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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Que se lixem as eleições?- Paula Sá, DN, 22/11/16

Nenhum dos que aqui estão foi eleito para ganhar as próximas eleições, nem para ajudar a ganhar autárquicas, nem as regionais deste ano nos Açores, nem as europeias que aí vêm a seguir, não foi para isso que fomos eleitos. Foi para responder ao país." Passos dixit em setembro de 2012, num jantar com o grupo parlamentar do PSD. A um ano das autárquicas de 2013, esta frase caiu que nem uma bomba nas bases sociais-democratas, que começavam a preparar o terreno para a corrida eleitoral.

A frase servia de aviso ao partido para o que por aí vinha de mau resultado, em particular nas autárquicas, fruto da austeridade imposta ao país pela troika e pelo governo de coligação. E o resultado revelou-se francamente mau para o PSD, que acabou o combate eleitoral com 106 câmaras (20 das quais em coligação com o CDS) contra as 149 do PS, num total de 308 municípios. Como o partido estava no poder, as estruturas aguentaram o embate e encaixaram o desaire eleitoral à espera de melhores dias.

No início de dezembro, agora a menos de um ano do mesmo ato eleitoral, já arredado do poder, mas sempre a falar mais para o país do que para o PSD, Passos garantiu aos militantes que não havia motivos para andar "numa lufa-lufa" para apresentar candidatos autárquicos.

Só que a falta de comparência de Pedro Santana Lopes à chamada para o combate na capital contra o socialista Fernando Medina - sendo compreensível que o partido tenha esperado por um dos poucos candidatos que poderiam fazer frente ao adversário do PS, embora devesse ter sempre contado com um plano B - acelerou todo o processo interno.

As notícias que vieram a público sobre o eventual apoio do PSD à líder do CDS na capital, e à revelia do coordenador autárquico do partido, Carlos Carreiras, e do próprio Passos, mostram que a pressão sobre a direção vai aumentar para se definir quanto antes. As bases querem mesmo "lufa-lufa" na escolha dos candidatos, em particular em Lisboa e Porto, porque dependem muito das autarquias para manter o poder que têm.

Já se percebeu que os barões e baronetes do PSD não estão virados para o combate autárquico porque não precisam dele para terem influência, e seria uma surpresa que Passos conseguisse convencer alguma figura grada a calcorrear as ruas de Lisboa à conquista do eleitorado. O mais provável é que a opção seja a de apoiar um independente (e no Porto também) ou, como foi noticiado, a líder do CDS, Assunção Cristas. Nos dois casos, haverá quem esperneie no partido, talvez muitos até. Mas decidir rapidamente, já no início do novo ano, e não até março como previsto, talvez seja paradoxalmente a melhor maneira de as bases não lixarem mais as eleições a Passos Coelho com intrigalhada q.b..

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A melhor qualidade de um político é ter muita lata - José Manuel Fernandes, Observador, 21/12/16

Custa a crer. No principal salão da residência oficial do primeiro-ministro, com enorme pompa e circunstância, o anfitrião, os presidentes do Banco de Portugal e da CMVM, essa figura esquiva que dá pelo nome de Diogo Lacerda Machado e tem como principal atributo ser o “melhor amigo” do anfitrião, mais o representante dos “lesados do BES”, brindaram a um acordo que este último classificou como uma “bênção de Natal”. Quanto ao primeiro-ministro, este preferiu a metáfora – “não endireitámos a vara nem a sombra” – e a auto-congratulação – falando de “dever cumprido”. Não houve brindes com champanhe, mas podia ter havido. Também não houve direito a perguntas, nem podia ter havido: as respostas, se as houvesse e houvesse franqueza, seriam duras de ouvir.

No essencial o que António Costa anunciou é que um conjunto de pequenos e grandes (alguns mesmo muito grandes) aforradores do BES, daqueles que acreditaram poder beneficiar de taxas de juro mais elevadas quando outros aforradores, mais prudentes, colocavam o seu dinheiro em paragens mais recomendáveis (e recebendo juros mais baixos), vão ser ressarcidos do que perderam. Não de tudo, mas de uma fatia muito substancial. O suficiente para ser necessário mobilizar uma verba de 268 milhões de euros, que um fundo financiado não se sabe como “adiantará” aos ditos lesados. E aqui está o busílis da questão e a razão de não ter havido direito a perguntas: ninguém quer dizer de onde vem realmente o dinheiro, mas uma vez que ele não cai do céu nem é imaginável que os outros bancos sejam altruístas, o dinheiro vai acabar por vir do sítio do costume. Isto é, dos nossos bolsos, humildes contribuintes.

Apetece dizer: é preciso ter lata. Primeiro, por que motivo se convocam os jornalistas se não há intenção de os esclarecer? Depois, por que razão hão-de os contribuintes que não arriscaram nos produtos vendidos aos balcões do BES financiar com os seus impostos uma solução que vai beneficiar quem arriscou muitas centenas de milhares de euros? Sentem-se esses “lesados” enganados? É possível, e não duvido que muitos não sabiam o que estavam a comprar. Mas a verdade é que perderam porque arriscaram, e agora será com o nosso dinheiro que vão ser compensados.
Apetece repetir: é preciso ter lata, muita lata. O governo da “sensibilidade social”, a maioria que passa a vida a falar dos pobres, congemina agora uma solução que, até prova em contrário, desviará dinheiro de outras funções essenciais do Estado para recompensar quem tinha poupanças de centenas de milhares de euros. É o Robin dos Bosques ao contrário.

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Mas lata – e esperteza saloia – é coisa que realmente não falta a esta maioria. Um outro exemplo disso é o Ministério da Educação ter colocado em discussão pública um longuíssimo documento de orientações relativas à “educação para a saúde” que, lá pelo meio, prevê que se deva discutir na sala de aula, com crianças de 10 e 11 anos (2º ciclo do Básico) a interrupção voluntária da gravidez. Não vou aqui debater essa proposta (até porque penso que a história que Laurinda Alves contou é bem ilustrativa de onde levam estes activismos “pedagógicos”), apenas a habilidade: o prazo para a discussão do documento termina nesta semana de Natal. Sim, leram bem: acaba nesta semana em que nas escolas não há aulas, os professores estão concentrados nas avaliações e as famílias a prepara a festa de 25 de Dezembro. Se isto não é actuar pela calada, contando com a indiferença geral para introduzir recomendações que podem ferir os princípios morais de boa parte da população, então eu não sei o que é fazê-las à socapa.

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Mais lata ainda é necessária para insistir no discurso de que a anterior legislatura foram anos de absoluta catástrofe quando começam a multiplicar-se os documentos e os estudos, com a chancela de organizações internacionais, de que não foi isso que sucedeu. Ainda esta semana, por exemplo, o Observador revelou a existência de um estudo da OCDE que faz um balanço muito positivo das reformas laborais introduzidas no tempo da troika, considerando que a elas se deve em parte a recuperação do emprego a um ritmo que tem deixado todos surpreendidos. Mais: esse estudo foi entregue há seis meses ao actual Executivo, mas convenientemente esquecido numa gaveta. Agora que a sua existência e conteúdo foram tornados públicos, o Ministério veio falar de uma “versão preliminar” e prometer debater mais tarde as suas conclusões. Mais tarde? Mas mais tarde porquê se é agora que se está a negociar um acordo de concertação social que tudo tem a ver com o objecto daquele estudo? Naturalmente não houve nem haverá resposta, pois o discurso continuará a ser o que tudo o que foi feito entre 2011 e 2015 foram malfeitorias. Mesmo o que funcionou bem.

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A mesma imensa lata marcou a forma como o primeiro-ministro, no debate quinzenal da semana passada, passou ao lado das questões que lhe foram colocadas pela oposição quando esta citou dois estudos internacionais sobre Educação – o PISA, onde os nossos alunos ficaram acima da média da OCDE pela primeira vez, e o TIMSS, onde ultrapassámos a Finlândia a Matemática – que comprovam que, afinal, a escola pública não só não foi destruída, como até foi capaz de ter melhores resultados. Uma lata só ultrapassada pelo desnorte absoluto do Bloco de Esquerda que, depois de ter sugerido que a amostra dos alunos levados a exame fora falsificada – o que obrigou o IAVE a desmentir as suas dirigentes –, conseguiu o prodígio de considerar, pela boca de Catarina Martins, que tudo na Educação ia pior (“os professores tiveram ataques com as carreiras e os salários desde o tempo de Maria de Lurdes Rodrigues até ao tempo de Nuno Crato, mais alunos, mais turmas”) sem compreender que foi exactamente nesse período que os resultados melhoraram. Faz sentido? Não faz. Mas como poucos escrutinam os dislates da doce Catarina, ela pode dar os pontapés na lógica que entender e ainda sair em ombros.

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Por fim, verdadeira cereja em cima deste bolo em que o descaramento não parece ter limites, ouvimos este fim-de-semana António Costa criticar, em Castelo Branco, a “diabolização que se fez do investimento público”, prometendo “recuperar o tempo perdido”. Não sendo eu um defensor do investimento público como um bem em si mesmo, não deixa de ser extraordinário que o primeiro-ministro tenha vindo defender a sua necessidade quando, em 2016, o seu Governo cortou como nenhum outro nesse mesmo investimento público com o único objectivo de atingir o défice prometido sem prejudicar as diferentes clientelas a quem ia “devolvendo rendimentos”. Os números são elucidativos: em 2016 fecharemos o ano com um investimento público correspondente a apenas 1,8% do PIB. Menos do que em qualquer um dos anos da troika. Para terem uma ideia (e peço emprestado um magnifico gráfico a Jorge Costa) tratar-se-á do mais baixo esforço de investimento público em 65 anos. É preciso recuar até 1952, um tempo em que Salazar ainda era e seria o Presidente do Conselho, para encontrarmos um valor mais baixo.

Custa a crer, mas a prova dos números é como a do algodão: não engana. O que nos engana e desarma é a facilidade com que se defende e se diz não importa o quê, fazendo de nós tolos. Mesmo no mundo da pós-verdade é realmente preciso ter uma imensa lata e uma extraordinária cara de pau para achar que tudo se desculpa, nada se pergunta e ainda menos se verifica.

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Não devia ser assim. Mas talvez seja mesmo assim. Ter muita lata parece ter-se tornado na grande qualidade de um político. Na pós-verdade da pós-modernidade a realidade já não é o que é, é a “narrativa” que se criar dela. Até um dia em que tudo se esboroará, dia que só esperamos não surja tarde demais para o país, que já experimentou há bem pouco tempo para onde são capazes de nos levar os malabaristas das “narrativas”.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Caos na Venezuela - Francisco Sarsfield Cabral, Rádio Renascença, 20/12/16

A Venezuela atravessa uma terrível crise económica e social. Tem a mais alta inflação do mundo. No mercado escasseiam bens essenciais. Quem diria que este país possui as maiores reservas petrolíferas mundiais?...


Antes de Chavez, sucessivos governos corruptos impediram que a riqueza do petróleo melhorasse a situação das classes desfavorecidas. Depois Chavez deu dinheiro aos pobres, mas não reduziu a dependência do petróleo. Quando caiu o preço do “crude”, começou a crise económica na Venezuela.
Maduro não tem o carisma do seu antecessor. E toma medidas absurdas.


Por exemplo, julga combater a inflação proibindo os comerciantes de subirem os preços. Resultado: multiplicam-se as falências e alastra o mercado negro. Há dias, anunciou que dentro de 72 horas iria retirar da circulação as notas de 100 bolívares, as mais utilizadas (embora valham pouco mais de 15 cêntimos do dólar). Esta medida, alegadamente contra as “máfias comandadas dos EUA”, gerou o caos e paralisou o comércio.

Maduro adiou a retirada daquelas notas para 2 de Janeiro. Mas a crise da Venezuela está longe de vencida.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sumário: 1. Ditongos; 2. O Aborto - José Diogo Quintela, Correio da Manhã, 17/12/16

Acho estupendo que se comece a leccionar o que é o aborto a crianças do 5º ano. Aliás, acho que se devia leccioná-lo a crianças ainda mais novas. Quanto mais novas, mais fresca a memória do que podia ter sido. O Ministério da Educação tem de adoptar o método que aplico cá em casa e que tão bons resultados tem granjeado. Ainda esta semana foi-me muito útil o facto de a minha filha de 5 anos ser doutoranda em aborto:

- Filha, temos de falar sobre o Nenuco que pediste para o Natal.

- O que foi?

- O Nenuco foi abortado.

- Ah! Foi espontâneo ou desmancho?

- Desmancho. Na ecografia das 8 semanas descobriu-se que era feito de borracha. Tiveram de interromper a gestação.

 - E agora? O que é que eu recebo? Terá sobrado alguma coisa da raspagem?

- Vou ver se é possível entregarem o que ficou do saco de plástico amniótico.

- Ok. Eu percebo, papá. De certeza que foi uma escolha difícil.

Com esta brincadeira já poupei 60 euros. Quem defende o ensino do aborto a criancinhas não é contra a família. Pelo contrário. A nossa família é muito mais unida desde que a minha filha percebeu que tem sorte em estar cá, ao contrário de vários manos zigotos. Quando se queixa que ninguém gosta dela, dizemos: "Se não gostássemos de ti, não tinhas passado de embrião". Faz maravilhas pela sua auto-estima. Cá em casa esta matéria é ministrada com galhofa, através de jogos didáticos que a pequenada aprecia. Por exemplo, se pede banana esmigalhada, dizemos que sim, pode ser, mas só depois de enfiar correctamente um preservativo no fruto. Também inventámos uma lengalenga muito engraçada sobre o abecedário, toda à base de doenças venéreas: ‘F de fungo, causa a candidíase / G de gonorreia, se fores ordinária / H de herpes, comicha mais que psoríase / I é de infecção, infecção urinária’. É um pagode cá em casa. Parecemos a família Von Trapp. Von Trepa, vá.

Não percebo o histerismo à volta disto. É muito simples: se, para não traumatizar as crianças com raciocínios difíceis, na escola lhes ensinam deficientemente a matemática, elas não vão saber fazer os cálculos dos períodos férteis. Logo, têm de aprender o aborto. Ou uma, ou outra.

Além do mais, estas crianças aprenderão o aborto como hipótese meramente académica. Para se fazer um aborto é preciso saber que se está grávida. E, para isso, é preciso fazer um teste. Ora, esta geração de crianças está a ser industriada pelo Ministério da Educação no sentido de nunca mais fazer um teste na vida.

A garotada vai adorar. Principalmente os meninos. Se há coisa que nos tem sido dita nos últimos tempos é que a interrupção voluntária da gravidez é uma decisão das mulheres. Um dia, em caso de aborto, a única responsabilidade que se admite ao rapaz é levar a rapariga ao hospital. Portanto, se calhar é boa ideia ensinar também a conduzir no 5º ano.

POVO QUE ESPERAS O RIO

Rui Rio sugeriu a criação de um novo imposto, todo ele dedicado ao pagamento dos juros da dívida. É uma ideia. Mas Rio não explica o que taxará o novo imposto. Assim é difícil apercebermo-nos das possibilidades. Para mim, o único imposto que conseguirá arrecadar os montantes necessários é um imposto que taxe cada vez que Rui Rio ameaça concorrer a qualquer coisa. Por cada avanço (e posterior recuo), os cofres do Estado recebem dez euros. Em seis meses temos isto pago. Com troco. Rui Rio, o político bungee jumping: lança-se, mas antes que doa é puxado de volta.

A CORNUCÓPIA FECHA NO GOVERNO DAS ESQUERDAS? Ó DIABO!

Segundo as notícias, o Teatro da Cornucópia vai fechar. Só pode ser gralha jornalística. O que as notícias devem querer dizer é: ‘Teatro da Cornucópia vai fechar mais um contrato de subsídio com o Estado, pois temos um Governo das Esquerdas que, ao contrário do anterior, ama a cultura e que não irá perpetuar a austeridade que mata!’ Se calhar, a Cornucópia era a rival da companhia onde Catarina Martins costumava actuar. Só assim se percebe que ainda nenhum bloquista se tenha agrilhoado a uma grade qualquer.

O BLOCO E A FIDELIDADE CANINA

Duas semanas depois de terem louvado com palmas a ditadura de Fidel Castro, os deputados do Bloco de Esquerda repudiaram com palmas a ditadura de José Eduardo dos Santos. Das duas, uma: ou são focas, que batem palmas a tudo; ou este é mais uma partida de ‘O meu ditador é melhor que o teu, nana nana nana!’, um jogo infantil que costumam praticar com nazis. A sorte dos nazis é que não estão representados na AR, de maneira que não fazem figuras destas. Apesar de também estar fora da AR, Francisco Louçã tem-se esforçado em participar na brincadeira. Nos últimos dias dedicou-se a esfregar com pedra-pomes a imagem de Fidel, no blog Tudo Menos Economia, cujo nome completo é Tudo Menos Economia, A Não Ser Que Seja Economia Com A Palavra Ditador, Essa Vou Poupar.
Acho estupendo que se comece a leccionar o que é o aborto a crianças do 5º ano. Aliás, acho que se devia leccioná-lo a crianças ainda mais novas. Quanto mais novas, mais fresca a memória do que podia ter sido. O Ministério da Educação tem de adoptar o método que aplico cá em casa e que tão bons resultados tem granjeado. Ainda esta semana foi-me muito útil o facto de a minha filha de 5 anos ser doutoranda em aborto: - Filha, temos de falar sobre o Nenuco que pediste para o Natal. - O que foi? - O Nenuco foi abortado. - Ah! Foi espontâneo ou desmancho? - Desmancho. Na ecografia das 8 semanas descobriu-se que era feito de borracha. Tiveram de interromper a gestação. - E agora? O que é que eu recebo? Terá sobrado alguma coisa da raspagem? - Vou ver se é possível entregarem o que ficou do saco de plástico amniótico. - Ok. Eu percebo, papá. De certeza que foi uma escolha difícil. Com esta brincadeira já poupei 60 euros. Quem defende o ensino do aborto a criancinhas não é contra a família. Pelo contrário. A nossa família é muito mais unida desde que a minha filha percebeu que tem sorte em estar cá, ao contrário de vários manos zigotos. Quando se queixa que ninguém gosta dela, dizemos: "Se não gostássemos de ti, não tinhas passado de embrião". Faz maravilhas pela sua auto-estima. Cá em casa esta matéria é ministrada com galhofa, através de jogos didáticos que a pequenada aprecia. Por exemplo, se pede banana esmigalhada, dizemos que sim, pode ser, mas só depois de enfiar correctamente um preservativo no fruto. Também inventámos uma lengalenga muito engraçada sobre o abecedário, toda à base de doenças venéreas: ‘F de fungo, causa a candidíase / G de gonorreia, se fores ordinária / H de herpes, comicha mais que psoríase / I é de infecção, infecção urinária’. É um pagode cá em casa. Parecemos a família Von Trapp. Von Trepa, vá. Não percebo o histerismo à volta disto. É muito simples: se, para não traumatizar as crianças com raciocínios difíceis, na escola lhes ensinam deficientemente a matemática, elas não vão saber fazer os cálculos dos períodos férteis. Logo, têm de aprender o aborto. Ou uma, ou outra. Além do mais, estas crianças aprenderão o aborto como hipótese meramente académica. Para se fazer um aborto é preciso saber que se está grávida. E, para isso, é preciso fazer um teste. Ora, esta geração de crianças está a ser industriada pelo Ministério da Educação no sentido de nunca mais fazer um teste na vida. A garotada vai adorar. Principalmente os meninos. Se há coisa que nos tem sido dita nos últimos tempos é que a interrupção voluntária da gravidez é uma decisão das mulheres. Um dia, em caso de aborto, a única responsabilidade que se admite ao rapaz é levar a rapariga ao hospital. Portanto, se calhar é boa ideia ensinar também a conduzir no 5º ano. POVO QUE ESPERAS O RIO Rui Rio sugeriu a criação de um novo imposto, todo ele dedicado ao pagamento dos juros da dívida. É uma ideia. Mas Rio não explica o que taxará o novo imposto. Assim é difícil apercebermo-nos das possibilidades. Para mim, o único imposto que conseguirá arrecadar os montantes necessários é um imposto que taxe cada vez que Rui Rio ameaça concorrer a qualquer coisa. Por cada avanço (e posterior recuo), os cofres do Estado recebem dez euros. Em seis meses temos isto pago. Com troco. Rui Rio, o político bungee jumping: lança-se, mas antes que doa é puxado de volta. A CORNUCÓPIA FECHA NO GOVERNO DAS ESQUERDAS? Ó DIABO! Segundo as notícias, o Teatro da Cornucópia vai fechar. Só pode ser gralha jornalística. O que as notícias devem querer dizer é: ‘Teatro da Cornucópia vai fechar mais um contrato de subsídio com o Estado, pois temos um Governo das Esquerdas que, ao contrário do anterior, ama a cultura e que não irá perpetuar a austeridade que mata!’ Se calhar, a Cornucópia era a rival da companhia onde Catarina Martins costumava actuar. Só assim se percebe que ainda nenhum bloquista se tenha agrilhoado a uma grade qualquer. O BLOCO E A FIDELIDADE CANINA Duas semanas depois de terem louvado com palmas a ditadura de Fidel Castro, os deputados do Bloco de Esquerda repudiaram com palmas a ditadura de José Eduardo dos Santos. Das duas, uma: ou são focas, que batem palmas a tudo; ou este é mais uma partida de ‘O meu ditador é melhor que o teu, nana nana nana!’, um jogo infantil que costumam praticar com nazis. A sorte dos nazis é que não estão representados na AR, de maneira que não fazem figuras destas. Apesar de também estar fora da AR, Francisco Louçã tem-se esforçado em participar na brincadeira. Nos últimos dias dedicou-se a esfregar com pedra-pomes a imagem de Fidel, no blog Tudo Menos Economia, cujo nome completo é Tudo Menos Economia, A Não Ser Que Seja Economia Com A Palavra Ditador, Essa Vou Poupar.

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/jose-diogo-quintela/detalhe/sumario-1-ditongos-2-o-aborto?ref=colunistas_outros
0 97 Por José Diogo Quintela|17.12.16 partilhe 97 0 Acho estupendo que se comece a leccionar o que é o aborto a crianças do 5º ano. Aliás, acho que se devia leccioná-lo a crianças ainda mais novas. Quanto mais novas, mais fresca a memória do que podia ter sido. O Ministério da Educação tem de adoptar o método que aplico cá em casa e que tão bons resultados tem granjeado. Ainda esta semana foi-me muito útil o facto de a minha filha de 5 anos ser doutoranda em aborto: - Filha, temos de falar sobre o Nenuco que pediste para o Natal. - O que foi? - O Nenuco foi abortado. - Ah! Foi espontâneo ou desmancho? - Desmancho. Na ecografia das 8 semanas descobriu-se que era feito de borracha. Tiveram de interromper a gestação. - E agora? O que é que eu recebo? Terá sobrado alguma coisa da raspagem? - Vou ver se é possível entregarem o que ficou do saco de plástico amniótico. - Ok. Eu percebo, papá. De certeza que foi uma escolha difícil. Com esta brincadeira já poupei 60 euros. Quem defende o ensino do aborto a criancinhas não é contra a família. Pelo contrário. A nossa família é muito mais unida desde que a minha filha percebeu que tem sorte em estar cá, ao contrário de vários manos zigotos. Quando se queixa que ninguém gosta dela, dizemos: "Se não gostássemos de ti, não tinhas passado de embrião". Faz maravilhas pela sua auto-estima. Cá em casa esta matéria é ministrada com galhofa, através de jogos didáticos que a pequenada aprecia. Por exemplo, se pede banana esmigalhada, dizemos que sim, pode ser, mas só depois de enfiar correctamente um preservativo no fruto. Também inventámos uma lengalenga muito engraçada sobre o abecedário, toda à base de doenças venéreas: ‘F de fungo, causa a candidíase / G de gonorreia, se fores ordinária / H de herpes, comicha mais que psoríase / I é de infecção, infecção urinária’. É um pagode cá em casa. Parecemos a família Von Trapp. Von Trepa, vá. Não percebo o histerismo à volta disto. É muito simples: se, para não traumatizar as crianças com raciocínios difíceis, na escola lhes ensinam deficientemente a matemática, elas não vão saber fazer os cálculos dos períodos férteis. Logo, têm de aprender o aborto. Ou uma, ou outra. Além do mais, estas crianças aprenderão o aborto como hipótese meramente académica. Para se fazer um aborto é preciso saber que se está grávida. E, para isso, é preciso fazer um teste. Ora, esta geração de crianças está a ser industriada pelo Ministério da Educação no sentido de nunca mais fazer um teste na vida. A garotada vai adorar. Principalmente os meninos. Se há coisa que nos tem sido dita nos últimos tempos é que a interrupção voluntária da gravidez é uma decisão das mulheres. Um dia, em caso de aborto, a única responsabilidade que se admite ao rapaz é levar a rapariga ao hospital. Portanto, se calhar é boa ideia ensinar também a conduzir no 5º ano. POVO QUE ESPERAS O RIO Rui Rio sugeriu a criação de um novo imposto, todo ele dedicado ao pagamento dos juros da dívida. É uma ideia. Mas Rio não explica o que taxará o novo imposto. Assim é difícil apercebermo-nos das possibilidades. Para mim, o único imposto que conseguirá arrecadar os montantes necessários é um imposto que taxe cada vez que Rui Rio ameaça concorrer a qualquer coisa. Por cada avanço (e posterior recuo), os cofres do Estado recebem dez euros. Em seis meses temos isto pago. Com troco. Rui Rio, o político bungee jumping: lança-se, mas antes que doa é puxado de volta. A CORNUCÓPIA FECHA NO GOVERNO DAS ESQUERDAS? Ó DIABO! Segundo as notícias, o Teatro da Cornucópia vai fechar. Só pode ser gralha jornalística. O que as notícias devem querer dizer é: ‘Teatro da Cornucópia vai fechar mais um contrato de subsídio com o Estado, pois temos um Governo das Esquerdas que, ao contrário do anterior, ama a cultura e que não irá perpetuar a austeridade que mata!’ Se calhar, a Cornucópia era a rival da companhia onde Catarina Martins costumava actuar. Só assim se percebe que ainda nenhum bloquista se tenha agrilhoado a uma grade qualquer. O BLOCO E A FIDELIDADE CANINA Duas semanas depois de terem louvado com palmas a ditadura de Fidel Castro, os deputados do Bloco de Esquerda repudiaram com palmas a ditadura de José Eduardo dos Santos. Das duas, uma: ou são focas, que batem palmas a tudo; ou este é mais uma partida de ‘O meu ditador é melhor que o teu, nana nana nana!’, um jogo infantil que costumam praticar com nazis. A sorte dos nazis é que não estão representados na AR, de maneira que não fazem figuras destas. Apesar de também estar fora da AR, Francisco Louçã tem-se esforçado em participar na brincadeira. Nos últimos dias dedicou-se a esfregar com pedra-pomes a imagem de Fidel, no blog Tudo Menos Economia, cujo nome completo é Tudo Menos Economia, A Não Ser Que Seja Economia Com A Palavra Ditador, Essa Vou Poupar.

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0 97 Por José Diogo Quintela|17.12.16 partilhe 97 0 Acho estupendo que se comece a leccionar o que é o aborto a crianças do 5º ano. Aliás, acho que se devia leccioná-lo a crianças ainda mais novas. Quanto mais novas, mais fresca a memória do que podia ter sido. O Ministério da Educação tem de adoptar o método que aplico cá em casa e que tão bons resultados tem granjeado. Ainda esta semana foi-me muito útil o facto de a minha filha de 5 anos ser doutoranda em aborto: - Filha, temos de falar sobre o Nenuco que pediste para o Natal. - O que foi? - O Nenuco foi abortado. - Ah! Foi espontâneo ou desmancho? - Desmancho. Na ecografia das 8 semanas descobriu-se que era feito de borracha. Tiveram de interromper a gestação. - E agora? O que é que eu recebo? Terá sobrado alguma coisa da raspagem? - Vou ver se é possível entregarem o que ficou do saco de plástico amniótico. - Ok. Eu percebo, papá. De certeza que foi uma escolha difícil. Com esta brincadeira já poupei 60 euros. Quem defende o ensino do aborto a criancinhas não é contra a família. Pelo contrário. A nossa família é muito mais unida desde que a minha filha percebeu que tem sorte em estar cá, ao contrário de vários manos zigotos. Quando se queixa que ninguém gosta dela, dizemos: "Se não gostássemos de ti, não tinhas passado de embrião". Faz maravilhas pela sua auto-estima. Cá em casa esta matéria é ministrada com galhofa, através de jogos didáticos que a pequenada aprecia. Por exemplo, se pede banana esmigalhada, dizemos que sim, pode ser, mas só depois de enfiar correctamente um preservativo no fruto. Também inventámos uma lengalenga muito engraçada sobre o abecedário, toda à base de doenças venéreas: ‘F de fungo, causa a candidíase / G de gonorreia, se fores ordinária / H de herpes, comicha mais que psoríase / I é de infecção, infecção urinária’. É um pagode cá em casa. Parecemos a família Von Trapp. Von Trepa, vá. Não percebo o histerismo à volta disto. É muito simples: se, para não traumatizar as crianças com raciocínios difíceis, na escola lhes ensinam deficientemente a matemática, elas não vão saber fazer os cálculos dos períodos férteis. Logo, têm de aprender o aborto. Ou uma, ou outra. Além do mais, estas crianças aprenderão o aborto como hipótese meramente académica. Para se fazer um aborto é preciso saber que se está grávida. E, para isso, é preciso fazer um teste. Ora, esta geração de crianças está a ser industriada pelo Ministério da Educação no sentido de nunca mais fazer um teste na vida. A garotada vai adorar. Principalmente os meninos. Se há coisa que nos tem sido dita nos últimos tempos é que a interrupção voluntária da gravidez é uma decisão das mulheres. Um dia, em caso de aborto, a única responsabilidade que se admite ao rapaz é levar a rapariga ao hospital. Portanto, se calhar é boa ideia ensinar também a conduzir no 5º ano. POVO QUE ESPERAS O RIO Rui Rio sugeriu a criação de um novo imposto, todo ele dedicado ao pagamento dos juros da dívida. É uma ideia. Mas Rio não explica o que taxará o novo imposto. Assim é difícil apercebermo-nos das possibilidades. Para mim, o único imposto que conseguirá arrecadar os montantes necessários é um imposto que taxe cada vez que Rui Rio ameaça concorrer a qualquer coisa. Por cada avanço (e posterior recuo), os cofres do Estado recebem dez euros. Em seis meses temos isto pago. Com troco. Rui Rio, o político bungee jumping: lança-se, mas antes que doa é puxado de volta. A CORNUCÓPIA FECHA NO GOVERNO DAS ESQUERDAS? Ó DIABO! Segundo as notícias, o Teatro da Cornucópia vai fechar. Só pode ser gralha jornalística. O que as notícias devem querer dizer é: ‘Teatro da Cornucópia vai fechar mais um contrato de subsídio com o Estado, pois temos um Governo das Esquerdas que, ao contrário do anterior, ama a cultura e que não irá perpetuar a austeridade que mata!’ Se calhar, a Cornucópia era a rival da companhia onde Catarina Martins costumava actuar. Só assim se percebe que ainda nenhum bloquista se tenha agrilhoado a uma grade qualquer. O BLOCO E A FIDELIDADE CANINA Duas semanas depois de terem louvado com palmas a ditadura de Fidel Castro, os deputados do Bloco de Esquerda repudiaram com palmas a ditadura de José Eduardo dos Santos. Das duas, uma: ou são focas, que batem palmas a tudo; ou este é mais uma partida de ‘O meu ditador é melhor que o teu, nana nana nana!’, um jogo infantil que costumam praticar com nazis. A sorte dos nazis é que não estão representados na AR, de maneira que não fazem figuras destas. Apesar de também estar fora da AR, Francisco Louçã tem-se esforçado em participar na brincadeira. Nos últimos dias dedicou-se a esfregar com pedra-pomes a imagem de Fidel, no blog Tudo Menos Economia, cujo nome completo é Tudo Menos Economia, A Não Ser Que Seja Economia Com A Palavra Ditador, Essa Vou Poupar.

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A grande vitória de Assad - António Ribeiro Ferreira, i, 15/12/16

Cinco anos, 400 mil mortos e um milhão de refugiados depois, o regime de Damasco está prestes a reconquistar a cidade de Alepo, a segunda maior do país, uma vitória que pode ditar a curto prazo a derrota dos diferentes grupos terroristas que se instalaram na Síria depois das miseráveis Primaveras Árabes de 2011, apoiadas e financiadas de forma criminosa e irresponsável pelos Estados Unidos de Obama, pela França de Sarkozy e Hollande, pela Alemanha de Angela Merkel e pela Turquia de Erdogan, que também levaram o caos e a morte ao Egito, à Líbia e à Tunísia.
 
O chamado mundo ocidental e civilizado levou a barbárie para um país que já tinha combatido e vencido os terroristas da Irmandade Muçulmana nos anos 80. Com o falso argumento do combate à ditadura de Assad e de apoio a grupos amantes da liberdade e da democracia. Como se o Estado Islâmico e uma filial da Al-Qaeda fossem amantes da liberdade e da democracia. 

O verdadeiro objetivo era derrubar um regime que tem na Rússia o seu grande aliado. O verdadeiro objetivo era afastar Moscovo do Médio Oriente e do mar Mediterrâneo. Afinal, as contas saíram furadas.
 
Assad e as suas forças resistiram ao assalto ocidental e terrorista, com o apoio firme da Rússia de Putin e dos seus aliados xiitas do Irão e do Líbano. Mas a falta de vergonha dos líderes ocidentais é tal que andam pela comunicação social a chorar baba e ranho pelos terroristas que ainda estão em Alepo e pelos civis que, nestes anos de guerra civil, serviram de escudos humanos dos bandidos armados. 

Os planos saíram furados: o regime sírio pode recuperar o território perdido e, com a ajuda dos curdos, alcançar finalmente a paz e a estabilidade, embora o vizinho turco do otomano Erdogan, aliado na NATO de Obama e companhia, tenha de ser posto na ordem por Vladimir Putin. 

A criminosa aventura ocidental na Síria é a grande responsável pela vaga de refugiados que inundou a Europa e está a servir às mil maravilhas aos partidos nacionalistas para correrem do poder com os chamados políticos do sistema. Políticos do sistema que continuam a ser carinhosamente levados ao colo pelos jornalistas amigos e lacaios do sistema e do politicamente correto, que também andam por estes dias a chorar baba e ranho pelos terroristas amigos.
 
O futuro da Síria é de esperança e, com a chegada ao poder de Trump nos EUA, acaba definitivamente a aventura criminosa de Obama no Médio Oriente. O pragmatismo do presidente eleito norte-americano vai ser fundamental na normalização das relações com a Rússia, no fim da escalada militar da NATO na Europa de leste e na redução das tensões e conflitos no Médio Oriente. Mais ainda: Donald Trump, que está a constituir um gabinete notável, com personalidades fortes nas áreas fundamentais da governação, como é o caso da Defesa, vai ser, de facto, um grande aliado de Israel, ao contrário de Obama, que sempre hostilizou o Estado judeu. 

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, poucos dias depois da eleição de Trump, foi muito claro: “Trump vai ser um grande amigo de Israel.” É por isso que a grande vitória de Trump nos EUA vai ser determinante para a redução dos conflitos no mundo e vai ser decisiva para a paz. Ao contrário de Obama, que recebeu o Nobel da Paz sabe-se bem porquê e que só trouxe morte e sofrimento ao mundo. 

Adivinham-se, por isso, tempos novos, bons tempos não só para os americanos como para o mundo em geral. Para grande desgosto dos líderes ocidentais amigos do terrorismo e dos seus lacaios jornalistas. Os ventos estão, de facto, a mudar, e a esperada ventania vai, por certo, limpar a terra de muito lixo e de muita poluição política.
 
Poluição a sério. Poluição real, palpável e que se mede em guerras, mortos, feridos e refugiados. Poluição real que levou a União Europeia e a Zona Euro a um beco sem saída, com economias rastejantes, dívidas públicas galopantes e crise sociais que os governos são incapazes de resolver, atados de pés e mãos, com medo de porem o dedo nas feridas, como é o caso gritante da emigração muçulmana, que transformou aldeias, vilas e cidades europeias em zonas interditas aos europeus e à sua cultura cristã. 

Poluição real que levou a maioria dos britânicos a votar a favor do Brexit. Poluição real que levou os italianos a correrem com Renzi do poder no referendo constitucional. Poluição a sério que pode varrer do mapa outras caras do sistema em 2017, seja na Holanda, na Áustria, na França ou mesmo na Alemanha de Merkel, a senhora que agora é apontada, de forma ridícula, pelos suspeitos do costume como a guardiã da liberdade, da democracia e dos valores ocidentais, que os políticos de cá e de lá do Atlântico dizem estar ameaçados com a vitória de Trump. Pobre mundo que esteve e ainda está entregue a esta gentinha.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Jornalista Eva Bartlett sobre a Síria


Recordações da Síria... ou de como os milagres humanos regressam sempre - Luís Raposo, DN, 13/12/16

Há dias, em debate durante a conferência anual do ICOM Europa, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, Guilherme d"Oliveira Martins, coordenador do grupo que preparou a chamada Convenção de Faro, o mais recente instrumento jurídico do Conselho da Europa para questões patrimoniais, invocava o caso de Palmira para afirmar que falta ainda fazer muito para que os crimes contra o património comum da humanidade sejam de facto prevenidos e, onde ocorram, sejam exemplarmente punidos. Perguntado sobre o que fazer em concreto, reconhecia a incapacidade de resposta, que era também a de todos os presentes.

Ainda assim, o ICOM tem feito o que uma ONG do seu âmbito pode fazer. Dois exemplos apenas: produziu até agora dezena e meia de "Listas Vermelhas" do património em perigo (do Afeganistão ao Camboja, da Colômbia à China, do Mali ao Egito... duas já sobre o Iraque e uma sobre a Síria), as quais permitiram já salvar milhares de peças, nomeadamente provenientes das redes de comércio ilegal de antiguidades, algumas com origem no Daesh; e através do seu Comité Internacional do Escudo Azul tem prestado a assistência possível aos países afetados, inclusive em cenários de guerra, como sucede atualmente em Palmira.

As situações síria e iraquiana, somadas aos antecedentes dos budas afegãos, são porventura exemplos extremos e cruéis de desamparo. Na Síria, em especial, os últimos anos foram dramáticos: estima-se em dois mil milhões de dólares o valor obtido com o tráfico de antiguidades dali provenientes, constituindo a segunda (a seguir ao petróleo) ou até a primeira fonte de financiamento do Daesh; cinco dos seis monumentos do património mundial daquele país foram severamente afetados, mesmo destruídos (o sexto, a cidade antiga de Damasco, também sofreu graves danos).

Toca-nos imensamente este caso, porque pudemos visitar muitos dos locais que agora enchem noticiários. Fizemo-lo no âmbito das atividades do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia e dessa viagem irá em janeiro próximo ser lançado um livro (Síria, do Mediterrâneo ao Eufrates). Nele damos o nosso testemunho, debaixo da evocação de Claude Lévi-Strauss, quando assinala que "o que espanta o homem no espetáculo dos outros homens são os pontos pelos quais se parecem consigo". Recordamos por isso a imponente cidadela fortificada e o buliçoso bazar de Aleppo, ambos agora tristes e esventrados na sua essência. Revivemos o oásis de Palmira, com o seu vale do Silêncio, onde hoje se chora, em ruidoso pranto. Rememoramos as cidades de diferentes épocas que salpicam o vale do Eufrates, desde Sergiopolis, Zenobia ou Dura Europos até Mari. Evocamos a longa duração mediterrânica em Ugarit ou até no Krak dos Cavaleiros, onde nem cruzados nem Saladino lograram produzir os desmandos que presentemente nos entram olhos dentro. Lembramos o carácter telúrico de Bosra, fantasmática como se diria não voltar a poder ser... E tudo isto cria em nós uma proximidade feita de gente humilde e generosa, que nos convida para casa e nos ensina como as nossas "grandes verdades" - a democracia, a liberdade... -, por mais verdadeiras que sejam, não chegam para dissimular os nossos egoísmos para com os outros, ou para connosco mesmos, a começar pelas nossas crianças, que minguam a olhos vistos quando, no dizer de um pobre, porém sábio, com quem nos cruzámos em Aleppo, elas são a maior alegria da vida.

A Síria que nos foi dado ver nessa altura era uma espécie de milagre. Um milagre laico. Um milagre onde os deuses inventados por gerações sucessivas de homens se entreolhavam tolerantemente. Quando "vemos, ouvimos e lemos", "não podendo ignorar" que os locais pacíficos e conviviais do passado, onde em Maaloula e tantas outras aldeias um só olhar podia alcançar crescentes e cruzes, ou até mesmo estrelas sinagogais, deram lugar a uma espécie de inferno. E tudo nos impele a dizer que o dito milagre morreu, no que nos sentimos sumamente envergonhados e profundamente revoltados. Mas terá morrido mesmo? Pergunta-se a UNESCO, e recomenda-nos que nos perguntemos também, porque nos interessamos por pedras antigas quando tantas vidas se perdem. E a resposta é que os milagres humanos ressurgem, sempre e sempre. "Um dia o conflito acabará, um dia haverá pessoas que regressam a suas casas, a vida sossegada será refeita... e nessa altura o património ancestral será a memória identitária que dará sentido à vida." Ámen.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Regresso a Fidel, à boleia de Louçã - João Miguel Tavares, Publico, 13/!2/16

Não tinha qualquer intenção de regressar a este tema, mas Francisco Louçã foi mais forte do que eu. Num texto lastimável – Fidel e a encazinação da direita –, ele veio afirmar, cheio de subtilezas e cavilações, que “só um sonso compara Fidel a Pinochet”, convidando-nos “a analisar quem foi” tão grande homem e a “discutir a história de Cuba”, como se análises, discussões e subtilezas não pudessem ser aplicadas a qualquer ditador, tirando, vá lá, Adolf Hitler e Pol Pot. O argumento daqueles que, como eu, fizeram questão de sublinhar que Cuba é uma ditadura não tem nada a ver com as análises históricas que possam ser feitas à figura de Fidel Castro, nem com a complexidade da sua persona. Tem a ver, isso sim, com a necessidade de traçar uma linha clara entre ditadura e democracia, e de afirmar a superioridade política, moral e humana da segunda em relação à primeira.

Não o fazer na hora da morte de Fidel Castro – como Louçã não fez num primeiro texto e continuou sem fazer no segundo – é um escândalo, uma vergonha e uma indecência para qualquer democrata. Como seria um escândalo, uma vergonha e uma indecência não o afirmar na morte de Salazar ou de Pinochet. Não há esquerda nem direita no que diz respeito a ditaduras. É por isso que uma ditadura é uma ditadura é uma ditadura. Para um verdadeiro democrata, esquerda e direita são divisões políticas posteriores a uma base de entendimento comum composta por eleições livres, separação de poderes, liberdade de expressão, primado da lei, respeito pela propriedade privada e pela livre iniciativa. Certamente por ingenuidade minha, a morte de Fidel mostrou-me um Portugal que já não pensei que existisse em 2016. Tenho perfeita consciência de que nenhum membro do PCP algum dia chamaria ditador a Fidel. Mas ver o Bloco de Esquerda e seus apoiantes a fugir a sete pés de tal palavra foi uma genuína surpresa. E a tentativa de instaurar um campeonato de ditadores de esquerda contra ditadores de direita foi um espectáculo indecoroso, a que dispensava ter assistido.

Se calhar é preciso dizer o óbvio, para ver se Louçã & Companhia compreendem de uma vez por todas. Aqui vai: eu preferia mil vezes viver num regime democrático liderado por Catarina Martins, com Mariana Mortágua como ministra das Finanças e Francisco Louçã como Presidente da República (cruz credo), do que viver num regime autocrático em que todas as medidas económicas e sociais nas quais acredito fossem rigorosamente aplicadas. Seriam quatro anos de pesadelo, mas uma verdadeira democracia tem a inestimável possibilidade de remover os pesadelos de quatro em quatro anos, e possui um sistema de pesos e contrapesos que limita o poder aos mais desgraçados governantes. Desde que o sistema funcione, um democrata e uma democracia aguentam tudo, de Francisco Louçã a Donald Trump. Contudo, quando deixa de funcionar, são os pilares básicos do nosso modo de vida que ficam em causa. Essa é, aliás, a razão porque escrevi obsessivamente sobre José Sócrates ao longo dos anos e nunca me cansei de alertar para os seus ataques recorrentes às bases do sistema democrático. Uma coisa são discordâncias acerca das políticas do regime. Outra, muito diferente, são discordâncias acerca do regime político. Acima da esquerda e da direita está a democracia. Eu discordo em tudo de António Costa – menos no essencial. Até há pouco, pensava que poderia dizer o mesmo de Francisco Louçã. Pelos vistos, enganei-me.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A transição Trump - Jaime Nogueira Pinto, DN, 12/12/16

Se o tempo da transição Reagan, há 36 anos, era de euforia conservadora, o que agora se vive é mais cauteloso, já que muitos republicanos ainda não acertaram agulhas com Donald Trump.
Há de tudo: há os Never Trump ontem e sempre; há os que não gostam mas, por lealdade partidária e Never Hillary, o apoiaram e vão apoiando; e há os da primeira hora, que agora estão a selecionar os cerca de quatro ou cinco mil novos membros da média-alta administração.

A eleição deste bilionário exótico, senhor de hotéis, golfes e casinos, deste outsider total, aberrante tanto para os padrões clássicos de "conservador" como para os de "progressista", é coisa rara. Bem mais rara do que a eleição de "uma mulher". Trump tinha contra ele quase tudo o que contava: os media mais prestigiados, os nomes sonantes das Letras e das Artes, o Dinheiro Velho, parte das elites do seu próprio partido. E quem vence assim merece alguma atenção, além da arrogância furibunda dos comentadores e do desdém das "elites".

Até agora, as nomeações têm sido uma mistura. Dos fiéis que acompanharam Trump desde o início, estão Steve Bannon, o controverso chief strategist, o senador Jeff Sessions, novo procurador-geral, e o general Flynn que é agora conselheiro nacional de Segurança. Há depois os profissionais prestigiados, como o secretário da Defesa, o general Joe Mattis, Mad Dog Mattis, a secretária dos Transportes, Elaine Chao, ou Tom Price, secretário da Saúde e Serviços Sociais. Mas Trump também foi buscar colaboradores que apoiaram os seus rivais: Nikki Haley, a nova embaixadora nas Nações Unidas, apoiou Rubio e depois Ted Cruz; Mike Pompeo, o novo diretor da CIA, também apoiou Rubio e o Dr. Carson, o afro-americano que ficou com a Habitação e o Urbanismo, bateu-se contra ele.

Para as pastas económicas, Trump convidou homens ricos, como Steven Mnuchin, o novo secretário do Tesouro, e Pick Wilbur Ross, secretário do Comércio; e a nova secretária da Educação, Betsy DeVos, é irmã de Eric Prince (o da Blackwater). Veremos o que estes membros do clube do 1% mais rico fazem pelas classes médias descontentes...

A escolha que falta e que é para nós muito importante é a de secretário de Estado. Têm surgido muitos nomes: Rudy Giulliani, o senador Bob Cocker (Tennessee), o general Petraeus, Mitt Romney, o patrão da Exxon-Mobil, Rex Tillerson, e o embaixador Khalizad, um muçulmano americano.
Um ponto preocupante é o tom anti-islão de alguns dos escolhidos para os cargos da Segurança Nacional. Para analistas conservadores como Paul Pillar do National Interest serão demasiado "ideológicos" para lidar bem com o Irão ou a estratégia antijihadista. Fazer desta uma "guerra de religião" seria um pesadelo para o mundo e para os Estados Unidos.

A polémica entre "realistas" e "ideólogos", que pensávamos acabada com a autodefenestração dos neoconservadores que não param de invetivar Trump, parece continuar de pé. Por um lado, Trump garante uma política de realismo sem missionarismos ideológicos, dirigida contra o inimigo principal, o jihadismo terrorista. Por outro, alguns dos seus colaboradores nas áreas internacionais parecem alinhados ideologicamente nalguns dos pontos da política externa.

Assim sendo, o nome do secretário de Estado assume a maior importância, na medida em que vai ser ele o rosto visível e o braço ordenador da política externa da América. Um presidente menos político, como Eisenhower, entregou a política externa a John Foster Dulles que, com o irmão Allen à frente da CIA, marcou a política norte-americana da primeira guerra fria.

Alguns talvez se lembrem ou saibam que foram os irmãos Dulles, com a Operação Ajax, que derrubaram, no mesmo Irão, o primeiro-ministro Mossadegh, acusando-o de ser um ponta-de-lança do comunismo. Que talvez não fosse.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

As oposições entre 2011 e 2015 mentiram - Rui Ramos, Observador, 9/12/16

Esta foi a semana em que o governo, com o respaldo da sua maioria, confiou a Caixa Geral de Depósitos ao homem que, durante quatro anos, acusou de ter destruído o Serviço Nacional de Saúde. Entre 2011 e 2015, segundo o PS, o PCP e o BE, Macedo teria ardido em ódio ideológico a tudo o que é público. Eis, porém, que lhe entregam agora o banco do Estado. Quem mudou?

Esta semana foi também aquela em que pudemos fazer o balanço de outra obra de destruição: a de Nuno Crato no Ministério da Educação. Segundo as oposições de 2011-2015, Crato dedicara-se ao arrasamento implacável da “escola pública”, com o objectivo de desqualificar os portugueses. Se esse era o objectivo, como compreender que no fim do mandato de Crato os alunos portugueses tivessem atingido os mais altos níveis de competência em literacia e matemática? Do mesmo modo, como é que a esperança média de vida aumentou em Portugal enquanto Macedo demolia o SNS? E não, estes sucessos não foram gerais: nestes mesmos anos, a esperança de vida declinou nos EUA, sob o anti-austeritário Obama, e os resultados em matemática caíam em França, sob o não menos anti-austeritário Hollande.

Esta foi ainda a semana em que a Dra. Teodora Cardoso explicou mais uma vez que nada de estrutural mudou no Estado, para além do corte temporário dos salários mais altos, agora revertido. O que significa que o governo de 2011-2015 fez menos do que devia, mas também que as oposições de então mentiram com o seu alarido sobre a destruição do Estado. Aliás, façamos este exercício: admitamos que Passos Coelho destruiu o Estado Social. Que fez o actual governo para o reconstruir? Aumentou salários. É essa a diferença entre o Estado social destruído e o Estado social reconstruído? Ou, para o actual governo e a sua maioria, o que lhes interessa no Estado não são os serviços que presta ou garante, mas apenas o voto dos seus funcionários?

A propriedade das actuais esquerdas em relação ao Estado social é um dos maiores embustes dos últimos anos. O Estado social em Portugal foi obra de vários regimes, da República, que pouco fez mas teve projectos, até à ditadura salazarista, que inventou a expressão “Estado social” no tempo de Marcelo Caetano. O verdadeiro e efectivo pai do SNS é, aliás, Baltasar Rebelo de Sousa, como o presidente da república notou na biografia do pai. Todos os regimes quiseram um Estado integrador, até pelo controle político do país. A sua realização não dependeu de ideias, mas de recursos, que faltavam na década de 1920 mas aumentaram a partir de 1950, com o crescimento económico. Aquilo que em Portugal pode destruir o Estado social não é o neo-liberalismo, mas a estagnação, por falta de reformas, ou a bancarrota, pela má governação.

Depois de 1974, todos os partidos promoveram o Estado social, com destaque, aliás, para o PSD, no governo entre 1980 e 1995. Em 2002, algo mudou. O PSD e o CDS passaram a governar em Portugal só quando é preciso fazer ajustamentos, como em 2002-2005 e em 2011-2015. O PS aproveitou para adoptar a velha rotina comunista, em cartaz desde o VI Governo Provisório de 1975, de acusar os governos de “destruir” os serviços públicos. Foi esse coro que ouvimos às oposições durante o ajustamento da “troika”. Não era exagero, era mesmo mentira, e nem entusiasmou demasiado o eleitorado. Mas ainda serviu, após as eleições, para justificar a aliança parlamentar com que os derrotados assaltaram o governo. De facto, há uma coisa que o actual governo e a sua maioria já destruíram em Portugal: o debate político sério. Começaram com uma mentira, só com mais mentiras podem continuar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Ministério da Educação: Sexo, Manuais e Doutrinação!





Nas últimas semanas saíram duas noticias, aparentemente sem nada em comum, sobre a educação em Portugal.

No dia 22 de Novembro o DN anunciava que, na opinião de vários especialistas, não era ilegal negar manuais escolares gratuitos aos alunos das escolas privadas.

Já no dia 4 de Dezembro, o mesmo jornal, produziu uma reportagem sobre  o Referencial de Educação para saúde que permite, entre outras coisas, educação sexual no pré-escolar, carregada de ideologia do género, e introdução ao tema do aborto no 5º ano de escolaridade.

Estas duas notícias são claros exemplos daquele que é o maior problema do país: a Educação.

Portugal vive numa ficção, que este governo alimenta e acicata, que a Escola se divide entre pública e privada. De um lado a escola pública, paga pelo Estado, democrática, para todos, do outro a escola privada, elitista, para os ricos snobs.

Por isso, para muitos portugueses, é da mais elementar justiça que só os filhos dos que andam na escola pública tenham direito a livros grátis, porque os das escolas privadas recusam esse dever de cidadania que é frequentar a escola que  Estado manda.

Ora, a divisão entre escola pública e privada é falsa. Uma escola que seja propriedade privada pode prestar (e muitas vezes presta) serviço público. Qualquer escola que eduque uma criança presta um serviço público. O facto de o serviço ser feito por privados não o torna menos público. Os correios são um serviço público e contudo é detido por privados. A mesma coisa com a electricidade, ou com os transportes públicos (com algumas excepções).

Educar é um serviço público, mesmo que seja prestado apenas para ganhar dinheiro. Por isso a divisão é entre escolas do Estado e escolas privadas, pois quer uma quer outra praticam um serviço público. 

Os anos têm demonstrado que não só os resultados dos privados são melhores, como o custo por aluno é mais reduzido. Se é mais barato e mais eficiente, porque razão este Governo tem travado um tão grande guerra contra os privados terem uma maior participação na Educação?

Evidentemente que existem várias razões. Algumas de ordem técnica, como por exemplo como garantir que os privados que detêm uma escola não vão proibir a matricula de alunos com maus resultados escolares ou como evitar que cobrem propina para além daquilo que o Estado paga. Outras razões são meramente políticas: o monopólio da educação pelo Estado garante mais emprego para os professores.

Mas a grande razão não é nenhumas das acima descritas. A verdadeira razão é que a escola estatal não serve para ensinar as crianças a ler e escrever, parafraseando Clemenceau, mas para formar bons republicanos.

O Estado não abdica do monopólio da educação, não para o bem das crianças, não porque este seja o sistema mais eficaz para garantir uma educação melhor para todos, mas porque não abdica de doutrinar as crianças.

E isto torna-se evidente na segunda notícia de que falei. Só num país onde a educação escolar é monopólio do Estado, onde os pais não são tidos nem achados, onde os programas são decididos numa qualquer capelinha da 5 de Outubro é que seria possível um programa de educação sexual que impõe a crianças pequenas assuntos como a ideologia de género e o aborto.

É evidente que as proposta para o Referencial de Educação para a saúde não tem por fim a educação escolar das crianças, mas sim a sua doutrinação nas teorias dos autores da proposta sobre a sexualidade. Não existe nenhum objectivo educativo, apenas a mais pura doutrinação.

Há anos que em Portugal temos assistido a um avançar, aparentemente implacável, das chamadas medidas fracturantes. E em cada uma delas os católicos, e não só, tem lutado bravamente e sido derrotados. E continuaremos a ser, porque vamos para a batalha tarde demais. Quando lá chegamos já estamos em total desvantagem.

Porque a grande batalha é a batalha da educação. É a batalha pela liberdade dos pais poderem educar os seus filhos como lhe parece melhor e não segundo a vontade dos mandarins do Ministério da Educação.

Enquanto não fizermos da Educação, e sobretudo da liberdade de educar, uma das nossas prioridade políticas, continuaremos a tentar apanhar chuva com baldes, em vez de arranjarmos o telhado! Inevitavelmente a casa inunda!

Melhorámos! Podemos ainda melhorar! - Nuno Crato, DN, 7/12/2016

Nestes últimos dias recebemos excelentes notícias sobre educação. No estudo TIMSS, os alunos portugueses do 4.º ano de escolaridade conseguiram uma pontuação superior aos da mítica Finlândia. No estudo PISA, os estudantes portugueses com 15 anos (10.º ano e adjacentes) conseguiram os melhores resultados de sempre, ficando pela primeira vez acima da média da OCDE.

Quem está de parabéns são, em primeiro lugar, os professores e os alunos portugueses. Foram eles que conseguiram, num trabalho diário e continuado, dia após dia, ano após ano, atingir este novo patamar.

Mas houve políticas educativas que o permitiram e incentivaram. Essencialmente, o sistema educativo passou a dar mais atenção aos resultados escolares. Ao longo dos últimos 20 anos foram introduzidas avaliações e programas. Foram organizados os exames do final do secundário (Ferreira Leite e Marçal Grilo), foram iniciados exames no 9.º ano (David Justino), começou-se o Plano Nacional de Leitura e a primeira tentativa de metas (Isabel Alçada). Mais tarde, com o governo de que fiz parte, fizeram-se metas curriculares mais bem organizadas, progressivas e exigentes, introduziram-se provas finais nos 4.º e 6.º anos e procedeu-se a uma revisão da estrutura curricular que deu mais destaque às disciplinas essenciais, nomeadamente o Português, a Matemática, as Ciências e o Inglês.

Os progressos de 2011 (TIMSS) e 2012 (PISA) para 2015 devem-se à continuidade de uma política de ambição e exigência educativa. E ao seu aprofundamento. Programas como o Plano Nacional de Leitura, que existem há quase uma década, têm vindo a contribuir para os nossos progressos. Mas não explicam por que se deu um salto tão importante nos últimos três ou quatro anos. Temos de procurar as causas dos novos progressos nas novas políticas. Ora, aí os fatores mais importantes julgo que foram dois: novos e ambiciosos objetivos curriculares - as metas curriculares - e novas avaliações - as provas finais nos 4.º e 6.º anos de escolaridade. Medidas a que os professores aderiram e transformaram em práticas de sucesso.

Tudo isto introduziu no sistema educativo novos incentivos ao progresso. Os professores puderam focar-se mais nos conteúdos essenciais para o progresso educativo, com metas que clarificavam o que de mais importante existe nos programas e que estabeleciam patamares de conhecimentos e de capacidades a desenvolver. Estas metas curriculares foram centradas no conhecimento, e não em "competências" vagas e impossíveis de avaliar, tal como teorias pedagógicas antiquadas preconizavam. Focaram-se no que é realmente importante.

A introdução de provas finais, em complemento, permitiu estabelecer marcos definidos, momentos de passagem nos quais os diversos patamares deviam ser medidos. Isso ajudou os professores na sua exigência com os alunos e incentivou os pais a acompanharem mais de perto os seus filhos. Tal como antes as provas de aferição, estas provas finais tinham lugar no fim de cada ciclo, que é o momento em que se fecha uma etapa e se abre outra, portanto um momento em que a consolidação dos conhecimentos deve ser assegurada.

Os documentos do estudo PISA são muito ricos. Permitem perceber que os professores, incentivados a usar apoios especiais sempre que necessário, tiveram um desempenho extraordinário na adaptação às necessidades dos alunos. Permitem também perceber que as vias vocacionais tiveram um papel decisivo. Comparando os alunos nestas vias profissionalizantes de 2011 a 2015, revela-se um grande progresso no domínio dos conhecimentos essenciais, nomeadamente em ciências.

Tudo isto está a dar os seus frutos e não é demais repetir que obtivemos os melhores resultados de sempre. Mas a nossa ambição deve ser progredir mais. Temos de reduzir ainda mais a retenção, embora sem passagens administrativas forçadas e sim com apoios e vias vocacionais alternativas, que despertem os alunos para aprender. Temos de reduzir ainda mais o abandono escolar.

Há alguns meses, os dados estatísticos mostraram que se estava no bom caminho nestes dois campos. O abandono escolar reduziu-se para praticamente metade de 2011 para 2015, o último ano para que há dados. E a retenção atingiu em 2015 mínimos históricos nos 4.º, 9.º e 12.º anos. Os progressos alcançados mostram que podemos progredir ainda mais. Podemos ainda melhorar!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Itália, os populismos e a arrogância das elites - José Manuel Fernandes, Observador, 06/12/16

Primeiro que tudo, absoluta claridade: se tivesse podido votar no referendo italiano, votaria “não” sem qualquer hesitação. Ou estado de espírito. E fá-lo-ia porque a reforma proposta pelo primeiro-ministro demissionário Matteo Renzi é uma reforma errada e, no caso italiano, perigosa. Muito perigosa mesmo.

O que é extraordinário em todo o psicodrama que se criou em torno desta consulta eleitoral é que enquanto os jornais, as rádios e as televisões se enchiam de previsões catastrofistas sobre as consequências de um “não”, poucos ou quase nenhuns se preocuparam em explicar o que estava em causa, o que ia ser votado, quais os argumentos a favor e contra. O guião foi sempre o mesmo: de um lado, um Renzi europeísta; do outro, um bando de populistas. Poucos se interrogaram sobre o porquê de figuras como Mario Monti irem votar “não” – essa “dissidência” não encaixa no guião do momento, em que tudo o que sai da norma é de imediato catalogado como “populista” ou mesmo de “extrema-direita”.

O Financial Times, essa bíblia da elite europeia, escrevia aqui há uns dias que “os eleitores são hoje o elo fraco da Europa”. É uma formulação verdadeiramente extraordinária, pois coloca o mundo de pernas para o ar. O elo fraco da Europa é a própria Europa, ou mais exactamente uma União Europeia construída de forma pouco democrática, para não dizer quase autocrática. Ora uma Europa onde as elites têm medo dos cidadãos não é muito diferente da França da corte de Luís XVI, a quem a plebe horrorizava – é uma Europa surda à realidade, autista na sua autossuficiência.

É por isso necessário saber separar o trigo do joio, e podemos começar precisamente por Itália e pelo seu referendo. Eu votaria “não” porque – tal com os editorialistas da The Economist e do The Observer, para citar dois jornais de orientações diferentes – penso que, primeiro, a Itália precisa sobretudo de reformas económicas; e, depois, que a solução para os bloqueios do sistema político italiano não passavam por alterações constitucionais que davam excessivo poder ao primeiro-ministro e ao seu partido.

Em Itália os governos são pouco estáveis? São: vamos para o 63.º executivo em 70 anos. Mas durante muitas décadas a Itália funcionou e cresceu mesmo com essa instabilidade governativa. Pior, bem pior, era a corrupção endémica, mas essa sofreu um rude golpe com a operação “Mãos Limpas”, que limpou o sistema político e transformou o mapa partidário. Mais: a instabilidade governativa é filha do cuidado que os autores da Constituição italiana tiveram para evitar uma excessiva concentração de poderes, pois a memória dos tempos de Mussolini estava bem fresca.

A reforma constitucional que Matteo Renzi propunha não se limitava a reequilibrar um regime constitucional que, passados 70 anos, pode precisar de um ajuste: subvertia literalmente o sistema de pesos e contrapesos que limitam o poder do executivo. Conjugada com a lei eleitoral que daria um enorme bónus eleitoral ao partido mais votado, permitiria que uma força política com o apoio de um terço do eleitorado ou pouco mais pudesse ter uma maioria absoluta na câmara baixa do Parlamento ao mesmo tempo que a câmara alta passava a ter um poder quase decorativo, como o que já hoje tem o Presidente da República, e com as regiões perderem também prerrogativas.

Não deixa de ser paradoxal que um primeiro-ministro que chegou ao poder através de uma viragem orquestrada no interior do seu próprio partido tenha querido criar um sistema próximo de uma “ditadura de primeiro-ministro”. Tal como é significativo que, ao mesmo tempo, o Renzi “reformista” tenha há muito estava desaparecido em combate, aparecendo agora a adoptar políticas populistas – isso mesmo: populistas – destinadas a tentar recuperar apoio popular a tempo de ganhar o referendo. Perdeu a sua aposta, e perdeu de forma clamorosa. E felizmente que perdeu agora, pois era pior – digo eu hoje por hoje, com aquilo que hoje se sabe – que perdesse daqui por uns tempos, em próximas eleições e para um Movimento 5 Estrelas em alta nas sondagens.

O equilíbrio de poderes é um dos aspectos mais sensíveis de uma arquitectura democrática, sendo que a democracia é o regime do governo limitado pela lei e por outros poderes que o fiscalizam e controlam. Não é o regime do chefe referendado em eleições, por mais livres e justas que estas sejam.
Escreveu-se assim direito por linhas tortas – isto é, evitou-se um mal maior através de um mecanismo referendário, o tal que por definição é susceptível de ser deturpado por argumentos populistas.

Mas não me fico por aqui. A derrota das elites europeias neste referendo, tal como a sua derrota no referendo do Brexit, não teve como consequência a catástrofe económica que logo se abateria sobre os povos mal comportados e, por arrasto, todos nós. A economia do Reino Unido continua a comportar-se melhor do que a da zona euro e, sendo ainda cedo para perceber o que se vai passar em Itália, no dia a seguir ao referendo não houve nenhuma reacção de pânico.

É pois altura de serenar e procurar separar o trigo do joio. O populismo é, não se tenha dúvida, um “espectro que paira sobre a Europa”, como notava recentemente o Journal of Democracy, mas não podemos cair da tentação de os enfiar todos nos mesmo saco, de os tratar todos da mesma forma. Pode ser muito conveniente para os que condenam qualquer desvio à ortodoxia europeísta, mas a verdade é que não existem diferentes tipos de populismos (nesse mesmo número do Journal of Democracy há mesmo um interessante ensaio do cientista político grego Takis S. Pappas a esse propósito), como há sólidos argumentos democráticos entre os cépticos da construção europeia.

Há muitos anos que venho defendendo a necessidade de as elites europeias escutarem com humildade a mensagem que lhes está a ser enviada pelos eleitorados. Mais: como a imprensa dos Estados Unidos parece começar a reconhecer, é igualmente importante que os jornalistas deixem de circular apenas entre essas elites e procurem ir ao encontro dos que não se sentem representados pelos actuais sistemas políticos – algo que só depois do choque da eleição de Donald Trump alguns parecem dispostos a fazer.

Ora o que continuo a notar é o contrário. No dia em que o candidato a direita radical austríaca recolhe 47% dos votos numa eleição presidencial, deitam-se foguetes e há mesmo quem titule que a “maré” está a virar. Esta cegueira é inquietante pois não permite perceber o que levou eleitores tradicionais, de décadas, dos sociais-democratas e dos cristãos-democratas, a votarem no candidato do FPÖ. Ou a não entenderem que a eleição de Alexander Van der Bellen, o candidato “verde”, não se deve ao seu “cosmopolitismo” europeísta, antes a um voto contra Norbert Hofer. Os sentimentos que sustentaram o crescimento do FPÖ não desapareceram de um dia para o outro e haverá um preço elevado a pagar se não o percebermos.

De resto, repito, falar de “populismos” começa a ser a forma mais confortável de certas elites europeias fazerem ouvidos moucos às preocupações reais dos eleitorados.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O PCP mudou? Claro que não: olhe para Cunhal - Miguel Pinheiro, Observador, 4/12/16


1. Posso começar com uma citação? Ao falar sobre a campanha eleitoral para a Assembleia da República, o secretário-geral do PCP chamou a atenção para as “duas direcções fundamentais da sua actuação”. Eram elas: “Por um lado, evitar uma maioria da direita […] CDS e PSD e, por outro lado, criar condições para uma maioria de esquerda”. “Temos insistido na necessidade do acordo dos socialistas”, esclareceu, porque senão “o PS vai aliar-se à direita, vai aliar-se ao PSD e talvez ao CDS”. Depois de conhecidos os resultados eleitorais, e perante o sucesso do seu duplo objetivo, defendeu, com convicção e esperança, que “haveria possibilidades para a formação de um governo de esquerda assente nessa [nova] maioria”.

Todas estas citações são, obviamente, de Álvaro Cunhal, que falava sobre as primeiras eleições legislativas da democracia, em 1976. Está tudo nas Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal — Tomo VI, 1976 (Edições Avante!). Quando, há um ano, na noite das legislativas, Jerónimo de Sousa foi o primeiro líder partidário a falar daquilo que viria a ser conhecido como “geringonça”, não estava a inventar a roda, nem a inventar o fogo, nem a inventar um novo capítulo da História das ideias políticas. Estava, simplesmente, a repetir aquilo que Álvaro Cunhal disse sempre.

A tese não tem muito que saber. Bastava que as “relações de força” se conjugassem com a precisão de um mapa astral: era preciso que os partidos “da esquerda” tivessem uma maior representação parlamentar do que os partidos “da direita”; era preciso que o PS ficasse dependente dos votos do PCP para chegar ao poder; e era preciso que os socialistas evitassem a sua histórica e horrível tendência para se juntarem à “direita” em momentos de aperto.

Tudo isso aconteceu em 2015. Ponto um: apesar de ter menos votos do que a direita, a esquerda junta tinha mais deputados. Ponto dois: o PS sozinho não conseguia chegar ao poder. Ponto três: os socialistas não se podiam aliar à direita porque, se o fizessem, seria sempre a direita a governar, uma vez que tinha tido mais votos. A única forma de António Costa se tornar primeiro-ministro era com o apoio do PCP (e do BE, claro, mas essa é outra história).

Para dar o seu apoio a um governo do PS, os comunistas não tiveram que mudar, não tiveram que se transformar, nem tiveram que reinventar a sua História. Muito pelo contrário — isto é aquilo que o PCP sempre quis. Quem tiver dúvidas, pergunte a Álvaro Cunhal.

2. E, já que se fala em Cunhal, é também possível perguntar-lhe o que pensaria de tudo aquilo que Jerónimo de Sousa tem vindo a aceitar para manter a “geringonça”: os salários “milionários” da administração da Caixa, por exemplo, ou o ritmo lento de aumento do salário mínimo e das pensões, ou, pior ainda, o cumprimento das exigências financeiras de Bruxelas.

Cunhal pensaria que é mesmo assim, como é evidente. Até porque fez o mesmo. Logo em 1974, o secretário-geral do PCP pertenceu ao primeiro Governo provisório, como ministro sem pasta. As actas da época mostram que, nas reuniões do Conselho de Ministros lideradas por Adelino da Palma Carlos, Álvaro Cunhal era surpreendentemente moderado.

Em Junho de 1974, por exemplo, o ministro da Defesa, Firmino Miguel, levantou um problema delicado: o Exército queria vender munições ao Chile de Augusto Pinochet. De um lado estava a alta política: aquela transação iria ajudar um regime condenado por todos e com o qual Portugal até tinha cortado relações diplomáticas. Do outro lado estava a baixa contabilidade: a venda iria dar seis meses de trabalho na fábrica de armamentos portuguesa. Como resolver este terrível dilema? Pereira de Moura não hesitou: “Eu não posso votar senão contra”. Salgado Zenha também não: “Essa transacção com a nossa consciência terá um saldo largamente negativo”. Quando chegou a vez de Cunhal falar, começou por afirmar que “toda a demarcação” em relação ao regime de Pinochet era “importante”, mas, depois, assegurou “não querer ser mais papista do que o Papa”. E até ofereceu uma solução para o problema: “Tornar isto um contrato comercial vulgar”.

O PCP sabe muito bem — pelo menos desde 1974 — que não é possível apoiar um governo sem aceitar muitas, muitas (mas mesmo muitas) coisas com as quais discorda.

Quer isto dizer que o PCP de 2016 é igual ao PCP de 1974 e de 1976? Aqui fica a resposta breve a uma pergunta complexa: sim.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Entre direitas - Jaime Nogueira Pinto, DN, 29/11/16

Habituados, em Portugal, a ter de escolher entre as várias esquerdas e os vários centros, não podemos deixar de olhar com alguma surpresa uma conjuntura política que torna possível, na próxima Primavera, um duelo entre Marine Le Pen e François Fillon, isto é, uma escolha entre duas direitas - uma nacionalista e outra nacional-conservadora.

Lembro a classificação de René Rémond, simplista mas útil como todas as boas classificações, das três direitas francesas: a legitimista, a bonapartista e a orleanista. A primeira é tradicional e conservadora, a segunda cesarista revolucionária, a terceira centrista liberal. Perante a crise e a decadência das esquerdas em França - representadas pelo pitoresco Hollande, pelo Partido Comunista que perdeu o operariado para o Front National e pelo cocktail frenético das várias famílias trotskistas e bloquistas -, as alternativas são à direita e de direita. Mas a direita em França, porque é forte, tem vários rostos: um deles é o da direita nacional e radical, com Marine le Pen.

Marine meteu na gaveta o saudosismo, o antigaullismo e as posições conservadoras nas questões fracturantes do pai e mudou a substância e o conteúdo do FN. Abriu ao laicismo republicano mas manteve o nacionalismo, o proteccionismo, a preferência nacional e a mobilização contra o fundamentalismo islâmico. Marine tem um discurso popular e populista, conquistou milhões de votos à esquerda e o seu FN é o primeiro partido de França, em eleitores e deputados no Parlamento Europeu, embora não tenha nenhum deputado no parlamento francês.

Passará, com certeza, à segunda volta. E se passar com alguém de esquerda, é mesmo capaz de ser outra má notícia para a União Europeia depois do brexit e de Trump, pois fará um referendo cujo resultado não deixa muitas dúvidas.

Das primárias saiu da direita o candidato que fará frente a Marine le Pen na segunda volta das presidenciais em maio de 2017. A ideia das primárias pretendeu dar uma maior democraticidade à escolha, retirando-a dos "Grandes" - os estados-maiores partidários e os notáveis. Venceu-as François Fillon, o mais direitista dos concorrentes.

Fillon é católico praticante e conservador em matéria de família e costumes, ordem e lei. Mas é também pela desestatização da economia, defende um menor peso do Estado e a redução do número de funcionários públicos. Em política externa é um eurocéptico moderado, partidário da Europa das Nações e defensor de uma aproximação realista à Rússia de Putin.

Ao aproximar-se em muita coisa de Marine le Pen - sobretudo no eurocepticismo, na preferência nacional, nas questões securitárias e na política russa -, Fillon é o mais indicado para a defrontar e vencer, já que, segundo as sondagens (barómetro que já não podemos deixar de olhar com algum descrédito), Marine le Pen e Fillon são os candidatos que deverão passar à segunda volta. A não ser que a esquerda se una e encontre um candidato comum, geringonça que não parece fácil.

Não direi que me admiro, mas percebo o espanto da maioria dos donos dos media e do sistema e dos muitos a quem eles fazem a cabeça. Depois do brexit, depois de Trump, a vitória de Fillon e a perspectiva da eleição presidencial na próxima Primavera não devia surpreender ninguém. Há, de facto, um novo paradigma político-cultural no mundo euro-americano. As classes médias, fartas da tutela intelectual esquerdista e da tutela política centrista, revoltaram-se. Depois da opção inglesa, antieurocêntrica, e de um tycoon anti--sistema na Casa Branca, a França, mais cautelosa, prepara-se para escolher entre uma nacionalista revolucionária e popular e um nacionalista conservador.

Para um francês de direita é capaz de ser um dilema. Mas sempre é melhor do que ter de escolher entre as esquerdas e o centro.