Intervenção no encontro da Companhia das Obras sobre Política e Eleições
1.
POVO VS MASSA
No sexto ano da IIGG, no Natal de 1944, na sua mensagem radiofónica, o Papa Pio
XII afirmava:
“Povo
e multidão amorfa ou, como se costuma dizer, «massa», são dois conceitos
diferentes. O povo vive e move-se por vida própria; a massa é, por si mesma,
inerte, e só pode ser movida do exterior. O povo vive da plenitude da vida dos
homens que o compõem, cada um dos quais — no seu próprio lugar e à sua maneira
— é uma pessoa consciente das suas próprias responsabilidades e das suas
próprias convicções. A massa, pelo contrário, espera o impulso do exterior,
sendo um joguete fácil nas mãos de quem quer que explore os seus instintos ou
as suas impressões, pronta a seguir, sucessivamente, hoje esta, amanhã aquela
bandeira.”
Olhando
para o que têm sido as últimas semanas da campanha eleitoral, e sobretudo a
campanha da segunda volta, penso que é difícil não pensar nestas palavras de
Pio XII, que o Padre João recordava na lição Poder e Moral, a Comunidade Política, que serviu de base a este encontro.
Penso
que todos nós já nos demos conta (e provavelmente já o demos conta também em
nós), de como o debate sobre as presidenciais se restringiu a um conjunto de
bandeiras: democracia contra o fascismo, liberdade contra o socialismo, direita
contra esquerda. Quem de repente aterrasse em Portugal, e nada conhecesse do
país, diria que este se dividia entre fascistas e socialistas.
Ora,
a mim não me parece que isto seja verdade, nem me parece um juízo razoável
sobre o que está em causa nestas eleições. E parece-me sinal de uma sociedade
polarizada, onde o outro, aquele que pensa diferente de mim, que vota diferente
de mim, é um adversário, é um inimigo, é um impedimento à minha felicidade e ao
bem comum.
2. A TRINCHEIRA IDEOLÓGICA
Claro que isto veio ao de cima nestas presidenciais, mas não surgiu agora.
Hoje, em qualquer tema, há o dever moral de erguer uma trincheira: guerra da
Ucrânia, na Terra Santa, na política americana, qualquer que seja o tema — só
há bons e maus. E o dever dos bons é eliminar os maus.
Hoje,
tanto no debate público como, tantas vezes, entre nós, excluímos a
possibilidade de o outro ser um bem. Agarrados à ideia de que só a nossa
ideologia poderá salvar o mundo, recusamos qualquer diálogo, qualquer cedência;
a única possibilidade é a nossa vitória, a dos bons e justos, sobre os maus e
opressores.
Por
isso, diante disto, devo confessar que a questão de onde é que votamos, nesta
eleição concreta, não é o que mais me preocupa. Sejamos claros: votar não é
escolher a pessoa que queremos para um cargo, mas escolher entre as opções que
existem. E, neste caso, só há duas, e nenhuma delas me parece especialmente
boa. É como entrar num restaurante onde só há dois pratos e não gostamos de
nenhum: não vale a pena pedir cozido; ou comemos o que não gostamos ou passamos
fome.
O
que me preocupa realmente é esta redução da política a uma luta ideológica, de
bons contra maus. Onde reduzimos o outro a uma posição ideológica, onde só
conta de que lado ele está: comigo ou contra mim.
Por
isso, o que temos para oferecer diante disto? O que a Igreja, o que a Fé tem a
oferecer diante disto?
3. A CONSCIÊNCIA
Antes de mais, uma consciência. A consciência de que o nosso destino não se
joga na política, que o nosso horizonte não é a conquista do poder em nome de
um bem maior, mas a Vida Eterna.
A
primeira vez que disse ao Padre João que me queria empenhar na política, a
primeira coisa que ele me disse foi: nunca te esqueças que és cidadão dos céus
e concidadão dos santos. E depois explicou-me que a política é uma forma
superior de caridade, porque a missão de um político é testemunhar Cristo
diante de todo um povo.
Esta
consciência, de que o homem é feito para o céu e não para o poder, é o que nos
permite colocar de forma justa o valor da política. De forma realista, ou seja,
tendo em conta a totalidade dos factores. A consciência de que somos chamados a
participar na missão de Jesus, de sermos Suas testemunhas, mas que quem salva o
mundo não é o nosso esforço, não é a nossa vitória: o que salva o mundo é
Cristo. E assim podemos estar diante da política sem qualquer outra pretensão,
sem qualquer outro cálculo, que não seja o de O servir.
4. O OUTRO COMO UM BEM
O segundo ponto que me parece que temos para oferecer é aquilo que o Padre
Carrón sugeria num texto que escreveu sobre a situação política italiana em
2013:
“Agora,
digo isto pensando no presente: se não encontrar espaço em nós a experiência
elementar do outro como sendo um bem, e não um obstáculo para a plenitude do
nosso eu, na política assim como nas relações humanas e sociais, será difícil
sair da situação em que nos encontramos.”
Num
tempo em que o outro é olhado, mesmo entre nós, como um obstáculo, tomar
consciência de que também ele é feito do mesmo desejo de bem e de felicidade
que eu, ainda que o exprima de forma diferente e até mesmo — não tenhamos medo
de o dizer — de forma errada, esta consciência do outro como um bem é essencial
Dizer
que o outro é um bem não significa dizer que tudo é bom, ou que todas as ideias
são igualmente válidas. É simplesmente afirmar que a pessoa não é definida
pelas suas ideias, nem sequer pelos seus actos, mas pelo desejo de Deus que
está presente no coração de cada homem. E este é o ponto de partida para
eventualmente construir algo.
Claro
que esta proposta tem um limite evidente: a minha abertura ao diálogo pode não
encontrar correspondência. Posso acabar a falar sozinho. Mas a alternativa a
esta tentativa de encontrar um ponto em comum com o outro, como dizia o Padre
João, é a guerra civil. E isso é o que hoje, de forma metafórica, entenda-se,
vivemos.
5.
UNIDADE
O
terceiro ponto que gostaria de referir é o da unidade. Na conversa que já aqui
descrevi com o Padre João sobre o meu empenho na política, a última coisa que
ele me disse foi: lembra-te que na política segues sempre a Isilda e o
António Maria.
Na
altura pareceu-me um ponto meramente operativo, para um jovem sem experiência.
Com o tempo tenho-me dado conta como a unidade com estes dois amigos tem sido
central na minha acção política nestes últimos doze anos. Por dois aspetos.
Primeiro,
porque me salva da tentação do poder, de servir o poder. Durante estes anos,
várias vezes a Isilda, o António e eu discordamos. E, como temos o feitio que
temos, e eu tenho um especialmente forte, acontece por vezes discutir-mos, até
com aspereza. E é nestes momentos que a Isilda diz sempre o mesmo: não nos
podemos zangar pela política, o essencial é a nossa unidade.
Porque
Nosso Senhor não disse que estava presente quando um de nós tiver razão, mas
quando dois ou mais estivermos reunidos em Seu Nome. Não pediu ao Pai que nos
tirasse do mundo, mas que fossemos um só, para que o mundo acreditasse.
Esta
unidade, não me salva apenas a mim do meu mau feitio, da minha impulsividade,
da minha vaidade, mas é a hipótese de, na política, tornar Cristo presente.
6.
AS FORÇAS QUE MUDAM A HISTÓRIA
Por isso é que me parece que neste momento, onde a política tem introduzido entre nós uma ferida, o ponto essencial não é em quem votamos, mas sim, como dizia Giussani: a solução “não advém directamente enfrentando os problemas, mas aprofundando a natureza do sujeito que os enfrenta.”
Quero com isto dizer que as eleições presidenciais e até a política não
interessam? Evidentemente que não. E seria ridículo eu dizer tal coisa, quando
dedico tanto tempo (roubado à família, antes de mais) a tentar participar na
vida política.
Um
católico que é advogado, não é que para exercer a sua profissão como católico
só pode exercer direito canónico. Um professor de biologia que seja católico, e
que em vez de falar de biologia nas aulas, para ser católico, dá catequese, é
só um mau professor. Por isso um católico empenhado na política tem de fazer
política. Mais, como diz o Padre João na sua lição, se quer estar na política
tem de estar onde esta se faz: nos partidos. E sobre isto não acrescento mais
nada, porque o que vale mesmo a pena é ir ler o que disse o Padre João, que é
sempre melhor do que qualquer coisa que eu diga.
Por
isso, a política é essencial, e temos o dever de participar nela. E estas
eleições são importantes, e devemos ter claros os critérios com que votamos e
as razões por que o fazemos. Mas a mim parece-me que o mais importante, neste
tempo em que o juízo foi substituído pela indignação, a Fé pela ideologia, e o
povo pela massa, não é a forma como a nossa acção política se traduz, mas a
consciência com que o fazemos.
Porque
a acção, ainda que nascida de um juízo profundo, pode estar errada. Eu posso
votar para a semana com belíssimas razões e depois, por um conjunto enorme de
circunstâncias que não controlo, arrepender-me amargamente do meu voto. E não
estou nada preocupado com isso. Porque votar é escolher entre candidatos
imperfeitos, em circunstâncias que eu não controlo, e por isso o resultado do
meu voto, mesmo que bem ponderado, está completamente fora do meu controlo.
Mas
estar diante da política com a consciência clara daquilo a que somos chamados é
o que nos permite dar testemunho de Cristo.
No
Maio de 68, um tempo em algumas coisas parecido com o nosso, um jovem foi ter
com Giussani e diz-lhe querer estar «com as forças que mudam a história».
Falava dos movimentos marxistas para onde tinham migrado a esmagadora maioria
dos jovens católicos de então. Giussani responde-lhe então: «As forças que
mudam a história são as mesmas forças que mudam o coração do homem».
E,
por isso, a única coisa que eu desejo, diante destas eleições e diante da
política actual, é manter-me fiel a esta consciência em que Giussani nos educa,
que nos permite estar de forma livre diante da política. Penso que é isto que
temos a oferecer à política actual.
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