A França, no final do século XVIII, estava decadente. Cheia
de dívidas, com os resquícios do feudalismo a garantir privilégios para a
nobreza — incluindo o não pagar impostos —, a corrupção era omnipresente e a
fome surgia a cada seca. Cada tentativa de mudar o estado das coisas parecia
votada ao falhanço perante a oposição daqueles a quem a situação aproveitava.
Muitos sentiam a urgência de mudar as águas, de combater o
sistema. Entre eles estava o Duque de Orleães, o mais importante nobre do país,
primo do rei e imensamente rico.
Da sua residência em Paris, o Palais-Royal, foi patrocinando
os inimigos do rei, acolhendo-os e criando clubes e cafés onde a polícia não
podia entrar sem a sua autorização. Pagou panfletos, patrocinou a caridade e
arrendava casas a preços baratos. Tudo para ser rei em lugar do rei e, assim,
instituir uma monarquia liberal.
Nos Estados Gerais, tomou as dores do Terceiro Estado e
liderou os nobres que atravessaram o salão e se juntaram a estes. Recusou todos
os títulos e mudou o seu nome para Filipe Igualdade; tornou-se deputado na
Convenção Nacional, votou favoravelmente a morte do Rei, seu primo, e juntou-se
aos jacobinos. Um belo agitar de águas.
Claro que teve o azar de os revolucionários não o quererem
para rei; aliás, nem sequer o queriam especialmente para deputado, já que foi
eleito como o 24.º e último da lista pela Comuna de Paris e nunca ocupou
qualquer lugar de destaque. Talvez o seu momento de glória, em conjunto com o
apoio à morte do Rei, tenha sido ter sido também ele morto durante o Terror.
O agitar de águas, a tal luta contra o sistema que Filipe
Igualdade patrocinou na esperança de controlar a revolução e chegar ao poder,
teve consequências mais profundas que a sua própria morte. Resultou em milhões
de mortes entre a revolução, as suas guerras e as campanhas napoleónicas,
abrindo caminhos de morte e destruição que chegariam aos nossos dias.
Claro que o pobre Duque não desejava nada disso. Ele só
queria derrotar o sistema que, de facto, estava podre. E estava disposto a
fechar os olhos a todos os excessos dos revolucionários porque era preciso
agitar as águas. E assim perdeu a cabeça, a França perdeu-se e milhões
morreram. Mas, ao menos, o sistema caiu.

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