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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Até onde poderá ir a ingerência do Kremlin na Europa? - José Milhazes, Observador, 31/05/17

A Rússia de Vladimir Putin pode ter interesses internacionais, até porque é um importante jogador na política mundial, mas eles não devem restringir os direitos de países estrangeiros, nomeadamente no que diz respeito à adesão à NATO.

Depois da invasão da Geórgia (2008) e da anexação da Crimeia e de parte do Leste da Ucrânia (2014), os apetites do dirigente russo já transbordaram o espaço pós-soviético e chegam agora aos Balcãs. O Kremlin chama a si o direito de tentar impedir o Montenegro de entrar na Aliança Atlântica.

Em Março de 2014, Milo Jukanovich, primeiro-ministro deste pequeno Estado dos Balcãs, justificou o pedido da adesão com a invasão da Crimeia pelas tropas russas. No ano seguinte, o seu país foi formalmente convidado a aderir à NATO e, em Maio de 2016, foi assinado um protocolo entre as partes.

Este último documento foi levado a votação no Parlamento do Montenegro e retificado, em Abril passado, com os votos de 46 dos 81 deputados desse órgão. No dia 5 de Junho, esse país tornar-se-á o 29º membro da Aliança Atlântica.

Porém, o Kremlin não aceita essa decisão soberana e tenta uma vez mais ditar condições a outros países europeus. Maria Zakharova, porta-voz da diplomacia russa, alegou que, “tendo em conta o potencial do Montenegro, a Aliança Atlântica dificilmente tirará uma “mais valia” significativa [desse passo]” . Se assim é, porque é que a adesão desse país tanto irrita Moscovo?

A diplomacia russa tenta desesperadamente manter ou alargar a sua área de influência nos Balcãs, onde desde há séculos que se procura afirmar. Não o conseguiu durante a existência da Jugoslávia, mas esforça-se por o conseguir em países da região como a Sérvia e o Montenegro.

No caso deste pequeno país, os serviços secretos russos muito têm tentado para afastar do poder as forças que lutam pela integração do país nas estruturas da NATO.

Em Fevereiro do ano passado, o procurador especial de Montenegro. Milivoi Katnic acusou as autoridades russas de prepararem um golpe de Estado nesse país, mas o Kremlin responde que semelhantes acusações são “absurdas”.

Ainda durante a sua visita a Paris, Vladimir Putin tentou convencer-nos de que o seu país não se ingere nos assuntos externos de outros Estados, mas as ameaças feitas por Maria Zakharova no mesmo dia aos dirigentes montenegrinos mostram que na Rússia já nem sequer preocupam com as contradições nos discursos oficiais.

Depois de criticar a decisão das autoridades montenegrinas, a extravagante porta-voz da diplomacia russa aconselhou os cidadãos do seu país a “pensarem duas vezes antes de irem passar férias ao Montenegro”. Tendo em conta que o turismo russo tem um forte peso na economia desse país da costa do Mar Adriático, trata-se claramente de chantagem e de sanções, política que o Kremlin diz repudiar e condenar.

No mesmo dia, a polícia russa deteve num dos aeroportos de Moscovo, sem qualquer tipo de explicação, Miodrag Vukovic, deputado do Partido Democrático do Montenegro, força que apoiou a adesão desse país à NATO. O Ministério montenegrino dos Negócios Estrangeiros apresentou uma nota de protesto, que ainda não teve resposta.

É este tipo de política de Vladimir Putin que continua a justificar cada vez mais a existência de uma Aliança Atlântica forte. Isto não obstante todas as “declarações de paz” do autocrata russo.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Frei Bento Domingues: Honni soit qui mal y pense.






Conta a lenda que Eduardo III de Inglaterra, durante um baile em que dançava com uma das suas noras a quem caiu uma liga, apanhou a do chão, colocou-a na sua perna e, perante o coro de maledicência que se tinha formado, afirmou “Honni soit qui mal y pense” ou seja, “tenha vergonha que vê mal nisto”. De seguida afirmou que aquela liga ainda haveria de ser desejada por muitos. Assim nasceu a Ordem da Jarreteira, a mais antiga e prestigiada ordem de cavalaria inglesa.

Lembrei-me desta história ao tomar conhecimento de um artigo escrito por frei Bento Domingues no jornal Público. Para algum leitor mais distraído, que ainda não tenha tomado conhecimento de quem é o autor em questão, fica uma breve explicação:

Frei Bento é um frade Dominicano que deve a sua fama ao facto de, há décadas a esta parte, atacar a Igreja em qualquer palco que lhe concedam. Munido de uma enorme capacidade de debitar fórmulas vazias que tanto agradam ao mundo, frei Bento dedica-se a tentar reduzir a Igreja ao seu olhar mundano e limitado.

A fama deste frade vem, não da sua santidade ou inteligência, mas simplesmente porque é o critico de serviço. Sempre que há algum tema relacionado com a Igreja, lá estará frei Bento pronto para o ataque. Para ele o critério nunca é a Fé da Igreja, que é a Fé em Jesus, mas sempre e apenas a sua cabeça, que aparentemente se ficou por 68.

Esta semana decidiu então este senhor escrever um artigo a armar intriga contra o Papa emérito. No dito artigo, para além de debitar mentiras e insultos a Bento XVI, frei Bento “escandaliza-se” (ele que não se escandaliza com a morte de uma criança no ventre materno…) porque o Papa emérito não só escreveu o prefácio de um livro do Cardeal Sarah, perfeito para a Congregação do Culto, nomeado há dois anos pelo Papa Francisco, como ainda por cima o elogia e agradece ao Papa por o ter nomeado.

Daqui, frei Bento, imerso nos seus esquemas mundanos de lutas de poder, retira toda uma intriga digna de uma dessas modernas e tontas séries de politica.

Claro que para o dominicano, que vê as coisas não pelos olhos da fé mas com os olhos da sua própria mesquinhez, o Papa Bento XVI estaria a fazer o que ele faria se estivesse na sua posição (claro que frei Bento nunca estaria na posição do Papa emérito, porque jamais teria largado o poder de forma humilde e voluntária).

O problema é que o Papa Bento XVI, assim como o Papa Francisco, não se movem pelos critérios de frei Bento, que são os critérios do mundo, mas pelo amor a Cristo e à Igreja. E isso, o frade comentador nunca seria capaz de compreender.

A vergonha não está seguramente no Papa emérito, que é mais fiel ao Papa Francisco do que frei Bento alguma vez será. A vergonha está neste mísero frade, incapaz de olhar para a realidade sem ser com a mesquinhez que lhe tolda o juízo.