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sexta-feira, 9 de maio de 2025

ANTES DE TUDO, VIVA O PAPA

Que bom que é voltar a ter Papa, seja ele quem for.
Não sei mais sobre Leão XIV do que aquilo que ontem se foi dizendo nas televisões e na internet, mas estou muito feliz por voltarmos a ter um Papa. Acho imensa graça a esta necessidade moderna de tentar adivinhar todo um pontificado com base em pouco mais do que uma página da Wikipédia e alguns tweets. Felizmente, como não tenho qualquer obrigação de ocupar um espaço de comentário, abstenho-me dessa triste figura de fingir ser especialista sobre um homem de quem, até ontem, só sabia o nome.
Mas gostei muito do nome que escolheu. Gostei porque, nestes tempos tão ideologicamente marcados, a evocação de Leão XIII — o Papa que, às ideologias liberais e marxistas, opôs uma doutrina baseada na Fé — me parece muito feliz. Também hoje, recordar a dignidade humana perante ideologias desumanizantes, tanto à esquerda como à direita, é essencial. Gosto também porque, como ontem me lembrava um caro amigo, remete para São Leão Magno, o Papa que enfrentou o flagelo de Deus, Átila, o Huno, e o fez retirar-se de Itália. Também hoje os bárbaros, vindos de várias origens, estão às portas de Roma, e esperamos que Leão XIV tenha o mesmo sucesso que o seu santo predecessor.
Gostei muito também das palavras do Santo Padre. A forma clara como anunciou Cristo Ressuscitado como fonte da verdadeira paz, a devoção que demonstrou a Nossa Senhora, o apelo claro à paz e à missão. Depois destes dias de Sede Vacante, foi um conforto para o coração voltar a ouvir Pedro.
Amei o Papa assim que saiu fumo branco, mesmo antes de saber quem era. Como ensinava São João Bosco aos seus alunos: gritamos "viva o Papa", seja quem for o Papa. Mas o que vi e ouvi da varanda de São Pedro confortou-me e animou-me.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Fátima: uma história inverosímil

 

Fotografia Arlindo Homem no site da Agência Ecclesia.

Fátima é uma história muito inverosímil. Por que razão Nossa Senhora, estando no Céu, podendo aparecer a quem quisesse, haveria de escolher três crianças analfabetas, de um ermo esquecido, no país mais atrasado da Europa? Não faria mais sentido aparecer a uma multidão ateia de Paris ou ao Rei protestante de Inglaterra? Não seria mais eficaz?

Mas se olharmos com atenção, este é o método de Deus desde a Sua Encarnação. Porque se parece pouco razoável aparecer a três crianças na Cova da Iria, não parece mais compreensível encarnar num pedaço esquecido do Império Romano (nem para província tinha estatuto) e escolher uma dúzia de populares, entre os quais o mais letrado era o cobrador de impostos!

Mas este é o método que Deus usou para se revelar. De forma misteriosa demonstra a Sua preferência revelando-se a um homem. Já assim era desde o tempo em que escolheu Abrão em Ur ou Moisés no Egipto e escolheu David, e Elias e todos outros profetas.

Por isso que Nossa Senhora tenha escolhido três crianças na Cova da Iria para entregar a sua mensagem pode parecer pouco eficiente a alguns, mas é simplesmente continuar a usar o método do Seu Filho.

E este método é um convite à liberdade de cada um. E é comovente que o amor maternal da Virgem Maria seja tal, que mesmo tendo o Seu Filho completado a revelação, a Sua Mãe se dê ao trabalho de vir até a um canto remoto de Portugal para nos convidar a converter.

Leio por estes dias, diante do espetáculo de beleza que é o povo na Cova da Iria no 13 de Maio, o habitual desfiar de disparates sobre Fátima. E comove-me ainda mais pensar que Nossa Senhora, que conhece o coração dos homens e por isso bem sabia que assim seria, mesmo assim amar de tal maneira o mundo que se sujeitou a ser alvo de tantas blasfémias só para nos salvar.

Fátima é sem dúvida inverosímil. Como Deus fazer-se carne no estábulo é. A nós resta-nos agradecer este estrondoso mistério e fazer como Nossa Senhora nos pediu.

domingo, 24 de março de 2024

Crianças na Missa: não há nada a fazer

 



Um dos temas recorrentes para os pais católicos é as crianças na missa. Mais especificamente, como conseguir que as crianças se interessem pela missa, que no fundo expressa a preocupação de como conseguir que os nossos filhos se interessem pela Fé.

Conforme os meus filhos vão crescendo e me vão surpreendendo com a sua piedade, convenço-me que esta minha preocupação é uma pretensão. No fundo, eu acho que tenho alguma coisa a acrescentar à missa e será essa minha ideia que há de a tornar atrativa para os meus filhos.

A experiência mostra-me que não há nada que eu, ou outra pessoa já agora, possa acrescentar que torne a missa mais interessante para os miúdos. As músicas irão sempre ser menos divertidas que as do Pando, os teatros menos interessantes que os da escola e dá muito mais jeito desenhar em casa que no banco da Igreja.

Se há uma coisa que a experiência me ensinou é que a única coisa interessante na missa é Cristo. A única coisa que realmente atrai na missa, que de resto é a única coisa que interessa na Fé, é que Deus se fez homem, nasceu nas palhinhas, pregou, fez milagres, foi preso, torturado e humilhado, morreu na Cruz, ressuscitou e faz-se presente misteriosamente nesta companhia que é a Igreja e carnalmente na Eucaristia. E este facto, que é aquilo que a mim me atrai na Igreja, é o mesmo facto que atrai os meus filhos. E até os atrai mais, porque têm um coração mais puro do que o meu.

Por isso a única coisa que preciso de fazer é ajudar os meus filhos a estarem atentos na missa, ensinar-lhe as orações com que eu mesmo fui educado, falar-lhes das Escrituras. Sobretudo, preciso eu próprio de viver a sério a Fé. E assim, pela graça de Deus, eles vão crescendo em Fé e Piedade. Repetindo os gestos que nos vêm fazer, repetindo as orações que rezam connosco, vivendo a Fé que nós vivemos. E como em todas as relações de amor, também a relação entre eles e Jesus irá crescendo e amadurecendo, tal como nos aconteceu a nós.

domingo, 9 de julho de 2023

JMJ: uma oportunidade de conversão

 


A Jornada Mundial da Juventude é um acontecimento extraordinário. Participei em duas (em Colónia e em Madrid) e não conheço nada que se pareça. São ruas e ruas cheias de jovens em festa, de todas as partes do mundo. Miúdos de todo o mundo, com uma enorme diversidade de gostos, de dons, de carismas. E essa diversidade expressa-se nas catequeses, nas exposições, nos concertos, nos milhares de eventos que acontecem durante a semana que culmina com a Vigília e a Missa de Encerramento com o Papa.

Toda esta multidão de jovens na rua são um espetáculo extraordinário. E tudo isto se passa numa serenidade, numa alegria, numa paz que não é habitual numa multidão tão grande.

Mas para que se faz a JMJ? É que organizar um evento assim dá uma enorme trabalheira a milhares de pessoas. Já não falo do dinheiro gasto, mas dos milhares de pessoas que dão o seu tempo pela JMJ. Tudo isto para quê?

A resposta é dada por São João Paulo II logo na primeira JMJ - “A Jornada Mundial da Juventude significa precisamente isto: sair ao encontro de Deus, que entrou na história do Homem através do Mistério Pascal de Jesus Cristo. E Ele quer encontrar-vos primeiro a vocês, jovens. E a cada um quer dizer: segue-me!”

A JMJ não é apenas um belo encontro de jovens, um mega-acampamento de Verão, um festival para meninos bem-comportados. Nem sequer um encontro de jovens bem-intencionados que quer mudar o mundo. Isso, a acontecer, é tudo consequência. A JMJ, como tudo aquilo que a Igreja faz, existe para testemunhar Cristo presente.

Por isso, a grande beleza da JMJ é a oportunidade de conversão que oferece a cada um. Ou seja, a oportunidade de responder ao convite de Cristo: segue-Me!

Tudo o resto é manifestação da conversão a Jesus. Toda a beleza, toda a alegria, toda a felicidade que se vive na JMJ são manifestação do encontro de Cristo. E existem para que cada um que peregrina até à JMJ tenha a oportunidade de converter o seu coração Àquele que é fonte de toda a Beleza, de toda a Alegria e da Felicidade Eterna.

Eu sei que atualmente as pessoas não gostam de falar de conversão. Vivemos no tempo do relativismo, onde dizemos que tudo é igual. Mas eu não posso acreditar que Jesus é Deus feito carne e depois não desejar que os outros o conheçam. Se eu encontrei Aquele que responde a todas as exigências do meu coração, como posso querer que os outros não o conheçam? Para um cristão não desejar a conversão dos outros só pode ser uma de duas coisas: ou falta de caridade ou falta de fé! Ou não desejo o bem do outro, ou não acredito que Jesus é quem diz que É.

A JMJ, em toda a sua grandeza, é assim uma oportunidade única de obedecer ao mandato evangélico que Jesus nos deixou “ide por tudo o mundo e anunciai o Evangelho”. É evidente que daqui até à JMJ, e durante a própria Jornada, haverá coisas que nos incomodam, com as quais não concordamos. Iremos ouvir os maiores disparates, e uma tentativa de reduzir este ímpeto de São João Paulo II a uma experiência mundana, tornando a Igreja numa ONG. Mas não desperdicemos esta oportunidade. Esta oportunidade ante de mais para nós, que vivemos em Portugal. Oportunidade de conversão do nosso coração a Jesus, que se manifesta neste povo imenso que vai encher Lisboa. Mas também a oportunidade de anunciar Jesus a centenas de milhares de jovens.

A Igreja é uma realidade divina, que vive numa realidade humana. Uma realidade humana cheia de limites e imperfeições. Não nos deixemos por isso chocar com os limites alheios, venham de onde vierem, e coloquemos o olhar em Cristo.

Como nos ensinou São João Paulo II, não tenhamos medo de escancarar as portas a Cristo.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

A escravatura do Orgulho

 


A direita-conservadora vive fixada nesse espantalho que é o marxismo-cultural. Ou seja, vive fixa na ideia de que uma filosofia falhada e derrotada no século XX é a principal ameaça cultural do nosso tempo.

Não digo que partes da teoria marxista, sobretudo a adaptação da luta de classes à luta interseccional, não influencie os grandes debates culturais do nosso tempo. Mas o problema mais dramático da cultura contemporânea não é o marxismo, mas o liberalismo individualista.

Vivemos hoje no primado do individualismo, onde o Homem é aquilo que diz sobre si mesmo, onde a realidade não interessa, apenas interessa aquilo que eu digo. Um tempo onde toda a sociedade tem de aceitar aquilo que eu digo sobre mim e tudo aquilo que se opõe à minha ideia sobre mim mesmo é uma agressão.

Isto é especialmente vivível na causa LGBT, que vai acrescentando sempre mais letras, de forma a acomodar cada vez mais “identidades”. O Homem passou a ser definido pelas suas atracões e pela sua sexualidade, deixando de ser filhos de Deus para ser filhos da moda, da sociedade, filhos de si mesmos.

E esta maneira de olhar para a sexualidade, centrado em si mesmo, afirmando que tudo o que me sacia sexualmente é válido (excepto o que for crime, então aí é preciso mudar a lei) e que qualquer opinião que diga o contrário é repressiva, é profundamente anti-humano. Esta visão da sexualidade, centrado apenas nos meus gostos e necessidades, significa reduzir o outro a um mero objecto de prazer. O individualismo reduz o próprio a uma criança mimada e o resto da humanidade a objectos que existem para o meu desfrute.

O resultado está à vista, apesar de toda as promessas de libertação sexual que há de trazer a felicidade à humanidade, finalmente livre de barreiras da moral, temos uma sociedade cada vez mais infeliz, cada vez mais incapaz de se relacionar, cada vez mais violenta, cada vez mais depressiva.

Por isso é especialmente preocupante ver a Igreja alinhar nesta mentalidade. A Igreja sempre afirmou com clareza que o Homem não é definido pelo seu pecado. O Homem foi criado para Deus, e é definido pela Graça de Deus. E por isso a Igreja a todos acolhe como Mãe, no convite contínuo a aderir a Cristo. Por isso a Igreja sempre falou com pessoas com tendências homossexuais, não permitindo que a sexualidade de uma pessoa a definisse.

Infelizmente, são cada vez mais os documentos que falam de pessoas LGBT (com mais ou menos letras), como se a sexualidade de uma pessoa definisse quem ela é. Como se de repente, houvesse uma classe à parte, diferente de pessoas, a quem o convite de Cristo a segui-lo não se aplicasse completamente, por causa da sua sexualidade.

Esta falsa misericórdia não é acolher ninguém, não é respeitar ninguém, pelo contrário, é reduzir pessoas iguais a mim a uma única dimensão da sua vida. No fundo, mesmo que não seja essa a intenção, é dizer que às pessoas com tendências homossexuais, ou que não se identifiquem com o seu sexo, de alguma forma, não lhes é oferecido o mesmo que é oferecido a mim.

Isto porque a moral sexual da Igreja não é um menos, não é uma obrigação, é uma graça. É uma forma mais Humana, mais bela, mais plena de se viver. Tratar uma pessoa apenas de acordo com o que diz sobre si, e não de acordo com aquilo que Deus diz sobre ela, é recusar a essa pessoa a dignidade de criatura de Deus. E isso não é dramático apenas para a sociedade, é dramático sobre para essas pessoas, a quem a Igreja recusa a Graça de Deus em troca de uma ideologia mundana.

 O mês de Junho, mês do Sagrado Coração de Jesus, mês dos Santos Populares, transformou-se no mês do Orgulho. E orgulho é o que mais define esta sociedade, onde o Homem recusa a paternidade Divina, e prefere-se criar à sua própria imagem e semelhança. O movimento LGBT não defende ninguém, nem promove qualquer igualdade, apenas ajuda a impor a escravatura do individualismo egoísta. Que o poder do mundo, vergado por esse individualismo, alinhe sem reserva nesse discurso não me espanta (embora me dê pena). Mas a Igreja tem o dever de ser Luz do Mundo, e de continuar a afirmar a Liberdade dos filhos de Deus num mundo de escravos do orgulho.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Os padres aos leões!

 


Quando no dia 18 de Julho do ano 64 começou o grande incêndio de Roma, logo se espalharam os rumores de que os culpados seriam os cristãos. A juntar a esta terrível acusação, logo outras surgiram: que envenenavam poços, que fariam sacrifícios rituais de crianças bebendo o seu sangue, que fariam orgias, etc. A revolta popular foi tanta que o povo de Roma gritava “os cristãos aos leões”. Claro que os boatos eram falsos e tinham por finalidade ocultar o verdadeiro culpado do incêndio de Roma (e de várias outras acusações dirigidas aos cristãos), o Imperador Nero, que assim encontrou alvos perfeitos para satisfazer a turba.

O método de exaltar a turba com denúncias anónimas foi usado repetidas vezes ao longo da história, muitas vezes resultando em enormíssimas mortandades. Quantas vezes ao longo da história minorias foram perseguidas com bases em rumores falsos, espalhados por quem os queria destruir?

A denúncia anónima sempre foi o método preferido dos tiranos, desde o tempo dos césares, até às ditaduras actuais. A denúncia anónima sempre foi um método extramente eficaz de eliminar adversários, praticar vinganças mesquinhas e manchar inocentes.

Por isso, o Direito tem um enorme cuidado no que toca a denúncias anónimas. Em Portugal, para que uma denúncia anónima seja sequer investigada, é preciso que existam indícios de um crime. Não basta dizer às autoridades informações vagas, sem sequer nomear a vítima. Uma denúncia que se limite a dizer que a pessoa x fez o crime y há z anos terá como destino o lixo.
Isto é um princípio básico de qualquer Estado de Direito. Qualquer pessoa tem o direito de não ver a sua vida investigada e revirada só porque um qualquer adversário decidiu fazer uma denúncia falsa às autoridades.

Este princípio era bastante unanime até há poucas semanas. Infelizmente agora parece aplicar-se a todos, excepto aos padres. Desde a publicação do Relatório da Comissão Independente, e da afirmação de Pedro Strech (que afinal era falsa) de que haveria cem abusadores vivos, gerou-se um movimento, capitaneado por Daniel Sampaio e Laborinho Lúcio, a exigir a suspensão sem mais, de qualquer sacerdote indicado no dito relatório.

O problema é que o relatório é baseado em denúncias anónimas que a Comissão não validou, como já veio admitir. O trabalho da Comissão foi ouvir as denúncias e compilar a informação. Não houve qualquer tipo de investigação. Daí o número de mortos, desconhecidos ou já investigados que constavam na famosa lista entregue às dioceses. Contudo, isso não impediu deputados, colunistas, e membros da própria Comissão, ao arrepio de todo o Direito, de exigir que qualquer padre referido, independentemente de provas ou indícios, fosse suspenso.

Há neste momento sacerdotes suspensos por conta de denúncias que nem sequer dariam para abrir um inquérito no Ministério Público. Uma denúncia anónima, enviada digitalmente, sem se saber quem é a vítima, ou que crime foi cometido, ou onde, é suficiente para suspender a vida de um sacerdote. Pouco importa que não haja qualquer prova ou indício, pouco importa uma vida inteira ao serviço dos outros sem qualquer suspeita, pouco importa o testemunho de milhares de pessoas, uma única denúncia anónima (que não servia sequer para abrir um inquérito na polícia) basta. Tudo para satisfazer a sede de sangue popular.

Isto não é justiça, isto não é colocar as vítimas em primeiro lugar, isto é simplesmente a barbárie. No Twitter clama-se “os padres aos leões” e assim é. As vítimas merecem justiça, não ver a sua dor ser usada com arma de arremesso.

Que aqueles que de forma publica, ou por secretas obediências, odeiem a Igreja, não se importem de subverter a justiça, é normal. É assim desde Nero.

Ver pessoas de bom senso que para aplacar a revolta pelos tenebrosos crimes de alguns sacerdotes estarem dispostos a fazer o mesmo, é assustador.

A Comissão fez o seu trabalho recolhendo denúncias. O Relatório não é sobre eles, nem sobre as suas agendas, mas sobre as vítimas. Agora é a hora de se remeterem ao silêncio e permitirem à justiça trabalhar.

Quanto ao Padre Mário Rui Pedras, afastado do seu extraordiário trabalho pastoral por uma vil denúncia anónima, fico-me pelas palavras de Nosso Senhor: “Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal de vós. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos céus a vossa recompensa”.

domingo, 12 de março de 2023

Sobre a confusão dos números recebidos pela CEP

 




- No relatório, na página 109, é dito que a Comissão decidiu “que a lista das pessoas alegadas abusadoras ainda no ativo, seria remetida, apenas no termo dos trabalhos, tanto ao Ministério Público, como à Conferência Episcopal Portuguesa”

- No dia 14 de fevereiro, dia a seguir à apresentação do relatório, Pedro Strecht, presidente da Comissão Independente, afirma que há mais de uma centena de abusadores vivos, no activo ou não.

- Com base nesta afirmação os meios de comunicação social começam a difundir que haverá mais de 100 abusadores ainda no activo. Ideia que, apesar do largo acesso à Comunicação Social, nunca foi cabalmente desmentida pela Comunicação Social.

- Em justiça, deve-se dizer que Ana Nunes de Almeida, em entrevista ao Observador a 17 de fevereiro, afirmou que a lista de cerca de 120 nome não seria só de vivos.

- Ou seja, embora se tenha formado a convicção na Comunicação Social, quer por causa da página 109 do relatório, quer pela entrevista de Pedro Strecht no dia 14 de fevereiro (que lançou o alarme e que ele nunca desmentiu), que a lista a entregar à CEP seria de abusadores vivos, aparentemente a Comissão sabia que estava a entregar a lista de todos os padres cujos nomes tinham sido referidos nas denúncias.

- Persiste um último mistério, como a Ângela Roque na Renascença chamou a atenção: se a lista entregue à Comissão é de todos aqueles que foram denunciados, porquê a discrepância assinalável entre os números da lista e os do Relatório? Penso que uma explicação possível é que os números do relatório incluam os de denúncias onde a vítima não conseguiu identificar o agressor. O que coloca o problema: se o agressor não foi identificado como sabemos que não é um dos já referidos no relatório? Enfim, uma confusão que seria bom que fosse explicada.

- Estas confusões nascem daquilo a que há uns tempos referia como sendo as limitações do método utilizado, que tornavam os números pouco fiáveis. Não se trata de um ataque à Comissão, mas era importante que tivesse ficado claro desde o príncipio que a Comissão iria recolher testemunhos, mas que não tinha como missão investigar essa denúncias, trabalho que teria que ser feito pelo Ministério Público e pelas Dioceses, nos casos possíveis. O objectivo da Comissão era dar voz ás vítimas e deu. Claro que era útil que alguns membros da própria Comissão não se esquecessem desse facto.

- Faltando apenas quatro Dioceses revelar os dados, os números são estes: de 83 nomes entregues, 31 estão mortos (37%), 9 são desconhecidos (11%), 11 eram casos já investigados ou em investigação (13%), 11 já não exercem funções (13%), 2 eram de dioceses erradas (3%) e 19 denúncias eram de casos desconhecidss nas dioceses (23%). Destes casos novos, 6 foram suspensos, sobre os restantes 13 foram pedidos mais dados à Comissão.

- Os últimos dias também tornaram claro que, como afirmou o Patriarca de Lisboa, da lista constava apenas nomes. As afirmações de alguns membros da Comissão de que os bispos teriam os dados que precisavam, insinuando que o Patriarca tinha mentido, é, na melhor das hipóteses, dúbia.

- Para quem estiver interessado neste tema, a melhor fonte de informação continua a ser, como há uns anos a esta parte, o blogue Actualidade Religiosa, do Filipe d'Avillez.

sexta-feira, 10 de março de 2023

Liberdade da Igreja




Ontem no Parlamento vários partidos decidiram não apenas criticar a Igreja, mas explicar aquilo que a Igreja deveria fazer na questão dos abusos de menores. Também o Presidente da República decidiu criticar a Conferência Episcopal Portuguesa sobre este assunto e fazer sugestões sobre o comportamento da Igreja, como aliás já tinha feito André Ventura. Estamos perante dois enormes equívocos que não podemos deixar passar.

O primeiro é bastante simples: por muito impressionantes que possam ser os números de relatório, infelizmente são uma minúscula minoria dos abusos sexuais que acontecem em Portugal. Em média há 2400 processos de abusos por ano, sabendo perfeitamente que os casos que chegam à justiça estão longe de ser a totalidade dos casos. A Comissão Independente recebeu 512 denúncias que considerou válidas, para um período de 70 anos, ou seja, quase um quinto da média ANUAL de casos denunciados no nosso país.
Para a Igreja é indiferente se percentualmente o número de casos no seu seio é pequeno ou grande relativamente ao resto da sociedade. Um só era de mais. Mas se o poder político quer falar de abusos de menores, então não pode ignorar que a esmagadora maioria dos casos não acontecem na Igreja.
Sobretudo quando fala dos abusos da Igreja, na consequência de um relatório que foi encomendado pela própria, num processo de purificação, que mais nenhuma instituição em Portugal fez. É verdade que no tema dos abusos houve erros na Igreja e que a comunicação tem sido muitos desastrosa. Mas nos últimos anos a Igreja portuguesa tem feito, na senda daquilo que os Papas têm proposto, um trabalho enorme para garantir a segurança dos menores. Tem regras muito mais apertadas que o Estado ou qualquer outra instituição. Em consequência do relatório apresentado todas as dioceses estão a fazer investigações para assegurar que não há padres abusadores no seu seio. Mas pelos vistos ao Presidente da República e aos deputados só lhes interessa o abuso de menores na única instituição que realmente está a fazer alguma coisa para acabar com eles!
Se estão realmente preocupados com o abuso de menores, façam o que lhes compete e tomem medidas para combater seriamente o flagelo dos abusos de menores no país. Apontar à Igreja serve à onda mediática, mas não às vítimas de abusos em Portugal.
Mas há segundo equívoco, e este mais grave. É que a Igreja é autónoma do Estado. A separação da Igreja e do Estado, não significa apenas que a Igreja não se mete no Estado, significa também que o Estado não interfere na Igreja. Os cidadãos, sejam ou não eclesiásticos, respondem perante a lei como é evidente. Um sacerdote que abusa de um menor deve ser julgado. Mas isso não significa em momento algum que o Poder político possa interferir na Igreja.
Ter o Presidente da República e os deputados a dizer que a Igreja deve fazer isto ou aquilo, que não fez o suficiente ou que tem que fazer mais, é uma violação grosseira da separação entre o Estado e a Igreja e uma ofensa à Liberdade da Igreja. Os deputados podem fazer leis para punir quem abusa de menores (e devem fazê-lo), não podem é tentar impor à Igreja o quer que seja, que não a lei geral e abstrata. Esta ofensiva é um ataque à Constituição e as regras mais elementares do Direito de qualquer Estado civilizado. Mais grave só a ideia peregrina do Chega, aprovada por unanimidade dos restantes partidos, de chamar ao Parlamento o presidente da CEP para prestar esclarecimentos, como se de um ex-banqueiro ou de um presidente de um clube de futebol se tratasse.
Sobre os abusos a Igreja tem de fazer o seu caminho de purificação. E é com esperança que vejo algumas dioceses a fazê-lo com clareza e espero que as outras lhe sigam o exemplo. Também espero que a CEP tenha mais cuidado na comunicação, centrando-se mais nas vítimas e menos em questões laterais. Mas discernir esse caminho cabe à Igreja não ao Estado. A Igreja não está acima da lei, mas o poder político também não. Em Democracia, aplica-se a boa velha máxima de Nosso Senhor: então dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

terça-feira, 7 de março de 2023

A hipocrisia habitual de Isabel Moreira



Isabel Moreira assina um artigo no Expresso que é um tratado de jacobinagem. A senhora deputada vem clamar que é preciso o Estado intervir na Igreja, proibir a doutrina sexual nas Igrejas, acabar com a confissão e várias outras coisas.

Muito haveria para dizer sobre intolerância da deputada. Os seus excessos podiam ser perdoáveis à luz de uma qualquer revolta com as vítimas de abusos. Mas, sabendo que Isabel Moreira é deputada do Partido Socialista, que apoia António Costa e votou em Ferro Rodrigues para Presidente da Assembleia da República é difícil levar a sério a revolta da deputada activista.
Lembremo-nos que no escândalo Casa Pia existiram denúncias contra Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso. E não se tratou de denúncias anónimas, nem de extrapolações, mas de factos concretos, com dia, local e hora. Recorde-se também que há escutas de Ferro Rodrigues e de António Costa a tentar interferir na investigação.
Estes factos nunca impediram Isabel Moreira de continuar no PS ou a levaram a pedir qualquer intervenção do Estado no seu partido. Pelo contrário, nunca teve qualquer problema em apoiar Ferro Rodrigues e António Costa.
Ora a mesma pessoa que diante de denúncias sólidas de abusos e de tentativas de encobrimento nada fez a não ser apoiar os denunciados, vem agora pedir a intervenção do Estado na única instituição em Portugal que teve a coragem de investigar os abusos no seu seio e de dar voz às vítimas.
Pelos vistos para Isabel Moreira abusos de menores e o seu encobrimento só são maus quando praticados por padres. Se forem por camaradas seus não são obstáculo para que os apoie politicamente.
A hipocrisia da deputada é clara. A ela pouco lhe importa as vítimas, só quer aproveitar a ocasião para atacar a Igreja.

O abuso de menores na Igreja é um pecado e um crime grave. Os culpados devem ser punidos. Mas é vergonhoso ver a quantidade de chacais a aproveitar a dor das vítimas como bandeira política. Mas vindo de Isabel Moreira não espanta, aproveitar a dor alheia é a chave da sua carreira política.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

No país esquecido, sobra a igreja


 

Portugal é um país cada vez mais deserto. Por todo o país existem vilas e aldeias onde já quase nada há, a não ser um conjunto de pessoas que vão envelhecendo. Os centros de saúde e os hospitais, as esquadras, os tribunais, as escolas, os correios, os bancos, os serviços públicos em geral, vão se tornando cada vez mais distantes, deixando, para quem vive fora das cidades, uma qualquer máquina automática e uma suposta digitalização, que a população envelhecida dessas terras não compreende.

A única realidade que se mantém presente em todo o país, muitas vezes com dificuldades e recorrendo a alguma originalidade, é a Igreja. Em quase todas as aldeias de Portugal, por muito longínquas e desertas que estejam, lá está a Paróquia. E sabe Deus quantas vezes essa paróquia é acompanhada pelos únicos serviços sociais que a população têm acesso: um centro de dia, um agrupamento de escuteiros, os Vicentinos, e tantas outras realidades que se tornam a única vida social no país profundo.

Uma vez visitei um sacerdote amigo meu, de Trás-os-Montes, que tinha ao seu cuidado nada menos do que catorze paróquias. Lembro-me bem de o acompanhar a uma missa que celebrava semanalmente ás 7h ou às 8h da manhã: uma Igreja escura, gelada, mas lá estava ele a celebrar para meia dúzia de velhotes.

Mas não é apenas nesse Portugal esquecido que a Igreja é a única presença social. Em quantos bairros das grandes cidades, esquecidos pelo poder (assim como assim é quase tudo pessoas sem direito a voto), a Igreja está presente? Penso nas Missionárias da Caridade em Chela, nos meus amigos de Comunhão e Libertação no Casalinho da Ajuda, nos Franciscanos do Bairro Padre Cruz, e tantos outras realidade em tantos outros bairros.

A obra educativa e social da Igreja em Portugal não tem qualquer paralelo. São milhares de escolas, de lares, de centros sociais, de obras de caridade, que diariamente acolhem, educam, alimentam, vestem, cuidam daqueles a quem o Estado a e sociedade não chegam. Obras que vivem da vida oferecida de consagrados e leigos, e também da generosidade do Povo de Deus. Porque mesmo aquelas obras que são IPSS só conseguem sobreviver com a generosidade desse povo.

A Igreja permanece hoje, como desde o princípio da nacionalidade, como a única realidade social presente em todos os recantos do país. Também por isso é tantas vezes guardiã da cultura e da arte do nosso povo. As nossas festas populares estão sempre ligadas à devoção. E por isso de norte a sul a fé do povo vai mantendo vivas as nossas tradições.

E o fruto dessa devoção, das tradições seculares, vê-se no património religioso. Desde as catedrais às humildes capelas perdidas no meio do nada, são milhares de obras de arte que espelham uma vida de fé milenar. Num país onde o património do Estado vai ruindo, a fé do povo vai mantendo vivo um património de valor incalculável.

Todo este esforço da Igreja, se fazer presente, de servir o próximo, de conservar as tradições, de cuidar do património, tem como fim a salvação das almas. A missão da Igreja não é ser uma ONG, ou animador cultural, nem restauradora de património, mas anunciar Cristo. Mas o fruto deste trabalho é que a Igreja tem em Portugal um papel social incomparável.

Imagine-se o que seria o nosso país sem as obras sociais da Igreja, sem a suas escolas, sem as festas religiosas, sem os cruzeiros, as capelas, os santuários, as igrejas, as basílicas e as catedrais. Quantos ficariam sem tecto? Quando passariam fome? Quantos ficariam sozinhos na sua doença?  Quantas famílias não teriam quem cuidasse das suas crianças, dos seus deficientes, dos seus idosos? Quantas terras ficariam sem as suas festas? Quantas cidades perderiam o seu património mais valioso?

Muitas vezes se fala do suposto apoio do Estado à Igreja, tantas vezes mentido e deturpando. Mas era bom termos a consciência de que o Estado precisa bastante mais da Igreja, do que a Igreja do Estado. A Igreja existe há dois mil anos, e viveu nas catacumbas de Roma e nas Catedrais de França, na Polónia comunista e na Europa medieval, sempre sem perder a Fé.  O Estado é que, incapaz de socorrer os mais desvalidos, incapaz de se fazer presente no país profundo, incapaz de manter o seu património cultural, depende da Igreja e do seu povo.

Eu também espero que não se gaste mal dinheiro na Jornada Mundial da Juventude. E também acredito na separação entre a Igreja e o Estado. (sobretudo porque acredito na liberdade da Igreja em relação ao poder). Mas não esqueço que existe um país real, para lá da bolha das redes sociais, um país pobre e abandonado pelo poder. E nesse país esquecido não estão os opinadores, os políticos, os “comediantes”, nem sequer o Estado. Nesse país só está a Igreja.  

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Bento XVI: Um Papa amado pelo povo de Deus


 


Durante todo o seu pontificado foi igual. Onde quer que Bento XVI fosse o povo de Deus acorria em massa para o encontrar, perante o contínuo espanto da comunicação social que previa sempre que era naquela viagem que o Papa não ia ser bem recebido.
Porque o diagnóstico estava feito desde o primeiro instante. Os opinadores já tinham decretado que a Igreja precisava de um Papa jovem, progressista, de um país pobre e o Espírito Santo tinha-se enganado e escolhido um cardeal velho, pilar doutrinal do pontificado de João Paulo II e o país mais rico da Europa. Por isso o sucesso de Bento XVI foi sempre um mistério para aqueles que observam a Igreja pelo olhar do mundo.
O mito de um Papa impopular, que ainda hoje perdura em alguns círculos, foi desmentido pelas multidões de todo o mundo: daqueles que enchiam todas as semanas São Pedro, dos jovens de Colónia, de Sidney, de Madrid, das famílias em Valença, na Cidade do México, de Milão, e do povo de Deus em todo o mundo: do Brasil à sua Alemanha, de Inglaterra a Portugal, dos Estados Unidos aos Camarões. Para quem se interessa mais pela realidade do que por narrativas, era evidente que Bento XVI era um Papa muito amado. O Papa alemão não teve apenas um enorme sucesso juntos dos intelectuais (que o reconheciam como um os seus maiores), teve sempre um enorme sucesso junto do povo cristão.
E por isso só quem durante todos estes anos esteve cego pelo seu preconceito se pode espantar com o espetáculo dos últimos dias em São Pedro. São milhares os peregrinos que fazem fila para se ir despedir daquele homem humilde trabalhador da vinha do Senhor.
Olhando para estas multidões não podemos deixar de perguntar como Jesus “O que é que foram ver no deserto? “. E a resposta é a mesma: um profeta! Uma voz que neste deserto espiritual e carnal, clama “preparai o caminho do Senhor”. Bento XVI, tal como João Baptista, nunca se pregou a si mesmo, mas apontou sempre o Senhor. Aquele homem genial, tímido, que só queria regressa à sua Baviera, ofereceu-se como cordeiro sacrificial para cumprir a vontade de Deus.
E depois aquele momento, aquele momento onde silenciou um mundo que não se cala, ao anunciar a sua renúncia. Uma decisão que não compreendi, mas na qual confiei, porque diante de um santo como Bento XVI, que conhecia a Deus como eu nunca poderei conhecer, mesmo quando não se compreende, confia-se.
Neste deserto de egoísmo e de individualismo, onde cada vez mais se afirma o próprio eu, Bento XVI afirmou sempre um outro, testemunhou sempre o próprio Deus, ofereceu-se continuamente ao Seu Senhor, para nos confirmar a nós na Fé. E foi isto que as multidões foram ver, uma fonte de água pura no meio o deserto.
Dizia o então Cardeal Ratzinger, na missa «PRO ELIGENDO ROMANO PONTIFICE»: “Por fim, voltemos mais uma vez à carta aos Efésios. A carta diz com as palavras do Salmo 68 que Cristo, subindo ao céu, "deu dádivas aos homens" (Ef 4, 8) O vencedor distribui dons. E estes dons são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. O nosso ministério é um dom de Cristo aos homens, para construir o seu corpo o mundo novo. Vivamos o nosso ministério assim, como dom de Cristo aos homens! Mas nesta hora, sobretudo, peçamos com insistência ao Senhor, para que depois do grande dom do Papa João Paulo II, nos ofereça um pastor segundo o seu coração, um pastor que nos guie ao conhecimento de Cristo, ao seu amor, à verdadeira alegria.” Demos graças a Deus por nos ter dado um Pastor assim.
SANTO SUBITO!

terça-feira, 30 de agosto de 2022

“Se não fosses tu meu Cristo sentir-me-ia criatura finita” São Gregório Nazianzeno



No último Domingo fui à missa a uma Igreja que nunca tinha ido. O motivo era o baptismo de uma aluna da minha mulher. Fui um pouco a contragosto: era fora de Lisboa, tínhamos chegado de uma viagem grande no dia anterior e a hora era pouco convidativa para ir com os miúdos. Para piorar o meu humor, a criança mais nova decidiu passar boa parte da missa fazer barulho e por isso estive a todo o tempo no corta vento, sem conseguir prestar grande atenção.

Chegado à altura da comunhão tinha decidido não ir comungar: tinha estado distraído, estava um pouco irritado com as crianças, e estavam pessoas à porta do corredor central. Quando estava nestes pensamentos, percebi que o padre estava a distribuir a comunhão pela Igreja: de repente estava à minha frente, com o Corpo de Cristo nas mãos. A mim restou-me pouco mais do que aceitar esta misericórdia, de um Senhor que passa por cima da minha pequenez para vir ao meu encontro. Comovi-me como há algum tempo não me comovia na missa.

Mas se me comovi, não me espantei, porque felizmente foi assim toda a minha vida. A minha vida é marcada por este Deus encarnado que constantemente vem até a mim. Não uma ideia, não uma moral, mas uma Pessoa, que se torna presente nesta companhia concreta que é a Igreja: na minha família, nos meus amigos, no testemunho dos santos, na graça dos sacramentos, na beleza da liturgia, na caridade da Doutrina!

E o encontro com Cristo dá à minha vida todo um novo horizonte. Tenho experimentado o cem vezes mais aqui na terra e isso fortalece a minha certeza na vida eterna.

Mas é impossível compreender aquilo que a Igreja propõe sem Cristo. A castidade, a fidelidade, a doação de si, a obediência, só são compreensíveis na relação com Jesus. Sem Ele, não passam de regras e preceitos ocos.

Por isso é natural que num tempo onde se esqueceu Jesus, onde a Fé é reduzido a uma moral ou a uma ideologia, a proposta da Igreja pareça desadequada e ultrapassada. Também se compreende que, quem olha para a Igreja como mais uma organização, como um mero conjunto de pessoas ligada por uns rituais, as preocupações principais sejam as do mundo: quem manda, quem gere, se todos são “iguais”. De facto, a Igreja sem Cristo, tem os mesmos defeitos que qualquer outra instituição humana.

É Cristo que abre um novo horizonte, é Cristo que torna uma realidade completamente humana como a Igreja, numa realidade sobrenatural e eterna.

O relatório português do Sínodo foi por isso para mim uma experiência muito útil, porque me ajudou a identificar com clareza o grande problema da Igreja no nosso tempo. A mistura de ideologia com sindicalismo, tudo misturado com a linguagem inclusiva e as preocupações mundanas que hoje tanto ocupam alguns activistas, deixou claro a ausência de Jesus. De facto Cristo é o grande ausente deste relatório, porque é também o grande ausente da pastoral da Igreja. E este é o maior drama: é que ignorando Cristo, fica apenas o que é humano, ou seja ignora-se o eterno.

Para mim a Igreja é a presença de Cristo. E é essa presença que constantemente redime a minha pequena humanidade. A única urgência da Igreja devia ser levar essa presença a cada pessoa. O resto vem por acréscimo.




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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Graça a Deus pelos Padres



A Igreja celebrou ontem o dia de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes, especialmente dos párocos. O dia do Santo Cura d’Ars chegou no meio de um turbilhão de acusações contra a Igreja portuguesa e contra os seus sacerdotes. E isso fez-me pensar nos padres da minha vida. Daqueles que entregaram a sua vida a Jesus para que eu O possa encontrar. E obrigou-me a tomar consciência do tanto que devo a tantos bons sacerdotes.

Antes de mais ao Padre João Seabra, que há dois meses foi para o céu. A ele, mais que a qualquer outra pessoa, devo a minha Fé e aquilo que sou hoje. Depois lembro-me do Padre Nuno, coadjutor do Padre João em Santos: um velho carmelita que passava horas no confessionário. Foi a primeira pessoa importante da minha vida que me lembro de morrer.

Depois pensei nos padres com que me cruzei na Baixa e no Chiado. O Padre Armando Duarte, amigo inseparável do Padre João. Sempre presente, sempre constante, com um sentido de humor mordaz. A ele lhe devo o muito que aprendi com o Manual do Acólito. Depois o Padre Mário Rui, que tornou o deserto da Baixa num centro de devoção em Lisboa. A ele toda a Igreja de Lisboa deve o regresso da procissão do Corpo de Deus. Em conjunto com o Padre João, tornaram a Baixa e o Chiado no pulmão da Igreja na Cidade de Lisboa. E a unidade entre estes três sacerdotes tornou-se modelo de unidade pastoral para todo o Patriarcado.

Ainda no Chiado, não me posso esquecer dos padres do Loreto: o Padre Angelo (confessor de meia Lisboa durante décadas), o Padre Francesco, o Padre Dino, e tantos outro cujo nome não me lembro. Foram eles os meus confessores durante a adolescência e a juventude. A minha alma muito lhes deve.

Depois lembro-me ainda dos sacerdotes que colaboraram na paróquia da Encarnação. O Padre João Aguiar, que enquanto director da Renascença assegurava diariamente a missa das 8h, e que chegava à Igreja à 7h30. O Padre Marim que todas as quartas-feiras celebrava a missa das 12h10 para as Noelistas. O Padre Rafael Morão, jesuíta e Reitor da Igreja de São Roque, que tantas vezes celebrava missa na Encarnação. O Padre Armindo, que veio estudar direito canónico e que durante anos celebrou a missa de Domingo às 10h30 para depois ficar a confessar durante a missa das 12h30 (o que me era muito útil). O Padre Hilário, também estudante de direito canónico e que assegurava muitas vezes as necessidades da paróquia. O velhinho Padre Azeredo, também jesuíta, que muitas vezes celebrava a missa das 12h10 durante a semana, tal como o ilustre frei Pinto Rema, franciscano e grande especialista em Santo António. E ainda o frei Miguel Patinha, da Ordem dos Pregadores.

Por fim, os padres que acompanharam o Padre João em Santa Joana. O Padre Duarte da Cunha, um amigo fiel que com amor filial acolheu um mestre com uma disponibilidade e lealdade incomparáveis. E o Padre Michael sempre discreto, sempre presente.

Lembro ainda o Padre Santos, durante anos prior de São Sebastião e de Nossa Senhora da Boa-Fé na Arquidiocese de Évora, que o Senhor chamou a Si no ano passado. Homem piedoso, sem medo de educar o povo e de afirmar as verdades, mas sobretudo a Verdade.

Por fim,  nas paroquialidades, lembro-me dos padres salesianos de Lisboa, cujo nome não sei, mas que nestes últimos anos me têm acolhido tantas vezes na Santa Missa e no confessionário.

Mas na minha vida muito devo aos padre de Comunhão e Libertação, o movimento que tive a graça de encontrar. O Padre Ramiro, homem de inteligência profunda e uma capacidade de ensinar como poucos, cuja fidelidade à Igreja e ao carisma de monsenhor Giussani tanto me educou. O Padre Zé Maria Cortes, vizinho de sempre da minha família, que depois de construir  a Igreja dos Pastorinhos partiu como missionário. O Padre Luís Miguel, essencial na minha vida universitária. E com estes dois últimos todos os padres da Fraternidade de São Carlos Borromeu que passaram por Alverca: o Padre Francesco, o Padre Silvano, o Padre Rafael e o Padre Giovani. O Padre Zé Maria Magalhães, que me levou a Lourdes e que insistia na minha vocação sacerdotal (penso que agora já terá desistido). O Padre Miguel Aguiar, com o seu cuidado com a liturgia, sempre acompanhado de um enorme sentido de humor. E também os que, tendo conhecido pior, me lembro de sempre: o Padre Silvério e o Padre Sérgio Pêra.  Nesta categoria incluo o Padre Pedro Quintela (que preferiu cuidar dos mais miseráveis às honras do mundo) que não sendo do CL, foi sempre muito próximo e muito nosso amigo.

E chego aos padres da minha geração, o Padre Miguel Pereira, que tem feito uma grande pastoral sobre a teologia do corpo de São João Paulo II, o Padre Tiago, um grande entusiasta da causa da vida, e o meu querido parente, Padre Duarte Andrade e Sousa, um extraordinário sacerdote, um grande educador dos jovens, que pela mesquinhez de uns e a maldade de outros, está injustamente a pagar pecados alheios. E como, apesar de ainda ser novo, já não sou jovem, começo a ter amigos padres mais novos que eu, como o Padre Claúdio, ordenado há pouco tempo e que tive a graça de acompanhar quando era um jovem liceu de Comunhão e Libertação.

E também muitos outros padres com quem me fui cruzando, por circunstâncias diversas, ao longo da vida. O frei Gonçalo, franciscano, com quem me encontrei várias vezes, a mais memóravel das quais foi em Compostela, quando entre dezenas de milhares de peregrinos que vinham ver Bento XVI, “esbarrou” com o nosso grupo completamente por acaso. O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, o Padre João Vergamota, o Padre Diogo Maleitas Correia, os párocos de São Martinho do Porto, de Covas, o reitor de São Bento da Porta Aberta, o Padre José Rafael, o Padre Miguel Cabral, o Padre Pimentel, o Padre Santamaria, o Padre Adelino, capelão do Colégio de São Tomás onde acompanha os meus filhos. E tantos outros, que não conheço, mas com quem nestes 36 anos de cristão me cruzei na Santa Missa ou na confissão.

São muitos os padres necessários para atender a um cristão. Homens que oferecem a sua vida, para que o povo de Deus possa receber o Corpo de Cristo e o perdão dos pecados. Para receber a graça de ser filho de Deus, para casar e ser amparado na doença.

Por todos eles estou grato a Deus e rezo-Lhe para que os sustente e ampare na sua missão. Para que neste tempo de perseguição, onde pelo pecado de uns poucos pagam todos, permaneçam firmes no seus ministério.

Mas sobretudo, agradeço a cada um destes padres, os que me lembro e os que não me lembro, por me terem permitido ao longo da minha vida receber Cristo e viver na Sua Graça. A minha Fé é sustentada pela sua oferta constante de serviço a Cristo e à sua Igreja.

Que bom que é que hoje, num tempo de egoísmo, de escândalos fáceis, de perseguições cobardes, ainda existam homens dispostos a oferecer-se a Deus.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Aqui o prior educa-nos na Fé.




A história conta-se rapidamente. No fim dos anos 90, um dos bispos auxiliares do Patriarcado de Lisboa fez uma visita pastoral à paróquia de Santos-o-Velho. Durante a visita teve um encontro com os paroquianos onde perguntou qualquer coisa sobre o haver realidades muito distintas na paróquia e se isso causava algum problema. Respondeu um homem bom e caridoso da paróquia, mas conhecido pela falta de simpatia: “isso não é um problema, aqui o prior educa-nos na Fé”.

Lembro-me muitas vezes desta história, sobretudo quando regressam ao debate público as posições da Igreja sobre a sexualidade.

Eu, como centenas (talvez milhares) tive a graça de ter sido educado na Fé por aquele prior. Ou seja, fui educado no amor a Cristo e à Sua Igreja. E isto passa também, como é evidente, pela visão cristã do corpo, do amor e da sexualidade. Mas nunca me dei conta de que a moral sexual fosse central, ou sequer especialmente importante naquilo que pregava. O essencial foi sempre o encontro com a presença de Cristo, aqui e agora. O resto veio por acréscimo.

Porque a moral da Igreja não é apenas conjunto de normas para regular a vida dos católicos. A moral da Igreja brota do próprio Senhor e é a forma mais adequada, mais humana, de viver esta vida e conquistar a próxima. 

Mas é impossível compreender a moral da Igreja sem ser à luz da Fé. Só o encontro com Cristo é capaz de mudar o coração do Homem. A beleza daquilo que a Igreja propõe, incluindo a sexualidade, só é compreensível nesta relação com Jesus.

Vivo por isso muito agradecido por ter um mestre que me educa na Fé. Para mim nunca foi difícil aceitar a moral sexual da Igreja. Pelo contrário, sempre achei a visão do corpo como morada do espírito, o acto sexual como oferta de si mesmo, a imagem do outro como dom e não como objecto, das coisas mais belas que conheço.

Não quer dizer que seja fácil, nem a Igreja diz que é. Como diz São Paulo aos Romanos: Nem me compreendo, pois não faço aquilo que queria fazer e faço o mal que detesto.

Neste tempo de hipersexualização, onde os corpos são exibidos e vendidos como objectos, neste tempo de egoísmo, da ditadura das sensações, propor e viver a pureza e a virgindade não é fácil, mas não deixa de ser verdade.

Por isso a Fé é essencial. Porque a relação com Cristo é a única coisa de realmente interessante que a Igreja tem para oferecer. É Ele que ilumina toda a realidade, é Ele que nos permite irromper da escravidão do pecado e viver de forma humana. Sobretudo, só com Ele nos podemos levantar após cada queda.

Concordo com os que dizem que se fala demasiado da moral sexual da Igreja. Sobretudo, aqueles que a querem mudar e que reduzem todo o drama humano, sobretudo o dos jovens, a saber com quem se pode ir para cama. É uma visão redutora da humanidade. Aquilo que faz falta à Igreja não é mudar o que é eterno mas dar testemunho da presença viva de Cristo. D’Aquele que estava morto, mas ressuscitou. Tudo o resto vem por acréscimo.

Resumindo, está tudo naquela resposta do homem maldisposto: aqui o prior educa-nos na Fé!