Vi os católicos por Seguro e não gostei. Acredito nas boas
intenções, mas ser católico não é uma bandeira política. Não se pode reduzir a
Fé a uma identidade: há os não socialistas por Seguro, os trabalhadores por
Seguro, os que bebem café por Seguro, os católicos por Seguro.
Vi os católicos por Ventura e gostei ainda menos. Mais uma
vez, estarão cheios de boas intenções, mas a verdade é que pegam em citações do
Magistério que confirmam a sua opinião, ignoram várias outras, e transformam o
voto em Ventura numa obrigação de um católico.
Repare-se: acho muito bem que os católicos se empenhem na
política. É essencial que tenham consciência de que também a Fé está
relacionada com a política. E é bom que, na hora de votar, a Fé seja o factor
essencial no seu discernimento. E sejamos claros: quando falamos de Fé, falamos
daquilo que a Igreja ensina, a sua doutrina, o seu magistério, não de uma
opinião difusa.
Mas o trabalho que é preciso fazer é, partindo daquilo que a
Igreja ensina, olhar para as opções disponíveis e decidir em consciência à luz
da Fé. Ora, ambos os manifestos fazem o percurso contrário: partem da sua
opinião sobre os políticos em causa e colam pedaços da Doutrina da Igreja para
confirmar o que já tinham decidido. Ou seja, reduzem a Fé à sua ideologia.
A escolha de dia 8 não é fácil. Infelizmente, não só nenhum
dos candidatos defende aquilo que a Igreja ensina sobre o poder político, como,
pelo contrário, ambos defendem coisas gravemente contrárias aos ensinamentos da
Igreja. Desde a defesa da eutanásia por António José Seguro aos constantes
ataques a emigrantes e ciganos por Ventura, os dois candidatos oferecem razões
suficientes para um católico, em abstracto, não votar em nenhum.
Mas não somos chamados a escolher a pessoa que gostaríamos
de ter como Presidente da República, e sim a escolher entre duas pessoas
concretas. A Fé deve ajudar nesse discernimento, mas isso dá trabalho. É
preciso estudar, é preciso ler e ouvir os candidatos, ajuizar a situação
política e tentar discernir qual dos dois poderá ser mais útil ao Bem Comum,
como a Igreja o propõe.
Reduzir a Fé a uma bandeira ideológica, tentando que esta
encaixe na nossa opinião pessoal, é mais fácil, mas é, de facto, ser “católico
por Ventura” ou “católico por Seguro”. O que a Igreja nos propõe é sermos de
Cristo. Não se pode servir a dois senhores.
