as culturas são igualmente válidas, é visto como extremista, e, portanto, tendencialmente ilegal.
3. Quem criou o problema, não pode ser a solução. Por esse
motivo é que, mesmo conhecendo os perigos do islamismo, recuso a utilização dos
métodos do laicismo para enfrentar o problema.
A solução para a islamização da Europa não estará
seguramente em dar ao Estado poder para declarar o que cada um pode vestir.
Porque o Estado que declara que o uso da burca é uma submissão degradante da
mulher à religião, é o mesmo que afirma que tem poder para decidir o que é um
Homem e o que é uma Mulher.
Nós temos pouca memória, mas convinha lembrar que os mesmos
ataques que foram ouvidos na Assembleia da República por causa da burca, são os
que foram usados pelos políticos liberais para perseguir as congregações
religiosas no século XIX.
Dirão que não há comparação entre o uso do hábito religioso
e a burca, e eu concordo em absoluto. O problema é que o mesmo poder com que
agora tantos cristãos se alinham para combater o extremismo islâmico, não
concorda. E eu não estou disposto a entregar a Liberdade da Igreja ao bom senso
desse poder. Seria saltar da frigideira para o fogo.
Significa isto que não devemos fazer nada quanto à ameaça do
extremismo islâmico? Claro que não, há muitas coisas que podemos e devemos
fazer. Restringir a imigração, fiscalizar mesquitas e madraças suspeitas de
incentivar ao extremismo islâmico, expulsão dos estrangeiros que defendam o uso
da violência contra os infiéis, proibir o financiamento de países conhecidos
por apoiar o extremismo e o terrorismo islâmico, entre várias outras medidas.
Mas aquilo que não devemos, nem podemos fazer, é combater o extremismo islâmico usando a mesma mentalidade daqueles que hoje, por toda a Europa e no Ocidente em geral, procuram impor uma ditadura do pensamento único. Não estou disposto a sacrificar a minha liberdade de viver a Fé para combater este fenómeno.
4. Então qual é a solução? Como afirmei, na raiz do problema
está a descristianização da Europa, pelo que a resposta é bastante evidente. O
extremismo islâmico na Europa cresce no vazio cultural e espiritual em que
vivemos.
O drama maior é que a Europa não tem nada a propor hoje que
seja mais atraente que o fanatismo religioso. O que sobra hoje da cultura
europeia? O consumismo, o hedonismo, o egoísmo e meia dúzia de frases feitas.
Não é só o Islão que está mais extremista, é também a política. Os jovens
procuram hoje desesperadamente algo que dê sentido à vida, para além do vazio
da cultura moderna.
E a única resposta, a única resposta verdadeiramente Justa,
verdadeiramente Bela, é Cristo.
Nos últimos dias, tenho visto um pouco por todo o lado a
lista de países europeus que proibiram o uso da burca. E não posso deixar de me
perguntar: e funcionou? Em algum desses países se travou a ascensão do
islamismo radical? A resposta é bastante evidente: não.
Por isso, opor-me a leis tontas não significa não considerar
a islamização da Europa uma ameaça. Significa simplesmente que não acredito que
leis injustas e ineficazes resolvam o problema. Recuso-me a fazer o papel de
idiota útil, que enche os pulmões contra o perigo islâmico, contra a cultura
woke, e que depois abre caminho para outro qualquer tipo de opressão, que
deseja, cheia de boa vontade, impor a sua visão do mundo a todos.
A única solução para a islamização da Europa, assim como
para a cultura woke, é a recristianização. Isso não se faz através de projectos
políticos e de poder, que no fundo acabam sempre vítimas da mesma mentalidade
ideológica em que vivemos desde a queda da Bastilha.
O ponto fundamental para a recristianização da Europa é
testemunhar Cristo vivo. Fazê-lo na sua vida pessoal, na sua vida social, na
sua vida política. Não como projecto político, mas como desejo missionário. Foi
assim há 1600 anos, quando Roma caiu, e um pequeno punhado de monges
reconstruiu a Europa. Só poderá ser assim hoje, quando o novo império rui
diante dos nossos olhos.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Proibição da burca: uma lei inútil, perigosa e cobarde
Quem hoje andasse pelas redes sociais pensaria que havia em
Portugal uma epidemia de mulheres de burca a assaltar bancos. Aparentemente,
mulheres muçulmanas de rosto coberto são um enorme risco para a segurança,
apesar de não haver qualquer dado que assim o indique.
A mim, por norma, incomoda-me que o Estado limite a liberdade pessoal,
incluindo a liberdade de cada um se vestir como bem lhe apetece. Claro que
percebo que todos os direitos têm os seus limites, e a liberdade de se vestir
pode ceder diante do direito à segurança. Mas, para que isso aconteça, é
preciso realmente estabelecer um grau sério de ameaça à segurança.
Há imensos comportamentos sociais que são potencialmente perigosos. E alguns
são, de facto, origem de vários actos de violência — basta pensar no álcool,
por exemplo, responsável por tantos actos de violência. Contudo, ninguém
defende que se proíba o álcool. Nem o automóvel, uma das principais causas de
morte em Portugal, nem as comidas gordurosas ou açucaradas. Então, por que
razão o potencial risco da burca é suficiente para a sua proibição?
Claro que a segurança é apenas uma das desculpas — e a mais
fácil de vender — para esta proibição. A outra é a defesa da dignidade das
mulheres. Ainda hoje Rui Rocha, no Parlamento, ao bom estilo de um Abranhos ou
de um Gouvarinho, explicou a missão civilizadora do Estado. A sagrada liberdade
dita que tudo o que Rui Rocha acha indigno da condição feminina deve ser
proibido.
Não falo, como é evidente, dos casos em que as mulheres são
obrigadas pelos homens a usar burca. Isso já era ilegal (e acho encantadora a
candura destas pessoas que não percebem que o homem que impede a mulher de sair
de casa de cara descoberta irá simplesmente passar a impedir que ela saia de
casa, agora que isso é proibido). Mas, para quem hoje aprovou esta lei, mesmo
que a mulher escolha livremente esconder a cara, isso significa uma submissão
inqualificável à religião, que um Estado civilizado não pode aceitar.
Pelos vistos, não viola a dignidade da mulher vender o seu
corpo na internet. O corpo da mulher ser tratado como um qualquer pedaço de
mercadoria é, para os nossos deputados, uma expressão da sua liberdade.
Insuportável mesmo é que queiram andar de cara tapada! Espero pelo dia em que
um grupo de homens, tão magnânimo como os que hoje defenderam a dignidade da
mulher submetida à religião, decrete o fim do uso do soutien ou a obrigação do
biquíni na praia — tudo, evidentemente, em nome da dignidade das mulheres!
Tudo isto seria cómico, se não fosse perigoso. Basta ler a
exposição de motivos do projecto de lei, ou ouvir o discurso de Rui Rocha hoje
no Parlamento, para perceber a ameaça que esta lei pode representar. Num tempo
em que o valor mais ameaçado no Ocidente é a Liberdade, acho sempre perigoso
que um Parlamento invoque o poder do Estado para restringir a Liberdade
Religiosa. “Libertar as mulheres da religião” é uma frase que devia ser bem
conhecida dos católicos portugueses — afinal, foi essa uma das justificações
dos liberais para acabar com as congregações, e dos republicanos para acabar
com a liberdade da Igreja.
Por fim, bem conheço o argumento da ameaça islâmica. E
reparem que não tenho dúvida sobre ela. Ainda André Ventura andava a fazer
teses sobre a ameaça que o securitarismo representava para a liberdade dos
islâmicos, já eu escrevia sobre o tema (foi, aliás, o tema do meu primeiro
artigo no meu primeiro blogue). O problema é que a maior ameaça do islamismo é
a ameaça que representa às liberdades pessoais, sobretudo à liberdade
religiosa. Imitar o pior do extremismo islâmico para o combater não me parece bom
exemplo. Sim, o extremismo islâmico é uma ameaça, mas o extremismo laicista
também o é, como o comprovam a República Espanhola, a URSS ou a Revolução
Francesa.
Por tudo isso, esta lei hoje aprovada na Assembleia da
República (e foi aprovada por toda a direita, pelo que a malta que gosta de
dizer que eu só embirro com o Chega pode ficar sossegada) é ridícula e
perigosa. Ridícula, porque trata um problema que não existe — ou seja, a
suposta ameaça da burca. Perigosa, porque concede ao Estado o direito de
decidir o que as mulheres podem ou não vestir, e decide como podem ou não as
pessoas praticar a sua religião.
Por fim, é uma lei cobarde: forte com os fracos e fraca com
os fortes — quem promove o extremismo islâmico. Cortar relações com o Catar ou a
Arábia Saudita, dois dos maiores patrocinadores do terrorismo islâmico, nem
pensar. Oprimir ainda mais mulheres oprimidas, não há problema. É uma lei que
serve para mostrar serviço, para fingir que alguma coisa está a ser feita, para
alimentar a populaça. Uma lei feita à medida, que irá afectar mulheres
especialmente fragilizadas, não libertará nenhuma, não trará mais segurança,
mas permitirá aos partidos de direita fingir que estão a fazer alguma coisa.
terça-feira, 16 de setembro de 2025
Dia 12: ou Moedas ou Leitão
Uma das coisas que me surpreendeu no debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa foi a Alexandra Leitão pensar convictamente que os lisboetas não têm memória. A candidata da burguesia de esquerda parece achar que ninguém sabe que o PS governou Lisboa durante catorze anos.
Fala do Alojamento Local, como se não tivesse sido com Medina que este passou de 500 licenças para 9.500 (com Moedas diminuíram), fala da limpeza da cidade, como se a divisão de competências entre juntas e câmara (o maior entrave a uma solução camarária para a limpeza da cidade), não tivesse sido decidida pelo PS. Fala de equilíbrio entre carro e transportes públicos, como se o PS não tivesse seguido durante catorze anos a estratégia de perseguição aos carros privados, sem contudo melhorar os transportes públicos. Para Alexandra Leitão todos os problemas da cidade nasceram nos últimos quatro anos, mesmo sabendo que as medidas que Moedas conseguiu aprovar tiveram de contar com o apoio do PS, dado que este governava em minoria.
Mas o momento mais espantoso da noite foi mesmo ouvir Alexandra Leitão explicar que era preciso incluir os privados na resposta ao problema da habitação. Tal afirmação seria sempre assombrosa na boca de uma candidata que se apresenta pelo Bloco e pelo Livre. Mas na boca de Alexandra Leitão, parece apenas que está a gozar connosco.
Para quem não tem memória, a grande obra de Leitão enquanto secretária de Estado da Educação foi acabar com vários dos contratos de associação. Isto significou que centenas de crianças tiveram de ir estudar para escolas mais longe, com piores condições, e que vários colégios (alguns com décadas de serviço público) fecharam. Uma solução mais cara, menos eficaz, e prejudicial para as crianças, tudo isto por pura birra ideológica.
Por isso, ver Alexandra Leitão, cujo o maior feito político foi dar uma machadada na cooperação entre o Estado e escolas privadas, defender a necessidade de incluir os privados na resposta à crise de habitação, deixa claro que está disposta a dizer o que for preciso para ganhar a Câmara.
Dia 12 de Outubro é preciso ter claro uma coisa: na Câmara ganha quem tem mais um voto. Não há geringonças, coligações nem acordos, por um se ganha, por um se perde. Por isso, a escolha é entre a candidatura da esquerda burguesa, liderada pela orgulhosa estatista Alexandra Leitão, ou Carlos Moedas.
Eu votarei Moedas com convicção de que é a melhor escolha para a cidade, e que dificilmente encontraria uma melhor. Mas aqueles que não querem votar Moedas por uma qualquer embirração, tenham consciência que um voto no Chega é um voto em Alexandra Leitão. Um voto no ADN é um voto no Bloco. Um voto na Nova Direita é um voto no Livre.
Dia 12 a escolha em Lisboa é entre Carlos Moedas ou entregar Lisboa à extrema-esquerda. Cada um vote em consciência e depois viva com a consequência da escolha que fizer.
terça-feira, 26 de agosto de 2025
O Padre Gabriel e seus companheiros: luz na escuridão da Terra Santa
Gabriel Romanelli é um argentino de 64 anos, nascido em Rio
Cuarto, na província de Córdoba. Em 1989 foi ordenado padre e desde então é
missionário no Próximo Oriente. Calhou-lhe em sorte ser pároco da Igreja da
Sagrada Família em Gaza durante esta sangrenta guerra.
O Padre Gabriel não é palestiniano, nem israelita, não é do
Hamas, não é um político, nem sequer um soldado, é apenas um pároco, como
centenas de milhares pelo mundo fora.
Em conjunto com outros padres do Instituto do Verbo
Encarnado, quatro freiras da mesma congregação, e umas poucas Missionárias da
Caridade (três a cinco, não se sabe bem), asseguram a presença católica na
Faixa de Gaza. A eles juntam-se os padres e as freiras ortodoxos da Igreja de
São Porfírio.
De há quase dois anos a esta parte a sua missão é acolher
centenas de pessoas que não têm quem cuide delas. Crianças, idosos, mulheres,
doentes, vítimas da guerra. Os mais pobres numa sociedade já de si pobre. Os
últimos dos últimos, a quem o único socorro é destes missionários (há um padre
e uma freira palestiniana, de resto, são todos estrangeiros).
Nos últimos dias o Governo de Israel anunciou a ocupação da
cidade de Gaza, e mandou evacuar os civis, explicando, citando o Ministro da
Defesa de Israel, que as portas do inferno iriam ser abertas. Claro que fugir
da cidade de Gaza seria sempre complicado, dado que não há muito lado para onde
fugir. Mas para os refugiados na Igreja da Sagrada Família, é simplesmente
impossível.
Como afirmam o Patriarca Ortodoxo e o Patriarca Latino de
Jerusalém, num comunicado conjunto, para estes “deixar a cidade de Gaza e
procurar fugir para o Sul é o equivalente à pena de morte”. Por isso o Padre
Gabriel, os seus irmãos padres, as freiras da sua congregação, assim como os
padres e as freiras da Igreja de São Porfírio, decidiram ficar em Gaza. Irão
ficar no meio das bombas, dos tiros, da morte e da destruição. Não abandonam o
seu pequeno rebanho, de cristãos e muçulmanos, os seus doentes, as suas
crianças, as suas mulheres e os seus velhinhos.
Dizem, pessoas mais sapientes que eu, que é inevitável que
assim seja. Que Israel, que controla todas as fronteiras de Gaza, que controla
cerca de três quartos do território, que controla a energia, a água, a comida,
que já eliminou centenas de altas patentes do Hamas, precisa mesmo de
bombardear e invadir uma cidade com centenas de milhares de civis para estar
seguro. O sangue derramado não é suficiente para controlar os carniceiros do
Hamas. E por isso, segundo essas pessoas tão sapientes, a morte daqueles
miseráveis em São Porfírio e na Sagrada Família é o preço a pagar pelo 7 de
Outubro. Claro que aquelas pessoas não têm qualquer culpa, mas o mundo, pelos
vistos, é assim. E quem não concorda é, na melhor das hipóteses, um sonhador,
na pior, antissemita.
E no meio dos carniceiros Hamas, nos seus exílios dourados
no Kuwait, e do Governo Israelita nos seus bunkers em Telavive, dos
activistas nos seus luxuosos veleiros que nunca chegarão a Gaza, ou em viagens
pagas a Israel para verem essa grande democracia, está o Padre Gabriel, da
Argentina, e os seus companheiros. Sem soldados, sem armas, sem bunkers,
sem jornalistas. Ali ficam, dispostos, não a matar, mas a morrer, pelos que
lhes foram confiados.
Por isso desculpem-me se me falta a paciência para retórica
da treta, dos que me querem convencer que os terroristas do Hamas são um
movimento de libertação, ou de que o Governo de Israel está só a defender-se.
Ao ouvir falar do sofrimento daquela gente, só me vem à mente Clóvis: “se ao
menos eu estivesse lá com os meus francos”. Mas já não há Clóvis, nem francos,
nem ninguém que pareça realmente interessado em defender os inocentes. E
sobretudo, já nenhuma nação se interessa pelo destino daqueles pobres cristãos
de Gaza, perseguidos entre os perseguidos. Muitas vezes, nem os seus próprios
irmãos na fé se importam, tão empenhados que estão a defender Israel.
Mas sei bem que se oferecessem ao Padre Gabriel todo um
exército para atacar os seus inimigos, ele provavelmente recusaria.
Provavelmente responderia como no Salmo: “o meu auxílio vem do Senhor que fez o
Céu e a Terra. Não permitirá que vacilem os teus passos, não há de adormecer O
que guarda Israel”. Nesta hora de trevas e dor, o testemunho daquele punhado de
padres e freiras, que diante da morte, escolhem a Vida Eterna, é o raio de luz
que pode vir a iluminar a escuridão que desce sobre a Terra de Jesus.
quarta-feira, 23 de julho de 2025
Dos castelos na areia e das marés
Chegámos à praia e a miúda, do alto dos seus quatro anos,
declara que vai fazer um castelo. Indiferente à maré que vai subindo, pega na pá
e no balde e lá vai tentando, com sucesso relativo. Por fim, lá me deixa
ajudar, e lá sai um castelo. Mas agora, como é evidente, falta protegê-lo.
Escava-se o fosso, um dos manos faz o muro e o pai dedica-se à tarefa
impossível de tentar deter a maré.
De pá em punho, escavo trincheiras, levanto muros, faço
canais, poços, tudo o que me lembro para deter o avanço inexorável da maré. A
pequena cidade, com um castelo e um muro, conta já com duas trincheiras e
vários bastiões, como qualquer cidade que se prepara para receber o invasor.
A luta é desigual, mas o muro e o castelo, assim como as
torres exteriores, lá se vão aguentando, comigo a escavar de cada vez que o mar
galga as trincheiras, para grande felicidade e orgulho dos meus filhos. Mas eu
bem sei que nada mais há a fazer pela salvação da cidade, do que esperar que a
maré pare de subir.
Claro que, inevitavelmente, nos cansámos da brincadeira, e o
apelo das bolas de Berlim fala mais alto. Da minha cadeira, observo a maré a
invadir, ligeiramente atrasada pelo que sobra das defesas arduamente
construídas, aquela pequena cidade — um castelo e um muro — construída pelos
miúdos. E tudo acaba com uma qualquer criança mimada, que, ao passar pelas
ruínas da nossa orgulhosa civilização, destrói com gozo evidente aquilo que nós
construímos, enquanto o pai lhe ralha de forma impotente.
Devo confessar que, enquanto cavava vezes sem conta nesse
esforço inglório de tentar travar a maré, não pude deixar de pensar que havia
algo de alegórico naquela pequena cidade, à mercê do mar, que, apesar de todos
os meus esforços, só podia esperar a salvação com o mudar da maré.
Nós, cristãos, vivemos também hoje tempos assim, onde vamos
fazendo o que é possível para salvar a cidade no alto da montanha, enquanto
vemos uma maré inexorável a avançar. E também nós temos consciência de que os
nossos esforços, por muito grandes que sejam, para pouco mais servem do que
para atrasar a maré. Mas, embora saibamos que a salvação não depende de nós,
temos a consolação de não depender do arbítrio da natureza, mas da Misericórdia
d’Aquele que é Senhor do Tempo e da História. E, por isso, temos bastante mais
esperança do que a que eu senti enquanto via o mar a avançar em direcção ao
castelo de areia, enquanto saboreava a minha bola de Berlim, sentado numa velha
cadeira de praia.
quinta-feira, 17 de julho de 2025
A barbaridade tornou Israel no agressor
Que uma bomba caísse na Paróquia da Sagrada Família em Gaza era inevitável. Quando se faz chover bombas durante quase dois anos num território com o tamanho do Alentejo, era bastante expectável que uma lá fosse cair.
Mas a Igreja da Sagrada Família é apenas mais um
dos alvos civis que Israel atingiu nestes quase dois anos de guerra. Mesmo
descontando todo o exagero e mentiras do Hamas, a verdade é que o contínuo
ataque a Gaza tem provocado milhares de vítimas inocentes. Pessoas pobres,
desesperadas, reféns do Hamas, abandonadas pelos países árabes, bombardeadas
por Israel.
Há muito tempo que qualquer proporcionalidade
entre o horrendo ataque de 7 de Outubro e a resposta de Israel se perdeu. E não
colhe o argumento de que o Hamas, podendo, faria pior. Porque o Hamas é um
grupo terrorista e Israel é, supostamente, um Estado civilizado.
Não coloco em causa o direito de Israel a
existir, nem o direito a defender-se. Não há qualquer dúvida de que o ataque de
7 de Outubro pode ser equiparado a um acto de guerra, pelo que era razoável uma
resposta de Israel. Mas não existe um direito a ocupar território que não é
seu, não há direito a terraplanar Gaza.
É evidente que o Hamas não tem qualquer
problema em usar a população civil como escudo humano. Em usar caves de
hospitais como bases, ou escolas como paióis. São um grupo terrorista. Cabe a
Israel responder como um Estado que respeita o Direito Internacional. Não o
faz. Responde como uma nação poderosa, capaz de punir todo um povo para impor a
sua vontade.
O ataque à Paróquia da Sagrada Família, a
única presença cristã em Gaza, que acolhe 600 pessoas, não é apenas um azar. É
um símbolo da barbaridade da acção de Israel. Não alinho com a esquerda, que
finge que Israel é uma potência imperialista e que, mais ou menos
envergonhadamente, defende a sua destruição. Não acredito que haja um genocídio
em Gaza. Não nego a selvajaria do 7 de Outubro, e não tenho dúvida de que o
Hamas é um grupo terrorista que deve ser destruído.
Mas neste momento, o governo de Netanyahu
tornou Israel numa potência militar agressora, que, para seguir a sua visão de
um Grande Israel — do rio ao mar (a inversão do sonho esquerdista para a
Palestina) —, não hesita em chacinar inocentes (o que é diferente de um
genocídio). E, por isso, tem de ser travado.
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