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domingo, 19 de março de 2023

Faltam pais


 Há poucas coisas mais contracorrente para um homem dos nossos tempos do que ser pai. Hoje, apesar de todas as ilusões colectivistas das últimas décadas, triunfou o individualismo. O homem moderno é aquele que vive para si, sem depender de ninguém, focado apenas na sua satisfação.

Ser pai é o contrário. Ser pai é viver para outros. Ser pai é dar a vida pelos filhos. Não apenas em momentos heroicos, que raramente somos chamados a viver, mas no dia-a-dia: trocar fraldas, acordar a meio da noite, idas ao hospital, trabalhos de casa, etc.
No tempo do “tu tens direito a ser feliz” e do “se não cuidares de ti quem cuidará?” sacrificar-se por um outro é um anátema. E isso vê-se nas disputas infindáveis sobre o poder parental, como se os miúdos fossem um adereço ou uma arma de arremesso. Vê-se na indisponibilidade de educar, preferindo entregar os miúdos a um número sem fim de actividades extracurriculares, que os vão mantendo entretidos, e cedendo a todos os caprichos para não ter que levar com uma birra. Vê-se no fazer e refazer constante da vida familiar (com “tias” e “irmãos” a entrar e sair constantemente). Tudo porque o essencial é satisfazer-se a si mesmo.
O resultado está à vista: cada vez mais os miúdos crescem sem pais, entregues a si mesmos, aos seus caprichos, aos seus problemas. Crescem sem ter a segurança de um adulto para quem olhar, que os guie, que os ajude a crescer. Tantas vezes ouvimos falar de como os miúdos estão cada vez mais mimados, e de como são cada vez mais “tiranos”. É normal, crescem à imagem desta sociedade egoísta que lhes roubou os pais e lhes deu em troca crianças grandes.
O reinado do individualismo produziu uma geração de crianças infelizes, deprimidas e infantis. Fazem falta homens que estejam dispostos a dar a sua vida toda para ajudar os seus filhos a crescer. Ou seja, fazem falta pais!

domingo, 12 de março de 2023

Sobre a confusão dos números recebidos pela CEP

 




- No relatório, na página 109, é dito que a Comissão decidiu “que a lista das pessoas alegadas abusadoras ainda no ativo, seria remetida, apenas no termo dos trabalhos, tanto ao Ministério Público, como à Conferência Episcopal Portuguesa”

- No dia 14 de fevereiro, dia a seguir à apresentação do relatório, Pedro Strecht, presidente da Comissão Independente, afirma que há mais de uma centena de abusadores vivos, no activo ou não.

- Com base nesta afirmação os meios de comunicação social começam a difundir que haverá mais de 100 abusadores ainda no activo. Ideia que, apesar do largo acesso à Comunicação Social, nunca foi cabalmente desmentida pela Comunicação Social.

- Em justiça, deve-se dizer que Ana Nunes de Almeida, em entrevista ao Observador a 17 de fevereiro, afirmou que a lista de cerca de 120 nome não seria só de vivos.

- Ou seja, embora se tenha formado a convicção na Comunicação Social, quer por causa da página 109 do relatório, quer pela entrevista de Pedro Strecht no dia 14 de fevereiro (que lançou o alarme e que ele nunca desmentiu), que a lista a entregar à CEP seria de abusadores vivos, aparentemente a Comissão sabia que estava a entregar a lista de todos os padres cujos nomes tinham sido referidos nas denúncias.

- Persiste um último mistério, como a Ângela Roque na Renascença chamou a atenção: se a lista entregue à Comissão é de todos aqueles que foram denunciados, porquê a discrepância assinalável entre os números da lista e os do Relatório? Penso que uma explicação possível é que os números do relatório incluam os de denúncias onde a vítima não conseguiu identificar o agressor. O que coloca o problema: se o agressor não foi identificado como sabemos que não é um dos já referidos no relatório? Enfim, uma confusão que seria bom que fosse explicada.

- Estas confusões nascem daquilo a que há uns tempos referia como sendo as limitações do método utilizado, que tornavam os números pouco fiáveis. Não se trata de um ataque à Comissão, mas era importante que tivesse ficado claro desde o príncipio que a Comissão iria recolher testemunhos, mas que não tinha como missão investigar essa denúncias, trabalho que teria que ser feito pelo Ministério Público e pelas Dioceses, nos casos possíveis. O objectivo da Comissão era dar voz ás vítimas e deu. Claro que era útil que alguns membros da própria Comissão não se esquecessem desse facto.

- Faltando apenas quatro Dioceses revelar os dados, os números são estes: de 83 nomes entregues, 31 estão mortos (37%), 9 são desconhecidos (11%), 11 eram casos já investigados ou em investigação (13%), 11 já não exercem funções (13%), 2 eram de dioceses erradas (3%) e 19 denúncias eram de casos desconhecidss nas dioceses (23%). Destes casos novos, 6 foram suspensos, sobre os restantes 13 foram pedidos mais dados à Comissão.

- Os últimos dias também tornaram claro que, como afirmou o Patriarca de Lisboa, da lista constava apenas nomes. As afirmações de alguns membros da Comissão de que os bispos teriam os dados que precisavam, insinuando que o Patriarca tinha mentido, é, na melhor das hipóteses, dúbia.

- Para quem estiver interessado neste tema, a melhor fonte de informação continua a ser, como há uns anos a esta parte, o blogue Actualidade Religiosa, do Filipe d'Avillez.

sexta-feira, 10 de março de 2023

Liberdade da Igreja




Ontem no Parlamento vários partidos decidiram não apenas criticar a Igreja, mas explicar aquilo que a Igreja deveria fazer na questão dos abusos de menores. Também o Presidente da República decidiu criticar a Conferência Episcopal Portuguesa sobre este assunto e fazer sugestões sobre o comportamento da Igreja, como aliás já tinha feito André Ventura. Estamos perante dois enormes equívocos que não podemos deixar passar.

O primeiro é bastante simples: por muito impressionantes que possam ser os números de relatório, infelizmente são uma minúscula minoria dos abusos sexuais que acontecem em Portugal. Em média há 2400 processos de abusos por ano, sabendo perfeitamente que os casos que chegam à justiça estão longe de ser a totalidade dos casos. A Comissão Independente recebeu 512 denúncias que considerou válidas, para um período de 70 anos, ou seja, quase um quinto da média ANUAL de casos denunciados no nosso país.
Para a Igreja é indiferente se percentualmente o número de casos no seu seio é pequeno ou grande relativamente ao resto da sociedade. Um só era de mais. Mas se o poder político quer falar de abusos de menores, então não pode ignorar que a esmagadora maioria dos casos não acontecem na Igreja.
Sobretudo quando fala dos abusos da Igreja, na consequência de um relatório que foi encomendado pela própria, num processo de purificação, que mais nenhuma instituição em Portugal fez. É verdade que no tema dos abusos houve erros na Igreja e que a comunicação tem sido muitos desastrosa. Mas nos últimos anos a Igreja portuguesa tem feito, na senda daquilo que os Papas têm proposto, um trabalho enorme para garantir a segurança dos menores. Tem regras muito mais apertadas que o Estado ou qualquer outra instituição. Em consequência do relatório apresentado todas as dioceses estão a fazer investigações para assegurar que não há padres abusadores no seu seio. Mas pelos vistos ao Presidente da República e aos deputados só lhes interessa o abuso de menores na única instituição que realmente está a fazer alguma coisa para acabar com eles!
Se estão realmente preocupados com o abuso de menores, façam o que lhes compete e tomem medidas para combater seriamente o flagelo dos abusos de menores no país. Apontar à Igreja serve à onda mediática, mas não às vítimas de abusos em Portugal.
Mas há segundo equívoco, e este mais grave. É que a Igreja é autónoma do Estado. A separação da Igreja e do Estado, não significa apenas que a Igreja não se mete no Estado, significa também que o Estado não interfere na Igreja. Os cidadãos, sejam ou não eclesiásticos, respondem perante a lei como é evidente. Um sacerdote que abusa de um menor deve ser julgado. Mas isso não significa em momento algum que o Poder político possa interferir na Igreja.
Ter o Presidente da República e os deputados a dizer que a Igreja deve fazer isto ou aquilo, que não fez o suficiente ou que tem que fazer mais, é uma violação grosseira da separação entre o Estado e a Igreja e uma ofensa à Liberdade da Igreja. Os deputados podem fazer leis para punir quem abusa de menores (e devem fazê-lo), não podem é tentar impor à Igreja o quer que seja, que não a lei geral e abstrata. Esta ofensiva é um ataque à Constituição e as regras mais elementares do Direito de qualquer Estado civilizado. Mais grave só a ideia peregrina do Chega, aprovada por unanimidade dos restantes partidos, de chamar ao Parlamento o presidente da CEP para prestar esclarecimentos, como se de um ex-banqueiro ou de um presidente de um clube de futebol se tratasse.
Sobre os abusos a Igreja tem de fazer o seu caminho de purificação. E é com esperança que vejo algumas dioceses a fazê-lo com clareza e espero que as outras lhe sigam o exemplo. Também espero que a CEP tenha mais cuidado na comunicação, centrando-se mais nas vítimas e menos em questões laterais. Mas discernir esse caminho cabe à Igreja não ao Estado. A Igreja não está acima da lei, mas o poder político também não. Em Democracia, aplica-se a boa velha máxima de Nosso Senhor: então dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

terça-feira, 7 de março de 2023

A hipocrisia habitual de Isabel Moreira



Isabel Moreira assina um artigo no Expresso que é um tratado de jacobinagem. A senhora deputada vem clamar que é preciso o Estado intervir na Igreja, proibir a doutrina sexual nas Igrejas, acabar com a confissão e várias outras coisas.

Muito haveria para dizer sobre intolerância da deputada. Os seus excessos podiam ser perdoáveis à luz de uma qualquer revolta com as vítimas de abusos. Mas, sabendo que Isabel Moreira é deputada do Partido Socialista, que apoia António Costa e votou em Ferro Rodrigues para Presidente da Assembleia da República é difícil levar a sério a revolta da deputada activista.
Lembremo-nos que no escândalo Casa Pia existiram denúncias contra Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso. E não se tratou de denúncias anónimas, nem de extrapolações, mas de factos concretos, com dia, local e hora. Recorde-se também que há escutas de Ferro Rodrigues e de António Costa a tentar interferir na investigação.
Estes factos nunca impediram Isabel Moreira de continuar no PS ou a levaram a pedir qualquer intervenção do Estado no seu partido. Pelo contrário, nunca teve qualquer problema em apoiar Ferro Rodrigues e António Costa.
Ora a mesma pessoa que diante de denúncias sólidas de abusos e de tentativas de encobrimento nada fez a não ser apoiar os denunciados, vem agora pedir a intervenção do Estado na única instituição em Portugal que teve a coragem de investigar os abusos no seu seio e de dar voz às vítimas.
Pelos vistos para Isabel Moreira abusos de menores e o seu encobrimento só são maus quando praticados por padres. Se forem por camaradas seus não são obstáculo para que os apoie politicamente.
A hipocrisia da deputada é clara. A ela pouco lhe importa as vítimas, só quer aproveitar a ocasião para atacar a Igreja.

O abuso de menores na Igreja é um pecado e um crime grave. Os culpados devem ser punidos. Mas é vergonhoso ver a quantidade de chacais a aproveitar a dor das vítimas como bandeira política. Mas vindo de Isabel Moreira não espanta, aproveitar a dor alheia é a chave da sua carreira política.

domingo, 5 de março de 2023

Ainda sobre o abuso de menores na Igreja

 




AINDA SOBRE OS ABUSOS DE MENORES

A minha cena preferida do filme Um Homem Para a Eternidade é quando um discípulo de Thomas Moore fica muito chocado por este afirmar que daria o benefício da lei até ao demônio. Perante o escândalo do seu discípulo o chanceler inglês explica-lhe que se para perseguir o demônio alguém derrubasse todas as leis, quando derrubasse a última o demónio se iria virar contra ele e não haveria qualquer lei para o proteger.

Tenho-me lembrado muito desta cena nos últimos dias. Há pouco crimes mais demoníaco do que um sacerdote abusar de um menor. A fúria diante das revelações do relatório da Comissão Independente são por isso justificadas.
Contudo, a exigência que a Igreja ignores todas as lei e trate como culpados qualquer padre que tenha sido denunciado, sem qualquer processo ou investigação servirá sem dúvida para aplacar a revolta, mas não serve a justiça.

A lei, civil e canónica, não existe para para aplacar fúrias, nem para fazer controlo de danos. Serve para se fazer justiça. É óbvio que os padres sobre quem recaiam denúncias devem ser investigados. Não podem é ser tratados à cabeça como criminosos pela mera suspeita de crime.

A Igreja fez o que nenhja instituição se atreveu a fazer. É tem regras sobre os abusos de menores muito mais restritas que qualquer outra instituição. E ainda bem que é assim. Mas não pode é recorrer à injustiça só para satisfazer as multidões que clamam por sangue. 

E aqueles que hoje pedem à Igreja que ignore as leis, tenham cuidado, não vá acontecer que a seguir seja exigido o mesmo sobre eles.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Intervenção no Faith's Night Out 2023 - Centro Congressos Lisboa, 25/02



Na minha pertença a Cristo e à Igreja, o encontro com o Padre João Seabra, que morreu em Junho do ano passado, foi o mais decisivo da minha vida.

No dia 12 de Novembro de 1978, em Santa-Isabel, na sua missa nova, o Padre João Seabra disse “O bom gosto do nosso mundo perguntará, escandalizado, se eu me considero então detentor da única verdade. E eu respondo que não. Não sou detentor da verdade. Mas sou detido por Ela. Não sou senhor da verdade, mas sou servo da Verdade”.

Este parece me um bom ponto de partida para a minha intervenção desta noite. Porque quando pedimos para levar a Verdade onde houver o erro, não estamos a pedir para nos afirmar-mos a nós mesmo, as nossa ideias, a nossa opinião.

Quando pedimos para levar a Verdade onde houver o erro, aquilo que pedimos é para levar Cristo, a Verdade feita carne, onde houver erro. E o primeiro lugar onde é preciso que a Verdade vença o erro é no meu coração.

Levar a Verdade onde houver o erro não é por isso um pretensão, ou uma arrogância. Pelo contrário, precisa de uma humilhação: a de me fazer servo dela! A de submeter as minhas pretensões, os meus impulsos, as minhas tentações, de submeter toda a minha pessoa ao serviço da Verdade.

Lembro-me quando fui ter com o padre João para lhe dizer que estava a pensar empenhar-me na política. Lembro-me bem de onde ele estava sentado, na cabeceira de uma mesa comprida na Sacristia Velha da Igreja da Encarnação (isto há mais de quinze anos)! Ele disse-me três coisas.

A primeira foi “lembra-te sempre que és cidadão dos céus e concidadãos do Santos”. Ao princípio estranhei, mas com o tempo tenho percebido que esta consciência é essencial para se estar na política. Porque sem o horizonte do céu é fácil ou ceder ao desespero, ou ceder ao poder.

Porque afirmar a Verdade diante do erro, sobretudo na política, não nos garante qualquer vitória, pelo contrário. E se é verdade que de vez enquanto lá conseguimos ganhar, não é menos verdade que os tempos não nos são favoráveis.

Acontece-me várias vezes, quando falo com alguém sobre as minha lutas políticas, perguntaram-me com ar desconfiado “mas tu achas que vão ganhar?” e a minha resposta, para algum choque do meus amigos, é sempre a mesma “tenho a certeza que vamos perder”.

Meu caros, eu sou católico, monárquico, miguelista, democrata-cristão, pró-vida e sportinguista! A derrota é quase inata em mim!

Mas a mim Deus não me pede que ganhe nada, nem sequer o céu, porque esse é Ele que o oferece. A única coisa que que Deus pede é que sejamos fiéis à Verdade que encontrámos. A vitória é Ele que a dá, quando e como entender. Como Nosso Senhor afirma: não digo estas coisas para vos atribular, Eu venci o mundo!

A consciência do céu é por isso essencial para nos mantermos fiéis à Verdade, diante da tentação do desespero ou do poder.

A seguir o Padre João perguntou-me se eu sabia qual era o dever de um católico na política. E eu, cheio de boa doutrina, respondi: servir bem comum. Ao que ele que me disse que eu estava errado. O dever de um católico na política é dar testemunho de Cristo. Como o dever de um católico que seja professor, ou advogado, ou médico. E explicou-me que a política era a forma mais elevada de caridade porque, se um professor é chamado a dar testemunho de Cristo diante dos seus alunos, e um médico diante dos seus doentes, um político é chamado a dar testemunho de Cristo diante de toda a sociedade.

Muitas vezes ouvimos falar da falta que fazem políticos católicos. Confesso que não concordo. Católico não é uma categoria política: temos os deputados LGBT, os deputados antirracismo, os deputados católicos! Não, a fé não é uma bandeira política.

O que falta é católicos que estejam empenhados na política. Ou seja, mulheres e homens para quem o encontro com Cristo é e tal forma totalizante, que estão dispostos a servi-lo na vida pública! Não com umas bandeiras ideológicas convenientes para capturar um nicho eleitoral, mas dispostos a empenhar-se seriamente na política, em todos os assuntos, tendo como critério a Verdade.

A última coisa que o Padre João me disse foi “tu na política segues a Isilda Pegado e o António Maria Pinheiro Torres”. Para quem não conhece estes meus dois amigos, são dois dos maiores protagonistas na defesa da Igreja e sobretudo da causa da Vida na política.

Ao princípio pensei que era apenas uma indicação prática, para alguém que estava a começar uma vida política. Com o tempo percebi que era muito mais do que isso.

É como Jesus nos ensina no Horto da Oliveiras: Pai, que eles sejam um só, como Tu e Eu somos um só, para que o mundo creia. Cristo faz-se presente na comunhão de um povo que é a Igreja. Na Ascensão Jesus não diz, onde tu estiveres, eu estarei também. Mas sim, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio vós.

É na comunhão entre os católicos que Jesus se faz presente. E isto é igualmente verdade na política. O meu esforço, mesmo que esteja certo e os outros errados, por si só é estéril. Porque em última instância é sinal apenas de mim mesmo.

A unidade com este amigos, não apenas o António e a Isilda, mas tantos outros que fui conhecendo, é sinal para o mundo da presença entre nós de Jesus, o único que torna possível vencer diferenças, zangas e irritações. Não é possível dar testemunho da verdade, sem a unidade.

E é assim, nesta amizade com estes meus amigos da Federação pela Vida, que há anos que a luta pela defesa da vida se mantém. A luta contra o aborto, pela família, pela liberdade de educação, contra eutanásia, é sustentada por esta amizade construída em Jesus. Não hesito em dizer que o povo da vida, que tanto tem feito nestes anos, nasce desta unidade!

O testemunho mais visível do povo da vida é sem dúvida a Caminhada pela Vida. Em dez cidades do país, são milhares os que saímos à rua para num tempo que afirma a cultura do descarte e da morte, dar testemunho público de que a Vida Humana é sagrada desde o momento da concepção até à morte natural. Quando falamos em levar a verdade onde houver o erro, a Caminhada pela Vida é um momento concreto para fazer carne este pedido.

Na vossa cadeira encontraram um flyers a convidar-vos para a Caminhada pela Vida, já no dia 18 de Março às 15h, no Largo Camões. Venham, convidem as vossas famílias, convidem os vossos amigos, avisem nas vossas paróquias, nos vossos movimentos!

Senhor fazei de mim um instrumento da Vossa paz, para que onde houver erro que eu leve a Verdade, pedimos nós na oração que serve de mote a esta noite. Dia 18 de Março às 15h no Largo Camões, cada um de nós tem a oportunidade para fazer esta oração com os nossos pés, caminhando em defesa da Vida. Estão todos convidados! Muito obrigado a todos, que Deus vos guarde!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Sobre o relatório dos abusos sexuais: algumas notas

 


 

1. As primeiras palavras sobre o relatório dos abusos de menores na Igreja não podem deixar de ser dor e vergonha. Independentemente das opiniões e até críticas que o relatório possa merecer, não é possível ficar indiferente aos relatos que ali estão. A verdade é que houve menores abusados na Igreja. E esses menores cresceram, para se tornar homens e mulheres profundamente marcados por esses abusos. E durante anos, às vezes décadas, carregaram sozinhos essa dor, não sentido da parte da Igreja o apoio necessário para enfrentar o crime de que eram vítimas.

E essa é talvez a culpa mais terrível da Igreja em tudo isto. Os sacerdotes da Igreja, assim como os seus colaboradores, são homens como todo os outros, e por isso pecadores como todos os outros. Também entre os católicos há criminosos horrendos. Pode-se fazer tudo o que for possível para prevenir os crimes na Igreja, mas não é possível controlar a liberdade humana que pode sempre escolher o mal. Mas a culpa terrível é que as crianças que foram abusadas não encontram na Igreja quem as apoiasse. Ou pelo menos, não acreditaram que pudessem ser ajudadas por quem pertencia à Igreja. E se assim é, alguma coisa teremos feito, para que aquelas pessoas abusadas e feridas no seu mais íntimo, não se sentissem acolhidas e protegidas. E isso não é apenas culpa dos abusadores, mas de todos os que pertencem à Igreja.

2. Quanto ao relatório em si, confesso que tenho alguma dificuldade com o método usado. A denúncia, sem investigação séria, sem contraditório, é muito facilmente manipulável. Por muito que nos pareça improvável que alguém invente um situação destas, a verdade é que não é impossível, nem sequer especialmente difícil fazê-lo. Para além disso, falamos muitas vezes de acontecimento com 40 ou 50 anos, sendo também fácil as confusões. Penso especialmente nos caos de insinuação, referidos no relatório, que a esta distância me parecem difíceis de avaliar.

Dito isto, percebo também que este era o único método possível de dar voz às vítimas. E este é talvez o maior mérito deste relatório: permitir a quem foi abusado na Igreja e nunca se sentiu escutado ou acompanhado, sê-lo. Na maior parte dos casos era impossível uma investigação judicial (veja-se que a maior parte dos casos enviados ao Ministério Público não chegou a ser investigado). E a verdade é que a comissão não revelou nomes, enviou-os à CEP que poderá agora investigar devidamente, seguindo as devidas regras processuais. A alternativa a este método era criar um sistema de tal forma rígido que se tornaria inviável. Por isso, continuando a não gostar do método, percebo que era o possível para permitir às vitimas de abusos na Igreja denunciar o que lhes aconteceu.

3. Os números apresentados pelo relatório são talvez a parte mais problemática. O relatório é de facto útil para compreender melhor o fenómeno dos abusos na Igreja, mas o método usado torna os número pouco fiáveis. Não digo que sejam poucos ou muitos. Por um lado, estimativas baseadas nos relatos das denúncias (que dão os quase cinco mil casos falados), não me parece fiável. Por outro, com certeza que nestes cinquenta anos houve pessoas abusadas que morreram sem que se soubesse do horror que tinham sido vítimas, haverá vitimas que não quiserem voltar a reviver o abuso, ou simplesmente que não acreditasse que valesse a pena denunciar. Por isso o número avançado pode pecar por defeito ou por excesso e dificilmente haverá forma de o confirmar.

Tenho ouvido muitas pessoas declarar que isto é apenas a ponta do iceberg, que haverá muito mais casos do que aqueles que foram revelados. É um palpite como outro qualquer. Eu não me arrisco a dizer se são mais ou menos: os que foram, foram demais e tudo temos que fazer para que não se repitam.

4. Enquadrar os abusos na Igreja no seu contexto histórico e social, não é apenas justo, é também importante para conseguir compreender melhor como evitá-los. Não se trata de desculpabilizar, nem de menorizar o problema, mas sim de entender melhor. Mas é fácil passar desta contextualização para uma comparação: aconteceu em todo o lado, na Igreja até acontece menos, é um problema transversal. E se todas estas afirmações são verdadeiras, a mim não me confortam nada. Sim é verdade que os abusos de menores não são um exclusivo na Igreja, nem há uma especial incidência destes comportamentos na Igreja. Também é verdade que muitos destes casos “encaixam” na mesma dinâmica de outros casos de abusos de menores. Mas a Igreja tem o dever de ser melhor. Sim, somos todos pecadores, mas isso não nos desobriga da obrigação de procurar ser santos. Por isso para mim um abuso na Igreja é bastante mais grave do que noutras realidades.

5. Por fim, um último apontamento: uma das informações mais interessantes do relatório é o facto de a grande maioria dos denunciantes nunca ter feito qualquer queixa do abuso de que foi vítima. Para muitos, este relatório foi a primeira vez que falaram do tema. Evidentemente que isto não impede que tenha havido em alguns casos negligência da parte dos responsáveis da Igreja. Mas não encontramos qualquer indicação da suposta teia de encobrimento que tantos apregoam. A hierarquia podia e devia ter feito mais e melhor, mas a teoria de um grupo de criminosos a abafar crimes continua sem encontrar qualquer sustento factual.