Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Recordando Winston Churchill em Washington - João Carlos Espada, Observador, 31/10/16


“Perante a actual campanha presidencial, não seria altura de os americanos se converterem à monarquia constitucional que Winston Churchill sempre defendeu?” Esta pergunta foi recebida por uma gargalhada geral na 33ª Conferência Internacional Winston Churchill que teve lugar em Washington, D.C., no Hotel Mayflower, no final da semana passada. Uma gargalhada ainda mais retumbante saudou a surpreendente resposta do orador britânico, Sir David Cannadine: “receio que essa seja uma boa pergunta a ser colocada aos eleitores americanos”.

Este episódio exprime dramaticamente a atmosfera que encontrei em Washington na semana passada, quer entre Republicanos quer entre Democratas — ainda que todos eles fossem civilizados admiradores de Winston Churchill. “Estamos embaraçados com esta campanha presidencial e preferimos não ter de falar sobre os candidatos” — esta foi a comum resposta que ouvi de Republicanos e Democratas. Alguns, mas claramente não todos, acrescentavam: “apesar de tudo, votarei com o meu Partido”.

Absolutamente todos com quem falei, no entanto, quiseram enfaticamente acrescentar: “obviamente, aceitarei o candidato que sair vencedor” — uma óbvia referência condenatória da inacreditável saída terceiro-mundista do sr. Trump acerca da possiblidade de não aceitar a sua própria derrota.
Deve ser de novo sublinhado que todos os Republicanos e Democratas com quem falei, e têm sido muitos, eram participantes na Conferência Churchill acima referida. E todos pareciam aliviados por poderem escapar durante alguns dias para uma discussão civilizada sobre temas civilizados. O tema central era obviamente Winston Churchill, “half American and all British”, como foi frequentemente definido.

O que foi recordado sobre Winston Churchill não podia estar em maior contraste com a deplorável atmosfera intelectual e política que estamos a viver no Ocidente.
Churchill defendeu a democracia representativa parlamentar e nunca se lembrou de atacar a classe política ou os partidos políticos como um todo — um tique primitivo que na verdade sempre distinguiu as ditaduras dos países subdesenvolvidos.

Tendo sempre defendido a soberania do Parlamento, Churchill também sempre entendeu essa soberania no âmbito de um sistema de freios e contrapesos. O Parlamento britânico na verdade inclui duas Câmaras (uma delas não eleita). E articula-se com um Chefe de Estado não eleito que tem o dever de garantir as ancestrais regras de “fair-play”.




Finalmente, Churchill era um defensor das identidades e das soberanias nacionais e, ao mesmo tempo, do comércio livre e do institucionalismo multilateral. Isso mesmo foi brilhantemente recordado por James Baker III, no jantar de gala da Conferência Churchill na passada sexta-feira, no salão George Washington do Departamento de Estado.

Tendo servido três Presidentes americanos — Gerald Ford, Ronald Reagan e George Bush — James Baker sobretudo acompanhou o incrível período de consagração mundial da democracia ocidental após a queda do Muro de Berlim em 1989. E lembrou alguns dos pilares da democracia ocidental que os países saídos da Cortina de Ferro souberam abraçar.

Um desses princípios é que, em termos constitucionais, não há vários regimes à escolha. Há basicamente dois: a sociedade aberta ou a sociedade fechada, para usar as expressões de Karl Popper. Por outras palavras, a escolha é entre a democracia constitucional pluralista e a ditadura.

Uma das cruciais distinções entre democracia constitucional pluralista e ditadura é que na primeira coexistem e concorrem livremente entre si diferentes correntes políticas e filosóficas — diferentes e muitas vezes rivais. É nas ditaduras que existe uma e apenas uma corrente ou opinião autorizada, que é a oficial, a única boa, íntegra, autêntica e digna de respeito. Todas as outras são tratadas como inimigas, indignas, merecedoras apenas de desprezo e perseguição.

Só em democracia, por outras palavras, é que correntes rivais conseguem ao mesmo tempo discordar entre si e respeitar-se mutuamente. Daqui decorre que, em democracia, as diferentes correntes políticas podem discordar em tudo, menos numa coisa: o respeito pelas regras do jogo constitucional que garante a sua liberdade de existir e de discordar em tudo o resto.

As regras do jogo constitucional assentam por sua vez em regras não escritas que os pais tendem a ensinar aos filhos, mesmo nos dias que correm de vulgaridade triunfante. Era costume chamar a essas regras “cortesia”, “fair-play”, “honestidade”, “jogo limpo”, “cavalheirismo”. Foram essas regras que permitiram a Winston Churchill aceitar a derrota eleitoral de Julho de 1945, após ter vencido a guerra em Maio do mesmo ano. Seria útil recordar hoje as velhas regras de cavalheirismo a muitos coléricos pseudo-políticos que atacam as nossas instituições e tradições democráticas.


Bernardino Gomes foi um cavalheiro da política portuguesa e euro-atlântica. Fundador do Partido Socialista em 1973, na Alemanha, foi sempre um defensor da democracia constitucional pluralista. Com Mário Soares e Maria Barroso, bem como com sua mulher Maria Renée, defendeu sempre a aliança com a grande democracia americana e recusou os radicalismos terceiro-mundistas de alguns socialistas. Foi também membro fundador da revista Nova Cidadania, em 1998. O seu exemplo e a sua memória perdurarão entre todos os democratas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Vende-se paz social. Aceitam-se contrapartidas - Helena Matos, Observador, 26/10/16

Andamos há meses a falar de uma geringonça mas o que temos vivido é um instalanço. Costa é um comprador de paz e tanto BE como PCP têm muita paz social para vender. Em troca aceitam aparelho de Estado

1. Na televisão, Costa, declara que vivemos agora num clima de paz social e de normalidade institucional. Ao ouvi-lo, a pergunta torna-se-me óbvia: quando esta negociata terminar como vai ser governar Portugal? Ou por outras palavras, quanto nos vão pedir pela paz?

Andamos há meses a falar de uma geringonça mas o que temos vivido nos últimos meses nada tem de desajeitado. Pelo contrário, somos protagonistas e financiadores, enquanto contribuintes, de uma tenaz estratégia de sobrevivência entre políticos profissionais – António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins – e uma eficaz funcionária política, Heloísa Apolónia. Cada um deles não sabe fazer outra coisa senão trabalhar na política. Cada um deles só pode crescer à custa dos outros. No fim todos esperam roubar votos ao PS e o PS espera reduzi-los senão a todos pelos menos ao PCP à condição de dispensável.

Sob a retórica do combate à austeridade, os partidos socialistas caíram nas mãos dos radicais – os Trabalhistas ingleses foram tomados por grupos extremistas. Já os socialistas espanhóis tiveram de chamar a polícia para enfrentar os seus aliados do Podemos e quejandos que, tendo-se coligado com eles no poder local, não lhes perdoavam que a nível nacional viabilizassem um governo dos populares. Em França, o pós-Hollande adivinha-se complicadíssimo para os socialistas (já agora, que estranho fenómeno levará a que impere em Portugal um silêncio espesso e um manto de invisibilidade total sobre as manifestações que os polícias, sim os polícias, estão a realizar noite após noite naquele país?)

Por cá, Costa tenta conquistar os radicais. Como? Aglutinando. Afinal a retórica atabalhoada de Costa não é um problema de oratória e sobretudo não é um problema. É sim um reflexo da sua forma de agir: acredita que pode aglutinar adversários tal como come sílabas. Até quando o conseguirá fazer? Até que tenha algo para dar aos adversários. António Costa é um comprador de paz e tanto o BE como o PCP têm muita paz para vender. No fim ganham todos: o primeiro-ministro garante que vivemos em paz enquanto o PCP e o BE vêem o seu poder e os seus proveitos a crescer. Todas as semanas notícias várias dão conta deste instalanço: é a Autoridade para as Condições do Trabalho que vai passar a poder cruzar os dados da administração fiscal com os da Segurança Social. É a marcação cerrada à Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (Cresap) que teve o pecado original de ser dirigida por um segurista. É o metro de Lisboa que nem bilhetes consegue imprimir mas que repõe “direitos”…

Como que num reflexo automático, artistas, activistas, vanguardas, indignados profissionais, sindicalistas, corporações, bispos vermelhos e especialistas nos males do mundo (capitalista, claro) calaram-se. Vasco Lourenço e Otelo também parecem ter desistido de organizar aquele não sei quê que queriam fazer não sei onde nem se sabe bem porquê.

A fome tornou-se desequilíbrio alimentar. Não se nasce em ambulâncias, nem se fazem cordões humanos, nas escolas não acontece nada, mesmo quando acontece muita coisa, os manifestantes profissionais tiraram férias… Mas podem voltar a qualquer momento. Como voltaram os taxistas, apesar dos 17 milhões prometidos para o sector.

O negócio da paz tem feito a fortuna de Costa, que parece governar sem críticas e funciona como conta-poupança para o BE e o PCP que por cada dia de paz deixam marcas nas leis e no aparelho de Estado. Mas e depois? Como vai ser quando tudo isto acabar? O preço da paz de Costa vai chegar então nos acordos de trabalho blindados nas empresas públicas, nas leis anacrónicas, nos garantismos que ninguém poderá pagar.

Pior que ter de ouvir Costa a dizer-nos agora que vivemos num clima de paz social e de normalidade institucional, como se não soubesse quão caro isso nos está a custar, vai ser ver montar o arraial da indignação aos profissionais do costume, dizendo as coisas do costume. Afinal a única coisa que muda neste filme são os impostos que os parvos do costume têm de pagar para que não falte nada aos compradores-vendedores de paz.

2. Alegando que ia proteger os inquilinos, o governo de Costa rasgou o compromisso que definia o ano de 2017 como aquele a partir do qual o Estado pagaria aos inquilinos idosos ou deficientes os aumentos das rendas que, para os contratos anteriores a 1990, seriam descongeladas nesse ano.
Por outras palavras, a dita protecção dos inquilinos foi conseguida transferindo mais uma vez o ónus da questão para os senhorios que viram o descongelamento desses contratos ser adiado para 2022.
Esta semana chegou mais uma novidade: o PS vai apresentar uma proposta de alteração ao diploma do subsídio de renda no sentido de permitir que este, sempre que estejam em causa os contratos de rendas anteriores a 1990, passe a aplicar-se, não só a inquilinos com carências financeiras, mas também aos senhorios pobres.

Face ao imbróglio suscitado por esta proposta – por exemplo, os senhorios que não sejam considerados pobres alguma vez poderão actualizar as rendas antigas? – o melhor será, na minha opinião, o PS assumir de vez o seu o seu projecto de engenharia social através do arrendamento. Como? Contratando uma empresa de mudanças de casa que ponha cada inquilino na casa do senhorio certo.

Repare-se no seguinte: se os inquilinos pobres habitarem casas de senhorios ricos ficam isentos de aumento de renda pois, como se sabe, os senhorios ricos não podem aumentar as rendas aos inquilinos pobres. Também há a possibilidade de afectar senhorios pobres a inquilinos pobres pois, irmanados na pobreza, nem o senhorio pobre aumenta a renda nem o inquilino pobre pede obras. Por fim sobram os inquilinos ricos que obviamente só podem ter senhorios igualmente ricos mas sendo todos ricos não faz sentido que se mexa nas rendas. Como se vê, é simples, no fim ninguém pode aumentar ninguém e o Governo pode dizer que protege todos, ricos e pobres. E, acreditem, em matéria de arrendamento ainda vamos ver outras bem mais parvas.

Cochichar com os mortos - Henrique Raposo, RR, 28/10/16

É uma discussão recorrente nos jantares de família: depois de muito espernear, a minha mãe decreta que o seu corpo deve ser cremado após a morte; na resposta, digo que tudo bem, sim senhora, mas tens de deixar isso lacrado num notário, porque, se depender de mim, vais ser sepultada. Os animais podem ser queimados, as pessoas não. Os mortos só se queimam se os quatro cavaleiros do apocalipse andarem a fazer das suas. Ora, alguém tem visto por aí o Armagedão? Não, pois não? A igreja tem toda a razão quando diz que os mortos devem ser enterrados debaixo de sete palmos de terra. Até porque a cerimónia da morte é para os vivos, não para os mortos. E o ponto é que a cremação retira-nos parte do processo de luto, torna a cena demasiado técnica, mecânica, amoral, quando se quer uma cena telúrica, orgânica, moral. Por exemplo, ver o caixão a entrar naquele pequeno abismo pode ser chocante, sem dúvida, mas é um choque necessário ao luto, tal como o simples gesto que é atirar uma mão cheia de terra lá para dentro - um adeus derradeiro que não é possível no crematório.

Por outro lado, a cremação concentra a cena num só dia. Depois do procedimento, os familiares recebem uma urna com cinzas que espalham nesse mesmo dia num local escolhido pelo falecido. Se não se importam, este paganismo está 4000 anos atrasado. A morte assim deixa de ter uma morada concreta. E, sim, a morte precisa de código postal, porque o luto é um processo que leva anos a estar concluído. É preciso visitar e revisitar a morte. É por isso que antigamente usávamos o Dia de Todos-os-Santos para visitar cemitérios e não centros comerciais. Lembro-me bem da força que esse dia nos dava quando era garoto. Os meus avós morreram em 1987 (ele) e 1996 (ela) e, de ano para ano, a dor foi sendo diluída no ritual do Dia de Todos-os-Santos. Eu, o meu irmão e os meus pais voltávamos ao bairro, almoçávamos com a família alargada, depois da bica íamos a pé até ao cemitério, comprávamos flores nas senhoras à porta e dirigíamo-nos, cada um a seu ritmo, às campas. De herança alentejana, não tínhamos educação católica, mas ali o que menos interessava era o formalismo. O que interessava era a forma como cada um de nós falava com a avó e com o avô. A minha mãe não falava. Eu cochichava. Enquanto limpava a campa, a minha madrinha falava mesmo a sério como se eles estivessem ali. No final, voltávamos da morte mais conciliados com a vida. Regressávamos a sorrir, bebíamos chá de cidreira numa algazarra, lanchávamos junto da lareira. Se o dia fosse perfeito, terminava com um jantar regado com um jogo do Benfica na TV.

Voltei sempre mais vivo deste cochicho com a morte. Um cochicho que agora quero refazer. Os meus avós maternos já não têm morada terrena, mas agora os meus avós paternos estão lá enterrados no mesmo cemitério junto à A1. Quero refazer o ritual, quero passá-lo às minhas filhas: a mesma mesa, o mesmo passeio, as mesmas flores, o mesmo cochicho, o mesmo regresso para a lareira, tudo já a pensar no dia em que a avó delas subirá à eternidade sem passar pelo crematório.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O Nosso Adamastor - André Ribeiro da Cunha, Observador, 27/10/16

A reestruturação da CGD teve igualmente como objectivo reduzir a pó e esquecimento o episódio anterior que devastou o nosso país: o assassinato impune do maior banco privado português, o BCP.

Como os abutres e bichos da terra procuram devorar os corpos dos caídos em campo de batalha, de uma forma apressada e sem dúvida repugnante, de modo que em pouco tempo nada reste da tragédia ocorrida naquele lugar, algo semelhante parece ter sucedido no processo da CGD. Incapaz de trazer nova vida aos mortos e já sem esperanças em Valhalla, a reestruturação da CGD teve igualmente em vista reduzir a pó e esquecimento o episódio anterior que devastou o nosso país: o assassinato impune do maior banco privado português.

O que sucedeu nesta nossa nação imortal foi a confirmação, por meio de um prejuízo colossal, da nossa desconcertante condição de comuns mortais. Como tais, há que respeitar e temer aquele que acima de todos nós se ergue; aquele que tudo pode, tudo observa e em tudo mete o dedo: o Nosso Estado. Sim, este nosso senhor das alturas, a quem forçosamente nos submetemos, esse que, quer acreditemos quer não, quer o amemos ou odiemos, todos invariavelmente somos obrigados, sob pena aniquiladora, a prestar o sacrifício de cada dia; é esse velho arbitrário de comprida barba e afiada língua que decide por sua conta os mandamentos do seu povo. Ai daquele que decide seguir outros deuses mais moderados, para esses estão guardados um sem número de injúrias e azares, que não hão de vir dos céus, mas das mãos dos próprios concidadãos, porque não há outro melhor que o Estado a excitar os demónios do povo ansioso e aborrecido.

O desastre financeiro de 2005-2008 foi uma autêntica cruzada contra um homem, um assalto frenético, que não ligou a custos humanos, daqueles que se creem deuses ao verem outros treparem o monte Olimpo. O poder controlador do Estado foi posto em questão quando o sector privado criou o seu próprio império, livre, independente. A força do BCP nada tinha do mau cheiro do estatismo; tinha-se erguido ele mesmo, as suas asas por ele mesmo forjadas. Mas é evidente que tamanha pretensão e insolência não poderiam ter passado sem punição; é necessário fazer retornar o homem ao pó da terra, assim falou o Estado. E assim fez o Estado. Com José Sócrates no maior cargo de responsabilidade do país, ele tornou-se contra Jardim Gonçalves e assinou a sua sentença de morte.
Nunca vi os deuses derramarem sangue, nem mesmo quando os homens estavam convencidos que lutavam por eles. O sangue, quando escorre e se mistura na terra, é sempre humano . Assim, José Sócrates, desprovido de escrúpulos na pretensão de ser o mais poderoso, utilizou a CGD e o dinheiro dos depositantes como artilharia pesada contra o banco inimigo. Se, por acaso, milhares de pessoas, clientes de ambos os bancos, perdessem as poupanças de suas vidas, pois isso não faria senão parte da nossa condição como mortais.

Facto: seis meses após o PS [de José Sócrates] vencer as legislativas há mudanças na geografia da administração da CGD, sendo a maior parte diretamente ligada ao partido vencedor; ou seja, o partido tomou desta forma a arma fundamental que necessitava para confrontar qualquer oponente privado, e para um governo que alimenta interesses internos, toda e qualquer estrutura privada pode tornar-se inimigo. Dito de outra forma, o governo português refletiu claramente o complexo de pequenez que aflige tantos “políticos” insensatos no nosso país: uma sede cega de controlo, que está disposta a utilizar como arma contra os que considera inimigos a propriedade e direitos dos próprios cidadãos que dizia defender. Qualquer um que deixe de receber da mão do Estado, e que por sua vez crie a sua própria riqueza, sem procurar depender da “riqueza de todos”, pode ser facilmente visto como inimigo. Isto porque no nosso nobre país a noção de direito sempre foi mais predominante que a noção de mérito; são realmente poucos, entre os nossos compatriotas, aqueles que procuram mais trabalho em vez de melhores condições.

Não conheço melhor exemplo do estatismo em Portugal que na ação social. Os agentes sociais exigem que os mais necessitados recebam alimento exclusivamente de uma instituição, de modo que, quando novas são criadas, especialmente outras mais energéticas e menos discriminatórias, os ditos agentes refilam e barafustam porque tinham já tudo esquematizado, especialmente quando estas novas associações voluntárias se dispõem a dar em puro acréscimo! Os agentes e respectivas burocracias dão com objetivos, procuram habilitar os desabilitados para que estes contribuam também para o materialismo generalizado, para a “riqueza de todos” em vez de procurarem melhorar a situação daqueles que mais necessitam, e competem entre si colecionando números de beneficiados. 

O estatismo é muito feliz em dar, desde que recebamos apenas deles. É então fácil de entender a fúria dos nossos esquerdistas radicais ao verem um exemplo de sucesso privado tão escancarado diante deles; que ódio deverá germinar em seus ventres ao observar o sucesso vindo de fora, sem partilhar na cumplicidade mafiosa que coleta, impunemente, dos honestos trabalhadores deste país.
Eis o que estou a dizer: que o empréstimo de mais de quinhentos milhões de euros de depósitos de cidadãos a acionistas que procuravam derrubar a então direção do maior banco privado português, o BCP, foi a utilização deliberada do trabalho de vida dum incontável número de famílias, apoiantes ou não do então governo, a fim de subjugar aquilo que foi dos maiores monumentos de liberdade económica deste país. Mas a “blitz” não se limitou a este ataque à propriedade; a par desta total manipulação da economia por um governo que combatia abertamente contra o sucesso privado, iniciou-se também uma perseguição da forma mais populista e vil contra o próprio carácter do banqueiro bem-sucedido: nisso os sovietes eram sábios, não bastava matar, era necessário quebrar o espírito e destruir a imagem, senão arriscavam-se a produzir um mártir.

No meio desta euforia desmedida de “caça às bruxas” houve, no entanto, um pequeno fator que ficou de fora, passou-lhes ao lado: que o valor de um banco está em grande parte valorizado pela credibilidade da própria administração e, neste caso concreto em que o presidente é também o próprio fundador, o banco e a pessoa tornam-se como um só, sempre relembrados lado a lado. Quando a então administração da CGD conquista por fim a administração do BCP; ou seja, quando estes “amigos do governo” empregados pelo banco público na sua administração passam precisamente, diante todos, para a administração do banco privado, no final do processo da compra de grande número de ações deste último com dinheiro público quinhentos milhões de euros pertencentes a todos nós, depositantes sem se aperceberem do dano intangível da perseguição a Jardim Gonçalves, são pouco tempo depois surpreendidos com a chocante queda de valor do banco conquistado. Dito de uma forma mais apropriadamente descritiva, os piratas, de tanto bombardearem o navio comercial que muito cobiçam, quando finalmente lá põem os pés já tudo se acelera para as negras profundezas. 

E eis ainda o problema mais desastroso de toda a operação: as ações compradas com os nossos quinhentos milhões eram elas mesmas a garantia do empréstimo da CGD e, com a inevitável perda aguda de valor destas ações o banco público ficou, decisivamente, sem esperanças de rever o valor emprestado.

A capitalização bolsista do BCP que alcançou quase dezoito mil milhões em 2007, hoje nem chega a dez por cento desse valor; perdeu mais de dezasseis mil milhões. Apesar de o comunismo há muito ter sido desacreditado como opção inteligente, concordo que neste caso teria sido bem mais útil para o país se o Estado tivesse nacionalizado o banco, porque eu não creio que ninguém alguma vez tenha voltado a ver esses milhões perdidos. Foi uma operação de destruição de valor. Como (e repito) os valores emprestados da CGD tinham como garantia o próprio banco que compravam, não é mais que óbvio que todo esse dinheiro seria sugado para o mesmo buraco?

O descalabro que se seguiu é conhecimento de todos. Se, quando dois homens no mar se afogam mutuamente ao tentarem utilizar-se um ao outro para chegar à superfície, é claro que se um deles ainda por cima se preocupa não só em subir à superfície, mas também a empurrar o outro para baixo, como ambos se encontram agarrados, este estará, sem compreender, a empurrar-se a si também para a morte.

O banco BCP foi quebrado, a CGD feriu-se gravemente. E nós pagámos todos. De facto, desta situação parece que todos os envolvidos, inclusive o próprio país, saíram a perder. Mas o banco público, tal como a mãe natureza, tem ao seu serviço uma miríade de criaturas que a seu tempo acabarão por fazer voltar tudo ao normal; as memórias mais vivas dissipar-se-ão de modo que no fim nada perturbe o trajeto do nosso venerável Estado pelo curso da história. Todos ficam mais pobres, e não será assim que este se torna mais útil? Não agradecerão então os cidadãos por terem um Estado tão preocupado com os seus direitos? Depois de este desagradável acontecimento ter caído no esquecimento, após até os ossos mais duros terem sido roídos, quem não olhará para o Estado com esperanças de uma vida melhor? E nesse momento o Estado justificar-se-á dizendo para consigo: “eis os homens contentes, quem me dirá que não fiz um bom trabalho? É, portanto, mister que de vez em quando quebremos umas quantas cabeças, assim também se reduz a poluição! “

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Alheira, um insulto de chorar por mais - Ferreira Fernandes, DN, 26/10/16

Ana trabalhava na Ordem dos Advogados, e esta havia mudado de bastonário. Ana, também advogada, e Elina, a nova bastonária, deram-se mal. Num mundo de advogados, perdoem-me talvez a ingenuidade, a liberdade de expressão é sagrada. Enfim, talvez exagere. A liberdade de expressão é para ser defendida. Defendida, situação que num Estado de direito a ninguém cabe mais do que a advogados. Advogados que são representados pela Ordem dos Advogados. Ordem que, a ser bem nomeada, é praticada sem bastão mas com razão. Mas tudo foi desfeito pela tal querela. 

A funcionária Ana (advogada) e a bastonária Elina (advogada), conflituando, como é próprio do homem (incluindo as advogadas), fizeram--se isto e aquilo mas nada me interessa senão isto: Ana terá chamado "alheira" a Elina. Foi despedida, também por isso, e a Ordem dos Advogados está a ser julgada num tribunal do Trabalho por causa desse despedimento. Atenho-me ao "alheira". É um enchido glorioso. Mais do que ela só farinheira. Acresce que a visada veio de Mirandela e podia ser uma forma de a chamar como alfacinha a Santo António. Se me chamassem muamba, era relacionar a minha terra comigo, e eu chorava por mais. Mas podia ser um brasileiro a dizê-lo e muamba, neles, é contrabando. Perguntava-lhe: és aduaneiro ou tens bom gosto? Falava-lhe da fuba bem batida, de mandioca, claro, dendém e quiabos a esfiar na boca. Sei lá, talvez fosse o começo de uma bela amizade. Agora, despedir, nunca.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Guerra Cívil da Síria: a Vergonha (ou falta dela) do Ocidente




O nosso tempo não suporta ideias complexas. Não suporta factos que obriguem a um juízo. Tudo tem que caber num post no Facebook ou num tweet. Não há espaço para a razão, apenas para a sensação. Por isso, neste admirável mundo novo, a realidade divide-se em bons e maus.

O problema é que a realidade tem tendência para ser mais complicada do que isso. Raramente existem bons e maus. Por isso é necessário que olhemos para a realidade na sua totalidade. Não ficarmos pelas nossas categorias mentais pré-estabelecidas, tentar chegar ao fundo das coisas.

Um exemplo claro, onde a divisão entre maus e bons é inútil, é a guerra civil na Síria. Neste caso não há bons, mas sim maus em vários graus e, sobretudo, centenas de milhares de vítimas mortais inocentes.

A Síria era uma país estável, governado há mais cinquenta anos pela família Assad. Era um país laico, onde as minorias religiosas não eram perseguidas, onde as mulheres tinham direitos, onde existiam universidades frequentadas pelos dois sexos. Ou seja, tudo raridades naquela zona do mundo.

Porém, convém não esquecermos que a Síria era governada por um ditador. Bashar al-Assad pode não ser o mais sanguinário dos ditadores, mas não deixava de governar o seu país com mão de ferro. O seu partido era o único, ele era o único candidato às eleições, a corrupção era generalizada, a liberdade política inexistente e a Constituição estava suspensa há cinquenta anos. Quando começaram os primeiros protestos contra o governo, no contexto da Primavera Árabe, a resposta do governo foi brutal e chocante.

Infelizmente, os opositores de Bashar al-Assad não procuram estabelecer uma democracia. Tirando uma pequena minoria de democratas, a maior parte dos rebeldes desejam uma república islâmica, à imagem do Irão ou da Afeganistão dos taliban. E não estou a falar do Estado Islâmico, mas dos vários grupos que habitualmente são descritos pelos media como "rebeldes" e que lutam contra o regime, quando não estão a lutar entre si.

É preciso não esquecer que boa parte destes "rebeldes" estavam associados ao Estado Islâmico no principio do conflito. E a sua separação não se deveu propriamente a divergência ideológicas, mas antes a divergências sobre a partilha do poder!

O derrube de Assad não traria a paz nem a democracia à Síria. Apenas traria mais guerra e, no fim, provavelmente, um regime que, na melhor das hipóteses, seria tão mau como o actual e que na pior (e mais provável) das hipóteses seria muito pior que o actual.

E estes facto não são nem secretos, nem novos. Desde o principio do conflito que é evidente que a oposição democrática a Assad não tem força para ganhar a guerra. Que a luta é de facto entre o governo e milícias islâmicas. A alternativa não é por isso entre ditadura e democracia, mas entre uma ditadura laica e uma ditadura de extremistas muçulmanos.

Infelizmente o Ocidente tem fingido não reparar neste factos. Continua a armar os rebeldes, como faz desde o principio do conflito. Aliás, provavelmente, sem o apoio da América e da Europa, já há muito que os rebeldes teriam sido esmagados. E a pergunta é, porquê? Porque é que o Ocidente se opõem com tanta força a Assad?

Não é seguramente por ele ser anti-ocidente, porque não é. Nem por ser um ditador, uma vez que o regime Sírio é bastante mais liberal do que o regime Saudita, aliado do Estados Unidos, e não muito diferente do novo regime egípcio, com quem a América parece não ter problemas. Também não será por acreditarem na viabilidade da oposição síria para trazer paz à região, uma vez que já verificaram o que aconteceu na Líbia. Então porque razão insiste tanto a América, e o resto do Ocidente por arrasto, em derrubar Assad?

A resposta é simples, mas triste: para atacar a Rússia. Nada mais justifica esta insistência cega em apoiar extremistas islâmicos contra um regime laico. O "azar" de Assad, e por isso o "azar" da Síria, é ser um aliado de Putin. Porque para Obama, e também para Clinton, o grande adversário não é o Estado Islâmico, nem o extremismo islâmico, mas Putin.

Para o atacar, os Estado Unidos não hesitam em aliar-se à Turquia, à Arábia Saudita e aos pequenos estado árabes (principais financiadores do terrorismo internacional), no patrocínio a grupos de extremistas islâmicos. Sem um único momento de arrependimento, montaram uma campanha internacional contra o regime Sírio, de repente transformado num monstro comparável ao nazismo

E o resultado desta luta contra Putin é centenas de milhares de mortos, milhões refugiados e um país destruído. Se tantas vezes nas últimas décadas o Ocidente foi responsável por assistir impávido ao martírio de povos inteiros, neste caso é responsável por patrocinar esse martírio.

Foi o patrocínio do Ocidente que permitiu o enfraquecimento do regime Sírio a tal ponto que boa parte do seu território acabou tomado pelo Estado Islâmico. Foi o patrocínio do Ocidente que permitiu as perseguições religiosas levadas a cabo não apenas pelo EI, mas também pelos ditos "rebeldes". Foi o patrocínio do Ocidente que permitiu que esta guerra se arrastasse durante cinco anos, até que de um país outrora pacífico sobrassem apenas destroços. Tudo isto, não para estabelecer um regime mais justo, mas apenas para enfraquecer um adversário no jogo geo-político.

Os milhões de vítimas da guerra síria deviam fazer corar de vergonha o Ocidente. Este Ocidente, que se acha tão moralmente superior, mas que está disposto a sacrificar milhões de seres humanos como dano colateral na sua nova guerra fria contra a Rússia.

Sorte deles, azar o nosso - Raquel Abecassis, RR, 24/10/16


Começa agora o fim de um impasse político em Espanha que dura há quase um ano e que teve duas eleições legislativas de permeio para tentar encontrar um governo.


Ao longo de todo este tempo houve em Madrid o chamado governo de gestão, com poderes reduzidos, mantendo apenas o país a funcionar. Foi quanto bastou para que a economia espanhola se mantivesse num ritmo de crescimento recorde na Europa – as previsões apontam para um crescimento de 2,8% este ano, facto que já se nota na diminuição do desemprego.

Aqui em Portugal o resultado das eleições de Outubro deixou o país a temer um impasse político ou um cenário difícil e instável com a invenção da “geringonça”. Afinal, a solução tornou-se estável, mas a economia do país não correspondeu e abrandou o crescimento, prevendo-se que venha a ficar em 1,1%.

O que isto revela é que, apesar da tróica e dos apertos por que passámos, não conseguimos libertar-nos deste triste fado de ter uma economia muito dependente do estado e das decisões políticas. Aqui ao lado, a economia espanhola provou ser adulta e conseguir resistir a uma crise política sem precedentes.

Entre a crise política espanhola e a crise económica que não passa em Portugal, é caso para dizer que os espanhóis ficaram com a melhor crise, enquanto nós “geringonçamos” à procura de um crescimento que não chega, capaz de dar confiança aos investidores e empregos aos desempregados.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A preto e branco - Paulo Baldaia, DN, 24/10/16

Nenhuma discussão deve ser feita na base de que a razão está toda de um lado ou de outro, e isso é muito notório quando falamos sobre os salários da administração da Caixa Geral de Depósitos. Vem isto a propósito de me ter visto a mim próprio entrar nessa discussão, só vendo branco onde outros só viam preto. Exemplo: Catarina Martins a defender no Parlamento que é "simplesmente inaceitável" a existência de "salários milionários" ou eu a defender que "faz pouco sentido perder tanto tempo a discutir o salário de António Domingues" vai dar exatamente ao mesmo, a uma discussão a preto e branco em que ninguém fica esclarecido.

Felizmente, no meio destas discussões em que muitos se põem de um lado da trincheira e muitos do lado contrário, há também muita gente que não alinha em claques e procura um debate moderado, sendo capaz de argumentar com as virtudes e os defeitos da solução encontrada. Está neste grupo, nesta discussão, o Presidente da República. E o que nos disse Marcelo, que vale a pena reter para discussões futuras sobre tema idêntico? Disse-nos, há mais de três meses, quando promulgou o decreto-lei, que "vencimentos mais elevados implicam acrescida responsabilidade pelos resultados", e insistiu no assunto a semana passada, reiterando que o vencimento a pagar aos administradores "devia atender ao resultado da gestão, para não ficar a sensação de que havia valores muito elevados não acompanhados de resultados positivos".

Importa, e muito, focarmo-nos neste ponto de Marcelo, porque é ele que pode dar ou tirar razão a quem defende este tipo de ordenados ou a quem frontalmente se opõe. Se o governo tivesse atendido às razões do Presidente, já a discussão seria mais serena. O ordenado mensal poderia ter sido fixado num ponto mais razoável e o valor anual poderia até ser maior do que está previsto ser. Bastava ter marcado claramente os objetivos e os prémios a distribuir por objetivos concretizados. Se os salários que muitos, como eu, defendem que devem ser pagos também num banco público não tiverem resultados espetaculares, não é só a administração da Caixa Geral de Depósitos que fica em causa, é também o poder político que não defendeu convenientemente o dinheiro dos contribuintes.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A direita estupidamente moderna - Miguel Angel Belloso, DN, 21/10/16

O socialismo convencional está em crise no meu país. Há um par de semanas que o líder do PSOE, Pedro Sánchez, foi deposto pelos seus próprios companheiros, graças a Deus, e que uma gestora tenta reconstruir o partido - uma tarefa verdadeiramente colossal. Numa questão de dias, deve decidir também se permitirá a investidura de Rajoy ou ajudará, caso contrário, à convocação de novas eleições, que seriam as terceiras depois de quase um ano sem governo. Há muitas causas que explicam a crise do Partido Socialista de sempre, e a sua deriva radical, mas uma das mais importantes é que a direita tem vindo a ocupar progressivamente o espaço da social-democracia, intensificando as políticas redistributivas, sustentando e até ampliando o edifício do Estado social - as pensões, a educação, a saúde - e defendendo sem reservas o papel do Estado na sociedade. Talvez isto sirva, e assim tem sido, para ganhar várias eleições mesmo perdendo a maioria absoluta e, por isso, sem capacidade até à data para formar governo, mas é uma estratégia inútil para enfrentar os desafios do novo mundo. A direita que no seu tempo representou Aznar, cheia de ideias e de ambição, foi substituída progressivamente por outra que só aspira a reter o poder de qualquer maneira, algo que para mim é inaceitável.

Cristina Cifuentes, por exemplo, que é a presidente da Comunidade de Madrid, representa esta direita cool de que falo - no sentido quente da palavra -, a que quer estar na moda, a que tem a pretensão de despertar os menores receios possíveis porque ainda vive dominada por um complexo de culpa que está obsessionada em expiar. Eu votei na senhora Cifuentes, apesar de ter de reconhecer que sempre votei no PP. Quando a candidata da direita era a sua antecessora Esperanza Aguirre, fi-lo com paixão, agora de maneira resignada. A senhora Aguirre cometeu mil erros na sua vida, entre os quais o mais importante foi ter-se rodeado de muitas pessoas medíocres e noutros casos venais. Mas é uma política que tem certos princípios e valores. Alguns poderão dizer que o seu comportamento não foi coerente com o predicado, e estarão certos, mas é a presidente que construiu as bases da prosperidade de Madrid com a sua política de baixos impostos, uma administração pequena e eficaz que pudesse ser assistida na prestação de serviços pelo setor privado, e com a liberdade mais ampla possível para abrir e desenvolver os negócios.

A senhora Cifuentes, que tem um currículo imaculado de pertencer à direita há décadas, não tem nenhum princípio que se conheça e, a ter algum, faz o maior esforço possível para ocultá-lo porque a sua única obsessão é gerar a menor rejeição e conseguir o maior apoio possível. Deu boas provas disso há umas semanas no programa de debate noturno e traiçoeiro que a estação de televisão espanhola La Sexta tem aos sábados - e que se pode ver pela internet - onde apareceu para reivindicar que as ideologias são algo do passado e que o seu único objetivo é dar resposta aos problemas das pessoas. Eu abomino os dois postulados. Claro que importam as ideias e os valores! Não é o mesmo defender um governo pequeno, a simplicidade e previsibilidade das leis, a luta contra a inflação que corrói os mais débeis ou promover o mercado livre, como fez o prémio Nobel Hayek, que favorecer a sociedade dirigida e planificada que defendia Marx e que degenerou, quando foi testada, na escravidão e na pobreza mais absolutas. Nesse tal programa de televisão, a inefável Cifuentes pô--los ao mesmo nível. A Hayek e a Marx. A Deus e ao diabo. E veio dizer que os rótulos, entre eles o de liberal, são perfeitas antiguidades dignas de figurar nos museus. Não é verdade. Eu rejeito, porque me parece implausível, que o Partido Popular que ambiciona a atual presidente da Comunidade de Madrid, e quem sabe até o próprio Rajoy, tenha de se converter numa formação monstruosa, sem casa nem lar, nem amo ou senhor conhecido do ponto de vista ideológico, quero dizer.

A deriva radical que adotou o Partido Socialista desde os tempos de Zapatero, aprofundada pelo deposto Sánchez, permitiu ao PP ganhar várias eleições mas à custa do mau emprego dos princípios fundadores que lhe deu Aznar: uma defesa clara do liberalismo como opção económica, a confiança e o otimismo na capacidade dos indivíduos de forjar o seu futuro e a ambição por ser um grande país. Este é o legado que tem vindo a perder-se com líderes cool, ao estilo de Cifuentes, e de outros jovens elevados à direção do PP que não querem saber nada das ideologias porque só estão interessados em ter sucesso entre as pessoas. Mas que a direita ocupe o espaço da social-democracia redistributiva, que só conduz ao fracasso e à correspondente frustração, é uma anomalia histórica. Alguns de nós ainda acreditamos que o papel da direita é combater o igualitarismo, estimular a capacidade de criação de riqueza que cresce em todas as pessoas e dar asas aos indivíduos em vez de proteger o coletivismo. Contra a tese de Cifuentes, eu penso que os políticos não estão para resolver os problemas das pessoas, mas para lhes dar os instrumentos concretos para que elas próprias os resolvam. Caso contrário, estaremos a criar, o que já é um facto, cidadãos medíocres e dependentes do Estado que naturalmente votarão no partido que lhes dê melhor de comer em vez de lhes permitir desfrutar o mais possível do fruto do seu trabalho. Alguns de vocês perguntarão com razão por quê, apesar da diatribe, votei na senhora Cifuentes, como votei no PP nas eleições gerais apesar do estado degenerativo no qual acredito que se encontra. E a resposta é bastante simples: porque sou um idiota, mas um idiota responsável. Porque qualquer outra opção poderia ser muito pior.

Mas isso não me impede de ansiar e lutar pelo ótimo. Entender a política em termos de pura gestão dos assuntos públicos, mesmo que seja o mais eficaz possível, sem saber o que se quer fazer com o poder quando o temos, é a última aberração da modernidade. Está a acontecer também no Reino Unido, às mãos da nova primeira-ministra conservadora, a senhora May. Também ela aspira a um novo centro político localizado entre a esquerda socialista e o liberalismo. Também ela acha que a Grande Recessão foi o fracasso do capitalismo, e no fundo pensa, como os socialistas de todos os partidos de que falava Hayek, que os indivíduos carecem de sentido fora dos grupos sociais de que formam parte e dos que extraem a sua verdadeira identidade. A mim, esta classe de pensamento, baseado na hostilidade frente ao mercado e ao indivíduo, parece-me um retrocesso intelectual a caminho de uma hipotética Idade de Ouro que nunca existiu e que, para ser reconstruída, é preciso usar o poder do governo contra uns cidadãos valiosos e responsáveis aos quais se impede pouco a pouco que deem o seu melhor até anulá-los por completo.

Contemplar a direita estupidamente moderna que nos calhou na rifa é um autêntico pesadelo. E votar nela apesar de tudo, como eu faço, é um ato masoquista digno de todas as censuras possíveis. Sinceramente, sinto muito.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Se ao menos soubéssemos o que combater - Ferreira Fernandes, DN, 20/10/16

Bons tempos em que os resultados das batalhas podiam anunciar os vencedores das guerras. Aljubarrota, adeus espanhóis... Estalinegrado, o fim do nazismo... Na batalha de Mossul, na cidade iraquiana onde o califado foi proclamado, o Estado Islâmico (Isis) vai ser derrotado. O ataque do exército iraquiano é apoiado pela aviação e tanques americanos. Obama faz questão de acabar o seu último mandato com o Isis iraquiano no seu palmarés. Depois, será o Isis sírio, e a sua capital Raqqa, que tem contra ele o exército sírio e a aviação russa. Mas a atual batalha de Mossul e a de Raqqa amanhã - e as prováveis duas derrotas dos insurretos - não vão anunciar certamente o fim do Estado Islâmico. Mais certo será dizer que duas superpotências, EUA e Rússia, irão partilhar e alicerçar a sua influência na região, respetivamente no Iraque e na Síria. A cem anos de distância, o mesmo que o fim da I Guerra Mundial "deu" à França (Síria) e Grã-Bretanha (Iraque). Em todo o caso, a paz na Síria e no Iraque não é o cenário mais certo, a instabilidade continuará na região. O fim da guerra não será proclamado e a consequência disso, para o que nos diz mais respeito, será a continuação do terrorismo islâmico na Europa. François Hollande, líder europeu, fraco como todos, ousou dizer há dias (mas só porque conversava): "Temos um problema com o islão." E teremos, mesmo depois de Mossul e Raqqa. Ganhar a guerra seria perceber aquela frase.

Eleições Americanas: O Debate.





Publiquei ontem um artigo sobre as eleições americanas sem me lembrar que era o dia do último debate entre Clinton e Trump. Se me tivesse lembrado teria provavelmente esperado mais um dia, aproveitando assim aquilo que seria discutido em Las Vegas.

Não o fiz, mas ao ler hoje os resumos do debate percebo que não teria mudado nada. Confirma-se mais uma vez que estamos diante de dois candidatos muito maus. Deixo aqui apenas três notas sobre o debate de ontem.

1. Trump foi Trump: ordinário, populista, demagogo.

De bom teve a promessa de nomear juízes pró-vida para o Supremo Tribunal e o seu pragmatismo em relação á Síria e ao papel da Rússia na luta contra o Estado Islâmico.

De mau (para além da já proverbial malcriação e ausência de ideias) a sua resposta sobre o que faria em caso de derrota. "Vou ver na altura" não é uma resposta aceitável quando lhe perguntam se vai aceitar os resultados das eleições. A Democracia não é compatível com birras e chantagens.

2. Hillary foi Hillary: a pose de estadista, o discurso "responsável" ao mesmo tempo que apelava a ala radical do seu partido no mesmo tom demagógico do seu antigo concorrente democrata, Bernie Sanders.

De bom, a restrição ao porte de armas e a posição sobre a emigração. Para além disso demonstra melhor preparação que Trump sobre os assuntos.

De mau: a posição sobre o aborto e o lobby LGBT e a posição sobre a Síria. Teve o descaramento de afirmar que a guerra civil continua por culpa da Rússia e de Assad.

Convém relembrar que os Estados Unidos nos últimos cinco anos armaram a oposição Síria, constituída maioritariamente por extremistas islâmicos. Sem a Rússia, Assad teria caído e a Síria estaria agora como a Líbia: entregue a senhores da guerra em continua luta pelo poder, com o único ponto em comum de quererem impor uma ditadura islâmica. Encerrar o espaço aéreo da Síria, permitindo assim a recuperação dos rebeldes não levará à paz, mas ao prolongamento da guerra da Síria. Como Hillary bem sabe. Mas não lhe interessa porque prefere continuar a demonizar a Rússia do que resolver o problema da Síria.

3. Impressionante como ambos os candidatos têm um claro problema de honestidade em relação ao dinheiro. E como ambos se defendem acusando o outro de ser mais trafulha.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Eleições Americanas: Entre Cila e Caríbdis.




Os gregos e os romanos acreditavam que o estreito de Medina, que separa a península itálica da Sicília, era habitado por dois monstros, um de cada lado do estreito: Cila e Caríbdis. Isto queria dizer que, ao passar o estreito, os navegantes estavam entre dois monstros igualmente terríveis.

É esta imagem que me vem à mente quando penso nas eleições americanas. Daqui a menos de vinte dias os americanos serão chamados a escolher entre Hillary Clinton e Donald Trump, dois dos piores candidatos da história da república americana.

De Trump já todo o mal foi dito. E, mesmo descontado algum exagero aqui e ali, a maior parte do que se diz sobre "The Donald" é verdade. Não tem qualquer experiência política, é totalmente inconstante nas sua ideias, é populista, arrogante e ordinário, tem negócios pouco claros, não tem nenhuma ideia concreta. Toda a sua campanha se baseia em ser um anti-obama, procurando assim captar os votos de todos aqueles descontentes com a presidência dos últimos oito anos. Em toda a campanha Donald Trump tem demonstrado ser absolutamente amoral e que está disposto a dizer o que for preciso para ser eleito. As ideias de Trump sobre a imigração e sobre o islão demonstram um total desrespeito pela vida humana e pelas liberdades individuais.

O problema é que do lado de lá está Hillary Clinton. A mulher do antigo presidente Bill Clinton foi Secretária de Estado no primeiro mandato de Obama. É por isso co-responsável pela estratégia política que levou à conquista de grande parte do Iraque e da Síria pelo ISIS. É também co-responsável pelo política anti-Rússia (que continua a defender) que tem tido como grande resultado o continuo apoio dos Estados Unidos aos rebeldes sírios (nos quais estão incluindo o ramo sírio da Al-Qaeda e a Irmandade Muçulmana) e o arrastar da guerra civil nesse país. Também como Secretária de Estado, Hillary este envolta num escândalo por ter recebido e enviado mails com material confidencial do seu servidor privado. Mails esses que apagou por "engano", gorando assim a investigação que lhe foi feita pelo FBI.

São muitos os rumores das ligações do casal Clinton às grande empresas. E a verdade é que a fortuna do casal disparou depois de Bill ter saído da Casa Branca.  Se em 2001 o casal tinha um passivo de 8 milhões de dólares, calcula-se que neste momento tenham uma fortuna de 111 milhões de dólares. Evidentemente que a riqueza não é crime, mas para quem tanto ataca a maneira de fazer negócios de Trump, Hillary parece também ter telhados de vidro neste campo.

Moralmente Hillary não é melhor que Trump. É evidente que o candidato Republicano é mais chocante, quanto mais não seja porque é mais grosseiro do que Hillary. Mas não é apenas por causa disso.

Trump sobressai mais porque as barbaridades que diz chocam (e na maior parte das vezes com toda a razão) a opinião pública politicamente correcta. Infelizmente, os mesmo que se indignam (e bem) por Trump fazer graças sobre assediar mulheres, não se chocam quando Hillary defende o aborto livre até aos fim da gravidez. Os mesmo que se revoltam quando Trump diz que quer expulsar todos os muçulmanos dos Estado Unidos, ficam em silêncio quando Hillary afirma que as religiões vão ter que mudar para aceitar os "direitos reprodutivos" (entenda-se, aborto livre). A questão não é que Hillary não seja tão imoral como Trump, mas a sua imoralidade está de acordo com a doutrina politicamente correcta dos media que fazem a opinião pública.

Por fim, Hillary tem uma vantagem sobre o seu adversário: está mais bem preparada para o cargo do que ele. Não há dúvida que Clinton é mais capaz para desempenhar o papel de presidente que Trump. Contudo, entre um presidente incompetente e uma presidente competente mas que defende políticas erradas, não me parece que um seja melhor que outro.

Resumidamente: Hillary Clinton e Donald Trump são ambos maus candidatos. Dificilmente alguém, especialmente um católico, se pode sentir confortável a votar num ou noutro. Se Trump neste capítulo até pode aparentar alguma vantagem (tem dito que é pro-life e a favor da família) isso deve-se mais à sua falta de ideais (o que lhe permite defender o que quer seja preciso defender para ganhar) do que a uma qualquer moralidade.

O melhor resultado para a América no dia 8 de Novembro seria que ambos perdessem. Contudo, um deles vai ganhar. Para mim tem sido difícil ter uma preferência e agradeço a Deus não ter que votar nas eleições americanas.

Contudo, reconheço que o menos mau dos resultados talvez seja a vitória de Trump.  Como já acima expliquei, ambos os candidatos são igualmente maus. O que os separa realmente é a "plataforma" que os apoia. Ora, Trump é apoiado pelos Republicanos. Mas este apoio é forçado. Só o apoiam (e mesmo assim nem todos) porque ele é o candidato do partido. Quer isto dizer que Donald nunca contará com o apoio suficiente no Congresso para governar à vontade. Se Trump vencer, terá que negociar todas as nomeações (quer para o governo, quer para os tribunais), terá que negociar todos os gastos, todos os tratados.

Isto não o impedirá de fazer muitos disparates, mas não lhe dará muita margem de manobra. Donald Trump, se ganhar, ficará irremediavelmente "atado" ao Partido Republicano para conseguir governar.

Já Hillary Clinton terá espaço de manobra suficiente para impor a sua vontade ao Partido Democrata que se encontra submetido à sua influência (como os últimos escândalos da Wikileaks vieram comprovar). Terá provavelmente poder para fazer cumprir os seu programa,  o que inclui continuar a política pró-aborto e pró-LGBT de Obama, assim como a sua política externa que parece ter como único objectivo enfraquecer a Rússia, mesmo que para isso tenha que apoiar terroristas.

Se entre Trump e Clinton não vejo grande diferenças, entre Democratas e Republicanos sim. E é por isso que prefiro a vitória de Donald sobre Hilary.

Ganhe quem ganhar no dia 8 de Novembro a Democracia vai perder. Porque perde sempre quando a escolha é entre dois males menores. Resta-nos por isso esperar pelo mal menor. Mesmo sabendo que será sempre uma grande mal.

Era uma vez... Em Lisboa - José Miguel Sardica, Rádio Renascença, 19/10/16


Era uma vez uma avenida em Lisboa. Uma das chamadas “Avenidas Novas”. Por uma manhã de Julho, apareceu uma equipa camarária, que vinha consertar uma caixa de esgoto. Levantaram o alcatrão da faixa de estacionamento, escavaram e fizeram a obra. No fim, repuseram a terra (na verdade, areia, pequenas pedras e gravilha), rodearam a área de intervenção de grades metálicas e fitas plásticas e foram embora.

Passou o resto de Julho, Agosto, Setembro e está a passar Outubro. O quarteirão ficou sem dois lugares de estacionamento e com uma cratera, que se vai desbastando com as trepidações dos carros, os ventos e agora a chuva.

Três meses! Há três meses que a obra assim está, jazendo ao abandono. Uns metros acima desta “instalação” urbana fica uma bela rotunda, construída recentemente sobre um parque subterrâneo. Foi tão bem feita (depois de seis meses de obra interrompida e de buracão a céu aberto…), que o piso já abateu. Uns metros mais abaixo, as faixas de circulação são uma manta de retalhos de buracos, sulcos e desníveis. Isto passa-se na vizinhança muito próxima da bela e nobre Avenida da República e da Praça do Saldanha, onde se coagulam automóveis, se abatem árvores e se enchem os peões de pó com o vago fito de dotar a bela avenida e praça de mais passeios, ciclovias e separadores de relva.

Não conheço Fernando Medina, o autarca de Lisboa. Sei que se senta na Praça do Município sem ter sido eleito (não é ilegalidade, mas convidaria à prudência…). Exibe por norma um sorriso deslumbrado e irritantemente optimista, indiciador de algum sonho de grandeza ou pulsão megalómana. Dir-se-ia que se acha um marquês de Pombal, um Ressano Garcia e um Duarte Pacheco, tudo na mesma “iluminada” pessoa.

Homem do norte, desceu sobre a capital para dar aos lisboetas uma felicidade que, aprisionados ainda na Caverna de Platão, são incapazes de imaginar. Segundo ele, o autarca só existe se se mexe e se faz obra. Mas não qualquer obra, porque a fama só vem redesenhando Lisboa inteira. Fernando Medina parece não saber o que é política de proximidade, atenção ao pormenor, obras de conservação do que realmente precisa de ser conservado. E parece esquecer, ele e a Câmara, que existe para servir os lisboetas e não para lhes transtornar a vida.

Quer à viva força “libertar-nos”, e fazer-nos ver a beleza etérea num esquálido canteiro de relva, em ciclovias que poucos usam ou em largos passeios – tudo novidades destinadas a limitar o uso do automóvel, esse péssimo instrumento do consumismo individual, numa cidade onde a rede pública de transportes vai a caminho da indigência (sobretudo no metropolitano). Ora, ter e circular num automóvel não é um favor que os políticos concedem aos cidadãos. É um direito, enquadrado pelo Código da Estrada e aliás bastante taxado pelo Estado e pelas câmaras, via ISV, IVA, IUC, EMEL, seguros, combustíveis e sabe-se lá mais o quê. 

Voltemos àquele pedaço daquela avenida em Lisboa…. Será que o autarca Medina poderia prover, por favor, à sua reparação? Nos intervalos dos planos para liquidar o automóvel na cidade, e para a todos obrigar a serem felizes com a nova Lisboa (queiram ou não), haverá alguma vontade, uma maquineta e um bocado de alcatrão disponíveis para terminar a obra aberta nos idos de Julho? Os munícipes – proprietários que pagam impostos e, alguns, IMI’s milionários (sem serem ricos) – agradecem. E quanto a este munícipe, só votará no candidato a Lisboa que prometer não fazer obras (e terminar depressa as iniciadas), senão as estritamente necessárias, de reparação ou conservação, mostrando assim respeitar os lisboetas e a cidade.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Onde está o Wally Nogueira - Paulo Baldaia, DN, 18/10/16

O ano escolar começou na perfeição? Não. Ainda assim, os problemas foram em número reduzido e rapidamente resolvidos? Não. Então o que se passa para os sindicatos estarem tão caladinhos? A paz social que hoje vivemos, muito melhor do que no tempo dos outros senhores, é "comprada" e não adere à realidade. Os sindicatos da CGTP, do mais profissional que existe neste país, não dão ponto sem nó. Inteligentes, recuam enquanto recuperam influência para poderem contra-atacar quando tiverem a faca e o queijo na mão.

Tudo contestou a Fenprof de Mário Nogueira, quando não faziam parte da solução. Tudo parecem aceitar, agora que interesses maiores se levantam.

Vamos ver já nesta semana, quando houver uma reunião da concertação social e o governo puser em cima da mesa dossiês que são ganhos claros para a CGTP. A começar pela renegociação dos contratos coletivos e da caducidade dos mesmos que, agora, sem novos acordos, remete para a lei geral e, no futuro, vai fragilizar o poder negocial dos empresários. Uma negociação do Orçamento não se faz 
apenas sobre o deve e haver das contas do Estado, também se joga nestas negociações paralelas.

Num país a precisar urgentemente de concertação, confirma-se que direita e esquerda são demasiadas vezes sinónimo de defesas corporativas. Raramente é o cidadão comum o objeto de interesse do exercício do poder. Importa mais à direita defender as corporações empresariais e à esquerda as corporações sindicais. A resposta do lado contrário, percebe-se, é idêntica. Anda Portugal, para os patrões, no melhor dos mundos quando a direita está no poder e no melhor dos mundos se encontra, para os sindicatos, quando o poder é da esquerda.

A educação dos nossos filhos é coisa séria de mais para estar sujeita a estes caprichos. Já não era suposto haver problemas um mês depois da abertura do ano escolar, mas há. E há, por parte dos sindicatos, um silêncio que os devia envergonhar. Não quero esquecer este tema, porque tenho vergonha alheia. Ainda me lembro de que o verdadeiro emplastro televisivo era Mário Nogueira, que aparecia a protestar onde quer que fosse o primeiro-ministro. Alguém sabe onde ele para?

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um país parado à beira do caminho - João Miguel Tavares, Público, 15/10/16


O primeiro-ministro não tem dinheiro para comprar nova mobília nem poder para mandar velha mobília fora, por isso resta-lhe mudar as jarras de sítio.

Este governo não tem tempo para governar o país porque gasta o tempo que tem a governar-se a si próprio. Portugal é apenas o cenário para os seus arriscados equilibrismos; menos uma governação do que um número de funambulismo, com António Costa permanentemente em cima do arame. De um lado o Bloco de Esquerda e do outro o PCP. De um lado as regras europeias e do outro o discurso do fim da austeridade. De um lado a dura realidade hayekiana e do outro os doces sonhos keynesianos. De um lado as agências de rating e do outro a cartilha anticapitalista. Como é que se compatibiliza tudo isto? Só com muito tempo e uma dose cavalar de simulações, distorções e cara de pau.

Na sexta-feira, estava a ver o debate parlamentar que antecedeu a entrega do Orçamento e Pedro Passos Coelho perguntou a António Costa pelo crescimento. Onde é que ele está, o tão anunciado, desejado e prometido crescimento, através do qual seria virada a “página da austeridade”? Não está, claro. E não estando, a consequência deveria ser óbvia: se a receita que o governo aplicou em 2016 não produziu crescimento, como é possível acreditar que a aplicação da mesma receita vai produzir crescimento em 2017? Pedro Passos Coelho repetiu três vezes a pergunta e apenas recebeu de António Costa tergiversações, manipulações de números e mentiras descaradas, que encaixam na perfeição naquilo que hoje em dia se começa a chamar, muito à boleia de Donald Trump, de “política da pós-verdade” – já não há factos mas apenas interpretações, uma bonita frase nietzschiana que é a morte de qualquer base de entendimento para o debate político.

Eu tive vergonha do Parlamento naquele momento. Costa chegou a sugerir que o objectivo do crescimento é criar emprego, e visto que o desemprego diminuiu, então os números do crescimento não são assim tão importantes. Mas como no final do debate descobri que a maior parte dos comentadores atacava Pedro Passos Coelho por estar sempre a fazer a mesma pergunta e não António Costa por esfregar a sua desonestidade intelectual na cara de todos nós, fui obrigado a concluir, mais uma vez, que só temos o que merecemos.

O novo orçamento é igual ao de 2016 porque António Costa não tem margem de manobra para mais nada. O primeiro-ministro não tem dinheiro para comprar nova mobília nem poder para mandar velha mobília fora, por isso resta-lhe mudar as jarras de sítio e chamar a isso um Orçamento do Estado. Costa e Mário Centeno tiveram em tempos um plano, sim senhor, mas dele não restou nada após as negociações para a formação do regoverno, e o resultado é o que se vê: a estagnação é já assumida pelo próprio governo nos seus números de crescimento para 2017 (ao menos isso). E assim continuaremos até ao dia em que o financiamento externo voltar a tornar-se impossível. Há um ano, recorde-se, o PS prometia um crescimento de 3,1% para 2017. Onde está ele? A bem dizer, António Costa respondeu a Passos Coelho via Orçamento do Estado – não, ele próprio já não acredita que as políticas do seu governo consigam pôr Portugal a crescer.

Somos um país parado à beira do caminho. Um país mais uma vez adiado, graças a um conjunto de acordos assinados por um homem que atou voluntariamente os seus pés e as suas mãos para ser primeiro-ministro. António Costa é um político altamente capacitado, só que todo o virtuosismo foi colocado ao serviço da sua mera sobrevivência. É um virtuosismo muito útil para si. Mas absolutamente inútil para o país.

José Sánchez de Río: "Viva Cristo Rei!".





Foi ontem canonizado pelo Papa Francisco José Sánchez del Río. Joselito, como é popularmente tratado, era uma criança de 14 anos que se juntou aos Cristeros, o exército cristão que lutou contra a perseguição religiosa lançada pelo presidente Mexicano.

Foi preso e torturado. Recusou-se sempre negar a sua fé. No dia 10 de Fevereiro de 1928 foi morto. As suas últimas palavras foram "Viva Cristo Rei!".

Em 2012 foi lançado o filme "For Greater Glory -  The True Story of "Cristiada" que conta parte da história da guerra dos Cristeros, incluindo a morte de São José Sanches do Rio. É um belíssimo filme, que se encontra facilmente na internet e que merece ser visto. Foi o actor que representou o papel de Joselito, juntamente com uma criança de 14 anos da terra do mártir, que ontem entregaram as relíquias do novo santo durante a cerimónia de canonização.

Neste tempo, onde tantas crianças morrem mártires, especialmente na Síria, que São José Sanches do Rio nos conceda a todos um Fé firme e corajosa como a dele.

Viva Cristo Rei!

O vídeo não é extarordinário, mas foi a única versão desta cena que encontrei disponível.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Colômbia: golpe baixo ao progressismo mundial - Miguel Ángel Belloso, DN, 14/10/16

É uma grande satisfação ver todos os progressistas do mundo chateados, perplexos e iracundos quando o exercício da democracia não dá o resultado que esperavam dela. Nunca vale a pena quando perdem. Foi assim que aconteceu com o referendo celebrado na Colômbia sobre o acordo assinado entre o governo e a guerrilha narcoterrorista das FARC, cuja aprovação contava com o patrocínio de quase todos os líderes do planeta, todos com a sua formosa guayabera tentando influenciar descaradamente a votação a favor de uma das partes.

Pois nem assim foi possível! Nem com o maior exercício de propaganda alguma vez visto, nem com todos os homens bons ali reunidos supostamente a favor da paz e os jornalistas pagos desfrutando de mojitos em Bogotá ou em Cartagena, ou dos cohibas em Havana, nem com todas as trapalhadas imagináveis para destruir os partidários do "não". Nem com Obama atrás, mesmo sendo honrado, que importância têm os EUA de Obama em qualquer disputa internacional?

Ganhou o "não". Como foi possível, perguntam uns aos outros. É porque as pessoas ficaram loucas! Os progressistas de todo o mundo estão consternados. Não entendem porque ninguém lhes liga, como as pessoas normais resistem ao seu exercício obsceno de despotismo ilustrado. O jornal El País, que continua a ser o mais importante de Espanha, e que obtém bons patrocínios do governo colombiano de Santos a troco de dourar a pílula, também não podia dar crédito. No passado dia 3 de outubro titulava toda a página: "Colômbia aproxima-se do abismo ao recusar o acordo de paz." Quem dava a notícia, o jornalista Javier Lafuente, escrevia esta primeira linha: "Colômbia escolhia ontem entre saltar para o vazio ou converter-se num exemplo para o planeta. Ganhou a primeira opção." Há que ser muito descarado ou ter um discernimento muito toldado para dizer que o "sim" teria sido um exemplo para o planeta, humilhando os 50,2% de colombianos que votaram no "não".

O conflito armado na Colômbia tem 50 anos. Deixou atrás de si oito milhões de vítimas, muitas delas massacradas em condições que têm pouco que ver com a guerra, que já é injusta, mas com a patologia mental, a degradação moral e a falta de misericórdia dos narcoterroristas colombianos. Em Espanha, os danos causados pela ETA foram colossais, apesar de menores em termos quantitativos do que na Colômbia. Mas também os progressistas, impulsionados com determinação pelo presidente socialista Zapatero, com a ajuda venal de muitos meios de comunicação, defendiam que talvez fosse preciso baixar as calças em prol do fim do conflito. Queriam pagar o preço que fosse preciso, ter a paz a qualquer custo à espera de perpetuar-se no poder. No fim, isso não aconteceu, porque entre 1996 e 2004, Espanha foi dirigida por José María Aznar, que tinha sofrido um atentado destinado a acabar com a sua vida quando era líder da oposição e tinha traçado o caminho da dignidade: nunca se renderia face aos terroristas. A sociedade espanhola tinha votado, caso lhe tivesse sido proposto, como fez a colombiana. Porque simplesmente não há pretexto que justifique a violência numa democracia.

Na Actualidad Económica, a revista que dirijo, estamos eufóricos com o resultado do referendo na Colômbia. Acreditamos que se impôs um princípio irrenunciável, que a paz não se pode conseguir a qualquer preço. Com todos os ventos contra, a maioria dos próprios colombianos decidiu assim. Mais de metade decidiu que a honra, que a dignidade, que a necessidade de poder dormir todos os dias com a consciência tranquila são valores que devem ocupar um lugar hierárquico prioritário no código de comportamento humano. Mas não porque não desejem a paz, porque são uns malvados ou por falta de generosidade, mas porque acreditam na justiça e que os maus, os genuinamente maus, devem pagar pelos seus crimes.

Há quase dois meses que a Actualidad Económica publicou um editorial sobre o processo de paz na Colômbia que acabou por ser providencial. Dizíamos que o acordo assinado entre o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e a guerrilha das FARC tinha um nobre propósito, mas consequências imprevisíveis, dado o custo da transação com os terroristas. O principal era a divisão semeada entre os democratas, muitos dos quais pensam que a paz nem sempre compensa se o custo é demasiado alto. Também apontávamos que o fortalecimento do Estado de direito deu um salto qualitativo durante a presidência de Andrés Pastrana, partidário do "não" e artífice junto com Bill Clinton do Plano Colômbia contra o narcotráfico. Que Álvaro Uribe pegou nesse acordo com mão firme e conseguiu cercar militarmente as FARC, chegando ao extremo de conseguir que três em cada quatro terroristas se tivessem desmobilizado no final da sua presidência, de forma que um país aterrorizado pelo crime se converteu num dos mais prósperos, pujantes e avançados da América Latina.

Também assinalávamos que, quando Juan Manuel Santos foi eleito presidente, entre outras coisas pelo seu sucesso à frente do Ministério da Defesa de Uribe, os democratas estavam unidos e as FARC debilitadas, mas que Santos decidiu apostar num arriscado processo de negociação que permitisse uma saída definitiva a quem tanto mal causou desde 1964, e que o acordo que finalmente assinou incluía concessões intoleráveis como o estabelecimento de 14 milhões de hectares em zonas rurais sob o controlo das FARC; a possibilidade de a organização terrorista se apresentar às eleições; a abertura de um diálogo sobre o futuro das produções de coca; e a criação de uma Comissão da Verdade com a missão principal de reconhecer como vítimas do "conflito" não só os civis falecidos, mas também os membros dos diferentes grupo mortos em combate com as forças de segurança. A presidência também se dava novas atribuições como a de nomear, junto com as FARC, os magistrados do novo esquema de justiça transitório. Uma justiça questionada na sua independência, e que ficaria acima da justiça ordinária. E o que era mais grave, que estabelecia uma espécie de equidistância entre os terroristas e as forças de segurança.

Como finalmente aconteceu, também antecipámos as consequências imediatas do acordo: "Se há uns meses a fratura se produzia entre democratas e terroristas, hoje são os democratas que se encontram divididos entre si. Há uma brecha profunda entre os partidários do presidente Santos e os do ex-presidente Uribe; entre os que creem que a paz justifica qualquer acordo e os que consideram prioritário aplicar a justiça para compensar a memória e os direitos das vítimas." Escrevemos o editorial da Actualidad Económica no número de agosto da revista. Não prognosticávamos nenhum resultado no eventual referendo. Só os riscos evidentes em que se incorria, e que foram perfeitamente interiorizados, digeridos e vomitados com um "não" pela maioria do povo colombiano, para desgraça dos progressistas e dos "bonzinhos" de todo o mundo, que nunca param de tentar promover a fraternidade universal mesmo que seja sobre um terreno alagado de sangue. Também para desgraça das elites, tantas vezes desligadas dos sentimentos das pessoas comuns.

Todos ansiamos pela paz, também os liberais e de direita. A pomba não é património da esquerda. Mas queremos uma paz com honra. Também por isso consideramos uma ignomínia o Nobel concedido ao presidente Santos, que é o Nobel da ira, o concedido em nome dos progressistas de todo o mundo, sempre tão pouco democráticos e no fundo tão déspotas.