Gabriel Romanelli é um argentino de 64 anos, nascido em Rio
Cuarto, na província de Córdoba. Em 1989 foi ordenado padre e desde então é
missionário no Próximo Oriente. Calhou-lhe em sorte ser pároco da Igreja da
Sagrada Família em Gaza durante esta sangrenta guerra.
O Padre Gabriel não é palestiniano, nem israelita, não é do
Hamas, não é um político, nem sequer um soldado, é apenas um pároco, como
centenas de milhares pelo mundo fora.
Em conjunto com outros padres do Instituto do Verbo
Encarnado, quatro freiras da mesma congregação, e umas poucas Missionárias da
Caridade (três a cinco, não se sabe bem), asseguram a presença católica na
Faixa de Gaza. A eles juntam-se os padres e as freiras ortodoxos da Igreja de
São Porfírio.
De há quase dois anos a esta parte a sua missão é acolher
centenas de pessoas que não têm quem cuide delas. Crianças, idosos, mulheres,
doentes, vítimas da guerra. Os mais pobres numa sociedade já de si pobre. Os
últimos dos últimos, a quem o único socorro é destes missionários (há um padre
e uma freira palestiniana, de resto, são todos estrangeiros).
Nos últimos dias o Governo de Israel anunciou a ocupação da
cidade de Gaza, e mandou evacuar os civis, explicando, citando o Ministro da
Defesa de Israel, que as portas do inferno iriam ser abertas. Claro que fugir
da cidade de Gaza seria sempre complicado, dado que não há muito lado para onde
fugir. Mas para os refugiados na Igreja da Sagrada Família, é simplesmente
impossível.
Como afirmam o Patriarca Ortodoxo e o Patriarca Latino de
Jerusalém, num comunicado conjunto, para estes “deixar a cidade de Gaza e
procurar fugir para o Sul é o equivalente à pena de morte”. Por isso o Padre
Gabriel, os seus irmãos padres, as freiras da sua congregação, assim como os
padres e as freiras da Igreja de São Porfírio, decidiram ficar em Gaza. Irão
ficar no meio das bombas, dos tiros, da morte e da destruição. Não abandonam o
seu pequeno rebanho, de cristãos e muçulmanos, os seus doentes, as suas
crianças, as suas mulheres e os seus velhinhos.
Dizem, pessoas mais sapientes que eu, que é inevitável que
assim seja. Que Israel, que controla todas as fronteiras de Gaza, que controla
cerca de três quartos do território, que controla a energia, a água, a comida,
que já eliminou centenas de altas patentes do Hamas, precisa mesmo de
bombardear e invadir uma cidade com centenas de milhares de civis para estar
seguro. O sangue derramado não é suficiente para controlar os carniceiros do
Hamas. E por isso, segundo essas pessoas tão sapientes, a morte daqueles
miseráveis em São Porfírio e na Sagrada Família é o preço a pagar pelo 7 de
Outubro. Claro que aquelas pessoas não têm qualquer culpa, mas o mundo, pelos
vistos, é assim. E quem não concorda é, na melhor das hipóteses, um sonhador,
na pior, antissemita.
E no meio dos carniceiros Hamas, nos seus exílios dourados
no Kuwait, e do Governo Israelita nos seus bunkers em Telavive, dos
activistas nos seus luxuosos veleiros que nunca chegarão a Gaza, ou em viagens
pagas a Israel para verem essa grande democracia, está o Padre Gabriel, da
Argentina, e os seus companheiros. Sem soldados, sem armas, sem bunkers,
sem jornalistas. Ali ficam, dispostos, não a matar, mas a morrer, pelos que
lhes foram confiados.
Por isso desculpem-me se me falta a paciência para retórica
da treta, dos que me querem convencer que os terroristas do Hamas são um
movimento de libertação, ou de que o Governo de Israel está só a defender-se.
Ao ouvir falar do sofrimento daquela gente, só me vem à mente Clóvis: “se ao
menos eu estivesse lá com os meus francos”. Mas já não há Clóvis, nem francos,
nem ninguém que pareça realmente interessado em defender os inocentes. E
sobretudo, já nenhuma nação se interessa pelo destino daqueles pobres cristãos
de Gaza, perseguidos entre os perseguidos. Muitas vezes, nem os seus próprios
irmãos na fé se importam, tão empenhados que estão a defender Israel.
Mas sei bem que se oferecessem ao Padre Gabriel todo um
exército para atacar os seus inimigos, ele provavelmente recusaria.
Provavelmente responderia como no Salmo: “o meu auxílio vem do Senhor que fez o
Céu e a Terra. Não permitirá que vacilem os teus passos, não há de adormecer O
que guarda Israel”. Nesta hora de trevas e dor, o testemunho daquele punhado de
padres e freiras, que diante da morte, escolhem a Vida Eterna, é o raio de luz
que pode vir a iluminar a escuridão que desce sobre a Terra de Jesus.