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sábado, 17 de janeiro de 2026

Filipe Igualdade e o agitar das águas: reflexão pré-eleitoral

 


A França, no final do século XVIII, estava decadente. Cheia de dívidas, com os resquícios do feudalismo a garantir privilégios para a nobreza — incluindo o não pagar impostos —, a corrupção era omnipresente e a fome surgia a cada seca. Cada tentativa de mudar o estado das coisas parecia votada ao falhanço perante a oposição daqueles a quem a situação aproveitava.

Muitos sentiam a urgência de mudar as águas, de combater o sistema. Entre eles estava o Duque de Orleães, o mais importante nobre do país, primo do rei e imensamente rico.

Da sua residência em Paris, o Palais-Royal, foi patrocinando os inimigos do rei, acolhendo-os e criando clubes e cafés onde a polícia não podia entrar sem a sua autorização. Pagou panfletos, patrocinou a caridade e arrendava casas a preços baratos. Tudo para ser rei em lugar do rei e, assim, instituir uma monarquia liberal.

Nos Estados Gerais, tomou as dores do Terceiro Estado e liderou os nobres que atravessaram o salão e se juntaram a estes. Recusou todos os títulos e mudou o seu nome para Filipe Igualdade; tornou-se deputado na Convenção Nacional, votou favoravelmente a morte do Rei, seu primo, e juntou-se aos jacobinos. Um belo agitar de águas.

Claro que teve o azar de os revolucionários não o quererem para rei; aliás, nem sequer o queriam especialmente para deputado, já que foi eleito como o 24.º e último da lista pela Comuna de Paris e nunca ocupou qualquer lugar de destaque. Talvez o seu momento de glória, em conjunto com o apoio à morte do Rei, tenha sido ter sido também ele morto durante o Terror.

O agitar de águas, a tal luta contra o sistema que Filipe Igualdade patrocinou na esperança de controlar a revolução e chegar ao poder, teve consequências mais profundas que a sua própria morte. Resultou em milhões de mortes entre a revolução, as suas guerras e as campanhas napoleónicas, abrindo caminhos de morte e destruição que chegariam aos nossos dias.

Claro que o pobre Duque não desejava nada disso. Ele só queria derrotar o sistema que, de facto, estava podre. E estava disposto a fechar os olhos a todos os excessos dos revolucionários porque era preciso agitar as águas. E assim perdeu a cabeça, a França perdeu-se e milhões morreram. Mas, ao menos, o sistema caiu.