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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Eutanásia: Que Estado desejamos? Que sociedade queremos construir?




O tema da eutanásia, que tem vindo a ser cada vez mais debatido em Portugal, chegou à Assembleia da República. Neste momento encontram-se no Parlamento duas petições, uma a favor e outra contra (esta com quase o dobro das assinaturas da primeira). Para além disso o Bloco de Esquerda e o PAN já anunciaram a sua intenção de apresentar propostas de lei sobre o tema.

Por isso, queiramos ou não, é hora de reflectirmos sobre que Sociedade e que Estado desejamos. É talvez a única vantagem deste debate é obrigar-nos a ajuizar claramente sobre a posição que nós, enquanto país, enquanto sociedade, temos diante da Vida Humana.

Porque, ao contrário do que tem vindo a ser afirmado, não se está a discutir a autonomia pessoal, não estamos a debater a possibilidade de as pessoas decidirem o que fazer com a sua vida. Na eutanásia é a pessoa que pede para morrer mas sãos os médicos que decidem se ela pode ou não. Não há autonomia pessoal quando são precisos três médicos (como é proposto pelo PAN) para decidir se uma pessoa pode ou não ser morta.

O que está em discussão é saber que resposta tem a sociedade a oferecer aos doentes, aos idosos, aos que sofrem. Oferecemos cuidados médicos, cuidados sociais, oferecemos o nosso amor e a nossa compaixão ou a morte?

A sociedade em que vivemos está baseado no valor da Vida Humana. A Democracia assenta na ideia de que cada pessoa tem um tal valor que não pode haver, aos olhos da lei, cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Esta conquista do reconhecimento que toda a Vida é digna, que toda a Vida tem igual importância para a Sociedade, demorou séculos e é um bem que tem que ser protegido.

Com a eutanásia a sociedade afirma que há Vidas que valem menos. Que há Vidas menos dignas. Que há circunstâncias onde o Estado já não protege a Vida mas antes a elimina. A legalização da Eutanásia seria a vitória da cultura do descarte. De uma cultura individualista e egoísta, onde o outro não me interessa, onde o outro só tem valor enquanto é saudável e capaz de produzir.

A morte termina não o sofrimento, mas a Vida. Ou seja, acaba o sofrimento, mas acaba também a felicidade, o amor e toda a beleza que existe na Vida de cada homem, até daqueles que estão doentes ou envelhecidos.

"Só uma palavra nos liberta de todo o peso e da dor da vida: essa palavra é o Amor." dizia Sófocles. Uma sociedade que oferece a morte aos que sofrem é uma sociedade que desistiu de amar o próximo. Que se rendeu a uma mentalidade utilitarista, onde o valor do outro depende daquilo que ele tem para nos oferecer!

A questão da morte a pedido é por isso uma batalha civilizacional. Uma batalha que cada um que acredita que Toda a Vida Tem Dignidade deve travar! E pode fazê-lo de maneira muito simples: escrevendo aos deputados do seus distrito, escrevendo às estruturas partidárias da sua região, pedindo-lhes para que, no Parlamento, recusem esta sociedade da morte e do descarte e promovam antes uma sociedade solidária, onde cada Vida Humana tem valor, independentemente das suas circunstâncias. Nenhum daqueles que acredita no Valor da Vida está dispensado de, nesta hora fulcral, dar o seu contributo, por mais modesto que seja, para (re)construir uma sociedade assente no Valor e na Dignidade da Vida Humana.

Será possível atingir a linha do horizonte? - José Milhazes, Observador, 31/01/17

Pode-se dizer mal do capitalismo e da “democracia burguesa”, e há fortes razões para isso, mas a vida mostrou que é “pior a emenda que o soneto” apresentar o marxismo-leninismo como alternativa. Que o comunismo continue a ser a linha do horizonte.

Li com muita atenção o discurso feito por Jerónimo de Sousa a propósito das comemorações da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia e vi nele a velha táctica de dizer meias-verdades a fim de nos convencer a repetir uma experiência política, social e económica que falhou nos numerosos países em que foi realizada.

A determinada altura, o secretário-geral do Partido Comunista Português escreve: “Em relação à Revolução de Outubro mistificam culpando-a pelas deformações, erros e desvios, que em determinadas condições históricas, deram origem a um “modelo” que se prolongou no tempo e, como temos afirmado, se afastou e contrariou o ideal e o projecto comunistas em questões fundamentais do ideal comunista e dos objectivos que conduziram à sua realização”.

O dirigente comunista prefere criticar os “mistificadores”, mas não esclarece quando começaram as deformações, erros e desvios que foram contra o projecto comunista, e esta questão é fulcral. Será que o primeiro desvio ocorreu quando Vladimir Lenine, dirigente comunista que dirigiu a citada revolução, ordenou, em 1918, a dissolução da Assembleia Constituinte, o único órgão democraticamente eleito pelos povos da Rússia e um dos símbolos reais do pluripartidarismo conquistado com a Revolução de Fevereiro/Março de 1917? Será que esses desvios começaram com Estaline? Ou com Khrutchov? Ou com Gorbatchov?

Depois de se definir o início das deformações, erros e desvios, importa também saber em que período ou períodos da história soviética se deu o seu fim. Na era de Brejnev, Chernenko e Andropov, oficialmente considerada a era do “socialismo desenvolvido”, que dava acesso imediato ao “comunismo”?

Afirma Jerónimo de Sousa que a Revolução de Outubro “permitiu a largas massas tomar o destino nas suas próprias mãos”, mas onde? Na URSS, então explique durante quanto tempo e como.
Em todo o discurso, apenas encontrei uma alusão a este propósito, resumida na frase: “os trágicos acontecimentos no Leste europeu e na URSS no início dos anos noventa”.

Aqui há claramente um erro nas datas, pois para o PCP os “trágicos acontecimentos” começaram em meados dos anos oitenta, quando Mikhail Gorbatchov foi eleito secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética e os povos do Leste europeu e da URSS readquiriram o direito de decidir o seu destino, restabeleceram aquilo que os comunistas portugueses dizem defender, mas os seus camaradas soviéticos, ao som dos aplausos deles, negavam aos povos por eles dominados: pluripartidarismo, liberdade de expressão, etc.

Diz o dirigente comunista: “O quadro da luta dos comunistas apresenta por esse mundo fora uma grande diversidade de soluções, etapas e fases da luta revolucionária”, mas seria bom exemplificar para que compreendêssemos, para sabermos: em que planeta? Nalgum país do antigo bloco soviético? Na China? Na Coreia do Norte? Em Cuba? No Vietname?

Além disso, ao mesmo tempo que enumera os crimes do capitalismo, bem como as guerras e os milhões de mortos por ele provocados, não utiliza o mesmo critério na análise das experiências comunistas, porque estas não cometeram, nem cometem crimes hediondos, provocam “apenas” “erros” e “desvios”.

Porque falharam todas as experiências de construção do comunismo, Jerónimo de Sousa defende: “a actualidade do socialismo e a sua necessidade como solução para os problemas dos povos por esse mundo fora exige ter em conta uma grande diversidade de soluções, etapas e fases da luta revolucionária, certos de que não há “modelos” de revoluções, nem “modelos” de socialismo, como sempre o PCP defendeu, mas sim, leis gerais de edificação socialista: poder dos trabalhadores, socialização dos principais meios de produção, planeamento – e, sobretudo, como elemento decisivo, a edificação de um Estado que promova e assegure a participação empenhada e criadora das massas na edificação da nova sociedade”.

Será que o PCP tem a chave do segredo, do tal modelo original, milagroso, para realizar uma experiência que nunca deu bons resultados? Não acredito, porque o secretário-geral do PCP não está a falar verdade, por exemplo, quando afirma que o seu partido nunca defendeu modelos de revolução ou de socialismo. A URSS não era um “farol”?

Neste discurso, Jerónimo de Sousa continua a insistir que a Humanidade, faça o que fizer, não escapará à construção do “socialismo” e do “comunismo”, mas, felizmente, das suas palavras torna-se evidente que esta inevitabilidade é uma questão de fé: “Sim, a Revolução de Outubro continua a anunciar que outro mundo é possível!”.

O dirigente comunista sublinha também a existência de: “uma operação de desinformação, intoxicação e manipulação das consciências brutal à escala planetária, que visava erradicar das aspirações e do horizonte da acção dos homens qualquer possibilidade de concretização de um projecto emancipador que o projecto comunista transporta”.

Discordo profundamente dessa operação, se é que ela realmente existe, por uma simples razão: porque acho que o comunismo do PCP deve continuar a ser um “horizonte”, no sentido em que nunca alguém o alcançará por muito que se esforce.

Com isto não quero afirmar que se deva deixar passar de forma despercebida um acontecimento tão importante como o golpe de Estado comunista de 1917. Pelo contrário, deveria servir de reflexão para que os humanos não sejam levados a um ponto de desespero que queiram repetir experiências totalitárias sangrentas como o comunismo ou o fascismo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

“Silêncio” não é “um retrato histórico - José Miguel Pinto dos Santos, Observador, 25/01/17

O problema fundamental da nossa era não é económico nem financeiro. Tão pouco é social ou político. Nem sequer é o populismo ou a proliferação de leis e regulamentos que coartam a liberdade e iniciativa dos indivíduos. A grande crise da Europa e da sua civilização é filosófica. Mas não é principalmente uma crise nem metafísica nem sequer ética. A nossa grande falha civilizacional hoje é epistemológica. Já não se acredita que a realidade seja percetível objetivamente. Vivemos numa época em que todos somos Pilatos, prontos a ripostar “o que é a verdade?” e, ato continuo, virar-Lhe as costas com mais desplante e cinismo que o do verdadeiro Pôncio. Hoje, o ceticismo já não é um tique chique de professor de filosofia, como foi no século dezanove, mas um reflexo imbuído em todos os cidadãos pelo sistema escolar obrigatório.

Assim é natural que a ficção tenda a se sobrepor à realidade. Vivemos na realidade virtual na política, na economia e na gestão empresarial. Quando se desvanece a convicção que o conhecimento humano é capaz de aceder à realidade e apreendê-la restam as opiniões e sobra a crença de que de todas as opiniões têm igual valor. Nesta situação as “narrativas” tornam-se mais relevante que os fatos.
Action,
As narrativas do PS sobre a TSU e da imprensa europeia sobre Hillary Clinton dariam bons exemplos. Mas outro exemplo, quase tão mediático, é-nos oferecido pela narrativa do filme “Silêncio”. Que ficção não é História é a desculpa do costume para casos destes. Como a narrativa de “Silêncio” é vendida como ficção, argumenta-se que não tem de corresponder aos fatos estabelecidos pela ciência histórica. O problema é que, como já não se acredita na possibilidade de qualquer réstia de objetividade na História, e também porque se consome cada vez mais ficção, a narrativa que fica na cabeça é a da ficção e a que desaparece é a da História. A ponto dos jornais se referirem à ficção de “Silêncio” como “um retrato histórico”. A atitude mental da nossa época é conducente a que o retrato virtual oferecido por Scorsese sobre Cristóvão Ferreira e os dois jesuítas que vão para o Japão em sua busca se torne mais real que a realidade histórica cristalizada em dezenas de manuscritos do século dezassete que chegaram até nós.

Mas qual é o retrato histórico de Cristóvão Ferreira (c. 1580—1650) que nos oferecem as fontes do século dezassete? Para quem estiver interessado em saber mais existe material detalhado e acessível na net (meu aqui e outro melhor aqui). Mas podemos resumidamente referir que Ferreira nasceu em Torres Vedras, arquidiocese de Lisboa, cerca de 1580, e que entrou para a Companhia de Jesus em 1596. Fez dois anos de noviciado em Campolide e depois, a partir de 1598, frequentou o Colégio das Artes em Coimbra. Em Abril de 1600 embarcou numa nau para a Índia e chegou a Macau em Agosto de 1601. Aqui completou a sua formação intelectual frequentando os cursos de filosofia (3 anos) e teologia (4 anos) do Colégio da Madre de Deus. Foi ordenado em finais de 1608 e depois embarcou para o Japão na primeira nau disponível, na Madre de Deus, precisamente na sua última viagem. Ferreira não assistiu ao épico combate que resultou na destruição desta embarcação em Nagasaki, porque logo a seguir a desembarcar foi para o seminário de Arima. Em Macau e em Arima aprendeu o japonês a ponto de se tornar completamente fluente. Em 1610 foi para a capital imperial onde se tornou conhecido e popular nos círculos intelectuais, especialmente entre o grupo que veio dar origem à wasan, a matemática japonesa, e entre os cosmólogos independentes, que começavam então a contestar a cosmologia e o calendário oficiais. Também ficou conhecido, no imaginário japonês, pela prática ativa das sete obras de misericórdia corporais: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, visitar os encarcerados, abrigar os sem abrigo, visitar os doentes e sepultar do mortos.

Quando se deu a proscrição do Cristianismo e a expulsão dos missionários em 1614 Ferreira passou à clandestinidade. Em 1617 deixa a capital e passa a exercer a sua atividade em Kyushu, especialmente em Nagasaki e arredores. Em 1633 o padre Sebastião Vieira (1571—1634), o responsável pela missão jesuíta no Japão, também ele na clandestinidade, é preso pelas autoridades e Ferreira assume a direção de empresa jesuíta. Por pouco tempo, porque no ano seguinte também ele é capturado. O que tornou Ferreira notável e conhecido em todo o mundo, de Nagasaki a Edo e do Rio a Cracóvia, foi o de ter sido o primeiro missionário a apostatar. A Cristandade ficou incrédula e os jesuítas em choque. Fizeram-se jejuns e penitências públicas por todo o lado, de Goa a Vilnius. Antes dele outros padres e irmãos, e muitas centenas de leigos, tinham sido submetidos à laje, ao cavalo de madeira, à suspensão, ao caldeirão, à fogueira, à cruz e à fossa sem cederem nas suas convicções relativamente à Verdade. Ferreira tinha sido posto na fossa.
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A fossa, diga-se de passagem, era considerado o tormento mais excruciante de todos, de acordo com relatos coevos que chegaram até nós. O supliciado era revestido com um mino, uma fatiota de palha de arroz, atado com força à volta de todo o corpo, nos pés e pernas, abdómen, braços e tórax, e pendurado de cima para baixo mas de modo que a cabeça ficasse numa fossa, onde usualmente era posto excremento; um sobrado, apenas com espaço para o pescoço, era posto à volta do cachaço para que não pudesse sentir a luz e fazer uma ideia da passagem do tempo; e eram feitos dois golpes nas têmporas de modo a evitar uma morte prematura devido à subida da pressão sanguínea no cérebro. E, já agora, valerá a pena notar que não havia intervalos para refeições, sonecas, ou outras atividades motoras ou excretoras: uma vez na fossa só a morte ou a submissão às exigências da política estatal interrompia a violência. As dores, que se começavam a sentir pouco depois da pessoa ter sido pendurada, são sempre descritas como sendo indiscritíveis: todas as fontes referem que nenhum outro tipo de dor pode ser dado em comparação. A morte ocorria usualmente ao fim de dois a cinco dias, mas uma das mãos era deixada livre fora do mino para que a vitima da violência do Estado pudesse dar um sinal previamente estipulado de que acedia às exigências que lhe eram feitas. Juntamente com Ferreira, a 18 de Outubro de 1633, foram postos na fossa outros cristãos, um dos quais o padre Nakaura Julião (1568—1633), que tinha sido um dos quatro embaixadores japoneses à Europa em 1582-1590 e colega de Ferreira no Colégio da Madre de Deus. Mas enquanto Nakaura exalou o seu espirito ao fim de quatro dias de tortura, Ferreira, que era o chefe, fez o sinal com a mão ao fim de seis horas.

Que Ferreira tenha apostatado levado pela angústia do sofrimento que os cristãos padeciam é uma estória bonita, e que consola a muitos espíritos contemporâneos, mas é ficção. É de frisar que os diálogos de “Silêncio” não são apenas ficção, muitos deles são ficção improvável. Nenhum dos que com ele estavam na fossa foi libertado, e quase nenhum das centenas que se lhe seguiram quiseram ser poupados ou foram poupados. Os japoneses do século dezassete eram rijos, rijos na fé e na incredulidade, rijos na capacidade de sofrer e rijos na capacidade de infligir sofrimento. Seres muito diferentes dos leitores fofos e adocicados de Endo Shusaku na década sessenta, e dos cinéfilos de hoje.

Depois da apostasia Ferreira foi naturalizado japonês, foi-lhe atribuído o nome de um criminoso que tinha sido justiçado, Sawano Chuan, foi-lhe imposta como família a mulher e os filhos do condenado, e foi feito funcionário público. Nas suas novas funções Sawano Chuan participou como interrogador de cristãos que eram torturados, com o fim de obter denúncias de outros correligionários, e no processo ganhou má reputação entre os cristãos japoneses. Foram-lhe também encomendadas várias obras pelo governo, entre as quais um tratado anticristão, Kengiroku, e um tratado sobre a cosmologia ocidental, Kenkon Bensetsu, que tem como peculiaridade ser o primeiro tratado escrito em japonês em que se expõe a esfericidade da Terra, e em que se explica como se pode perceber que na realidade esta é de fato redonda, e que não se trata de apenas mais uma teoria que quem quiser pode aceitar se lhe apetecer.

Os personagens Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe da estória são ficção, mas a estupefação de muitos jesuítas ao ouvirem da apostasia fez com que de fato alguns fizessem longas e arriscadas viagens para contactar Ferreira e chamá-lo à razão. O primeiro foi o padre Marcello Mastrilli (1603—1637), que partiu da longínqua Itália e em 1637 chegou ao Japão, onde foi imediatamente apanhado e posto na fossa sem chegar a se encontrar com Chuan ou com cristãos japoneses. Como ao fim de três dias ainda não tinha morrido, as autoridades impacientaram-se e decidiram acelerar o processo com a sua decapitação.

Outro foi o padre Pedro Kibe Kasui (1587—1639), que viajou clandestinamente do norte do Japão para se encontrar com Chuan. Também foi preso mas teve a sorte de ver a fruição do seu desejo de ser interrogado pelo apostata. Aproveitou-a para lhe implorar que regressasse ao Cristianismo, mesmo com o custo da vida. Não teve no entanto qualquer poder persuasivo no ex-jesuíta, foi posto na fossa e morreu. Foi beatificado em 2008.

Seguiu-se em 1643 um grupo composto pelos padres Giovanni Rubino (1578—1643), Alberto Mezchinski (1598—1643), Diego Morales (1604—1643), Francisco Marques (?—1643) e António Capace (1606-1643) a que se adicionaram três catequistas. Rubino, que tinha sido provincial jesuíta na India, partiu de Goa mas as autoridades em Macau não o deixaram rumar para o Japão. Teve então de ir para Manila, onde arranjou um junco para o seu grupo. Assim que puseram pé em Kagoshima foram presos antes de qualquer ensejo de contato com cristãos locais. Foram tratados com todas as cortesias da etiqueta japonesa para com os inimigos do Estado: começaram na laje e terminaram todos, literalmente, na fossa.

Finalmente, um último grupo, composto pelos padres Pedro Marques (1575—1657), Afonso de Arroyo (1592—1643), Giuseppe Chiara (1602—1683), Francesco Cassola (1603-1644), André Vieira (1611-1678) e cinco leigos, tentou também reconverter Chuan. Nenhum deles tinha sido discípulo de Ferreira, mas não há que duvidar da preocupação fraternal que nutriam pela sua vida espiritual. Foram apanhados em Oshima por um grupo de pescadores e enviados para Edo, onde foram processados. Ao contrário das suas expetativas não lograram convencer Chuan, antes foram convencidos por ele, se bem que com a ajuda do argumento esmagador da laje e outros instrumentos coadjuvantes. Depois de apostatarem também eles receberam um nome japonês, mulheres de ladrões decapitados e uma pensão vitalícia para seu sustento. No entanto, ao contrário de Chuan que gozava de alguma liberdade de movimentos em Nagasaki, estes foram confinados, até à morte, no Kirishitan Yashiki, uma prisão-quinta, em Edo, que os isolava de todo o mundo. Embora não tenham estado em contato com cristãos japoneses terão sido estes os missionários que serviram de inspiração para o Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe de “Silêncio”.

Não há dúvida que a novela de Endo Shusaku é de uma beleza literária notável ao retratar a complexidade dos sentimentos de um cristão empenhado e convicto sob a pressão atroz dos sofrimentos próprios e daqueles que estima. E o mesmo se pode dizer do filme de Scorsese em que o encanto da paisagem e a beleza da banda sonora são acrescentados ao trama empolgante do drama. No entanto é lamentável que ambos tentem sub-repticiamente passar por realidade o que não passa de ficção usando uma técnica ardilosa: juntando a um personagem histórico de carne e osso duas figuras fantasiosas de padres que nunca existiram. O autor poderia ter escrito a mesma estória sem lá ter posto o personagem histórico Cristóvão Ferreira e a novela seria só novela; também poderia ter feito um relato fatual, com o personagem histórico Cristóvão Ferreira acompanhado de outros personagens históricos, como Chiara ou Cassola, e teria então escrito História. Mas escolheu misturar tudo.

Qualquer argumento em defesa da realidade histórica e contra a sua contaminação por fantasias será de difícil aceitação na idade do pokemon-go, da geringonça e de Donald Trump Presidente. Houve eras em que ficção era ficção e negócios eram negócios. Durante séculos filósofos acreditaram que o conhecimento da realidade era possível. Como consequência despendiam um esforço considerável em justificar que o conhecimento que propunham se adequava á realidade física, social e moral, e faziam-no com entusiasmo e otimismo. Hoje esse entusiasmo e otimismo desapareceram. Podemos até comparar a epistemologia da nossa civilização ao Sebastião Rodrigues do filme: otimista e produtiva enquanto manteve a fé; seca, cínica e dilacerada depois de apostatar.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Criaram um impasse, e chamaram-lhe estabilidade - Rui Ramos, Observador, 25/01/17

Uma das mais fascinantes teorias que o presidente da república defendeu este domingo foi a de que Portugal vive em estabilidade. Estabilidade, como? Só porque o governo é ainda o mesmo de há um ano? A duração de um governo não é, só por si, prova de estabilidade. Pode ser apenas a medida de um impasse.

Este governo mantém-se, mas desde Novembro de 2015 que falar de política em Portugal consiste em falar de eleições antecipadas. Não quer dizer que estejam próximas ou até que sejam possíveis — quer apenas dizer que a actual situação não convence. Como poderia convencer? A maioria parlamentar junta peças de puzzles diferentes, partidos com visões opostas sobre questões fundamentais, como a integração europeia. Não se lhe pode pedir mais do que a distribuição de algum dinheiro e a defesa de certos privilégios. Não expressa a unidade das esquerdas, mas a incompatibilidade entre PS e PSD, que inviabilizou o tipo de compromissos que outrora, como nas revisões constitucionais de 1982 e de 1989, deram vida ao regime. O sistema político está paralisado. Através do actual governo, a oligarquia limita-se a gerir as condições de financiamento do BCE, com o pequeno conforto de não ter de aturar mais greves do PCP ou tanta rabugice mediática do BE. É isto estabilidade?

Os partidos da actual maioria abandonaram todas as suas propostas eleitorais, da revisão do tratado orçamental até à prioridade no investimento público. Em vez disso, reivindicam os mesmos títulos de glória do governo anterior, a começar pela observância dos défices negociados com a Comissão Europeia. Em 2016, terão obtido, segundo nos dizem, o défice mais baixo da democracia – o primeiro que respeitará o pacto do Euro. Mas só no contexto nacional, o défice impressiona. No contexto europeu, o défice português continua a ser o quarto mais elevado dos 28 Estados e alimentou o segundo maior aumento de dívida pública na UE. Numa Europa de juros baixos ou mesmo negativos, Portugal paga 4% por empréstimos a dez anos. Como sair daqui, quando o governo se prepara para fazer festa com uma taxa de crescimento do PIB daquelas que, no tempo da troika, serviam para demonstrar a “destruição da economia”?

Onde está a estabilidade? É verdade: Portugal é um dos poucos países europeus poupados às paixões da imigração e do jihadismo. Nem sequer a austeridade agitou a composição do parlamento. Não há Frentes Nacionais, nem um Podemos. O sucesso do ajustamento, sob o governo de Passos Coelho, manteve o país ligado à máquina do BCE. Ganhou-se tempo. Mas à nossa oligarquia não ocorre outra coisa do que tentar mais uma vez, como o actual governo, ocupar partidariamente o Estado e rodear-se de dependentes. Ninguém tem, de facto, muitas ilusões. Este é um país em que o governo aumenta o salário mínimo, mas tem de compensar as empresas, isto é, em que assume que a economia não suporta aumentos de rendimento.

Que se passará quando as políticas do BCE mudarem? E se Trump, o Brexit ou uma das eleições deste ano na UE sacudirem as estruturas internacionais que têm suavizado a decadência da envelhecida sociedade portuguesa? O país precisa de limitar as rendas políticas para ser competitivo. Mas no corrente impasse, o máximo a que pode aspirar é à competitividade dos salários baixos, como admitem os saudosistas do Escudo e das suas desvalorizações. É isso que acabará por acontecer? A verdadeira estabilidade é previsibilidade, é viabilidade. O que não é viável, o que não é previsível, também não é, por definição, estável. Parafraseando Tácito: criaram um impasse, e chamaram-lhe estabilidade.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Bye-bye Obama, hello Trump - Miguel Angel Belloso, DN, 20/01/17

Já a partir de hoje temos um novo presidente dos Estados Unidos da América. É o número 45 da história e esperemos que esteja à altura do que significa este país para todos os que acreditamos na democracia, na liberdade e nas sociedades abertas, diria o grande Popper. Mas deixem-me antes despedir-me com grande satisfação do velho. Obama, o primeiro negro à frente do país, o que podia ter sido e não foi, o venerado pelos progressistas mundiais, outro dos prémios Nobel da Paz da série dos mais injustos, que não fará história por nada consistente salvo por algo tão desonroso como ter degradado o papel da América como referência mundial a favor da Rússia de Putin. Este senhor adorado em Espanha e Portugal foi, salvaguardando as distâncias, o Zapatero americano. Deixou o país mais dividido e mais longe do que nunca dos princípios que o fizeram o mais poderoso e, como consequência, o seu principal legado é ironicamente o seu sucessor, Donald Trump.

A volta que deu à política externa com o abandono antecipado do Iraque, a aproximação ao Irão e o afastamento de Israel debilitaram a posição internacional da América. A renúncia em assumir a liderança em regiões e conflitos-chave reforçou os seus rivais, que aproveitaram a oportunidade para consolidar os seus avanços. É o caso da Rússia na Europa, no Cáucaso e no Médio Oriente. Do Irão no Afeganistão, Iraque, Síria e Líbano. Da China nos mares da China Oriental e do Sul. Todos estes efeitos perversos do presidente progressista são indiscutíveis.

Dentro de portas, Obama demonstrou de forma consistente ser um dogmático. A viragem à esquerda que quis impor à sociedade americana, que é individualista por natureza e que receia o Estado protetor, não trouxe os benefícios prometidos. O seu objetivo de aproximá-la da social-democracia imperante na Europa não prosperou. O Obamacare, que passa por ser a sua grande obra, é contestado por uma grande parte da população, que já tem um seguro médico por estar empregada e que não quer sofrer mais custos adicionais, nem deixar-se ajudar quando é capaz de fazer-se valer por si própria. Trata-se de gente normal, que prefere uns impostos baixos que lhe permitam desfrutar da maior parte do fruto do seu trabalho e se opõe a subvencionar outras pessoas que pensam, com razão, que se aproveitam ou podem aproveitar-se do sistema.

Os americanos não são como os europeus, sempre dispostos a aceitar as dádivas do Estado e a instalar-se na comodidade. Têm orgulho de ter nascido num país criado a partir do nada, numa terra hostil que se tornou a mais próspera do planeta com base no esforço e no sacrifício pessoal. Não têm a nossa mentalidade socialista e esperemos que seja assim por muito tempo.

É verdade que Obama deparou-se com uma crise financeira brutal, que ameaçava afundar o país na depressão. Apesar de Bush se ter movido rapidamente para combater a derrocada bancária, Obama desempenhou bem depois a sua tarefa, o resgate do setor automóvel foi um sucesso, e é certo que reduziu notoriamente o défice público e que praticamente há pleno emprego na nação, mas também que tais avanços escondem o aumento dos desempregados desanimados, que já não contam como população ativa, e o descontentamento das classes médias, que perderam poder aquisitivo de forma dramática. Existe no país a sensação generalizada de que a crise atingiu muita gente, mas que a recuperação beneficiou poucos. Aplicando a máxima do prémio Nobel Milton Friedman, de julgar as políticas não pelas suas intenções mas pelas suas consequências, os anos de Obama não foram brilhantes, em especial para os grupos desfavorecidos que dizia defender. Esta deriva gerou uma grande brecha social, um claro ressentimento contra os políticos e a estrutura institucional, e um resultado inesperado e surpreendente: a vitória de Trump.

Um amigo português que leu os artigos mais compassivos e até favoráveis a Trump que escrevi neste jornal, em parte contraditórios com as teses que tradicionalmente defendo, pergunta-me se não me inquieta o personagem. Digo-lhe que claro que me provoca ansiedade! A sua veia intervencionista e os seus desejos de monitorizar sob pressão a atividade empresarial são repudiáveis. As pressões que já exerceu sobre as empresas que investem livremente no estrangeiro são intoleráveis. Que as suas políticas derivem numa guerra comercial entre a China e os Estados Unidos só irá trazer problemas a todo o mundo e menor riqueza global. O principal risco do novo cenário político é o protecionismo e Trump parece encarná-lo de forma genuína. Sou dos que pensam que a globalização trouxe benefícios impensáveis à humanidade. A pobreza caiu dramaticamente na América Latina, na Ásia e até em África. Mas o modesto crescimento registado pelo comércio mundial no último ano e meio tem precisamente que ver com o aumento das leis destinadas a proteger a produção nacional. É uma tendência totalmente negativa.

Apesar de estes indícios tão graves, que não eram muito distintos dos que apresentava a sua adversária à Casa Branca, Hillary Clinton, penso que Trump merece uma margem de confiança. As suas propostas de baixar os impostos e estimular, através das empresas privadas, os investimentos em estruturas num país que as tem nos mínimos, parecem-me oportunas. Obama foi o presidente menos business friendly da história. Os que pensam, como eu, que as empresas são a alma dos países, estão esperançosos de que Trump seja a pessoa idónea para favorecer o mundo dos negócios, longe dos preconceitos socialistas do seu predecessor.

Também acho que o novo presidente formou uma equipa que, contra o que pensa a imprensa progressista e a esquerda planetária - essa que só é democrática quando lhe convém, quando ganha, e que quando perde leva as mãos à cabeça e assegura, alarmada, que a democracia está à beira do abismo - é uma boa equipa. É composta por generais experientes nas grandes guerras dos últimos anos, patriotas completos e muito conscientes do que significa o serviço público. Por milionários à frente da economia, que como não precisam de dinheiro, comprometeram-se com o país por uma questão de civismo, para recuperar a sua grandeza. E por advogados com princípios, muito longe da amoralidade a que estamos acostumados na Europa.

Trump recebeu como herança um país relativamente sólido desde o ponto de vista económico mas socialmente partido ao meio, confrontado com grandes contradições. Será preciso estar atento aos seus movimentos e ver que tipo de acordos é capaz de conseguir num cenário mundial tão complicado e volátil. Mas acho que o mais razoável é julgar Trump pelos seus atos e pelos seus resultados. Reagan também chegou à Casa Branca no meio da hostilidade aberta dos círculos de Washington, rodeado da oposição nos principais ministérios dos Negócios Estrangeiros ocidentais e do ataque inclemente dos progressistas mundiais. Hoje é reconhecido como um dos melhores presidentes dos Estados Unidos. Espero que também acabe por ser assim neste caso.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

​“Pisa! Não queres ser livre?” - Aura Miguel, Rádio Renascença, 19/01/17

A indicação do funcionário japonês é formulada em tom convidativo. À sua frente há uma fila de cristãos e cada um sabe bem o que o espera: ou pisa o “fumie” – uma espécie de ícone em alto relevo, com a Imagem de Cristo – sinal público de que renega o baptismo, abjurando a fé católica; ou então, se se recusa a pisar, é levado para a tortura da fossa e morte cruel.
 
A alternativa parece desproporcionada, pois, para escapar a tão terríveis tormentos, os homens de poder insistem com os simples fiéis das aldeias: “Pisar o ‘fumie’ é só uma formalidade e que basta pores o pé levemente e já está, ficas livre!”
 
Em “Silêncio”, de Martin Scorsese, o contraste é perturbador, pois aqueles que se recusam a pisar mantêm uma certeza e uma serenidade que os ultrapassa, enquanto quem pisa – e, supostamente, fica mais livre – afasta-se, de semblante infeliz e amargurado.

O dilema atinge o seu clímax quando toca os missionários jesuítas. Dados históricos demonstram que a maioria dos sacerdotes morreu mártir, mas nem todos. No filme, o padre português Cristóvão Ferreira – figura importante na Companhia de Jesus e referência para sucessivas gerações de missionários – após submetido à tortura da fossa, pisa o “fumie”. O apóstata Ferreira passa, então, a ser usado pelas autoridades japonesas para convencer os outros missionários a abjurarem, tal como ele.

Ferreira – incapaz de olhar nos olhos o seu antigo aluno Sebastião Rodrigues – pressiona-o ao gesto público do “fumie” porque a dimensão privada é que vale: “Não interessa o que diz a Igreja Católica, mas a tua consciência e a relação directa com o Senhor”, sussurra-lhe, ao ouvido, o seu ex-mestre.
Mas o filme não se reduz a este horror. Este “Silêncio” também fala de conversão e da misteriosa possibilidade de começar e recomeçar sempre (às vezes com repugnância), apesar de tantas quedas e traições. Porque a objectividade dos sacramentos é infinitamente superior à miséria de quem peca. E aqueles que O reconhecem, na verdade, é que são livres.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Já só faltava esta: “concertação social, sim; concertação política, não!” - Paulo Rangel, Público, 17/01/17


 1. O acordo que supostamente estabeleceu a subida do salário mínimo nacional, tendo como contrapartida uma descida da TSU, obriga as forças políticas que apoiam o Governo e também as da oposição a um autêntico “momento da verdade”. Pode não ter chegado “a” hora da verdade para o PS, o Bloco e o PCP e para António Costa. Pode não ter chegado “a” hora da verdade; mas não haja dúvidas: chegou “uma” das horas da verdade.

2. Não está em causa – ao invés do que muitos já discorreram com estrondo – a questão substantiva do acordo. É certo que, ao contrário do que se escreve e diz, o acordo é inédito e diferente do passado. Substantivamente, no entanto, o acordo tem méritos. Não é, todavia, nem de perto nem de longe, uma pura questão de substância que está em jogo. E não é outrossim uma simples questão de método – método que é a todos os títulos política e eticamente condenável. É mais do que isso, bem mais do que isso, muito mais do que isso: é uma questão de princípio! É uma questão de princípio, isto é, uma questão de valores e de programa.

Ainda que nos cingíssemos à substância, a análise isolada do acordo seria sempre parcial e redutora. Em termos substantivos, o dito acordo insere-se numa orientação estratégica global da coligação parlamentar chefiada por António Costa. A subida do salário mínimo parece ser essencial, senão mesmo crítica, para o cumprimento dos “mínimos olímpicos” que vinculam e cimentam a coligação. Pois bem, nenhum partido da oposição que esteja a combater as linhas fundamentais de actuação do Governo pode separar o acordo obtido da estratégia global do Governo. Se o acordo é uma peça indispensável de uma estratégia que se considera errada e prejudicial para o país, é evidente que ele não pode ser avaliado apenas pelo seu mérito intrínseco e pelos seus efeitos isolados. Tem, isso sim, de ser apreciado pelo lugar que desempenha na equação de suporte natural das políticas prosseguidas pelo Governo Costa e pela coligação trilateral. Em termos chãos: mesmo que se ache que o acordo pode ser razoável ou meritório – coisa que muitos não acham, a começar pelo próprio Presidente do CES –, ele tem de ser avaliado no contexto global da política do Governo e da sua coligação.

3. Feito este ponto, já só restam perguntas. Primeira: o líder da coligação trilateral e o ministro do Trabalho não sabiam que Bloco e PCP se opunham à compensação da subida do salário mínimo com a descida da TSU? A resposta é óbvia e evidente! Ainda assim, cientes da total discordância dos parceiros de coligação, terão achado que satisfazê-los em matéria de salário mínimo valia o risco de mexer na TSU. Mais: sabiam que não dispunham de maioria parlamentar para suportar essa negociação. Impõe-se, pois, fazer uma segunda pergunta: como poderiam validar essa medida, caso ela tivesse de passar – como era antecipável que teria – o crivo parlamentar ou, pelo menos, da apreciação parlamentar? Como viabilizar essa medida? Só restaria uma solução: contactar as forças da oposição, PSD e CDS, e averiguar da sua disposição para suportar tal solução. Eventualmente, e se disso fosse caso, recorrendo à intermediação do Presidente do CES, dos próprios parceiros sociais ou até do sempre disponível Presidente da República. A terceira pergunta é já uma mera decorrência: fizeram-no? Em algum momento, Costa ou o seu ministro, directamente ou através de mediador, contactaram o PSD ou o CDS para avaliar da sua disponibilidade ou até para encetar uma eventual negociação?

4. Costa jogou, portanto, pura e simplesmente na política do facto consumado! O rei da habilidade, o patrono da negociação, o grande defensor dos entendimentos, o supremo e supino rosto da “descrispação” entende que o diálogo só vale à esquerda. Sempre que precisa do centro ou do centro-direita, não tem de negociar, não tem de transigir, não tem de transacionar. Basta impor! Impor, pôr e dispor! E jornalistas e comentadores parecem achar bem, achar normal, achar próprio de uma democracia madura! Costa, nos seus debates quinzenais, num tom arrogante, pode troçar, pode ironizar, pode amesquinhar. Mas negociar ou falar seriamente com o maior partido português, numa matéria tão importante como o salário mínimo, isso não pode, não sabe, não faz e, pelos vistos, são muitos os que pensam que não tem de fazer. De resto, a julgar pelas críticas que Bloco e PCP veiculam é claro que ambos, num profundo cinismo e tacticismo, gostariam que a redução da TSU passasse. Por duas razões: por um lado, porque evitariam um problema com o PS; por outro, porque poderiam continuar a fingir que não fazem parte da solução de governo.

5. É ainda inaceitável a vozearia da UGT e de um ou outro responsável dos parceiros sociais. E deve estranhar-se qualquer pressão pública ou até informal dos parceiros sociais. Que diria a UGT ou os parceiros sociais, se o Governo tomasse esta decisão unilateralmente, sem os ouvir, sem negociar com eles, sem pelo menos ter conta as suas posições? Como pode o líder da UGT falar como fala quando sabe, melhor do que ninguém, que o PSD e a sua direcção não foram tidos nem achados nesta negociação? Afinal, todos louvam a concertação social, mas ninguém parece prezar a concertação política. Os parceiros sociais têm de ser respeitados, ouvidos e influenciar as decisões políticas. Já o maior partido da oposição e do país pode ser simplesmente ignorado e ostracizado e acabar responsabilizado por não dar apoio a um Governo do qual discorda frontalmente. Ao Bloco e ao PCP, dá-se a folga da tolerância e o desafogo da irresponsabilidade; ao PS, dá-se a imunidade da indiferença e o privilégio de só ser obrigado a negociar à esquerda. Já para o PSD, vá lá saber-se porquê, sobra o grande e canoro pronunciamento ético do “come e cala”. Já só nos faltava esta: concertação social, sim; concertação política, não! 

SIM e NÃO

SIM. Santana-Maia Leonardo. Na agressão dos gémeos iraquianos, revelou equidade e sentido de justiça. Defendeu e preservou a vítima, fez pedagogia cívica sobre a essência da justiça e ainda salvou a posição do Estado português.

NÃO. Governo: emissão de divida a 4,3%. Regressar a 2014 é mau. Afastar-se cada vez mais dos outros periféricos é pior. Resignar-se a esta emissão é péssimo: sinaliza que já só espera agravamentos no futuro.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Os fracassos do Governo são culpa da oposição - Alexandre Homem Cristo, Observador, 16/01/17

Polémica. Incoerente. Politiquice. Incompreensível. Não têm faltado comentários e críticas à decisão de Passos Coelho de o PSD votar contra a descida da TSU. Contudo, pouco ou nada se tem ouvido sobre o resto. Ora, neste caso, o resto é tudo. Não há quem se interrogue sobre o significado da ruptura do PCP, que está na origem desta polémica? Ou quem se preocupe em discutir a sequência de irresponsabilidades que levaram a que o Governo precisasse do voto do PSD para viabilizar o acordo que fez – sobretudo quando, para matérias estratégicas como a Concertação Social, havia o compromisso público de a “geringonça” ser auto-suficiente? São estas as perguntas que não se fazem. E são estes silêncios que, no final do dia, tanto explicam sobre o estado anestésico da política nacional. Retomemos o assunto, ponto por ponto.

1. No âmbito da Concertação Social, o Governo não envolveu a direita nas negociações. Não tinha de o fazer, claro. Mas, assim, os termos políticos do acordo para o aumento do salário mínimo para 557 euros e para a descida da TSU para os patrões foram negociados pelo PS com os partidos à esquerda, dentro das limitações possíveis.

2. Era conhecido que, nas negociações, seria impossível satisfazer as pretensões dos partidos à esquerda. António Costa soube sempre que não teria garantias políticas de PCP-BE-PEV para descer a TSU. Mas isso não o levou a envolver os partidos à direita ou o impediu de avançar e aceitar o risco de ver o seu Governo estabelecer na Concertação Social um acordo que não poderia cumprir. Ou primeiro-ministro confiou que o PCP não desafiaria o Governo, submetendo o acordo à votação no parlamento. Ou o primeiro-ministro fiou-se que, caso o PCP fizesse o número, não haveria consequências pois o PSD sentir-se-ia institucionalmente coagido a viabilizar o acordo saído da Concertação Social. Enganou-se duplamente.

3. O PCP desafiou o Governo. Os comunistas anunciaram que chamariam o decreto-lei do Governo ao parlamento, para votar contra e revogá-lo. O PCP poderia ter-se limitado a criticar a descida da TSU para os patrões – a discordância política é natural, mesmo entre parceiros de Governo. Mas não. Ao forçar uma votação no parlamento, o PCP colocou o Governo numa situação de grande desconforto. E obrigou o BE, que também critica a descida da TSU, a juntar-se no voto contra, isolando o PS e deixando-o na dependência dos partidos da direita. Quem tem amigos assim não precisa de inimigos.

4. O PSD decidiu que, se tiver de votar o decreto-lei, votará contra. É certo que a coerência política é discutível. No passado, o PSD mostrou-se favorável à descida da TSU, embora num contexto diferente, no qual a descida servia a competitividade e não a compensação do aumento do salário mínimo. Mas, em termos de coerência, o próprio PS tem telhados de vidro pois, no passado recente, foi um feroz opositor a descidas da TSU para os patrões. Coerente ou não, esse é um debate estéril. A questão objectiva é que votar contra será sempre uma opção politicamente legítima – e o resto é conversa.

5. Seja por uma razão ou por outra, o Governo falhou em garantir condições políticas para negociar na Concertação Social. A constatação tem particular pertinência se nos recordarmos que, no final de Novembro de 2015, essa foi uma das condições que Cavaco Silva estabeleceu para indigitar António Costa primeiro-ministro. Nessa altura, era já evidente o risco de, num Governo PS apoiado pela tríade PCP-BE-PEV, a Concertação Social ficar enfraquecida. Cavaco Silva exigiu, portanto, a António Costa que, através da sua solução de governo com as esquerdas, assegurasse ter força política para negociar e validar acordos na Concertação Social. António Costa deu a garantia. Hoje ficou visível que essa garantia não resistiu à prova da realidade.

6. O Governo tem um problema e esse problema não é o PSD – é o PCP (e o BE). É que o PS tem um plano de poder suportado por uma maioria parlamentar que não o apoia em todas as questões estratégicas da governação. Este episódio demonstra-o: toda a tensão política existente hoje foi causada pela iniciativa do PCP de impor uma votação parlamentar ao acordo para a TSU saído da Concertação Social, para tentar revogar o diploma. Como se sabe, o PCP nunca dá ponto sem nó, pelo que o acto lança dúvidas sobre a estabilidade do apoio parlamentar ao Governo. Afinal, que consequências terá esta atitude e o que é que isso nos diz face ao calendário político de 2017?
Estes seis factos levam-nos até ao bloqueio em que estamos hoje. O Governo foi imprudente ao negociar na Concertação Social o que não podia cumprir. O PCP entalou o Governo e provocou uma crise política. Mas, no debate público, está tudo focado no PSD, contra quem não faltam pressões para alterar o seu sentido de voto contra. É absurdo, mas não é surpreendente. Afinal, a tradição ainda é o que era: os fracassos dos governos são sempre culpa da oposição.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

No enterro de Mário Soares onde andava o Povo?



Na morte de Mário Soares muitas coisas haveria a dizer. Antes de mais como é impressionante que diante da morte haja sempre a necessidade ou de "endeusar" ou de "demonizar". Não existe, aparentemente, a opção intermédia de olhar para aquele que morreu como aquilo que foi: um homem, com qualidade e defeitos, virtudes e pecados, pelos quais agora responde.

Outra das coisas que me impressionou muitíssimo na morte do Dr. Soares foi voltar perceber como, mesmo passado mais de quarente anos, não é possível falar com tranquilidade e distanciamento sobre o 25 de Abril e os anos que se lhe seguiram. Mais uma vez, ou se está de um lado ou do outro. Como se a história não fosse complexa e não fosse possível ser da democracia mas contra o modo com esta foi implementada. Ou a favor da descolonização, mas contra descolonização como esta foi feita.

Também me impressionou a memória curta de muitos dos notáveis que falaram e escreveram sobre o antigo Presidente. Aparentemente a democracia em Portugal teve um único pai! Mas a verdade é que, não desprezando o enorme contributo de Mário Soares, que com coragem enfrentou várias vezes a esquerda radical, é preciso não esquecer tantos outros que também lutaram, alguns ao lado dele, para que Portugal fosse livre e democrático. Antes de mais é preciso não esquecer Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, dois dos mártires da democracia no nosso país. Mas sobretudo todo o povo que com coragem lutou, sobretudo a norte do Tejo, para que Portugal não fosse comunista. Esse povo não era de Mário Soares: eram trabalhadores, pequenos proprietários, pequenos empresários, agricultores, gente cristã que bem sabia que não queria o comunismo em Portugal. A todos esses, e não apenas ao Dr. Soares, devemos a democracia.

Contudo, aquilo que realmente me impressionou na morte do Dr. Mário Soares foi a ausência do povo. O Estado, os senadores do regime, os políticos, os notáveis, os escribas, os artistas, os desportistas, todo e qualquer um que se ache importante neste país, estiveram presentes nas exéquias de Mário Soares. O Governo declarou três dias de luto nacional, preparou um funeral de Estado com pompa e circunstância. Veio a GNR a cavalo, a charrete, tirou-se o pó a algumas bugigangas da monarquia para adornar o evento. Vieram as forças armadas, a força área fez voar os seus jactos. E contudo o povo permaneceu serenamente ausente. Apesar dos apelos do Governo, apesar das campanhas televisivas, apesar de todas as explicações pormenorizadas sobre as cerimónias fúnebres, o seu horário e trajecto, o povo não veio.

O mesmo povo que em dia de semana recebeu em euforia os campões nacionais. O mesmo povo que acorreu em massa a homenagear Eusébio. O povo que saiu à rua para chorar Amália. O povo que enche o Rock in Rio e os concertos do Tony Carreira. Esse mesmo povo foi trabalhar, ou ficou nas suas casas.

Sobre este facto cada um é livre para fazer as teorias que quiser. Pode-se dizer que era dia de semana, embora também a chegada dos campeões europeus tenha sido a um dia de semana. Ou então que o povo não gosta de enterros, mas a verdade é que os de Eusébio e Amália estiveram cheios. Ou mesmo que foi por questões partidárias, mas é preciso lembrar que todos os partidos, uns mais convictos que outros, homenagearam o Dr. Soares. Pode-se até dizer que o povo não gostava do "Bochechas", embora fosse uma figura que sempre suscitou simpatia junto do público.

Para mim a razão pela qual o povo faltou ao luto decretado pelo Estado foi precisamente por ter sido o Estado a decretar o luto. O problema não é o Dr. Soares, mas o facto de o povo não ter interesse no que a elite diz. A ausência do povo é, para mim, sinal do enorme divórcio que existe entre o poder e o povo.

O povo adere ao que é seu, ao que sente seu. Por isso vai à rua receber a selecção, por isso vai à rua chorar Eusébio e Amália. Mas o Pai da Democracia, desta democracia e desta política em que já não acredita, para isso não vai. Mais depressa se teria enchido as ruas para chorar o "Bochechas", que montava tartarugas, do que o herói desta República ao qual o povo não liga.

Infelizmente, as nossa elites parecem querer à viva força ignorar este divórcio. Preferem não reparar que o mesmo povo que há quarenta anos acompanhou Soares à Fonte Luminosa, se recusou a acompanha-lo à sua última morada e só volta a Alameda para receber a Selecção.

Seria diferente se Trotski tivesse vencido Estaline na URSS? - José Milhazes, Observador, 13/01/17

No ano em que se assinala o centenário da revolução comunista de Outubro de 1917, muitas obras serão publicadas a esse propósito e algumas provocarão acesa discussão, nomeadamente sobre o papel das principais personagens nesses acontecimentos. A História não se faz com “ses”, mas permite-nos, se nos basearmos em documentos e fontes fidedignas, arriscar a desenhar cenários possíveis.

Isto vem a propósito da edição pelo jornal Expresso do livro “Estaline” do historiador Simon Sebag Montefiore e do prefácio escrito para ele por Francisco Louçã.

Francisco Louçã assinala que a biografia de Estaline começa apenas “quando o biografado, já tem 44 anos, está no auge do seu poder, e por isso só cobre os últimos 21 anos da sua vida”, deixando de fora importantes momentos. Estou de acordo, pois isso permitiria também abordar algumas das imprecisões (ou talvez deturpações conscientes) escritas pelo próprio Dr. Louçã.

Muitas delas estão contidas no último parágrafo desse prefácio: “A tragédia do século XX é esta: uma revolução contra uma ditadura e uma guerra, que libertou milhões de servos e prometeu o fim da exploração, que se anunciou como a alvorada de uma humanidade cooperante, foi dominada por uma burocracia fechada, temerosa e por isso agressiva, cujo poder se ergueu sobre uma pirâmide de vítimas”.

Ora, como é sabido, a revolução comunista não foi feita contra uma ditadura, mas contra uma democracia pluralista saída da revolução de Fevereiro de 1917. Foi este pluralismo, por exemplo, que permitiu o regresso de Vladimir Lenine e Lev Trotski à Rússia e deixou escapar o poder para as mãos dos bolcheviques. Foi este pluralismo que convocou eleições para a Assembleia Constituinte em 1918, acto eleitoral livre onde os bolcheviques saíram derrotados e, por isso, não a deixaram ir além da primeira sessão. As eleições livres e pluralistas seguintes realizaram-se apenas em 1989, e os comunistas saíram delas fortemente enfraquecidos.

Quanto à guerra, ainda hoje os historiadores discutem se foi correcto ou não a Rússia continuar a combater na Primeira Guerra Mundial e talvez a democracia pluralista tivesse ganho com a saída do país do conflito, mas os líderes do Governo Provisório que dirigiu a Rússia entre Fevereiro e Outubro de 1917 tencionavam participar na vitória sobre a Alemanha, que já não estava muito distante.

Mas, quando se fala da Rússia nesta guerra, não se pode deixar de assinalar o comportamento do dirigente bolchevique Vladimir Lenine. Ele não teve pejo de receber dinheiro dos alemães para realizar o seu objectivo: a derrota da Rússia na guerra, e de ser por eles transportado numa carruagem selada da Suíça para a Suécia, de onde depois seguiu para Petrogrado. Cada um que decida se se tratou um acto de “traição nacional” ou de “maquiavelismo político”.

É estranho ler que foram libertados “milhões de servos”, pois a servidão foi abolida na Rússia em Fevereiro de 1861 e, após a revolução de Fevereiro, os habitantes desse país passaram a ser cidadãos da República com direitos iguais perante a lei.

Quanto à promessa de fim exploração e ao início da humanidade cooperante, isso não deixou de ser uma miragem, pintada com cada vez mais sangue pelos bolcheviques. A violência, a carnificina, a repressão, não começaram com Estaline, mas com Lenine e Trotski. Se este último tivesse herdado o poder na URSS, nada indica que o sistema seria menos cruel.

Apenas um exemplo do “humanismo” de Lénine num telegrama por ele escrito:” Camaradas! O levantamento dos kulakes [assim os bolcheviques denominavam os camponeses ricos] de cinco distritos deve levar ao seu implacável esmagamento. Isso é exigido pelo interesse de toda a revolução, pois agora tem lugar a “última e decisiva guerra” contra os kulaques. É preciso dar um exemplo.1) Enforcar (enforcar obrigatoriamente para que o povo veja) um mínimo de conhecidos kulaques, ricaços, vampiros. 2) Publicar os seus nomes. 3) Confiscar-lhes todos os cereais. 4) Fazer reféns, em conformidade com o telegrama ontem enviado.Fazer com que, num raio de mais de cem milhas, o povo veja, trema, saiba, grita: esganam e esganarão os kulaques vampiros. Telegrafem a informar que receberam e executaram”.

O “humanismo” de Trotski ficou bem presente no esmagamento da revolta de Kronstadt de Março de 1918, a primeira e última revolta de marinheiros revolucionários, a maior parte deles descontentes e decepcionados com a nova ditadura comunista que eles tinham ajudado a chegar ao poder. Os rebeldes exigiam uma série de reformas, entre as quais a eleição de novos sovietes, a inclusão de partidos socialistas e grupos anarquistas nos novos sovietes e o fim do monopólio bolchevique no poder, a liberdade económica para camponeses e operários, a dissolução dos órgãos burocráticos do governo criados durante a guerra civil e a restauração de direitos civis da classe trabalhadora.
Em Kazan, no mesmo ano de 1918, Trotski declarava num comício: “Nós apreciamos a ciência, a arte, queremos tornar a arte, a ciência, todas as escolas, universidades acessíveis a todo o povo. Mas se os nossos inimigos de classe quiserem mostrar-nos novamente que tudo isso existe só para eles, diremos: morte ao teatro, à ciência, à arte”. Levado pelo apoio da multidão, Trotski acrescentou: “Nós, camaradas, gostamos do Sol, que nos ilumina, mas se os ricos e os violadores quiserem monopolizar o Sol, diremos: que o Sol se apague e reinem as trevas, a escuridão eterna”.

O regime comunista foi construído com base em princípios que apenas podiam conduzir à violência e à repressão: a não tolerância do pluralismo político no país e o princípio do “centralismo democrático” no interior do partido. Por isso, todas as experiências comunistas no século XX terminaram sempre em ditaduras cruéis.

Por isso, importa assinalar com verdade a revolução de Fevereiro, comparável ao movimento do 25 de Abril de 1974, por ter aberto a via da democracia na Rússia, e analisar, com base em factos, as consequências do golpe de Estado comunista de Novembro de 1917, para que não vençam versões “recauchutadas” e “modernizadas” do totalitarismo da extrema-esquerda.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Que pena é o recolher compulsório nesta nova Lisboa das maravilhas - Joana Petiz, DN, 12/01/17

Está um mimo, a nova praça de Campolide, nascida ali mesmo ao pé da junta para melhor luzir aos olhos dos munícipes. Ainda não está pronta, claro. Mas já o adivinha quem lhe dá a volta - roteiro agora obrigatório para quem segue para as Amoreiras; há que valorizar a obra, bolas!, e isso não aconteceria se os condutores pudessem continuasse a passar-lhe ao lado, sem fazer aquele quadrado completo à volta da famosa Valenciana. Mesmo com frio, até já me deu vontade de enfiar o carro no parque (talvez o experimente quando reabrir) e ir testar aquelas poltronas de pedra, costas reclinadas em posição de descanso obrigatório e a uma distância controlada da mesa inamovível ao centro. Talvez seja um pouco difícil para os velhinhos de Campolide chegar-lhe durante os jogos de cartas ou damas ou xadrez, mas ao menos podem sentar-se ali e deitar-se a adivinhar quanto tempo levará a passar para o outro lado aquele carro encarnado que ainda agora parou na fila. Não durante os dias de verão, que já se vê que quando o sol ali chegar com força aquele material há de aquecer o suficiente para nele se poder fritar ovos, mas se esperarem que seque o orvalho na pedra, haverá manhãs de primavera em que até pode ser agradável.

Não é só Campolide que está a mudar. Está como nova, esta Lisboa de ruas rasgadas por praças luminosas, passeios largos e ciclovias - em grande parte inúteis, claro, porque os ciclistas que são capazes de resistir à exigência das sete colinas continuam a preferir as estradas, onde acumulam privilégios de carros e peões. E agora então, livre daquela malfadada calçada portuguesa - exceto nas zonas históricas, onde ela continua a existir sem manutenção - que por tantas décadas resistiu às queixas dos lisboetas, até sabe bem passear por aí. Dá sempre jeito ter alguma inclinação para o parkour, para saber como fugir dos restos de material de estaleiro e desviar-se das gargantas ainda abertas no chão, mas tudo isso é temporário e quando a obra estiver completa Lisboa ficará muito mais bonita. Mesmo que seja preciso ainda retificar alguma coisa, como aquele pavimento de pedra lioz que veio substituir a calçada portuguesa. Sim, era horrivelmente escorregadio, perigoso até, e ali para os lados da Estefânia, da Praça do Comércio e do Martim Moniz até cedeu ao peso das centenas de pessoas que por ali passavam, mas a câmara já nos descansou: há um plano para substituir todas essas lajes que não resistiram a dois anos de utilização.

Afinal, Fernando Medina é um homem de soluções e já deu provas disso. Por exemplo, quando viu o perigo que alguns espaços comerciais mais característicos de Lisboa corriam, empurrados contra a parede pela lâmina da especulação imobiliária, apressou-se em sua defesa, criando o programa Lojas com História. É verdade que o projeto ainda não foi regulamentado, mas afinal só passaram dois anos desde a sua aprovação. E o presidente tem tido muito que fazer, entre inaugurar praças, pensar estratégias para civilizar a cidade e encontrar soluções para problemas sérios, como tornar a Carris viável e rentável. Ou ensinar aos lisboetas que inconveniências só se têm até às 22.00 e que depois das 2.00 o melhor que têm a fazer é ir para casa, que já não são horas de estar na esplanada, mesmo que o tempo a isso convide.

Lisboa pode ainda não estar no ponto, mas para o fim do verão lá chegará - estará ao menos próxima do plano que o jovem portuense desenhou na sua cabeça. Mesmo a tempo de receber as arruadas de Fernando Medina.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O dia mais feliz para todos os espanhóis - Begoña Íñiguez, DN, 09/01/17

Dois mil anos depois, Espanha mantém viva, e se é possível com mais força do que nunca, a sua festa mais alegre e típica de Natal: a chegada dos Reis Magos do Oriente a todas as cidades e povoações do país, na tarde de 5 de janeiro, e a entrega dos presentes na manhã de dia 6. Sem ceder aos ares anglo-saxónicos que convidam com a veemência dos centros comerciais a celebrar a chegada do Pai Natal, os espanhóis optaram, quase por unanimidade e sem precisar de eleições, por unir-se em torno da mais castiça celebração, de norte a sul do país. Com efeito, o dia 6 de janeiro é dia de festa nacional em todas as comunidades autónomas, bem como em Ceuta e Melilla. E não há pai ou mãe espanhol com filhos pequenos, qualquer que seja a sua procedência, classe social ou ideologia, que não saia à rua com os pequenos no dia 5 à tarde para receber com alegria e ilusão os três Reis Magos, Melchior, Gaspar e Baltazar.

As autarquias dedicam uma parte importante do seu orçamento anual à chamada Cavalgada dos Reis, grande receção das localidades espanholas a Melchior, Gaspar e Baltazar e ao seu séquito de pajens que chegam nesse dia de avião, helicóptero, comboio, a cavalo, de camelo ou montados em tratores. A expressão dos mais pequenos faz os adultos voltarem a ser crianças e reviver a infância. A alegria inunda as ruas que se enchem de miúdos e velhinhos para contemplar o colorido desfile das cavalgadas dos Reis Magos - este ano feitas entre fortes medidas de segurança - que entregam rebuçados e sorrisos aos mais pequenos e estes não podem conter a emoção quando suas majestades do Oriente os abraçam, beijam ou dizem que se deitem cedo porque nessa mesma madrugada passarão por suas casas para levar os presentes que lhes pediram por carta.

Nas cavalgadas vale tudo para manter a ilusão dos pequenos: carruagens, pajens, cavalos, atores que os acompanham, balões com acrobatas portugueses, como os que se viram em Compostela, ou até dinossauros espetaculares que fizeram as maravilhas dos habitantes de Vigo. Durante as cavalgadas, os cafés fazem bom lucro com as famílias que enchem as casas para tomar um chocolate quente com churros, ou roscón de Reyes - semelhante ao bolo-rei mas feito com uma massa diferente. A noite de 5 de janeiro é a mais mágica de todas para as crianças espanholas. Jantam cedo e antes de irem para a cama põem um dos seus sapatos em frente à árvore de Natal ou do presépio e preparam comida e bebida para quando Melchior, Gaspar e Baltazar chegarem, incluindo cevada ou cenouras para os seus camelos. Os miúdos ficam nervosos, agitados perante a possibilidade de encontrá-los a depositar os presentes. E então dormem ferrados mas ficam convencidos de os terem vislumbrado ou escutado enquanto traziam os presentes.

Na manhã seguinte, as salas das casas espanholas acordam repletas de embrulhos ordenadamente colocados atrás de cada sapatinho. Os miúdos acordam cedo e, com emoção, logo espreitam o que os Magos do Oriente trouxeram para cada um, veem os restos da comida que lhes tinham deixado e até há alguns que encontram mensagens de suas majestades pedindo-lhes que se portem bem ou não façam tantas travessuras. A abertura dos presentes é outro momento emocionante para os mais pequenos, que depois saem com os pais para mostrar, orgulhosos, aos amigos os brinquedos que receberam dos Reis. Segue-se o almoço em família, que termina com o saboroso e típico roscón de Reyes, que só se come a 5 e 6 de janeiro. Dentro, o bolo tem uma surpresa escondida e diz a tradição que quem a receber terá sorte o ano inteiro.

Com a sobremesa dos Reis, encerra-se mais de 15 dias de festas natalícias em Espanha, que têm início a 24 de dezembro, com a ceia da Nochebuena - a portuguesa Consoada -, e os petiscos típicos da época no dia seguinte, continuam na despedida do ano, a 31 de dezembro, à volta de uma mesa farta, seja em casa ou num restaurante, e as boas-vindas ao ano novo, com as 12 passas comidas ao som das badaladas dos principais relógios das cidades e acompanhadas de brindes com cava, e o almoço de família no dia 1. Como confirmou ao DN um responsável do El Corte Inglés de Santiago de Compostela, "os espanhóis continuam a escrever aos Reis Magos e escolhem-nos para a entrega de presentes a 6 de janeiro". "As vendas aumentaram muito em relação ao ano passado e a 2014, sobretudo entre 2 e 5 de janeiro. Parece que o pior da crise já passou."

A origem dos Reis Magos

A adoração dos Magos do Oriente ao Menino Jesus, orientados por uma estrela ao longo de dois mil quilómetros, é uma das tradições mais sólidas do imaginário cristão, tendo em conta o texto que surge no Evangelho de São Mateus (2, 1-2). "Nascido Jesus em Belém de Judeia, no tempo do rei Herodes, uns Magos do Oriente apareceram em Jerusalém dizendo: Onde está o rei dos judeus que nasceu? Pois vimos a sua estrela e viemos adorá-Lo." Um pouco adiante (2, 11), São Mateus explica: Viram o Menino com Maria, Sua Mãe, e prostrando-se, adoraram-No, abrindo logo os seus cofres ofereceram-Lhe ouro, incenso e mirra."

A festa dos Magos não teria a importância atual sem a intervenção da cultura e religiosidade populares espanholas, que puseram os Reis nas suas ruas e fizeram à sua volta a festa da Epifania mais espanhola de todo o calendário cristão. Sabe-se que a primeira cavalgada desfilou em Alcoy (Alicante) em 1866, tendo-se aperfeiçoado a tradição em Granada, em 1912, e um pouco mais tarde Sevilha encheu-as de esplendor com a sua tradição de procissões, que se espalhou rapidamente por todo o país. Mais de 100 anos depois, continuam a ser um sucesso entre os espanhóis.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

2017: não há razão para queixas - Miguel Angel Belloso, DN, 06/01/17

Não sei se gostam do cineasta nova-iorquino Woody Allen - eu adoro - ou se viram o seu último filme, Café Society. É um filme, como quase todos os seus, que aborda de maneira cativante e sofisticada a nostalgia sobre o que podia ter sido e não foi, ou dito de outra maneira, a melancolia sentida por um tempo passado que consideramos erradamente que foi melhor. Um jornalista amigo, também fã de Allen, acredita que não só a nostalgia é estéril como, falando das pessoas a quem a vida correu relativamente bem, é sentimento de cobardes e egoístas. De facto, escreveu: "Se nada horrível te aconteceu, converter a nostalgia no centro dos teus dias, como se a vida te devesse algo, é de uma ingratidão e arrogância colossais, um sentimento que prova que não mereces o que anseias e leva Deus a duvidar se não foi demasiado generoso com o que te deu." Estas palavras, do jornalista espanhol Salvador Sostres, soam duras, mas têm mais que ver com a realidade do que parece. No mundo desenvolvido em que estão Espanha e Portugal, nesta parte afortunada do planeta, temos vidas privilegiadas, comparadas com as de outros lugares, infelizmente, com menos sorte - mas só ouvimos queixas. Acontece com frequência que quando vamos a esses lugares menos favorecidos pelo clima e pelas políticas dos seus governos, as pessoas demonstram um sentimento de felicidade muito superior ao nosso. Há espaço para queixas quando a providência nos sorriu com imensa doçura? Naturalmente há pessoas que passam enormes dificuldades, e até as que têm uma vida mais confortável têm dias complicados e investidas terríveis que fazem duvidar de tudo. Mas o meu amigo pensa, como eu em muitos casos, que vivemos demasiado bem e que esta situação de privilégio nos fez baixar a guarda para abordar com honra qualquer contrariedade, por pequena que seja. Tanto bem-estar atrofiou-nos, a nostalgia é em nós uma preguiça espiritual, um desleixo, um descuido dos dons que recebemos. Tanto conforto e sossego fizeram-nos esquecer o lado brilhante da vida, que devemos olhar com primazia se não queremos pecar por soberba.

Esta é a tese que apoia num artigo recente outro jornalista, John Carlin - este um adversário, um progressista que não tem problema em reconhecer que pertence à elite que lê e escreve nos grandes jornais do mundo, como o The New York Times, e pensa que a vitória de Trump nas últimas eleições americanas foi o triunfo da idiotice frente à inteligência, do cinismo sobre a decência e da mentira sobre os factos. A minha posição é a contrária - ele que fique com os seus caprichos -, mas a verdade é que a tese de Carlin sobre a situação do conjunto da humanidade é deveras otimista, o que é uma surpresa muito agradável tratando-se de um jornalista que pertence à "esquerda caviar".

Como ele mesmo diz, acreditam as estatísticas e ocuparam-se a retratar outros grandes economistas - alguns deles espanhóis, como Xavier Sala-i--Martín -, se alargarmos o olhar às tendências que marcam o progresso material da humanidade, encontraremos sempre razões para pensar que longe de viver no pior dos tempos, vivemos no melhor. A desigualdade, por exemplo, um dos assuntos que geram mais debate nas economias desenvolvidas, é um tema de discussão anedótico noutras partes do mundo. Os números das Nações Unidas revelam que, desde 1990, a maioria dos países em desenvolvimento avançaram devido ao desenvolvido em rendimentos, acesso à educação e longevidade. 2016, que acabámos de deixar, foi o primeiro ano em que o número de habitantes da Terra que vivem na pobreza extrema caiu abaixo de 10% e a fome desceu para o nível mais baixo num quarto de século. Menos razões há para queixas nos países ricos. Nos EUA, a taxa de desemprego caiu dos 7,8% quando Obama chegou ao poder para 4,6%. No Reino Unido do brexit, a percentagem de pessoas com trabalho foi a mais alta da década. Em Espanha, para citar o exemplo que conheço melhor, a taxa de desemprego no governo de Mariano Rajoy baixou mais de cinco pontos em quatro anos, uma velocidade desconhecida entre os nossos parceiros. Criámos mais emprego do que em toda a UE e crescemos o dobro dos países comparáveis. Ironicamente, a Espanha chama a atenção pela diferença entre a qualidade e o nível de vida, que está entre os melhores do mundo, e o elevado grau de insatisfação dos espanhóis, meus compatriotas, que têm uma propensão vergonhosa para se queixar de tudo; nos termos de Allen, uma inclinação para a nostalgia sobre um mundo melhor que nunca existiu é completamente imaginário.

Os habitantes da Terra, escreve John Carlin, apoiado por todas as estatísticas, gozam de melhor saúde do que nunca. A esperança de vida continua a crescer e as doenças mais letais cobram menos vítimas do que antes, segundo a Organização Mundial da Saúde. Lembram-se do ébola, a praga que ia acabar com grande parte da população de alguns países de África? Segundo a OMS, já foi erradicada. Não o sabemos precisamente porque nenhum meio de comunicação pôs tanta ênfase neste lado brilhante da vida como se empenhou quando se propagou o vírus, aparentemente com carácter de pandemia inexorável.

Não seríamos justos se não fechássemos este capítulo com as guerras. Nunca houve tão poucas. Obviamente, o que se passa na Síria é horrível, a ameaça do Daesh é um pesadelo quase impossível de combater com garantia total de sucesso, mas vivemos numa paz sem precedentes. Desde 1946 que o número de vítimas devido à guerra diminuiu em proporções colossais. Diz Carlin, com razão, que o mundo é menos selvagem do que alguma vez foi, apesar de, infelizmente, considerar nesta categoria tudo aquilo de que não gosta: Trump e os que votaram nele, os que se opuseram - por dignidade - ao referendo da paz na Colômbia, e essas outras posições que considera próprias de conservadores e retrógrados como eu. Não deixa de ser, contudo, uma delícia encontrar um pensador de esquerda que, apesar de ser apenas uma vez por ano, quando chega o Natal, reconheça que o mundo vai claramente melhor, mesmo que omita o motivo: o avanço imparável da liberdade e da economia de mercado em quase todo o planeta. E que se esqueça de denunciar a causa da nostalgia, da vitimização e da queixa injustificada e herética, que não é senão um Estado de bem-estar gigantesco que nos acostumou a viver demasiado bem, que nos atrofiou e que nos fez esquecer a necessidade de agradecer todos os dias a Deus pela sorte que temos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A mensagem do presidente - Nuno Melo, JN, 05/01/17

Avaliando com bondade 2016 no acessório e protelando para 2017 o que é estratégico e fundamental, o presidente da República tornou ostensivos os falhanços da governação naquilo que verdadeiramente interessa ao país. O presidente constatou que a geringonça funcionou; tudo bem. Muitos, nos quais me incluo, julgariam improvável que assim acontecesse, mais que não fosse, porque dificilmente se acreditaria que em tão pouco tempo o PCP se anulasse, como se anulou, exceção feita a simbolismos que contam pouco, caso da adulação de um ditador cubano até à morte. No mais, de cada vez que o PCP espirrou sobre o que não permitiria, ficou tudo sempre, ou quase, como o PS quis.

Num ou noutro caso, o presidente foi até para lá do que em certa medida aconteceu. Considerou que "trabalhamos para reforçar o sistema bancário", quando o enredo à volta da nova Administração da CGD, atualmente em gestão corrente, resulta num absoluto tratado sobre como fragilizar o sistema bancário português perante o Mundo.

Relevante, mesmo assim, é que o presidente tenha incluído no "muito que ficou por fazer", o crescimento económico insuficiente, a dívida muito elevada e os cortes financeiros em domínios sociais. No comentário desportivo equivaleria a dizer que a seleção portuguesa não se qualificou para a fase final do "Mundial" de futebol, mas os estádios estiveram muito bonitos.

Factos:

Em 2016, com a troika longe e o PS no Governo, o país crescerá menos do que em 2015 com o PSD e o CDS acabados de libertar Portugal do resgate financeiro.

Em 2016, com o PS no Governo, a dívida bateu todos os recordes - 133% do PIB no 3.º trimestre - o valor mais alto desde pelo menos 2007. Com o PSD e o CDS, em 2015, a dívida tinha descido pela primeira vez em 15 anos.

Em 2016, com o PS no Governo, decidiram-se cortes financeiros no SNS em prejuízo de profissionais e doentes e acumularam-se dívidas brutais a fornecedores. Fez-se o contrário do prometido em belos discursos dourados de preocupações sociais. Com o Governo anterior, em 2015, tinha sido notícia que a dívida do SNS caíra para valores históricos.

Perceba-se que a teoria da devolução de rendimentos aos portugueses, para estímulo do consumo, nunca passou de conversa. Não devolve quem pratica o calote. Some-se o brutal aumento de impostos indiretos, que foi pena o presidente da República não referir - combustíveis, portagens, rendas, IMI, IUC, eletricidade, transportes - e logo se perceberá que este Governo dá com uma mão, mas tira com duas. Não devolve. Apropria-se.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A culpa é toda das redes sociais. E já agora da máquina a vapor - José Manuel Fernandes, Observador, 04/01/17

A vitória dos populismos em diferentes partidas deste nosso mundo não tem uma explicação fácil. Sobretudo não tem antídoto seguro. Mas parece que já temos um bode expiatório: as redes sociais e a tecnologia. Se lermos os textos mais recentes de Miguel Sousa Tavares (Expresso), José Pacheco Pereira e Paulo Rangel (ambos no Público) corremos o risco de ficar com a percepção de que Donald Trump ganhou as eleições porque, de repente, se descobriu uma coisa nova a que chamamos “pós-verdade”, ou que estamos a ficar mais ignorantes (ou “novos ignorantes”) porque andamos com um smartphone no bolso e estamos sempre consultá-lo, ou ainda que estes instrumentos corroem o valor da liberdade em democracia.

Peço desculpa, mas acho que seguindo por este caminho estamos de novo a tentar tapar o sol com uma peneira. E que estamos, sobretudo, a ignorar a mensagem que os eleitores enviaram ao votarem “errado” – pelo menos “errado” de acordo com a nossa perspectiva.

Começo recordando uma história que já contei aqui no Observador, a de Lee Mavrakis, o mayor de Monessen, uma pequena cidade da Pensilvânia que, depois de ter sido toda a vida um activo eleitor democrata (e um sindicalista), acabou agora por optar por Trump. E recordo-a por uma razão simples: a primeira coisa que Lee me disse quando entrei no seu gabinete, em Julho do ano passado, foi que mandara retirar o computador da sua secretária – o ecrã estava de resto virado contra uma parede numa estante, abandonado e cheio de pó. O antigo operário siderúrgico não fazia pois ideia do que era uma rede social, só utilizava o telemóvel para fazer chamadas e não creio que tenha sido influenciado por qualquer das mentiras sobre Hillary Clinton difundidas um jovem búlgaro. Ele pura e simplesmente sentia-se esquecido pelas elites de Washington e ignorado por um Presidente Obama a quem enviara sucessivas cartas (não emails).

Esta história vale o que vale, mas é uma entre muitas que a imprensa americana (e de todo o mundo) começou a contar com mais detalhe depois da surpresa das eleições. Se quisermos perceber onde é que os diferentes populismos encontraram audiência temos de perceber quem votou pelo Brexit em vez de diabolizar os ingleses pobres; tal como temos de compreender o sentido profundo da arrogância que está por detrás da referência de Hillary aos “deploráveis” ou da forma como Mateo Renzi quis impor a sua vontade aos italianos; de perceber que há bairros inteiros em França (mas também noutros países europeus) onde os nacionais sentem que não estão já no seu país; e de enfrentar sem dogmas a evidência de que os cidadãos têm, um pouco por todo o lado, a percepção que já nem pelo voto são senhores do seu destino.

As redes sociais e a tecnologia não criaram estas realidades. As redes sociais não passaram de bestiais (no tempo em que ajudaram a eleger Obama ou atraiam multidões para os comícios de Bernie Sanders) a bestas (só porque Trump é um incontinente do Twitter). As ondas geradas pelas redes também não passaram de boas demonstrações de cidadania (quando, por exemplo, procederam ao linchamento de Isabel Jonet) a serem apenas uma “ditadura das massas” (quando estão menos ao nosso gosto).

A “pós-verdade” também não nasceu ontem. Antes dela houve o boato, e sabemos como este provocou motins e até massacres (recordam-se da chacina dos judeus de Lisboa naquela que ficou conhecido como a “matança da Páscoa de 1506”). Ou como levou a corridas aos bancos e ao crash das bolsas. Por vezes boatos mal-intencionados, por vezes inocentes, quase sempre mais difíceis de combater antes deste tempo de informação instantânea. Um pouco de memória é sempre útil para colocarmos a realidade, mesmo que desagradável, no seu contexto. A crueldade e a irracionalidade das multidões são parte da nossa história e nunca deixámos nem deixaremos de as enfrentar. A Marcha sobre Roma de Mussolini não precisou do Twitter (ou da televisão) para acontecer.

Mais: que sentido faz indignarmo-nos com a “pós-verdade” neste tempo em que a política se faz sobretudo de “narrativas” – um conceito introduzido em Portugal por José Sócrates e ainda hoje reclamado pelas luminárias do PS. Ou que sentido faz reclamar que o debate público só se faça de verdades certificadas quando os mesmos factos (os números da dívida, ou do crescimento, ou do desemprego) podem servir copos meio-cheios e copos meio vazios? O caminho tem de ser mais inteligente e mais racional, pois não bastará pensar que tudo se resolverá com um batalhão de “fact checkers” a trabalhar para o Facebook.

E aqui chegamos a um segundo campo de problemas: o da mediação e validação da informação. Ou o da erosão do papel do jornalismo como certificador do que é verdadeiro e do que é falso, ou como definidor do que é importante e do que é dispensável. Mais uma vez é necessário ter uma perspectiva de longo prazo: a crise da imprensa escrita é muito anterior à explosão das redes sociais, começou até antes da vulgarização da Internet (se bem que não possa ser dissociada desta última). A crise da televisão generalista é mais recente, mas também é inelutável: num artigo recente Tony Blair referia com mágoa que, quando foi eleito pela primeira vez, há 20 anos, o principal noticiário da BBC era visto por 10 milhões de britânicos; agora é visto por apenas 2,5 milhões. Podemos encontrar números semelhantes em todos as democracias avançadas: a perda de audiência dos principais serviços noticiosos é uma regra um pouco por todo o lado.

Porque é que isto aconteceu e continua a acontecer? Em parte porque mudou a tecnologia e mudaram os hábitos. O utilizador deixou de ser um espectador passivo, obrigado a seguir o alinhamento escolhido pelos responsáveis dos telejornais – passou a escolher o que quer ver e quando quer ver, ou o que quer ler e quando quer ler. Se já não estamos no tempo em que Ford dizia que os clientes dos seus carros podiam escolher a cor que quisessem desde que fosse preto, também já não estamos no tempo o jornalista comandava sozinho o “trânsito” da informação.

Em princípio esta maior capacidade escolha – e uma maior diversidade da oferta informativa, assim como mais concorrência – deveriam ser notícias positivas. Porque estamos então preocupados? A resposta tem de ser dura e directa: porque quando o público teve possibilidade de escolher, verificou-se que tinha muito menos confiança nos jornalistas do que se pensava. Quando se troca a leitura de jornais pela leitura de uma notícia partilhada no Facebook não se está apenas a poupar o custo e o trabalho da ida à banca – está-se a aceitar a recomendação de alguém das nossas relações, alguém mais próximo de nós, alguém em quem confiamos ou com quem nos identificamos. Mas não só: está-se também a virar as costas a um jornalismo que muitas vezes nos diz muito pouco, um jornalismo que anda demasiado à volta do seu umbigo, um jornalismo onde se desmerece as pessoas comuns pois, na maioria das redações, todos elas não passam realmente de “deploráveis”. Ou então de gente xenófoba. Ou homofóbica. Ou o que nos vier à cabeça.

Muitos órgãos de informação nos Estados Unidos reconheceram, depois de uma derrota que também foi sua – não houve um único grande título que recomendasse o voto em Donald Trump –, que também eles estavam como que “cortados” da realidade. O que se discutia nos círculos de Washington, nos cafés do Soho em Nova Iorque ou nos restaurantes da moda em Los Angeles nada tinha a ver com o que preocupava os munícipes de Lee Mavrakis ou toda essa massa de eleitores a quem chamam “white trash”. Mas não sei se aprenderam a lição e se arrependeram, pelo que continuo a ler nos sites “de referência”.

Esta evolução tem um terrível efeito sobre a saúde da democracia, pois a democracia exige que todos possamos falar com todos. Na Grécia antiga isso fazia-se na Ágora, nos tempos modernos isso faz-se nos meios de comunicação de massa. Faz-se ou fazia-se: ao desertarem, muitos eleitores começaram a falar apenas com aqueles que pensam da mesma maneira, e aí sim as redes sociais podem ter o efeito perverso de potenciar a fragmentação e atomização do debate público, num processo de auto-guetização e auto-segregação. Só se fala com quem pensa como nós, fecham-se os ouvidos a todos os outros argumentos.

Mas este é o momento final, não o inicial. As redes sociais, como a televisão por cabo, como o Google, como os smartphones, estão para ficar – como esteve para ficar a máquina a vapor no dia em que começou a substituir o trabalho braçal e a aterrorizar os ludistas. Como o Sol não se tapa com uma peneira, não se pára um mundo em mudança. Usa-se é a nosso favor, como sempre sucedeu no passado com qualquer desenvolvimento tecnológico: o aço com que se construíram os canhões da I Guerra Mundial foi também o que permitiu os carris dos caminhos de ferro e o esqueleto dos arranha-céus.

Algo, no entanto, temos de reter: mais do que as novas ignorâncias dos cidadãos comuns, mais do que os efeitos de manada das redes sociais, quem tem falhado são os que insistem em não ouvir os eleitores. Porque estes há muito que deram sinal de que querem falar, pois estão zangados. E não se iludam: há mais problemas pela frente, pois em 2017, pelo menos na Europa, todos estarão apenas empenhados em esconder o lixo debaixo dos tapetes. O mais difícil ficará para depois, quando for ainda mais difícil. E se formos a tempo.