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segunda-feira, 4 de março de 2024

A falsa narrativa da Esquerda e a cobardia da Direita.


 

1. A Federação Portuguesa pela Vida (FPPV) produziu o manifesto O Valor do Outro que procura ser um contributo sobre a política actual. No âmbito da promoção do manifesto organizou duas sessões públicas (ambas disponíveis no canal da FPPV no YouTube): uma com o Prof. César das Neves e a Prof. Patrícia Fernandes e um encontro para o qual convidou todos os partidos com assento parlamentar.

Antes de falar sobre o encontro com os partidos faço só uma pequena introdução sobre o trabalho da FPPV. Só desde 2015 esta associação apresentou a Iniciativa de Cidadãos pelo Direito a Nascer, que reunião mais de 48 mil assinaturas e foi aprovada no Parlamento. Produziu a petição Toda a Vida tem Dignidade que recolheu 16 mil assinaturas. Fez uma extraordinária campanha contra a eutanásia, onde se destaca a Iniciativa Popular de Referendo que recolheu 95 mil assinaturas. Para além disso tem realizado anualmente a Caminhada pela Vida que este ano acontecerá em 13 cidades do país e que todos os anos traz à rua mais de 10 mil pessoas. Isto são apenas os eventos maiores, já que também organizou dezenas de conferências, coordenou várias campanhas de comunicação e mantém uma presença activa na política. Tudo isto baseado quase exclusivamente em trabalho voluntário, sem qualquer financiamento público (ao contrário das associações que tantas vezes nos opõem), numa história que conta já com mais de vinte anos. Ou seja, a FPPV é uma caso ímpar de política cívica, nascida e sustentada pelo empenho da sociedade civil.

Seria de esperar que os partidos, mesmo o que de nós discordam, tivessem respeito por todo este trabalho cívico. Dos partidos convidados, só três reponderam. O Partido Socialista, dos seus 230 candidatos à Assembleia da República, não encontrou nenhum com disponibilidade para conversar connosco. A Aliança Democrática enviou o Paulo Núncio (e convém aqui sublinhar que foi a AD que escolheu o seu representante) e o Chega Pedro enviou Pedro Frazão.

2.  Durante o encontro foram feitas várias perguntas aos dois candidatos a deputados, sobre os vários temas do manifesto O Valor do Outro. O papel de moderador foi assegurado por mim, que tentei não condicionar nenhuma resposta, confiando na capacidade de quem assistia em ajuizar sobre as repostas que ouvia.

É verdade que Paulo Núncio afirmou ali estar como representante da AD, mas também é verdade que várias vezes explicou qual era a sua opinião pessoal, qual era a posição do CDS e qual era a posição do PSD, deixando claro que, depois das eleições haverá dois grupos parlamentares, com visões diferentes sobre estes temas. Respostas esta que levaram até a ser contestado por algumas das pessoas que assistiam ao encontro.

Em momento algum Paulo Núncio propôs um novo referendo sobre o aborto ou afirmou qualquer intenção de a AD o fazer. Aquilo que disse, e que pode ser ouvido, é que a única forma de reverter a actual lei, que foi aprovado por referendo, é com um novo referendo.

3.  A tentativa de usar as declarações de Paulo Núncio como um anúncio de uma qualquer intenção escondida da AD são absurdas e abusivas, e tratam-se da especialidade da esquerda (a mesma que ignora os cidadãos que os convidam para conversar) de inventar uma narrativa que lhes favoreça.

Infelizmente, e de forma cobarde, ninguém à direita teve coragem para denunciar a falsidade desta narrativa. A AD preferiu simplesmente deixar cair um homem corajoso que afirma aquilo em que acredita, com medo de enfrentar a esquerda, deixando-se assim mais uma vez condicionar pela narrativa cultural da esquerda, erro que continua a pagar caro. É esta razão que leva a que a direita só governe em crise: a ausência de coragem em defender qualquer posição que vá para além da economia.

4. Não é verdade que tenha sido Paulo Núncio, ou sequer a FPPV, a introduzir o tema do aborto na campanha eleitoral. Ele está presente no programa do Livre, do Bloco e do PS. Estes partidos defendem antes de mais o alargamento dos prazos do aborto legal, desrespeitando assim o referendo que legalizou o aborto. Talvez ainda mais grave, propõem “regular” a objecção de consciência, um direito fundamental, que a esquerda quer condicionar.

A esquerda continua afirmar que o aborto é um direito, o que é falso. O aborto é um crime previsto no Código Penal (e nenhuma partido veio defender que assim o deixe de ser), que admite (infelizmente) excepções. Quem defende que o aborto é um direito, defende que um acto seja, ao mesmo tempo, um direito fundamental e um crime. Se for às nove semanas, ninguém pode contestar, se for às 11 (ou às 13, ou às 16 conforme os projetos de cada partido) é um crime que deve ser punido. Um absurdo só possível pelo facto de a lógica ser hoje um velharia substituída pelas sensações.

5.  Infelizmente e de forma cobarde, a direita embarcou na narrativa da esquerda e recusou denunciar a sua narrativa, assim como o ataque ao direito dos médicos a não ser prejudicados por questões de consciência. Preferiram todos fingir ser grave Paulo Núncio vir falar com uma associação cívica com um trabalho político único, fingir que ele tinha proposto o que não tinha e ignorar as propostas da esquerda sobre o tema. Não perceberam que mais uma vez alinharam numa tentativa de silenciar uma parte da população, cívica e politicamente activa, que neste momento não se sente representada em qualquer partido.

6.  Toda esta polémica teve duas grandes vantagens. Primeiro, trazer à luz as propostas que a esquerda tem sobre o aborto. Ao contrário do que é habitual, desta vez ninguém pode dizer que não sabia ao que eles vinham. Infelizmente, o debate neste campo foi ganho por falta de comparência.

A segunda grande vantagem foi que deixou claro que hoje a narrativa é de tal forma dominada pela esquerda, que é impossível falar em defesa da vida por nascer. Em nome da ideologia, ignora-se a realidade biológica, para que todos fiquem de consciência tranquila.

Só pode afirmar que o aborto é um tema pacificada quem desconhece totalmente os dramas do terreno. A FPPV, através das suas associadas no terreno que anualmente apoiam centenas de mulheres, sabe bem como o aborto hoje é usado como coacção por companheiros e patrões, como a maior causa do aborto é a pobreza, a ausência total de respostas do Estado para as grávidas em dificuldade, a ausência de respostas sociais para as mulheres que não querem abortar. Só para quem vive na Torre de Marfim da política e vê a realidade através da bolha das redes sociais ou dos comentadores, é que pode afirmar que a questão do aborto está pacificada.

7.  Por isso é mais urgente que nunca dar testemunho da beleza e da dignidade de cada Vida. O aborto já não é uma batalha política, é uma batalha cultural. Pela reafirmação do valor da vida por nascer, pela proteção da maternidade, pela liberdade de afirmar a ciência em detrimento da ideologia. É isso que o movimento pró-vida tem feito em Portugal nas últimas década, é isso que iremos continuar a fazer, apesar das falsas narrativas da esquerda e da cobardia da direita.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Felizmente Houve Bom Senso.

 


Prevaleceu o bom senso. Paulo Núncio tinha tido a ideia de, num encontro sobre a defesa da vida, respondendo a uma pergunta (por acaso feita por mim) sobre o aborto, dizer que a lei actual só pode ser revertida por um referendo. Pior, teve a ideia peregrina de dizer que o aborto é uma coisa má e que deve ser limitado.

Mas felizmente o bom senso prevaleceu. Nuno Melo já veio dizer que o CDS não mudou de posição, mas nesta legislatura não se pensava em referendo (nem o Paulo Núncio disse tal coisa). Montenegro foi mais longe e prometeu que não mudaria a lei. Rui Rocha rapidamente veio assegurar que o aborto é um progresso. Ventura, não querendo ficar atrás, lá veio fazer juras de que nesta lei do aborto ninguém toca. E assim, juntamente com um balde de tinta verde, o assunto morreu.

Prevaleceu o bom senso e ninguém permitiu que a campanha ficasse refém de assuntos menores, como a dignidade da Vida Humana, as grávidas abandonadas ou a subida da taxa de aborto (1 em cada 5 gravidezes termina em aborto), e podemos continuar a discutir o que realmente importa como linhas vermelhas, cortes nos impostos ou qualquer que seja o assunto que os comentadores declaram essencial.

E como prevaleceu o bom senso, a esquerda irá continuar a discutir o alargamento dos prazos do aborto legal e o fim da objecção de consciência, enquanto a direita se preocupa com o que realmente importa, ganhar lugares em São Bento e garantir o poder que lhe escapa há nove anos.

E assim, cheia de bom senso, os líderes da direita abdicaram de qualquer tentação de liderar o debate público, de defender uma qualquer ideia, e mantêm-se firmes no propósito de continuar apenas a dizer aquilo que acham que lhe dará melhor imprensa.

A mim infelizmente falta bom senso e por isso continuarei, juntamente com os meus amigos da Federação pela Vida, a publicamente defender ideias insensatas, mas verdadeiras, como fazemos no Manifesto O Valor do Outro, que esteve na origem deste pequeno escândalo, de um político de direita dizer sem rodeios aquilo em que acredita.

Por isso, peço que me perdoem a falta de bom senso, e diga com toda a clareza: a vida começa na concepção e o seu valor não depende em nada do seu grau de desenvolvimento; o aborto não é um direito, mas a morte de um bebé e deve ser ilegal; não quero mulheres presas, pelo contrário, quero que nenhuma mulher aborte porque não encontrou quem a apoie; reverter a lei do aborto livre não é um retrocesso, mas um progresso para uma sociedade mais justa.

Fico feliz que o bom senso tenha regressado. A pobreza continuará a ser a maior causa do aborto, os patrões e os companheiros irão continuar a pressionar as mulheres a abortar, o seio da mãe irá continuar a ser o lugar onde um bebé tem menos protecção legal. Mas ao felizmente houve bom senso.


sábado, 10 de fevereiro de 2024

Nos dez anos da morte do meu irmão



Faz hoje dez anos que o morreu o meu irmão Luís. A morte do Luís apanhou-nos de surpresa, mas não foi um choque.

O Luís e eu sempre fomos diferentes, e nem sempre nos demos bem, mas estivemos sempre juntos no essencial. Também por isso partilhámos muitas coisas juntos, não apenas os factos típicos da vida familiar, mas também empenhos e responsabilidades.  Estivemos juntos na luta pela defesa da Vida, fomos ambos responsáveis dos Liceus de Comunhão e Libertação, e demos catequeses (embora nunca juntos) a jovens mais ou menos da mesma idade. Em todas estas realidades mantivemos sempre as nossas diferenças (que de vez em vez descambavam em discussão), mas unidos no essencial.

Quando o Luís ficou doente, uma doença misteriosa, aparentemente mais incomodativa que perigosa, impressionou-me a docilidade com que aceitou a doença. Ele nunca foi pessoa de resmungar ou amargurar com a vida, pelo contrário. Mas mesmo assim, diante de uma doença que muitas vezes o impedia de fazer aquilo que mais amava, a sua resposta foi sempre dócil. Conforme o tempo ia passando viamo-lo crescer em piedade verdadeira, em entrega ao Senhor.

O Luís sempre foi um bom católico, de missa frequente, sempre ao serviço no canto, catequista e educador. Mas nesses meses viamo-lo cada vez mais a viver diante do Mistério de Cristo: na adoração ao Santíssimo, na missa, na oração. O tempo ia passando, e parecia que quanto mais a doença o impedia de fazer aquilo em que sempre se tinha distinguido, mais tranquilo ele vivia. Vivia cada vez mais identificado com Cristo. E isso via-se. Por isso se a sua morte me surpreendeu, não me chocou.

No dia antes seguiu a sua rotina: adorou o Santíssimo na Igreja do Loreto, rezou o terço na Igreja da Encarnação, assistiu à missa e comungou. Foi para casa, despediu-se e acordou no Céu. Surpreendente, mas não chocante. Porque de alguma forma era a conclusão evidente de uma vida tão ardentemente oferecida ao Senhor. De alguém que foi oferecendo tudo a Cristo, até o Seu Senhor o vir buscar.

Neste dez anos tive muitas vezes saudades. E penso muitas vezes nele, sobretudo quando vejo os meus filhos a fazer qualquer coisa que sei que o ia divertir (eles têm mania dos teatros e dos musicais, e não consigo deixar de pensar que produções fariam em conjunto!). Mas a morte do meu irmão nunca me pareceu uma injustiça ou um desperdício. Pelo contrário, sempre foi para mim evidência de que o Senhor cumpre aquilo que promete: “E quando Eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também”.

O Luís precedeu no Céu muitos dos que amo e que neste dez anos se foram juntar a ele. E estou certo de que no Céu acolheu cada um deles, como sempre fez aqui na terra. “E cada um que parte, torna-me o Céu mais confortável. Torna-me o Céu mais habitado” (Padre João Seabra, Missa de 7º Dia de sua mãe).

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Os meus filhos e as crianças da Cova da Moura

 

Fotografia do site da Associação Moinho da Juventude

1. Li há poucos dias uma reportagem (que deixarei nos comentários) sobre as Amas da Cova da Moura. A reportagem é muito interessante e vale a pena ler. Sobretudo, vale a pena darmo-nos conta da realidade que está subjacente, que é a da Cova da Moura, mas podia ser, com uma ou outra diferença, a da Zona J, do Casalinho da Ajuda, do Bairro 6 de Maio e de tantos outros bairros em Lisboa e das suas periferias. A realidade de dezenas de milhares de pessoas.

A reportagem mostra-nos de maneira crua não apenas a pobreza de quem vive na Cova da Moura, mas também os obstáculos que as crianças e os jovens desses bairros têm de ultrapassar para a superar.

E se essa realidade começa logo quando nascem, em bairros sem creches, onde os pais têm de escolher entre pagar uma propina cara numa creche longe de casa ou não trabalhar, como conta a reportagem, não fica por aí. Porque ultrapassado esse primeiro problema vêm todos os outros: as escolas a cair, com projetos educativos formatados na 24 de Julho e desadequados àquela realidade e a ausência de professores. Pais que saem de madrugada e voltam depois do pôr do sol, com um ordenado de miséria, que mal chega para o essencial e sem tempo ou conhecimento para apoiar os filhos na escola. Bairros degradados, sem jardins ou bibliotecas, com poucas ou nenhumas atividades sociais ou desportivas. Miúdos que quando saem da escola estão abandonados à sua sorte e que ao mesmo tempo que veem os pais a trabalhar como escravos para viver como pobres, veem também os que vivem do crime a enriquecer sem trabalhar.

2. Estas crianças terão de competir directamente com os meus filhos. Miúdos que não tiveram problema em arranjar uma creche, que andam numa boa escola, que vão para a escola a horas decentes com os pais e voltam de lá connosco. Miúdos que fazem os trabalhos de casa ou brincam à tarde com os pais, que têm jardins ao pé de casa, têmm a possibilidade de ir a museus e uma casa cheia de livros. Se os meus filhos têm uma dúvida na escola têm pais com formação suficiente para os ajudar, e se a dúvida for mais profunda há sempre alguém na família que sabe do assunto.

Aos meus filhos basta-lhes esforçarem-se para terem oportunidade de estudar na universidade que quiserem. Terão a possibilidade de escolher a sua profissão e até de emigrar, se assim o quiserem.

Os miúdos da Cova da Moura e de todos os outros os bairros iguais, para terem a mesma oportunidade não lhes basta portarem-se bem. Precisam de ser excepcionais e mesmo assim, ter sorte. A única forma que têm de fugir à pobreza é terem jeito para o futebol ou para o crime. E esta é a realidade de dezenas de milhares de miúdos.

É verdade que a vida não está fácil para a classe média. Mas para quem vive na pobreza o único futuro possível parece ser permanecer lá.

3. Nas últimas semanas, começou a pré-campanha eleitoral. Temos ouvido um conjunto gigantes de promessas, de ataques, de comentários. Mas desta imobilidade social a que milhares de pessoas vivem condenadas ninguém fala. Fala-se de corrupção, de comboios, de impostos, mas ninguém quer saber dos pobres, sobretudo destes pobres que vivem nestes bairros.

E porquê? Porque não dão votos. Muitos não são portugueses e dos que são, muitos não votam. E hoje a política reduziu-se a comunicar para os votos. A finalidade da política há muito que deixou de ser o bem comum e passou a ser o poder pelo poder. Por isso cada partido fala para o grupo político que lhe pode garantir votos. Por isso os pobres, sobretudo estes pobres dos guetos, hão-de continuar a ser pobres, sem que qualquer político se preocupe com o assunto.

4. Preocupa-me muito o futuro dos meus filhos, mas a verdade é que, com maior ou menor dificuldade, terão um número sem fim de possibilidades. Se Deus quiser, e se se esforçarem, hão-de conseguir ser aquilo que trabalharem para ser. E sei que haverá sempre partidos políticos interessados em captar os votos da classe média, pelo que encontrarão sempre políticos “preocupados” com o seu futuro.

Já os filhos da Cova da Moura continuarão na mesma, a limpar os nossos escritórios, a construir as nossas casas, nas caixas dos supermercados ou dos restaurantes de fast food, tentados pela criminalidade, como os seus pais e os seus avós, sem um único sobressalto e sem que ninguém se interesse por eles.

sábado, 23 de dezembro de 2023

Testemunhas de um facto


 

Excerto da homília do Padre João Seabra de dia 18 de Dezembro de 2016, IVº Domingo do Advento.

O Natal não é uma recordação piedosa de algo do passado; não nos voltamos para trás porque, se assim fosse, cada ano que passasse o Natal estava cada vez mais longínquo, seria uma recordação vaga, e celebrávamo-lo com menos intensidade do que o celebraram os nossos avós. Portanto, estaria cada vez mais distante e nós, pelo contrário, celebramo-lo como um acontecimento presente. O que é que significa a palavra “tradição”? Significa que fazemos hoje de novo aquilo que aconteceu no princípio. O que é que significa aproximarmo-nos do presépio e venerámos o Menino Jesus? É vivermos de novo, sobrenaturalmente, na ordem do Sacramento, aquilo que aconteceu na história. E por isso eu, hoje, no século XXI não sou menos beneficiado, nem menos feliz, do que o foram os pastores e os magos que adoraram o Menino em Belém.

Como acontecimento humano, o Natal pertence a um tempo determinado; mas como acontecimento sobrenatural é meu contemporâneo. Jesus entrou na história não para ficar delimitado aos 33 anos da Sua vida entre nós, mas para ser contemporâneo de todos os homens. Jesus é contemporâneo de todos o que o precederam, de todos os que viveram no Seu tempo e de todos os que nascera depois d’Ele. É também nosso contemporâneo, nasce hoje, nasce dentro de uma semana, para podermos, como os pastores e os magos, ir ao presépio vê-Lo com os olhos da Fé.

É o que acontece na Eucaristia. O corpo de Cristo que nasceu da Virgem Maria, que foi crucificado e morto, que ressuscitou, que está glorioso no Céu, encontra-se na Eucaristia para me amparar, mas para me fazer companhia, para ser meu amigo. E eu posso caminhar com Ele na margem do Lago de Tiberíades; posso pedir-Lhe como os discípulos: Senhor ensina-me a rezar (Lc 11,1); posso contempla-Lo pregado na Cruz; posso ir com Ele a caminho do Emaús, escutando-O a ensinar-me as Escrituras. Posso fazer tudo isto porque Ele é meu contemporâneo e está presente na minha vida. A nossa fé não é nada menos do que isto! Não somos visionários de um sonho, somos testemunhas de um facto. Vivemos de um facto que aconteceu há dois mil anos e que acontece hoje. Deus que se fez homem para fazer companhia à minha vida é um Mistério presente, aqui e agora.

Pedimos ao Senhor para não descermos a fasquia da nossa expectativa do Natal. Reconheçamo-lo presente com fé verdadeira, confiemos Nele para mudar a nossa vida, para mudar aquilo de que já desistimos ou não somos capazes de mudar, para fazer de nós gente nova pelo poder da Sua Graça. Faltam sete dias para o Natal. Quanta conversão se pode fazer em sete dias! Quanto regresso a Deus, quanto perdão das ofensas, quanta graça acolhida, quanta oração sincera, quantas coisas boas podemos fazer em sete dias para chegar ao Natal com um coração novo, para recebermos o Senhor com a nossa casa preparada e as portas escancaradas.

Que o meu coração não seja a hospedaria onde não há lugar para o receber, mas a gruta, ainda que pobre e tosca, onde Ele se pode reclinar e recebe a adoração dos pastores e dos magos que somos todos nós. Que o Senhor nos dê um Natal Santo, um Natal de conversão e de esperança.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Guerra na Terra Santa: algumas notas


1. A primeira coisa que é preciso dizer é que não há uma equivalência moral entre o Hamas e Israel. O Hamas é um grupo terrorista, que não hesita em matar e torturar inocentes para os seus objetivos. A única solução para o Hamas é a sua erradicação. Todos os terroristas desta organização devem ser presos, e, não sendo isto possível, mortos. O apoio ao Hamas, ainda que apenas moral, deve ser punido. As organizações que colaborem com o Hamas devem ser tratadas como foras da lei. O Hamas não é um movimento político de resistência, é um bando de malfeitores, cujas primeiras vítimas são os próprios residentes da faixa da Gaza. Apoiar o Hamas não é apoiar a Palestina, muito pelo contrário.

Israel é um Estado e como tal tem direito a viver em paz e segurança. E para isso tem o direito a defender-se. Mas precisamente por ser um Estado não pode defender-se nos mesmo termos que um grupo terrorista. É óbvio que a exigência para com Israel é muito superior do que a exigência para com Hamas. Por isso é que defendo que Israel tem o direito a existir em paz e defendo a erradicação do Hamas. Não basta avisos de quando vão bombardear, ou encostar-se à selvajaria do Hamas para justificar a morte de inocentes. Bombardear alvos civis não é aceitável só porque lá no meio estão escondidos terroristas. Claro que o Hamas é cobarde, claro que o Hamas não se importa com os civis que morrem, é um grupo terrorista. Cabe a Israel não se comportar da mesma forma.

2. A comunidade internacional tem pedido contenção a Israel e bem. Mas seria importante não esquecer que Israel combate um inimigo amoral, bárbaro, que enquanto apela à paz, bombardeia civis e mantém crianças reféns. É fácil pedir contenção quando não somos nós a levar com as bombas. Se a comunidade internacional quer mesmo a paz então que a construa: que a ONU mande tropas para Gaza controlar o Hamas, que a comunidade internacional corte relações com quem financia o Hamas, que ajude a perseguir os seus cabecilhas que vivem luxuosamente no Qatar. Até lá, os apelos a Israel são apenas formulas para descargo de consciência.

3. É verdade que a forma como Israel trata os Palestinianos é brutal e muitas vezes injustas. Mas falar em limpeza étnica é absurdo. Israel está a defender-se de um grupo de terroristas que esses sim, declaram claramente querer fazer um genocídio. Um grupo de terroristas que faz questão em esconder-se no meio dos civis e em não permitir que estes fujam. Israel tem feito esforços para diminuir as baixas entre civis. Não há qualquer genocídio.

Infelizmente há, sem dúvida, brutalidade por parte de Israel, para quem é suficiente tentar minimizar as baixas civis, não sendo estas impedimento para atacar o Hamas. Mas há uma diferença substancial: o Hamas faz dos civis alvos, Israel não. Infelizmente o resultado prático é o mesmo: a morte de milhares de inocentes. E isso devia levar Israel a repensar na sua forma de fazer a guerra.

4. Eu tenho imensa inveja das pessoas que têm imensas certezas sobre o conflito na Terra Santa. Das pessoas que simplificam um dos mais complexos problemas de geopolítica em meia dúzia de frase feitas, ou de imagens repescadas do Facebook. Eu confesso que olhando para o Próximo Oriente não consigo vislumbrar qualquer solução fácil. A verdade é que se Israel se desarma desaparece. Também é verdade que a brutalidade de Israel para com os árabes alimenta mais ódio e faz vítimas inocentes. Mas se Israel não a usar, então pelos vistos são as suas crianças, os seus jovens, as suas mulheres, os seus velhinhos que irão ser mortos. Olhar para isto e dizer que há uma solução fácil é ou muito bárbaro (é só matar um dos lados) ou então muito estúpido.

5. Precisamente por ser complexo, é inútil ir procurar legitimidade ao passado. Continuar a recuar no tempo para explicar por que razão aquela Terra deve ser dos judeus ou dos árabes é absurdo. A verdade é que o reino judeu na Terra Santa desapareceu completamente com Tito e Vespasiano. E desde então, até ao séc. XX, nunca mais houve ali um reino independente. A Terra Santa foi trocando de mãos várias vezes, desde os Romanos, ao Bizantinos, passando por vários impérios islâmicos, sem esquecer os reinos cruzados.

O estabelecimento do Estado de Israel e a criação dos países árabes foi um processo cheio de erros, de várias partes. Escarafunchar neles não irá trazer qualquer ajuda. O facto evidente é que na Terra Santa existem dois povos distintos, que merecem viver em paz, dignidade e segurança. O importante agora é procurar uma solução para o problema actual, não continuar preso a um passado longínquo.

6. Tenho visto muito gente espantada pelos movimentos LGBT apoiarem o Hamas. É preciso ser muito distraído para não reparar que estes movimentos são, pela sua natureza, violentos. A ideologia de género parte sempre da violência contra a própria natureza humana, afirmando que a natureza é uma imposição social que os oprime. E por isso são contra a tal “opressão” da sociedade e defendem a destruição de todos os opressores.

São contra o “opressor “israelita, mesmo que isso signifique estar ao lado de um grupo de terroristas que mata crianças a sangue-frio. Porque a realidade para esses movimentos é que eles criam na sua narrativa. Seria bom que os políticos não se esquecessem disso a próxima vez que estes movimentos vierem pedir apoio.

7. As gigantescas manifestações de apoio ao Hamas na Europa demonstram mais uma vez que o nosso continente tem um problema com o Islão. E não vale a pena dizer que é com a imigração. Muitos dos que se manifestam a favor de terroristas e contra o Ocidente já nasceram na Europa. Para além disso a Europa está cheia de imigrantes que não causam qualquer problema (ou não mais do que o habitual). A Europa tem um problema concreto com o Islão, com grandes comunidades que abertamente defendem o terrorismo, a violência e odeiam o Ocidente. Continuar, em nome da tolerância, a permitir a proliferação do islamismo extremista na Europa é um erro que já estamos a pagar e que iremos pagar ainda mais caro.

8. Os grandes esquecidos no meio de toda esta violência são os cristãos. Há décadas que os cristãos são vítimas em todo o Próximo Oriente. Minorias, sem lobby que os proteja, vivem abandonados à sua sorte. Os cristãos naquela parte do mundo são cada vez menos, sendo cada vez mais a sua presença residual em todo o Próximo Oriente, especialmente na Terra Santa. E se neste grande conflito os palestinianos contam com o apoio da esquerda ocidental e dos países árabes e Israel com o lobby judeu, os Estados Unidos e parte da direita ocidental, os cristãos da Terra Santa tem por junto a Santa Sé para os proteger. Rejeitados pelos palestinianos por não serem muçulmanos, rejeitados pelos israelitas por em geral serem árabes, irão continuar a ser esmagados sem ter quem erga a voz por eles.

9. Como já tive ocasião de dizer, a única hipótese de paz na Terra Santa é a Misericórdia. Hoje o Patriarca Latino de Jerusalém ofereceu-se para trocar de lugar com as crianças que são reféns do Hamas. No meio de toda a violência, de toda a vingança, de todo o ódio, a misericórdia Cardeal Pizzaballa, mostra o caminho para a paz: diante do ódio o amor, diante da violência a misericórdia. Este é o único caminho para a paz, por isso juntemo-nos ao convite do Cardeal Pizzaballa, de fazermos jejum e oração no dia 17, a pedir a paz para a terra onde o Deus de Amor se fez homem.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Só a Misericórdia pode trazer a Paz



A estratégia do Hamas é simples. Sabendo que não tem qualquer hipótese de derrotar Israel pelas armas, leva a cabo um ataque brutal, ultrapassando todo os limites que seja possível imaginar. Sabem bem que este ataque levará Israel a uma resposta brutal, que será potenciada pelo facto do Hamas montar os seus covis em prédios, escolas e hospitais. A resposta judaica evidentemente irá causar um enorme número de vítimas, para além de impor sacrifícios brutais aos palestinianos. E o Hamas sabe disso, e sabe que não vai ganhar, e sabe que o seu povo vai morrer. E não se importa. Não se importa porque agora pode fazer o papel de vítima, e vir falar de paz, e dizer que Israel está a matar civis. E haverá idiotas úteis no Ocidente que irão alinhar nessa conversa, e haverá idiotas para tentar equiparar o Hamas e Israel, concedendo a um grupo terroristas bárbaro uma dignidade que não tem, deixando a um canto os legítimos líderes da Palestina.
E o que sobrará no fim? Mortos, muitos, miséria, destruição, e mais ódio. Ainda mais ódio.
Quebrar o ciclo do ódio não é fácil, mas é urgente. Nas últimas décadas já demasiadas atrocidades foram cometidas na Terra Santa para podermos falar em justiça. Todos os lados em conflito (sim, há mais de dois), tem queixas justas e cometeram injustiças. A única hipótese para a paz é a misericórdia e o perdão. Sem isso, continuaremos neste círculo vicioso onde o terrorismo palestiniano alimenta a violência israelita, onde o medo leva a impor muros e separações, onde gerações inteiras continuam a crescer na sombra da guerra e da violência.
Aquilo que espera a Terra Santa nos próximos tempos é a guerra. Rezemos para que que a paz venha tão rapidamente quanto possível.